domingo, 23 de janeiro de 2022

A HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS LITERÁRIOS ANGOLANOS


 

O escritor angolano João Fernando André tece um novelo histórico acerca dos movimentos literários que tiveram importância e que influenciaram a literatura angolana ao longo dos tempos. Você ainda confere mais uma participação inédita da graduanda em psicologia Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#literaturaafricana #movimentosliterários #literaturaangolana #joãofernandoandré

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Sobre "Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos e outras histórias africanas", de Celso Sisto


 

Por Germano Xavier


Cada vez mais tenho procurado ler livros de escritoras e escritores negros, africanos ou que, de alguma maneira, tragam impresso nas páginas ou no contexto geral um diálogo direto com os acontecimentos e com as coisas de África. É necessário fazer tal movimento. E tenho quase certeza de que os contos populares africanos são uma das melhores maneiras de que dispomos para adentrarmos universo tão vasto e amplificado.

Os contos populares africanos são capazes de nos colocar diante das essências da vida de todo um continente, de todo um povo uno-múltiplo e do funcionamento do mundo. As vozes que eles ecoam dentro de nós são vozes antigas, ancestrais, e em geral movimentam incontornáveis ensinamentos.

Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos e outras histórias africanas é um vivo exemplo do que escrevi nos parágrafos anteriores. Celso Sisto, autor e ilustrador, organiza e reconta cinco histórias fantásticas, em todos os sentidos possíveis, possibilitando aos leitores uma imersão plena e bastante particular pela riqueza cultural de diferentes povos retratados no livro.

As narrativas, por si só, são um capítulos à parte. Com detalhes que muito facilmente nos ligam aos contos de fadas de raízes europeias, na verdade pedem para serem lidas e incorporadas como histórias-motores, narrativas geradoras de forças e de ânimos, além de influenciadoras e condutoras vitais. Em cinco contos, por sinal bem diferentes entre si, Celso Sisto imprime a ideia certeira de que não há mesmo limites para a imaginação do ser humano.

Outro quesito de destaque é o catálogo de ilustrações escolhido para pontuar e intercalar as narrativas. Belíssimas e muito expressivas. Ao final, o autor ainda situa o lugar de origem de cada um dos contos presentes no livro. Quênia, Togo, Benin, Nigéria, Angola, África do Sul, Zâmbia, Moçambique, Botsuana, Zimbábue, Namíbia e Argélia são algumas das localidades por onde passeamos ao ler os textos e as imagens de Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos e outras histórias africanas (Escarlate, 2018). Dessa forma, podemos interagir com ainda mais entusiasmo em todo o processo de leitura e conhecimento do material.


Imagem: Google

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

LEWIS CARROLL E ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Outra perspectiva)


 

O que uma pequena cidade situada no País de Gales tem a ver com o clássico da literatura Alice no País das Maravilhas, do escritor Lewis Carroll? Desvende este e outros mistérios a partir de uma análise produzida pela professora e artista visual angolana Cristina Seixas.

#lewiscarroll #alicenopaísdasmaravilhas #llandudno #cristinaseixas #canaloequadordascoisas

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Sobre "Estudo do texto: "De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio", de Gonzalo Armijos Palácios", escrito por Ana Lúcia Sorrentino


 Por Germano Xavier


"Aqui no Brasil a gente é estimulado a não filosofar e você sabe disso". Movida por uma espécie de revolta interna, já que "os professores não deixam os alunos produzirem, os professores querem que a gente comente o comentário do comentador", a filósofa paulista e amiga de longa data Ana Lúcia Sorrentino escreveu o seu "Estudo do texto: "De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio", de Gonzalo Armijos Palácios", em um interessante diálogo com o texto do Gonzalo. 

Nele, inúmeros temas intrínsecos à filosofia são trabalhados de forma simples e objetiva, a começar pela falta de liberdade que estudantes da área possuem para se produzir filosofia no Brasil atualmente. Sorrentino critica "a necessidade de se ficar lendo comentadores", num perde-ganha eterno dentro do jogo de palavras entre os variados comentadores de uma teoria ou de um filósofo em questão, ao invés de ser dar importância à dada opinião ou se focar em um pensamento minimamente original. Ainda dentro da esfera acadêmica, a filósofa escancara a falta de aceitação por parte dos professores, que teimam em refutar essa "particular" opinião. "Mexer com o filósofo consagrado é muito difícil. Enfrentá-lo, digo. É muito difícil contestar um filósofo consagrado, mas a gente precisa defender sempre o pensamento próprio".

Em sua análise, Ana Lúcia Sorrentino explica que é preciso fazer exatamente aquilo que os gregos fizeram. "Eles transgrediram, foram rebeldes, falaram o que pensavam", reforça. "Sendo assim, a língua não deve ser um empecilho para se filosofar. É possível e extremamente viável filosofar em língua portuguesa". A  filosofia é para quem? Para a elite que pensa? O que fazer para a filosofia chegar mais perto de todos nós? A filosofia é para eleitos? E por que escrever filosofia de forma tão difícil? Acabar com esse entrave referente à língua é, pois, primordial. Para Sorrentino, de acordo com o seu ponto de vista, somente olhando para o problema e pensando a partir do problema, ou seja, pensando a partir da própria realidade, é que a filosofia poderá sobreviver.

"Assim como comentar arte não é ser artista, comentar filosofia não é ser filósofo", diz o Gonzalo no texto esmiuçado. Em cima disso, Sorrentino se posiciona ainda mais veementemente. "O filósofo perdeu a espontaneidade, pois não está imbricado na própria realidade. Quem disse que o brasileiro seria incapaz de filosofar? Quem prova tamanha indelicadeza?" A autora preconiza que, para fazer filosofia, não é preciso seguir cartilha alguma. Basta apenas filosofar, filosofar de verdade.


* Imagem: Google

NELO E ORINDO: TERRITÓRIOS FRATURADOS E O NÃO-LUGAR DO SERTANEJO, por James Wilker


Comunicação realizada por James Wilker durante o Seminário NARRATIVAS E VIAGENS DO SERTÃO AO MUNDO: 80 ANOS DE ANTÔNIO TORRES, promovido pela Academia de Letras da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana (10-12/09/2020).

#nelo #orindo #antôniotorres #essaterra #osórioalvesdecastro #portocalendário #jameswilker #canaloequadordascoisas
 

sábado, 1 de janeiro de 2022

Sobre "Elogio do Carvão", de Marcus Vinicius Quiroga


 

Por Germano Xavier


O livro vencedor do I Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2015 na categoria Poesia, intitulado de ELOGIO DO CARVÃO e escrito pelo carioca Marcus Vinicius Quiroga, é inteiro entrecortado e/ou baseado no poema "Meninos carvoeiros", de Manuel Bandeira. São, ao todo, 14 atravessamentos poéticos em diálogo direto com o consagrado poema do autor recifense. Quiroga entoa, de início, uma espécie de loa ao Grafite, à escrita, ao poder que a palavra tem de simplesmente dizer verdades e de pintar realidades. O grafite, que tanto escreve o rosto do pão quanto a quentura gélida das fomes. O grafite, que é, na verdade, o que incomoda, o que fica - o carvão do grafite. Depois, rasga com os dentes do verso o pão. O pão que adia a morte por um dia de uma vida extrema. O pão que divide a noite e o dia sem lua calma. Os meninos são, pois, como espantalhos. Quem são estes homens? - pergunta o poeta. Homens-escória, homens-peste? Todo espantalho é sem rastro, a não ser o do abandono. Uma conclusão? E a velhinha do poema do Bandeira? Quem é ela? Ou quem terá sido? A que vive vidas outras? A mulher na rua. Carvoero é o Tempo. Carvoero. Assim mesmo, sem o i. A língua própria dos carvoeros. Animais. Animais que não apelam. Para nada. Simplesmente vão. Animais que fazem. Serviço sujo. Relho. A dor de quem bate. E novamente o Pão. Pão de joio. Meninos. Carvoeiros. Meninos morcegos. Cangalha. Na cangalha guardam a rudeza da vida. Meninos que dão vários gritos de dor. Lenha. O fogo estancado. Viver. Sobreviver. Tarefa que nunca acaba. Remendo. Roupas de circo. Quem é o palhaço desse circo? D'après Portinari. Sob o ângulo do grafite, um sorriso distante dentro do horizonte da poesia.


* Imagem: Google

QUASE UMA ARTE, de Paula Glenadel


 

Sob forte influência das letras francesas, a professora e poeta Paula Glenadel esboça seus uivos poéticos como a tracejar as espinhas dos animais invisíveis e das coisas sem nome. Escrever é mesmo um contradestino, desnomeia o nomeado, desafia e afina o hieróglifo?

#quaseumaarte #paulaglenadel #poesia #germanovianaxavier #canaloequadordascoisas

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Minhas melhores leituras em 2021


 

Por Germano Xavier


Bem como o 2020, o ano de 2021, definitivamente, não foi fácil. E não tem como escrever algo diferente do que escrevi há 1 ano. O fluxo continua o mesmo... “No Brasil, a situação de penúria foi ainda mais amplificada e visível. Desgovernado desde os saguões de Brasília, o Trem-Brazil, vendido às incertezas de um neoliberalismo irresponsável, descarrilou e assim continua ribanceira abaixo. O real povo brasileiro penou. E penará. Presenciamos tragédias novas a cada dia, muitas delas advindas de um bestial antipresidente eleito. A sirene tocou mundo afora. Uma pandemia! (Sim, a pandemia não acabou...) Muitos foram para dentro de seus aposentos. Muitos, por não terem aonde ir, forçados pela própria necessidade e outros por negacionismos infames de ordens diversas, preferiram as ruas. Ao cabo de todos esses meses, o cansaço, a estafa mental. Todavia, algumas coisas foram fundamentais para me manter vivo. Falo por mim. Para além das aulas ministradas à distância, que se mostraram duras e ineficientes, foram os livros os maiores responsáveis pela manutenção do ar nos pulmões. Li razoavelmente bem durante todo o ano”.

No mais, agradecer preciso a todos os amigos e todas as amigas que fazem comigo o canal literário O Equador das Coisas, no Youtube, aos colaboradores do portal O GAZZETA, ao espaço concedido a mim no portal SÓ SERGIPE. Dizer também um muito obrigado para aqueles que apostaram suas fichas literárias em meu mais recente livro, intitulado de O Homem Encurralado (Penalux, 2021) e que contou com tradução para o francês realizada por Luísa Fresta. 2022 nos reserva grandes emoções. Sigamos, bucaneiros!

E, de novo, ninguém solta a mão de ninguém.

 

Poesia

  1. ELOGIO DO CARVÃO, Marcus Vinicius Quiroga;
  2. RUA DA PADARIA, de Bruna Beber;
  3. CIDADE FINADA, de Thiago Medeiros;
  4. ARAME FARPADO, de Lisa Alves (releitura);
  5. POEMAS RUPESTRES, de Manoel de Barros (releitura);
  6. 26 POETAS HOJE, org. Heloísa Buarque de Hollanda;
  7. SENTIMENTAL, de Eucanaã Ferraz;
  8. EM NOME DOS RAIOS, de João de Moraes Filho (releitura);
  9. CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves (releitura);
  10. ARIEL, de Sylvia Plath (releitura).

Prosa

  1. A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, de Marcelo Maluf;
  2. O ALIENISTA (EM CORDEL), Machado de Assis/Rouxinol do Rinaré;
  3. PANDEMIA: COVID-19 E A REINVENÇÃO DO COMUNISMO, de Slavoj Žižek;
  4. O MENINO GRAPIÚNA, de Jorge Amado;
  5. TORTO ARADO, de Itamar Vieira Junior;
  6. O GARIMPEIRO DO RIO DAS GARÇAS, de Monteiro Lobato;
  7. EVANGÉLICOS E PANDEMIA, de Pierre Salama;
  8. TODO DIA A MESMA NOITE, de Daniela Arbex;
  9. PARAÍSO PERDIDO, de John Milton/ Versão em quadrinhos de Pablo Auladell;
  10. LULA (Volume 1), de Fernando Morais.

OBS. A ordem de numeração dos livros não quer dizer absolutamente nada.


* Imagem: Google

PORTUGUÊS DE PORTUGAL E PORTUGUÊS DO BRASIL - A MESMA LÍNGUA OU LÍNGUAS IRMÃS?, por Luísa Fresta


 

Neste vídeo, a escritora luso-angolana Luísa Fresta nos convida a conhecer um pouco mais sobre as semelhanças e sobre as diferenças envolvendo o uso da Língua Portuguesa em Portugal e no Brasil. Você ainda confere mais uma participação inédita da graduanda em psicologia Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#línguaportuguesa #portugalxbrasil #luísafresta #conexãoáfricaeuropa #falaeescuta #angélicanunes #canaloequadordascoisas

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Canções de Uni e Rume (Parte I)


 

O FOGO


abanar o fogo

que brota da terra que

nasce como uma serpente amorfa

de dentro da floresta sagrada


apanhar a faísca nos olhos da noite

a rusga e o cisco em chamas 

a labareda que sementeia a alma na roda

da vida


fazer crepitar o som de nossas fúrias

para curas momentâneas ou eternas


amar o vermelho-amarelo predominante 

a cor-fogo

o corpo-fogo

puro sentimento 


* Inicio aqui uma série de poemas em consequência de minha primeira vivência ao lado de integrantes do povo Yawanawa, ocorrida na Aldeia da Vida (Aldeia/Recife-PE), no último dia 18 de dezembro de 2021. Meu respeito e minha admiração à sabedoria das medicinas sagradas e à tradição Yawanawa.

* Imagem: Google

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

NICK CAVE E OS GÊNIOS EM CONSTRUÇÃO, por Cristina Seixas


 

Neste vídeo, a professora e artista visual angolana Cristina Seixas continua a nos levar para o fabuloso mundo das ideias de Nick Cave. Você ainda confere mais uma participação inédita da graduanda em psicologia Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#nickcave #cristinaseixas #falaeescuta #angélicanunes #canaloequadordascoisas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Antes de tudo existir


 

Por Germano Xavier


é força o que existe

antes da história se criar,

é o que sentimos de perto,

o olho do tigre, o ar quente

que explode sobre o Tempo.


é a lâmina que o vento carrega

no descampado da caatinga,

a chuva que surge sem avisar

numa manhã de dezembro.


a força de que falo acampa

no que carece e comanda um coro

na escuridão. a força é o que existe

antes de toda humanidade.


* Imagem: Deviantart

OS MATIZES DA LÍNGUA PORTUGUESA - CONTRIBUIÇÕES DAS LÍNGUAS BANTU, por Luísa Fresta


 

Neste vídeo, a escritora luso-angolana Luísa Fresta fala sobre a íntima relação existente entre as Línguas Bantas (Bantu) e a Língua Portuguesa. Você ainda confere mais uma dica inédita da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta. Hoje o tema é Hábitos Saudáveis.

#línguasbantu #línguasbantas #línguaportuguesa #luísafresta #fala&escuta #angélicanunes #hábitossaudáveis #canaloequadordascoisas

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Sobre "Onde todo tempo é breve", de Sonia Marques




Por Germano Xavier


(Cepe, 2017)


Breve é querer ir onde já estamos. Mundo pequeno demais para anseios de se ir além. Além de quê? Para onde trilhamos? Para onde apontamos nossas proas? Remada fixa em prol do Nada é a Vida? Quem sabe se? Onde todo tempo é breve: alma descoberta. Alma desnuda. Mulher que se abre feito flor, repleta de espinhos, mas doce pois Teu é o reino. Palavras de quem já viveu de verdade. Coisa rara. Palavras de se aprender. De se ensinar. De se ensaiar, também. Uma mulher que se coloca diante dos quandos, das incertezas, das brevidades. Uma mulher que se eterniza nela mesma, em sua plena condição feminina. Extremamente.

Uma mulher e sua voz. Voz embargada, por vezes. Voz dialética. Voz de rio. Voz nativa de si. Águas fundas: Sonia Marques. Que enaltece a Palavra. Que respeita a Palavra. Que se entrincheira. Que sangra desatadamente. Mulher com roteiros prontos na cabeça. Cabeça de sair. Que além de escrever, diz. De ideias simbióticas. Com dores alarmantes, que nos machucam. Que nos apresentam o fosso, ou sua possibilidade escura, gélida, esquizofrênica. Uma mulher-cuidado.

Onde todo tempo é breve: Carpe diem. A fuga para. E depois a Trégua. As tréguas. As esperas bordadas sobre a superfície das faces. As coisas que fizemos que não voltaríamos a fazer jamais. Tudo o que vira apenas carnaval. Os meses de abril em Paris, a lâmina afiada para o próximo corte. O pulso pulsando. Corpo quente em alumbramentos. O descaso de se deixar-paixão. A boniteza que há também no sofrimento. Os poetas. Os poetas. Ah, os poetas! A lua em nós todos. A velhice chegada. Recorte novo para velhas horas. A fruta estranha que brota no asfalto. A grande náusea. 

Suspeitas tantas e tantas outras crises. Medos e devaneios. Os equívocos dos emboras. A expertise. Visão horizontal. A ponta da agulha que é a ponta da escolha. Via Crucis: nascimento. queda. operância. visagem. mácula. castigo. redenção... Mulher de tantas estações em poemas compostos de circunstâncias e de exatidões terríveis. O vazio que também é virtude. O saber ser evidência, fazer barulho, manter a calma mesmo diante dos truques, dos mistérios, das palavras já ditas, das encruzilhadas do outono, da morte. Mesmo diante da vida.


O SOL É PARA TODOS, de Harper Lee


 

Neste vídeo, Cristina Seixas fala sobre um dos maiores clássicos da literatura norte-americana de todos os tempos: O SOL É PARA TODOS, de Harper Lee. Você ainda confere mais uma dica inédita da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta. Hoje o tema é Dependência Emocional.

#osoléparatodos #harperlee #porfavornãomatemacotovia #mataramacotovia #fala&escuta #angélicanunes #germanoxavier #canaloequadordascoisas

domingo, 5 de dezembro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV)


 

Por Germano Xavier


Em busca das sereias do Reno


cedo parti para um último dia de descobertas.

por cima de uma enorme ponte, no oeste alemão,

atravessei o rio Moselle em tom de rápida despedida.

a Alemanha era já uma vontade conquistada.


em Boppard, aportei na Renânia depois de varar alta floresta.

uma região belíssima e com uma deliciosa cerveja de trigo.

logo, a proximidade com o Vale do Rio Reno

e todas as suas entidades lendárias.


atinei para Loreley em minha vã expectativa passageira.

seria mesmo possível ser tragado por seus encantos e cantos?

apostei para ver, e durante todo o percurso fluvial,

entre um e outro castelo medieval à margem daquelas frias águas,

agucei os ouvidos para, quem sabe, viver um momento desafiador.


todavia, como suspeitado, Loreley fez questão de se disfarçar

entre ruídos tidos como menos normais.


certo mesmo é que a minha última primeira visão 

de uma Alemanha quase rural e quase antiga e quase

menos desenvolvida do que realmente é me encantou olhos

e também ouvidos.


"sorte a minha não ter sido tragado por Loreley", pensei.


P.S. Após isso, uma parada em Frankfurt am Main. 

A noite apontava. 

Dormir e voar de volta ao Brasil...


(Colônia, Vale do Rio Reno e Frankfurt, 17 de junho de 2017)



Imagens: Acervo pessoal.

O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA, de Chimamanda Ngozi Adichie


 

Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora nigeriana e ativista feminista de fundamental importância na atualidade. Em O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA, a autora nos alerta sobre um grande mal da humanidade. Neste vídeo, você ainda confere mais uma dica inédita da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#operigodeumahistóriaúnica #chimamandangoziadichie #companhiadasletras #angélicanunes #germanoxavier #canaloequadordascoisas

sábado, 4 de dezembro de 2021

Na sombra, também


 

Por Germano Xavier


a morte não é fixa matéria

ou dor, é caminho antes mesmo

do silêncio. a vida está no pensamento

que penso agora na noite morna.


encontro você nos lugares mais 

e nos lugares menos.

aquele teu nome é a minha memória

do teu corpo, de teus tremores

de terra e de água. 


entre as árvores as quais 

chamará de amor o vasto amor do Tempo

que não acaba, me assombro mudo 

dentro daquilo que nos resta e que é tão

imenso


ainda.



* Imagem: Deviantart

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

ANTES QUE O MUNDO ACONTEÇA, de Daniel Baz


 

Falar de poesia é sempre mais complicado, pelo menos para mim. Por isso, hoje resolvi fazer a leitura de três poemas do camarada Daniel Baz, presentes em seu primeiro livro publicado pela Concha Editora (2016). Você ainda confere as dicas da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#antesqueomundoaconteça #danielbaz #conchaeditora #angélicanunes #germanoxavier #canaloequadordascoisas

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Todas as ilhas nos deixarão partidas

*

Por Germano Xavier


(ou Um olhar sobre a poética de cosimentos de Daniela Delias)

O quê fazer para que se “entenda os desertos” de uma geografia poético-atemporal criada à beira dos silêncios universais de uma casa-mulher que abriga a liberta narrativa espacial das várias bonecas russas que continuam a se desdobrar entre mistérios e simples segredos em nossos locais-de-mais-dentro? De onde beber onde não há o vinho-fonte, a bebida em si nem o lacre, a taberna, mas somente a ilha que banha o imaginário sublime do que é humano? A ilha de Odisseu de onde partimos e aportamos numa viagem vital, única e amaldiçoada pelas brumas do destino que nem sempre manipula... E se bêbados, arautos das insones perturbações, para onde levar as embarcações que podem sofrer, à deriva, a constatação da inexistência das rotas? Para Feácia? A quem esperar, para quem todos os esforços dirigir quando a busca é a fuga possível?

NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA (Patuá, 2015) é o título da mais nova provocação em forma de livro escrita por Daniela Delias, extrema poetisa do sul extremo brasileiro. Em sua mais recente obra, como que “tocada pelo fogo”, a mão que teceu o belíssimo BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS (Patuá, 2012) agora dedica a voz de sua poesia ao encontrar-se dos centros e dos inícios das margens que abotoam as nódoas que calcinam toda uma pele do tempo. E ainda que haja ao menos uma centena de olhares possíveis para a obra, é sobre a nívea e augusta dor de ser que Delias embrulha seus indestinos de agora. Deslumbra-se, a palavra, nas mãos alvas de seda da autora nascida em Pelotas-RS, psicóloga e professora universitária. Com a mesma sutileza dos curtos poemas de seu primeiro compêndio, mas repetindo os exageros de consciência poética, Delias definha-se outra vez em confissões ínclitas as mais relevantes possíveis para nos alertar de que tudo neste nossa vida “é quase uma ilha”.

Tal qual a romana deusa Voluptas, “nos olhos antigas ternuras” são repassadas até a fronte do leitor a partir de uma poesia que se inscreve muito diante de um nunca-estar, mas que demonstra um autoconhecimento de impressionante relevo. Delias, num ofício de pescadora, escolhe o mar “e oferece a única face” possível: “um céu de onde se ir” na direção do puir das azuis durezas e das mínimas alegrias que nos formam caminhantes inveterados e incansáveis. O verbo torna-se cigano, ente errante, morador das rústicas torres e gigantes muralhas. A memória de trajetória presente em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA não contempla uma parcimônia de Penélope, pois é antes a dança das ondas de uma odisseia por demais particular.

Se “as coisas são o que são”, como escreve a poetisa no poema PLANO ABERTO, forja-se a ideia de que dor e beleza, coevos elementos, bifurcam-se logo no começo das estradas para terminarem sendo os rajares e as estrias que nos impulsionam as pernas peregrinas. Posto que, apesar de “as dores mesmas ainda que belas” não ajudarem a identificar os planos das experimentações e dos limites, “nada sabemos sobre deuses”, já que “não há certezas” nem oferendas místicas que nos impulsione acolhimentos de uma dada eternidade real, tão somente “há essa palavra aberta” onde “duramos além do gesto” e que nos oportuniza a dissecação do sensível.

Às moras do contexto, eis que “o amor deu de nomear as coisas”, todas elas, até as imprestáveis – estamos aqui a falar de crescimentos e maturações. E tal qual um maná que nos chega em formato de chuva divinal, ao sentir “a infância traída pelo deserto” fecundar o solo daninho e fazer “dobrar o riso” dos sorrisos tristes, “o barro antes das mãos” modela um fenômeno lauto de amor nos corações de todos os nossos mergulhos. O afetuoso canto das sereias é dado íngreme, mas reconfortante, pelas linhas de costura da maviosa imaginação da escritora.

Zéfiro, este vento que nos move para-além, ensina-nos que é necessário “morrer de amor” em ênfase diuturna, com força de provação, sem medos nem deludires. Delias, por sua vez, “toma a palavra exército” para alquebrar e alar-nos e “guardar os olhos de Aldebarã” para o ritual das iluminações profundas, já que o sentido mais rude de nossa estelar cegueira “é quando creio em tudo que fere”, como ela escreve em A NOITE.

E diante de abissal pélago, a poética de cosimentos de Daniela Delias encaminha-nos a escolher entre “um beijo de água-viva” ou “uma dança antes do salto”. Como que a lograr a imensidão das descobertas, abrasar toda espécie de desvio, afugentar histórias de perfídia ou impostoras bases... “e seríamos qualquer coisa entre o belo e o absurdo”, definidas dríadas enraizadas ao pé de nossas fomes mais possessas. Diante das adversidades, manter perto a calma, já que “de nossa sede não diremos”. Sê firme, “repara nas fendas”, pois “é só um desfiladeiro” a mais para que vençamos o desafio das nossas travessias.

Em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, a poeta diz “eu gosto dos vermelhos”, “como se toda leveza pedisse janelas” ou fosse “um haicai de Bashô”. Confessa: “eu traçava pequenas cartografias” e tal ato “abrasa equívocos”, como se unicamente desejasse “um gesto que engolisse a boca” ou que tudo findasse livre como em “uma varanda de flores lentas”. Ah, “mas você veria diamantes”, espanta-se, amorosa a voz das intimidades sedutoras, com “uma letra selvagem” a vontade de “despertencer” dos equadores náufragos que dificultam as mais finas especiarias para, como a achar-se hipotenusa, “molhar teu nome” e ir, e ir.

Costureira das redes maternais de seu tempo-instante, Delias sugere: “é preciso respirar pela raiz” e ser “promessa de flor”. Insiste em abrir nossos olhos: “é preciso tão pouco”; “à altura de meus segredos” um “céu aqui” seria o monumento maior das gratidões: seu Zepelim que tudo transpassa. Após contemplar-se na saudade, reflete: “já não quebro espelhos”. Cacos de nós todos “à pedra não pese a palavra”, nem tudo são senões, “há esses rios que secam” e “meu bailar sem peso algum” pode não significar coisa alguma. É “o tempo vestido de antes”, “a desrazão ordenada” e “dessa falta que leva ao fundo” ou “aos desejos do fundo”, “a moça tece embaraços” para “surpreender os vazios” e para tornar “os silêncios mais sentidos”, mesmo “soprando a noite pelas bordas”.

Aparelhada em dedais, poetiza à la Manoel de Barros: “cato minúcias”, “que a madeira cansada contrai” e assim, para sempre em-sempres, “lá vai o homem” que somos, que nunca seremos, que descartamos ou que ainda esperamos ver nascer. O sentido de Ulisses, em NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, reforma sua alma ao ver escrito que “a vida coabitava janelas” e que “a fúria dos calendários” é o novelo das “linhas que intentam frágeis costuras”. Por sua vez, Penélope, que há anos o esperou, “pensa na reta que liga” o “tudo ali inexistindo”, “o inventário de uma fuga” num estatuto onde “não há cercas nem cárceres” de onde “não dançamos aquele blues” nem foi preciso “repetir domesticidades”. Penélope é a própria Ítaca desabitada, assim como Ulisses, como eu e como você. Ítaca é a manjedoura que aquece o dorso das crianças que nunca deixaremos de ser.

Ao fim da jornada impressa em suas páginas, NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA simboliza o grito de uma Penélope ameaçada pelas falácias do mundo, mas que não desiste de enxergar o que o mar pode lhe trazer no próximo leque de espuma branca. Como a beber em Konstantinos Kaváfis, Delias enaltece o caminho, como a dizer-nos QUE VIVAMOS TUDO O QUE FOR POSSÍVEL VIVER!, pois mesmo que o caminhar siga “repetindo aquelas doces mentiras” que ora nos travam ou nos emparedam, “há um nome dentro do meu nome”, um nome feito de esperança - “e dançamos à margem do dia”, estás a lembrar? -, e “há que tomar as vendas” e “alimentar os dragões” da bondade para que os meninos de todas as dinamitadas Gazas nasçam sem o horrível medo do mar. Afinal, todas as ilhas nos deixarão partidas.

Ou chegadas.

NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA (Patuá, 2015), de Daniela Delias.

Daniela Delias escreve em Sombra, Silêncio ou Espuma

sábado, 20 de novembro de 2021

O MASSACRE DA GRANJA SÃO BENTO, de Luiz Felipe Campos


 

Saiba mais sobre a história de como um traidor e um torturador se aliaram num dos crimes mais bárbaros da ditadura militar brasileira, em um livro escrito pelo jornalista Luiz Felipe Campos. Você ainda confere as dicas da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

#omassacredagranjasãobento #luizfelipecampos #angélicanunes #germanoxavier #canaloequadordascoisas

O escritor das serranias diamantinas



 Por Germano Xavier


A existência deste texto não parte do agora, i.e., do tempo do presente instante, mas de alguns muitos anos atrás, mais precisamente a partir do dia em que mantive contato - em primeira leva - com os textos dele: o Sr. Ângelo de Mattos Pereira, uma das mentes mais abençoadas desta pacata cidade chapadense e baiana de nome Iraquara. A bem da verdade é que sempre tive vontade de entrevistá-lo, iniciar uma conversa com este homem de letras vigorosas, aprender apreendendo o seu mundo - que também é o meu mundo, o nosso, patrimônio de todo iraquarense e/ou habitante da inigualável Chapada Diamantina-, mundo regado de recordações, poemas de expressividade nada parca, contos cativantes no encalço de assuntos pertinentes à nós, histórias de se prender atenções, estórias de se atravessar gerações, realidades puras, ficções mais puras ainda... sempre, sempre foi a minha intenção senti-lo assim de mais perto, alma tão gigantesca, mas se antes não tive a força necessária para produzir fatos a partir deste meu desejo, foi por me saber ainda despreparado para tal. Um encontro assim não poderia ser elaborado à revelia, sem os devidos preparativos. Era preciso um cuidado todo especial, ler mais coisas sobre ele, dele, escutar mais, suspeitar mais, amadurecer mais... só assim o caminho do nosso primeiro encontro dar-se-ia em mais validade para os propósitos futuros.

Pois sim, foi na manhã de uma sexta-feira, dia 20 de janeiro de 2012. De casa saí em direção à residência do escritor - as horas que vingariam prometiam um teor de vida muito grande. Minha imaginação especulava muito sobre todas as coisas e seus respectivos equadores. Algo de muito maravilhoso eu estava para presenciar, enfim. Porta da casa do escritor: tudo muito natural. Manhã nem quente nem fria. Céu aberto. Falei com o filho do escritor logo na entrada, mãos trocadas e apertadas, e ele entrou para avisar ao pai que o rapaz jornalista da entrevista tinha acabado de chegar.

Fui no tracejo marcado pelo filho, entrando-me sem receio, o Sr. Ângelo estava retirando algumas sacolas de dentro de seu veículo, dentro da garagem de sua morada. Recebeu-me com um sorriso divertido no rosto e um aperto de mãos alongado. Jeito simples, olhar simples, ser humano. Terminou a tarefa que estava fazendo com um pouco mais de pressa e logo pôs passos nas pernas em direção ao andar superior, convidando-me a segui-lo, por onde se via uma espécie de plaqueta em tinta com o seguinte dizer: Toca do Poeta.

Uma certeza: eu estava no lugar certo, no abrigo das letras, na fábrica de poemas e contos de um dos maiores nomes da literatura (seja de ficção ou não-ficção) regional de nossos dias. Não é todo dia que podemos nos encontrar com um poeta vivo, fato que substancia ainda mais o valor daquelas horas para mim. Subimos, ele meio de lado, pisando com firmeza os degraus, em paciente subida. Fiquei no primeiro degrau, enquanto via o molho de chaves nas mãos do poeta, tremulando. Ele tentou uma, a porta não abriu. Escolheu outra chave, a porta continuava sem querer ser aberta. Até que na terceira tentativa, a porta que dava para o interior da Toca do Poeta descerrou-se e, encantado com o encantamento do aposento – de uma simplicidade comovente -, fui me atirando nos dentros do lugar, ao passo que o Sr. Ângelo organizava alguns objetos que se encontravam sobre a mesa.

Sentamos, compartilhando de uma mesa em madeira escura. Opostos, um de cada lado, num mesmo frenesi baseado em cumplicidade e respeito. Eu, um mero aprendiz das artes e gracejos das palavras, jornalista ainda mais mambembe, ao lado de um homem já de vida plena que hoje está preparando o seu quarto livro, este intitulado de Odisséia dos Coronéis Sertanejos, já quase finalizado. Os outros são, por ordem de publicação, respectivamente: Fragmentos de Saudade (2006), O Império das Serranias (2008) e Realidades Telúricas (2009). O que seria uma entrevista, logo nos primeiros minutos desmanchou-se de formato e deu lugar a uma prosa inesquecível de quase três horas de duração – não tinha fita de gravador que resolvesse.

Questionado sobre a infância, o poeta começou a falar sobre sua árvore genealógica. Família com antepassados de Portugal, avó materna portuguesa. Nascido no dia 19 de junho de 1939, na encosta de um outeiro na Vila de Olhos D’Água do Seco, em Ibitiara-BA, ainda adolescente perdeu a mãe, quando ainda tinha de 11 para 12 anos, vitimada de doença do coração. Filho legítimo de Rosalvo Pereira e Maria de Queiroz Pereira. Contou-me que o pai casou-se novamente após a morte de sua mãe, que gostava também da madrasta, a senhora Leonília de Queiroz Pereira, mas era da mãe Maria que o filho tecia as mais saudosas considerações e reminiscências.

Ele recorda, no que senti um tantinho de emoção na fala e nos olhos, do dia em que viu pela primeira vez o retrato da mãe pendurado numa parede. “Eu nunca tinha visto uma foto da minha mãe. Naquele tempo só se via foto de gente “importante”, ligado à política. Foi uma grande surpresa para mim. Ela estava linda.” Depois que o pai morreu, foi morar em Lençóis-BA, na casa de um irmão. Era o ano de 1958. Assim que atingiu a maioridade civil, veio para Iraquara, onde fez o curso de magistério e trabalhou 35 anos exercendo o cargo de Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais com Funções Notariais. Cursou Letras e Artes na Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia e, depois de aposentado, começou a perceber que sua vida estava muito parada, sem grandes novidades nem atrativos. E foi justamente após ter parado de trabalhar que o Sr. Ângelo de Mattos Pereira sentiu a necessidade de começar a escrever.

O poeta relata que sempre teve tendência para a escrita de textos dos mais variados formatos. “Em Ibitiara, certa vez uma professora chamada Lindaura de Brito, minha primeira professora, me passou um trabalho. Lembro como se fosse hoje. No outro dia entreguei-o pronto, todo feito em versos. Eu nem sabia o que era um verso. Eu me lembro dela dizendo: Isso aqui é uma poesia. Você é poeta, meu filho!” Tudo estava iniciado, como se tudo já estivesse escrito há muito tempo no destino. Sr. Ângelo citou alguns nomes dentro da família que também escreviam, a citar o seu avô materno, exímio poeta e médico, assim como também o grande e polêmico Gregório de Matos Guerra, conhecido também como “Boca do Inferno” e que, segundo o escritor iraquarense, é parente bem chegado dentro da genealogia familiar.

Entre uma e outra nova informação sobre os três livros de sua autoria que estavam sobre a mesa, pediu-me que eu lesse em voz alta o poema “A Terra não nos pertence”, que está na orelha do seu terceiro livro, o Realidades Telúricas. Ao passo que lia, sorria como que dizendo: “Não é verdade? Concorda comigo, Germano?” Um belo exemplar das temáticas mais trabalhadas pela verve do poeta-escritor, poema mesclado em linguagem culta e coloquial, com forte presença metafísico-religiosa. Falou-me de como se deu o processo de feitura e escolha da capa, e do quanto gostou da que trazia a figura de um anjo negro sobre a Igreja de São Francisco, na capital soteropolitana. “Era a capa perfeita”, balbuciou, feliz.

Ao passo que a parola se desenrolava, Seu Ângelo, como é mais conhecido pelos iraquarenses, reforçava a idéia do interesse pela escrita nascido depois do recesso do trabalho no setor da Justiça. “A gente tem tudo na cabeça. A gente sabe disso. Você mesmo sabe do que estou falando. Mas é o que é melhor dentro de tudo que possuímos que a gente deve cultivar. Todo mundo carrega tudo dentro de si, até as doenças estão dentro da gente, mas devemos tentar desenvolver só aquilo que é bom. Foi assim com a minha escrita. Eu sabia que tinha isso dentro de mim. Um dia sentei e comecei, e estou até agora. Não tenho vontade de parar. Hoje escrever é uma das coisas que me dão mais prazer. Vou lendo, vou escrevendo, aplicando alguma coisa de minhas experiências, arrumando outras informações e os textos surgem naturalmente. Eu pensava muito em como eu iria começar a escrever, mas aí as idéias foram surgindo, fui fazendo pesquisas também, e pronto, decidi escrever. Nessa brincadeira, já vou em quase quatro livros, e o quinto já vem aí, que será sobre a genealogia da família Matos.” Sobre o quinto livro, o mestre deu uma palhinha: “O primeiro da família Matos foi José Pereira de Matos, que chegou de Portugal, era um alferes, mais ou menos o que representa um sargento hoje e viveu em Santo Inácio. Quando ele chegou em Santo Inácio, casou-se com uma tapuia...”

"A melhor escola da vida é o mundo, e a melhor escola do mundo é a vida", soprou o mestre iraquarense, num movimento inesperado. Seu Ângelo geralmente escreve na parte da noite, após o jantar, indo até a meia-noite. Falou-me que gosta mais de escrever quando a cidade está bem parada, com pouco ou quase nenhum movimento, "quando até parece que Deus pára para ver a gente lá de cima", retrucou. É assim a sua tática de produtividade textual mais comum. "Eu adoro ser entrevistado, sabia?!", exclamou perguntando, da mesma maneira inesperada. "Muita gente começou a me visitar depois que comecei a publicar meus livros, gente de faculdade, estudantes, etc. Eu gosto por demais disso", revela.

Seu Ângelo chegou em Iraquara no ano de 1958, muito novo, ficou na casa de uma senhora, que servia de hotel, e acabou casando com a filha dela, Helenita Pereira Matos. Disse que veio para Iraquara porque ouviu dizer lá em Lençóis que havia uma vila, nem cidade era ainda, muito boa de morar, mais tranquila, de povo ordeiro e hospitaleiro. “Eu tava procurando um lugar para morar, aí vim para cá. Quando eu cheguei, a política me colocou logo para trabalhar no cartório, ganhando pelas custas, porque não era registrado naquele tempo... depois veio o concurso, e fiquei trabalhando até me aposentar. Naquele tempo só tinha buraco, terra, nada era calçado, quando chovia era um lamaçal, mas o povo era muito bom, aí fui ficando por aqui mesmo.

Teve ele outras oportunidades de morar em localidades várias, porém preferiu ficar em Iraquara. Com trinta e poucos anos foi que entrou para a faculdade de Letras, chegou a lecionar Língua Portuguesa e foi também vice-diretor do Centro Educacional Manoel Teixeira Leite, algo em torno de dois anos, porém depois ficou só no cartório. O escritor foi também quatro vezes vereador, em mandatos consecutivos, e candidato a prefeito, não conseguindo se eleger. “Não vou dizer que perdi, porque eu tiro esse fato como uma lição.” Sobre esta experiência, diz que se envolveu com a política porque a família era muito ligada nisso. “Quase todo mundo do meu sangue era da política. Tudo que fosse bom para as pessoas, eu buscava ajudar. Ajudei a fundar o segundo grau no C.E.M.T.L., eu registrei o segundo grau aqui na cidade.

Entrado em questionamentos mais metafísicos direcionados por minha curiosidade, começou: “Eu sou eu mesmo. Eu sou uma pessoa de família pobre, apesar de ter gente muito famosa dentro da família, a citar o coronel Horácio de Matos, que era primo carnal de minha mãe. Horácio de Matos tinha muito nome, era um cara quase analfabeto, foi Senador Estadual e muitas outras coisas, e continuou mandando na Chapada Diamantina todinha por muito tempo. Foi ele que fez a Chapada Diamantina, foi ele que escreveu a história da Chapada Diamantina. Certa feita eu ouvi um senhor dizer - ele era do começo do século passado -, que a história que se sabe do coronel Horácio não é nem metade da que ele realmente ajudou a fazer.”

Narrou um pouco sobre as antigas rixas entre famílias da região, inclusive com a sua, na localidade onde hoje é o Cochó do Malheiro, perseguições por causa de fazendas e terras, entre tantos outros motivos. “Perseguiram meu pai, perseguiram meu avó. Meu pai contava que um dia estava em sua casa, na fazenda, aí de repente chegava um caminhão cheio de soldados, e que eles corriam pelos fundos da casa, escondiam-se e lá ficavam horas e horas esperando eles irem embora. Um dia minha mãe me contou que todos da casa se esconderam perto dum riacho, e quando voltaram para casa os soldados, de prontidão, perguntaram por meu pai. Minha mãe disse que ele havia viajado, mentindo, como proteção. Um fuzil atrás da porta dava para ser visto. Eles iam para matar mesmo. Iam matar o meu pai. Sobre minha mãe, eles diziam: “Deixa, é mulher”. Se fosse meu pai tinha matado ali mesmo. Minha mãe era muito corajosa, morena, dos cabelos grandes, muito bonita, me lembro dela até hoje”, reitera.

As lembranças de uma Iraquara que não existe mais ainda continuam vivíssimas na mente do poeta, memórias vivas do período de emancipação da cidade de Iraquara, em 05 de julho de 1962. Era um homem muito novo, mas ajudou muito. “Aqui era muito atrasado, não tinha nada, todavia eu tenho saudade daquele tempo...” Foi me contando como tudo aconteceu, os primeiros mandatos, as primeiras confusões e embates, as disputas partidárias e as vaidades de alguns políticos. “Eu montava numa bicicleta e ia até a casa das pessoas tentar contribuir com alguma coisa em minha carreira política, fazer um favor, trazer um benefício, também ia no lombo de animal levar um remédio, um pouco de comida, tudo que eu pudesse fazer, eu fazia... naquele tempo quase que não se via automóvel por estas bandas”, balbuciou, com uma voz um pouco trôpega.

Sobre seus primeiros livros, a começar de Fragmentos de Saudade, diz ter escrito com o propósito de resgatar a cultura de nossa gente, que fez pesquisas sobre a Chapada Velha, sobre as formações rochosas... “Meu primeiro livro é muito apegado à minha mãe, saudade dela, daquele tempo, ela gostava mais de mim do que qualquer outro de seus filhos. A gente tinha tanto amor! Era uma pessoa muito prestativa, de coração enorme. Por exemplo, quando ela sabia que tinha uma pessoa com furúnculo, podia estar onde estivesse, ela preparava um espinho de mandacaru e ia lá furar ele, todo dia, até sarar o ferimento da pessoa.

E seguiu dizendo do seu papel de escritor: “O poeta não estuda, o poeta nasce. É o dom que deus dá.” Citou um pouco da história das polêmicas envolvendo Gregório de Matos e também do movimento Barroco e riu lembrando-se de várias passagens do poeta baiano. Falou da palmatória, instrumento de madeira com um furo no meio que sua mãe mantinha em casa. “Às vezes eu fazia alguma coisa errada, aí ela me batia com a palmatória. Quando doía muito, eu a abraçava chorando e ela chorava junto comigo.”

Ainda sobre a sua formação, recorda: “Se eu pegasse um pedaço de jornal no chão, eu lia todinho, um livro velho, qualquer coisa... Não havia tantos livros como hoje. Um dos autores que mais eu admirava era Erasmo de Carvalho Braga, educador e intelectual brasileiro. Ele escrevia contos, dissertações, ficções, os livros dele eram muito aplicados nas escolas. Naquele tempo a gente lia mesmo, tinha que decorar o significado das palavras do livro, porque a professora ia perguntar a gente no dia seguinte. Era só uma professora para toda a turma. Eram mais de 40 alunos. E eu sempre fui um dos mais adiantados. E quando era trabalho escrito, eu fazia tudo em verso. Eu amava minha professora. Quando ela me via, corria e vinha me abraçar”, lembra, emotivo. Sobre o livro Império das Serranias relata que ele nasceu depois de um convite de um amigo para conhecer a gruta da Torrinha, umas das mais completas em espeleotemas do mundo. Já o intitulado Realidades Telúricas diz ser um compêndio que reúne textos acerca de vários assuntos, do mais trivial ao mais filosófico.

E, como que de chofre, o tempo foi atravessado nas horas, certeza de amizade eterna travada. Era hora de deixar o poeta fazer sua refeição da tarde, porque poetas não são deuses, poetas são homens comuns – o que é muito mais difícil de ser. Fui me despedindo, depois de ser presenteado com dois exemplares autografados pelo autor. O Sr. Ângelo de Mattos Pereira relatando umas lembranças muito antigas, de crianças pobres que de perto via quando ainda era criança, no que destacando também seu lado humanitário aflorado nos dias de agora. Ao passo que ia colocando todos os materiais da entrevista dentro de minha mochila, reparei que atrás de onde eu permaneci por quase todos aqueles minutos estava um quadro com a imagem de Gandhi. “É preciso fazer o bem, meu filho, o bem. O bem em prol do Belo”, finalizou, num até breve sincero e amigo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

CONFORMA-TE; VOCÊ NUNCA IRÁ SE CONFORMAR, de Urbano Leafa


 

Urbano Leafa é uma das vozes da poesia marginal caruaruense e organizador do Slam Caruaru. Neste vídeo: impressões sobre seu primeiro livro, uma produção independente e que revela um pouco de sua verve de rebeldia. Você ainda confere as dicas da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

domingo, 7 de novembro de 2021

Braba, brava


Por Germano Xavier


guardei uma vontade

presa, assim, como um choro

intrépido, como um pássaro impuro,

uma vontade feita de esmeradas vozes

internas e ulteriores, uma vontade,

apenas, a sete chaves guardada 

nos caldeirões do Tempo, nada morna

de passados, noturna e hedionda

e violenta, uma vontade como um arrojo

ou uma coragem sem medo medido, guardei 

uma vontade para me guardar dentro 

daquilo que me aviva, que me cativa

ou que me faz chorar.


* Imagem: Deviantart
 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

ARQUITETURAS DE VENTO FRIO, de Walther Moreira Santos


 

Confira neste vídeo minhas impressões sobre o livro vencedor na categoria Poesia do II Prêmio Cepe Nacional de Literatura. Você ainda confere as dicas sobre ansiedade da psicóloga Angélica Nunes, em sua coluna Fala & Escuta.

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