domingo, 29 de janeiro de 2023

PASSEIO PELAS RUAS DE MIM (E DE OUTROS), de Mailson Furtado


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro "Passeio pelas ruas de mim (e de outros)", do poeta Mailson Furtado. Fique atento!

#passeiopelasruasdemim #mailsonfurtado #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Bolsonaro é fascista?


 Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Acho que muitos de vocês já ouviram falar no Henry Bugalho. Li recentemente um ensaio rápido dele, intitulado de BOLSONARO E O FASCISMO. Creio que faz parte de uma série de textos chamada de LEITURAS RÁPIDAS e que é disponibilizada de forma gratuita para leitura via aparelho Kindle. O texto é de caráter didático, filosófico, bem fácil de se ler e bastante esclarecedor, sem deixar de ser crítico. O autor inicia seu percurso narrativo tentando explicar as origens do termo “fascista”. Para isso, retoma preceitos estabelecidos em textos produzidos por George Orwell, entre outros nomes fortes do pensamento mundial.

Há também a preocupação em situar o brotamento e a expansão do uso do termo “fascista” no seio da sociedade brasileira. "Esse uso irrestrito serviu para esvaziar e empobrecer o debate, e mais confunde do que esclarece. Um dos dilemas decorrentes disso é justamente a ideia de que, ao se munir de maneira incorreta e exagerada de um termo forte e específico como “fascista”, atribuindo-o a todo e qualquer opositor político, será que, quando nos vermos confrontados com um fascista real, seremos capazes de reconhecê-lo? E, mais até do que isto, alguém prestará atenção às nossas advertências?", questiona Bugalho logo nas primeiras linhas.

É quando o Bugalho entra mais intimamente na figura do ex-presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Mais precisamente nele e em sua visível atividade fascista ao longo de sua história política desempenhada no país. Enfim, Bolsonaro é mesmo um fascista? Partindo desse questionamento – de resposta óbvia, considero -, Bugalho inicia o processo de cavoucamento e explicação para diante da resposta pungente, deixar que o leitor responda por si próprio.

Todavia, o que é mesmo o FASCISMO? O que fazer para se reconhecer um FASCISTA? "E essa, por si só, é outra questão problemática, posto que o fascismo, por ser um movimento nacionalista, possuía suas particularidades em cada nação na qual floresceu. Os fascistas italianos não defendiam as exatas mesmas noções ou propostas dos alemães nazistas, ou dos falangistas na Espanha ou do movimento integralista brasileiro, só para citarmos alguns casos." Bugalho, como se lê na citação supracitada, atenta em seu texto para as múltiplas facetas que o termo adquiriu ao longo do tempo e em diferentes regiões do mundo. Para tanto, considera que a maior parcela dos atuais estudiosos do tema utiliza como pressuposto inicial a definição proposta por Roger Griffin, em 1993, que diz: “Fascismo é um tipo de ideologia política cuja essência mítica em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.”

Assim posto, em seu ensaio, Bugalho segue afirmando que "Nessa definição de Griffin, estão presentes todos os elementos necessários para a compreensão do fenômeno político do fascismo: o nacionalismo, o populismo e o renascimento mítico desse espírito nacional". E continua, ao longo do material, colocando em debate as várias acepções e os inúmeros entendimentos acerca de tão nefasto conceito. Robert O. Paxton, Federico Finchelstein e Jason Stanley foram alguns dos autores utilizados por Bugalho para a construção do seu ensaio. Como disse, Bugalho deixa a conclusão em aberto. Evidentemente que a resposta é simples. Mas é sempre bom buscar o conhecimento das coisas de maneira cada vez mais ampla. Como texto de adentramento ao assunto, funciona bem. Enfim, fascista ou não, o certo é que Bolsonaro nunca mais.

 

* Imagem:  https://www.amazon.com.br/Bolsonaro-Fascismo-Henry-Bugalho-ebook/dp/B09ZTCFZYY

domingo, 8 de janeiro de 2023

RUA DA PADARIA, de Bruna Beber


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Rua da Padaria, da escritora, poeta e tradutora Bruna Beber. Fique atento! #ruadapadaria #brunabeber #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Sobre O RAIO QUE ME PARTIU, de Neuma Rozendo


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Do mundo eu sou e sei que o mundo é um moinho. O mundo gira a roda da vida sem dó e na maior parte das vezes nos parece moer. O mundo é um imenso moedor. A vida, idem. A vida não amolece para ninguém - ou melhor, para quase ninguém. A vida é quase sempre injusta, ou justa demais. O mundo é feito de pessoas. A vida é feita de e com pessoas. Todavia, nem toda pessoa é humana. Nem toda gente é gente, entende? Tem gente que é monstro mesmo. Tem gente que é demônio mesmo. Tem gente que torce e retorce a alma de uma pessoa, que tritura, que atropela, que desordena, que faz sangrar. Tem gente que faz isso e pronto. Tem gente que não tem um pedaço sequer de compaixão por dentro, nem por fora. Tem gente que é só por fora e nunca por dentro.

Sendo o mundo assim, justo e injusto, é plausível pensar que, infelizmente, estaremos para sempre rodeados pela violência. A violência humana é a mais violenta das violências. E violar uma pessoa, uma pessoa que é humana, é profundamente estarrecedor. Só sabe, de verdade, quem sofre a violenta violência humana desumana. Só sabe, ao certo, quem foi moído ou moída, quem sucumbiu e quem foi ao abisso num rompante, quem não teve tempo nem de gritar por socorro ou quem não teve a chance de vociferar na hora da agonia dilacerante. Triste é o mundo, sim. Triste é o nosso mundo, constituído de tudo isso que nos envergonha e nos revolta e que nos abocanha.

O livro de estreia da escritora pernambucana Neuma Rozendo, intitulado de O RAIO QUE ME PARTIU (Multifoco, 2022), versa sobre violentos e diversos atravessamentos de corpo e de alma que modificaram para sempre a história e a trajetória de vida de diversas mulheres ou, simplesmente, da Mulher que existe em cada mulher - assim mesmo, com M maiúsculo. Um livro sobre mulheres partidas ao meio, esquartejadas em golpes definidores e indefinidores de destinos - o que é mesmo um destino? A obra traz em seu miolo curtos textos em forma de contos/crônicas que fazem com que o leitor seja parte da dor impressa nas 88 densas e pesadas páginas do livro.

É um livro sobre sobrevivências múltiplas e unas e únicas e dolorosas e sobre partidas e sobre quebras e sobre quedas e sobre redemoinhos e sobre tantas outras coisas. Conhecendo a autora como a conheço, posso admitir que o livro é composto por verdades mais que sinceras, sentidas, vividas, vivenciadas, choradas, verdades rudimentares e memoriais, verdades ancestrais. O RAIO QUE ME PARTIU me partiu ao meio, me deixou aberto com uma tremenda ferida exposta aos ventos. Não é um livro como outro qualquer. As camadas de ficção nele tingidas são meros detalhes do fazer literário da talentosa autora. O que está em jogo é própria vida, maltratada e incontrolável. A vida em perigo, em constante perigo.

O primeiro livro de Neuma Rozendo é, também, um retrato agudo do descaso com que o mundo e, em especial, o Brasil, trata o ser mulher na sociedade. Um recorte fixo e etéreo sobre a barra que é ser mulher dentro de todas as violências e violações possíveis e impossíveis, pensadas e impensáveis. O primeiro livro de Neuma Rozendo é um grave acerto de contas com o passado e com a vida que ainda temos de viver, nós todos, sim, homens e mulheres, imiscuídos ou não a monstros e demônios humanos desumanos. O primeiro livro de Neuma Rozendo é, por fim, arma contra a obsolescência de nossas formas mais rebeldes, contrárias a quaisquer desmandos e violências cometidas a outrem. Um recado duríssimo a nos dizer, em voz alta, que é preciso estarmos atentos e fortes, atentos e fortes, atentos e fortes...


Considere lê-lo. 


Imagem: https://editoramultifoco.com.br/loja/product/o-raio-que-me-partiu/

CONTATOS NA CHAPADA DIAMANTINA, de Adolfino Alves Pereira Neto


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contatos na Chapada Diamantina, do escritor Adolfino Alves Pereira Neto. Na introdução do vídeo, acompanhe a psicóloga Angélica Carem em mais uma importante participação aqui no canal. Fique atento!

#adolfinoalves #contatosnachapadadiamantina #eventossobrenaturais #canalliterário #oequadordascoisas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A casa dos poemas regidos à óleo e torque


Por Germano Xavier


CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Livro de poemas, um petardo diferenciado no rol do que já li. Um estudo poético sobre a maquinaria do mundo, com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada. Repito: um petardo diferenciado no rol dos livros que já li, e olha que não foram poucos até aqui, no auge de meus 38 anos de idade e - bota aí... - uns 25 de amor à literatura, em especial à poesia.

Livro de capa preta. Livro de tarja assim também. Ele remedeia, ele escancara, ele previne um cancro maior, ou melhor, uma pane sem solução. Previne o caos com câncer da atualidade, já que o sistema já está instalado de tal maneira a nos sufocar os caminhares - um prevenção do olhar, sim. Aí está: o componente zero da poética de Guarnieri neste livro é talvez um olhar absurdado através da fumaça das chaminés das fábricas, um olhar alterado sobre o barulho das maquinarias e de seus pontos de ferrugem, um músculo retesado diante da ameaça de domínio intercontinental por meio desses lestrigões da modernidade.

Luminária acesa, o poeta opera todos os botões antes da decisão que fataliza uma produção de opinião: o homem sabe que sabe. Duas válvulas de neurose na mente aturdida do homem mecânico mundial. Discos rígidos da memória para um backup urgentíssimo acerca do que fomos antes da invenção de tantas quinquilharias eletro-hidráulicas e etc. Três engrenagens atormentadas pela ínfima certeza de um dia a falha geral descambar na realidade. Quatro motores ligados rompendo a ânsia pelo capital monopolizado de agora e de sempre e de até quando? Poemas com cinco cilindros justapostos batendo sob um virabrequim de máculas e enjoos. A humanidade está pulsando em prol de uma robotização satânica que disfarça bem o mal. Onze rebites cravados na alma do ser, na alma do não-ser, na alma do sim e do não.

O que ainda pode uma máquina de datilografia num mundo de computadores megavelozes?

Na alameda industrial, o poeta saca o módulo inaugural, a pedra filosofal que rompe a inércia da vida transmoderna. A casa das máquinas somos nós. Casa e máquina, nós. Seres de neon, brilhantes, efervescentes entidades fabricadas para o uso, minerados com as dragas drágeas da dor escorrida pelas esteiras de metal e borracha. Qual a bitola certa para a mesquinhez da vida que levamos? Por que não atritamos mais diante das desventuras que nos abalam? Perdemos força? Perdemos?

Catálise pesada é a angústia de nascer e morrer na repetição, encantados pela música do trabalho a entorpecer até o mais rude ouvido. Poemas para uma marcha, para um batalhão desgovernado e alinhado aos mesmos conflitos diários de monotonia. Roupa suja de graxa, almoço frio, líquidos que entram goela adentro para lubrificar os pistões nossos de cada dia, dai-nos hoje um instante qualquer de inatividade!

- Não, diz a Máquina-Mor!

Tipos impressos em prensa desalinhada somos nós, seres humanos maquináveis, manobrados por outros seres humanos maquináveis. Cosmogonia sonora das turbinas que defloram infâncias, adolescências e jovialidades ingênuas.

- Vamos dormir que o cabeçote não aguenta! Vamos dormir que o século XX já veio!

CASA DAS MÁQUINAS é um livro de poemas escritos com o peso da poluição e com o medo do acidente central, que pode fazer com que tudo estanque no meio do caminho. Guarnieri escreveu não um livro com poesia, mas antes um livro que despoetiza o falso brilho dos cromos, um livro que atiça mais a gofada nebulosa dos escapamentos de enxofre e que nos torna tóxicos e pecadores pelo simples fato de permitirmos a existência supervalorizada de tais máquinas animadas e sem coração.

CONTOS DA ARÁBIA: O CAMPONÊS, O REI E O SHEIK, de Amina Shah


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contos da Arábia: O Camponês, o Rei e o Sheik, da escritora escocesa Amina Shah. Fique atento!

#aminashah #contosdaarábia #ocamponêsoreieosheik #canalliterário #oequadordascoisas

O claro mundo literário de Thiago Medeiros



Por Germano Xavier



“Sem medo do medíocre, do ridículo, do grotesco. Nada é medíocre,
nada é ridículo, nada é grotesco no instante inicial da criação. 
Na gênese. Sem policiamento, sem censuras”.

(Raimundo Carrero, in Os segredos da ficção - CEPE, 2017)



Antes de começar a escrever estas linhas, ponho pra tocar o CD 4 da coleção The World’s Greatest Symphonies (The Intense Media). I Adagio. Allegro non tropo. Peter I. Tchaikovsky (1840 – 1893). Não estranhe, caro leitor, foi necessário. Foi preciso para refazer os ânimos depois de ler e reler o livro CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA (Patuá, 2018), do pernambucano Thiago Medeiros. O livro de contos em questão não permite que o leitor tenha qualquer rompante barato de engraçamento ou que se cogite a possibilidade de imaginar-se capacitado a viver as coisas da vida simplesmente pela metade. O discurso das personagens não é partido. A força do texto é em bloco maciço, é um inteiro.

A linguagem, por ser universal, assim como a poesia, é inelutável. A linguagem no livro de Thiago Medeiros avisa: ATENÇÃO, NÃO VAI SER LEVE! A linguagem, quando assim ela se dá, não se pode apagar. A vida, também não. A vida, tal qual a linguagem, é inelutável. Senão, óbvio!, não seria vida, não seria experiência, não seria travessia. Seria morte. E morte é o oposto. Pense comigo: não é perfeitamente compreensível que vivamos pela metade. É um golpe duro na existência de cada um que, dessa maneira, assim resolva transitar pelo mundo. São tantas as possibilidades a usufruir, os caminhos a picar, os destinos a seguir. O fenômeno da linguagem, por refletir a multiplicidade do viver, e das nossas vidas, compartilhadas ou não, sempre se expande quando em contato com outros extratos fundamentais do arcabouço semântico-discursivo das artes ou das práticas sociais. CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA consegue tal feito. O livro é um conjunto de perspectivas que se desdobra aos olhos de quem lê, que se afirma vário, que planta outras sementes de interpretação ao menor senso. E aí já se deu a amplidão. A literatura.

E literatura é linguagem fornida, bem temperada. Roman Jakobson, no seu O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, texto deflagrado em uma conferência ocorrida na cidade de Lisboa no ano de 1972, já atentava para tais movimentos da linguagem. Mas, por que razão endereço esta resenha a falar de linguagem sob este ponto de vista? Respondo, de pronto: é porque em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, estreia do escritor caruaruense e idealizador do Letras em Barro, circuito de eventos literários que movimenta a região do agreste meridional pernambucano, estamos diante de um livro que revolve, burilando, as funções semióticas que maquinam o fenômeno linguístico de grave e potencial perturbação.

Os contos do livro, que parecem seguir um agudo fluxo único, até em termos de personagens e sucessão dos fatos, trabalham com temáticas bastante variadas, porém muito complexas, vastas e/ou insólitas. É possível perceber o trato para com a profanação do sagrado, as ressonâncias da velhice, os impedimentos e os impérios da doença, a consagração e a conflagração da infância, as descobertas de envolvimento e de cunho sexual, o riso e a ironia vistos como respostas ao mal, o mal do medo, o medo do medo, desembocando, enfim, e completamente, no desvelamento de uma linguagem feita de quase-acertos - a não completude, aqui, a falta de algo que encerre um outro algo, pode ou deve ser vista como um ponto positivo.

Sobre esta incompletude e sobre a busca incessante do autor por um assunto que lhe erga do solo e que lhe retire o conforto da mente, Raimundo Carrero vai dizer que “escrever é preencher furos, criando armadilhas e seduzindo o leitor, assim como quem borda um tapete. Na talagarça limpa, os furos vão sendo fechados pela agulha e pela linha que completam o desenho. Ou seja, o escritor precisa revelar – ou não – situações que ainda não estão objetivadas no texto”. Thiago Medeiros, filho de uma terra de bons costureiros, deu provas mais do que cabais, já neste seu primeiro rebento, de que é um talentoso alfaiate das palavras em prosa.


ENTREVISTA COM O AUTOR


Germano Xavier - O que há para ser desvelado em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, Thiago?

Thiago Medeiros - Essa é a pergunta que gostaria que meus leitores respondessem. Confesso que não sei ao certo, mas o que move meu trabalho são meus questionamentos ao longo da vida, principalmente a questão da memória e a forma que certas lembranças e vivências podem nos influenciar. Raimundo Carrero costuma dizer que toda obra literária é um pedido de socorro lançado numa garrafa ao mar, e eu concordo plenamente com essa opinião, embora não seja exatamente um pedido de socorro por parte do autor/narrador em si. A verdadeira matéria-prima de qualquer obra de arte é a miséria humana, sendo ela trabalhada através de qualquer meio - ironia, tragédia, humor, o belo, o feio - sempre será a miséria humana o fato gerador. Logo, partindo desta premissa, na garrafa não vai um pedido de socorro de um indivíduo, mas de toda a humanidade, e as dificuldades em relacionar todo um mundo próprio com diversos mundos alheios. Os personagens de "Claro é o mundo à minha volta" estão diante de grandes descobertas - a própria identidade, o luto, a sexualidade, a certeza de finitude -, e estas descobertas, por tantas vezes, encontram uma barreira difícil de vencer, que são os outros. E, sim, sou muito influenciado pela filosofia existencialista, que surgiu num momento bem peculiar da minha vida, e até hoje molda minha maneira de encarar o mundo. Então, o que se desvela neste livro é essa busca por certezas que talvez sejam inexistentes.

Germano Xavier – Você busca. Todo autor busca algo. Seus personagens buscam. Alguns poetas, por exemplo, buscam o poema perfeito ou simplesmente uma obra que ajude a completar o que Elias Canetti chamou de “Poesia Una da vida”. De acordo com Roman Jakobson, em O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, a poesia é o domínio mais criador da linguagem. Tendo a palavra “verso” a mesma raiz da palavra “prosa” (provorsa/proversa), eu lhe pergunto: você já sente a sua prosa criar uma linguagem própria a partir de CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA ou será preciso um pouco mais de tempo para que esta percepção lhe seja mais óbvia? E sobre o processo criativo do livro, fale-nos um pouco a respeito, por favor.

Thiago Medeiros - Espero não encontrar nunca uma linguagem própria, creio que me levaria ao conformismo. Quem tem estilo é personagem, não o autor. Este deve se preocupar com a pulsação narrativa compatível com cada texto escrito. Claro que há textos que você identifica logo o escritor, mas há nuances em cada trabalho que vão para além do próprio enredo, então não dá para afirmar que exista uma espécie de molde. Arte é o grande espaço da anarquia humana. Não há poderes constituídos que possam limitá-la, bem como cada nova tentativa de criação deve ser movida pelo caos, sem saber aonde vamos parar. Ainda que arte seja um ofício como outro qualquer, envolvendo disciplina para mantê-la, é o caos que nos move.

Boa parte deste livro foi escrita entre fevereiro e setembro deste ano, apenas dois contos são anteriores - "Sal. Tangos, boleros e outras despedidas" e "A Paz na bandeja de Ágata" -, que foi justamente o período depois do meu pedido de demissão do Banco do Brasil - trabalhei lá por catorze anos e aderi a um plano de demissão voluntária para me dedicar integralmente à literatura. A origem de todos os contos vem do meu dia-a-dia, das histórias que ouço nas ruas. Gosto de boemia, o ambiente dos bares, feiras livres, são lugares que tudo pode acontecer. Então, por exemplo, as histórias que se entrelaçam de "Amargo xilofone para suicidas" e "Os teus retalhos eu guardei" foram de casos que ouvi, realmente conheci um senhor que foi tirar fotos da exumação dos ossos do filho aguardando ver os insetos. Há uma espécie de possibilidade de imortalidade do indivíduo através da arte, é tanto que um dos meus livros preferidos é "Memórias de um Caçador", de Turgueniev. A narrativa é quase sempre a mesma, o autor sai para caçar, encontra alguém com quem começa uma conversa, e esses estranhos passam a narrar detalhes das suas vidas. É universal demais. Poderia acontecer num ponto de ônibus qualquer. E todos aqueles indivíduos tiveram um detalhe incrível de suas vidas imortalizado. É isso que compõe minha forma de trabalhar.

Germano Xavier – Rainer Maria Rilke, em seu clássico CARTAS A UM JOVEM POETA, escreveu: “Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados”. Decerto, é sabível que a crítica literária passou por diversas “revoluções” nos últimos séculos. Para você, Thiago, qual o papel da crítica literária para a literatura contemporânea brasileira? O que você pensa sobre o fenômeno atrelado aos YouTubers?

Thiago Medeiros - Minha experiência com a crítica é muito pouca. Numa visão, até romanceada da coisa, imagino que o papel da crítica, ao menos deveria ser, apontar caminhos para a melhora da produção nacional, e não buscar erigir novos cânones, muito menos delinear tendências, o que corre o risco da padronização da escrita. Ninguém deve se preocupar tanto com o papel da crítica - embora seja difícil, é verdade. Sem acreditar no próprio trabalho ninguém vai a lugar nenhum, de bancários a pedreiros, garis e escritores.

O YouTube é uma ferramenta revolucionária, pode ser utilizada para muita coisa boa. Sim, é verdade que vai ter muita bobagem no meio, mas o problema de certos tipos de materiais serem oferecidos, e bem recebidos pela população, não é culpa de quem o faz, estaria num plano muito mais macro. Então cabe a quem realmente deseja produzir arte, cultura de qualidade, se apropriar também desses espaços de fala. Não podemos viver isolados, cultivando a nostalgia cult de coisas do passado - e isso afirmo na condição de colecionador de vinis e livros. As redes sociais estão aí, isso é um fato consumado, então temos que nos adaptar e produzir bom material. Tenho tentado fazer isso com o Letras em Barro, mas sou uma verdadeira negação com tecnologias, logo isso me deixa dependente demais em formar equipes, buscar pessoas que queiram participar das minhas megalomanias. Mas, planos eu tenho, e logo começarão a se concretizar.

Germano Xavier – Thiago, você participou por 3 anos de uma oficina literária ministrada por Raimundo Carrero na capital Recife. Qual a relevância deste momento para o seu amadurecimento enquanto escritor? Em Pernambuco, a Fundarpe e a Editora Cepe realizam anualmente algumas premiações de cunho regional e nacional em se tratando de arte literária. Você vê os prêmios literários com bons olhos para a legitimação do fazer literário? E qual a sua perspectiva para o futuro com relação à cena literária pernambucana, mais especificadamente a do interior do Estado?

Thiago Medeiros - Morria de medo de oficinas literárias. Pensava que ia entrar numa espécie de linha de produção fordista para escritores. Até que uma amiga me sugeriu o óbvio. Vá, se não gostar, não vá mais. Já conhecia o trabalho de Carrero, então também fui atraído pela chance de conhecer um ídolo. No final a oficina foi uma grande surpresa. É um espaço muito democrático, Carrero respeita demais o trabalho de cada um. É um lugar que você descobre que não está sozinho no mundo, há outros na mesma peleja que você. Sem contar que você vai mostrar seu trabalho a uma plateia de, geralmente, leitores experimentados, então já é uma boa prova de fogo. Logo, costumo dizer que uma boa oficina é uma boa pedida para quem puder - não chegaria a dizer essencial, mas ajuda bastante.

Prêmios literários são uma maravilha para a divulgação de novos nomes. Não chegaria a dizer que legitima o fazer, porque há uma limitação de premiados. Imagine um concurso tipo o SESC, que apenas um nome entre quinhentos ou mais é premiado. E os outros, não eram bons? Com certeza tinha muita gente com um bom trabalho ali. É um grande incentivo ganhar um prêmio, mas o prêmio também, por si só, já estimula a escrita. É um formato que deve ser cada vez mais incentivado.

Creio que há uma cena em efervescência forte no Agreste. A começar por Caruaru, com nomes que em breve despontarão nacionalmente - com a barba nesse tamanho me permito ao dom das profecias. Nay Harrison, por exemplo, tem apenas vinte e dois anos, escreve feito uma orixá entronada, digo sempre que o futuro da poesia pernambucana passa obrigatoriamente por ela. A força de Joana Figueredo, Aferrera Maria, Urbano Leafa, Iram Bradock, Germano Xavier, Birigui - poeta de Belo Jardim -, a iniciativa da Candeeiro Cartonera, o próprio Letras Em Barro, tudo isso mostra que há uma cena coesa em formação no interior de Pernambuco. Com um pouco mais de organização, isso será alavancado nacionalmente. Quem viver, verá. Um exemplo a ser seguido é Garanhuns. A partir de um grupo pequeno a cidade cresceu literariamente, começando com conversas entre Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório, Helder Herik. Hoje a cidade recebe uma Bienal e tem um espaço exclusivo para literatura no Festival de Inverno, e tudo começou aos poucos.

Germano Xavier – Há pouco mais de 3 anos, perdíamos o ator, diretor de teatro e apresentador Antônio Abujamra, uma de nossas mentes mais provocativas de todos os tempos. Em sua homenagem, repasso a você a pergunta que ele sempre gostava de fazer aos seus entrevistados: Thiago Medeiros, o que é a vida? Não satisfeito, provoco-lhe um tantinho mais: Thiago Medeiros, e o que é a literatura?

Thiago Medeiros - A vida não pode ser definida, sob o risco de perder seu único sentido, que é justamente não fazer sentido algum. Embora não faça sentido, não quer dizer que não seja interessante e bela em sua fragilidade.

Já a literatura é apenas um monte de garranchos e uma tremedeira infinita nas mãos. E, assim como a vida, também não deixa de ser bela, frágil e imprescindível. Digo que frágil pois está sempre sob risco, que o diga a atual situação política do Brasil, esta onda conservadora, que na realidade sempre existiu, é uma ameaça à literatura, mas também seu maior combustível.




Claro é o mundo à minha volta (Patuá, 2018)

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* Imagens: Acervo do autor