domingo, 14 de outubro de 2018

Diante do não sabido



Por Germano Xavier



Não, eu não sei amar. Confesso, ainda não aprendi a arte da dissimulação. Eu sou bem moço, sim, mas já bem crescido para saber que a vida é uma provocação. E das mais infames. Sou um sujeito quedo. O silêncio é a parte mais sobressalente em mim. As pessoas não entendem que esse é o meu jeito de ser, de me expressar, de me comunicar. Sinto que elas estão sempre esperando algo oriundo de minha face ou mão ou boca, alguma palavra a mais ou alguma loucura que eu possa fazer de súbito, matar alguém, estrangular o professor ou executar a pessoa com quem converso. Mas eu só sinto. Não sei o porquê de tudo isso. Parece que sonhei. E no sonho acendi a lâmpada do meu quarto e percebi que os ratos tinham desaparecido. Talvez estivessem escondidos em algum móvel, pensei, em estado de alerta, prontificados ao ataque. Tremo só de pensar naquelas centenas de pequenas mandíbulas, atarraxadas em minha pele, grudadas em meu cabelo, roendo-me, sangrando-me. Olhei para o chão. Parecia estar seco. Hesitei. Imaginei, mas depois de muita luta decidi levantar de onde estava. Havia uma escuridão longa depois e que não sei como dizer. Não há um pequeno feixe de luz que consiga penetrá-la. Não que eu seja um admirador das trevas, mas a noite é o momento mais misterioso e instigante. A noite, no sonho, não respeitava os solitários. Destino longínquo. Separava-se de si mesmo em pulsares e alguns goles de bebida quente. Rumava. Realmente estava sendo difícil se ser ultimamente. Difícil, porém ele era já menos triste. Podia até se sentir um pouco mais feliz em raros instantes. Eu, sombra perfeita do que o mundo é capaz de fazer com a humanidade, passivamente comporto-me num assento confortável e cinza-verde de cor. Deixo que o vento que vem vindo do exterior sussurre e prostre-se diante dos meus olhos, agora cosmopolitas. Uma morbidez ilusória e procedente do dia que não seria mais um dia normal. Em minhas reentrâncias correm cósmicas as sensações que parecem subterrâneas. Sob alguma minha forma de sotaina, algo poderia acontecer a qualquer instante. Os papiros foram escritos e simultaneamente lidos pelas retinas visionárias que meu corpo não suporta. Átimo. Surpresas foram destruídas, todos os focos tristes em que pensava. Metafísica trac trac trac, tesoural, dilacerantes tracs que vinham predominar minha existência. Segundos aproveitáveis, não se sabe, de nada sabemos, ou serenos?, ao lado do vibrátil plasma feminil que dialogava potencialmente com minha alma, coitado de quem, ou em? Dizia coisas belas. Falava com tamanha ternura que me deliciei cruamente. Que palavras possuo, ainda lembro!, sangue feliz no final. Sei que não me encontro nesse arrebol cotidiano. Sei que ainda existem, sob as fardas e uniformes, corações como o meu, tão lindamente deflorados. Acordei rodeado por capinzais extremamente altos. Tinha invadido o acostamento da rodovia por onde circulava. A marca de borracha no asfalto, riscado naquele anil desbotado pelo sol. Levantei e percebi o estrago que tinha causado ao carro. O farol do lado direito em caquinhos, o para-choque arrebentado, uma roda levemente empenada. Havia entrado forte no matagal. Estou vivo, e isso me retirava um pouco o desânimo matinal. Entrei no carro novamente e dei a partida. O motor teimou um pouco, mas roncou forte instantes depois. Joguei pela janela alguns cigarros fumados pela metade, duas garrafas de uma vodka barata, alguns recibos e peguei a estrada sem dó. Um chiado fino surgiu e, pelo que me parecia, vinha das proximidades da jante dianteira esquerda. Ele que não sabia para onde ir deveras, onde se esconder. De quem?, perguntava-se, sem pronunciar voz. Ouvia vozes que muralhas de concreto sussurram no flamejar dos segundos insuspeitosos. Eram tão estranhas e ao mesmo tempo disfônicas, que tentava sem grande sucesso parar de escutá-las com o gesto de sufocar com as mãos suas orelhas. Estes clamores, tão voluptuosos para alguns, não o faziam sentir orgulho por ser proprietário de um sentimento valioso e único como o amor. Ouvia as mesmas vozes de sempre e agradecia às paredes por terem sido escudos, livrando-lhe da vista o vômito que os homens repelem de suas bocas más e carnívoras. Os sons humanos modernos, contemporâneos, perderam sua verdadeira lógica. Não havia mais transparência no aquário afetuoso dos entes que lhe habitavam - alguns ainda insistiam em dizer que toda essa transformação vo-ca-bu-lar dera-se pela enorme necessidade de sempre se estar em renovação, para não ficar para trás nessa corrida cada vez mais doméstica pela vida. Todavia, como ser tão ordinário, a ponto de sepultar a beleza natural do nosso caráter?, pensava. Tornara-se muito difícil discutir tais assuntos, porém era indiscutível sua serventia para o seu desenvolvimento enquanto homem. Era impressionante a percepção que tinha do mundo atual, parecia-lhe não haver nenhuma tentativa ou esforço para que coisas que já fizeram parte do manual dos homens, e que agora se encontravam em processos de putrefação num destes baús enterrados pelo universo, voltassem ao cotidiano de normalidades. A espécie perdera o mapa do tesouro e com isso o próprio tesouro também. O seguimento que daríamos a todo esse bordel era incerto, mas tranquilamente previsível acaso levássemos em conta a realidade dos fatos. Era como dizer que muitos preferiram andar descalços, mesmo tendo em casa um calçado para proteção dos pés. Como bom seria se tudo isso fosse uma questão de esquecimento, que ao sair de casa os indivíduos sempre se esquecessem ou não se lembrassem de pôr no bolso de suas camisas as sensibilidades e as intuições. Quisera ele que fosse assim! A verdade é que estamos pintando o nosso próprio quadro biográfico com tintas frias, cujos princípios ativos são a extinção e o erro. A vida não cessa, o tempo se esconde entre árvores e o homem sempre a padecer diante de seus próprios olhos. Alguém de muito longe derrama lágrimas de arrependimento e angústia ao ver o estrago que sua obra-prima está a fazer no enredo panorâmico da sinfonia que lhe foi destinada. O criador lamenta ter criado em seu paraíso não só a serpente e o fruto proibido, mas milhões de cobras e aranhas peçonhentas enfeitiçadas por verbos malignos. Não há mais o que modelar, tudo já havia sido escrito e lapidado. Pena que muitos não leram os ensinamentos ou não souberam interpretar o texto da maneira certa. O nosso tálamo agora é coletivo, o serviço foi feito por todos que contribuíram incessantemente para esta arquitetura perversa e mitigada. A carcaça fica e o miolo se desfaz. A música é feliz, sem saber que podia ser mais, a lua já iluminou mais corações, o brilho radiante das estrelas já foi mais autêntico. Antigamente, pensou, o fim era apenas um novo recomeço. Hoje, o fim é o coto do nada, dilacerado pela ordem que dopa a mentalidade emocional original dos nossos cromossomos, fazendo-nos perder grande parte da visão resoluta que tínhamos sobre a verdade e sobre tudo aquilo que nos faz bem. Neste momento, entra em cena o lobo mau, que não é o das histórias infantis, mas o mesmo que se vestiu de cordeiro e que acabou nos cativando pela sua delicadeza e ingenuidade. Uma seringa com uma solução, pitadas de purpurina injetada em nossas veias sem qualquer tipo de cerimônia. Este sim é seu real semblante, que nos amordaçou com suas correntes de metal e ecos de aço, tornando-nos servos e escravos do hábito, do modismo, do belo e da miséria espiritual. Este é o lobo vigente, a babilônia do ontem, do hoje e de sempre, a bomba atômica do medo, esta é a comitiva do governo, ou melhor, do desgoverno. O homem se perdeu na matéria, no esboço do certo, na crua ânsia de ser mais. Acabou se machucando em espinhos e nas rochas pontiagudas escorregou. A cicatriz vingou toda a dor e o ser que se diz humano traz hoje na bagagem as sequelas de uma escolha sem retorno. A morte veloz é agora sua maior consequência. Traído pelos seus próprios gestos, exilou-se, ele-eu-nós, em nosso próprio lar, nossas casas, casulos. O sangue da ferida aberta não estanca, rejubila-se em alimentar o solo sedento por adubos orgânicos. Como é cruel ter de usar máscaras para não ser intoxicado pela sujeira que nos impede a naturalidade, que nos priva de um belo adjetivo derivado de nossa tão explorada e subestimada mãe natureza. Ao relento, inspiro uma harmonia demente, puxada pelos acordes da britadeira e pela regência mágica das betoneiras. Ao invés de aproveitarmos a noite para sonharmos com um mundo mais digno e justo, preferimos acertar o sono para não perdermos as horas. Tudo reincide, recai sobre a terra, menos a vida que não é retroativa... inúmeras pessoas registram em folhas de papel teses sobre reencarnação ou ressurreição, mal sabendo elas que tais ações podem acontecer a qualquer momento e que, para isso ocorrer, só é necessário um incentivo pessoal, para que floresça o renascer e a redenção que a todos falta. Estou divagando? Sinto um novo resmungar em meus tímpanos... é só mais um anjo torto com estranhos pedidos e alertas. Ele implora de joelhos para que eu pare de pensar, de falar. Por que devo parar? O oitavo anjo do apocalipse responde: Se você não parar com essa conversa, eles irão te prender. Eles quem? Os torturadores e trituradores. Mas que crime cometi? Pensar, amar, viver... Mas isso não é crime! Meu caro amigo, qualquer ideologia contrária aos interesses do dragão é potencialmente exterminável. Não querem formar pessoas capazes de domar o seu ego ou que tenham um conteúdo crítico sobre as novas regras que impuseram. Somos a ameaça aos seus reinados e domínios. Cortaram-nos a língua e as mãos, furaram nossos olhos com estacas gananciosas e porcas. Restou-me o choro por não ter mais como reunir meu exército e fazer uma frente de combate contra todo o mal que nos assola. Meu sexto sentido me revela a morte de irmãos e irmãs que, como eu, defendiam o bem a qualquer preço. A triste sensação de que não haverá mais recomeço e que o fim será somente o fim me salta aos nervos. Sentado onde estou vou à morte lentamente, numa tétrica solidão forjo meu arsenal vingativo numa paranoia que me altera. O silêncio me afaga, meu companheiro nas horas mais insanas e improdutivas da minha existência. Quando mais uma lua se aproxima, recordo que ali na estante guardo medalhas de honra ao mérito, verdadeiros símbolos de uma guerra que tracei. Lá se vai um espião, um amante dos dizeres, vai ao chão que os vermes hão de usar como alimento num prato rico em sonhos e proteínas de esperança. Vai ao céu porque tens o seu lugar. O homem morre ante a vida que o acolheu, pois carrega o pecado de não saber amar sem mentir. Falava alto consigo mesmo e ele não tinha respostas. Foram longos quilômetros pela estrada vazia, o carro se arrastando, até encontrar uma casa rosada com um letreiro já apagado pelo tempo que estampava: Pousada 31. A placa de metal localizava-se próxima à porta. Uma pousada naquele fim de mundo. Aproveitável e útil, realmente. Mas era dia, manhã, e ele precisava mesmo era de um bom banho e de um café reforçado. Não pensou duas vezes. Estacionou seu Ariane bem em frente à porta de entrada. Desconfiado, caminhou em direção ao balcão, dando passos cautelosos. Havia um cheiro forte de charque frita no recinto. No balcão principal, ninguém. Tocou a pequena campainha de ferro que se encontrava na ponta esquerda da mesa. Por um breve instante pensou ter escutado o som do silêncio. Pouco depois uma sombra se ergueu lá no fundo do estabelecimento. Percebeu que não estava sozinho ali. Nesse ínterim, resolveu passear seus olhos pelas paredes do lugar, repletas de pôsteres e frases pintadas em cores chamativas. Uma, em especial, chamou sua atenção. Era uma carta, já amarelecida, assinada por um desconhecido, grudada no alto por duas tachinhas de metal. Enquanto ouvia passos vindos dos fundos, o homem leu a epístola. Eu compro clichês para dizer "te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A maturidade, atividade para especialistas, me operacionalizando gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia. Outono de 1988. Era somente dúvida o errante homem. Lembrou dela, seu mais que atual espectro. Não sabe o porquê, mas ela lhe surgiu, novamente, ali mesmo. Agora deveria estar no 312 da Menezes Coimbra, aquele continente criado sem precisar esperar a ação de placas tectônicas, aquele universo mítico-austral onde se renovavam constantemente, lugar de apuros e mergulhos, de beijos e abraços, mágoas e amores. Lembrou dele, ele mesmo, daquele que tinha sido há pouco tempo, daquele que não mais desejava ser. Cerca de um minuto após ter terminado a leitura, escutou passadas bem próximas e a respiração ofegante e desconfortante de uma anciã que vestia uma túnica azul de veludo, adornada por um xale de renda carmim demasiado extravagante. Mais pessoas pareciam se levantar e vir em direção de onde permanecia o homem, aturdido. Que desejas, forasteiro?, de chofre, a velha interrogou. Rápido, virou o rosto. Estava diante, mais uma vez, do não sabido.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/stories-from-the-station-12-204327260

Uma presença incômoda



Por Germano Xavier



Hoje, véspera de feriado, beiro a morte. A minha morte. Por onde passei, pessoas denunciaram preocupações, perguntaram-me sobre o meu estado, se eu estava passando por algum problema ou se tinha acontecido algo comigo. Porque, nas vozes e mentes destas pessoas, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de rios. Não havia resposta em mim, nem teria como. Creio que morri um pouco hoje. Um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite. Engraçado, também morro agora enquanto escuto os passos da proprietária deste hotel, um pouco é certo. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga. Necessito da morte para viver. Todavia, enquanto ela não me abraça com o todo de sua envergadura, sigo a viver, em reduzidas linhas, minha morte. Persisto, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, absorvendo com a alma minha morte mais vital.




Eu moraria. Eu morar ia, eu amaria e amar iria caso fosse possível atravessar a ponte aquática do destino. Distância atenta ao andar dos passos do coração, vergel cruzado pelo verde de se querer, aleia albina essa toda em torno de transcender o ser. Uma pintura cravada na tela do amor é uma celebração inteira. Nós. Fogos seriam acesos nas madrugadas frias e o júbilo das estrelas encontraria no escuro o abrigo dos brilhos. Eu estaria aberto sobre a fenda dos sentimentos e uma cor de presente o mundo teria na lançada curva da estrada. Eu moraria no mar-céu que é só teu. Eu moraria na dor marítima do teu gemido. Moraria no encontro de tuas marés. Eu moraria. E você estaria sempre no pedestal da calçada mais alta na rua enladeirada mais densa de sabores. Cinzento, o firmamento velho se contorceria em lágrimas e uma chuva de vivas lamberia o ácido de tua pátina amorosa. Bronze, prata e ouro. O amor em lumes em ti. Eu. Raso. Passo alto sem tocar superfície. Saudade é uma verdade doída, menino. Amor nem pensar. Café seco com instinto na manhã decorrida ativa o nada que não suportamos. Eu viajo pensando na esquina onde dobram as pernas. Estar sentado é estar pronto para alguma coisa também que não ou que sim. Raso, insisto. Assim, sem nem. Um universo tão distante. Uma força. Uma forma. Evoco essa prosperidade dos tempos idos em mim. Eu costumava achar diamantes sem me esforçar tanto. Achava-os, empós um mundo em punhado puro. Cascalhada era a minha sina. E hoje? Não é mais fundo, tudo? Jaçados seixos pontificam a trilha de se ir. Para onde, quando nada? Para quando, quando sempre? Refugo. Pareço partida. Vejo diamantes na água que bebo. Me diamanto. A água traz um reflexo. Há alguma coisa nela que adocica. Acendo e incendeio. Há um fogo molhado. Arreio minha cavalgadura e teimo. Teimo.



* Imagem: https://www.deviantart.com/deviousclown/art/Waiting-for-something-180810558

Sem um céu pertencido



Por Germano Xavier



Levantei por volta das seis horas da manhã, tomei dois potes de iogurte e fui continuar a leitura de um livro que ela me deu. É um livro curto, que sou capaz de devorar em uma tarde só. Mas as obrigações que tenho a cumprir nos últimos dias não estão me permitindo uma tarde nem uma noite propícia para uma leitura seguida, sem freios. Nunca mais consegui ler um livro numa sentada só, com fiz com a maioria dos livros do epiléptico da Rua do Ouvidor, do Assis, na mesa da cozinha na casa dos meus pais. Estou lendo de maneira fragmentada, mas ainda compulsiva. Sou doente por livros e quem me conhece parece desconfiar. O livro que estou lendo fala do amor, de um amor diferente e de um amor igual. Sim, uma memória no singular, como toda a história, apesar da ideia velha da pluralidade amorosa. Para mim, idéias não envelhecem. E devem ser reconstruídas, sempre. Como a própria ideia, a ideia do amor também é imortal. Mas o homem sim, o homem morre. Morre de várias mortes. Morre em vida e na própria morte, seja do corpo ou da alma. Mas a ideia do amor não falece, como o amor. Estou lendo calmamente, devagar, como quem degusta um bom vinho tinto. Sentindo o deslizar da personagem sobre as lâminas do sentimento-mor. O homem mata o amor no homem e recobra-o com outro amor, força geradora da vida. O motor que faz a vida, mesmo quando quase impraticável. Mas essa é uma análise romântica e imatura ainda. Preciso terminar de ler o livro para, quem sabe, não me sentir tão decrépito assim... ou não. Dor de cabeça o dia inteiro. Fui à farmácia e comprei uma cartela de um comprimido contra dor. A moça do balcão desconfiou de mim. Senti. Parei a moto na esquina e entrei vestido com um casaco bicolor e uma mochila nas costas. Com a cara barbuda, aparentando uns trinta anos de idade, entrei e pedi os comprimidos. Ela não olhou para mim durante todo o enlace mercantil. Eu olhei para ela e vi como era uma moça atraente perdendo a vida atrás de um balcão. Quanta ironia e quanta metáfora. Uma moça sadia ficando doente atrás de um balcão numa farmácia na esquina. Eu e ela e mais ninguém. “Obrigado”, disse. Ela agradeceu quase sem altura na voz, usando um “de nada” murmurante. Ainda demorei cerca de um minuto e meio entre o avistar a moto novamente na esquina e o ligar o motor. Pensei em voltar e pedir a mão dela em casamento. Ela possuía olhos de mulher boa para se casar, olhos velhos, quase tristes quase frágeis. Mas lembrei que tenho um amor e um amor que é mais que amor. Fui para casa, mas antes paguei a mensalidade do apartamento. Rua A, 500, apto 203. Um lugar até confortável. De frente para o parque recreativo da cidade. Entrei e engoli o comprimido. Minha cabeça pulsava. Escrevi um poema que tinha começado na noite anterior e li alguns contos. Não demorou muito e fui para algum lugar. Foi o dia de ganhar palavras. Um papel. Um papel amigo, de se querer fortalecer laços. A vida tratada com esmero por uma mão que acarinha o tempo. Tempo que não é para marcação de territórios. Eu até entendi. Sim, entendi. Mas disse que eu era daquele jeito mesmo e que não conseguia sorrir a todo o momento. Meu sorriso é difícil, e pesado quando sai de mim. A vida inteira fui tratado como o chato. O avesso à normalidade das ações, das relações. Já estou acostumado com esta parte de mim. Enfadonho, avesso, porém observador. Vivi os melhores dias de minha vida sem precisar expor a ninguém nada e não será agora o momento de mudar de comportamento. A menina do papel, Ela, entende tudo. É uma moça com a cabeça boa. E agradeci a ela como quem agradece um favor bom. E não era favor nenhum. Era amizade. A aula foi péssima, dor de cabeça, latejando. Faltando uma hora para o fim, saí da sala e fui para casa. Atravessei a ponte e minha cabeça dentro do capacete pulsava. Um alívio quando tirei. Entrei, tomei mais um comprimido da cartela de quatro, e deitei. Pensei na vida que eu levava, no nada que sou perante a mecânica capitalista e formatável que é essa vidinha do mundo lá fora. Aí pensei no passado e nos meus amores. Sim, porque amei todas e só amo uma. E não sei por que fiz este exercício. Talvez tenha esquecido alguma ou outra, sem maior relevância. Foi quando esqueci a dor de cabeça. Fiz uma lista, claro, sem citar nomes... O diabo abre a voz quando o dia nem acorda e esnoba um pensamento. Não existe paixão nesta vida, ninguém pode, ninguém deve. Não há possibilidade, não se pode tecer esperanças. Iludido é o homem que crê no amor, ainda que fraco. E as palavras do diabo são flores evasivas, não são flores melíferas. Nenhuma abelha, nenhum pólen. Sem saber o diabo que o mel demoliu a palavra. Acordo cedo, leio, como, bebo. Minha escrita vem depois de tudo, após sentir o clima do dia. Não redijo mediunidades ou lampejos sem céu pertencido, ainda que só tocados de leve. Acredito no tempo da palavra e em tudo o que o diabo se intromete. Não, eu não quero muito. Quero o pouco que me transforma, que me transporta. Quero o céu que é meu, o meu pedaço. E acredito na mão que, sem cerimônias, ama o outro. Ela tem uma amiga quase irmã que defende a teoria do encontro. Para ela, a felicidade é apenas uma mudança. Mudar com calma, mas mudar. Falei que a hora é a maior dor, que o tempo é longe e é tão perto do sofrer do peito. Disse ela que tudo um dia muda e a felicidade sonhada acontece. Aí pensei ser esnobe a ilusão de não crer que a vida é feita do apaixonar-se. E vi que estava certo o velho que passa. Triste é não ir. Por isso eu tenho medo de mim. Tenho medo porque não sei tudo sobre mim. Desconfio que muito de mim ainda não aconteceu, que muito de mim ainda vive dentro de mim, em sono. E cada dia é um novo susto, um novo espanto, um novo ser. Quando penso que tenho já pouco a aprender sobre as pessoas, sobre o mundo, vem alguém mais louco que eu e me diz ineditismos. Quase todo um dia investido em leitura e estudo não me diz nada sobre quem sou realmente. Mas a noite sempre vem clara de ensinamentos. A mulher que amo bebe comigo o líquido azul. E eu sei que aquela voz não é somente uma voz. É alguma coisa acordando em mim. O dia de hoje foi marcado pelo fim de mais uma tentativa. Não que eu esteja triste, pelo contrário, encontro-me muitíssimo feliz, principalmente por haver tentado. Mas é que eu tentei na esperança única de dar certo, de ajudar o outro, com o mesmo sentimento de quem ajuda o mundo a ser mais humano e menos pesado. Por motivos simples, porém conflituosos, a tentativa passou de conquista e confirmação para um esboço e um "quem sabe, num outro momento". Sem mágoas no coração, de nenhum dos lados, a vida segue seu caminho. Do meu lado, continuo o mesmo aspirante a realizador de sonhos que sempre fui. Não obstante, o sol apareceu radioso e vivaz. Parece ser o fim também daquele friozinho que cobria minhas pegadas ultimamente. Mas, do que somos feitos senão de metamorfoses constantes?! Eu mudo, tu mudas, ele muda, ela muda, nós mudamos, vós mudais, eles mudam, elas mudam... E, assim, a vida segue seu caminho. Hoje fui amor total. A tradução disto é um ato impossível. Shopenhauer estava certo quando disse que "todas as traduções são necessariamente imperfeitas". Os homens, nós homens, estão, diariamente, tentando fazer alguma espécie de tradução, sem suspeitar de que estejam apenas correspondendo palavras e idéias, e não unindo os sentimentos na direção da vida em liberdade. Eu fico aqui pensando com os meus botões se é mesmo possível interpretar sensações ou fugir da naturalidade com que elas nos chegam. Não seria melhor abrir o peito duro e permitir a entrada do vendaval da poesia da vida, sem mentir algum discurso inacabado ou manipulado a nós mesmos e por nós mesmos? Eu não sei onde estou, nem onde estive. Amanhã, quem sabe eu me encontre, porque hoje não posso mais... Hoje minha vida só não passou em branco porque tenho longe algum sentimento que não morre. Algo muito longe e muito perto que não sei bem explicar, nem quero. Estou aprendendo que é bem melhor não ficar dando explicações a toda hora. Ela hoje me deu algumas dicas preciosas de como fazer para não se perder mais e mais em si mesmo. No que concerne ao resto do dia, só mesmo uma ponte rotineira, alguns pensamentos na cabeça e muita vontade de seguir escrevendo. Muita vontade mesmo.


* Imagem: https://www.deviantart.com/sudor/art/Instant-44-132076106

Sobre as mínimas gentilezas



Por Germano Xavier



Voltei. As voltas e regressos sempre me doem. Fica uma sensação esquisita de que não devíamos nos permitir, no canto esquerdo de uma salinha sem vida, a oblação de um cântico de luz. Sofre imaginar que toda volta é um recomeço, e que recomeços tendem ao que não vingou, ao que não foi ou ao que não poderia ser. Combato, hoje, minhas obviedades mais satélites, e na procura de um fusível perdido, curto um curto que, se não é de choque, é circuito de se ir. Ainda ontem foi isso, mas sei que não me fui. Perigo é fazer o retorno impossível, o retorno insubstancioso. Melhor caminhar torto pelo caminho vital, quebrando caras e bocas, beijando luzes e lamas, estéticas mancebas. Eu tinha por mim que ontem o relógio do mundo tocou as horas que sempre desejei. E fui ponteiro, bússola de mim, mendigo do tempo, gauche vivedor, e errante. A gente sempre tem a sensação de que na próxima esquina, na padaria da rua, no banco do consultório médico, desponte o algoz voraz, surgindo pelo portão principal, decidido em nos capturar. E para isso retornos servem. Para nos dizer das horas possíveis...


Amundsen

Tua adolescência febril se materializando, e eu lendo teus reflexos pela janela do meu quarto, solitário entre tantos papéis, o teto de estrelas brilhando por sobre a minha cabeça, a imaginação fluindo ventanias, viajando velas por mares tão singulares, levando-me a crer que aquela borboleta que pousou em teu ombro, no bosque da fantasia, por ora passeara ao meu lado, de mãos dadas, pegadas germinando pastos de esperança, vestígios deliberando vontades, a essência contígua e mútua fomentando florações. Conhecer-te um dia, no lar peninsular de minha ilha, fazer-te minha, inteiramente, sem desperdícios... Conhecer-te a ti, para conhecer-me mais, para desvendar-me, posto que sou baú de arcanos. Conhecer-te um dia, apenas. Conhecer-te para o sempre, para o que não se finda, para a não necessidade de outros conheceres, para permanecer perene, até o fim, até a última gestação do amor, até a derradeira fagulha, até a última centelha minha se apagar... e eu cair, debruçado, sobre o mesmo chão que me viu feliz.


* Imagem: https://www.deviantart.com/sudor/art/Nils-Labadie-Photographs-84-208302030

Combustível e brasa



Por Germano Xavier



Chegando em casa

Toda noite isto. Os degraus da escada elevando meu corpo cansado até a porta de ferro. Pintada em amarelo, a porta não existe a esta hora da noite. Logo as chaves possibilitam um encontro com meu corpo, minha alma e meu universo. Lá fora, a impresença das ventanias me sufoca. É nesta hora que começo a tocar tua epiderme, consciente dos fogos e dos fogaréus. Não diria a mais ninguém tua esfera saturnal, posto ínfimas as consequências de bem. Nosso universo cantado em desejos e estratégias de amar. Tua literatura ocular lendo meus abissos, e a reciprocidade em flores e casas de cancelas que escancaram o amor. É quando me deito c'os pardais, c'os canoros pintassilgos de ti em mim, co'as cópulas eólicas de nossos ventos que nos sabem eternos e instantes...


Em Cartago...

Perto daqui, como o Agostinho Santo, buscarei a verdade. Minha verdade é minha própria vida, ninguém me impedirá! A disciplina, poeta, é necessária, como correr o risco de perder a bandeira no alto de sua elevação. Os mastros sempre tendem à queda, perigosamente. Mas, eu sei, minha hora há de chegar, a devida hora para alguma coisa. Hoje, pela manhã, percebi isso na voz daquele que dizia "vai", e me aconteceu. Não sei explicar, aconteceu, assim, vitoriosamente, em louros e silvos de pintassilgos.


Meu filósofo

Eu compro clichês para dizer "te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais eu em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A adolescência, atividade para especialistas, operacionalizando-me gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia. Eu ainda ando.


* Imagem: https://www.deviantart.com/sudor/art/Instant-1697-183661334

Coisas velhas de hoje



Por Germano Xavier



Normalidade


Um dia normal dentro de minha vida é assim. Estou triste, cabisbaixo e minha impaciência com as coisas é a única razão que me coloca em movimento. No restante de mim, sou somente silêncio. A manhã ingerida à cara de enjôo. Indesejáveis horas. Repentinamente, ocorre-me sempre uma vontade louca de cometer um suicídio. E lembro que, na cidade onde hoje moro, passa um rio bastante caudaloso. O rio é enorme, mas não sei se ele seria capaz de suportar o peso de todas as minhas angústias. Talvez, se desse modo o fizesse, ele também resolvesse morrer ao meu lado. Seríamos simplesmente espetaculares em nossas mortes. Seríamos, para sempre, dissidentes de nossas antigas concepções. Eu, profundamente decepcionado com a realidade. Ele, o rio, uma criatura feita com as lágrimas do povo, e com as minhas. Assim, abriria os braços no ponto mais alto da ponte e, feito uma ave de rapina, voaria meus últimos instantes de aflição e de desejo insano. Depois, mergulharia no véu negro da morte, acreditando ter ido ao encontro da liberdade do meu espírito misterioso. Todavia, todo este afã cessa sempre e acabo dentro de uma sala de aula abafada, com inúmeros adjetivos sentados em apenas um substantivo. A cabeça começa a doer. O sangue parece se movimentar em meu organismo. Pego de uma caneta e de uma folha de papel, mas as veias latejam, surrupiando todas as palavras que eram minhas de origem. Sinto-me fraco e desprotegido. O sol começa a se esconder por trás do horizonte. A lua, ainda quase invisível, expressa seus primeiros gestos iluminatórios. Por final, a noite. Por final, o sono... e a profunda e silenciosa certeza de que amanhã será mais um dia dentro da minha tangida normalidade.



Olhos novatos


Hoje eu tive um sonho. É noite e uma mulher me espia de uma mínima senda da janela de sua casa. Acabei de me mudar e é conflituante essa sensação de me sentir um estranho. Vejo que todos lançam olhares de curiosidade sobre mim. Sinto-me indefeso, sem saber como atacar. Nessas horas, é inteligente um pouco de paciência. Um revide impensado e prematuro traria consequências jamais quistas. O melhor que posso fazer é esperar. É o fim do meu sonho. A espera.



Reencontro


Sexta-feira, 16. Uma agonia. Ontem revi um dos meus vários fantasmas da infância. Por isso, hoje, por onde estive andei encabulado, numa espécie de assustamento que tomou conta de todos os meus passos. O teto branco do apartamento onde moro deixou de ser o simples teto branco do apartamento onde moro, transformou-se no teto antigo, forrado em madeira, da antiga casa onde nasci, recheado de imagens que eu perscrutava noturnamente, silenciosamente, diariamente. Um teto de lembranças esquisitas, morada de algumas entidades que me fizeram companhia por um longo tempo, antes de começar a perder, paulatinamente, a minha potencial essência para o fantástico, natural quando se observa o levantar dos anos.

Sexta-feira, 16. Uma noite singular, por excelência. Tive a nítida impressão de que eu me fui novamente, como há muito... Eu a me levantar, suado, com uma adaga de prata em minha mão direita, na esquerda um escudo de bronze, olhar rijo, direcionado ao vago, aquele mesmo caçador, aquele mesmo guerreiro, menino, em busca de aventuras estranhas, que só ele vivia, procurando encontrar a sua sombra, o seu outro, o seu desconhecido, ele mesmo, sempre.


* Imagem: https://www.deviantart.com/sudor/art/Rue-Desaix-131971066

A velha mesa de todos os dias



Por Germano Xavier



Sylvia, por quê?

Eu sabia ler tuas aflições, não era como o Ted. Eu te respeitava. Eu te amava, mas tu preferistes a sublimação. Adorava quando tu me confessavas o todo dos teus dias, sempre infames. Teu Ariel quase pronto, deixado na cabeceira de tua cama em Londres, matar-me-ia anos depois. Teu vago aposento não era vago, Sylvia, era turba. Não me perdestes, nem eu a ti. Estou contigo, nestes nossos tons confessionais, isentando-te de qualquer culpa. Onde quer que estejas, estarei ao teu lado, lendo-te em devaneios e surfando-te em instituições nefelibatas. Naquele 11 de fevereiro de 1963 eu te amei como ninguém poderia.

Um beijo, Sylvia, do teu amante eterno.



Um bilhete para dizer adeus


Eu deixo estas palavras sobre a cama porque ainda estou com você. Apesar de nossas brigas, quase sempre tão tolas, ainda não posso. Lembra de fechar o registro da água quando for sair. A pia está vazando e a prestação do sofá já chegou. O dinheiro está em teu porta-jóias. Eu vou indo porque preciso. Jamais me esquecerei de você. Mas a memória é também o esquecer-se, e eu devo. Amei você quando pude.

Desculpa, não posso mais.
Teu.



Um último dia


Eu não sabia que ontem era meu último dia. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão... tão... infinito. Distante! E também impalpável, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever senão a existência de um fim, de uma presente imagem do que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, para que um derradeiro olhar atinja meu universo, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?


* Imagem: https://www.deviantart.com/janek-sedlar/art/Secret-path-through-valley-of-upside-down-carrots-411772114

Mot just



Por Germano Xavier


um texto escrito em 2008.



A luta que luto com meu corpo bem parece com a luta que luto com a minha cabeça. Parte alta de mim, gaturamo, quase um contraponto em melodia inacabada, minha cabeça é corolário, dedução coberta por uma pele lustrosa, minha crônica e meu humor e meu grande livro. E luto infinito. Um corpo-a-corpo que já não mais, ou nunca, preocupa-se com as consequências e exigências estéticas impostas pelo mundinho de já-agora-apodrecido-pela-beleza-forçada. Sempre foi de caráter secundário a publicação dos meus resultados. Para que serve um registro sobre o nada? Sim, todo mundo um dia quer provar alguma coisa a alguém. Ou quer provar alguém para alguma coisa.

E resultados sempre existem. Positivos ou não, eles sempre aparecem. Mas o que pode ser positivo? O que pode ser negativo? De quando nasci, luto com minha cabeça teimosa, manceba e também arredia. E não é diferente hoje nem será amanhã. A sensação que tenho é que a guerra que travo com este apêndice aéreo que sustento com a força de meu pescoço não termina nem terminará, pelo menos por tão cedo. Luto de suar a testa. É minha cabeça dizendo uma coisa, meu corpo pedindo outra. Mas nem sempre. E assim vai. Assim, vamos. Para onde é que nenhum dos dois sabe, ou saberá. Seguimos, e só. Somente e só, seguimos.

Hoje foi dia de receber sinais mais ou menos do tipo olá-você-está-vivo-parabéns. Um bom dia para mais um embate, mais um round. Saber até que ponto estar vivo é positivo ou negativo, eis a questão. Mas para que serve também uma dúvida? Você saberia me responder? Não queria eu a suposta melhora de vida encontrando a morte veloz numa esquina dissolvida em anelos libidinosos e fatais? Sou eu mesmo este ser que, em seus “claros?” anos de idade, ainda troca entornos de peripécias por um saudável equilíbrio relacional? E quem sou eu? Quem? Eu morro igual na idade nova. Morro. Vou escrever um poema de um fim. Talvez eu deva. Acabou aqui. Acabará? Acabamos? Somos acabáveis?

Minha vida é minha e minha morte é minha. Acabou aqui. Eu me faço. Eu me acabo. Deixo a álgebra e os cálculos em paz. A matemática de minha vida tem sido dura comigo em alguns sentidos. Em outros, consideravelmente mais dispensáveis, leve e acolhedora. Não desejei fazer conta de palavras. A poesia pesa menos que o ar. A poesia pesa mais que o ar. Mas não sabemos. Deixo tudo nas mãos do tempo que passa mudando tudo. Vi que preciso repetir isso mais vezes. Tentar explicar ou pedir explicação pode causar incômodo ou mudar a rotina dos ventos. Eu tinha ouvido conselho sobre isso. E como sabem, mudar também pode ser bom, mas nem sempre. Firmar teu pé no chão de alguma coisa e ir ao profundo daquilo é um sinal de força. Radicalismos à parte, ir às funduras das coisas é sempre mais gostoso.

Já perdi muito tempo nesta vida tentando comentar meus crimes mais perfeitos. Hoje sou outro. Ou aparento. Ainda repleto de falhas e fraquezas, mas outro. Para que servirá eu medir a onda do rio? E a tinta da mão? Ou a finura dos biscoitos? Melhor deixar o rio transbordar de qualquer coisa, sempre. E viver melhor do jeito que se sabe. Nunca me apeguei aos números, e não será agora que irei render-me a eles. Prefiro mil vezes a poesia torta de meus dedos. Ah, e como prefiro... Existem pessoas que salvam um dia que tende ao desastre.

Minha vida "bonita" não daria nem um livro policial “noir” de quinta categoria, daqueles em que nada acontece na trama que nos deixe perplexos ou assustados ou ansiosos pelo final. Eu só vivi para o gasto até hoje, fiz apenas o que pude, conheci a carne de algumas mulheres e poucas me arranharam a pele. Alguma, ou uma. Nada muito. Vida que está. Mas, como eu disse, existem certos tipos de pessoas que nos puxam o corpo, bem na hora do pêndulo que fulmina o balanço da derradeira hora, e nos estende o braço dizendo eu-estou-aqui-contigo-não-vá.

Dia marcado pela imprestabilidade das ações e pelos votos esperançosos de que o dia de amanhã seja menos criminoso comigo. "Você está chovendo hoje", ouvi até isso. Eu perguntei o que aquilo significava e fiquei sabendo que era coisa boa. Sim, talvez, poderia até ser, mas a água que jorra em mim é mais uma água salgada que doce. Não consigo parar com toda esta angústia, toda esta sensação de que o tempo apenas vai, passa e não espera. Que faço diante de tudo isso? A chuva em mim não é torrencial, é uma chuva passageira.

Ela apareceu depois de um fim de semana de sumiço. Apareceu e me trouxe novidades. Pensei que ela, não a chuva, ela, pensei que ia dizer que tinha acertado quinze números na loteria e tinha ficado milionária e que ia comprar uma casa na Toscana e que ia me levar com ela. Mas não foi nada disso e foi algo melhor. É que eu estou ficando conhecido. E como diria o Autran Dourado, reconhecimento bom é aquele que a gente sente nas outras pessoas, sem forçar a barra. Posso escrever dois contos e três poemas. Leio a terceira parte do livro do Gabo e Delgadina está amando o velho e eu posso ser mesmo um escritor. Ela acaba de fazer quinze anos de idade, o mesmo número dos possíveis números da loteria. O velho tem noventa e um anos. Faça a conta. Noventa e um menos quinze é uma vida de anos.

Mas sou daqueles que não acreditam na idade do amor. O amor é o próprio tempo e, como todos sabem, o tempo engole tudo. Dois meninos que quase não pude ver direito de tão miúdos, pretos, um nu e um com um saco branco escondendo suas vergonhas ainda não vergonhas, agachados, do tamanho da calçada em maior relevo, juntos, comendo alguma coisa de resto de festa juntos a uma pequena poça de água parada, os dois ali, pequenos cachorrinhos e a imagem da extravagância humana em contraste, o gozo pós-prazer feito do coto dos que podem e da reaplicação pelos que não podem.

Eu tinha visto o "bicho" de Bandeira, ou melhor, os bichos, e desperdicei a chance de registrar aquilo para o mundo. De qualquer forma, a imagem está guardada em mim e me faz pensar em algumas coisas. Não consegui continuar o passeio e segui para casa. Pessoas matam pessoas, eis uma afirmação. Tudo certo, tudo errado. Confesso a você que me matou ontem que sou este ser quase desprezível e imprestável perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Lagarta que sou, o voo me parece apenas um longínquo desejo.

Acordo e vou aos lugares e você que me matou ontem sabe bem os lugares que visito. Quando iniciei um projeto de vida com você que me matou ontem, quis mostrar a você que sou um ser desprezível ou quase-nada perante o belo e dinâmico e funcional mundo atual. Engraçado como o pensamento toma ares de verdade e consegue alcançar patamares de altura tão elevados. Sem esperar, tinha já eu confabulado preâmbulos também atabalhoados e, por vezes, modulares diante da sua mágica figura que me matou ontem.

No meu inventário, marquei com um xis a palavra qualquer. Uma palavra que parece ser mais forte que o próprio amor. Mas você me matou ontem e você também sabe que seres desprezíveis ou quase-isso não morrem assim do nada, sem razão menor para que sejam. Esquece-se que sou uma fênix e que minhas flamas não se avulsam assim. Digo a você que me matou ontem que, caso queira matar-me de verdade, basta algumas palavras e te desejarei um belo resto de vida. Corpo morto.


* Imagem: https://www.deviantart.com/oo-rein-oo/art/Some-Dance-To-Forget-409834519

sábado, 6 de outubro de 2018

O Brasil, a neurose política e o mal-estar na civilização



Por Germano Xavier



FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


Até onde ou quando poderá a espécie humana, dentro da esfera de sua própria evolução cultural, controlar as mais diversificadas perturbações trazidas à vida pelos instintos humanos de agressão e autodestruição? Esta é a pergunta que Sigmund Freud (1856-1939) nos deixa ao final do seu ensaio O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, publicado originalmente em 1930, em Viena. Pergunta esta que teima em embalar o sono e o sonho (por que não dizer?) de muitos brasileiros nos nossos dias atuais.

Em tempos de intolerância política, de ódio escancarado, de preconceitos mil, de dualismos aflorados, de bolsonaros e corruptíveis, o pendor à agressão é hoje a arma nada-branca mais utilizada tanto nas discussões em redes sociais quanto em debates na/da vida real. O agressor, o opressor verbal ou atitudinal, por estar a provar algo ou a desmentir um feito considerado por ele falso/fake  e que vai de encontro aos seus "tão bem fundados" preceitos, parece estar sempre em defesa de algo justificável ou justo, mesmo que o outro acabe sofrendo algum tipo de consequência. Freud (2011, pg. 57-58), no ensaio supracitado, vai dizer que a existência dessa paixão pela agressão “é o fator que perturba nossa relação com o próximo e obriga a civilização a seus grandes dispêndios. Devido a essa hostilidade primária entre os homens, a sociedade é permanentemente ameaçada de desintegração”.

Parece não haver mais a possibilidade do errar ou, muito menos, do perdoar. As verdades parecem únicas e invioláveis, até mesmo indestrutíveis. A humanidade parece estar em regresso capital, voltando a um tempo em que a ideia absoluta prevalece sobre a razão e sobre a racionalidade. O cenário político nacional tem sido a prova cabal para essas afirmações. A barbárie fora instalada até onde menos se esperava. O indivíduo é ele e só, e de nada importa o escutar e o refletir conjuntamente com e para o outro. A visão do outro é sempre a lógica impura ou logo é alterada e distorcida, mesmo que à força. O interesse comum não mantém nada nem ninguém. “Paixões movidas por instintos são mais fortes que interesses ditados pela razão” (FREUD, 2011, pg. 58).

Recorre-se a tudo, então, para colocar limites ao instinto do Homem. E aí o problema começa a ganhar tamanho desproporcional. O vandalismo é retomado em todas as suas acepções de sentido. Práticas abusivas, desrespeitos éticos e julgamentos sem embasamento viram cartas marcadas sobre a mesa das negações e das negociações. É quando o não começa a vencer o sim, de goleada e com ajuda da arbitragem (leia-se Poder Judiciário & Adjacências). Toda uma base racional pende para um lado e o equilíbrio torna-se algo muito raro de se ver e, principalmente, de se praticar. Um verdadeiro deus nos acuda ou um salve-se quem puder.

Para Freud (2011, pg. 41), “boa parte da peleja da humanidade se concentra em torno da tarefa de achar um equilíbrio adequado, isto é, que traga felicidade, entre tais exigências individuais e aquelas do grupo, culturais; é um dos problemas que concernem ao seu próprio destino, a questão de se este equilíbrio é alcançável mediante uma determinada configuração cultural ou se o conflito é insolúvel”. O grande pai da psicanálise não retira do caminho a influência do gosto pessoal, do eu e nem do desejo por liberdade que são coisas vivas no Homem, mesmo colocando a liberdade individual em outra caixinha, por exemplo, que não a dos bens culturais.

O modo como vem sendo reguladas as relações humanas no Brasil, e também no mundo, as relações sociais e políticas em si, talvez seja a grande engrenagem gripada dentre todo o maquinário funcional da vida em coletividade dos dias presentes. Hoje, para algo se legitimar, uma maioria precisa se esforçar para engolir o que é indivíduo. Parece ser preciso se opor a toda forma de individualidade para que uma ideia ou uma prática termine por vingar ou para que entre em movimento. Mas todo e qualquer esboço de coletividade não é também um punhado de indivíduos, de diferentes?

Quais paliativos usaremos daqui para frente, do nosso presente para o nosso futuro, para que suportemos as dores, as decepções, as ânsias e as angústias do viver? Será mesmo necessário buscar, sempre que possível, a alternativa mais rápida e mais fácil? Vamos mesmo nos inebriar com altas doses de desumanidade e de desapreço ao próximo? Sabemos que num mesmo espaço não há condições favoráveis para a existência de duas matérias, porém deixar que haja infiltração de substâncias de reflexão no todo desse Corpo é tarefa quase obrigatória. Ou então seguiremos caminhando para os lados contrários, para o acabamento burro do pensamento e que, por fim, nos levará para uma eterna conservação do que é de ordem primária, esquecendo, destarte, que somos seres perfeitamente desenvolvíveis, melhoráveis, aperfeiçoáveis.


* Imagem: http://jornalfatosenoticias.com.br/pt-br/publicacoes/voce-sabe-o-que-e-neuroseij/

domingo, 23 de setembro de 2018

Se o leitor não vier



Por Germano Xavier


"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."
(Virginia Woolf)


mais um texto que nasceu dentro de uma Toca Literária 
(oficina de criação literária liderada por Marcelino Freire)



Se o leitor não vier, não haverá problema maior. Melhor ainda dizer, se o leitor não vier não haverá problema algum. Não haverá dor nem sentimentalismos exacerbados de minha parte. Se o leitor não vier, o escritor que me habita seguirá tecendo as manhãs em forma de palavras. Se o leitor não vier, o poeta em mim continuará sendo o mesmo poeta que fez com que eu, homem comum que também sou, despertasse para o poder transformador das artes. Não tenho como divisar tal perda, meu nobre amigo. Se o leitor não vier, toda palavra se manterá viva, o verbo conjugará todos os sentidos possíveis e os impossíveis, a humanidade permanecerá a conhecer as diversas faces do bem e do mal. Nada poderei fazer se o leitor não vier. Repito: Nada! O livro, o texto, a narrativa, o enredo, as personagens, lá estarão elas, mais vivas a cada dia, mais esperançosas a cada aurorar. Não tenho o que descrever se o leitor não vier, com sua fome de saber e sua sede curiosa. Se o leitor não vier, essa massa de sensações a qual me junto todas as vezes em que abro os meus olhos fará, como sempre fez, parte do mundo e ele tornará a rodar e rodar e rodar. Se o leitor não vier, o moinho não parará de girar suas pás, muito menos a gangorra encerrará suas descidas e subidas. Nenhuma frequência de prazer oscilará se o leitor não vier um dia. Nada, absolutamente nada será eliminado do meu caminho caso o leitor não apareça. Poderemos sobreviver se o leitor não vier. Poderemos construir elos, reconstituir, conservar, desenvolver, alterar, formar, preservar. Poderemos tudo se o leitor insistir e não vier. Poderemos supor e acabar, adequar novos fins ou meios, ou ao menos admitir alguma fraqueza ou franqueza. A vida continuará difícil para o povo, com dores, decepções e tarefas insolúveis. Se o leitor não vier poderemos até suportar, divergir, insensibilizar. Se o leitor não vier, não haverá discórdia. Vale salientar: se o leitor não vier não haverá violação de nenhuma espécie. Não haverá falta, é bom que se entenda. Se o leitor não vier, enfim, não haverá ganho ou pormenor. Se o leitor não vier, eu teimo e reitero, toda palavra se manterá vivaz e buliçosa, o verbo contará as sortes e os destinos. Minha mão será minha espada no tempo e sangue verterá ao sol se o leitor não vier. Como sempre, para mim. E a respeito disso nada poderei fazer. Repito: Nada!


* Imagem: https://pixabay.com/pt/homem-velho-%C3%ADndia-sadhu-viagens-1145467/

A poesia como um caminho grávido de coisas



Por Germano Xavier


Lá ia, pois, um leitor a contemplar um livro de poemas. Lá ia, pois, um leitor a lembrar de duas frases de dois grandes nomes da literatura universal: “Escrever é um ócio muito trabalhoso”, de Goethe, e “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”, de Virginia Woolf. Uma dupla de frases que podem muito bem funcionar no ousado intuito de resumir a escrita de Nadine Granad, que aponta agora para inícios.

Pois, lá ia, ela, sendo isto: a balança entre o seu labor “preguiçoso” (poemas quase sempre breves) e a escrita na busca de ser lida ou não. Por um lado, penso que a própria autora – iniciante ainda no fazer livresco-literário, ou pelo menos em matéria de publicação – pode ainda imaginar-se descrente deste “talento” que por ora mostro aqui... Contudo, ainda protestante desta sina, pode também revelar-se uma esquizofrênica neste “querer-não querer” de caráter ontológico; por outro, buscando ocultar-se na querência do sucesso.

Escrevo estas palavras iniciais sobre a poesia de Nadine Granad porque amo o ofício do escritor, do poeta, e odeio-o ao mesmo tempo, e também por ser macunaímaco e operante e/ou me satisfazer plenamente de prazeres verdadeiros e nutritivos ou vis e débeis... Também é isto que deve suceder com a poeta no presente livro. É quase imperativo dizer que o que se quer com a poesia, poetas e escritores que somos, é que ela, através de nossos olhares e palavras, seja confundida com um holofote eclíptico, com a honraria e com o disfarce, com a calma e com a tormenta que torna ora ar, ora mar... e que toma a todos, no fim.

Reúne ela, então, em seu livro FELICIDADE DA ALMA PERTURBA, poemas seus aqui subdivididos em capítulos, certamente criados após amor, pessoas, fatos ou fases que passaram ou ainda passam por sua-nossa vida, um tremendo cabedal de iné(ditos) que nada temem, que nada reprovam, supernovíssimas tiradas poéticas ainda não divulgadas ou mostradas ou nuas ou seminuas para o homem-além, aqui publicadas para não dar ideia de ácaro ao grande Frankenstein que promete este Prometeu aqui...

Em “Curta o Curto”, Nadine Granad explora a potência do verso rápido e o faz expandir-se na aurora das simples expectativas. Em “Suspiros d’Alma”, despe-se e encara o amor de frente, sem fronteiras para as dores e para os momentos de felicidade. No capítulo “Dicionário Reticente”, pequenos golpes verbais na boca do estômago da vida a nos embalar realidades e sonhos. Em “Indagações Pseudo-Humanas”, talvez o pulso mais ativo do livro, rompante de extensões e extinções sentimentais que, partindo da autora, também opera partindo o universo anímico do outro-leitor.

No capítulo final, intitulado de “Sombra e Luz no espelho”, a poética de Nadine Granad, entre parcerias ou não, entre poemas quebrados e rimas de liberdade, entre versos em prosa e prosaicas destemperanças, entoa o hino natural às chamas, às labaredas e a tudo que revoga o sol no e do homem. Tudo aqui, aparentando amenidades, lustra-se de violência simbólica a mais selvagem, do tipo que compromete o próximo passo ou o próximo olhar de quem lê. A poesia de Nadine Granad, vista como um caminho grávido de coisas, elabora por si própria sua história de rusticidade, diversidade, solidariedade e de humanidade. E só por isso, já vale a leitura.


Imagem: https://pixabay.com/pt/%C3%A1rvore-gravado-poesia-porta-malas-615663/

sábado, 22 de setembro de 2018

Resenha de Germano Xavier & Associação Nova Escola


Por Germano Xavier


É com enorme engraçamento que comunico a todos que minha resenha literária intitulada de AS PLANTAS QUE LATEM DE HELDER HERIK, publicada aqui em 19/05/2018, foi selecionada para fazer parte de um projeto lindíssimo na área da educação nacional promovido pela Associação Nova Escola tendo em vista a Base Nacional Comum Curricular - BNCC, numa parceria com a Fundação Lemann e o Google.org. Tudo isso em virtude do olhar apurado da professora doutoranda Ladjane Pereira, a quem agradeço imensamente. Em breve, deixo aqui mais informações sobre o projeto. Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: https://br.linkedin.com/company/associa%C3%A7%C3%A3o-nova-escola

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Não basta um nó para fazer literatura




Por Germano Xavier


DOIS NÓS NA GRAVATA (CEPE EDITORA, 2015) é o nome do segundo livro de contos do escritor pernambucano Rômulo César Melo e um dos vencedores da segunda edição do Prêmio Pernambuco de Literatura. As narrativas abreviadas da obra forçam os leitores a fazer um exercício de reencontro com o passado e, por conseguinte, com suas aspirações mais humanas e interiores, dentro de ambientes temáticos ora triviais ora bastante densos e, porventura, pintados com uma carga dramática – diria - impiedosa. A construção de algumas cenas é realizada de maneira limpa e esclarecedora, outras nem tanto. Os personagens são sólidos. Ao todo, são 17 narrativas e cada uma traz consigo um universo de abordagem díspar. O leitor faz, literalmente, uma viagem atemporal e também temporal a cada conto lido. Todo conto é um mundo e demanda um ticket novo por parte do leitor, que vai como quem não tem destino. Há a percepção de utilização de técnicas expressivas de escrita por intermédio do autor. Os contos com problemáticas urbanas enchem mais os olhos de quem lê, porém até os que burilam com a fantasia correspondem. Algumas tramas claudicam em um regolito quebradiço. Todavia, ao final, o livro nos aperta o pescoço feito dois nós na gravata. E é isso o que importa.



Trecho do livro:

Tome o lenço, pare de chorar. Já choramos o bastante, quase debulhamos um rio Volga de lágrimas. Lamentações sem futuro. Se médico algum conseguiu, quando em vida, ninguém removerá o tumor dos restos mortais de mamãe; e também se o fizesse de nada adiantaria; nem a bala na têmpora de papai, depositada horas depois do sepultamento da esposa. As manchas dos miolos passaram a fazer parte da parede do escritório, pelo menos algo dele permaneceu, desconfio que aquela frase repetida nos Natais “quando eu me for, meninas, algo meu ficará por aqui” se referia a essas manchas crucificadas na madeira da parede, as faxineiras não conseguiram limpar; tampouco seriam apagadas as ausências que nos seriam impostas a partir dali.


Imagem: https://colecionadordesacis.com.br/2016/07/23/clipping-assombracoes-do-recife-velho-inspiram-desafio-entre-escritores-pernambucanos/

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Pólvora



Por Germano Xavier


Miniconto nascido de um desafio proposto pelo escritor Marcelino Freire,
na ocasião de sua oficina de criação literária intitulada de Toca Literária.


Cama para quê? Dormimos mesmo na pele do solo. Na verdade, fingimos sono madrugada adentro. Eu mesmo me espantei várias vezes com os melindrosos sons do sítio de meu tio. Aquilo tinha arquitetura de evento. Meus dois primos levaram a carabina de pressão. O velho, sua espingarda cartucheira. Eu levei minha coragem. Pintos estavam morrendo às multidões. Suspeitávamos de tudo, até de Braulino, o encarregado dos galpões. Ele havia descumprido ordens ultimamente, sem motivos reais. Armamos tocaia nos fundos da granja. A manhã brotaria sob a bandeira da paz. De preferência, sem o cheio da pólvora.


Imagem: https://www.deviantart.com/chibilacra/art/Polvora-y-luz-I-90289031

domingo, 19 de agosto de 2018

O que cabe nas paisagens de Amâncio Siqueira?



Por Germano Xavier



Um homem encaixota-se por inteiro. Fiquei fitando a capa por um certo e também desregulado tempo. Belíssima imagem. Só pela capa já valeria o livro, já valeria possuir o livro. Trabalho sensacional da Cepe Editora, como já é de praxe por lá. Encaixotado, aquele homem parte para seu destino incerto sem saber se aguentará suportar o peso de suas caixas todas penduradas pelo corpo. O mundo é uma surpresa. O corpo parece até suportar o peso e o possível medo do caminho, mas o caminhar é lento, talvez certeiro, talvez decidido. O suportar parece até ganhar corpo, mas é um ganhar trôpego, como que sem a totalidade do vigor vital. A alma, no fundo, se engrandece e vai, porque acredita. E segue. O homem segue. O homem que é, essencialmente, realidade e sonho. Repito: o homem segue, seco, sem cessar. Passadas firmes, apesar de curtas. Segue como a escrita de Amâncio Siqueira, escritor que se consagrou como sendo um dos vencedores do V Prêmio Pernambuco de Literatura, hoje conhecido por Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, que tem revelado bons nomes no cenário literário dos quatro cantos pernambucanos. Nem tudo cabe na paisagem, compêndio de contos escritos por Amâncio, é um exemplo da qualidade das letras confeccionadas e difundidas nestas paragens. Aqui, na prezada obra, o leitor se envereda por pequenas viagens e por resolutas descobertas, dentro ou fora das personagens, estando completamente imersos ou não nos cenários. Nada de descobertas magnânimas ou escandalosamente devastadoras, mas descobertas simples, porém pujantes. Tornamo-nos, até, Socó Pombo, uma tal persona a nos remeter a um outro tal de Joe Gold, personagem real contado e recontado pelo grande jornalista norte-americano Joseph Mitchel, ícone do New Journalism, assim como embarcamos em cicatrizes, passados, confissões, vinganças, intrigas familiares e outras incandescências e/ou errâncias mil. Nem tudo cabe na paisagem cabe dentro de uma tarde de leitura, sem grandes embaraços estilístico-estéticos nem dificuldades semânticas de outras ordens. O livro é, com extrema sinceridade, de uma honestidade encorajadora. Pode não ser primaz, mas conquista.


* Imagem: http://blogaugustocesar.blogspot.com/2018/04/divulgacao-companhia-editora-de.html

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A Grande Torre, de Nivaldo Tenório: sobre o nascimento de um escritor



Por Germano Xavier



Há livros que são grandes desastres literários, como o meu CLUBE DE CARTEADO, publicado em 2006 e primeira tentativa no meio das letras – é assim mesmo que o vejo, sem nenhuma espécie de compaixão. Outros, apesar de renegados por seus respectivos autores, principalmente em sendo os primogênitos, não podem ser taxados como catástrofes em excelência. É o caso de A GRANDE TORRE, livro inaugural de contos do garanhuense Nivaldo Tenório, autor dos recentes NINGUÉM DETÉM A NOITE e DIAS DE FEBRE NA CABEÇA.

Em entrevista ao jornalista Thiago Corrêa para a Revista Vacatussa, em 2014, o autor revela que tentou “justificar a falta de unidade do livro, recorrendo à torre de babel, como metáfora de confusão, e talvez um conto ou dois, de resto não gosto do livro, e quando digo que andei roubando exemplares das bibliotecas, para queimar, juro que não estou fazendo tipo. A grande torre precisaria amadurecer mais.” Na mesma entrevista, o autor ainda explica que sente que a publicação do livro foi precipitada, mas conscientemente conclui que “aquele escritor não mudou muito desde 2002. Quando falo que já era o mesmo escritor, refiro-me a ideia que fazia e faço da literatura. Naquele tempo eu já era o leitor de Borges, lendo e me surpreendendo com as semelhanças que o argentino tem com o nosso Machado de Assis. Eu já era o escritor que condenava o diletantismo, eu já me cobrava uma atitude mais profissional e sabia que para fazer literatura de verdade o caminho não era outro senão aquele apontado por Ernesto Sábato, de que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação ou nada de importante será feito.”

Decerto que A GRANDE TORRE pode ter seus defeitos e suas inconstâncias por demais demarcadas em suas 160 páginas, além de uma visível escassez de unidade temática, mas como o próprio autor percebeu desde antanho, já é um livro capaz de denunciar a presença de um escritor de pulso, vivaz e sabedor de seus percursos. Uma hora beirando as margens do trivial, passando pelas veias do cotidiano, a obra outras vezes envereda pelo universo bíblico, mormente do Antigo Testamento, e burila o inferno no céu celestial das significâncias. Para um primeiro compêndio de contos, repito, não era logo a foice em suicídio ou em autoflagelo. Era, diria eu, a certeza de que muito mais haveria de vir.

E veio.


* Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Torre_de_Babel_(Bruegel)

12 anos de O Equador das Coisas



Por Germano Xavier


Este mês, mais precisamente no último dia 09 de julho, completei 12 anos no comando do blog O EQUADOR DAS COISAS, este-meu-nosso espaço lítero-cibernético que ajuda a contar um pouco da paixão que tenho pela literatura e pela arte em geral, além de revelar muito do que sou-sendo. Ao todo, já são mais de 635 mil acessos (IPs diferentes) oriundos de mais de 100 países diferentes. Aproximadamente 2.000 textos compõem o acervo e o número de visualizações diárias chega a superar a marca de 250 por dia. Por meio deste espaço, feito de leituras e também de leitores, conquistei laços fortíssimos de amizade que carrego até hoje. Depois de uma temporada sabática, resolvi seguir com o projeto a todo vapor. Estamos vivos e isso é tudo, bucaneiros. Sigamos, por um mundo com mais palavras! E um viva a'O EQUADOR DAS COISAS!


Um pouco de história...

Tudo começou durante uma aula da disciplina Programas e Ferramentas II no curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que eu até então fazia. A professora Jussara Moreira, depois de explanar um pouco do seu conhecimento acerca da linguagem HTML para produção de sites pessoais e outros projetos de cunho cibernético, levou-nos a conhecer uma ferramenta que, para mim, ainda era uma incógnita: o Blog (ou blogue, como preferir). Lembro que ela havia indicado alguns sites onde poderíamos escolher a plataforma que mais agradasse nosso gosto e, ainda sem nenhum conhecimento de causa, entrei na ferramenta que o portal UOL disponibilizava àquela época. De pronto, achei tudo muito simples e funcional. Uma espécie de caderno virtual, de diário, de pasta, um portfólio, "mas que coisa boa!", pensei. E assim se deu o meu primeiro contato expressivo com esta ferramenta informática – hoje já considerada até obsoleta. Houve a luz, diria o outro. E sem muito pestanejar, fui logo criando o meu próprio espaço na blogosfera. PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO foi o título que dei ao meu primeiro ímpeto blogueiro e foi parido em 09 de julho de 2007. Lá, e aos poucos, fui colocando alguns velhos textos que eu já tinha e também escrevendo coisas novas. Como nestes idos ainda não possuía computador em casa, reservava alguns momentos quando me encontrava no laboratório de informática da faculdade para postá-los. No PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO, a série de textos do “Sonhador Gervixa” foi, talvez, o maior destaque. Com cerca de 20 capítulos publicados, foi através deste personagem, um sujeito que se dizia não ser deste planeta devido a sua extravagante repulsa por todas as más ações humanas, que os primeiros leitores – geralmente meus próprios colegas de Jornalismo e outros poucos amigos - foram se acercando de minha produção textual, conquistando assim paulatinamente o que posso chamar de credibilidade e por que não dizer fidelidade no meio. Depois de algum tempo, burilando na internet, achei de investigar a plataforma BLOGGER, ofertada pela cadeia Google de ferramentas. Percebi que nesta havia mais instrumentos de editoração e diagramação, além de que as interfaces eram muito mais convidativas que as do UOL. Destarte, abandonei o PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO e criei em 12 de novembro de 2007 meu segundo blog, agora intitulado A AUTO-ESTRADA DO SUL, por influência direta da leitura do livro de contos "Todos os fogos, o fogo", do escritor belga-argentino Julio Cortázar, que andava a realizar naqueles dias. Transferi, ao passar dos dias, todos os textos que havia publicado no PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO para o novíssimo e empolgante – pelo menos para mim - A AUTO-ESTRADA DO SUL e, de modo bastante paciente, fui colocando mais um montante de produções textuais de minha autoria, sempre com a preocupação de devidamente analisar se os mesmos se alocavam bem aos propósitos do blog. Com minha entrada no universo “BLOGSPOT”, percebi que o mergulho constante no blog - um saudável vício, penso - estava despontando em mim como um local de construção de saber e de possibilidades de diálogo acerca das incontáveis formas de conhecimento nunca antes imaginadas, cuja responsabilidade para com o que ali estaria exposto aumentava em progressão geométrica, o que muito me agradava. Alguns meses transcorridos, optei por mudar apenas a titulação do blog, que agora passaria a receber o nome do meu primeiro livro de poemas, publicado no ano de 2006 pela Editora Franciscana, com sede na cidade pernambucana de Petrolina. Era o nascimento do blog CLUBE DE CARTEADO, nomenclatura que permaneceu até bem pouco tempo, mas que por problemas de ordem estrutural tive de deixá-lo para trás. O CLUBE DE CARTEADO foi quem guardou a maior parte dos textos que eu havia escrito ao longo dos anos, desde poemas e contos, passando por crônicas e resenhas de todos os tipos, até projetos de pesquisa mais apurados e artigos científicos, sendo também, tenho quase certeza, o primeiro blog literário a ter (ou a querer ter) a figura de um ombudsman – experiência que infelizmente não vingou. No total, foram exatos 821 textos/postagens publicados em seu espaço, registrando no período de pouco mais de um ano cerca de 100 mil visitas reais e algumas centenas de comentários e participações várias. Depois de visualizado o problema em sua configuração, a construção de um blog totalmente novo foi a alternativa mais viável para dar seguimento a minha relação com esta significante parcela do mundo virtual. Foi aí que O EQUADOR DAS COISAS veio à superfície do ciberespaço. Com ajuda de pessoas mais entendidas neste universo da informática, selecionei um template que trouxesse um pouco da carga dramática que o título requeria, e logo foi feito a transferência de todos os textos que estavam no CLUBE DE CARTEADO para o arquivo do novo blog. O primeiro texto originalmente escrito para O EQUADOR DAS COISAS data de 23 de julho de 2009. Daí por diante, outros inúmeros textos foram publicados até o presente dia – só para constar, já aproximo da considerável marca das duas mil publicações/postagens. Como se números fossem importantes, não é mesmo?! Tantos números assim soam como um discurso contraditório até para mim, que sou daqueles que têm mais medo de um sujeito que escreveu um livro em toda uma vida àquele que escreve meia dúzia de títulos em cinco anos – se formos vasculhar, exemplos não faltam. Recentemente, o EQUADOR DAS COISAS passou por uma reforma, tanto na estética quanto em seu conteúdo. E como você vê, amigo leitor, hoje já está tudo diferente do que era antes. Tudo muda o tempo todo, não? Aí você me pergunta quando vou parar com tudo isso, e eu respondo que nunca. Cada vez que penso em desistir do blog, mais certo fico de que sem esta ferramenta, exemplo de expressão libertária e democrática, mesmo que virtualizada, fica mais pesada e difícil a balada das horas do meu dia. A vocês, leitores e leitoras, meu muito obrigado por ajudar na edificação e na concretagem deste real espaço de troca de experiências e saberes. Vocês são peças fundantes em toda esta ladainha. Recebam um abraço-amigo-imenso deste Germano que vos fala agora, exímio aprendedor de coisas. E para não dizer que não falei das flores, sim... continuemos, bucaneiros! – até porque o mar, o mar!, o mar quase nunca está para peixes...


* Imagem: Acervo pessoal.

sábado, 14 de julho de 2018

Espetáculo Poeta Preto e a humana voz-dor em demasia




Por Germano Xavier


A noite entrava já em sua meia-idade quando aportamos na Rua da Má Fama, reduto artístico-boêmio da cidade de Caruaru, agreste meridional pernambucano. Havia fomes de todas as naturezas – o dia havia sido de correr-idas-vindas. Por isso direcionamos os passos até o bar Carvão, logo ali do outro lado. O poeta dos rebuliços literários caruaruenses Thiago Medeiros fazia o acolhimento das pessoas interessadas em pur'arte... Era noite de sentir, sabíamos. Palavras trocadas, rostos novos e velhos. Joana Dark em surgimentos. O álcool necessário, um carboidrato civil...

Pouco tempo depois, cruzamos a rua novamente. Endereço: Mercearia Ponta de Esquina. Aguardamos os preparativos. Fomos convidados a entrar. Fundos. Todos a postos. Som de terreiro, clima denso, atmosfera de propriedade artística-artesanal. Logo o texto do escritor Vanderson Santos começou a ganhar vida na pele’ncenação do visceral Rosbergg Alexsander, ator-mundo.

O local, intimista e bastante informal, anunciava em suas paredes o verbo onírico-infame da personagem-nascente: o Poeta Preto. A montagem teatral, dirigida por Pedro Henrique e com iluminação executada por Jackson Freire, burila o real esquizofrênico inconsciente-mais-que-consciente do poeta-homem senti-dor de tudo e abarca-dor de todos. O poeta, ali, representa a voz rouca de toda a plateia que, em um silêncio nada mudo, assiste à peça como quem é sufocada por sacos plásticos mortais fabricados por uma sociedade insana e insegura - tanto de si quanto de seu futuro.

De chofre, luzes e sombras nos apresentam o espanto, o insólito, o desconhecido, a sutileza do grito interior, a morte em vida. Em um só nos tornamos, repentinamente. Pressentimos união, junção de forças. Se há esperança? Não sabemos. Cada um que prestigia a agonia do Poeta Preto se familiariza com suas próprias máculas, remorsos, repressões. Ou não ousa se insinuar. Aliás, a revolta é solitária, apesar de comunitária. Nada é forçado, ninguém é impelido. O coração dos homens é frágil aquém e além dos pulsos. Cada um sai do Poeta Preto armado com o sofrimento necessário, com a força da mudança nas mãos.

Nada ali é medo. Tudo é desejo e arte.

O Poeta Preto, esse ser negro-branco tão branco-negro, de tantas faces, vai aos poucos nos consumindo, tal qual um predador impiedoso, boca-voraz, monstro-deus insaciável. Cumpre a trupe Veja Bem Meu Bem o expressar poético da dúvida, o temporal da matéria-corpo encarnado no ator em cena. O experimento é de grossa envergadura e vai se formando em inacabamentos, como tem de ser. O palco acolhe um poeta-nós e seus rudimentos, suas sinceridades. O público vitaliza-se via racionalização-debate dos preconceitos e pelo peso de ser. Ele divaga entre o poético e o terrível, reclamando sua verdade doída e onírico-energética ao mesmo tempo.

Há quem diga que o Poeta Preto é a maquiagem do difuso, o sorriso dos descompassos, a ironia dos desafetos, a fúria do impossível. Há quem possa imaginar que seja até a liberdade totalmente liberta. O homem livre-homem. E há quem nada suporte após. O ser-destempero, coração-pulso, arrebol, olhar de fragilidades incontestes. O espetáculo, de tão natural e promissor, enverga um verbo novo na garganta imunda do mundo: poetapretar. Poetapretar é, pois, o ato ou o efeito de ser quem se é. Um grande dilema contemporâneo, convenhamos.



A peça estará em cartaz no FIG 2018 (Garanhuns-PE).

Um salve ao Letras em Barro (na pessoa de Thiago Medeiros), e ao Teatro Experimental de Arte (TEA).


* Imagem: https://www.feteag.com.br/espetaculos

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Dentro das muitas chuvas amarelas

*

Por Germano Xavier


"Não desejo mais ser feliz,
e sim apenas estar consciente."
(Albert Camus)


Peguei o livro do Walter Moreira Santos -  depois de ter lido O metal de que somos feitos - intitulado de Dentro da chuva amarela e, depois de 2 dias de leitura intercalada aos afazeres diários, cheguei à última página. O relato do escritor pernambucano é um baque nas estruturas ligadas ao cuidado e tratamento da depressão e do pânico no Brasil - e também no mundo. 

Nele, você encontrará:

* Um compêndio de medos, dramas e traumas;
* Um romance autobiográfico;
* Um livro de auto-ajuda;
* Um manual de como botar médicos e psicólogos no bolso;
* Um universo muito universal;
* Um real significado para o termo "depressão";
* Uma narrativa, diria, fundamental para estudiosos e curiosos de diversas áreas;
* Um modo corajoso de dizer as coisas;
* Um silêncio que explodiu;
* Um tipo de chuva muito ácida para quem a toma.


(Semente, 2006)