sexta-feira, 20 de abril de 2018

Lula, a Esquerda e o Diabo na Terra do Sol



Por Germano Xavier


por uma esquerda mais inteligente e ativa, por um Brasil de nós todos

(ou alguns socos na cara que eu não queria ter de dar)


Leitor, tu estás chateado comigo? Foi por causa do que falei sobre política no último texto aqui no blog? Espero que alguma divergência sobre isso não seja um problema entre nós. E pretendo (caso duvides), não gastar um segundo sequer do nosso esperado e raro tempo juntos falando sobre política ou qualquer coisa menos importante do que a Poesia. Afinal de contas, o que importa mesmo é a Poesia.

Não quero desperdiçar meu precioso tempo com você. Por favor, entenda que não quis dizer com nada daquilo que não optei e optarei sempre (nas urnas e em qualquer situação séria e relevante onde meu posicionamento seja necessário) por um governo de ideologia de esquerda. Obviamente conheço os benefícios que trouxe ao Brasil em diversos setores da sociedade, especialmente no Nordeste. Mas isso, evidentemente, não apaga os prejuízos econômicos e a corrupção alarmante de que foi envolvida (a cúpula do governo petista e aliados). Não me tenha por ignorante disso por eu ter um discurso (talvez) de centro ou, mais propriamente, neutro. Como já deve ter percebido, sou apartidário e não tenho nenhuma bandeira exceto os direitos humanos e a luta pela inclusão social que acredito só poder ser possível pelos caminhos da Educação. (A revolução sem a qual todas as outras serão inúteis. Ou impossíveis.)

Em suma, sou um humanista utópico. Pacifista. Acredito num mundo ecologicamente sustentável, humanista, igualitário, democrático, inclusivo, sem exclusão de nenhum ser humano por qualquer de suas peculiaridades, como sexo, cor, nacionalidade, opção sexual, etnia, crenças, etc, etc. Como eu disse: humanismo utópico. Meu bom leitor, espero que tenhas me compreendido. Não tive a intenção de te provocar ou ofender (será mesmo?). Desculpe-me se deixei você chateado por qualquer fala minha. Todavia, já que estamos a falar de política, que tal falarmos um tantinho sobre a conveniente falta de memória do PT?

O Partido dos Trabalhadores esquece-se, muito convenientemente, de que o Temer como presidente (com todas as suas implicações e consequências catastróficas) é, em última análise, responsabilidade dele. Ao fazer alianças inescrupulosas com o PMDB e afins (alianças completamente contraditórias, esdrúxulas e incompatíveis ideologicamente), o partido assinou a própria ruína. Não justificáveis (essas anomalias políticas) pelo argumento de que "era a única maneira" de se chegar ao poder (os fins, ainda, não justificam os meios.) Ou seja, agradando a gregos e troianos.

Ao comungar com o inimigo, irresponsavelmente, o Partido não vendeu apenas a própria alma ao diabo, vendeu também a alma de todos os brasileiros que foram afeitados por suas decisões. Eles não contavam, é claro, com um impedimento de governar da presidenta, deixando (tragicamente) seus inimigos no poder, de repente. Uma cascata de decisões desastrosas acabou por culminar com a prisão do seu maior ícone, o ex-presidente Lula.

Não é simples responder à questão de ser a favor ou contra a prisão do Lula. Aliás, não deve ser fácil ser ministro do STF ultimamente. Deixando de lado as questões simbólicas e a iminente eleição presidencial, a prisão ou não de uma pessoa condenada em segunda instância (após esgotadas todas as etapas de um devido processo legal, inclusive ampla defesa e fartos recursos) mandaria uma clara mensagem aos brasileiros que, suspensos, esperavam para saber se neste País a lei é para todos ou não. Se ainda temos alguma esperança ou se devemos realmente começar a correr.

Por outro lado, uma significativa parte da população, ao lado do ex-presidente, alega "golpe" e prisão por perseguição política. A justificativa até faz sentido se você considerar apenas o critério de ser "imoral", mas não se justifica quando questionado do ponto de vista legal, uma vez que todas as ações foram pautadas em dispositivos legais, constitucionais e internacionalmente reconhecidos como válidos e democráticos.


"O Brasil não é um País sério", mas pode vir a ser


Justiça é um conceito pessoal. Cada um irá se identificar ou não com determinada decisão do judiciário. Mas lei é algo predominantemente objetivo, compreensível e razoavelmente claro. (ou deveria ser). No entanto, essas características que deveriam ser imprescindíveis às leis, não impedem que sejam, muitas vezes, contraditórias ou imorais. Há muitas leis (especificamente no Brasil) tão esdrúxulas, imorais, tendenciosas e absurdas que nem dá pra nominar.

No caso específico do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula, há tanta contradição e controvérsia que poucos brasileiros conseguem realmente compreender aquele falatório todo com pouca ou quase nenhuma clareza. Uma novela surreal, e quanto menos compreensível mais inacessível ao povo. (a quem realmente vai afetar).

Com um Parlamento desmoralizado e desacreditado por aqueles a quem representam, temos uma crise estrutural de democracia, que pode nos levar a um impasse perigoso, inclusive com perigo de um iminente golpe militar (que assustadoramente seria apoiado por grande parte dos brasileiros). Será que a corda vai continuar arrebentando (sempre) do lado mais fraco?

Os problemas são tantos e tão profundos que Darcy Ribeiro deve estar se revirando no túmulo. (E que falta ele nos faz neste momento!) Meu caro leitor, ainda sobre aquela reflexão do texto passado, já se perguntou por que o PSOL não lança a candidatura de um nome conhecido em todo o País como O Freixo (ou até mesmo o Jean Wyllys, que tem o seu nicho de seguidores) e sim de um anônimo e obscuro Boulos que ninguém nunca ouviu falar exceto os militantes de esquerda? (Quem raios assessora esse partido?)

Outra coisa que estão deixando passar: A irmã de Marielle Franco é tão articulada, politizada e incisiva quanto a irmã. Altamente persuasiva e está em evidência. No entanto, não está sendo "aproveitada" pelo partido nesse momento de grande visibilidade dela. Nacional e internacional, vale dizer. Veja quanto potencial político está sendo jogado no lixo. Dá pra entender isso?


Lula, uma ideia?


Reivindicar para si o título de ideia, dizer de si que transcendeu a esfera do humano é, no mínimo, pretensão. Seria menos constrangedor se viesse de outrem a afirmação. Não é modesto. Nem de bom tom. Afinal, de que Brasil o PT está falando? Basta olhar ao redor de si. Restou poucos de bom senso, de ficha limpa ou de seriedade política.

O PT tenta, a todo custo, convencer o mundo de que o Brasil quer Lula como presidente e que é imprescindível para a vida política do País. O que é uma pretensão delirante. É pura histeria. Os fatos que são omitidos, convenientemente, dentre eles os milhões de brasileiros que foram às ruas pedindo a condenação dele e o fim da corrupção, (tão entranhada no partido e generalizada na política nacional) mostram que a maior ou grande parte da população brasileira não compartilha dessa fantasia.

O PT recorre a um discurso forçosamente vitimista que não convence mais a ninguém (afinal, a fina massa de fanáticos seguidores que fecha os olhos e os ouvidos à realidade, não se convenceria da culpa de Lula nem se o céu (ou inferno) se abrisse e Marx falasse com eles). Dizer que Lula não é mais humano, que "é uma ideia" e que representa os anseios dos brasileiros é uma falácia. É dizer que ele está acima da lei e acima do bem e do mal. É subestimar o País inteiro. É afrontar a todos os que lutaram e morreram por justiça social e um pouco de dignidade nestas terras. Felizmente para todos, ainda há um resquício de bom senso (seria precoce e otimista demais chamar de justiça) neste País. (Pelo menos há na "República de Curitiba". (risos/é sério que estou escrevendo isso?)

É incontestável que o Partido dos Trabalhadores foi o principal partido da pós-ditadura e conseguiu, heroicamente, congregar as esperanças de muitos brasileiros, principalmente uma quase totalidade da classe acadêmica, estudantes, artistas, intelectuais, movimentos sociais, todos os que desejavam um País melhor, aos moldes do que sonhou Darcy Ribeiro, Paulo Freyre, Florestan Fernandes, dentre outros grandes brasileiros.

No entanto, essa "liga ideológica" vinha se rompendo há muito tempo, inclusive causando a saída ruidosa de famosos petistas, como o respeitadíssimo Cristovam Buarque e a veterana Marta Suplicy, políticos que já não se identificavam com as decisões do partido. A estes e a tantos outros insatisfeitos, o partido ignorou e continuou decaindo ideológica e moralmente.

Para chegar ao poder, venderam a alma ao diabo com a desculpa de que era a única forma de consertar o País e fazer a tal revolução, com justiça social, etc. No entanto, quando conseguiram "Lula lá", o que vimos foi uma maquiagem em alguns setores e o abandono total de outros problemas estruturais, como a educação básica, a reforma política, a reforma agrária, a reforma previdenciária e tantas outras questões que há centenas de anos adoecem o País. Faltou coragem ou boa vontade para fazer as reformas que realmente importavam?

A recente explosão de uma direita adormecida no País, (inclusive por uma maioria não militante, brasileiros comuns) não é à toa. Era previsível e totalmente “necessária” a fim de mudar o rumo da política nacional corrupta e ineficiente. (Santa ingenuidade a minha!) Ao menos, sacudir a copa da árvore. Diante das condenações, muito convenientemente, o partido faz cara de perplexo e se vitimiza, dizendo-se perseguido politicamente e pelo judiciário, esquecendo-se desse histórico rompimento e da corrupção (do Mensalão à Lava-Jato, passando pelos escândalos da Lei Rouanet, etc) a que o “inocente” Lula comparou "ao filho que fez bobagem na escola e chega em casa e não conta". Expressão tão nonsense que não dá para levar a sério. Ele não percebeu que ao usá-la, admite ser "o pai" negligente dos condenados em questão, a quem diz desconhecer. Contradição é eufemismo. É descaradismo flagrante.

A esquerda governa com os olhos voltados para o passado, como se ainda estivéssemos na França pré-revolução. Naquela época era necessário um rompimento feroz com o Absolutismo (não sejamos hipócritas, nem puristas) e não haveria outro caminho além da violência. A guilhotina foi bem-vinda (apesar de decapitar gregos e troianos, indiscriminadamente), chegando a mais de 40 mil decapitados em apenas um ano.

Séculos depois, porém, o caminho mais inteligente e talvez o único que permita a sobrevivência (vide países desenvolvidos da Europa, Estados Unidos, etc) é o liberalismo econômico/comercial que é o que está largamente estabelecido no mundo contemporâneo e tentar negar ou evitar esse fato é, no mínimo, ingenuidade. É pretender afundar o País na miséria, no isolamento político, numa ditadura disfarçada e no descrédito total, como o Chavismo fez, etc. Uma ideologia imposta (à força, para ser redundante mesmo) não é libertação. É (também) opressão. (Foi duro escrever este parágrafo, confesso).

Apesar do que aconteceu em Cuba, na antiga União Soviética, na Coréia do Norte, China, Vietnã, etc, a esquerda (a antiga, não a new left, mais flexível, não violenta) socialista ainda tenta nadar contra a maré. Histórica. É um atentado ao bom senso, à razão e à lógica. ("O cúmulo da imbecilidade é fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes"). E o que é pior; autoritariamente. Totalitariamente. Contra a vontade popular (vide Stalin, Mao, Fidel, etc), onde as liberdades individuais foram reprimidas e a violência e a crueldade, indescritíveis.

Lula, uma ideia? Nem Fidel ou Che (que pegaram em armas e enfrentaram uma potência mundial e todo um sistema imperialista) puderam afirmar que deixaram de ser humanos e se transformaram em uma ideia. Logo, o Lula, mais um populista (apesar do seu inegável valor histórico, simbólico e político), não transcendeu a sua humanidade. (Talvez possa transcendê-la na prisão...)

Figuras de maior peso histórico como Lênin, Marx e outros políticos mais importantes, digamos, passaram. Seus restos mortais apodrecem à mercê do tempo e suas ideias, embora vivas, hoje são julgadas pela História. E com pouca ou nenhuma condescendência. Por que Lula mereceria um salvo-conduto maior do que eles? Não. Não sejamos delirantes. Lula é um homem megalomaníaco (sonhador, se assim preferirem) e um homem muito representativo para o Brasil, sim. Mas tão humano quanto qualquer presidiário.

#aesquerdavalealuta


* Imagem: http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2018-04-06-Lula-da-Silva-pode-entregar-se-depois-da-missa-pela-mulher

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