terça-feira, 1 de maio de 2018

O gigantesco monumento da saudade



Por Germano Xavier



O primeiro dia foi naturalmente feliz. Leve como a poesia das coisas. Simples. No segundo dia, uma silenciosa penumbra pairou sobre o quarto. E me comoveu. Chorei de amor olhando o seu rosto no meio da penumbra. Estávamos em casa.


Dia 1


Não era mais ansiedade. Era outra espécie de dor. Já tinha se transformado em dormência. Outra espécie de espera. Não sentia mais o meu corpo e todos os meus sentidos formavam um completo ecossistema de expectativas. O mundo a cada braçada-passo, até ali, uma longa lâmina cortante de história.

Logo ele entraria pela porta. Logo ela. Ele. Ela. A eletricidade que me movera até ali. Choques nada domesticados. A alma de minha alma. A minha alma da outra alma. Na outra alma. Sendo.

Esperávamos por isso há tanto tempo que agora não parecia real. Parecia a língua ferina das horas. Ao longo de anos tínhamos construído um gigantesco monumento de saudade. Um obelisco cariado do querer. E agora iríamos demolir uma pequena parte dele. (Embora soubéssemos que não era o fim...) Mas tudo já não é ruína?

Eu sabia que quando ele chegasse eu me sentiria embaraçada. Cortada até o osso. Como sempre. Como nunca. Seu olhar iria me queimar... Talho cortado de nós. E eu não consigo suportar por muito tempo. Se bem que eu não consigo suportar quase nada mais. Era preciso uma penumbra. Afiá-la dentro da noite com a pedra-lua. Sempre. Ou quase.

Quando ele me olha, sinto-me (sempre) inadequada e insuficiente. Esmeril em cego corte. Como se eu fosse a imagem errada para os seus olhos. (Não o que ele queria ver...) Podia ser que não. Ou sim. Quem vai saber? Por isso, sinto-me mais à vontade quando apenas eu o olho. Olhares mútuos me confundem. Porque ele é tudo o que meus olhos sempre querem ver. O escuro do abismo-todo. Ou o clarão. Em todas as cores, tons, subtons, nuances, tudo. Um tenso nada.


Dia 2


Tocá-lo nunca foi como tocar o real. (Por mais concreto que fosse o seu corpo em minhas mãos) Ele. Ela. Nós. Era como tocar a saudade, o inatingível, o ausente, o Amor...

Quando o vi, um colosso de serenidade, como sempre, senti-me derreter... e, entre incontroláveis sorrisos de felicidade, inibição e fingimento de naturalidade, foi-se todo o meu controle. Derrubei até minha emoção. Derrubei a casa toda que não era a minha.

De repente, todo o peso da nossa história baixou sobre o quarto. Era tudo um abafamento, sufocando-nos. Arestas do Tempo. Espessas camadas no ar se sobrepondo umas às outras, tornando difícil a nossa respiração. Língua cortada de dizer a causa dos mundos. A saudade, as dúvidas, as certezas, as dores, apertavam o nosso corpo contra a cama. Nossa lápide ou nossa manjedoura. Contra o mundo.
Fomos tomados por um angustiante e significativo silêncio. Nada calmo.

E tudo, o de repente, começou quando ele viu, registrou e aumentou a Penumbra. A Nossa. A Antiga. O nosso velho e único lar. (até hoje).

(Confesso que vê-lo "morrer" em minhas mãos foi uma experiência incrível. Indescritível. Algo como ganhar uma medalha ou coisa assim). Um troféu para a estante da Vida. Inteira). Com amor também se mata. Eis uma das únicas verdades da vida.

Sua voz cortava a penumbra como o som de um trem antigo corta o ar. Como quem corta a vida. Como quem é da natureza das facas, punhais, sabres, adagas.

Juntando passado e presente numa só fumaça. Num só momento. Num som. Ele. Ela.

Ali era o nosso lugar no mundo. No silêncio comovente da Penumbra. O mal se fazendo em bem entortado de prazer. Onde as coisas não são claras nem escuras. As coisas nuas. Quando as coisas nem precisam ter um nome. Pois que terão o nome, as cores, o valor que lhe dermos. É assim. Precisa ser assim. Na Penumbra, a Poesia pode estar no riso, no silêncio, na piada, no livro, no inusitado do ato, no toque, no olhar... ou apenas no "estar". A Poesia simplesmente Pode. Tudo. E não deve nada. Nada.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/saudade-485062277

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