domingo, 14 de outubro de 2018

Coisas velhas de hoje



Por Germano Xavier



Normalidade


Um dia normal dentro de minha vida é assim. Estou triste, cabisbaixo e minha impaciência com as coisas é a única razão que me coloca em movimento. No restante de mim, sou somente silêncio. A manhã ingerida à cara de enjôo. Indesejáveis horas. Repentinamente, ocorre-me sempre uma vontade louca de cometer um suicídio. E lembro que, na cidade onde hoje moro, passa um rio bastante caudaloso. O rio é enorme, mas não sei se ele seria capaz de suportar o peso de todas as minhas angústias. Talvez, se desse modo o fizesse, ele também resolvesse morrer ao meu lado. Seríamos simplesmente espetaculares em nossas mortes. Seríamos, para sempre, dissidentes de nossas antigas concepções. Eu, profundamente decepcionado com a realidade. Ele, o rio, uma criatura feita com as lágrimas do povo, e com as minhas. Assim, abriria os braços no ponto mais alto da ponte e, feito uma ave de rapina, voaria meus últimos instantes de aflição e de desejo insano. Depois, mergulharia no véu negro da morte, acreditando ter ido ao encontro da liberdade do meu espírito misterioso. Todavia, todo este afã cessa sempre e acabo dentro de uma sala de aula abafada, com inúmeros adjetivos sentados em apenas um substantivo. A cabeça começa a doer. O sangue parece se movimentar em meu organismo. Pego de uma caneta e de uma folha de papel, mas as veias latejam, surrupiando todas as palavras que eram minhas de origem. Sinto-me fraco e desprotegido. O sol começa a se esconder por trás do horizonte. A lua, ainda quase invisível, expressa seus primeiros gestos iluminatórios. Por final, a noite. Por final, o sono... e a profunda e silenciosa certeza de que amanhã será mais um dia dentro da minha tangida normalidade.



Olhos novatos


Hoje eu tive um sonho. É noite e uma mulher me espia de uma mínima senda da janela de sua casa. Acabei de me mudar e é conflituante essa sensação de me sentir um estranho. Vejo que todos lançam olhares de curiosidade sobre mim. Sinto-me indefeso, sem saber como atacar. Nessas horas, é inteligente um pouco de paciência. Um revide impensado e prematuro traria consequências jamais quistas. O melhor que posso fazer é esperar. É o fim do meu sonho. A espera.



Reencontro


Sexta-feira, 16. Uma agonia. Ontem revi um dos meus vários fantasmas da infância. Por isso, hoje, por onde estive andei encabulado, numa espécie de assustamento que tomou conta de todos os meus passos. O teto branco do apartamento onde moro deixou de ser o simples teto branco do apartamento onde moro, transformou-se no teto antigo, forrado em madeira, da antiga casa onde nasci, recheado de imagens que eu perscrutava noturnamente, silenciosamente, diariamente. Um teto de lembranças esquisitas, morada de algumas entidades que me fizeram companhia por um longo tempo, antes de começar a perder, paulatinamente, a minha potencial essência para o fantástico, natural quando se observa o levantar dos anos.

Sexta-feira, 16. Uma noite singular, por excelência. Tive a nítida impressão de que eu me fui novamente, como há muito... Eu a me levantar, suado, com uma adaga de prata em minha mão direita, na esquerda um escudo de bronze, olhar rijo, direcionado ao vago, aquele mesmo caçador, aquele mesmo guerreiro, menino, em busca de aventuras estranhas, que só ele vivia, procurando encontrar a sua sombra, o seu outro, o seu desconhecido, ele mesmo, sempre.


* Imagem: https://www.deviantart.com/sudor/art/Rue-Desaix-131971066

A velha mesa de todos os dias



Por Germano Xavier



Sylvia, por quê?

Eu sabia ler tuas aflições, não era como o Ted. Eu te respeitava. Eu te amava, mas tu preferistes a sublimação. Adorava quando tu me confessavas o todo dos teus dias, sempre infames. Teu Ariel quase pronto, deixado na cabeceira de tua cama em Londres, matar-me-ia anos depois. Teu vago aposento não era vago, Sylvia, era turba. Não me perdestes, nem eu a ti. Estou contigo, nestes nossos tons confessionais, isentando-te de qualquer culpa. Onde quer que estejas, estarei ao teu lado, lendo-te em devaneios e surfando-te em instituições nefelibatas. Naquele 11 de fevereiro de 1963 eu te amei como ninguém poderia.

Um beijo, Sylvia, do teu amante eterno.



Um bilhete para dizer adeus


Eu deixo estas palavras sobre a cama porque ainda estou com você. Apesar de nossas brigas, quase sempre tão tolas, ainda não posso. Lembra de fechar o registro da água quando for sair. A pia está vazando e a prestação do sofá já chegou. O dinheiro está em teu porta-jóias. Eu vou indo porque preciso. Jamais me esquecerei de você. Mas a memória é também o esquecer-se, e eu devo. Amei você quando pude.

Desculpa, não posso mais.
Teu.



Um último dia


Eu não sabia que ontem era meu último dia. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão... tão... infinito. Distante! E também impalpável, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever senão a existência de um fim, de uma presente imagem do que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, para que um derradeiro olhar atinja meu universo, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?


* Imagem: https://www.deviantart.com/janek-sedlar/art/Secret-path-through-valley-of-upside-down-carrots-411772114

Mot just



Por Germano Xavier


um texto escrito em 2008.



A luta que luto com meu corpo bem parece com a luta que luto com a minha cabeça. Parte alta de mim, gaturamo, quase um contraponto em melodia inacabada, minha cabeça é corolário, dedução coberta por uma pele lustrosa, minha crônica e meu humor e meu grande livro. E luto infinito. Um corpo-a-corpo que já não mais, ou nunca, preocupa-se com as consequências e exigências estéticas impostas pelo mundinho de já-agora-apodrecido-pela-beleza-forçada. Sempre foi de caráter secundário a publicação dos meus resultados. Para que serve um registro sobre o nada? Sim, todo mundo um dia quer provar alguma coisa a alguém. Ou quer provar alguém para alguma coisa.

E resultados sempre existem. Positivos ou não, eles sempre aparecem. Mas o que pode ser positivo? O que pode ser negativo? De quando nasci, luto com minha cabeça teimosa, manceba e também arredia. E não é diferente hoje nem será amanhã. A sensação que tenho é que a guerra que travo com este apêndice aéreo que sustento com a força de meu pescoço não termina nem terminará, pelo menos por tão cedo. Luto de suar a testa. É minha cabeça dizendo uma coisa, meu corpo pedindo outra. Mas nem sempre. E assim vai. Assim, vamos. Para onde é que nenhum dos dois sabe, ou saberá. Seguimos, e só. Somente e só, seguimos.

Hoje foi dia de receber sinais mais ou menos do tipo olá-você-está-vivo-parabéns. Um bom dia para mais um embate, mais um round. Saber até que ponto estar vivo é positivo ou negativo, eis a questão. Mas para que serve também uma dúvida? Você saberia me responder? Não queria eu a suposta melhora de vida encontrando a morte veloz numa esquina dissolvida em anelos libidinosos e fatais? Sou eu mesmo este ser que, em seus “claros?” anos de idade, ainda troca entornos de peripécias por um saudável equilíbrio relacional? E quem sou eu? Quem? Eu morro igual na idade nova. Morro. Vou escrever um poema de um fim. Talvez eu deva. Acabou aqui. Acabará? Acabamos? Somos acabáveis?

Minha vida é minha e minha morte é minha. Acabou aqui. Eu me faço. Eu me acabo. Deixo a álgebra e os cálculos em paz. A matemática de minha vida tem sido dura comigo em alguns sentidos. Em outros, consideravelmente mais dispensáveis, leve e acolhedora. Não desejei fazer conta de palavras. A poesia pesa menos que o ar. A poesia pesa mais que o ar. Mas não sabemos. Deixo tudo nas mãos do tempo que passa mudando tudo. Vi que preciso repetir isso mais vezes. Tentar explicar ou pedir explicação pode causar incômodo ou mudar a rotina dos ventos. Eu tinha ouvido conselho sobre isso. E como sabem, mudar também pode ser bom, mas nem sempre. Firmar teu pé no chão de alguma coisa e ir ao profundo daquilo é um sinal de força. Radicalismos à parte, ir às funduras das coisas é sempre mais gostoso.

Já perdi muito tempo nesta vida tentando comentar meus crimes mais perfeitos. Hoje sou outro. Ou aparento. Ainda repleto de falhas e fraquezas, mas outro. Para que servirá eu medir a onda do rio? E a tinta da mão? Ou a finura dos biscoitos? Melhor deixar o rio transbordar de qualquer coisa, sempre. E viver melhor do jeito que se sabe. Nunca me apeguei aos números, e não será agora que irei render-me a eles. Prefiro mil vezes a poesia torta de meus dedos. Ah, e como prefiro... Existem pessoas que salvam um dia que tende ao desastre.

Minha vida "bonita" não daria nem um livro policial “noir” de quinta categoria, daqueles em que nada acontece na trama que nos deixe perplexos ou assustados ou ansiosos pelo final. Eu só vivi para o gasto até hoje, fiz apenas o que pude, conheci a carne de algumas mulheres e poucas me arranharam a pele. Alguma, ou uma. Nada muito. Vida que está. Mas, como eu disse, existem certos tipos de pessoas que nos puxam o corpo, bem na hora do pêndulo que fulmina o balanço da derradeira hora, e nos estende o braço dizendo eu-estou-aqui-contigo-não-vá.

Dia marcado pela imprestabilidade das ações e pelos votos esperançosos de que o dia de amanhã seja menos criminoso comigo. "Você está chovendo hoje", ouvi até isso. Eu perguntei o que aquilo significava e fiquei sabendo que era coisa boa. Sim, talvez, poderia até ser, mas a água que jorra em mim é mais uma água salgada que doce. Não consigo parar com toda esta angústia, toda esta sensação de que o tempo apenas vai, passa e não espera. Que faço diante de tudo isso? A chuva em mim não é torrencial, é uma chuva passageira.

Ela apareceu depois de um fim de semana de sumiço. Apareceu e me trouxe novidades. Pensei que ela, não a chuva, ela, pensei que ia dizer que tinha acertado quinze números na loteria e tinha ficado milionária e que ia comprar uma casa na Toscana e que ia me levar com ela. Mas não foi nada disso e foi algo melhor. É que eu estou ficando conhecido. E como diria o Autran Dourado, reconhecimento bom é aquele que a gente sente nas outras pessoas, sem forçar a barra. Posso escrever dois contos e três poemas. Leio a terceira parte do livro do Gabo e Delgadina está amando o velho e eu posso ser mesmo um escritor. Ela acaba de fazer quinze anos de idade, o mesmo número dos possíveis números da loteria. O velho tem noventa e um anos. Faça a conta. Noventa e um menos quinze é uma vida de anos.

Mas sou daqueles que não acreditam na idade do amor. O amor é o próprio tempo e, como todos sabem, o tempo engole tudo. Dois meninos que quase não pude ver direito de tão miúdos, pretos, um nu e um com um saco branco escondendo suas vergonhas ainda não vergonhas, agachados, do tamanho da calçada em maior relevo, juntos, comendo alguma coisa de resto de festa juntos a uma pequena poça de água parada, os dois ali, pequenos cachorrinhos e a imagem da extravagância humana em contraste, o gozo pós-prazer feito do coto dos que podem e da reaplicação pelos que não podem.

Eu tinha visto o "bicho" de Bandeira, ou melhor, os bichos, e desperdicei a chance de registrar aquilo para o mundo. De qualquer forma, a imagem está guardada em mim e me faz pensar em algumas coisas. Não consegui continuar o passeio e segui para casa. Pessoas matam pessoas, eis uma afirmação. Tudo certo, tudo errado. Confesso a você que me matou ontem que sou este ser quase desprezível e imprestável perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Lagarta que sou, o voo me parece apenas um longínquo desejo.

Acordo e vou aos lugares e você que me matou ontem sabe bem os lugares que visito. Quando iniciei um projeto de vida com você que me matou ontem, quis mostrar a você que sou um ser desprezível ou quase-nada perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Engraçado como o pensamento toma ares de verdade e consegue alcançar patamares de altura tão elevados. Sem esperar, tinha já eu confabulado preâmbulos também atabalhoados e, por vezes, modulares diante da sua mágica figura que me matou ontem.

No meu inventário, marquei com um xis a palavra qualquer. Uma palavra que parece ser mais forte que o próprio amor. Mas você me matou ontem e você também sabe que seres desprezíveis ou quase-isso não morrem assim do nada, sem razão menor para que sejam. Esquece-se que sou uma fênix e que minhas flamas não se avulsam assim. Digo a você que me matou ontem que, caso queira matar-me de verdade, basta algumas palavras e te desejarei um belo resto de vida. Corpo morto.


* Imagem: https://www.deviantart.com/oo-rein-oo/art/Some-Dance-To-Forget-409834519

sábado, 6 de outubro de 2018

O Brasil, a neurose política e o mal-estar na civilização



Por Germano Xavier



FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


Até onde ou quando poderá a espécie humana, dentro da esfera de sua própria evolução cultural, controlar as mais diversificadas perturbações trazidas à vida pelos instintos humanos de agressão e autodestruição? Esta é a pergunta que Sigmund Freud (1856-1939) nos deixa ao final do seu ensaio O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, publicado originalmente em 1930, em Viena. Pergunta esta que teima em embalar o sono e o sonho (por que não dizer?) de muitos brasileiros nos nossos dias atuais.

Em tempos de intolerância política, de ódio escancarado, de preconceitos mil, de dualismos aflorados, de bolsonaros e corruptíveis, o pendor à agressão é hoje a arma nada-branca mais utilizada tanto nas discussões em redes sociais quanto em debates na/da vida real. O agressor, o opressor verbal ou atitudinal, por estar a provar algo ou a desmentir um feito considerado por ele falso/fake  e que vai de encontro aos seus "tão bem fundados" preceitos, parece estar sempre em defesa de algo justificável ou justo, mesmo que o outro acabe sofrendo algum tipo de consequência. Freud (2011, pg. 57-58), no ensaio supracitado, vai dizer que a existência dessa paixão pela agressão “é o fator que perturba nossa relação com o próximo e obriga a civilização a seus grandes dispêndios. Devido a essa hostilidade primária entre os homens, a sociedade é permanentemente ameaçada de desintegração”.

Parece não haver mais a possibilidade do errar ou, muito menos, do perdoar. As verdades parecem únicas e invioláveis, até mesmo indestrutíveis. A humanidade parece estar em regresso capital, voltando a um tempo em que a ideia absoluta prevalece sobre a razão e sobre a racionalidade. O cenário político nacional tem sido a prova cabal para essas afirmações. A barbárie fora instalada até onde menos se esperava. O indivíduo é ele e só, e de nada importa o escutar e o refletir conjuntamente com e para o outro. A visão do outro é sempre a lógica impura ou logo é alterada e distorcida, mesmo que à força. O interesse comum não mantém nada nem ninguém. “Paixões movidas por instintos são mais fortes que interesses ditados pela razão” (FREUD, 2011, pg. 58).

Recorre-se a tudo, então, para colocar limites ao instinto do Homem. E aí o problema começa a ganhar tamanho desproporcional. O vandalismo é retomado em todas as suas acepções de sentido. Práticas abusivas, desrespeitos éticos e julgamentos sem embasamento viram cartas marcadas sobre a mesa das negações e das negociações. É quando o não começa a vencer o sim, de goleada e com ajuda da arbitragem (leia-se Poder Judiciário & Adjacências). Toda uma base racional pende para um lado e o equilíbrio torna-se algo muito raro de se ver e, principalmente, de se praticar. Um verdadeiro deus nos acuda ou um salve-se quem puder.

Para Freud (2011, pg. 41), “boa parte da peleja da humanidade se concentra em torno da tarefa de achar um equilíbrio adequado, isto é, que traga felicidade, entre tais exigências individuais e aquelas do grupo, culturais; é um dos problemas que concernem ao seu próprio destino, a questão de se este equilíbrio é alcançável mediante uma determinada configuração cultural ou se o conflito é insolúvel”. O grande pai da psicanálise não retira do caminho a influência do gosto pessoal, do eu e nem do desejo por liberdade que são coisas vivas no Homem, mesmo colocando a liberdade individual em outra caixinha, por exemplo, que não a dos bens culturais.

O modo como vem sendo reguladas as relações humanas no Brasil, e também no mundo, as relações sociais e políticas em si, talvez seja a grande engrenagem gripada dentre todo o maquinário funcional da vida em coletividade dos dias presentes. Hoje, para algo se legitimar, uma maioria precisa se esforçar para engolir o que é indivíduo. Parece ser preciso se opor a toda forma de individualidade para que uma ideia ou uma prática termine por vingar ou para que entre em movimento. Mas todo e qualquer esboço de coletividade não é também um punhado de indivíduos, de diferentes?

Quais paliativos usaremos daqui para frente, do nosso presente para o nosso futuro, para que suportemos as dores, as decepções, as ânsias e as angústias do viver? Será mesmo necessário buscar, sempre que possível, a alternativa mais rápida e mais fácil? Vamos mesmo nos inebriar com altas doses de desumanidade e de desapreço ao próximo? Sabemos que num mesmo espaço não há condições favoráveis para a existência de duas matérias, porém deixar que haja infiltração de substâncias de reflexão no todo desse Corpo é tarefa quase obrigatória. Ou então seguiremos caminhando para os lados contrários, para o acabamento burro do pensamento e que, por fim, nos levará para uma eterna conservação do que é de ordem primária, esquecendo, destarte, que somos seres perfeitamente desenvolvíveis, melhoráveis, aperfeiçoáveis.


* Imagem: http://jornalfatosenoticias.com.br/pt-br/publicacoes/voce-sabe-o-que-e-neuroseij/

domingo, 23 de setembro de 2018

Se o leitor não vier



Por Germano Xavier


"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."
(Virginia Woolf)


mais um texto que nasceu dentro de uma Toca Literária 
(oficina de criação literária liderada por Marcelino Freire)



Se o leitor não vier, não haverá problema maior. Melhor ainda dizer, se o leitor não vier não haverá problema algum. Não haverá dor nem sentimentalismos exacerbados de minha parte. Se o leitor não vier, o escritor que me habita seguirá tecendo as manhãs em forma de palavras. Se o leitor não vier, o poeta em mim continuará sendo o mesmo poeta que fez com que eu, homem comum que também sou, despertasse para o poder transformador das artes. Não tenho como divisar tal perda, meu nobre amigo. Se o leitor não vier, toda palavra se manterá viva, o verbo conjugará todos os sentidos possíveis e os impossíveis, a humanidade permanecerá a conhecer as diversas faces do bem e do mal. Nada poderei fazer se o leitor não vier. Repito: Nada! O livro, o texto, a narrativa, o enredo, as personagens, lá estarão elas, mais vivas a cada dia, mais esperançosas a cada aurorar. Não tenho o que descrever se o leitor não vier, com sua fome de saber e sua sede curiosa. Se o leitor não vier, essa massa de sensações a qual me junto todas as vezes em que abro os meus olhos fará, como sempre fez, parte do mundo e ele tornará a rodar e rodar e rodar. Se o leitor não vier, o moinho não parará de girar suas pás, muito menos a gangorra encerrará suas descidas e subidas. Nenhuma frequência de prazer oscilará se o leitor não vier um dia. Nada, absolutamente nada será eliminado do meu caminho caso o leitor não apareça. Poderemos sobreviver se o leitor não vier. Poderemos construir elos, reconstituir, conservar, desenvolver, alterar, formar, preservar. Poderemos tudo se o leitor insistir e não vier. Poderemos supor e acabar, adequar novos fins ou meios, ou ao menos admitir alguma fraqueza ou franqueza. A vida continuará difícil para o povo, com dores, decepções e tarefas insolúveis. Se o leitor não vier poderemos até suportar, divergir, insensibilizar. Se o leitor não vier, não haverá discórdia. Vale salientar: se o leitor não vier não haverá violação de nenhuma espécie. Não haverá falta, é bom que se entenda. Se o leitor não vier, enfim, não haverá ganho ou pormenor. Se o leitor não vier, eu teimo e reitero, toda palavra se manterá vivaz e buliçosa, o verbo contará as sortes e os destinos. Minha mão será minha espada no tempo e sangue verterá ao sol se o leitor não vier. Como sempre, para mim. E a respeito disso nada poderei fazer. Repito: Nada!


* Imagem: https://pixabay.com/pt/homem-velho-%C3%ADndia-sadhu-viagens-1145467/

A poesia como um caminho grávido de coisas



Por Germano Xavier


Lá ia, pois, um leitor a contemplar um livro de poemas. Lá ia, pois, um leitor a lembrar de duas frases de dois grandes nomes da literatura universal: “Escrever é um ócio muito trabalhoso”, de Goethe, e “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”, de Virginia Woolf. Uma dupla de frases que podem muito bem funcionar no ousado intuito de resumir a escrita de Nadine Granad, que aponta agora para inícios.

Pois, lá ia, ela, sendo isto: a balança entre o seu labor “preguiçoso” (poemas quase sempre breves) e a escrita na busca de ser lida ou não. Por um lado, penso que a própria autora – iniciante ainda no fazer livresco-literário, ou pelo menos em matéria de publicação – pode ainda imaginar-se descrente deste “talento” que por ora mostro aqui... Contudo, ainda protestante desta sina, pode também revelar-se uma esquizofrênica neste “querer-não querer” de caráter ontológico; por outro, buscando ocultar-se na querência do sucesso.

Escrevo estas palavras iniciais sobre a poesia de Nadine Granad porque amo o ofício do escritor, do poeta, e odeio-o ao mesmo tempo, e também por ser macunaímaco e operante e/ou me satisfazer plenamente de prazeres verdadeiros e nutritivos ou vis e débeis... Também é isto que deve suceder com a poeta no presente livro. É quase imperativo dizer que o que se quer com a poesia, poetas e escritores que somos, é que ela, através de nossos olhares e palavras, seja confundida com um holofote eclíptico, com a honraria e com o disfarce, com a calma e com a tormenta que torna ora ar, ora mar... e que toma a todos, no fim.

Reúne ela, então, em seu livro FELICIDADE DA ALMA PERTURBA, poemas seus aqui subdivididos em capítulos, certamente criados após amor, pessoas, fatos ou fases que passaram ou ainda passam por sua-nossa vida, um tremendo cabedal de iné(ditos) que nada temem, que nada reprovam, supernovíssimas tiradas poéticas ainda não divulgadas ou mostradas ou nuas ou seminuas para o homem-além, aqui publicadas para não dar ideia de ácaro ao grande Frankenstein que promete este Prometeu aqui...

Em “Curta o Curto”, Nadine Granad explora a potência do verso rápido e o faz expandir-se na aurora das simples expectativas. Em “Suspiros d’Alma”, despe-se e encara o amor de frente, sem fronteiras para as dores e para os momentos de felicidade. No capítulo “Dicionário Reticente”, pequenos golpes verbais na boca do estômago da vida a nos embalar realidades e sonhos. Em “Indagações Pseudo-Humanas”, talvez o pulso mais ativo do livro, rompante de extensões e extinções sentimentais que, partindo da autora, também opera partindo o universo anímico do outro-leitor.

No capítulo final, intitulado de “Sombra e Luz no espelho”, a poética de Nadine Granad, entre parcerias ou não, entre poemas quebrados e rimas de liberdade, entre versos em prosa e prosaicas destemperanças, entoa o hino natural às chamas, às labaredas e a tudo que revoga o sol no e do homem. Tudo aqui, aparentando amenidades, lustra-se de violência simbólica a mais selvagem, do tipo que compromete o próximo passo ou o próximo olhar de quem lê. A poesia de Nadine Granad, vista como um caminho grávido de coisas, elabora por si própria sua história de rusticidade, diversidade, solidariedade e de humanidade. E só por isso, já vale a leitura.


Imagem: https://pixabay.com/pt/%C3%A1rvore-gravado-poesia-porta-malas-615663/

sábado, 22 de setembro de 2018

Resenha de Germano Xavier & Associação Nova Escola


Por Germano Xavier


É com enorme engraçamento que comunico a todos que minha resenha literária intitulada de AS PLANTAS QUE LATEM DE HELDER HERIK, publicada aqui em 19/05/2018, foi selecionada para fazer parte de um projeto lindíssimo na área da educação nacional promovido pela Associação Nova Escola tendo em vista a Base Nacional Comum Curricular - BNCC, numa parceria com a Fundação Lemann e o Google.org. Tudo isso em virtude do olhar apurado da professora doutoranda Ladjane Pereira, a quem agradeço imensamente. Em breve, deixo aqui mais informações sobre o projeto. Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: https://br.linkedin.com/company/associa%C3%A7%C3%A3o-nova-escola

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Não basta um nó para fazer literatura




Por Germano Xavier


DOIS NÓS NA GRAVATA (CEPE EDITORA, 2015) é o nome do segundo livro de contos do escritor pernambucano Rômulo César Melo e um dos vencedores da segunda edição do Prêmio Pernambuco de Literatura. As narrativas abreviadas da obra forçam os leitores a fazer um exercício de reencontro com o passado e, por conseguinte, com suas aspirações mais humanas e interiores, dentro de ambientes temáticos ora triviais ora bastante densos e, porventura, pintados com uma carga dramática – diria - impiedosa. A construção de algumas cenas é realizada de maneira limpa e esclarecedora, outras nem tanto. Os personagens são sólidos. Ao todo, são 17 narrativas e cada uma traz consigo um universo de abordagem díspar. O leitor faz, literalmente, uma viagem atemporal e também temporal a cada conto lido. Todo conto é um mundo e demanda um ticket novo por parte do leitor, que vai como quem não tem destino. Há a percepção de utilização de técnicas expressivas de escrita por intermédio do autor. Os contos com problemáticas urbanas enchem mais os olhos de quem lê, porém até os que burilam com a fantasia correspondem. Algumas tramas claudicam em um regolito quebradiço. Todavia, ao final, o livro nos aperta o pescoço feito dois nós na gravata. E é isso o que importa.



Trecho do livro:

Tome o lenço, pare de chorar. Já choramos o bastante, quase debulhamos um rio Volga de lágrimas. Lamentações sem futuro. Se médico algum conseguiu, quando em vida, ninguém removerá o tumor dos restos mortais de mamãe; e também se o fizesse de nada adiantaria; nem a bala na têmpora de papai, depositada horas depois do sepultamento da esposa. As manchas dos miolos passaram a fazer parte da parede do escritório, pelo menos algo dele permaneceu, desconfio que aquela frase repetida nos Natais “quando eu me for, meninas, algo meu ficará por aqui” se referia a essas manchas crucificadas na madeira da parede, as faxineiras não conseguiram limpar; tampouco seriam apagadas as ausências que nos seriam impostas a partir dali.


Imagem: https://colecionadordesacis.com.br/2016/07/23/clipping-assombracoes-do-recife-velho-inspiram-desafio-entre-escritores-pernambucanos/

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Pólvora



Por Germano Xavier


Miniconto nascido de um desafio proposto pelo escritor Marcelino Freire,
na ocasião de sua oficina de criação literária intitulada de Toca Literária.


Cama para quê? Dormimos mesmo na pele do solo. Na verdade, fingimos sono madrugada adentro. Eu mesmo me espantei várias vezes com os melindrosos sons do sítio de meu tio. Aquilo tinha arquitetura de evento. Meus dois primos levaram a carabina de pressão. O velho, sua espingarda cartucheira. Eu levei minha coragem. Pintos estavam morrendo às multidões. Suspeitávamos de tudo, até de Braulino, o encarregado dos galpões. Ele havia descumprido ordens ultimamente, sem motivos reais. Armamos tocaia nos fundos da granja. A manhã brotaria sob a bandeira da paz. De preferência, sem o cheio da pólvora.


Imagem: https://www.deviantart.com/chibilacra/art/Polvora-y-luz-I-90289031

domingo, 19 de agosto de 2018

O que cabe nas paisagens de Amâncio Siqueira?



Por Germano Xavier



Um homem encaixota-se por inteiro. Fiquei fitando a capa por um certo e também desregulado tempo. Belíssima imagem. Só pela capa já valeria o livro, já valeria possuir o livro. Trabalho sensacional da Cepe Editora, como já é de praxe por lá. Encaixotado, aquele homem parte para seu destino incerto sem saber se aguentará suportar o peso de suas caixas todas penduradas pelo corpo. O mundo é uma surpresa. O corpo parece até suportar o peso e o possível medo do caminho, mas o caminhar é lento, talvez certeiro, talvez decidido. O suportar parece até ganhar corpo, mas é um ganhar trôpego, como que sem a totalidade do vigor vital. A alma, no fundo, se engrandece e vai, porque acredita. E segue. O homem segue. O homem que é, essencialmente, realidade e sonho. Repito: o homem segue, seco, sem cessar. Passadas firmes, apesar de curtas. Segue como a escrita de Amâncio Siqueira, escritor que se consagrou como sendo um dos vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura, hoje conhecido por Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, que tem revelado bons nomes no cenário literário dos quatro cantos pernambucanos. Nem tudo cabe na paisagem, compêndio de contos escritos por Amâncio, é um exemplo da qualidade das letras confeccionadas e difundidas nestas paragens. Aqui, na prezada obra, o leitor se envereda por pequenas viagens e por resolutas descobertas, dentro ou fora das personagens, estando completamente imersos ou não nos cenários. Nada de descobertas magnânimas ou escandalosamente devastadoras, mas descobertas simples, porém pujantes. Tornamo-nos, até, Socó Pombo, uma tal persona a nos remeter a um outro tal de Joe Gold, personagem real contado e recontado pelo grande jornalista norte-americano Joseph Mitchel, ícone do New Journalism, assim como embarcamos em cicatrizes, passados, confissões, vinganças, intrigas familiares e outras incandescências e/ou errâncias mil. Nem tudo cabe na paisagem cabe dentro de uma tarde de leitura, sem grandes embaraços estilístico-estéticos nem dificuldades semânticas de outras ordens. O livro é, com extrema sinceridade, de uma honestidade encorajadora. Pode não ser primaz, mas conquista.


* Imagem: http://blogaugustocesar.blogspot.com/2018/04/divulgacao-companhia-editora-de.html

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Grande Torre, de Nivaldo Tenório: sobre o nascimento de um escritor



Por Germano Xavier



Há livros que são grandes desastres literários, como o meu CLUBE DE CARTEADO, publicado em 2006 e primeira tentativa no meio das letras – é assim mesmo que o vejo, sem nenhuma espécie de compaixão. Outros, apesar de renegados por seus respectivos autores, principalmente em sendo os primogênitos, não podem ser taxados como catástrofes em excelência. É o caso de A GRANDE TORRE, livro inaugural de contos do garanhuense Nivaldo Tenório, autor dos recentes NINGUÉM DETÉM A NOITE e DIAS DE FEBRE NA CABEÇA.

Em entrevista ao jornalista Thiago Corrêa para a Revista Vacatussa, em 2014, o autor revela que tentou “justificar a falta de unidade do livro, recorrendo à torre de babel, como metáfora de confusão, e talvez um conto ou dois, de resto não gosto do livro, e quando digo que andei roubando exemplares das bibliotecas, para queimar, juro que não estou fazendo tipo. A grande torre precisaria amadurecer mais.” Na mesma entrevista, o autor ainda explica que sente que a publicação do livro foi precipitada, mas conscientemente conclui que “aquele escritor não mudou muito desde 2002. Quando falo que já era o mesmo escritor, refiro-me a ideia que fazia e faço da literatura. Naquele tempo eu já era o leitor de Borges, lendo e me surpreendendo com as semelhanças que o argentino tem com o nosso Machado de Assis. Eu já era o escritor que condenava o diletantismo, eu já me cobrava uma atitude mais profissional e sabia que para fazer literatura de verdade o caminho não era outro senão aquele apontado por Ernesto Sábato, de que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação ou nada de importante será feito.”

Decerto que A GRANDE TORRE pode ter seus defeitos e suas inconstâncias por demais demarcadas em suas 160 páginas, além de uma visível escassez de unidade temática, mas como o próprio autor percebeu desde antanho, já é um livro capaz de denunciar a presença de um escritor de pulso, vivaz e sabedor de seus percursos. Uma hora beirando as margens do trivial, passando pelas veias do cotidiano, a obra outras vezes envereda pelo universo bíblico, mormente do Antigo Testamento, e burila o inferno no céu celestial das significâncias. Para um primeiro compêndio de contos, repito, não era logo a foice em suicídio ou em autoflagelo. Era, diria eu, a certeza de que muito mais haveria de vir.

E veio.


* Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Torre_de_Babel_(Bruegel)

12 anos de O Equador das Coisas



Por Germano Xavier


Este mês, mais precisamente no último dia 09 de julho, completei 12 anos no comando do blog O EQUADOR DAS COISAS, este-meu-nosso espaço lítero-cibernético que ajuda a contar um pouco da paixão que tenho pela literatura e pela arte em geral, além de revelar muito do que sou-sendo. Ao todo, já são mais de 635 mil acessos (IPs diferentes) oriundos de mais de 100 países diferentes. Aproximadamente 2.000 textos compõem o acervo e o número de visualizações diárias chega a superar a marca de 250 por dia. Por meio deste espaço, feito de leituras e também de leitores, conquistei laços fortíssimos de amizade que carrego até hoje. Depois de uma temporada sabática, resolvi seguir com o projeto a todo vapor. Estamos vivos e isso é tudo, bucaneiros. Sigamos, por um mundo com mais palavras! E um viva a'O EQUADOR DAS COISAS!


Um pouco de história...

Tudo começou durante uma aula da disciplina Programas e Ferramentas II no curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que eu até então fazia. A professora Jussara Moreira, depois de explanar um pouco do seu conhecimento acerca da linguagem HTML para produção de sites pessoais e outros projetos de cunho cibernético, levou-nos a conhecer uma ferramenta que, para mim, ainda era uma incógnita: o Blog (ou blogue, como preferir). Lembro que ela havia indicado alguns sites onde poderíamos escolher a plataforma que mais agradasse nosso gosto e, ainda sem nenhum conhecimento de causa, entrei na ferramenta que o portal UOL disponibilizava àquela época. De pronto, achei tudo muito simples e funcional. Uma espécie de caderno virtual, de diário, de pasta, um portfólio, "mas que coisa boa!", pensei. E assim se deu o meu primeiro contato expressivo com esta ferramenta informática – hoje já considerada até obsoleta. Houve a luz, diria o outro. E sem muito pestanejar, fui logo criando o meu próprio espaço na blogosfera. PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO foi o título que dei ao meu primeiro ímpeto blogueiro e foi parido em 09 de julho de 2007. Lá, e aos poucos, fui colocando alguns velhos textos que eu já tinha e também escrevendo coisas novas. Como nestes idos ainda não possuía computador em casa, reservava alguns momentos quando me encontrava no laboratório de informática da faculdade para postá-los. No PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO, a série de textos do “Sonhador Gervixa” foi, talvez, o maior destaque. Com cerca de 20 capítulos publicados, foi através deste personagem, um sujeito que se dizia não ser deste planeta devido a sua extravagante repulsa por todas as más ações humanas, que os primeiros leitores – geralmente meus próprios colegas de Jornalismo e outros poucos amigos - foram se acercando de minha produção textual, conquistando assim paulatinamente o que posso chamar de credibilidade e por que não dizer fidelidade no meio. Depois de algum tempo, burilando na internet, achei de investigar a plataforma BLOGGER, ofertada pela cadeia Google de ferramentas. Percebi que nesta havia mais instrumentos de editoração e diagramação, além de que as interfaces eram muito mais convidativas que as do UOL. Destarte, abandonei o PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO e criei em 12 de novembro de 2007 meu segundo blog, agora intitulado A AUTO-ESTRADA DO SUL, por influência direta da leitura do livro de contos "Todos os fogos, o fogo", do escritor belga-argentino Julio Cortázar, que andava a realizar naqueles dias. Transferi, ao passar dos dias, todos os textos que havia publicado no PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO para o novíssimo e empolgante – pelo menos para mim - A AUTO-ESTRADA DO SUL e, de modo bastante paciente, fui colocando mais um montante de produções textuais de minha autoria, sempre com a preocupação de devidamente analisar se os mesmos se alocavam bem aos propósitos do blog. Com minha entrada no universo “BLOGSPOT”, percebi que o mergulho constante no blog - um saudável vício, penso - estava despontando em mim como um local de construção de saber e de possibilidades de diálogo acerca das incontáveis formas de conhecimento nunca antes imaginadas, cuja responsabilidade para com o que ali estaria exposto aumentava em progressão geométrica, o que muito me agradava. Alguns meses transcorridos, optei por mudar apenas a titulação do blog, que agora passaria a receber o nome do meu primeiro livro de poemas, publicado no ano de 2006 pela Editora Franciscana, com sede na cidade pernambucana de Petrolina. Era o nascimento do blog CLUBE DE CARTEADO, nomenclatura que permaneceu até bem pouco tempo, mas que por problemas de ordem estrutural tive de deixá-lo para trás. O CLUBE DE CARTEADO foi quem guardou a maior parte dos textos que eu havia escrito ao longo dos anos, desde poemas e contos, passando por crônicas e resenhas de todos os tipos, até projetos de pesquisa mais apurados e artigos científicos, sendo também, tenho quase certeza, o primeiro blog literário a ter (ou a querer ter) a figura de um ombudsman – experiência que infelizmente não vingou. No total, foram exatos 821 textos/postagens publicados em seu espaço, registrando no período de pouco mais de um ano cerca de 100 mil visitas reais e algumas centenas de comentários e participações várias. Depois de visualizado o problema em sua configuração, a construção de um blog totalmente novo foi a alternativa mais viável para dar seguimento a minha relação com esta significante parcela do mundo virtual. Foi aí que O EQUADOR DAS COISAS veio à superfície do ciberespaço. Com ajuda de pessoas mais entendidas neste universo da informática, selecionei um template que trouxesse um pouco da carga dramática que o título requeria, e logo foi feito a transferência de todos os textos que estavam no CLUBE DE CARTEADO para o arquivo do novo blog. O primeiro texto originalmente escrito para O EQUADOR DAS COISAS data de 23 de julho de 2009. Daí por diante, outros inúmeros textos foram publicados até o presente dia – só para constar, já aproximo da considerável marca das duas mil publicações/postagens. Como se números fossem importantes, não é mesmo?! Tantos números assim soam como um discurso contraditório até para mim, que sou daqueles que têm mais medo de um sujeito que escreveu um livro em toda uma vida àquele que escreve meia dúzia de títulos em cinco anos – se formos vasculhar, exemplos não faltam. Recentemente, o EQUADOR DAS COISAS passou por uma reforma, tanto na estética quanto em seu conteúdo. E como você vê, amigo leitor, hoje já está tudo diferente do que era antes. Tudo muda o tempo todo, não? Aí você me pergunta quando vou parar com tudo isso, e eu respondo que nunca. Cada vez que penso em desistir do blog, mais certo fico de que sem esta ferramenta, exemplo de expressão libertária e democrática, mesmo que virtualizada, fica mais pesada e difícil a balada das horas do meu dia. A vocês, leitores e leitoras, meu muito obrigado por ajudar na edificação e na concretagem deste real espaço de troca de experiências e saberes. Vocês são peças fundantes em toda esta ladainha. Recebam um abraço-amigo-imenso deste Germano que vos fala agora, exímio aprendedor de coisas. E para não dizer que não falei das flores, sim... continuemos, bucaneiros! – até porque o mar, o mar!, o mar quase nunca está para peixes...


* Imagem: Acervo pessoal.

sábado, 14 de julho de 2018

Espetáculo Poeta Preto e a humana voz-dor em demasia




Por Germano Xavier


A noite entrava já em sua meia-idade quando aportamos na Rua da Má Fama, reduto artístico-boêmio da cidade de Caruaru, agreste meridional pernambucano. Havia fomes de todas as naturezas – o dia havia sido de correr-idas-vindas. Por isso direcionamos os passos até o bar Carvão, logo ali do outro lado. O poeta dos rebuliços literários caruaruenses Thiago Medeiros fazia o acolhimento das pessoas interessadas em pur'arte... Era noite de sentir, sabíamos. Palavras trocadas, rostos novos e velhos. Joana Dark em surgimentos. O álcool necessário, um carboidrato civil...

Pouco tempo depois, cruzamos a rua novamente. Endereço: Mercearia Ponta de Esquina. Aguardamos os preparativos. Fomos convidados a entrar. Fundos. Todos a postos. Som de terreiro, clima denso, atmosfera de propriedade artística-artesanal. Logo o texto do escritor Vanderson Santos começou a ganhar vida na pele’ncenação do visceral Rosbergg Alexsander, ator-mundo.

O local, intimista e bastante informal, anunciava em suas paredes o verbo onírico-infame da personagem-nascente: o Poeta Preto. A montagem teatral, dirigida por Pedro Henrique e com iluminação executada por Jackson Freire, burila o real esquizofrênico inconsciente-mais-que-consciente do poeta-homem senti-dor de tudo e abarca-dor de todos. O poeta, ali, representa a voz rouca de toda a plateia que, em um silêncio nada mudo, assiste à peça como quem é sufocada por sacos plásticos mortais fabricados por uma sociedade insana e insegura - tanto de si quanto de seu futuro.

De chofre, luzes e sombras nos apresentam o espanto, o insólito, o desconhecido, a sutileza do grito interior, a morte em vida. Em um só nos tornamos, repentinamente. Pressentimos união, junção de forças. Se há esperança? Não sabemos. Cada um que prestigia a agonia do Poeta Preto se familiariza com suas próprias máculas, remorsos, repressões. Ou não ousa se insinuar. Aliás, a revolta é solitária, apesar de comunitária. Nada é forçado, ninguém é impelido. O coração dos homens é frágil aquém e além dos pulsos. Cada um sai do Poeta Preto armado com o sofrimento necessário, com a força da mudança nas mãos.

Nada ali é medo. Tudo é desejo e arte.

O Poeta Preto, esse ser negro-branco tão branco-negro, de tantas faces, vai aos poucos nos consumindo, tal qual um predador impiedoso, boca-voraz, monstro-deus insaciável. Cumpre a trupe Veja Bem Meu Bem o expressar poético da dúvida, o temporal da matéria-corpo encarnado no ator em cena. O experimento é de grossa envergadura e vai se formando em inacabamentos, como tem de ser. O palco acolhe um poeta-nós e seus rudimentos, suas sinceridades. O público vitaliza-se via racionalização-debate dos preconceitos e pelo peso de ser. Ele divaga entre o poético e o terrível, reclamando sua verdade doída e onírico-energética ao mesmo tempo.

Há quem diga que o Poeta Preto é a maquiagem do difuso, o sorriso dos descompassos, a ironia dos desafetos, a fúria do impossível. Há quem possa imaginar que seja até a liberdade totalmente liberta. O homem livre-homem. E há quem nada suporte após. O ser-destempero, coração-pulso, arrebol, olhar de fragilidades incontestes. O espetáculo, de tão natural e promissor, enverga um verbo novo na garganta imunda do mundo: poetapretar. Poetapretar é, pois, o ato ou o efeito de ser quem se é. Um grande dilema contemporâneo, convenhamos.



A peça estará em cartaz no FIG 2018 (Garanhuns-PE).

Um salve ao Letras em Barro (na pessoa de Thiago Medeiros), e ao Teatro Experimental de Arte (TEA).


* Imagem: https://www.feteag.com.br/espetaculos

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Dentro das muitas chuvas amarelas

*

Por Germano Xavier


"Não desejo mais ser feliz,
e sim apenas estar consciente."
(Albert Camus)


Peguei o livro do Walter Moreira Santos -  depois de ter lido O metal de que somos feitos - intitulado de Dentro da chuva amarela e, depois de 2 dias de leitura intercalada aos afazeres diários, cheguei à última página. O relato do escritor pernambucano é um baque nas estruturas ligadas ao cuidado e tratamento da depressão e do pânico no Brasil - e também no mundo. 

Nele, você encontrará:

* Um compêndio de medos, dramas e traumas;
* Um romance autobiográfico;
* Um livro de auto-ajuda;
* Um manual de como botar médicos e psicólogos no bolso;
* Um universo muito universal;
* Um real significado para o termo "depressão";
* Uma narrativa, diria, fundamental para estudiosos e curiosos de diversas áreas;
* Um modo corajoso de dizer as coisas;
* Um silêncio que explodiu;
* Um tipo de chuva muito ácida para quem a toma.


(Semente, 2006)

sábado, 19 de maio de 2018

As plantas que latem de Helder Herik



Por Germano Xavier



O título chama a atenção: AS PLANTAS CRESCEM LATINDO. Não teve outro jeito. Precisei levá-lo para casa. Não é novidade para ninguém meu muito gostar de sebos e/ou alfarrábios. Foi num destes estabelecimentos que encontrei o segundo livro do poeta Helder Herik. Um pequeno guarda-poemas dividido em nove gavetas, com conexões perceptíveis (ou quase). Partes que são pétalas de uma flor maior chamada Vida. Vida, louca vida, vida breve. Ah, Cazuza! Como manejá-la? Sem poesia no olhar as coisas, mais difícil ainda, não acha? Em sua grande maioria, poemas que conversam, que tratam de dialogar, que compartilham algo com quem lê. Como nossas mães ou nossos pais ou avós ou tios ou vizinhos que travam altos diálogos com as rosas de seus respectivos vergéis. Um aparato para tratos diversos. No fim das contas, resta dentro de nós, uma vontade. Um desejo pela partilha, por uma espécie de consagração do encontro. Um querer ser-no-outro-ou-para-o-outro. A poesia também é alento. Sim, é. Como certos momentos das nossas vidas. Felicidade é o nome que se dá a isso? Um livro que nos ensina um pouco mais a ouvir, que nos ensina um pouco mais a ser. E se consegue isso, já se legitima, já se põe à prova, ao degustar das almas. Um passeio que vai das redes sociais até os sapos que engolimos todos os dias em nosso cotidiano, passando pela filosofia e pelas poeiras estelares de nossos chãos diários, tão íntimos e infernais. Aliás, filosofia é o que não falta ao livro do poeta nascido em Garanhuns, agreste pernambucano. Helder, com simplicidade e enxutas palavras, coloca-nos de sobreaviso acerca da incerteza dos agoras, destampa a válvula dos passados e nos aclara um futuro cheio de quebras, interregnos e aptidões. Ficamos, ao final da leitura, com uma prece instantânea e espontânea nas beiradas de nossa língua sobre a beleza das pequenas coisas e dos decididos gestos. As plantas que crescem latindo nada mais são que raízes internas de sol conectadas a nós mesmos nos dizendo: vá, caminhe, siga, imbrique, faça, corra, salte, seja, viva... antes que seja tarde demais. Antes que seja mais tarde do que pensamos ser, feito a revelação do relógio da Casa do Sol, morada de Hilda Hilst. Antes que seja e antes que acabe não sendo!


* Imagem: https://www.estantevirtual.com.br/livros/helder-herik

domingo, 6 de maio de 2018

Quando ela se cansar do mar



Por Germano Xavier



A menina está escorada no barco que eu vou pegar em poucos minutos. Parece triste. Parece sozinha. Certamente não era dali. Camamu era uma cidade com duas camadas. Feito a capital baiana. Havia a parte superior e a inferior. Ricos, clericais e coronéis em cima e a ralé na parte de baixo, dando o duro dos dias. Tudo muito estratégico. Dava para ver a longa esteira de mangue e o rio Acaraí deitado no horizonte azulado. Como em algumas cidades por onde já passei, Camamu só me serviria de trampolim aquele dia para eu conhecer outra paragem: a Península de Maraú.

Descalcei-me antes de entrar no barco. Gosto de sentir a madeira úmida dessas pequenas embarcações com nomes femininos. Uma espécie diferente de frio, quase quente. Estou no Danúbia II. O dono é o Seu Jeremias, um nativo de pele cor-de-sol. De esguelha, vi a menina debruçar-se na proteção de ferro do barquinho. Seu Jeremias aperta o botão. Em um instante o motor soltou um tufo de fumaça preta pelo escape, rente à água marinha espumosa. Ela está quase deitada no parapeito, a menina. Fico olhando-a de longe.

O velho e barulhento motor rema. Eu também remo. E me faço presente, por um instante. Encosto o olhar no rosto dela. Ela me olha com um riso terreno. Demasiado terreno. Não me oferece nenhuma palavra. Acendo um sol em mim e pergunto:

- Você também vai para Barra Grande?

A menina não sorri. Vou junto, como se eu tivesse ficado triste também por algum motivo. Engraçado como me permito acompanhar a dor dos outros. Aí sofro junto. Pode ser um desses males atrelados ao meu signo. A embarcação bamboleia. Tudo é uma dança. De repente, todos os que embarcaram veem a camisa de Seu Jeremias se enroscar na polia central do propulsor. O motor apaga, num rompante. As pessoas cochicham entre si. Outras se exasperam, gritam, pedem por socorro. Seu Jeremias, coitado, agora sem camisa, tenta acalmar todo mundo enquanto inicia a retirada dos panos embaralhados.

Apesar da tarde solar, a menina rema. Para mais perto de mim. Também remarei. Em sua direção. Não é assim a vida? Remarei. Remei. Talvez eu lhe ensinasse meu sentimento. Talvez eu lhe falasse sobre o silêncio. Ou simplesmente conversasse sobre alguma coisa desimportante. Mansa era a água. O movimento, dormente. Estivéssemos em terra e nada seria igual, tão incerto e ao mesmo tempo  tão maravilhoso. Por isso respeito tanto o mar, as águas de uma forma geral. A água nos põe em equilíbrio. Estávamos à deriva. Eu era o oceano.

- Você parece cansada. Não quer dizer algo?

O motor logo irá zunir novamente. Novas ondinhas serão geradas pelas pás. O mar está muito calmo. O Seu Jeremias levanta as mãos. Diz que conseguiu, enfim. Continua sem camisa, agora muito suado. Meia hora depois o motor acorda novamente. Brum-brum-brum. Já vejo o pôr-do-sol. Barra Grande se aproxima. O lugar é lindo. Para trás, a cidade passageira, com suas duas elevações. Igrejas pomposas apontam para o céu de Camamu. A menina sorri. Parece até menos triste. Parece menos só. Curvo meu corpo e olho para baixo. Tenho pés de madeira. Integrei-me. Sou o meu próprio barco. Estou remando. Remando. E ela vai comigo.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Spirit-of-the-Sea-743618862

terça-feira, 1 de maio de 2018

Letras em Barro apresenta: “A Cobrança”, de Mário Rodrigues e “Quebranto”, de André Balaio

Divulgação


André Balaio e Mário Rodrigues autografam seus livros, “Quebranto” e “A Cobrança”, no sábado (05), no Alameda Caruaru, após conversa com Thiago Medeiros e público. O evento começa às 17h e é gratuito.

Os escritores pernambucanos André Balaio e Mário Rodrigues lançam simultaneamente “Quebranto” (Editora Patuá) e “A Cobrança” (Editora Record), suas obras mais recentes, neste sábado (05), às 17h, no Alameda Caruaru. Os autores também vão debater sobre suas vivências na literatura sob mediação de Thiago Medeiros, idealizador do Encontro Literário Letras em Barro. O evento é gratuito e funciona como uma antecipação da programação completa prevista para outubro.

“A iniciativa é um esforço para afirmar Caruaru na condição de cidade produtora e divulgadora da cultura em geral, mais especificamente da literatura produzida por artistas pernambucanos”, aponta Medeiros que também é escritor, poeta e produtor cultural. Embora a cidade já comporte eventos como a Fenagreste, a Feira de Livros do Agreste, há falta de atividades que aproximem o público dos escritores. “A ideia do evento é humanizar os autores, mostrar que é possível exercer o ofício da literatura e incentivar a formação de novos leitores, mas principalmente incentivo a novos escritores e escritoras”, desenreda o produtor.

As trajetórias e pontos de vista de André Balaio e Mário Rodrigues prometem trazer insights interessantes aos leitores e àqueles que pretendem trilhar um caminho próprio na escrita. Pernambucanos, vencedores de prêmios importantes no cenário nacional, os autores trazem pontos de vista mais complementares que semelhantes.

“O lançamento de um escritor pernambucano que já possui certo renome em âmbito nacional, e do primeiro livro de um escritor promissor e inventivo como Balaio, lançado por uma editora que tem estimulado tanto novos nomes, que é a Patuá, em Caruaru, é uma inovação na cena cultural da cidade”, sublinha Medeiros.

Nascido e criado em Garanhuns, Mário Rodrigues já foi indicado ao Prêmio Jabuti, na categoria de Contos e Crônicas, e venceu o prêmio Sesc de Literatura em 2016. A premiação resultou no lançamento de “Receitas para se fazer um monstro” pela editora Record, o mesmo local por onde “A Cobrança” está sendo lançado agora.

“No Brasil, como o público leitor é mínimo, esses prêmios acabam sendo a verdadeira chancela do escritor. O número de convites para eventos e antologias, por exemplo, aumenta muito depois de certas premiações”, pontua. Seu novo romance traz uma reflexão que visa desconstruir a máxima brasileira de que “futebol, política e religião não se discutem”, especialmente pertinente neste ano que, mais uma vez, casa eleição e copa.

Concursos e premiações também ajudaram André Balaio a se firmar em sua trajetória. Vencedor do prêmio Off-Flip com o conto “O Lado de Lá”, Balaio também foi finalista do Prêmio Nacional SESC 2017 de Literatura e do Concurso Literário Nacional CEPE 2017. Ao contrário de Rodrigues, Balaio, também roteirista de quadrinhos e editor do site O Recife Assombrado (orecifeassombrado.com), envereda pelo insólito para falar de desajustes na vida de pessoas comuns. “Na literatura fantástica, o sobrenatural pode aparecer como metáfora para culpa, desejo e outros sentimentos”, descreve. “O fantástico é uma maneira original e instigante de falar dos problemas cotidianos”.

Serviço:

Lançamento simultâneo “A Cobrança”, Mário Rodrigues, e “Quebranto”, André Balaio.

Quando: sábado, 05 de maio

Horário: 17h

Onde: Alamenda Caruaru - R. Arlindo Pôrto, 127 - Maurício de Nassau, Caruaru

Informações: (81) 99839-1312

Entrada franca


* Imagem: Letícia Santiago

* Imagem: Divulgação/Mário Rodrigues

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira 16 de novembro de 2017
Visagem


Illusion

Accrochée à la mer
comme la crête d’une vague,
si fluide et si sérieuse
si blanche, tu es revenue.

La violence et la souffrance m’ont ramené à la vie.
Où sont donc tes morts?
Qui sont-ils?
Hier je rêvais d’une énorme tête tournée vers le vent
dont le visage était la solitude.
Pas aujourd’hui.

Aujourd’hui tu es venue.
Et ici le sable est chaud.

Ici même.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/%C3%B3culos-retro-vintage-floresta-3301674/

sábado, 7 de abril de 2018

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XV)



Viana, meu bom amigo,

Passaram-se dez longos meses desde a tua última missiva, à qual não consegui responder senão em pensamento. Esgotei há muito todas as desculpas airosas, convenientes ou aceitáveis mas sei que não preciso de nenhuma delas para continuar esta conversa interminável, um pouco ao estilo de Sherazade. Nesta idade (minha) as longas pausas tornam-se perigosas porque corro o risco de repetir-me até à exaustão, e tu ainda não atingiste aquela bonita idade em que também já te vais esquecendo e por isso não voltarás a rir das minhas velhas piadas nem a aturar as minhas lamúrias recorrentes. Se o fizeres será por pura elegância, por seres um cavalheiro, coisa que nunca te agradecerei o suficiente.

Depois de tanto tempo sem conversa consistente não posso pôr-te a par de tudo e sei que também não é o que te interessa. Mas lembrei-me de te falar de uma coisa que me tem perseguido: será lícito separar o autor da sua obra, quando fazemos uma apreciação crítica sobre alguém que foi um modelo de outras épocas, que ainda é? Hoje li, sobre um autor de referência, um texto muito bem escrito por um historiador que revelava algumas posições polémicas do escritor sobre a escravatura. Descontextualizadas, certo, mas ainda assim bastante explícitas. O próprio historiador autor do ensaio refere que aquele seria “o pensamento dominante da época”; é sempre um risco julgar alguém a posteriori, mas a verdade é que a História é feita assim e nós também seremos olhados por um prisma desconhecido, nós, sociedades atuais, pois conhecemos o passado mas não o futuro nem os modelos sociais que irão impor-se.

Voltando a este autor e comparando-o com outras figuras da época, quando muitos já se opunham à escravatura e pediam incessantemente o seu fim, pode parecer, e parece, que ele assumia plenamente e conscientemente a sua posição, provavelmente moldado também pelos países em que viveu. Esta faceta mais obscura, digamos, não se observa nos seus escritos literários, nota bem, mas apenas em artigos de opinião. Ainda assim levanta-se a questão que te coloquei há pouco: podemos ou não separar o autor da sua obra?

Lembrei-me de outros casos, senão semelhantes, comparáveis. Não falo de escravatura mas de outros temas igualmente polémicos que hoje, HOJE… reúnem consenso, pelo menos quando os autores falam em público. Muitos têm uma prática contrária ao que expressam. Penso em Vargas Llosa e em Jorge Luís Borges, dois autores magistrais, grandiosos, mas em relação aos quais não me revejo forçosamente no plano político, nas suas afiliações filosófico-partidárias ou em muitas posições assumidas ao longo da vida. Penso num romancista francês conotado com o nazismo, colaboracionista ativo, cujo nome não recordo, executado depois da segunda Grande Guerra. A sua obra, até onde a li, não revelava essas opções mas a sua prática sim, claramente. E penso inevitavelmente naquele belíssimo poema do Silvio Rodríguez (Playa Girón, um dos temas cubanos que marcaram a minha adolescência), em cuja letra ele se questiona, nos questiona sobre o assunto…

“(…)Compañeros de historia,
Tomando en cuenta lo implacable
Que debe ser la verdad, quisiera preguntar
Me urge tanto,
¿Qué debiera decir, qué fronteras debo respetar?
Si alguien roba comida
Y después da la vida, ¿qué hacer?
¿Hasta dónde debemos practicar las verdades?
¿Hasta donde sabemos?
Que escriban, pues, la historia, su historia
Los hombres del Playa Girón(…)”

Como Silvio continuo estupefacta procurando encontrar um sentido para os comportamentos dos homens, saber quem são os bons e os maus neste caos em que nos encontramos. Mas por outro lado o facto de encontrar “faltas graves” nos meus ídolos torna-os mais humanos, falíveis, mais perto de mim também. Há valores imutáveis mas outros sofrem rápidas transformações. Cresci acreditando que a honra e a palavra dada, por exemplo, eram coisas sagradas, hoje pouco valor têm em muitas sociedades. Não eram os únicos princípios a reter, claro, mas a responsabilidade e o dever eram glorificados. Hoje as liberdades individuais são sacralizadas, ainda bem, são valores que também subscrevo, mas vejo com espanto que muitos não conseguem conciliar esses conceitos com os outros que referi. Apenas em uma ou duas gerações as coisas mudam… então respondamos à questão do Silvio: “Se alguém rouba comida e depois dá a vida (por algo, por alguém), que fazer?” Eu continuo a não saber. Diz-me tu, meu amigo, se souberes.

Quanto aos escritores de hoje, conheço alguns que não são exemplo de ética, ignoro como serão olhados no futuro. Não estou a falar de opiniões mas das suas vivências. Pessoas que dissertam maravilhosamente sobre a condição humana mas que podem, como empresários ou representantes de algum tipo de elite, financeira, política, etc., ter relações muito questionáveis com os seus trabalhadores, confinando-os a uma posição de quase escravatura, ignorando os seus direitos mais elementares. Veremos como o futuro nos trata, os trata… veremos, sentados em algum cadeirão aveludado em frente de uma qualquer estrela e com um banquinho para os pés.

Mas não quero chatear-te com estas coisas existenciais, qualquer dia nem respondes às minhas cartas... agora para aligeirar um pouco, se eu te disser “O Gugu vai à escola” ainda pensas que ando a escrever uma história infantil. E porque não? Mas eu explico: volta e meia vou ao tradutor do Google fazer umas experiências e ver como anda a evolução daquilo. E tem evoluído. Bastante. Está longe de ser um instrumento exemplar mas nota-se que há um esforço grande para aperfeiçoá-lo, dá para ficar com uma ideia do texto talvez em 80% dos casos. Então hoje eu experimentei usar um texto de umas 150 palavras, que já tinha traduzido manualmente e tive a surpresa de ver que a tradução estava quase humanizada, com subtilezas até, embora ainda com muitos erros. De repente ocorre-me esta expressão: “O Google foi à escola!”, o que passou para “O Gugu vai à escola!”. Se um dia vires este título num conto infantil saberás quem é a autora e o que está na génese disto tudo. Mas aposto que com um nome destes, quase de certeza que já existe…

Agora sobre a minha última carta reparei que algumas coisas andaram no bom sentido, prova de que mesmo sem fazermos planos quando remamos para um lado acabamos por ir nessa direção ainda que sem grande velocidade. Mas é importante manter o rumo, não perder o fio à meada, para percebermos que a pessoa que somos hoje tem alguma relação com quem fomos há um ano. Eu falei-te na altura num caderninho vermelho, estofado, onde tinha muitas notas e desenhos. Pois bem, imagina que andou perdido uns meses e depois reapareceu dentro de uma camisola velha. Há escassas semanas…garanto-te que festejei!

Sobre os caminhos da fé crismei-me no ano passado, a 25 de Junho, sei que não é um fim em si mas um começo, atribulado e cheio de tropeços, mas é um começo. Na altura em que te escrevi estava a receber aulas para chegar a esse sacramento. Valeu a pena? Espero que venha a fazer sentido, um pouco mais cada dia. E também te tinha confidenciado que andava metida nuns projetos com a Armanda, escrevendo contos sobre os quadros dela, e com a Santana, poesia sobre fotografias. Hoje são dois filhotes já cá fora, o livro com a Armanda saiu em Maio último e o de poesia, que implica também indiretamente a minha amiga Ysabelle, pintora, está cá fora desde o princípio deste mês. Não tínhamos planos, não tínhamos um horizonte temporal, mas tínhamos um desejo de concretizar e fomos aproveitando as oportunidades. Temos esses pequenos sonhos realizados e a vontade de sonhar outros, de levá-los mais longe. E um livro é sempre um princípio de alguma coisa, pois só faz verdadeiramente sentido quando chega a quem o deseja ler. Foram duas parcerias que me animaram e me realizaram muito, sei que contigo também tenho um caminho e quero saborear cada curva da estrada e cada grão de poeira. Não sou de pressas, gosto apenas de fazer bem e mesmo isso nem sempre se consegue.

E tu que me falavas na tua última carta de inadaptação, da maneira como nós conseguimos sobreviver embora nada o fizesse prever, porque seriamos dessas espécies destinadas à extinção. Mas aqui estamos, Viana, haverá com certeza um propósito nisso, somos bichos atípicos mas alguma coisa nos faz esbracejar e mantermo-nos à tona. Talvez seja a palavra, escrever para viver e vice-versa. E também discutíamos a questão do Minimalismo, aquele conceito de consumir só o necessário, de reduzir, no fundo de evitar ao máximo o desperdício não é? Tu explicavas-me na altura que tem a ver com sustentabilidade. Eu confesso que me parece uma ideia ótima, subscrevo completamente. Creio que herdei esses princípios dos meus pais e avós, numa época em que não se falava nos termos em que se fala agora, apenas se exaltava a importância da poupança e de economizar, de uma certa frugalidade, as irmãs mais novas herdavam roupas das mais velhas, os livros passavam de mão em mão, a água de lavar legumes servia para regar as plantas e o frango assado era depois usado para desfiar. As cascas de fruta eram adubo, enfim, coisas simples e práticas. Fazes bem em pensar que podemos mudar alguma coisa no metro quadrado em que vivemos, se todos pensarmos assim chegaremos com certeza a algum lado melhor. Acho que os mais jovens estão a voltar a ter essa consciência, essa onda do Minimalismo, do reciclar, reutilizar e reduzir. A minha geração foi muito perdulária e habituou-se ao desperdício mas creio que estamos no bom caminho. Ingenuidade minha?

Meu querido amigo, fico, como sempre, ansiosa por ler-te. Sobre o Brasil, que também nos tem preocupado ultimamente, sobre ti e tudo o que vais observando. Sobre este mundo estranho em que muitos pensam que dar uma arma a cada cidadão nos protege. Nada como uma pessoa medrosa e armada para se transformar num assassino em potencial. Mas isso é outra história.

Um abraço fraterno, muitas saudades, e vontade de ter essa conversa pessoalmente. A promessa e o convite já vêm de longe.

Clara.

Lisboa, 24 de Março de 2018



********






Clara,

Perdoe-me. Prometo retomar os assuntos abordados por tua pena numa próxima conversa nossa. Prometo.

Daqui, sigo feliz por suas conquistas. Por todas elas. E me desculpe por estas minhas últimas faltas contigo. Hoje talvez levem Lula à prisão. A política nacional está em polvorosa. O Brasil clama. O coração do povo insiste, batendo, teimoso que é. Para mim, é um dia mais triste que alegre. Mas, sigamos...

Com estima e saudade, Viana.

Pernambuco, Brasil, 07 de abril de 2008.



********



Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

* Imagens: Cristina Seixas