sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cada caroço um sorriso



Por Germano Xavier

III

quando se pensava que era já hora
do curió do mato sossegado piar
aí era que o vento dava duas dobras
na própria propriedade de existência
e anunciava do meio do pó doró
o moreninho do mato

o moleque estripuliava era era com tudo
uma vez foi foi matar lavandeira
passarinho do santo abençoado
dizia ele ia pro céu
ser lavador de nuvem

"tem de aguá bem aguado
pro mode ficá alvinha assim pra sempe"
pensava o menino

esse moleque era uma fonte

tinha era um umbuzeiro inteiro
plantado na cuca
cada mordida no fruto era uma arte
cada caroço um sorriso

doró gostava mesmo era soprar lagarta
"vê brabuleta de largata ameninar" dizia
e de matar "largatixa" com beca de pau
que ele mesmo fazia nas folgas de menino respeitoso
aos pais e arredondava as pedrinhas de catada
"qui largatixa é fi de largata disubidienti
fugiu de casa nun quis iscutá mãe e brabuleta sê
feiz foi ficá iscondeno no mei das foia suas arte de rastejo"

pra bicho que se esconde do seu viver
lá ia era tiro de beca de pau pra riba
que o menino ia era pro céu "sê aguadô de nuve"
e arreganhar ainda mais o sorriso de deus

A estruturação da realidade


Por Germano Xavier


A construção conceitual da expressão "Estruturação da realidade" fundamenta-se na ideia de que é ela o arcabouço instrumental-metodológico usado pelo indivíduo no desígnio de criar um "ambiente" propício ao desempenhar de tarefas-ações, sempre em busca de cumprimentos e realizações. "Estruturar a realidade" é relacionar-se com o outro, com o que é o objeto ou com o que não é concreto. É estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica comportamental em um viés que permeie a elaboração de uma situação real, cognitiva e operacional. O indivíduo "estrutura a realidade" no intuito de "desproblematizar", de ir adiante, alcançar objetivos, superar obstáculos. Portanto, ao construir tal esfera de significação, ele, o indivíduo, dialoga com forças e necessidades, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem desejada. Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a "estruturação da realidade" atua no desbloqueio de tensões, ameaças bastante significativas para as possibilidades de fracasso. Em outras palavras, "estruturação da realidade" é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações que, motivado ou não, prepara o indivíduo para inúmeras interações e jogos relacionais, funcionando como ferramenta de apreciação e efetivação de ações sobre determinados meios, prenunciando algo, sempre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Eu e o velho asteróide



Por Germano Xavier

A cidade de São Salvador era o destino. Tinha acabado de pegar o ônibus das 20 horas. O Emtram ia com pouco mais da metade de sua capacidade preenchida e a plaqueta apontava como itinerário final um lugar chamado Paraguassu. Tudo muito rápido, veloz como o ano que começava. Muitas pessoas da minha cidade natal entraram comigo. Tudo parecia parecer muito familiar.

A mochila nas costas, direcionei-me à poltrona 33, janela. Eu que sempre gostei de ficar na janela, olhando para o mundo... "Como uma luva", pensei. Não demorou muito, Ávila, conhecida e filha de Iraquara também, sentou-se ao meu lado. Rememoramos infância, adolescência, cidades, amigos, experiências, suplicamos sonhos, falamos sobre livros, filmes e música, sobre amigos que partiram mais cedo que a gente para mundos ainda inatingíveis, sobre quase tudo ou quase todos...

Conversa vai, conversa vem... e a noite noturna, aquela em que os homens teimam em "desver" e acabam dormindo, apontou no céu azul-negro que eu via da janela. De repente, uma estrela cadente!!! Tentei agir. Pedi saúde para os meus pais, e aquela estrela - seria o asteróide B612, transportando O Pequeno Príncipe? - levou meu pedido para o desconhecido.

Duas da manhã, levantei a cabeça. Nenhum sinal de vida, apenas uma luzinha acesa na primeira poltrona. "Alguém lendo", imaginei. Um dia a leitura ainda vai salvar o homem. O ônibus sacolejava, parecia querer tombar nas curvas da Chapada. E eu gostando de me sentir vivo, ou melhor, morrível. Para mim, a beleza da vida está na impressão de que se pode morrer a qualquer instante. É por isso que vivemos, para morrermos lentamente em esquiva eterna e com dignidade.

Esperei Ávila dormir, depois acendi a luzinha de leitura. Comecei a ler uma matéria intitulada "Angústia, um sentimento positivo", numa revista sobre filosofia. A autora, Olga Hack, bem diferenciava os aspectos negativos e positivos do sentir-se angustiado, e eu me degustava com o bom texto. Num determinado momento, ela citava um grande pensador nas seguintes palavras: "Aristóteles dizia ser o "espanto" nossa condição de contemplação sobre nossa própria condição de existência em possibilidades.”

Parei após ler o excerto. A reflexão bateu com o momento que vivo atualmente, que é de contemplação daquilo que é ínfimo, desprezado, de "absurdar-me" perante o absurdo da complexidade das mais simples coisas, de viver, ou tentar viver, a essência de toda a poesia de Manoel de Barros, os “nadinhas” que são os “tudos” mais totais. E como fiquei melhor depois! Acredito que nada acontece por acaso nesse mundo, e que raras são as coisas que não podemos explicar. Uma delas é o Amor; outra, a própria Morte. Acontece que eu tinha acabado de comprar minha passagem de ida para Fantasia, aquela do Michael Ende - quem já leu "A História Sem Fim? -, onde eu mesmo me dirigia, sempre para o além... para o além de mim-homem. Quatro e dez da manhã quando olhei o relógio. Terminal Rodoviário de Salvador. Tinha abortado a viagem à Fantasia. "Novos velhos ares", pensei com meus botões...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A praça das ausências

Por Germano Xavier

Para "Japão", cidadão iraquarense, falecido hoje.
em frente a Casa Havaneza,
um homem magro aparentando
melindrosa sabedoria
enfia a mão
dentro do casaco. são mãos
em coberta de linho e
ao longe
soam verrinosos
os debruçares do sol
na praça pessoeira.

- a surpresa do que dali poderia surgir é
o belo prazer dos dançarinos
aldeões, que se esfregavam
tal Diógenes de Sínope
em cio de almas.

(nesses casos, há sempre uma criança
figurando entre as personae do
tal filme do olhar. e uma vem da ponta
extrema, na diagonal,
cruzando o corpo da square.)
sorri.

vê-se que o homem do início do poema
não está mais onde esteve antes. as pessoas
que estão em volta do menino
não desconfiam do paralisador
de infâncias,
a tal máquina extraviada.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A frágil alma das coisas


Por Germano Xavier


árvores copulam ventanias
os mistérios do Homem
são relógios
margeando nossos instantes
presentes
present’ausentes
em fugas
de tic-tac

fechamos os olhos
e pensamos ingênuos
na calma ilusão
serena e eterna
das coisas
sem coisas

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A difícil arte de reviver


Por Germano Xavier

Descartando o caso raro de Truman Capote, escritor e jornalista norte-americano autor do memorável A Sangue Frio, que dizia ser capaz de relembrar mais de 90% do conteúdo das entrevistas e conversas sem utilização de nenhum artifício senão a memória, conjugar perfeitamente o verbo rememorar não é tarefa fácil para ninguém, até mesmo para quem já está acostumado a lidar com a tradução de cenas e casos do cotidiano para a teledramaturgia brasileira e mundial. No melhor sentido defendido por Inmanuel Wallerstein, Manoel Carlos fez jus à máxima do sociólogo estadunidense "rememorar é um ato social do presente". Publicado em 2006, o livro chegou até minhas mãos através de meu professor-orientador no curso de jornalismo. Como meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) versou sobre a capacidade que o gênero cronístico tem de, aliando ficção e realidade, demarcar um período espaço-temporal de uma dada localidade ou região/povo, imaginei fazer dele apenas mais um objeto de análise e estudo, sem saber que acabaria se tornando uma leitura de agradável passagem e esclarecimento. Ao todo são 53 crônicas, divididas em 5 partes inomeadas, originalmente escritas quinzenalmente para a revista Veja Rio. De linguagem simples, quase nunca usando de termos desnecessários, Maneco - como é conhecido - traça um enorme perfil carioca, centrado principalmente nos acontecimentos dos arredores do bairro do Leblon, onde reside e viveu boa parte de sua vida. A impressão que fica após a leitura é a de que a alma do carioca fora desnudada, separada de qualquer impedimento que prejudique os atos da confissão e revelação. Através de observações feitas em conversas dominicais com amigos na praia, durante a caminhada matinal, em viagens ou no espaço da livraria Argumento, onde é exímio frequentador, o autor investiga, e com saber de causa, acerca (e principalmente) do comportamento feminino - aliás, talvez a temática mais trabalhada nos projetos que realizou -, dos rumos das paixões arrebatadoras e suas ramificações, os conflitos matrimoniais, os desentendimentos, as dúvidas diante do florescer de um amor, além de colorir com tintas de incerteza o mundo dos jovens e seus costumes. Ora se preocupando com o rumo do historiado ora rindo dos casos por ele mesmo contados, as reminiscências temporais povoam de forma bonita a obra, cujo conteúdo é quase sempre penetrado por um ou outro trecho de algum poema - o que faz da leitura ainda mais gratificante para os amantes da forma poética, como eu. 233 páginas de crônicas que formam um crônica-una. Por outro lado, alguns leitores poderão dizer: "são crônicas de um burguês para um burguês ler", e também não estarão de todo equivocados. Todavia, talvez isso não venha a calhar nesta hora. O livro só fez aumentar a minha curiosidade perante este gênero tão absurdamente brasileiro, traiçoeiro e dual que é a crônica. Outrora cosido por mãos geniais, como as de Rubem Braga e Antônio Maria, o escritor de 78 anos não faz feio em seus domínios. Manoel Carlos é o autor das novelas "Mulheres Apaixonadas" e "Páginas da vida", sobre as quais minha mãe certamente teceria melhores comentários do que eu, além das minisséries "Presença de Anita" e "Maysa, quando fala o coração", entre outras. Uma boa pedida é A arte de reviver. Leia!

O caso no H.M.S. Beagle


Por Germano Xavier

No último episódio de sua saga, o inconceituável Napoleão Joujaumontx resolveu, depois de cautelosa e inteligente idéia de construção pensamental, colocar em prática um de seus planos estratégicos infalíveis de captura.

Pinóquio, mais conhecido como “O Traidor”, fugindo das impiedosas mãos do maior dos maiores, o mitológico Imperador Napoleão Joujaumontx, acabou deixando no chão vestígios de sua passagem pelos recantos e cantos do setor norte do Condado de Spitzbergen, onde toda a celeuma começou.

O som refletido nos ares do Condado ainda podia ser ouvido em alto e bom tom, devido mormente à representatividade e força que aquele susto houvera lhe proporcionado...

- U qui foi aquilu, meu deus? ... U qui foi aquilu, meu deus?... U qui foi a...

Como que de chofre, Napoleão Joujaumontx parou um segundo caprichoso bem dentro de si, e depois sussurrou...

- É chegadu u momentu, seu Pinóquio di uma figa! É chegada a sua vêis! Tenhu qui agí logu!

Sem pensar mais um segundo, o indestrutível Napoleão Joujaumontx largou todo o peso que carregava e também todo o apetrecho capaz de produzir barulho. Tudo muito estudado para que não ocorresse falhas em sua investida. Foi assim que Napoleão Joujaumontx iniciou sua busca em nome de sua honra...

- Eu não mi chamu Napoleão Joujaumontx, nem manterei a ordi dus cavalêrus bravius di “La Mancha”, a qual meu irmãu Quixote féis parti, si um dia eu não ti pegá na boca da butija, seu gatu safadu! Eu só pricisu di tempu! Eu só pricisu di tempu e paciênça!

O homem que Deus guarda, o insolúvel e indissolúvel homem incrível, o quase Deus e a bala que matou John Lennon, o marido da Luana Piovani, o ser que pinta de rosa a situação preta, o homem que dá rasteira no vento, ele, o próprio Napoleão Joujaumontx, agora caminha seus primeiros passos e percebe que o sucesso é apenas uma questão de tempo...

- Milhó luta é u lutá du deseju, Pinóquio! U lutá du deseju!

Com passadas largas e resolutas, e ainda seguindo a estrada construída com as supostas pegadas de Pinóquio, Napoleão Joujaumontx conhece pela primeira vez o pequeno porto do Condado de Spitzbergen, território pertencente ao seu Império do Ártico.

Napoleão jamais houvera pisado no porto de Spitzbergen. O destruidor das demagogias não precisava gastar energias observando a chegada e a partida de navios e saveiros que abasteciam todo o Condado com mantimentos de última necessidade. Havia um esquema de administração muito bem estruturado e que dava um bom rumo aos negócios do Império.

Nesse ínterim, Napoleão Joujaumontx percebe que as pegadas vão ficando cada vez mais desfiguradas, até perderem, em determinada coordenada geográfica, as suas formas mais visíveis. Um tanto que desorientado, Napoleão Joujaumontx não perdeu tempo. Começou a perguntar aos seus empregados sobre o possível destino trilhado por um ser que foge de alguém. E todos lhe apontavam o setor de embarque e desembarque do porto de Spitzbergen...

- Intãu é lá qui você si iscondi, não é! Intãu destá qui você vai vê cum quantus paus si fais uma canoa, seu Pinóquio disgraçadu! Destá!

Napoleão Joujaumontx, desviando-se de inúmeros baús e arcas repletas de alimentos e armas, finalmente consegue chegar ao setor de embarque e desembarque do porto de seu Condado no Ártico. Sem muito esforço, seus olhos denunciaram a presença de apenas um navio no atracadouro. Não era grande nem pequeno. No casco frontal havia uma inscrição:
H.M.S. Beagle – Inglaterra.

- Aqueli gatu salafráriu só podi tê carregadu u meu chinelu pra dentu daqueli naviu. Vô logu mi prontificá e encararei até uma viagi não pogramada si fô pricisu. Mas qui eu dô uma liçãu naqueli Pinóquio, eu dô! Ah, si dô!

Quando estava já subindo a rampa que dava acesso ao interior do navio, o maior viajante de todas as eras, o Marco Polo dos tempos modernos e contemporâneos e pós-modernos também, ele mesmo, e quem poderia ser?, o soldado dos soldados, Napoleão Joujaumontx, teve a nítida impressão de ter visto dois fiapos do bigode de Pinóquio em movimento de reconhecimento sensorial concernente à presença do seu amo, ali, atrás do barril de vinho, próximo ao mastro central.

Napoleão não titubeou. Acelerou suas passadas de forma a imprimir a si uma velocidade de ginete em trote considerável, quando foi abordado por um velho de calvície presente e barba branca de cerca de um palmo de comprimento.

- Saudações, Sir! Quão magnânima e honrada presença! Veio fazer uma visita ao nosso barco ou pretende conhecer os sete mares conosco? Informo ao Ilustríssimo Senhor General que dentro de 5 minutos partiremos para a nossa jornada. O que me diz, Sir?

Napoleão Joujaumontx, ainda aturdido e mais preocupado em averiguar se era mesmo Pinóquio o dono daqueles fiapos e se aqueles fiapos eram mesmo do bigode de Pinóquio, respondeu perguntando...

- Hum? Cuma? Quandu? Ondi? Hoji?

E arqueando o corpo em total reverência ao Imperador dos Imperadores, o homem de barbas compridas e alvas estendeu o braço ao General dos Generais, no intuito de auxiliar a entrada definitiva de Napoleão Joujaumontx ao interior do simpático Beagle...

Em poucas palavras, o homem do navio começou sua apresentação...

- Pode me chamar de Charles Robert Darwin, cientista e curioso inglês, natural de Shrewsbury. Será um prazer tê-lo em nossa companhia, Sir!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx.
Você não perde por esperar...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O resto não conta



Por Germano Xavier

III

Perdoai a eles, pois eles não sabem o que fazem. Desse perdão também quero gozar. Eis-me aqui novamente, tentando desfazer os preconceitos vários. Pessoal, quantas vezes eu vou ter de dizer que eu não estou querendo criar confusão!? Eu não sou louco! Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos". O resto não conta. Estou atravessando uma fase bastante fértil e calma em minha vida. Faz alguns dias que não tomo nenhum tipo de psicotrópico. Confesso que estou mais livre e menos triste. Uma leve sensação de liberdade. Argh! Rápido, preciso dos meus "ingredientes"! Ah!... e também de um livro de poesia! Augusto! Grande Baudelaire... Nessa maresia em que me configuro atualmente, vou mesmo ficar doente da cabeça. Onde já se viu... liberdade? Liberdade é ilusão, é cabeça vazia, é foice que dilacera, é labirinto de sombras, é guilhotina, é cadafalso, é catafalco, é calabouço.

Tenho de recuperar o tempo perdido! Preciso de doses extrafortes, mais concentradas. Liberdade na pós-modernidade? Liberdade é calabouço, cala a boca! Cale-se, seu idiota! Viver é uma provocação, e isso basta! Espelho de Narciso, Édipo Rei ou Hamlet, de onde surgem esses ventos tão frios? Não, não se exalte! As crianças... coitadas! Pássaros coloridos, onde o meu "preparado"? Deus, o que é liberdade? Eu ainda não sei o significado dessa palavra. Liberdade deve ser barriga d'água, mulher que cede, cavalo que vara, dinheiro nas ancas. Porca miséria, meus "redondinhos"!? Quanta ignorãncia, meu Deus! Continue! Viva! Apenas viva! O que eu quero é isso. Nada mais que isso. Não se preocupe comigo, eu estou aqui só de passagem mesmo! E quanto mais rápido for, melhor a aventura.

Sabe, eu sou um sonhador, e em um dos meus mundos os sonhos são como borboletas azuis. Por favor, entenda! O tempo é cada vez mais reduzido, mas ainda há esperança. A corda... pegue a corda! E corra! Corra para bem longe. E não deixe marcas pelo caminho, pois a recompensa há de ser só sua. Vamos! Abra os olhos! Eu sei que há "Mundos". Eu sei. Mas... o que é liberdade? Não, eu não posso parar. Minha cabeça parece que vai explodir. Meus... tóxicos (algemas?)! Eu teimo, insisto e não desisto. Cale-se, para sempre!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Deus aberto

Por Germano Xavier

Para Maita Assy


de alguma forma
entendo o absoluto
como a prática de uma via
qual um contato
ou uma religião aberta
para além do símbolo
de algum modo
meu intuito por estar do outro lado
define um possível homem
e não podemos ser apenas
ao que tudo indica
humanos
somos antes as imedidas
incompatibilidades de um deus

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sombras adentro

Por Germano Xavier

Para Ira Buscacio,
pelo seu dia de meio século.


Ao som das matracas, os penitentes cortavam com sangue a noite. O ferro batido em rítmico acorde na madeira instaurava um vigoroso medo dos sons. Um som humilhante, injurioso. Havia um cavernoso vazio no firmamento, impudico. Um céu sem estrelas, vestido com os rumores das nuvens espessas. E um rumor de rio, maldito em espíritos lendosos. Um rio rastejando ao longe, dono de uma vida imperiosa, capaz de mudar ventos. E luas. Era ocasião de devotar o misterioso sacrifício do corpo em respeito aos que vivem, e também aos que morrem, todos enfim. Mormente ao que sangrou pela salvação dos irmãos e da própria vida, sem medir variantes de honestidade ou amor, o Deus criador e seu filho. Olhar aquele rio fervoroso fenecendo ao laço dos passos caminhados, deixar que uma sensação de despedida adentrasse a humana máscara, o estridente rumor dos seres noturnos, sempre impacientes e inadvertidos, baixa-mar quase pelágico. Era um céu propício, evidentemente. Páscoa, morada de um tempo que volteia sempre, fogo secular de símbolos, chicoteado pelo conjunto de mágoas e sofreres dos homens.

Apenas um norte a rumar, o rapaz foi sabendo. Jovem e magro, de alpercatas caseiras denunciando pobreza e coragem, foi com o peito aberto às experimentações de sombra. Triste o caminho, pés passeados ao jugo do balouçar melancólico dos capins, as pegadas descalças de quaisquer amarras impressas no pó solto e pesado da rota negra. Um pobre homem com fome plural, insulano a buscar no mínimo esperançar a visão do refúgio. Já não podia mais sentir as palpitações do rio, nem a sua cor. Estava longe agora, resolvido nas folhagens do atalho, indo na estrada real. Levava consigo um maltratado maneio de sentimentos, mas precisava. Para ele, o destino era ainda mais longo, apesar de a sensação de novidade que lhe tomava a mente permitir-lhe a mais corrente das horas.

Isso aconteceu comigo, numa noite difícil. Venci a rua, solitário. Uma chuva fina regava as luzes parcas que brotavam dos postes. A casa estava normal quando cheguei, com as lâmpadas apagadas e um leve clareado que invadia sem licença a janela basculante da cozinha - e isso já me era normal. Eu fazia questão de entrar vorazmente, fechar a porta de ferro por dentro sem antes apertar o interruptor de luz, para dar a idéia de que medo de nenhuma intensidade fazia residência em meu órgão maior. Meu coração era gelo protegido, incapaz de se derreter. Nesse momento, a mochila que trazia nas costas ocupava-se em conter um peso maior que o normal, como que se instantaneamente algo se fizera posto em seu receptáculo. Sentia as pernas pesarem mais que o peso de rotina, os olhos se demorarem na capacitação da retina para o ver sombreado.

- Sou mais eu – sussurrei. E escutei o silêncio como resposta.

Lá fora, o moço continuava. Pescador de coisas, ia colecionando sensações, gravando na pele a conveniência do estar. Sem dúvida que, por ali andar, já provava que muito de um freio psicológico possível houvera sido destronado dentro de si mesmo. Dedicou todo o tempo do seu dia para o preparo do acontecimento. Desde que o sol abriu os olhos. Era ainda menos de onze horas do dia e ele já havia separado a calça e a blusa alvas, cor oficial do rito. Para a paz? Nem tanto. Foi raro vê-lo com um semblante que aparentasse calma ou serenidade. Estava metido numa feira de instintos, reais ou irreais, mas que mexiam profundamente no equilíbrio de sua carne.

Na sala, depois de já ter assassinado a natureza da noite com o toque premeditado no interruptor, olhei de relance o saco aberto com pães deixados sobre a mesa. A janela quase totalmente aberta deixava um vento quase frio invadir o recinto. Mais perto cheguei e percebi uma pequena panela ainda guardando uma fina quentura em uma de suas extremidades. Tive naquele átimo o pressentimento de que eu estava só, de que ele tinha partido. A sensação de uma liberdade que, não sabendo eu, viria a me sufocar dali a poucos minutos, jogando-me na funesta engenharia dos suplícios, na inquieta mecânica dos devaneios. Foi quando iniciei a subida da escada em espiral.

Lá, com ele, a parte que mais se aproximava do chão, de sua calça branca, agora conhecia o marrom do solo sertanejo. Ele, um errante desbravador antes empoleirado pelo cabisbaixoso gesto do olhado juvenil, pervagava intenso em sua marcha incidental. Os penitentes, como demônios santificados, purificavam-se em dor. Latentes eram os gemidos fabricados no atirar das lâminas dilacerantes, das pontas carnívoras, dos tinos esquartejadores. Via que quanto mais se feriam, mais forte adoravam o Ser necessário. E, repentinamente, trocavam as solas apagadas dos pés pelos registros rubros do líquido interno que lentamente descia por suas costas, a pingar em maneira de renovação da alma.

Eu estou limpo, com um cheiro típico de alfazema, vestido com um conjunto mais leve de dormir. Ao subir a escada, senti meu peso total dobrar de valor. Eu estava começando a desconfiar de minha solidão, ali.

- Deus, eu creio em ti, mas aumentai a minha fé.

Não se ouvia diálogos em todo o trajeto, somente os estalidos dos ferros amarrados nos barbantes empapando molhadamente as cavidades produzidas na epiderme, e as orações num clamor ruidoso, lamentosas. Extirpação dos pecados, o discurso das intranqüilidades, o instante poético das fomes. O rapaz registrou numa câmera a hora em que as alimentadeiras de almas rogaram aos seus suas lamúrias, e o pobre estremeceu. Já no círculo final, a roda pronunciava em vozes vivas todo o júbilo sagrado. Uma comunhão de anjos lutando contra todos os compostos demoníacos do mundo. Deus chamado, o satanás deposto. As almas se exilavam num templo aberto, escondidas das miras periclitantes. Um homem com o dorso banhado em vermelho sacudiu a matraca num alvoroço, e pediu ao Pai:

- Planta aqui teu parecer, que a gente carece... que a gente carece...

Com o controle em uma das mãos, apaguei o senso do real quando olhei o espelho que brilhava estranhamente. Não era meu rosto, meu peito nem qualquer face que soubesse. Nada que me fizesse estar em completa perfeição. Fui levado magicamente para uma outra atmosfera, de ar impedido. Apenas o espelho estava iluminado, por uma luz duvidosa. Não bati em disparada, tampouco fiquei silente. Embaixo, veio o barulho da fechadura se abrindo, o trotar de uns pés macios, baques na escadaria impondo o torque do levantamento, a presença escura de alguma coisa.

E depois uma voz:

- Jamais feche a porta sem se achar inteiro. Eu estou aqui.

Apenas um norte a rumar, o rapaz soube. Olhou para trás, viu o caminho escuro. As vegetações das margens estavam em baile.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Domingo em Iraquara


Por Germano Xavier

Hoje é sábado em minha cidade, véspera de um domingo como outro qualquer. E hoje beiro a morte, a minha morte. Por onde me encontrassem, facilmente as pessoas poderiam denunciar preocupações ou simplesmente perguntariam sobre o meu estado, se estaria eu passando por algum problema ou se algo teria acontecido comigo. Porque nos olhos dessas pessoas, meus conhecidos e meus desconhecidos, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de cachoeiras. Não haveria resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje, neste sábado, véspera de um domingo como qualquer outro, um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite.

Morre-se mais ligeiramente (não sei se este é o termo mais conveniente) nos sábados e nos domingos aqui em Iraquara. Engraçado, também morro agora - um pouco, é certo -, no mesmo instante em que escrevo estas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Pois já não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. Precisarei. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito da morte para viver, mas morrer em Iraquara, diariamente ou semanalmente - ou simplesmente duas ou três vezes por ano, quando retorno de férias - é sempre melhor, apesar de não ser nada fácil. Há um gosto gostoso em se morrer aqui.

Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura (a morte), sigo a escrever, em reduzidas linhas, a minha própria morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, que pode ser o espelho da sua ou não ter absolutamente nada a ver com ela, absorvendo com a alma sua também morte vital. Enquanto ela não vem, os meninos e as meninas iraquarenses, ainda sob os cuidados do ocioso fim de tarde do sábado, sem nenhum desses centros integrados de compras ou entretenimento bastante comuns em cidades grandes, esperam já ansiosos pelo domingo de se ir ao Morro do Pai Inácio, pelo feriado de se aguar o corpo nas intermináveis mini-cachoeiras do rio Mucugezinho, pelo final de semana de se fazer trilha pelo Vale do Paty, visitar a aldeia do Capão, limpar a alma na Pratinha ou se aventurar por debaixo do chão, em uma das centenas de grutas espalhadas nos arredores de Iraquara.

E é deveras no sábado que todo o planejamento se dá. Aí os meninos e as meninas iraquarenses ajudam o pai a pôr a churrasqueira portátil no porta-malas do automóvel, a pegar o saco de carvão - muito do qual, infelizmente, produzido com a queima da vegetação nativa da Chapada Diamantina -, a enrolar a esteira de palha do tio, a amarrar os espetos da vizinha, bola, bóia, carne, muita carne, brinquedos, toalhas, com alegria e disposição únicas. Porque foram dias de espera e nada pode dar errado agora. Tudo tem de estar em perfeita ordem, para que o fim de semana não descambe para a desolação total. Começando pelo tempo que, por ser a Chapada uma região geograficamente alta, acostumou-se a pegar desprevenido a quem olha o horizonte claro e limpo de longe do lugar onde se quer aportar, surdinamente levando aquela chuvinha constante e típica justamente para o local escolhido, quando na verdade se esperava um sol abrasador.

Com tudo arrumadinho, sol acordando cedo, lá se vai a família iraquarense, unida como em revoada de estorninhos, a povoar universalmente os infindáveis paraísos naturais gerados no centro da Bahia, preenchendo terras em seu nomadismo quase sagrado, colorindo os topos dos morros e das serras, invadindo a privacidade dos mocós e dos animais albinos donos do centro da terra - ah, Júlio Verne!¹ -, cortando as estradas sinuosas das antigas e rentáveis lavras de pedras preciosas, vai como quem tem consciência da glória que é ter tido a oportunidade de nascer e crescer sobre esta imensa manjedoura feita de pedra, arquitetura divina, rudimentar e misteriosamente imortal, dona das cicatrizes deixadas na memória da vida, e que nunca mais se despedem de nós, meros mortais - bom salientar.


Notas.
1 – Júlio Verne, escritor francês autor de Viagem ao centro da terra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Famação


Por Germano Xavier

Quantos enganos cometemos? Assim como erros, acertos existiram? Diz-me a razão para tanto arrependimento? Aquelas palavras, aqueles momentos... Por que somos tão inconstantes? Será o medo de falhar? O progresso não dispensa os erros. Pisamos em falso, buscamos atalhos e os tropeços revelam-se companheiros, quando na mais tétrica das horas alguém vem e nos ensina as diretrizes do gozo. É no corpo das rosas que encontramos a razão para se ter o amor? É onde se porta a coragem dos homens? É onde preceitos se tornam conceitos? Não chegamos a lugar algum sem antes marcarmos o chão, mesmo com lágrimas ou suor. A distância que separa a raiz das pétalas é a mesma que diferencia o forte do fraco? Há quem suporte a dor da derrota, já outros, desconhecendo suas habilidades, obedecem às ordens do choro. É preciso mais que um discurso. É preciso achar o curso dos rios. Essa tal metamorfose humana não passa de mera subserviência, obrigação de mais alta falha. Por que teimamos em sermos iguais? Já não bastam os nossos próprios enganos? Mas golpes serão usados contra esse mal, armas serão lançadas ao rosto dos que aprisionam a liberdade. Será? Seria? Só assim surgirá, do mais ermo infinito, uma legião de bem aventurados capazes de remendar os feitiços dos homens. Talvez.

Crônica de carnes


Por Germano Xavier

Invado seu corpo como
quem penetra
o poço escuro na noite escura
do tempo escuro.
Lambo as paredes de tua estrutura
como no barro
a larva albina rasteja, destemperada.
Como quem
não enxerga a nebulosa de sombra
vou na luz aberta
por meus olhos sem destino.
Tua opacidade é o mal do bem.
Vou perfurando com mãos úmidas
de vergonha escancarada,
escavando-te, para você olhar para mim
e enxergar o jardim jamais visto.
Não vê flores nem hastes frágeis
na árvore madura,
nosso encontro é a orgia libelular das asas
do vento, e você já não é.
Eu te estupro a alma, recorro
ao gesto impuro para você inflar
tal bolha tal gás tal bomba tal jorro
e para que eu possa morrer,
criatura sua, no ar que escapa
da membrana do teu sopro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E se for você?


Por Germano Xavier

Para Daniela Delias,
que tomou para si este texto.


E se for você, menina? E se não for mais ninguém e ser somente você? Diz-me agora, e se for você? Vai, anda, por que esconde o lume de sua beleza tão lindamente cândida? E como eu adorei aquela fotografia que estava em cima do balcão na sala de estar de sua casa. Ou qualquer das luminárias. Era uma fotografia poética. O momento. Não vai adiantar você me dizer que tudo isto não passa de uma gentileza minha, ou que você prefere que os de fora gostem de você pelo que é por dentro. Isto é tão cafona, não? Pensar assim. Não vejo nada. Eu não quero entender perfeitamente absolutamente nada. Eu não conheço você por dentro, mas sei que você eu amaria. Porque o amor é antes um pensamento, não é? E quem sabe o que o destino nos reserva... você vai dizer que está fazendo isto porque adora adentrar mentes em desordem. Você se fingindo de afetadinha. Que quer saber de mim? Você já sabe de mim. Sou apenas aquele que insiste em falar de amor.

Você adora intensidade pelo jeito. Mas minha palavra causa melancolias. Não vá pensando que é assim tão simples. Meus dois últimos parágrafos não te deixariam sem ar. Você pergunta do nada se eu tenho uma musa. E eu do nada arrancando uma resposta de não sei onde e lhe dizendo que não. Você sorri, faz escárnio com os olhos e a boca posta de lado em um sorriso torto. Mas eu não saberia lhe dizer com total certeza sobre todas essas coisas. Não deixa de ser uma verdade minha ignorância para quaisquer outras coisas que não o além do amor. Essa mania de falar de sonhos, do que nunca se viveu. Quem não inventa, não? Seus olhos possuem aquela tristeza bonita que sempre achei lindo numa mulher. Vá me desculpando, mas eu gosto da frase que entra no meio das outras e sempre diz mais. Você acha engraçado de novo quando começo a falar dos seus olhos. Eu não sou humorista. Alguns fulanos já tentaram dar uma definição para os seus olhos, assim eu fico pensando. Um moço de nariz grande talvez falasse algo interessante. Ele diria: você tem olhos desamparados. É, você realmente tem olhos tristes.

Veja bem, estou poupando elogios a você. Porque acho que elogiar você não vai me tornar mais atraente. Mas, a verdade é que você é muito bonita. E que sonhos lindos! Faz-me ter vontade de morrer de amor. Já viu alguém morrer de amor? Eu quero ver alguém morrer de amor. Eu queria morrer de amor. Acho lindo. Que está esperando? Você não sabe morrer de amor? Que precisa um moço possuir para que você morra de amor por ele? Que saiba bem o que é ser uma amora numa terra de abacaxis? Você morre de amor? Você está me encantando. Que seja. Sempre foi assim, iluminada? Você não sabe? Creio sim. Mas eu sempre acreditei no amor, destino, no oito deitado. Como não acreditar, não? É que eu prefiro acreditar que a vida me fez para ser feliz. Mas nem sempre. Melhor assim. O seu coração me diz o mesmo. Meu coração é seu neste momento. Tum-Vi, Tum-Da. Olha só! Consegui colocar um sorriso no seu semblante. Então já posso dormir tranquilo. Olha, você ficou tímida. Se você ri, rio-me de felicidade também. Você é mesmo desse planeta tão maculado? Desse mundo de abacaxis? Os abacaxis estão cada vez mais podres, não?

Você é real, carne e osso. Carne, osso e palavra. E sonhos. Sonhas comigo? Se você continuar assim, postar-me-ei aos seus sonhos como anímicas quimeras reais, e tornar-me-ei o seu motivo-mor. Uma das palavras mais lindas do mundo para mim é ENCONTRO. Encontro. Quem é você? O que é você? Seus dentros são lindos demais. De onde vem essa vontade de você? Eu sou alguém que também sonha morrer de amor, assim como você. Mas você não sabia se era capaz de morrer de amor. Vem deste momento de ondas límpidas? Quer me ouvir por dentro? Adoraria? Soube agora? Pois é, aquela valsa sou eu por dentro. Mas quem é você? Não gosto de ninguém fraco perto de mim. Por que algo neste exato momento me diz que você é pólen? Porque você também quer permitir que o amor seja o todo? Você me colore. De que cor você é? De todas? De que cor me pinta? De branco? Por que branco? Assim pode ver todas as outras cores que há aí? Então serei da cor que reflete.

Por que sinto vontade de perseverar? E regar feito árvore da vida a palavra iniciada... ao desejo, tudo não é pouco? E você, bastar-me-ia? Eu não sei. Bastaria? Está me bastando. Porque me adentra feito o ar. Eu respiro você agora. Vivo de você. Meu alento é você. Se eu cruzar os braços em meu peito você consegue sentir como se a você fosse o endereçar? Que dor! Dor? Veio-me algo na mente como se... não sei. Parece que você estava em mim há tempos. E, tiraram você de mim. Daqui. Eu estou. Nunca pensei que sentiria algo semelhante. Porque você me está. É tudo muito novo para mim, a cada dorzinha, parece-me demais. Confesso que estou deslumbrado, encantado com isso. Você me está? Desde que você apareceu. Qual a sua graça? De onde nos conhecemos? Já pensei sobre isso. Não é de agora, disso tenho certeza. Só sei que agora quero sua presença constante e edificante. Eu moro em tua casa.

Então, não quero ver nossas memórias se perderem entre o movimento das horas. Vamos salvar nossas edificações, sejam elas saudades ou presenças. Vamos! Caminhemos juntos, pois. Qual a cor dos seus lábios? Dessa cor. Por que você apareceu na minha vida hoje? Você sabe como é que faz para morrer de amor? Você me atinge o coração, menina de mim. Então vamos. Vamos começar a morrer de amor. Estou com vontade de morrer de amor hoje. Amanhã também estarei. Não é maldade sua? É? Não? Quero crer que não. Guarde esta data. Que coisa! Que coisa! Que coisa mais digna é aprender a morrer de amor! Estar aberto. Isto é um convite? Pode ser o tempo que for. Eu tenho a eternidade aqui comigo. E se eu quisesse por uma vida inteira? Não gosto de efemeridades. Você me abraçaria por uma vida inteira? Perdão. Já está na hora? É que tenho um coração bem machucado. E tenho uma certa dificuldade em acreditar no 'por uma vida inteira'. Por isso que quero tanto morrer de amor. Talvez seja um livramento.

É triste, eu sei. Mas, eu quero. Quero acreditar no 'por uma vida inteira'. E quando dois acreditam no "por uma vida inteira", tem como a estrada dar para destino errado? Não? Eu queria abraçar você demoradamente agora e começar logo a morrer de amor. É, talvez seja isso mesmo. Não encontrei uma única moça que acreditasse no 'por uma vida inteira'. Então vem! Vamos logo morrer de amor! Eu sinto seu cheiro, menina. Como pode isso? Estou pensando. Sim. Tenho medo. Você é isso. O centro do poema. Do meu poema. Foi por você que vivi estes meus mal completados alguns tantos anos de minha vida? Vamos descobrir isso junto? Eu quero muito você aqui, de vez em quando, nem que seja muito de vez em quando. Nem que seja para morrer poucamente de amor. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. "Só você mesmo" e se você for a razão da minha existência, o que faço? Morro de amor mesmo? Então, vou ficar o tempo que preciso for para morrer todo o amor necessário. E se for você!? Responda-me, E SE FOR VOCÊ!? Minha querida, isso não é simples... E se for eu, há de ser eu? Você me busca e me leva para seu peito. Eu fico em seu peito e ali mesmo começo a morrer de amor em seu leito. Simples assim.

Mas se eu for buscar você, não tem mais devolução. Saiba disso. Eu preciso saber mais de você. Mas, já está tarde. Eu tenho uma rotina bem intensa. E eu costumo não pensar muito em morrer de amor. Estou pensando o que eu farei com esse novo vício. Morrer assim. Não. Você vicia. Qual seu objetivo? Seu objetivo é desaprender sempre? Morrer uma vez e morrer uma segunda vez? Você vai mesmo suportar morrer sempre de amor? Eu não fumo. Não, eu não bebo. Por que você passou da metafísica para perguntas práticas? Que sucede? Você quer saber de mim? Das coisas práticas também? Tudo. Estou ao seu dispor. É difícil para mim. Tenho febres frequentemente. É que sou viciado em morrer de amor. Eu não sei se você me entende. Nunca fiquei tanto tempo assim sem morrer de amor. Enfim... eu quero que você seja o que você quiser. Apenas sinta. Eu quero ser as suas asas. Moça, deixa-me ser as suas asas? Você acredita que tenho vontade de morrer de amor por você? Ora, e não é isso que estamos sentindo agora? Deixa-me ser as suas asas?

Minha janela branca está destrancada e escancarada para você. Se eu dissesse que vou morrer de amor, você acharia ruim? Você teria medo? Medo. Então, quer mesmo encarar a minha alma louca? Permite-me tal bem-aventurança? Eu tenho coragens. Tem algo contra? Vai ser bom poder carregar você no colo quando eu já estiver morrendo de amor. E se você não estiver aqui amanhã quando eu estiver morrendo de amor? Ou depois. Estará? E se forem só sonhos? Vai ser bom estar no seu colo, menina. Que saudade! Prefiro o morrer de amor sensual. Tem preferências? Seus lábios são qualquer coisa de comestível, de devorável. Ai, você numa amurada... você acorda quando morre? Não se preocupe com isso. Preocupe-se consigo. Você ama alguém? Queria poder beijar seus olhos agora. Eu queria você neste exato momento aqui, comigo, para a gente começar a morrer de amor juntos, de mãos dadas. Eu quero os seus sonhos, os seus desejos, receios, seus sinais. E agora? Abraça-me. Vem! Eu dormirei com você hoje. Eu estou onde você se encontra. Eu morro tão bem. Vamos? Pense em tudo. Vai, pensa.

Soprando lagartas



Por Germano Xavier

II

eita doró corredor
ou é cassaco fugindo de espanto grande
ou é o moreno um artista

e se dizia que era bom de dom
e era dom de terra ele tinha
e era de água de fogo
e até dom de ar
esse menino era uma fonte
pois decifrando dom de ar devia ser
saber voar

pelas minhas contas
doró sabia voar
e eu já desconfiava disso
vendo aquela
carreira dentro do verde
a poeira depois se assentando
e nos trazendo a vista vazia sem doró
calmaria de passarinho no alto
essa altura estava láááááááááááá

o certo é que ninguém sabia onde
do menino
quando dava sumiço
desaparição dele e nele mesmo

depois foi que me contaram
era que doró soprava lagartas ainda nem crisálidas
e fazia borboletas pintoras de arco-íris
e quando o moreno sorvia tristeza
era pegar uma lagarta e soprar
depois ver o céu colorado um sorriso de deus

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dos alargues de busca


Por Germano Xavier

minha sombra, sudário, deixada como marca
no velho lençol laranja altera meu olhar,
que de longe não vê as dobras nem a parca
altitude de onde pude cair. e meu quedar,

originário da chama do ir - e do levantar -,
explica a violência imaginária que fundei
(o horizonte revoltoso que fitei, e criei...)
ao toque do chão desavisado, no pisar.

do músculo retorcido, e da alma condoída
de andar sem corpo, ou contra a higidez
perene de s’estar, enforca-se o momento

coadunador da dor, do desejo, do sofrimento...
esvai-se de mim, sem cerimônia - funda altivez! -,
minha sombra escura, ora pesada ora puída.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Livro sob o camafeu



Por Germano Xavier

Para Lúcia Bettencourt

Ninguém suspeita de mais nada. Apesar de a considerarem uma fugitiva perigosa, não conseguem se livrar da pecha que o ofício de secretária traz à mente dos mais ingênuos. O que todos pensam, deveras, é que ela jamais seria capaz de produzir tanto mal. Não sabem onde ela se encontra no exato momento, se aqui mesmo caminhando em uma das largas avenidas de Buenos Aires, ou se em outro país disfarçada com uma peruca ruiva e um belo vestido italiano. Ela, justamente ela, a secretária de Borges, a mais nova portenha acusada de plágio.

Mas não é para menos todo o rebuliço que o respectivo fato provocou. Um caso muito peculiar, realmente. Atravessar meses ao lado de Borges, do velho e já quase exausto Jorge Luís Acevedo, trabalhar como sua secretária pessoal, ouvir do próprio monstro sagrado da literatura os ditames de sua arte labiríntica, dia após dia, encarregar-se de copiar as frases proferidas pelo já quase cego escritor e, não obstante, aproveitar-se da sorte para mudar o teor dos textos que ouvia e copiava e, no fim de tudo, terminar por publicar um livro com a sua própria assinatura, como se ela fosse a autora daqueles contos fantásticos, daqueles poemas maravilhosos. Ah!, isso indubitavelmente é um crime dos mais bárbaros.

Sentia-me bem agora, já distanciada da massacrante rotina de viver. Deste outro lado, no post-mortem, conseguia observar tudo com mais clareza. Foram poucos os momentos em que logrei do tempo de que eu realmente necessitava, e tal desprazer me aconteceu durante toda a vida. Daqui de onde estou, vejo na sala o meu filho Borges, sentado no velho sofá empunhando sua bengala de cedro. Aparentemente cansado, meu filho segue com o coração dos ouvidos aberto, em pulso normal, tacitamente escutando o que o escriba tinha dentro da boca naquela bendita hora.

- Olha, Borges, ninguém sabe do paradeiro de sua secretária. Já entrei em contato com muita gente, mas ninguém possui informações.

- Não se preocupe, meu filho – falou o lobo argentino, cobrindo de suavidade as arestas das palavras.

- Juntamente com o seu editor, estou providenciando mais pessoas para a captura daquela falsária.

- Não carece mais, meu bom amigo, deixa ela.

Isto resumia tudo – ou quase tudo. Borges não estava preocupado com o desfecho da história. Renomado, dono de um lugar expressivo no cânone literário mundial, o argentino deixava emanar de seus gestos apenas um parcimonioso sentimento de resignação, como que sabedor de que a única coisa que importaria a ele no auge dos seus oitenta anos de idade era apenas a figuração realista da morte, ou o espectro real do movimento último advindo do poder de sua memória, esta espécie de ave carnívora que dele se aproximava contundentemente.

Depois de escutar o último dizer do mestre, vi o escriba sair cabisbaixo pela porta da cozinha. Meu filho continuou sentado por cerca de quatro ou cinco minutos, talvez refletindo sobre o sucedido, ou talvez desejando que a foice lhe chegasse rápida com o golpe laminado final, bem na altura do seu pescoço, fazendo-lhe respirar aliviado. Devia estar pensando na situação constrangedora em que a sua secretária havia se metido, agora uma moça bonita e sem sossego, incapaz de gozar de uma paz mínima ainda em seus iniciados anos de juventude, procurada por todos, exilada do mundo.

Com movimentos suaves, meu filho mexeu a cabeça para a esquerda. Fitou ao longe o quarto, as vistas despronunciadas e viu, como num quadro onde o pintor utiliza-se da técnica do sfumatto, a embaçada forma do camafeu que me pertenceu e que se encontrava no mesmo lugar onde deixei antes de partir para o outro mundo, encostado ao velho guarda-roupa, sobre a penteadeira na alcova que foi minha por gerações inteiras. Presenciei toda a cena. Com dificuldade, meu filho caminhou até o cômodo. Ao passo que ia se aproximando do camafeu, um objeto ia tomando corpo em cima do móvel antigo. Mais alguns pesados e lentos passos e o grande tomo ia ganhando proporções reais. Era um livro. Neste momento, imaginei que ele já conseguia, só de ver o borrão nas vistas cansadas, sentir até o peso e suas exatas dimensões, tamanha era a sua vivência com tal artefato.

Não sei como a idéia de ele saber o que estava em sua frente me era assim tão facilmente verificável, agora já segurando na palma de uma de suas mãos o livro, ou o que o fizera ir até o quarto, direcionar-se exclusivamente para o canto onde estava o camafeu, decidido a averiguar aquele objeto com os próprios sensores do corpo e da alma. Muito estranho achei porque não me lembro de ter deixado um livro sobre o móvel nas vésperas de minha morte. Ainda mais pelo fato de, apesar de Borges ter um mundo de livros e viver a literatura intensamente, eu não gostar de me arriscar profundamente em romances ou coisas do gênero.

Vi Borges encostar o rosto no livro, no intuito de ler o que havia escrito sobre a brochura, quando numa explosão interna de sentimentos, misto de surpresa e torpor tanto para mim quanto para ele, a voz do meu filho ecoou lúcida e potente de dentro do quarto:

- Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti, mas viver sem amor acho impossível. Sabes bem o que acabara de fazer?

- Perdoe-me, senhor – disse a secretária, surgindo em rastejo serpentino de debaixo da cama.

- Eu não falo de vingança nem de perdão, o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

- Mas foi mesmo o senhor, meu amo, que uma vez me dissera que acreditar no amor é ter fé num deus falível.

- Todos os caminhos levam à morte. Perca-se.

Algum sentimento estranho se aventurou dentro do meu ser. Daqui de onde estou não posso ver nada. Apenas ouço o diálogo. A secretária do meu filho não está em outro lugar senão dentro de casa. Nunca estivera em outro lugar. A falsária tivera se escondido embaixo da minha velha cama. Deus meu!

Sem conseguir olhar diretamente nos olhos de Borges, a secretária lhe estendeu uma das mãos:

- Vide, meu senhor, esta é a mão que às vezes tocava a tua cabeleira quando se sentava naquele sofá e começava a ditar-me as tuas frases.

- A velha mão segue traçando versos para o esquecimento – disse o escritor, com voz rouca e pesarosa. – Por que fizestes isto?

- Calam-se as cordas. A música sabia o que eu sinto.

Mas o silêncio é viscoso demais e poucos são os que o suportam. O silêncio é profundo, e de em tantas profundezas se enveredar, como numa patafísica ironia o silêncio alguma coisa diz, numa alguma hora decisiva.

De repente, nada mais se fez ouvir. Do mesmo modo como deu entrada no quarto, Borges dele saiu. Lançando ao solo passos piedosos, meu filho chegou à porta que dava para a cozinha. Olhou para o chaveiro próximo à janela e o percebeu incompleto. Vendo o escriba sentado em um dos tamboretes, com o telefone encostado em uma das orelhas, interrogou:

- Alguma notícia dela?

- Não, senhor. Nada ainda.

Borges voltou-se para a sala em puro silêncio, refletindo sobre o motivo de o quarto da mãe estar ali aberto naquela hora, quando o normal é estar cerrado e sua chave imiscuída aos outros molhos e chaveiros na cozinha. Virou o rosto na direção do quarto e não viu mais a sombra do objeto em cima da penteadeira. Para dentro de si mesmo, sussurrou um pensamento:

- Obscuramente livros, lâminas, chaves seguem minha sorte. No deserto acontece a aurora. Alguém o sabe. A vasta noite não é agora outra coisa senão fragrância. Disseram-me algo a tarde e a montanha. Já não me lembro mais.

domingo, 30 de janeiro de 2011

#1



Por Germano Xavier

A menina era sem nome,
mas na idade dela nome isto era uma coisa pouca
demais. Valia mais um punhado de pirilampos
acordados de noite ou de dia, luzindo.

Eu mesmo, olhando-a daqui,
resolvi chamá-la de Beatriz -
não me pergunte o porquê.

Penso que Beatriz fora à praça quando a tarde
emudecia. Fora com o seu avô,
de mãos dadas, quase calada. Andarilhando,

apercebeu-se das graudezas miúdas
que só nas floragens inocentes existem.
Por isso veio ela dobrando a esquina,
assim com as mãozinhas no bolso,
como quem esconde um tesouro.

Era Beatriz querendo guardar para si
um tantinho do Tempo-Camaleão.

Cartas de navegação



Por Germano Xavier

CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves, é um livro de poemas sobre distanciamentos, medos, sobre uma condição de marginalidade perante o mundo que devassa a ordem do existido, do existível. O que há pode entrar em ruína a qualquer momento. A poesia aqui serve como um aviso sobre nossas fraquezas e nossa desfaçatez concernente ao todo do mundo. A atmosfera espaço-temporal gerada em suas páginas maquina um tumor que beira a malignidade nos sentidos de quem lê. A alma se adoenta quando a pureza da vista sofre maculações necessárias no decorrer da leitura. Tudo é um sofrimento conjunto, do autor com o leitor. A consequência é a produção de uma consciência em atividade inquiridora. O autor nos coloca diante de um lugar que é nosso e que está demasiado distante de nossas mãos, mesmo estando perto demais, o que nos causa um certo desespero por não poder tocá-lo em sua inteireza. Faz isso nos dizendo: “O nosso paradeiro é um lar distante”. O mapa que nos guia revela uma poesia referente ao nosso próprio descobrimento, e nos olvida do que não nos são préstimos e essências. “Esqueça tudo que não for amor”, versifica, reforçando tal idéia. Por detrás das forças que operam o contrário do bem, o amor surge impetuoso, feito um deus duro e capaz de maldades benévolas. Num cenário regado a desesperanças, onde “Não há nada/ Desta pedra não se tira leite”, somente o amor pode burlar o fel da vida. O homem rompe o silêncio para se transformar numa “Máquina de procriar escuros e afogar naufrágios que insistem”. A prosa poética se mistura ao verso livre, que bebe constantemente em repetições, para fortificar o sentimento de uma cotidianidade feita de realidades. O poeta lembra dos amigos e constrói uma cidade quase inabitável em mirante do morro de santa Terezinha. Deseja a morte em versos como “tragam os pregos para minha crucificação”, terminando por nos alertar sobre as desventuras da vida no estado purgatorial. Talvez só valha a vida na desforra e no desbunde, ou na quietude dos nirvanas existenciais. Canta “os senhores da terra e das sementes”, gente que arde na brasa das folhas de fumo da Cachoeira de tantos santos tragados por históricas batalhas pela identidade e pela resistência de um povo. Aprender com tristezas, saber lidar com toda sorte de infortúnios, alimentarmo-nos de sementes, operar germinações íntimas, lições que a poesia de Nuno Gonçalves nos coloca em seu livro CARTAS DE NAVEGAÇÃO. Porque a base de tudo é somente o que somos. Será?

sábado, 29 de janeiro de 2011

O condado de Spitzbergen


Por Germano Xavier

II


Em sua última aparição, Napoleão Joujaumontx encarou imbróglios diversos que acabaram por mexer no seu comportamento habitual. Percebendo que nada estava acontecendo como ele queria, Napoleão Joujaumontx resolveu observar a administração de um de seus impérios do Ártico, ali nas proximidades de Spitzbergen. Furioso ao ver os desmandos de seus dependentes, o general de cinco estrelas, Napoleão Joujaumontx, decidiu ir ao encontro de seu mais antigo súdito e provável herdeiro de seu trono, posto que havia desconfiado de alguma falcatrua ideológica e de uma decepcionante corrupção material.

Parecia perdido em sua existência errante, quando tomou fôlego novamente e corroborou a sua última frase, dizendo...

- Já sei u qui fazê, pô! Tenhu um planu mirabolanti aqui na cachola. Aqueli salafráriu du Pinóquio vai si arrependê di tê mi conhecidu. Eli vai vê cum quem está li danu! Ah, si vai...

Napoleão Joujaumontx, a lenda viva e o virtuose do poder, num acesso de cólera, iça sua adaga imperial e grita gritos de homem já experimentado em fronts por todo o mundo...

- Eu hei di ti pegar, seu gatu disgramadu! Eu hei di arrancá us fiapus di teu bigodi, seu bichanu di uma figa! Ou eu ti capu di uma vêis pur todas ou eu não mi chamu Napoleão Joujaumontx!

Depois de elevar a voz forte e máscula de guerreador invencível, Napoleão Joujaumontx, ele mesmo, o irmão caçula do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, aquele do Saavedra, olha para o seu relógio suíço de ouro 24 quilates e acerta os ponteiros de sua próxima glória...

- Agora são 07:37 da matina i você tem exatamenti uma hora pá aparecê di ondi quer qui você isteja, seu Pinóquio disgraçadu. Eu não disistu assim tão fácil não! Doa a quem duê, eu ti capu ainda hoji. Nunca mais você vai mi disobedecê dessi jeitu. I vou logu avisanu, viu! É melhó você trazê a disgraça du meu chinelu, purque sinão a coisa podi ficá ainda mais preta pú seu lado!

Armado da cabeça aos pés e com os devidos broches da Academia Militar de Paris pendurados no belo capuz azul com bordados turcos, o artilheiro-mor Napoleão Joujaumontx começa a aferir todos os recantos do condado de Spitzbergen, onde descansava havia duas semanas...

- Ondi é qui essi infiliz si meteu!? Atráis da bosta da geladêra nova eli num tá. Nem imbaixu da pia. Piorô atrais du bujão. Sabi di uma coisa, eu vô é procurá lá no banhêru. Gatu gosta di iscondê suas artis em locais privadus. Nada melhô du qui vê si eli istá atráis da latrina. Não custa nada averiguá!

Conhecendo novamente a força que impulsiona os maiores homens da história a lhe percorrer as veias e as artérias, o indestrutível Napoleão Joujaumontx demonstra uma certa malemolência corporal logo depois de adentrar pelo portão sul do Condado de Spitzbergen, perto do setor de descarga de paramentos bélicos de seu já citado território...

- Pô, qui disgraça di fedô é essi! Qui disgraça é essa, meu padin Ciço! Quem foi qui obrô nessa merda i não deu discarga!? Pinóoooquio, seu felinu maleducadu! Deixa eu ti pegá qui você vai vê a cô du meu currião vermei, viu... Pô, esse banhêru tá parecenu us infernu... cum aqueli tantu di inxofri frevenu nus caldeirão lá das terra di baixu. Qui fedentina, meu padim! Pareci qui não limparu a privada desdi o início du anu.

Surpresa maior o maior dos mestres da guerra iria ter ao abrir a tampa do seu esconderijo subterrâneo...

- Qui tulete é essi, meu sinhôzim do Ceará! Aqui tem cocô qui não acaba mais! E é cocô di gatu, i di gatu safadu! Pinóooquio, seu gatu fididu, queru tê uma convessinha cum o sinhô! Apareça, seu vermi disubidienti!

Depois do susto, mas ainda claudicante, Napoleão Joujaumontx percebe uma trilha feita com as pegadas de seu súdito. Uma trilha construída recentemente, ainda viva e de perfeitas formas...

- Ah rá, seu Pinóquio di uma figa! Seguindu essa istradinha eu vô ti achar rapidinhu e pegá você cum a boca na butija!

Mesmo descobrindo uma real pista do seu escudeiro trapaceiro, o irmão caçula do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, o fenomenal Napoleão Joujaumontx, utiliza-se de cautela, dom daqueles que já nasceram para a arte da guerra*...

- Eu não possu mi afoitá. A paciência nessas hora é a melhó coisa a si produzí. Precisu esperá chegá u meiu du dia, pois assim terei mais chanci di capiturá Pinóquio. Todu gatu é priguiçosu quandu u sol tá nu meiu du céu.

É quando Napoleão Joujaumontx percebe alguma coisa a se movimentar no setor norte do Condado de Spitzbergen...

- Meu padin Ciiiiiçooo! U qui foi aquilu, meu deus!?!?!

...

Não perca o próximo capítulo da saga de Napoleão Joujaumontx!
Você não perde por esperar...

Obs: Napoleão Joujaumontx não leu "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Todos os seus conhecimentos foram adquiridos em campos de batalha, comendo o pão que o diabo amassou.

O ginete adestrado



Por Germano Xavier

II


Eu sou apenas um sonhador e acredito em "Mundos". Eu só quero que você me entenda! Mas se você não quiser entender, não faz mal. As coisas vão continuar sendo "coisas" e as coisas... ahh!... não vale a pena explicar. Quando se quer escrever é bom que se ande, pois a matéria-prima dessas nossas loucuras são mais facilmente encontradas nas ruas, avenidas e esquinas dos "Mundos". Tudo é muito barato e quase sempre gratuito. Uma verdadeira pechincha, sem contar que a relação custo-benefício é extraordinariamente positiva. É por isso que estou sempre andando por aí, muitas vezes tentando me encontrar.

Foi numa dessas minhas andanças que percebi o quão selvagem é o Amor do ser humano. Na margem do rio, uma égua se aproxima de um ginete adestrado; primeiro, há uma troca de sinais e entendimentos e, logo depois, como que de súbito e inopinado, a égua se oferece num gesto ligeiro. Assisti à cena e acabei percebendo uma relação de interesses fortíssima durante aquele ato. A égua desejava segurança, respeito e maior autonomia territorial. Já o ginete adestrado queria a conveniência da fêmea, a fama e o status de garanhão. Naquele instante, enxerguei o homem em todos os estágios históricos, pois não pense que essa troca de favores é marca ou consequência da pós-modernidade. Um auto-retrato da selvageria e irracionalidade humana. Alguém aí sabe onde eu deixei aquele meu "chazinho"?

Viver é mesmo uma provocação. Eu sou apenas um sonhador, e também um proxeneta (já se esqueceu disso?!). Eu ainda não consegui entender o porquê dessa desfaçatez absurda. Calma! Eu não estou dizendo nada demais! Eu sou um humano pseudestésico, lembra? Mas é que o Amor é mesmo uma droga, sempre nos deixa no chão. Toda vez é isso: decepção, ilusão, barbitúricos, suicídio... A minha puçanga, eu preciso da minha puçanga!

Por favor, não pense que eu sou um louco. Eu posso explicar tudo! Eu não estou aqui para criar confusão. Tudo que quero é que você me entenda. Não se aborreça por minha causa. Eu sou apenas um sonhador e estou aqui só de passagem. Continue! Viva! Apenas viva! Pássaros coloridos, onde estão meus comprimidos? Sirva-se de seus pseudosumos, mas continue vivendo! Perdoai a eles, pois não sabem o que fazem!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A autoria da reflexão


Por Germano Xavier

o outro
em lugar
de explicá-lo

ou descrevê-lo

o todo
em seu vigor
hipotético

hipotético-teórico

a medida
assumida
como sendo

talvez

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Iraquara no olhar de um viandante



Por Germano Xavier

Voltei. Mais uma vez solando as calçadas poeirentas do vermelho-barro da cidade onde nasci. É quando me desponta um movimento no pensamento acerca dos olhares daqueles que são apenas seus visitantes e passageiros. Eu me pergunto sobre o que eles vêem, sobre o panorama imagético que lhes atravessam os sentidos quando rompem suas cercanias, suas serranias. E como são tantos os meus questionamentos! Num misto de preocupação e consciência defensiva, tenho por mim que estes "bandeirantes" intermitentes, turistas vindos dos mais diversificados lugares do Brasil e do mundo, não conseguem abarcar nas vistas nem a mais ínfima parcela da monumental representatividade que a Chapada Diamantina Meridional, em especial o município iraquarense, exerce e tem para revelar. E se achas que o nativo é o abençoado de toda esta história, não se engane, explorar é um verbo que custa caro e oprime quem tem direito.

Por alto, recebendo informações já castigadas pelo uso, através de guias despreparados, com suas frases mecânicas e de pouca criatividade, suspeito que os turistas e os autóctones já se cansaram de ouvir que o nome Torrinha - nome referente à gruta de maior destaque espeleotemático da região e também à cordilheira onde está situada -, vem de uma diminuta formação rochosa que se assemelha muitíssimo à arquitetura de uma torre; como também imagino a restrição no roteiro de desbravamento a que as pequenas empresas de turismo, atuantes e deslocadas principalmente no perímetro que engloba a cidade histórica de Lençóis, distante de Iraquara pouco mais de 50 quilômetros, impõem aos visitantes, quase nunca oferecendo novas opções para o conhecimento do público, cobrando verdadeiras fortunas pelos acompanhamentos e instruções, impedindo a população local, financeiramente desfavorecida, de também usufruir destes divertimentos e oportunidades.

E quem não tem a chance de caminhar pelo universo da região chapadense, mormente de conhecer as naturais belezas achadas na Área de Proteção Ambiental na Bahia (APA Marimbus), perde a graça de não poder ver as enormes cascatas geradas pelos inúmeros rios da região, as campinas entrecruzadas pelos riachos que galopam pelos canais de arenito, os leitos pedregosos que brincam de mistério durante todos os dias do ano; perde a graça, como diria o escritor e poeta iraquarense Ângelo de Mattos¹, de enxergar "os lindos salões existentes no seio das enormes cavernas... cujos tetos parecem ser sustentados por lindas colunas esculpidas pela natureza, as quais são tão perfeitas que parecem ser construídos pelos mais hábeis arquitetos da Terra. A estátua de Moisés" que "parece caminhar" nos seus interiores; "um altar formado na encosta do salão, em cujo centro acha-se um religioso a apregoar; "... a escultura de Moisés a atravessar o Mar Vermelho, seguido de seu povo e perseguido pelo Faraó; esculturas de vulcões em erupção..."; "beduínos a cavalgarem seus camelos no deserto. “O Espírito Santo de Deus em forma de pomba, esculpido pela natureza”, que "parece sobrevoar a gruta; vaga-lumes a lampejarem no seu interior, como se pretendessem banir as trevas; rios cristalinos oriundos de lugares desconhecidos a cortarem a gruta de Norte a Sul; rastros de pessoas adultas e crianças, indeléveis no chão, restos fossilizados de animais antediluvianos escondidos nos cantos mais ocultos da gruta e tantas outras belezas naturais...²"

Sem falar no "cântico mavioso das arapongas e sabiás bicos-de-osso a saltitarem nos galhos mais altos das árvores, as gigantescas gameleiras de folhas robustas a assombrearem o local por onde passam os regatos, as corujas rasga-mortalhas a crocitarem na escuridão da alta noite com seu cântico agoureiro à procura da companheira, as lindas serranias que cortam a chapada, as macegas que ocultam as codornizes e os inhambus que vivem a piar anunciando o anoitecer no sertão, os vaga-lumes a piscarem na noite escura alumiando seu caminho, o curiango-tesoura a fazer suas acrobacias nas curvas da estrada, o silvar da serpente à procura da companheira, os rios que se chocam fazendo remanso, a lograr o desejo da sucuri que, ávida, espreita a passagem de animais de pequeno porte com o fito de saciar a fome, o diamante de cor esverdeada (a mais dura pedra preciosa formada pelo carbônico cristalizado a brilhar no leito do riacho, emitindo chispas a afetar ligeiramente o bom funcionamento de nossa retina". Todo um capricho depositado por mãos magníficas e mais que humanas encontra-se à revelia dos olhos do simples homem, habitante nato e, também, mas em menor grau, ao homem que vem de fora. Biodiversidade que sofre com a falta de estrutura e organização.

O homem ainda não conheceu Iraquara, ainda não sabe o que é verdadeiramente estar sobre o solo diamantino. Ninguém viu nada, ninguém vê. Ninguém nunca viu nem o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente agir em prol da boa manutenção deste espaço sagrado. Só para citar um exemplo de descaso, lembro a ação predatória das pessoas que residem nas serranias, sempre à caça de animais silvestres, contribuindo exaustivamente para a extinção de boa parte da fauna local. Uma catástrofe. É quando rememoro as palavras do poeta Ângelo: "É imprescindível que alcemos vôo rumo ao ponto mais alto das cordilheiras de nossa imaginação e de lá lutemos com veemência contra a ação predatória dos "imperadores" das serranias, para que alcancemos o ponto culminante da realidade brasileira até agora desconhecida³”.

Outra vez em retorno, Iraquara, e você a saber que voltas e regressos sempre me doem. Fica uma sensação esquisita de que não devíamos nos permitir, no canto esquerdo de uma salinha sem vida, a oblação de um cântico de luz. Sofre imaginar que toda volta é um recomeço, e que recomeços tendem ao que não vingou, ao que não foi ou ao que não poderia ser. Combato, hoje, minhas obviedades mais simplistas, e na procura de um fusível perdido, curto um curto que, se não é de choque, é circuito de se ir. Perigo é fazer o retorno impossível, o retorno insubstancioso. Melhor caminhar torto pelo caminho vital, quebrando caras e bocas, beijando luzes e lamas, estéticas joviais. A gente sempre tem a sensação de que na próxima esquina, na padaria da rua, no banco do consultório médico, desponte o algoz voraz, surgindo pelo portão principal, decidido a nos capturar. E para isso retornos servem. Para nos dizer das horas e das lutas possíveis...


Notas.
1 – Escritor e poeta iraquarense, autor de O império das serranias.
2/3 – Excertos retirados do livro O império das serranias, de Ângelo de Mattos
Pereira.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Em memória de mim



Por Germano Xavier

"Terá sido frio seu súbito abraço?"
(Caio Fernando Abreu, em Pequenas Epifanias)


Um primeiro aviso ao leitor: não quero estar vivo após escrever o ponto final desse texto. Principalmente não quero me sentir vivo. Ultimamente a vida me tem surgido um tanto carregada, tatuagem de pedra encravada nas costas. É certo que há dias em que a desgraça se instala e fica, como na maioria dos finais de semana. Finais de semana não foram feitos para pessoas como eu, definitivamente. Hoje é um sábado, amanhã será um domingo. Festanças, comemorações, alívios, gente andando pela orla com seus cachorros, papagaios, gatos, cavalos, gnus e rinocerontes de estimação - por que não rinocerontes? Mulheres e homens bebendo, papeando, tagarelando, resenhando suas mais inclassificáveis trivialidades. Crianças nos parques gastando suas infâncias. Velhinhos no dominó e no gamão esperando Godot chegar e eu, um ser estranho, sentindo tudo aqui na clausura do meu quarto razoável. Estou pensando em minha imortalidade, enquanto os outros não. Os outros nem ligam, não se esforçam para morrer brandamente, como sempre faço. Estou pensando na minha mortalidade, enquanto os outros não. Os outros apenas vão, e chamam isso de "ir apenas" de liberdade - estarão certos? Estou pensando em coisas que são desprezíveis aos outros - pelo menos agora, na parte pulsante desta coisa a que intitularam "vida". Estou pensando - e penando também - em assuntos como a morte, como a vida, como a minha mitologia, como a mitologia do mundo, como a desgraça que é ser assim, sentir dor por tudo, sentir dor por nada. Não, não é que tenho gosto pela maneira como vejo o mundo, as pessoas e as coisas. Não é isso. Não sei até quando sou feliz por assim agir nem triste, sinceramente não sei. Porém, é quando dias assim como esses me abraçam o corpo sem piedade alguma que sinto ainda não ter sido capaz de obter a permissão para entrar de vez no paraíso. E não sei se é deveras este o destino permanente a que aspiro para o depois daqui. Apenas estou pensando em minha possibilidade de morrer, em minha expressiva potencialidade de deixar de existir, de ir, virar pó, nada, ar, de desaparecer para todo o sempre. Só isso que estou a fazer agora. Ao passo que não consigo ignorar a morte que caminha comigo - posto que é ela a própria alma da sombra que me projeta maior ou menor dependendo do ângulo de incidência da luz -, assino minha qualidade de ser essencialmente mortal. Borges me diz que "ser imortal é coisa sem importância", e aceito. Minha imortalidade estaria em não me preocupar com ela, e com nada parecido - o que é, de fato, quase impossível. A afirmação por algo, de ser alguma coisa, é a própria constatação de que não se é ou não se pertence. Ninguém é deus ou será apenas se auto-afirmando como um. E depois disso, novamente penso nas pessoas com seus rinocerontes de estimação, nas mulheres tagarelando pieguices, nos velhinhos jogando a tarde sobre um tabuleiro quadriculado, nas crianças brincando sem economias. E penso em mim, mais uma vez. E mais uma vez penso no que será de mim após o ponto que finalizará o texto que agora redijo. Estarei morto mesmo, como que pronto para um funeral ligeiro e sem pompas? Continuarei vivo e mudarei alguns conceitos acerca das minhas imaterialidades tão presentes e indefiníveis? O que será de mim após meu pensamento? Mas, Borges, eu também não pretendo ser tão débil a ponto de morrer por qualquer coisa. Por favor, não me entenda mal. Eis o meu ponto final.

Tango eterno



Por Germano Xavier

Levamos sempre a parte que nos falta. Embrulhados e formidáveis, levamos, quando saímos, também nossas proezas e nossas vinganças. Apavorados, berramos cinturados por látegos e grilhões. Nossas imediatas evidências são os ápices de quando conhecemos as coisas. Precisamos sempre do primeiro encontro, ainda puro, sem análise, sem estudo de caso, sem tese. Assim o flúmen desce a correnteza banindo dérbis e outras maiores sentenças heráldicas. Os tangos sempre existem e também esquinas por onde os sinos dobram badalos. Somos diversidades iguais, em tons entusiastas, no passo de uma mazurca noturna, mentalizando deuses, arrancando confirmações, iludindo nossos sentidos, fabricando supremacias, centrando e desacoplando geometrias e álgebras. Ela trouxe à baila nossa verdade e foi para ela que escrevi minha febril penitência. Eu estava saindo de casa. Dormi pouco e muito era. Não dava mais. Insuportável esfera de doer no peito, machucando minha infância de amar. Dor no peito que é passeio sem mãos. Eu saía de casa, àquela hora da noite, chuva em ópera, pássaros acuados, e era eu quem regressava. Era eu quem voltaria a vê-la trôpega, preguiçosa, o sempre tropeçar no pano sempre da porta do banheiro. Aquele dela vestidinho de menina roceira, rocio de madrugadas da gente, égua cavalgando meus pastos, patos e lagoas, patos. Eu singraria toda aquela água negra e côncava, encharcado no meu próprio charco, meu defunto, atirado em êxtase, e também vivo, pirata que eu era, saqueador, afanador de tesouros, perfurador de petróleo.


Foi para ela que escrevi a palavra que escorria de mim.
Nosso tango, rodopiado sob o teto do Grand Palais.