domingo, 20 de maio de 2018

As penas do pavão misterioso



Por Germano Xavier



Uma televisão ligada em baixo som. Mazelas e mais mazelas. Um mundo torto diante do nariz. Uma janela contra a cabeça. Um pequeno ventilador espantava o silêncio do quarto. Bruscamente, ela pegou minha mão e colocou-a na sua genitália. Foi um choque. Um arroubo. Porque antes disso estávamos conversando sobre qualquer assunto bobo, sem sequer nos beijarmos. Ousadia. Atitude de íntimos. Foi como se a minha mão nada tivesse a ver com o momento ou fosse externa a mim. Outro ser que se comunicasse apenas com o seu sexo. Foi como se precisássemos daquilo há bastante tempo. E isso era uma verdade. Uma mulher pequena, cheia de desejo. Desejo escorrendo. Deixei. Era natural. Mas à medida que ela ia vivendo a experiência, percebi que a minha mão poderia ser qualquer outra mão. O efeito seria o mesmo. Eu era só uma mão. Apenas menos treinada. Um curso intensivo seria preciso. Foi rápido, impessoal e objetivo. O curso deu resultados. Fui eficiente. A minha mão, para ser exata. Senti-me triunfante, extasiado. Feliz por presenciar ou proporcionar aquilo. Foi lindo. Em suma. Assim era a vida, tão animal e tão humana. Nunca a amei tanto quanto naquele momento. Ela "morrendo" em minhas mãos. Era uma espécie de glória. Era o prenúncio de alguma coisa ainda mais intensa, pensei. O meu corpo era todo quereres. Eu só queria que ela me tocasse, me abraçasse, me olhasse... Qualquer coisa que me fizesse sentir ser algo além de uma mão. Ela se vestiu. Em silêncio. Afastou-se. - Você vai ficar chateado se não fizermos? - Claro que não. Tudo bem. Por que alguém ficaria chateado por ser uma mão? Por não ser desejado pela mulher que ama mesmo quando os dois estão nus num quarto de hotel? Por que um homem ficaria magoado, extremamente humilhado por ser rejeitado (na cama) pela mulher que ele passou os últimos anos desejando e para quem viajou metade do país? Não faz sentido. Havia muitas coisas no ar. Mas nenhuma era desejo. E quem pode culpá-la? Não controlamos os sentimentos. Nem os nossos desejos. Nem culpa, coragem, medo, dúvidas, ressentimento, traumas, etc. Tudo pode ser fuga. Tudo pode matar a vida. Da vida. Tudo pode ferir a Poesia. Tudo pode cortar, mutilar e torturar o amor. Tudo é tão frágil. Especialmente o tudo.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/penas-de-pav%C3%A3o-plumagem-iridescente-3013486/

Nenhum comentário: