Mostrando postagens com marcador Poemas Estranhos e Estrangeiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas Estranhos e Estrangeiros. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de dezembro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV)


 

Por Germano Xavier


Em busca das sereias do Reno


cedo parti para um último dia de descobertas.

por cima de uma enorme ponte, no oeste alemão,

atravessei o rio Moselle em tom de rápida despedida.

a Alemanha era já uma vontade conquistada.


em Boppard, aportei na Renânia depois de varar alta floresta.

uma região belíssima e com uma deliciosa cerveja de trigo.

logo, a proximidade com o Vale do Rio Reno

e todas as suas entidades lendárias.


atinei para Loreley em minha vã expectativa passageira.

seria mesmo possível ser tragado por seus encantos e cantos?

apostei para ver, e durante todo o percurso fluvial,

entre um e outro castelo medieval à margem daquelas frias águas,

agucei os ouvidos para, quem sabe, viver um momento desafiador.


todavia, como suspeitado, Loreley fez questão de se disfarçar

entre ruídos tidos como menos normais.


certo mesmo é que a minha última primeira visão 

de uma Alemanha quase rural e quase antiga e quase

menos desenvolvida do que realmente é me encantou olhos

e também ouvidos.


"sorte a minha não ter sido tragado por Loreley", pensei.


P.S. Após isso, uma parada em Frankfurt am Main. 

A noite apontava. 

Dormir e voar de volta ao Brasil...


(Colônia, Vale do Rio Reno e Frankfurt, 17 de junho de 2017)



Imagens: Acervo pessoal.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIII)


 

Por Germano Xavier


Uma espécie de Pequod


o Mar do Norte ainda me acompanhava em pensamento

desde que deixei Volendam para trás.

havia naquele momento uma espécie de chamamento acontecendo.


aí abri a tarde em Marken.

frio, muito verde nas casas de madeira

com janelas abertas e com seus donos nus

andando de um lado para outro em seus cômodos

sem nenhum tipo de preocupação ou pudor, 

como a habitarem um pequeno Éden.


no centro do pequeno condado,

avistei um Pequod ancorado na pequena orla.

fitei a embarcação por um bom tempo.

o frio me aquecia a alma.

recordei viagens que fiz em livros.

foi um instante simples e bonito, e eu precisava

contar isso a você.


(Marken, tarde de 16 de junho de 2017).




sábado, 25 de setembro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XII)


 

Por Germano Xavier


Odin e o Mar do Norte


a expectativa era bonita.

depois de muitos quilômetros, estaria eu

diante da possibilidade de tocar as águas

do Mar do Norte.


Amsterdam foi vista pelo retrovisor logo cedo.

a estrada era o meu caminho.


ao chegar em Volendam, após degustar queijos típicos,

o frio tomou conta da pele. era um primeiro sinal.

dobrei algumas vielas e corredores estreitos da pequena vila

e lá estava, o grande mar nórdico, o templo vivo dos vikings!


quando estou no centro de cosmos históricos,

consigo vislumbrar partidas e chegadas, gentes,

batalhas, alegrias e tristezas. não foi diferente ali.

o Mar do Norte me pareceu carregado de dores, 

suas espumas eram contidas, havia uma lamúria

na cor do que era líquido.


foi olhando para o Mar do Norte que descobri

que nem toda onda dança em festa de corais.


(Volendam, manhã de 16 de junho de 2017)




quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XI)




 Por Germano Xavier


Diamantes, canais e o Distrito da Luz Vermelha


chegando em Amsterdam, fui ver

uns diamantes. falei para a moça que apresentava as

pedras "sou da Chapada dos Diamantes" e quem 

me garante que esse aí reluzente não veio de lá?

ela deu risada, mas em minha fala havia revolta.

minha vingança foi maligna. aliás, eu sempre arranjo

um jeito de me vingar.


meia volta na fabriqueta e eu estava no centro da capital

holandesa. uma cidade belíssima. bicicletas.

muitas bicicletas. por todos os lados. de todas as

cores. bicicletas afundadas nos canais. um festival de 

histórias sobre bicicletas e seus donos. tomei um vinho 


e a embarçação abriu a noite.

dobrei umas ruas estreitas e me encontrei 

no Distrito da Luz Vermelha. observei atentamente

tudo ao meu redor. uma maneira particular de ganhar dinheiro, 

de vender o corpo, de exploração, de tanta coisa... muitos jovens

e muita fumaça e muito álcool e muitas drogas, eu sei.

até hoje relembro os olhos fugidios daquelas moças nas 

vitrines. seminuas e tão nuas de tanta coisa. observei. mas nem tanto.

não quis constranger ninguém. a Holanda é um lugar que 

merece uma atenção especial. muita coisa lá já é uma espécie de futuro.

ou não. um dia iremos saber.


foi quando pensei em Anne Frank. 

fechei os olhos logo em seguida, 

e meu pensamento me distraiu dores.


(Tarde e noite de 15 de junho de 2017)




domingo, 27 de junho de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte X)


 

Por Germano Xavier


Aromas do Norte


Haia, a terceira via holandesa,

apareceu como quem não queria nada. Foi apenas

um pouso, verdade seja dita. Fluido. 


Sede governamental sem ser, ela, 

a capital. Aqui é onde mora o Rei. E ele não está nu.


Admirei o Binnenhof, um dos prédios da Corte.

Mas, por um instante, senti um estranho cansaço. 


A Europa, por vezes, e em determinadas partes 

de seu território, parece ser um grande bloco-uno, 

em diversos aspectos, e este fato 

também pode ser percebido na arquitetura,

no paisagismo, sem grandes dificuldades.


Driblei turistas e tomei o rumo de um mercado

que havia avistado do outro lado da rua. 

Ali, dentro do estabelecimento,

tomei o suco de laranja mais laranja da minha vida,

observei um Canta LX e pensei em toda uma problemática urbanóide.


todavia, não foram os minicarros nem os vistosos prédios

dos diferentes tribunais mundiais espalhados pela cidade

que mais me chamaram a atenção. havia algo

que tomava conta daquele dia.


um cheiro se aprofundava em meu organismo.


era o Mar do Norte, vivo no horizonte oeste.

bucaneiros sabem quando as abissais águas do mundo

dançam sob os astros.


(Manhã de 15 de junho de 2017)


domingo, 6 de junho de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte IX)




 Por Germano Xavier


Perambulações medievais


vislumbrei Rotterdam e Antuérpia. vislumbrei.

no continuar do plano de rota o destino era a Veneza do Norte, ali 

pela região dos Flandres. no entorno de seu centro, muitos jovens

e muitas bicicletas. enquanto tomava fôlego para desbravar a medieval

cidade belga, parei em um típico bar local. 


um café, por favor.


antes de sair, conheci o curioso banheiro do estabelecimento.

havia uma singular atmosfera literária no ambiente.

porém, após uma rápida parada para colocar o pensamento no lugar, 

entrei pelas ruas e vielas de Bruges. 


canais me acompanhavam feito serpentes

a dar botes em minhas vistas extasiadas. a sensação do medievo

ainda por lá é viva, apesar das camadas capitalistas e multinacionais 

que maculam qualquer aura inocentemente pura das visagens.


os ponteiros do relógio novamente me enganavam.

sete da noite e o sol era ainda uma tarde em brotos.

após uma refeição aos modos de almoço rápido, 

parti para o Julgado Provincial, 

para um momento musical no Campanário

e para uma subida ao Museu da Cerveja.


Bruges guardava um azul tônico no céu mesmo em alta noite.

os tijolos à mostra de suas construções seculares remetiam ao seu famoso chocolate.

quando a noite parecia já querer cair tardiamente, estava eu bem no meio da Grande Praça

a contemplar longas memórias além-Atlânticas.

ali fiquei por minutos a contemplar detalhes.


fechei as cortinas do hotel. 

boa noite, Belgium.


(Tarde e noite de 14 de junho de 2017)


Imagens: Germano Xavier

domingo, 23 de maio de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte VIII)


 

Por Germano Xavier


Em terras de Hergé, mas em busca de Marx


ainda era cedo quando pegamos a giratória do Arco do Triunfo

para um último aceno a Paris. logo Saint-Denis, o Charles de Gaulle,

a Picardia, Champagne, as proximidades da Amiens de Verne, A1, E19,

até um pouso calculado no Atomium.


Bruxelas me recebeu com flores e bastante discrição.

a catedral de São Michel e Santa Gúdula aclimatava a paz 

dos meus primeiros passos em solo belga.

ali, nas imediações da Rue d'Arenberg, dobrei e investi passos

por dentro das Galerias Reais Saint-Hubert.


parei por um instante para prestigiar uma moça que cantava lindamente

o que parecia ser uma canção autoral. o som da gaita me cativa.

peguei em diagonal até à Rue de la Colline. Tintin de Hergé 

ali poderia ser encontrado e um tempo fiquei.


enfiado por entre as gentes, me fiz andar e logo se abriu para mim

a estonteante Grand Place, considerada por alguns especialistas viajantes 

a praça mais bonita da Europa e, quiçá, do mundo. depois de vários rodopios 

nas vistas, fixei no Le Cygne. reza a lenda que foi dentro daquele modesto estabelecimento

que Marx e Engels pensaram e escreveram o Manifesto do Partido Comunista.

estar ali, por tudo, era incrível. a gente acaba sentindo um pouco

daquela aura histórica só de respirar nas proximidades dos fatos

e dos sentidos.


havia uma felicidade diferente em mim.

imaginei toda uma memória de reuniões proletárias e de luta 

e de enfrentamento. a poesia do socialismo pairava no ar em meio 

a tantas narrativas inversas presenciáveis sem nenhum esforço.


após aquele meu natural deslumbre,

toquei a estátua Everard 'T Serclaes, experimentei uma das famosas guloseimas

belgas e ao lado do Manneken Pis sorri sorrisos de liberdade.


a tarde era um destino repleto de guildas.

encostei minhas costas nas paredes do imenso Hotel de Ville 

e simplesmente fotografei o Tempo.


(Manhã de 14 de junho de 2017)


quinta-feira, 6 de maio de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte VII)


 

Por Germano Xavier


Uma Paris 


o palaciano setor de Versalhes já havia ficado no passado quando, 

sem muito pensar, decidi conhecer a Ópera Nacional de Paris. 

o prédio estava lá, um monumento eloquente 

e repleto de brilho. Galeries Lafayette bem ali 

nas proximidades: uma loja de departamentos 

na capital francesa, nada mais.


após sondar as redondezas e uma parada para café com conferência em mapas,

entrei no túnel do metrô sentido Montmartre.

ali, via estações elevadas e subterrâneas Stalingrad, Paris

me surgiu repleta de imigrantes, com suas vestimentas típicas, com suas fomes

de quaisquer coisas bem mais visíveis aos olhos, com suas ruas e moradas

mais simples e bem mais dia e bem mais dor e bem mais fogo.


namorei por um tempo a fachada do Moulin Rouge até pegar o trenzinho 

até a Basílica do Sagrado Coração, símbolo máximo do boêmio bairro.

subi as ruelas com o coração alegre. 


Paris não era apenas o óbvio, 

tinha cheiro de humanidade e todos os mistérios de arte viva.

foi ali, no entrepasso do escasso tempo, que ao ter de partir senti o mal

maior das horas passantes. quanto tempo se perde em Paris

longe de Montmartre!, pensei.


a hora avançava rápido e entrei em um metrô para as margens do Sena, novamente.

de lá, por sorte tomei o último trem A14 para La Défense. 

o céu claro inda era ao longe e me encostei no Grande Arco. 

fiz um rápido lanche e observei a dança sem ajustes de um negro

bem no meio daquele grande pátio de espelhos.

ele segurava uma garrafa de vinho e todos os seus medos

em suas mãos. aquela cena ficará, 


ficará.


olhei para os lados e depois para o céu beirando a linha do horizonte.

eu não tinha mais mapas nem carga no aparelho celular 

e o único jeito era sair perguntando qual o caminho 

para o hotel. o guarda mais próximo não entendia (ou não queria).


um francês local, que morava próximo ao hotel,

escutou a conversa e se prontificou a ajudar. foi ele o guia por cerca de 30 minutos,

entre prédios, supermercados e desvios que só um morador da localidade

saberia executar com tamanha destreza. 


era Paris se despedindo de meus olhos de um jeito muito inusitado.


restou um fiapo de tempo para um chope dentro de um último pensamento.

Paris é mesmo uma festa, balbuciei.


(Paris, tarde e noite de 13 de junho de 2017)



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte VI)



por Germano Xavier


 O Absoluto vazio de Versalhes


"Versalhes é logo ali", para quem sai de Paris.

a manhã era fria e por isso levei um casaco comigo.

observei pela janela do ônibus a grandeza do velho castelo.

desci e tomei a fila. era imensa. o sol começava a apertar o juízo.


"este era o pouso do Rei Sol, não é para menos", balbuciei.


diante do frontispício daquele antigo e reluzente pavilhão de caça, não

era difícil encontrar presas humanas, todas apreensivas e curiosas.

o capital adora a França em certos lugares (ou seria o contrário?) e 

a realeza francesa era no mínimo extravagante.


portões abriram-se para mim.


logo o Grande Trianon, as alas, a Capela

e a Galeria dos Espelhos, os quartos dos monarcas,

seus segredos, suas artimanhas políticas, suas vozes de ouro,

suas gulas e invencionices, todo um percurso

marcado pelo reduzido dos espaços lotados

e das cordas de contenção.


lugares como Versalhes explicam o motivo da humanidade

estar assim na atualidade, perdida em infinitas perdições.


na perdição das injustiças, das desigualdades, na

perdição das dúvidas e das dores, na perdição

das solidões e das intolerâncias, na perdição

dos medos.


quando desemboquei nos jardins do palácio, respirei

todo um organismo matemático que me libertou

pela metade. as contadas horas me conferiram belas vistas, 

mas também não me avisaram sobre os perigos do labirinto.

eu havia encontrado Borges em Versalhes

e aquilo me renderia uma memória eterna.


desejei possuir mais horas ali dentro, confuso

entre a visão de um corvo na grama do parque 

e o Apolo na fonte do Tempo a me apressar.

"Versalhes, este vazio Absoluto é toda a história que tens a contar?", me perguntei.

a voz era interna e afeita ao nada.


não esperei por uma resposta.

fui o último a entrar no ônibus que me devolveria à Paris.



(Versalhes, manhã de 13 de junho de 2017)

domingo, 4 de abril de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte V)


 

por Germano Xavier


As gárgulas de Notre-Dame


há uma espécie de portal do lado de fora do Louvre.

quando nas alturas da famosa pirâmide, observei o horizonte

mentalizado em mapas mentais construídos na noite passada.

era só seguir em frente e, enfim, o Arco do Triunfo.


ah, Napoleão, como a França está impregnada de ti!, balbuciei.


mas não nos esqueçamos: o bom mesmo é o caminho, não o fim dele.

uma pausa para um sorvete de casquinha e um sereno sol 

às vésperas dos Jardins das Tulherias. 

| uma pose para uma foto? |


logo após os verdes amarelados das árvores, o Obelisco de Luxor

na Praça da Concórdia. de tanto andar, os pés reclamavam.


entrei na Avenida dos Campos Elísios e o relógio no pulso

marcava quase sete da noite. o céu tinha cara de meio de tarde

no nordeste brasileiro. tudo estava azul acima da linha-horizonte.

parada para um chope e algumas amêndoas. 


ali, sentado, 

fiquei reparando a parca ou quase nula propaganda nas fachadas

dos prédios usada pelas grandes marcas multinacionais.

a tal da discrição, fina e também excludente, pensei.


após um último gole, pensei que não valeria a pena esticar 

os passos na direção do Arco Triunfal. paguei um tuk-tuk, dizendo:

para mais próximo do Sena, por favor.


19 euros me deram direito a dois dias de navegações por sobre o Sena.

a embarcação Batobus era rotineira e possuía estações de sobe-e-desce.

toquei para a réplica da Estátua da Liberdade, para a região do Trocadéro, 

pontes e mais pontes, e num retorno mais aligeirado,

fiz uma parada para conhecer a morada de Quasímodo na Ilha da Cidade.


por um vacilo imenso e que ainda me fará retornar à França, 

deixei de conhecer a Shakespeare and Company, logo ali.

culpa das horas velozes ou das gárgulas de Notre-Dame. 


o Tempo do viajante é cruel, muito cruel, amigos.

e há horário para tudo no mundo, sabemos, até para os trens 

e para os metrôs.


em sendo assim, olhei tudo em volta e disse: É isso! 


hora de voltar para o hotel

e maquinar uma saideira de gala nesta França de tantas coisas.

George Whitman, Sylvia Beach, mil perdões, mas eu voltarei.



(Paris, noite de 12 de junho de 2017)

quinta-feira, 18 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte IV)


 

por Germano Xavier


A batalha de Rivoli

 

estando eu à Rue de Rivoli, ali quase à beira do Sena,

lembrei-me novamente de Napoleão.

porém, agora (e novamente), ele pouco me importava.

eu estava literalmente ao lado do Musée du Louvre, simplesmente

o maior museu de arte do mundo.

 

este fato diz alguma coisa a qualquer pessoa que, de uma ou outra forma,

ama a Arte. cruzei a rua,

conheci subsolos centrais parisienses e busquei por um ticket.

15 euros para a entrada em um dos paraísos na Terra.

 

o movimento estava até tranquilo.

dava para parar várias vezes e observar

a fundo variadas peças, entre antiguidades egípcias, gregas,

romanas, etruscas, islâmicas,

artes decorativas, esculturas, impressões, desenhos

e pinturas.

 

passa-se, facilmente, um dia inteiro a andar pelas galerias do Louvre.

a Monalisa me fez recordar uma crônica do Affonso Romano de Sant’Anna

e, com base nela, eu reafirmo: "Não deixem de viver o Louvre por ela".

 

busquei Michelangelo Merisi desde o primeiro passo, confesso.

depois de duas paradas para descanso, quando as pernas já ardiam

em passos incontáveis, deu-se o grande encontro.

deu também vontade de chorar, de ficar ali para sempre.

 

depois, já sentado à margem da pirâmide exterior do Louvre,

e observando os contornos do Arc de Triomphe du Carrousel, peguei-me a pensar:

“Que me perdoem Gustave Eiffel, Napoleão, tantos outros...

mas vejo o verde em minha frente...”

 

os tons terrosos de Caravaggio

(ainda em mente) me aclararam, naquele instante,

impiedosas luzes.


(Paris, tarde de 12 de junho de 2017)

sexta-feira, 5 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte III)


 

por Germano Xavier


Para além dos Inválidos


havia um café bem na frente do túmulo de Napoleão.

a França tem o estrategista e homem de guerras como um consenso 

e na Église du Dôme colocou-o a descansar sob o Tempo.


eu não estava ali para vê-lo numa urna.

virei o rosto e continuei observando o café abarrotado de pessoas 

em uma manhã de sol com fiapos de frio por entre as nuvens.

eu tentava captar Paris de todas as maneiras.


Rue de Grenelle, Esplanada dos Inválidos, Bonaparte....

Oh, França, teus heróis de guerra são menores ou possuem

a mesma estatura de Jean Valjean!, sussurrei.


algum tremor de terra deve ter acontecido naquele momento, 

mas eu estava interessado nos caminhos: 


Rodin, o café onde Sartre e Simone pensavam

nossas existências, Saint-Germain, o bairro latino, Sorbonne.

tantas referências literárias, os cemitérios, as avenidas, jardins, praças,

as cenas dos Nouvelle Vague que assisti.


foi quando olhei o relógio após longas descobertas. era o fim 

daquela manhã. 


no meio da rua, estiquei o olhar um pouco acima de meus ombros

e vi a alta treliça de ferro nas imediações do Campo de Marte.


Napoleão vai ter de esperar, balbuciei.


(Paris, manhã de 12 de junho de 2017)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte II)


 

por Germano Xavier


Em busca do Sena


deixei as malas no Hotel Mercure Paris La Défense

logo após o check-in. o tempo do viajante é escasso, não se pode 

perdê-lo sem maiores motivações. já era noite na França

e o céu tinha a cor azul de uma típica tarde brasileira.


quebrei a Rue Baudin e desci a duplicação

do lado oposto à Place Charras.


atento, alerta, precisava de mantimentos. 

uma água e algo para comer. era domingo e era sozinho.

supermercados fechados e o vazio 

das ruas me fizeram esquecer necessidades.


olhei para os prédios espelhados do maior centro financeiro parisiense.


ali, entre sedes de empresas do ramo imobiliário, agências de crédito agrícola

e multinacionais, vislumbrei pela primeira vez o verde opaco do Rio Sena.

até a orla, até a orla!, aquilo era uma ordem, pensei.


la Seine, la Seine!, vociferei internamente ao vê-lo tão de perto.


águas do norte que se misturam, após tantas distâncias, ao Velho Chico.

uma ponte, em nossa direita, convocava destinos. 


em junho a Europa engana os relógios do sul. 

era hora de voltar ao redondel do hotel, subir 

até o quarto e pensar no amanhã.

no amanhã-hoje.


porém, antes, e no topo do último posto visitável, 

olhar a Paris Iluminada até onde os olhos pudessem alcançar.


(Paris, noite de 11 de junho de 2017)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte I)


 

Por Germano Xavier



Paris-Orly


Ramón era um boliviano morando em Paris

há bem uns sete anos. Recebeu-me a caráter no desembarque.


| o outro casal demorava a aparecer |


baixinho, com seus traços indígenas tradicionais, 

agigantou-se e disse vamos, não tenho culpa!


entramos na van e a França se abriu em viadutos e avenidas.

Isto mesmo, Courbevoie!, disse.


pelo caminho, admirei o gosto pelas motos, o padrão dos prédios,

as árvores esquecidas entre grades e portões, o ar de algo parado no Tempo

e ao mesmo tempo em movimento.


e logo a Ilha de França. 

a famosa zona industrial, pensei com meus botões,

e desci. Ramón foi cordial e ajudou com algumas informações

durante o percurso.


em solo parisiense, pensei mais uma vez no casal

que não cheguei a conhecer.


realmente, Paris entorpece os desavisados.


(Paris, tarde de 11 de junho de 2017)


* Inicio hoje a publicação de uma série de poemas que escrevi durante viagens que fiz ao exterior, entre os períodos de 2010 e 2020. Ao todo, os poemas demarcarão um território de experiências vivencidas em 14 países, incluindo o Brasil. Boa leitura a todos e todas. Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: https://www.aeroportosdomundo.com/aeroporto-ORY-hoteis/