sexta-feira, 11 de junho de 2010

Diálogo impertinente


Por Germano Xavier

- Ei!
- Manda.
- Quem te ensinou?
- Gostou daquele último, hein?
- Longe fui, desgovernado.
- É, só serve para isso mesmo, e para estes, os desgovernados. Depois, cada um escolhe a sua cruz...
- Pesada?
- Diria malva, quase púrpura.
- Dói muito?
- Minha casa fica na do Pronto-Socorro. Quando quiser...
- Passar bem.
- Melhor dizer isso aos pássaros. O que eu quero é o contrário. Só assim...

sábado, 22 de maio de 2010

O cinismo do sol


Por Germano Xavier

Onde estão as algemas? Preciso prender o Tempo! Devo armar uma tocaia, eu sei. E pegá-lo por trás, sem que ele perceba. Mas, onde estão as algemas? Não sei onde as deixei. Estou perdido. O frio é insuportável! É noite... Pequenos insetos voadores circundam os vidros translúcidos das luminárias dos becos da cidade que dorme a morte diária. Muitos fantasmas me espiam. Eles desejam o medo... querem que eu sinta medo... Bravo sou! Mas, onde estão as alg...

Que frio intragável! A escuridão noturna é a ironia do sol. O sol é mesmo um cínico, um partidário da rutilante desfaçatez. Sinto o vento gélido que vem dobrando as esquinas vazias, sem almas. Frio... Preciso amarrar o Tempo! Vou construir armadilhas para pegá-lo desprevenido. Espalharei ardis por toda a cidade. Isto me custará um tempo. As copas das árvores balançam numa dança macabra, elas parecem sinalizar alguma coisa.

O frio é cada vez maior. As algemas! Procurei por todos os lugares e nada. Estou perdido. Não conseguirei o que quero. As velhas casas parecem tão vivas. Mas, e o Tempo!? Meu Deus, onde estarão as algemas? Minha cabeça, onde estará?

Antes em forma de brisa, os ventos agora resolveram se agigantar. Eles sopram forte. O cenário é de esquisito. Sinto frio... Meu corpo treme. Sinto-me fraco, cansado. Vou descansar um pouco. Encosto numa parede e recolho algumas armadilhas para perto de mim. Folhas são sinfonias que escuto. Minha visão é confusa. Acho que vejo alguém se aproximando. Uma sombra. Um vulto. E cada vez mais perto. A sensação de frio é desumana. Tento um velho agasalho, não adianta. Meu Deus, será Ele? Algo de feições muito estranhas está vindo em minha direção. Beiro a cegueira. Por Deus, as algemas! Onde estarão as algemas? Até quando este suplício? A sombra... A sombra que desaparece. Não vejo nada. Tudo é silêncio e noite. Indesejável frio! Preciso prender o Tempo! Mas...

Saí em disparada. Os loucos...

O sol se lança. Um novo dia atravessa o caminho dos meus olhos. E eu que preciso prender o Tempo! Eu que preciso! Ainda o frio. Sento na calçada. As antigas formas se reconfiguram. Daqui, pacientemente, espero o Tempo passar...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Solto no tempo


Por Germano Xavier

o amor volta desesgotado
como num céu só azul
tomado pelo branco fundo
e como refúgio sem pragas
um pássaro negro voa.

aceita o convite do vago
e enche o vão,
bota em baque a explosão
presa no disparo.

pooowww!
quem cairá será homem?
ninguém regressa de uma morte
mesmo sem queda.

quem ama impele a deixa
e deixa
o passado solto no tempo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Uma conversa, uma espreita


Por Germano Xavier

XIV

"É, se Deus quiser tudo vai melhorar!"

"Ah, não sei não. Eu duvido! Do jeito que as coisas vão..."

"A gente precisa pensar positivo, acreditar no ser humano e nunca desistir de lutar por nossos objetivos. E também nunca deixar de ter fé, porque sem fé tudo desanda."

Li isso em um destes livros de auto-ajuda, onde se ensinam as melhores formas de ser feliz, como se a vida tivesse uma cartilha.

"Sei não, eu sou meio cética em relação a esses pensamentos. Para mim, a vida é dura mesmo. Isso é baboseira editorial, só para vender livros."

"Não é bem assim, como você pensa. Estes livros de auto-ajuda sempre estão certos. Se a gente seguisse as 'receitas' que existem neles, o povo certamente encontraria a felicidade, a alegria de viver, a harmonia e até saberia a maneira mais fácil de arranjar dinheiro, porque você sabe, hoje em dia quem não tem a bufunfa se dá mal na vida, muito mal..."

"Eles ensinam a ganhar dinheiro, é?"

"Eu até já consegui comprar um aparelho celular para cada um dos meus filhos! Um televisor de plasma para ver os jogos da Copa, um aparelho de dvd para o meu caçula - ele adora aqueles musicais da Xuxa -, um microsystem de 6000 watts de potência de última geração, uma lavadora de 8 quilos igual a da propaganda, uma mesa de jantar giratória do tamanho daquela que foi utilizada no último reality-show da Globo, um relógio que projeta as horas na parede do meu quarto e outro que mostra até as horas no Japão, um casaco de pele italiano, um colar de ouro 24 quilates, um apartamento naquele condomínio de classe alta que saiu no jornal, dois conversíveis, vinte câmeras embutidas, dezoito seguranças particulares, cinco babás de descendência européia e muito mais. Tudo porque segui à risca os meus livros de auto-ajuda."

"Amiga, como a sua vida mudou!"

"É, graças ao meu bom Deus, a minha vida mudou completamente."

"E como vai a família?"

"Estão todos bem. O Eduardo está estudando na Inglaterra, a Ana Maria é dona de uma rede de supermercados em São Paulo e o meu caçula está seguindo os passos do pai."

"Ah, e o teu marido, mulher! Como vai o Adamastor?"

"Ele está bem, mas muito atarefado. Depois que abriu a Igreja da Universalidade Cristã do Amor do Bom Deus Sagrado do Quinto Dia, ele quase não tem mais tempo para vir aqui. Sabe como é, aquela igreja é a nossa fonte de vida. Tudo que temos hoje devemos a ela. Aleluia, Senhor! Aleluia!"

(...)

Ai, como dói a minha cabeça! Até parece que levei uma martelada ou coisa parecida. É a civilização, meus caros! É esta podre civilização! O que é isso? Quem são vocês? O que estão fazendo, seus impostores? Eu preciso urgentemente da minha puçanga! Onde estão meus comprimidos, onde estão? Não fujam de mim! Eu não sou louco! Eu não sou louco! Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos". Onde os meus "pássaros coloridos"? Onde a corda, eu preciso afastar meus olhos desta visão perturbadora! Vocês sabem o que fazer. Eu confio em vocês! É que eu preciso descansar um pouco. A liberdade está aí, como eu já disse, na fumaça dos seus cigarros. Eu sei de tudo que te fere! Eu sei!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um texto boliviano, solamente


Por Germano Xavier

Na verdade, um texto boliviano e preconceituoso, feito de verdades desmistificadas
e regado à "Tabacaria", de Fernando Pessoa.


Quase 4 horas da manhã e o homem da história encontra-se num dos quartos do Hotel España, próximo ao ponto de táxi que tem por origem a localidade de Montero, numa rua adjacente a calle Cañotto, uma das avenidas principais que corta o primeiro anel da cidade de Santa Cruz de La Sierra, no centro da Bolívia. O homem está pensativo, não consegue fechar os olhos. Olha intensamente para o ventilador de teto que gira lento enquanto faz perguntas incontornáveis a si mesmo. A mulher da história tenta dormir ao seu lado, na cama de casal estranha. Ele levanta várias vezes, e deita várias vezes também. Olha da janela a pequena praça quase abandonada de luzes. Enxerga um pequeno homem adormecido num banco solitário. O vento balança a copa das árvores, há um silêncio inquiridor no barulho que adormece. O homem da história visita os quatro cantos do cômodo e vê as malas jogadas e abertas calarem-se diante do destino feito de impulsos. A rota fora feita e lá estavam os dois, o homem e a mulher da história.

A cidade parece estar calma. Do aeroporto ao hotel, foram poucas luzes, ruas estreitas, avenidas sem gente, viadutos em construção, caminhos mudos. O táxi era velho, uma perua Toyota daquelas em que os retrovisores ficam próximos aos faróis, certamente da década de 80. O carro cheirava a sujeira e a gás. O motorista acendeu um cigarro e fez pouco do tempo novidadeiro em que os dois navegavam naquele momento - o homem e a mulher da história. Havia mais um homem dentro do velho táxi, conhecido da mulher da história. Tatuagem no braço, conversa de andarilho de mundos e fundos, jeito duvidoso. Foi contando coisas sem serventia para a vida durante todo o percurso e no final avisou que levaria o homem e a mulher da história para conhecer a UDABOL (Universidade de Aquino da Bolívia) no outro dia, bem cedo. Mas os dois estavam no hotel, dormindo na companhia de pequenas baratas bolivianas que adoram um umbral de porta de banheiro. O silêncio não era silencioso.

Os dois acordaram cedo e foram ao encontro do mesmo táxi do dia anterior. Nada do motorista boliviano. Esperaram sentados em frente a uma estação antiga de rádio, onde se via um homem a pronunciar frases esquisitas por um rádio do tipo amador, como querendo fazer contato com algo ou alguém muito distante. A espera prosseguiu por horas a fio, quando os dois resolveram andar um pouco para procurar algum estabelecimento onde se pudesse fazer o desjejum. Foram na direção do centro, sem saber, compraram água, que tomaram no caminho, e voltaram ainda com fome nas barrigas. Foi quando passou um vendedor de amendoim enrolado em saquinhos e um tipo de semente tostada cujo nome não souberam decifrar. A mulher da história comprou o saquinho com as sementes e experimentaram, os dois. A semente tostada tinha gosto de semente tostada. Fome, de bocas e de corações.

O velho táxi chega em meio aos gritos de “Montero, Montero!”, dados pelos taxistas da área. O calor era “caliente”, como se diz por lá. Sufocante no centro da cidade. Passamos para o terceiro anel – a cidade de Santa Cruz de La Sierra está construída na forma de 5 anéis, cortados por uma avenida-mestre – e logo chegamos ao apartamento onde o segundo homem da história residia, o tatuado sem pinta de estudante que acompanhou os dois desde o desembarque no aeroporto internacional de Viro-Viro. Algumas quadras e lá estavam os dois, ou melhor, os três, diante da bela e tão “sonhada” e “barata” faculdade de medicina boliviana. Antes passaram numa lanchonete e comeram um bolinho de nome salteña, com batata e frango dentro, de gosto duvidoso. O homem da história desgostou da guloseima e pediu um pão mesmo com queijo quente. Depois entraram na faculdade UDABOL e como tudo era tão lindo e maravilhoso!

Os dois andaram pelos corredores, entraram em portas, conversaram e ouviram em castelhano, deslumbraram-se com o tamanho das coisas e bonitezas estrangeiras num país miseravelmente abandonado pelo restante do mundo. O homem da história começou a duvidar de dúvidas já existentes. Alguma coisa devia estar errada. Que contraste!, pensou. Um Hummer H2, no valor que passa de 1 milhão em moeda brasileira, estacionado na frente da universidade, e um país que se movimenta em microônibus do tempo das nossas avós. Laboratórios, saguões, biblioteca, sala de apoio aos estudantes estrangeiros e estudantes de medicina, tudo visto e visitado. A hora da aula de anatomia estava próxima. Uma expectativa imensa e um rolo compressor...

Estudantes de medicina do primeiro semestre esperam alguém vir abrir a porta da sala de aula. Atraso de mais de meia hora. O professor que não chega. Quase ninguém com cara de estudante. Quase ninguém com cara de nada. E o homem da história no meio de tudo, no tudo do meio. O homem da história revisa e visa tudo e todos, parece não estar se sentindo à vontade. O jovem professor chega de preto nas vestimentas. Toma uma espécie de chá e vomita uma curta aula sobre a primeira vértebra cervical. A aula de anatomia estava dada. Em dez minutos, o homem e a mulher da história deveriam se endereçar ao laboratório para a aula prática. O que deveria ser 10 minutos de espera vira mais de uma hora inteira. O professor chega, distribui ossos para a turma, agora fracionada em três, recolhe dinheiro dos livros que ele mesmo editou e vendeu-empurrou aos alunos, corrige alguns exercícios (chamados repasses) e se vai. Os estudantes de medicina estudam medicina sozinhos no laboratório-açougue da UDABOL. A cena choca o homem da história. Tudo não era mais tão lindo nem tão maravilhoso assim...

O estudante brasileiro de medicina típico da UDABOL usa shorts coloridos, com flores como estampas, geralmente são tatuados, usam óculos escuros, estão sempre fumando e falando asneiras. Meninas brasileiras estudantes de medicina na UDABOL passeiam com suas caras da festa do dia anterior, desfilando seus shorts justinhos, suas blusas decotadas e parcos materiais de estudo. Parece haver uma disciplina da grade escolar chamada “Zueira”. O homem da história que pensava estudar medicina na Bolívia não encontrou medicina na faculdade de medicina. O homem da história volta ao hotel, toma um banho e não consegue dormir. Talvez um “pollo a la brasa” sem “plátano” no outro dia resolva...

A mulher da história desaparece da história neste momento por vontade do homem da história. Ele não quer mais interferir nos caminhos da mulher da história e passa a contar somente a história de sua própria história. Nem dois “pollos a la brasa” foram capazes de amenizar a doente alma do homem da história, tamanha a inquietude dentro do seu ser.

Coca cola, sorvete, pão integral e queijo, nada, nada... o homem da história conhecera o inferno dentro de si mesmo. Buscara saídas em todas as coisas e não via portas. O povo pobre da Bolívia lhe atingindo as vistas trôpegas, tão educados e tão esquecidos pelo governo. Pena lhe dava, compaixão ao ver os nativos jogados nas ruas, sem perspectivas. O homem da história havia decidido. Lá não haveria de ser o seu lugar.

O homem da história dormiu certo do que iria fazer. Voltaria ao Brasil o quanto antes. E assim sucedeu. Madrugada na Bolívia e uma ilusão desvendada. A cortina aberta de um teatro de mamulengos desesperados, inclusive ele. Mas ainda lhe havia um tostão de ética e razão enraizada em seu âmago. Abandonou o barco furado no meio do ciclone. Não acenou uma despedida, mas encontrou a paz dentro do avião. Um cheiro de saudade lhe saltou do olfato. Quis o aconchego dos ventos, pois somente eles...

Novamente o ar do país de nascimento. Certezas aprimoradas. Nuvens brancas no céu. Dúvidas solucionando-se na mente. Pés pisados em ovos agora mais leves. O corpo mais leve. A cabeça tranqüila. Nada melhor que um pensamento sem grilhões, pensou.

Seria trágico se não fosse cômico. Mas o homem da história era eu. A própria história do homem da história era a minha própria história de mim mesmo. O homem da história abandonou o naufrágio no começo para não morrer afogado no fim da história. E depois de chegado, abandonou outros barcos furados, para se sentir à vontade remando à vela na companhia de seus velhos e bons ventos pastores...

Doa a quem doer, minha opinião é curta e grossa: não perca seu tempo sonhando em cursar medicina na Bolívia ou em nenhum outro país estrangeiro. Estude para fazer o curso aqui mesmo no Brasil, por muitos motivos. A experiência que tive serviu para eu me encontrar dentro de mim mesmo, para ter uma conversa de mim para comigo. Desisto de ser quem não quero ser e quem nunca quis ser para ser o que quero ser e o que sempre quis ser. Adeus, medicina! Adeus, odontologia! Que venham as Letras e o Jornalismo! Que venham os conheceres profundos, nada técnicos, da arte e da alma humana! Avante, bucaneiros...

Apenas um menino de Iraquara

Por Germano Xavier


Para o pequeno Pedro Henrique, meu mais novo "amigão".


Por que ser adulto é tão chato assim? Eu não entendo e parece que nunca vou entender porque mudamos tanto de uma hora para outra. Sabe, no fundo, bem lá no fundo mesmo, eu não queria que aquele garotinho recluso, inventivo e irrequieto, dono de uma arraia enorme e que nunca planou no ar por falta de ventos mais fortes, ficasse assim sem jeito, mais que encabulado, macambúzio até, apagado aqui dentro de mim.

Aqui dentro, mas é bem dentro mesmo, eu queria que aquele “menininininininininininininininho”, como sempre escrevia em seu caderno, consertador de coisas, continuasse a consertar as coisas para minutos depois desconsertá-las, e para novamente consertá-las... Que bom mesmo é ser inventador de invenções, construidor de planetas, afetador de águas paralíticas, fazedor de diversidades.

É, bom seria!

Mas tem uma coisa que atrapalha, e é o pior de tudo. É que existe uma palavra cruel no manual do homem. A palavra “Tempo”. Você já reparou que essa palavra não larga do nosso pé?! Acredito que sim, não é? Por onde quer que andemos, faça sol ou faça chuva, esteja frio ou calor, seja noite ou dia, lá está o Tempo, implacável, impenetrável, pendurado numa parede, atado ao pulso, movido por um pêndulo, ecoando um tic-tac eterno, calculando as horas, cronometrando os passos, registrando os fatos... Não adianta fugir, ele estará lá, sempre. Até onde você menos esperar, lá estará ele, o Tempo, senhor da vida.

Não que ser adulto ou agir como adulto não seja interessante, mas é que ser criança é muito melhor, anos-luz melhor, e você sabe muito bem disso. Ser adulto é como ter uma inflamação em alguma parte do nosso organismo, é como se uma coisa esquisita quisesse explodir, pular para fora da gente o tempo todo. É a “adultite”, inflamação do nosso lado adulto. Neste caso, é a nossa criança interna que está doida para romper a barreira do corpo e já sair escorregando num carrinho de rolimã ladeira abaixo, rindo aos quatro cantos da Terra. A adultite é fogo, tem casos que nem um divã consegue dar jeito.

Lembra aí, vai! Tente recordar de como era mesmo fantástico ser gente miúda, dono de dente de leite, jogando sonhos para São Longuinho no telhado de casa, e mesmo assim correndo corredores coloridos sem ainda nem poder por causa do sangue vivo na boca. Lembra do pé de umbu que a gente escalava nas tardes calorentas nos roçados da vovozada, das mangas verdes com sal que a gente comia preocupado em não ingerir leite depois, porque nossa mãe dizia que fazia mal e a gente não queria nem fazer o teste para ver se era verdade ou não. Das brincadeiras em cima do monte de areia deixado pelo caminhão da empresa de material de construção quando o pai resolvia reformar a casa. Era tanta alegria, não lembra? E era tão instantânea e espontânea que o Tempo era o que menos importava pra gente. A gente queria mesmo era o pé encardido de brincar na terra vermelha, o grude no rosto de tanto suor bom, a nódoa na camisa novinha em folha de tanto se lambuzar de alegria, as unhas pretas de tanto cirandar de felicidade...

Ah, como era bom e a gente não sabia!

Dizíamos dizeres errados e ninguém da nossa turma nos lembrava das tais formalidades oracionais... Que gramática boa mesmo era a gramática da rua, profanada no calor da partida de futebol improvisada, com traves feitas de chinelos velhos e sujos e jogado com bola murcha de tanto quicar nos paralelepípedos das ruas de Iraquara. Que tese boa mesmo era a de que depois de um dia de alegria e de dedo topado no calçamento de brincar de esconde-esconde, sempre haveria de nascer um outro dia ainda de mais sorriso na face estampado.

Quando se é criança, a gente vive o sonho e sonha a vida. A vida passa como passa a formiguinha no quintal de casa, serelepe, levando risonha a folhinha verde para dentro do formigueiro. É sempre dia de festa, nas chegadas e nas partidas. O fim das coisas é sempre um recomeço e não há espaço para a tristeza nem para a solidão. A gente conseguia ficar feliz até quando não havia ninguém por perto – e por vezes era bem melhor assim, concorda?

Fui menino em Iraquara e a meninice é um tempo verde, que flutua como flutuava a bolha de sabão que a gente soprava com galho de pé de mamão. Um tempo sem tempo, temperado com as mais doces especiarias, as mais raras e as mais preciosas. Um tempo destemperado por vida, liberto de amarras, tempestuoso para o bem. Porém um tempo temporada, com dia marcado para terminar. Um tempo temporal, chuviscado, torrente, toró, que infelizmente acaba. Porque logo a gente sente o peso das responsabilidades, a carga das tarefas banais, a dor na consciência pelos tempos perdidos e que, desditosamente, não voltam mais.

Ah, como era bom não ter o pesar do tempo deixado para trás!

Como era bom andar de bicicleta sem medo até o Vai-Quem-Quer¹, chegar perto das serras da Chapada Diamantina, beirar o céu lá do alto, visitar o Engenho de “seu” Sinésio na entrada da cidadezinha, tomar banho nas cachoeirinhas da Caiçara, fingir que éramos desbravadores do mundo, bandeirantes infantes sem medo do pneu da velha bicicleta furar e nos deixar no meio do caminho...

Como era bom perambular por aí, chupar fruto verde e azedo na estrada de cascalho que dava para a barragem do distrito de São José... como era bom passar pelas casas de farinha da Quixaba e da Queimada, ver aquele povo rico de histórias e de coração a olhar o sossego do mundo das janelas de suas casas... como era bom desbravar o Mulungú e pedir água de pote de barro para matar nossa sede de novidade.

Ah, como era bom e eu não sabia!

Hoje, do jeito que estou, na idade que carrego, só há uma coisa que me deixa feliz como nos tempos de antanho. É saber que a gente nunca pára de sonhar, e saber que a gente pode ser tudo o que imagina, tudo aquilo que a gente sonha ou que um dia já desejamos ser ou fazer. Acho que é por isso que estou vivo até hoje, porque posso ser aquilo que sempre sonhei ser um dia, mesmo que esse sonho tenha sido o de abarcar todas as cores e dores do mundo numa folha de papel em branco, armado de uma esferográfica de ponta fina qualquer, como um dia sonhei quando eu era apenas um menino brincando de brincar pelas ruas de Iraquara...


Notas.
1 – Vila pertencente ao município de Iraquara.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A prática da leitura


“É inegável a fundamental importância da prática da leitura dentro e fora da escola, visto que, embasados nesse ato, tornamo-nos aptos a participar ativamente do processo de reconstrução da sociedade. Somos conscientes do quanto é difícil ler neste país, especialmente os bons livros, não apenas pelo alto índice de desinteresse do estudante. Desinteresse que, na maioria dos casos, é gerado pela irregular seleção e quantidade insuficiente do material de leitura colocado à disposição dos alunos, como também pela inadequação da metodologia usada pelo professor. Este, vítima, também, do processo de manipulação da classe dominante, que de um modo ou de outro o impossibilita de crescer culturalmente, via leitura ou outros meios de incentivo, tem como consequência a inviabilidade de mudar sua prática de ensino, posto que o material de leitura adequado é extremamente deficiente.”

Todo texto


Todo texto é um hipertexto. É justamente sobre esse alicerce fundamental que Ingedore Koch vai tentar desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, constituído de múltiplos sentidos, repleto de ramificações, conexões e possibilidades. Koch pretende o hipertexto como um complexo processual de construção de sentido. Resumindo, o hipertexto como um corpo plurilinear e multiramificado. Para ela, todo texto é um hipertexto, independentemente do suporte que utiliza, sendo que a diferença com relação ao hipertexto eletrônico reside apenas no suporte e na velocidade com que essas outras “direções” são acessadas. Como exemplo mais contundente, a autora cita o exemplo do gênero reportagem, que geralmente é circundado por boxes explicativos, sejam eles gráficos, tabelas ou mesmo fotografias. O hipertexto possibilita ao leitor ser ele uma espécie de construtor ou co-autor do texto, a partir do momento em que, na posse do objeto textual, o leitor desvela diversas fontes de informação, assim como diferentes aspectos e propriedades que só serão reveladas de forma aleatória e desfocada. Entre as características do hipertexto, estão a não-linearidade, a volatilidade, a territorialidade, a interatividade, o descentramento e a multisemiose. O principal componente do hipertexto, ainda segundo a autora, é o hiperlink, que é o dispositivo técnico-informático que permite efetivar ágeis deslocamentos, realizar remissões de outros textos, bem como possibilitar o acesso a outros campos informacionais. São três as funções do hiperlink: 1) Dêitica (indicar, sugerir caminhos, enunciar e focalizar); 2) Coesiva (entrelaçar discursos, amarrar informações); 3) Cognitiva (“encapsulador” de cargas de sentido, acionador de memória e de construção estratégica).

Serventia



Por Germano Xavier



Para que serve um texto? Certamente, esta é uma pergunta um tanto que pretensiosa, pois estamos dialogando com um assunto bastante amplo e, diria, ilimitado. Mas, por que ilimitado? A resposta é simples: porque os textos (gêneros textuais) sofrem influência do espaço temporal/tempo, assim como de todas as suas vicissitudes, sofrendo mutações constantes (transmutações) em seus modelos de organização e disposição de seus elementos, sem falar que novos gêneros são criados a todo instante, em diversas partes do mundo, em diversas circunstâncias. Os gêneros textuais são maleáveis. Os gêneros textuais refletem as mudanças pelas quais o mundo e o ser humano atravessam. A cada geração, novos gêneros textuais surgem, acompanhando as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação que revolucionam o modo de efetuar a transmissão de mensagens, informação, conhecimento. Cabe ressaltar a importância e influência da internet, como também a fundação de um espaço virtual: o ciberespaço. Em outros tempos, as espécies textuais se restringiam ao romance, novela, conto, crônica, fábula, carta, apólogo, farsa, tragédia, ópera, revista, entre outros. Circunferência aumentada, nestes renovados idos, pelo uso do e-mail, torpedos, mensagens virtuais instantâneas. Construir o conhecimento e a cultura de um povo, registrando a história através da palavra e da expressão, este é o papel primordial que legitima a função de destaque dada aos gêneros textuais.


Ameaçada liberdade



Por Germano Xavier



Falar em liberdade, nos dias atuais, é uma tarefa difícil. Agora imagine se o devido tema estiver ligado à palavra “imprensa”. Em épocas tão conturbadas e de custosos afloramentos de sensibilidade, a autonomia de pensamentos e idéias nos meandros de uma sociedade é, cada vez mais, assunto de destaque em discussões envolvendo profissionais do setor jornalístico, entre outros. Todavia, como é possível tratar esse objeto se, a cada ano que passa, o número de jornalistas assassinados aumenta consideravelmente – só para citar um exemplo de “trucidação no meio”? A população tem por direito conhecer os principais fatos que, cotidianamente, sufocam e despertam o seu interesse. Mas, se as pessoas encarregadas de levar a informação para todos os segmentos das comunidades estão sendo liquidadas, torna-se quase que impraticável o advento da liberdade de imprensa. A atividade de informar e opinar está se tornando um artigo de luxo, fomentando assim um povo débil e acrítico. Somente com o alimento da informação é que os indivíduos alcançarão o título da cidadania plena – é possível isto? -, com certa independência e capacidade para gozar de suas justas regalias. É incompatível depositar credibilidade na existência da falta de interesse dos jornais e dos próprios jornalistas, quando se trata da transmissão de notícias. Saber compartilhar princípios de caráter básico sem prejudicar a transparência da comunicação é, atualmente, o maior desafio da imprensa em todo o mundo. É mais que necessário, em tempos de informação globalizada, que o acesso desse tipo de constituinte formador às comunidades mais desprezadas seja facilitado através de novas políticas de integração social. Não há mais espaço para nenhum modelo de censura no campo da comunicação. Vaidades à parte, a liberdade de expressão tem de assumir, verdadeiramente, o caráter de ser um manifesto livre de aprisionamentos. Só assim a imprensa e o jornalista serão capazes de, juntos, exercerem suas devidas funções perante a sociedade, começando por injetar doses e mais doses de esclarecimento ao povo.


sábado, 20 de março de 2010

Mais um pitaco saussuriano


Por Germano Xavier

Uma relação entre compadres é como se assemelha os elementos fundamentais do estudo da Semiótica e da Semiologia. Interessante perceber como se dá o processo de ligação entre termos essenciais para o funcionamento da sistemática estudada por Saussure.

Tomando como exemplo os termos “Linguagem”, “Língua” e “Signo”, pode-se ver, claramente, esse tipo de intercâmbio. No caso da “Linguagem”, a sua formação/existência ocorre a partir da junção entre “Langue” e “Parole”, ou seja, Língua e fala. No quesito “Língua”, estamos sempre tratando de uma relação binária entre signos. Já no caso do “Signo” propriamente dito, há sempre a dualidade entre um conceito e uma imagem acústica ou, ainda, por outro prisma, entre significado e significante. Todos, numa ótica de obrigatoriedade, corroboram a idealidade de Saussure.

E, para fortificar esse pensamento, em Pierce essas manifestações continuam existindo, mudando apenas a quantidade de envolvidos; ao invés de binária, a relação em Pierce é triádica. Agora os elementos fundamentais fazem parte de um complexo jogo estrutural composto pela Sintaxe (Estrutura propriamente dita), Semântica (ligado ao significado) e, por último, pela Pragmática (Referente ao uso e prática nos diversos ambientes sociais).

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um pouco mais


Por Germano Xavier

XV

Já chega de lugar-comum, eu não estou conseguindo suportar esta minha inapetência, este meu semblante soturno, cabisbaixo e descorado. É horrível o que escrevo, e mais repugnante ainda são vocês, que lêem e nada absorvem. Basta! Basta deste ilusionismo barato! Basta! Até quando iremos aceitar tudo isso? Nós somos todos iguais, temos os mesmos direitos, os mesmos deveres, não podemos esperar mais tempo. Caro leitor, se você chegou até aqui e nada mudou em seu pensamento, peço que volte ao primeiro capítulo destes meus sonhos. Leia calmamente, deixe o seu sentimento mais adormecido ser tocado pelo poder das palavras, estes seres tão magníficos, tão indispensáveis. Tentem não seguir os axiomas deste mundo caduco. A partir de hoje, véspera de um tempo que pode começar, tente despertar sempre que ouvir o primeiro canto dos pássaros em sua janela. Se em seu quarto não existir janelas, construa algumas. Façam-nas enormes e com vista para o quintal de sua casa. Há tantos bons fantasmas, esquecidos no quintal da infância, e que ainda te esperam para brincar de "caça ao tesouro". As nossas raízes são mais importantes, jamais devem ser esquecidas, postas de lado. O almoxarifado talvez seja o espaço mais rico de seu aposento. Muito do seu passado está ali, sob uma camada espessa de poeira, cobertas por teias de aranha. O seu passado, as poucas conquistas, os seus erros, enfim, boa parte de sua vida ali se encontra. Pouco senti de vocês. Quase não enxerguei mudança, menos ainda reflexões. Esta é a minha parte. De vocês espero a prática, a andança, a caminhada, a armadura. Poucos estão acreditando em tudo o que eu disse até agora. Confesso que a minha leitura é um verdadeiro esforço para a sua paciência, mas as minhas palavras são loas ao que é mais urgente neste "mundo". O passado tem de ser revisto, mas nunca como o modelo único de desenvolvimento para o presente, nunca ressentido. O passado é tudo, menos o arrependimento. É, antes de qualquer coisa, o aprendizado e a descoberta das primeiras paisagens que irão atingir os segmentos cognitivos do seu ser. Eu vou continuar a escrever, agora caberá a você decidir se estás apto a avançar a página ou a retroceder - o que recomendo. Pergunte ao seu coração, à sua essência. Certamente ele responderá com a maior das sabedorias: a honesta paciência. Então, seja honesto consigo mesmo! Tente outra vez, mas seja o mais rápido possível, porque tudo aqui é passageiro, o Tempo, os Homens, a Vida... E lembre-se, tentar o mais profundo é olhar o que está por trás das coisas. É somente isso o que quero, que vocês me entendam. Eu sou incapaz de fazer mal a alguém. Eu acredito na existência de "mundos". Eu sei de todos os caminhos, os menos escuros e aterrorizantes. Peço um pouco mais de paciência. Eu não sou louco! Vocês deviam acreditar no que eu digo. Ou será que será sempre assim, mais do mesmo?! Ah, quanto a isso, só depende de vocês.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Conflito


Por Germano Xavier

eu vi a mão rosa
nos candelabros

a fatalidade do verde
inscrito em mim

vivo o bastante
a viver-me

para que eu não morresse
na dúvida de viver

ou morrer de dúvida
ao nascer

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mar do peito


Por Germano Xavier

Para Natália Macedo,
neste dia 12 tão nosso.


águas de sal do mar,
águas de só, de sol,
botam roxos para irem embora.
em boa hora vão-se
os vãos nos desvãos, pelas mãos – o mundo -
dos mundos,
e nos fundos humanos
do homem, somem homens,
o homem implorando perdão.

dessa água deságua
minha dor vivida,
nossos lastros impedidos
de dizer os nãos nem tão límpidos,
em talvez brancos estes sins malditos.

de fronte a ti, ó mar,
rogo meus erros às tuas ondas
para que não morra em monte
em mim a brusca vontade de (a)mar.


São Luís, Maranhão, agosto de 2011.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O tempo da gíria


Por Germano Xavier

Em maior ou menor grau, toda gíria é – ou pretende ser – a expressão máxima de um determinado grupo que se utiliza da linguagem verbal para efetuar fenômenos comunicativos. Expressão máxima porque é ela que assegura os limites de uma privacidade de compreensão em quesitos tidos como passíveis de sigilo ou segredação tribal. É natural à gíria o seu poder de guardar ou proteger um desejo por diferença. As expressões giriáticas, dentro do contexto maior da linguagem, buscam a todo instante a sedimentação tanto de uma marca lingüística pormenorizada – e ao mesmo tempo evoluída - quanto de um sentido que, sendo ele lógico ou ilógico, possua o poder de dar significado a algo ou a alguma ação humana, verbalizada ou verbalizável. Esta incessante procura em definir o que é particular a uma tribo social, como num processo de demarcação de uma dada territorialidade expressa através da palavra e suas ramificações, ocorre em sua quase total generalidade na esfera do coloquial. Por sua vez, a coloquialidade inerente à gíria traça para si mesma um perfil estritamente popular. Debutante que é ao que se apresenta como sendo de ordem cotidiana, e desprovida de uma armadura lingüística mais forte capaz de lhe oferecer a necessária proteção ao desgaste natural que o fator tempo impõe a tudo e a todos, a gíria tem entre suas maiores e mais visíveis características a efemeridade. Por nascer e morrer assim, tão aligeiradamente, no falar do povo, a gíria alcança o ápice de sua condição muito rapidamente. É quando o seu sentido extrapola o seu domínio inicial, vaza pelas brenhas de sua própria espacialidade, adentra outros universos, agride outros, prolifera-se na multidão, e termina por perder muito de suas particularidades e possibilidades. De todo modo, mesmo após sua morte, a gíria sobrevive – as mais contundentes, diga-se de passagem -, tal qual uma alma penada, agora funcionando como um registro de um tempo passante, passageiro, passado. Nelly Carvalho, professora da UFPE, em artigo publicado em periódico pernambucano, diz que: “A efemeridade da gíria toca nossa sensibilidade porque demonstra concretamente a passagem do tempo, dos fatos, dos homens, enfim, põe em relevo a fugacidade e a vida”. Não basta que usemos a expressão giriática a torto e a direito, é preciso conhecer o seu funcionamento, a sua situação dentro do contexto linguístico, a sua operacionalidade, a sua serventia. Deste modo, além de nos transformarmos em seres atuantes e participativos dentro de nossa língua, propendemos a melhor nos entendermos como seres em progressiva atualização, ao mesmo tempo individuais e coletivos, descartáveis como uma gíria de verão, eternos como uma gíria dicionarizada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

As flores da vida


Por Germano Xavier

XVI

Eu trago boas novas, amigo leitor! Hoje foi um dia muito especial para mim, mas muito especial mesmo. A essência das coisas é mesmo invisível aos olhos. Foi nesta tarde de sol, de ventos lenientes. Há muito tenho dito que acredito em "Mundos", mas até a prezada página, ainda não revelei nenhuma faceta destes "lugares". Creio que chegou a hora. Desci escada, bons degraus. E era como seguir a estrada dos Deuses, os da Sabedoria, da Honestidade, da Verdade... Eu tinha certeza (e ainda tenho) da existência de "Mundos" onde olhamos o outro como um ser igual, com as mesmas possibilidades e defeitos, sem diferenças. O mais interessante de tudo é que todo este "Mundo" estava representado pela figura de uma mulher. Como ela, sei que há várias! Serás tu? Subimos escadas, bons degraus. Bons degraus... A idade nas suas costas não fazia com que ela desistisse ou hesitasse diante da subida, bastante íngreme. Seria o Arco-Íris que estaria no cume? Algum tesouro? O que fazia o caminhar daquela senhora? Curiosidade? Poções de mistérios... Eu trago boas novas, meus saudosos! São "pássaros coloridos", que revelam liberdade. É o novo ano que nasceu, feito criança indefesa, sem influências das mais ferozes máquinas abstratas da sociedade. É a esperança que renasce na poesia do aprendizado, do acerto após algum tropeço. É a consciência de que devemos ler, criar, refletir, sorrir, brincar e amar, mas amar verdadeiramente, com entrega total, inteira, sem repartes. Eu trago boas novas, meus amigos! É que hoje vi uma criança desprovida de quase todos os paramentos das "boas classes" sociais com um conjunto de lápis de cor e uma folha de papel em branco nas mãos. Ela desenhava, com a sua imaginação operante e criativa, um desses "Mundos" de que tanto tenho falado. É a prova mais cabal da veracidade de minhas palavras. Eu peço que acreditem no que eu digo, ao menos uma vez. Façam as experiências que venho recomendando, depois me mostrem os resultados. Eu tenho certeza que serão positivos. Não vacilem! Por favor, não vacilem! O remédio está aí, na sua frente. O desenho dos "Mundos", todos são capazes de fazer. Cada um com uma tonalidade, um traço diferente e original. Cada mão com o seu pincel, o seu lápis, a sua caneta, a sua expressão. Porém, antes disso, procurem as cordas e os lugares mais exclusos, ermos. Adentre pelo matagais mais densos. Fujam dos vergéis, não cultivem os vergéis. Os jardins são metáforas da morte, sempre irônicos e sarcásticos. Como diria Goethe, "as flores da vida não passam de ilusões". Vá! Siga! Ande! Não olhe para trás! Só o passado sólido é válido. O restante é volátil, desmancha-se no ar feito bolha de sabão, e se perde. Estás perdido? Continuas perdido? Ache-se! Ache-se! Ache-se!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Flor de Narciso



Por Germano Xavier

Ela se apaixonou perdidamente. Ela se apaixonou perdidamente por um alguém perdidamente apaixonado. Punida, ela perdeu a fala. Perdeu sua voz, perdeu o seu "self" corporal. Ela, aos poucos, foi perdendo a força de amar, pois não fora mais ouvida, por ninguém, nem pelo coração de seu amado, amado pelo destino pueril de amar. Ela, em seu estado pathos de amar, não desejou sofrer de amor, dor doída dor. Quis ela amar o amor, amado amante. Amou profundamente, profunda-mente, o senhor do amor. Sofreu profundamente, profunda-mente, sua dor. Ela, rejeitada, morreu de amar o amor. Morreu, caiu perturbadoramente sobre o duro regolito do "não", do não-ser o deveras quisto, para si. Humano-mito, morreu como morrem muitos, como morrem amores, como se arruínam amares, como morrem amantes... Morreu de morrer de amor, de morrer de amar, perdidamente apaixonada por um alguém perdidamente apaixonado. Assim, Eco, Narciso virou flor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Farsa


Por Germano Xavier

XVII

É inadmissível ter de aceitar toda esta farsa. Talvez, tudo isto que está acontecendo devesse virar uma peça teatral. Seria uma daquelas tragédias inenarráveis, com um final que deixa a todos surpresos. O pior é que toda esta desgraça está aí, completamente visível, apalpável. A cada dia que passa surge um novo símbolo, uma nova figura, um novo mito tentando explicar o inexplicável. E esta civilização... e esta prisão, estas grades, estas cadeias... fazer o que com tudo isso? Fazer o quê, se são as cargas extras da vida, carregadas em nossos lombos, em nossas costas cansadas, no eterno desígnio de nos fortificar, de nos tornar verdadeiramente homens? Mas é certo isso? Até quando teremos de viver como animais de carga, e desempenhar trabalhos braçais, cabíveis somente a um animal de grande porte? Sofrimento, tanto. É por isso que sempre me quero na companhia dos meus "redondinhos", seres amados, adorados. Ó, quanto sal em mim?! Estou imundo, na podridão deste mundo caótico, sem perspectivas, sem soluções?! Onde a nossa vontade nata de conquista e vitória? Queremos mesmo soluções? Onde aquele desempenho eloquente que mostrava-se, subitamente, no quintal de nossas casas ou nos bastidores de algum tempo? Quanto mais nos sacrificamos, parece que da vida nos tornamos mais "empregados", subservientes. Mas, fazer o que com tudo isso? Fazer o quê? Primeiro passo: escute o vento que sopra na noite? Segundo passo: torne-se leve, e deixe o vento te levar? Terceiro passo: corte os excessos? Quarto passo: entregue-se ao jogo da vida, sem jamais deixar de lutar e desejar vitórias? Até parece que estou escrevendo um livro de auto-ajuda, mas a bem da verdade é que estou parecendo ser frágil, desconcertado e inseguro. Todavia, tenho de dizer que se seguirmos esta cartilha, veremos que nossas cosmovisões serão menos dicotômicas e, portanto, a probabilidade de ocorrer alguma vitória, seja total ou de modo parcial, é muito maior. Enquanto isso, tomarei minha puçanga das "três". Todo sofrimento tem cura, meus amigos. Por isso, bebam de seus pseudosumos, e nunca deixem de viver!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Olhos de Daniela


Por Germano Xavier,
para a menina Daniela Gama

este poema é úmido
porque regado da salina água
dos teus olhos de Netuno.
úmido
porque é todo um mar labial
naufragado no céu invertido
que são seus íris – arco-íris.
este poema é úmido
porque traçado no póro de tua pele,
perto, cor, sabor, hora,
agora.
este poema úmido cabe no branco
dos teus olhos-alma, cabe
fácil, dulcífico, maior.
umidade na idade do tempo
que amarra uma vontade insana
de no mel’oceano deles
desaguar...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A cabeça de Nastércio



Por Germano Xavier


E foi então que o Nastércio percebeu que tinha uma cabeça grudada ao pescoço. E foi depois de tal percepção que ele viu que cabeças servem para suportar a gelatina do cérebro, e que cérebro é lugar de mente. E foi assim que o Nastércio soube que mente não é lugar de mentira, mas de pensamento. "Mas, como fazer funcionar algo que não funciona?", pensava. A mente de Nastércio não funcionava porque ele passou a vida toda pensando que em cima do pescoço o homem tinha mesmo era uma agricultura de cabelos. E ele estava certo: cabelos não servem para nadica de nada. Aí o Nastércio resolveu pegar a enxada e capinar a monocultura de sua cabeça. Nastércio era monocultural, só sabia saber, mas não sabia que sabia saber. E saber saber não quer dizer que se sabe alguma coisa. Por isso, o arejamento do campo capilar foi a melhor coisa que ele podia ter feito. Tirou, com a mão mesmo, todas as ervas daninhas de sua mente: primeiro a boina-máscara, depois eliminou os piolhos-dos-olhos e ademais, cortou tudo com tesoura de cortar e tacou fertilizante de fertilizar. Adubo novo de traseiro de vaca. E foi dito e feito. Não demorou muito para que fosse possível ver brotar do roçado da cabeça de Nastércio uma verdade atrás da outra. Porque, você sabe, depois da merda endurecida, só mesmo jogando muita água naquilo que é muda.


* Imagem: Google.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sobre as quatro estações do jornal O EQUADOR DAS COISAS


Pela caminhada até aqui, pelos moinhos vencidos, por nós todos, pela literatura, pela arte, por você, Carolina Piva! Um presente meu e da Molotov Produções, na pessoa maravilhosa de Lisa Alves. Obrigado por existir-junto, por fazer parte-e-além e um infindo-desejo de vida longa ao nosso Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 27 de Agosto de 2015
As coisas são mais que seus nomes



Les choses valent plus que leurs noms

à quoi ça sert de conventionner
l’opposé de ce qu’on dit,
un sursaut dans le silence,
un appui derrière les murs
ou dans l’eau mobile du temps.

car l’indice donne le sens qui bascule,
et le symbole annonce la maladie vaine de la douleur.
et si souvent dans la vie l’attente nous annule
l’imprécis devient plus clair arrosé comme une fleur.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Out-of-Happy-Places-538886868

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sábado, 01 de Agosto de 2015.
A douta espera


"Je ne suis pas surpris de me réveiller au milieu des eaux."
(Adolfo Bioy Casares)

La docte attente

revolté, l’amour, ce même amour
qui m’attriste et qui sort de l’eau
froide comme l’échec, ou en guerre d’amour
il est vainqueur, en jetant sur mon cœur la douleur funeste,
comme une protestation contre l’absurde,
ce même amour de la paix solitaire de nos corps,
insignes pas de l’ombre qui marche.

revolté, le néant de l’instant présent. aux feux de la rampe, l’amour qui vit
loin des manques réels et centenaires de mon âme.
ce même amour qui est parti avec le courant
en se pliant dans les fantaisies fautives.

et ce détail en nous: l’amour qui enfante,
imprécis comme l’hyperbole parfaite,
juste comme le début des rêves.

l’amour.

comme si à minuit nous désirions postuler
les vains buts des négations
ou les fantasmes de marbre du temps,
nous nous déplacerions alors sur des parallèles diffuses
accoudés aux bords maritimes des prisons.

vers la fin, la vie nous apprends le goût de la peste :
nous courrons vers l’entrée, c’est la docte attente.
l’amour, comme la mer, désobéit aux couchers-de-soleil.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Echo-City-566193486

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ensinagem: um processo de amor

*
Por Germano Xavier

O processo de Ensinagem parte do pressuposto de que é, ele, antes de qualquer conceituação, um exercício de compartilhamento, de convívio e de diálogo entre as partes que compõem o jogo educativo, a citar primordialmente o professor, objeto de estudo e o aluno. Neste entrelaçado, o conhecimento se acerca de buscas em torno de mobilizações, construções e elaborações sintéticas.

Quanto ao que concerne ao tópico “mobilização para o conhecimento”, como assim se referiu Vasconcellos (1995), cabe ao professor procurar formas de atrair o seu aluno até a mais próxima face do saber que porventura esteja em destaque. Para que isso ocorra, há de existir vontade e interesse de ambos os lados. A promoção da relação do aluno para com o objeto de estudo é o desafio maior desta etapa.

No que tange à “construção do conhecimento”, a prática analítica do aluno em relação ao objeto de estudo faz-se aqui de alvo máximo. Aqui, o aluno, com apoio total de seu orientador, debruça-se no corpo do saber e alicerça seus tijolos de síntese e de visões de futuro. É o momento do aluno ativo e do professor operante. Para tal relação acontecer de forma harmônica, cumpre observar os passos da Significação, da Problematização, da Práxis, da Criticidade, da Continuidade, da Historicidade e da Totalidade, cada qual com suas prerrogativas e dinâmicas.

Sobre a “elaboração da síntese do conhecimento”, último tópico que compõe o processo de Ensinagem de acordo com Pimenta (2002), o aluno caminha ao lado do professor e já esboça o que podemos chamar de consolidação de conceitos, sabedor de que tais conceitos devem ser vistos como entidades mutáveis, pelo simples fato de que nunca deixamos de aprender coisas novas e que, por conseguinte, a qualquer momento podemos adentrar por novas mutações de base ideária.

O processo de Ensinagem é uma busca mútua, professor e aluno na direção de um só objetivo, as duas figuras marcando territórios e superando obstáculos que podem, com certa facilidade, impedir o livre curso das formações de saber. Ensinagem, pois, é compromisso com o que vai além do necessário dentro dos universos vários do conhecimento. Destarte, Ensinagem é também uma espécie de amor, ou de amar, na acepção mais justa e bonita possível. 


* Imagem retirada do site Deviantart.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ainda sobre teus seios

*
Por Germano Xavier

se a gota escorre desde a nuca
tornando o cabelo uma seta negra
colada aos nus do corpo

se se dobra em volta e num retorno
pela foz do pescoço faz divisa
com o frágil ombro

vai dar a regar os rotundos balões
da mulher em flor
a água

a gota dela arrecadará a velocidade
suficiente para parar
no agudo botão em ponta
no meio do círculo matricial
cor de menina

a gota faz-se de boca-lábios
permanece altiva e em doce contato
como em invertida levitação


* Imagem retirada do site Deviantart.