domingo, 20 de maio de 2018

O feminino hoje



Por Germano Xavier



Há duas coisas que os homens não perdoam na mulher. A inteligência e a liberdade. A mulher pode ser feia, burra, bonita, o que for. Desde que não seja inteligente e livre. Estudos diversos mostram que as mulheres mais inteligentes ou que ocupam lugares de poder tendem a ser mais solitárias e/ou desintegradas social e familiarmente. Primeiro por destoarem do "papel" pré-definido da mulher na sociedade. Segundo (minha opinião, apenas), pelo desconforto que elas causam nos homens que cresceram acreditando que devem sempre ser "os cabeças" e os músculos do mundo.

Pesquisas mostram também que os homens (mesmo que fiquem atraídos, inicialmente, pela inteligência e/ou poder da mulher), num segundo olhar, não optariam por ter uma companheira que ele considerasse "superior" a ele em qualquer aspecto. (Isso é tão óbvio que nem precisaria de pesquisa. É só olhar ao redor. Enfim, os homens (comuns) pois ainda quero crer que os homens-além, os especiais, consigam se libertar de tais delírios) pensam que são os legítimos atores do mundo, do tempo, da vida. O que sobraria para a mulher (além do dever de procriar e cuidar da família, em silêncio, claro) era ser a liga que mantém tudo unido e confortável. Para o homem. O velho e conhecido patriarcalismo, em suma. Pois, se as religiões tivessem sido criadas por mulheres, Deus (e seu respectivo livro "sagrado") seria feminista e não machista.

Séculos se passaram e uma suposta evolução da humanidade colocou (ao menos na teoria), homens e mulheres no mesmo patamar e no mesmo lugar. O humano. No entanto, a sociedade não evoluiu tanto assim e o machismo está impregnado em tudo. Em todos os homens e mulheres, em maior ou menor grau. No menor grau, temos como o exemplo dos intelectuais, supostos guardiões da liberdade, da igualdade e fraternidade, da ciência, do futuro, das mudanças. Isso não impede de vermos o descarado machismo no meio acadêmico e nas relações pessoais de tais indivíduos. (Como se a teoria valesse para a teoria e não para a vida real).

A mulher, mesmo quando independente, pensante, inteligente, etc, é sempre olhada e julgada pelo seu corpo. Pelo seu "tipo" e sempre rotulada. Os rótulos (apesar da aparente variação), reduz-se a apenas dois. Ou a mulher é decente, a santa (mãe ou esposa exemplar, submissa, alegre e disponível) ou a puta, libertina, safada, gostosa, indecente, má. (aqui entram, forçosamente, todas as que não se encaixam (por qualquer motivo e maneira) no primeiro modelo.

O mais triste é que (mesmo inconscientemente), os homens (com raríssimas exceções) fazem essa distinção, classificação, rotulação e (des)valor(ação) (não importa o quanto sejam sensíveis, informados, graduados ou atualizados) em suas mentes, em suas atitudes e escolhas.

Vemos esses homens se casarem com as tais "boas moças de família" que serão, obviamente, boas donas de casa, boas esposas e boas mães) e manterem relações "espúrias" com as "mulheres livres' (não questionando, claro, o valor que essas relações possam ter. Tão legítimas (ou até mais, por não serem uma imposição) quanto qualquer relação humana. Apenas simbolicamente e socialmente mal vistas). O fato em si não é relevante. O relevante é: por que eles fazem isso? Por que "precisam" fazer isso para serem "aceitos" pela família, pela sociedade. O mesmo se aplica a mulheres que fazem o mesmo pelo mesmo motivo. Em pleno século XXI.

É a vida. Ou a (des)vida. E viva a liberdade. De escolha. Inclusive a de ser idiota.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/m%C3%A3os-dedo-o-feminismo-2582589/

2 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com sua colocação no que vemos hoje em relação ao "tipo" que uma mulher pode ser "classificada, rotulada", em pleno século XXI. Ainda considero muito de suas palavras em relação ao resto dos seres pensantes, mas a questão é: O que grande maioria faz pra tornar real, prático o que na teoria é lindo? Mesmo a mulher sendo "igualada" ao homem as atribuições a tais são diferentes, o ser feminino é visto como frágil o "tempo todo" e em "todos os tempos", sem que se analise a capacidade, coragem e habilidades por "Elas" demostradas, que em vez de serem vistas como exemplo de força ao contrário vêem fragilidades. Acrescento ainda que como em tantas outras situações aptas às mudaças, assim não "pode" acontecer com o "sexo frágil" e fica visível mais uma vez as limitações da mulher. Precisamos de "Vida". Viver é poder ser, "ser" humano, ser pessoa sem distinção de sexo. Há diferenças? Sim, mas não entre sexos e sim entre "seres", que não altera na convivência pessoal desde que usem sua habilidade pensante. Sou mulher talvez vista como fora do "padrão" preestabelecido, que automaticamente me classificam e me rotulam como "libertina" ou "indecente" e aí? Talvez se perguntarem a alguém que me é proximo diriam que não me vêem assim. O problema é que não posso me apresentar como sou de verdade, porque não concordo com as "imposições" para nós mulheres, então (sou) "puta". O problema é que queria estudar um pouco mais e não quero relacionamento sério por enquanto, então (sou) "libertina". O problema é que estou cheia de "tudo" e só quero extravasar então (sou) "indecente". O problema é que gosto do meu corpo e me sinto bem com roupas que o destaque, então (sou) "safada". Mas o maior problema mesmo é que eu não quero ser nada disso, eu quero ser Eu. Ponto. Entendam "seres" humanos, ajamos como pensantes, intelectos. Todo e qualquer humano têm desejos, vontades, que afloram por determinada situação ou motivo, comum ou incomum. Eu Mulher tenho tudo isso e digo até que posso ser todas as classificações dadas ao feminino, não por imposição, mas por vontade própria, porque as vezes quero cozinhar, cuidar da casa, mas as vezes quero ser "comida" e bem comida. Vezes mimar o marido, ser a mãe exemplar, mas também me vestir "indecentemente" e ser chamada de "gostosa". Vezes não me relacionar sério, mas transar gostoso, satisfazer necessidades fisiológicas do ser, já que (só) nós mulheres temos um órgão (clitóris) destinado apenas ao prazer. Problemas simples, fáceis de resolver, mas sempre tem o "mas",  imposto por quem? Pelo machismo idiota que é passado de geração em geração, que perpertua nos homens e mulheres que deixam de ser, "seres" humanos pensantes, (por preguiça de usar a habilidade mais extraordinária e semelhante talvez, à "Deus") para serem seguidores de ideologias de "merda" de uma sociedade de "merda" também.


Perdão o desabafo. Mas sou humana antes de ser "classificada" como um "tipo" de Mulher.

Germano Viana Xavier disse...

Obrigado pela visita, "Anônimo".