sábado, 5 de maio de 2018

O Nordeste



Por Germano Xavier


Que o Nordeste está num nível de desenvolvimento muito aquém do Sul e Sudeste, todos sabemos. Mas ainda assim, é doloroso constatar, "na pele", o tamanho do abismo. Mesmo considerando as questões históricas, políticas, dentre tantas outras, essa discrepância não se justifica mais. Não hoje. Não no século XXI de um mundo globalizado.

Se o plano (dos sucessivos governos, políticos coronéis, donos do poder, tomadores de decisões políticas, órgãos de desenvolvimento e afins) era transformar o Nordeste num eterno reduto de miséria, subdesenvolvimento e "vergonha nacional", eles foram plenamente bem sucedidos. Objetivo alcançado com louvor.

Como o Nordeste é de uma grandeza continental (em vários aspectos), é impossível dimensionar esse atraso em relação ao resto do País sem mergulhar em suas entranhas. Pois eu mergulhei e estou mergulhado. (As estatísticas falam, mas só a pele sente). Só é possível compreender as complexidades do Nordeste quando se vive aqui no dia a dia. Quando seu passado, presente ou futuro está enraizado nessas terras sofridas.

No entanto, (o que parece um pouco contraditório), só é possível ter uma visão mais abrangente (ou uma noção menos pessoal) do quanto o Nordeste foi (e ainda está sendo) roubado de seu futuro quando o olhamos de fora. À luz de outras terras, com olhos de estrangeiros. Olhos imparciais (tanto quanto qualquer imparcialidade seja possível).

Apenas como exemplo, vamos citar a cidade de Recife. (Suposto coração do Nordeste). Logo na entrada da "Veneza Brasileira" já é possível enxergar o descaso pela "coisa pública". A desastrosa infraestrutura da cidade leva a obstáculos (já considerados rotina), como alagamentos, trânsito caótico, falta de sinalização básica, excesso de lixo nas ruas, etc. Uma desordem generalizada que só se explicaria em uma cidade sem qualquer tipo de gestão. (Mas dizem que ela é feita. E com dinheiro público. Nosso). 

No fim da chuva, tudo desce pelo ralo. Ou não desce. O que é pior. E isso tudo numa cidade que é feita "para turista ver". Morei em São Luís (Maranhão), João Pessoa (Paraíba), Salvador (Bahia), conheço Natal (Rio Grande do Norte), Teresina (Piauí), Aracaju (Sergipe), Maceió (Alagoas) e os cenários são idênticos, com raras e tênues diferenças.

Se excluirmos o Carnaval, as praias e alguns pontos turísticos melhor localizados, a cidade de Recife estaria morta. Ao menos turisticamente. Primeiro porque a cidade é espantosamente desplanejada para quem vem de fora. E totalmente abandonada para os moradores locais. Os serviços públicos, inclusive transporte, são precários. Os serviços privados, despreparados e pouco (ou quase nada) profissionais. O improviso, a falta de padrão, a falta de rigor, a "desinformação", e, principalmente, o atraso tecnológico, são de assustar. Inacreditável. Parece outro País. Ainda mais atrasado do que o Brasil.

Nem preciso mencionar que quando se avança para o interior, o abismo vai se expandindo com os quilômetros. Da corrupção e falta de boa gestão, típicas, sistemáticas e já consideradas "normais" ou inevitáveis, resultam o esgoto a céu aberto, a falta de infraestrutura básica, a falta de educação (genérica mesmo, ampla e diversificada), serviços públicos (e privados) precários e/ou inexistentes, e a lista é infinita.

O que sobra é resiliência e desânimo. É descrença em possíveis mudanças ou melhorias. Para a vida. O mal cheiro do esgoto (de tão familiar) já nem incomoda mais. Impregnou as almas. E as consciências. A revolta se transformou em resignação. E muitos só esperam (agora) continuar sobrevivendo. Com pão e circo garantidos, se possível. A televisão ajuda. O São João garante. E as mudanças? - Ah, as mudanças... ? Só "quando deus quiser!


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Nordeste-692611008

Nenhum comentário: