sábado, 19 de maio de 2018

O homem encurralado



Por Germano Xavier



Já faz alguns dias desde que... A dor já começou a deixar o corpo. Lentamente. Como num processo de adormecimento. De cicatrização. Eu sabia que ela iria se acomodar, com o tempo. Transformar-se-ia em experiência, lucidez e maior consciência da vida. Quando você pensa que já viu tudo, que já chegou lá, que nada mais vai te derrubar ou te "pegar de surpresa", então a Vida dá um jeito de mostrar-se mesquinhamente mais esperta do que você. Então você sente "na pele", novamente, como tudo pode ser imprevisível e brutalmente doloroso.

Cada dia eu me convenço mais de que a ignorância (daquilo que nos traria sofrimento) é uma bênção. Não é à toa que os idiotas, os superficiais, os fanáticos, os obtusos, são mais felizes. É realmente uma praga, uma maldição o sentir demais, enxergar demais, pensar demais, fazer associações, analisar, observar, comparar, dissecar, deduzir e concluir (o tempo todo). É o caminho mais curto para a solidão, para a perplexidade, para a descrença ou cinismo. É uma angústia que beira a tortura. O pior é não conseguir "deixar passar” nada. Até a falta de atenção de alguém quando você está revelando algo muito importante ou o maior segredo de sua vida. Nu.

Feito algo assim: ela via a história dos dois como algo além (e diferente) de paixão, amor romântico ou amizade colorida. (Nem melhor nem pior. Apenas diferente). Era uma amizade espiritual, uma ligação de almas que incluía sexo. Mas o sexo seria apenas um aditivo, um detalhe, não a chave, nem a mola central da relação. Mas para que esse tipo de relação (tão rara e frágil) ser mantida e durar é preciso cuidado e muita reciprocidade. É preciso cumplicidade, confiança e um bocado de sinceridade. Ás vezes doída. Muitos conflitos surgem (como em todas as relações), mas nesta, a diferença é a certeza (de ambos) de que nada ficará entre eles. De que sempre existirão no outro. A despeito de tempo, espaço, silêncio, mágoas, rompimentos. Nada disso soa como definitivo. E talvez essa certeza traga uma espécie de acomodação. Ou descuido.

Eles eram incompatíveis. Inclusive por serem muito "espelhos' do outro. Ela mostrava a ele as suas limitações, inclusive de liberdade. (O que doía nele profundamente). Ele mostrava a ela as suas fraquezas e traumas profundos. (O que para ela era insuportável). Pois gostava de crer que tudo "aquilo" tinha passado e ela era forte, livre, autossuficiente emocionalmente) e invulnerável. (Por mais desumana que essa descrição de ser humano seja, era a que ela queria ser). Ou a que precisava. E ele, ele era a sua única "fraqueza”, a única que mostrava que ela não era assim.

O que nos manipula secretamente? E qual o tamanho de nossa liberdade além dessas múltiplas grades?

Ele é só um homem encurralado pela Vida, ela podia pensar assim. Como todos os outros. Como eu. Ele fala como encurralado, pensa como encurralado e até (pasmem!) caminha como um encurralado. Lenta e solenemente. Quase numa simbólica marcha fúnebre. Como se sentisse dor em cada passo. Como se carregasse todo o peso da História. Desde a primeira gota de sangue derramada até a menor ofensa feita embaixo do Sol.

Considerava-se, em parte, culpado. De alguma forma responsável. Envolvido. Cúmplice, vilão ou vítima. Não se sabe exatamente por que ou de que forma isso o poderia afetar. Mas sabemos que sentia o peso. A dor do mundo. A dor de ter nascido e existir. Sentia. Carregava e exibia. Nas costas. Nos olhos. No corpo todo. Na alma toda.

Quando o vejo, fico pensando em quanto ele se considera livre (não obstante, sua natural vocação para a liberdade). O quanto sentia-se "encontrado' no mundo. Sobretudo, se era livre na alma. No coração, onde as verdadeiras e importantes batalhas da vida são travadas. É fácil ser livre. Exceto na alma. Assim, ela pensa.

Mas ela o via. E ele sabe que eu estava e estou sempre do lado dele. Embora ele nem sempre estivesse. Com ela. E nem estou falando de "fisicamente". Essa é uma das ilusões que nunca me permiti ter. Nunca ousei sonhar. O que se queria era algo bem mais modesto. Apenas um interesse real, uma certa cumplicidade de alma, um compartilhar sincero, uma amizade recíproca, espiritual e que incluísse sexo, de preferência. Nada demais. Apenas uma Penumbra.

Para quem sofre desse mal de "estar vivo" porque sobreviveu, as coisas ficam mais ampliadas, amplificadas e a pessoa fica muito seletiva. Poucas coisas passam a ser muito importantes e muitas coisas a ter importância nenhuma. Porque a vida passa a ser A Vida. E você é só você. Perdido no tempo entre o céu e o chão. Sem saber nada além da própria irrelevância, vulnerabilidade e que o futuro é incerto. E altamente improvável. Para essas pessoas, nada pode feri-las, exceto aquelas a quem amam. (porque amar é dar poder sobre nós). Não é uma escolha. É um imperativo do próprio amor. Porque o Amor precede a vida.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/escultura-est%C3%A1tua-arte-antiguidade-3357150/

5 comentários:

Anônimo disse...

A única liberdade que conheço é escrever. E ler. De resto, sou a presa.

Que a gente não desista de acreditar.

Te disse...

Senti dor (amor) ao ler isso...
Sentiu ao escrever?
(resposta facultativa)


A dor anda de mãos dadas com o amor. Provas da vida. Encurralar-se é provar que está disposto a dor, mas também ao amor. A Vida. Viver é basicamente amar, somos capazes de amar pessoas, animais, coisas, as mais inusitadas. Necessidade de sentir-se vivo. Ações provam o amor (dor). Causamos dor (amor) por estarmos encurados, e viver, só nos pede provas. Está vivo, reaja. Só sobreviver não basta. Só dor não basta. E só amor não basta. Pois a Vida é um conjunto de Amor, Dor e Sobre-VIVÊNCIAS. Estar ecurrado pode ser um ato de liberda (ou não). C.B disse "Tudo é vário, temporário, efêmero". Ele disse tudo! Então ai também está a Vida. De tudo entende-se que escolhemos vi-VER ou não. E precisamos também ser "vários", pois não podemos definir quem somos, somente onde "Estamos"!  E todos os tipos de sentimentos os mais variados, loucos, avassaladores são derivados da Dor ou do Amor. Da Vida.

Germano Viana Xavier disse...

Que a gente nunca desista de acreditar, "Anônimo"!

Germano Viana Xavier disse...

"Te", eu geralmente escrevo mais e melhor quando estou todo "dolorido", sentindo uma forte angústia interna. Talvez tenha sido o caso deste texto. Quem é "C.B.", que você citou aí?

Muito obrigado pela sua presença e pela leitura cuidadosa.
Sigamos!

Te disse...

Grata sou eu pela sua escrita, existência. Lhe acompanho de longe, mas logo fico perto. Nem sempre comento, deixo aqui o meu pensar, mas sempre o tenho. C.B = Chico Buarque.