domingo, 24 de fevereiro de 2019

A grande insurreição armada de soluços



Por Germano Xavier


A chuva resolve cair, logo hoje, sobre os batalhões de mascarados e de foliões que se formam pelas ruas. Avenidas coloridas, a água escorrendo pelos bueiros entupidos. A chuva lava esse mundo tão sem freio. Lave a alma desse povo, chuva! Lave tudo! Leve tudo de ruim pra bem longe! Menos a criança, com o cabelo encharcado, que desvia das fantasias de mãos dadas com o pai. Menos a mãe, exposta aos olhos da filha, que enxerga um pierrot branco se achegar nela e dizer nenhuma-purpurina, nenhuma-lantejoula. É assim no baile municipal, é assim na Confraria da Sucata, é assim no Andaraí, na Vila Matilde, nos blocos do sul e do norte. 

Muitos pedrolinos sem noção, muita palavra feia, muita nenhuma-comédia muito menos arte. Mas vamos todos como não devíamos. Sorrindo à toa, indo ao léu, a esmo ao ermo, aos quatro cantos dos becos, largas tendas de sabores e dissabores. Vamos, como uma grande insurreição armada de soluços. E soluçando, vai o jovem que não se aposentará, soluça a moça que não pode abortar, soluça o mendigo oficial da praça, os pedrolinos sem-respeito algum, os pedrolinos sem-educação, os pedrolinos sem-futuro nem oportunidade, as colombinas sem-direitos e desdentadas, as colombinas sem-atenção, as colombinas sem-quase-tudo nem o mínimo. Ó, Momo, que rei sou eu? Que rei sou eu, que não me canso de me cansar de tanto pandemônio!? Que rei sou eu, que não sei brincar a brincadeira vazia de tantos? Que rei sou eu, que não me engano no meio de tantos panos?

E ronca o batuque, e sangra a voz, e chora o cavaco, e essa renca de gente sem voz, para onde trota? Que arreios invisíveis são esses, meu Deus? Onde Deus agora? Deus está bêbado? Deus é a ampla massa de afônicos, deslumbrada, rica em alegria vaga? E nossos rebentos? E nossa soberania? E aquilo tudo que nos prometeram na última eleição? A carestia dessa vida, Momo! Quem é você, é você o dono de toda essa armação?!

É show. O batuque é uniforme. Assim como o aperto, os embaraços, os choques, os voleios de corpo, as apreensões. Vede que mulher linda, de seios quase nus! Vede que homenzarrão! A vida é isso, pedrolino, amigo meu? A vida é quando? Somente, e quem é quem? E quem vem? E quem virá para nos salvar no fim da linha ou no fio da navalha? É um Cristo negro, o que vem? O branco não deu jeito. Quem tá sem jeito aí, levanta a mão! É pra pular! É pra gritar! 

Suadeira e muita cerveja. Sexo por detrás do banheiro químico. Que química! Que sol! Xô, chuva! Pra bem longe de nós todos. Já chega de tanto eu me afogar em meu paletó... em nosso avental diário, em nosso macacão de firma! É a festa da carne! Tanta carne, e essas novinhas! E esse país tão bonito em impunidades. Que país lindo! É carnaval, pedrolino, amigo meu! É isso aí, o ano só está começando! Desgraças mais estão por vir. Mas o filho que eles fizeram e não vão criar juntos nascerá no fim do ano.

Fim do ano tem mais festa. Antes, ainda mais festa. Farra com o dinheiro público, vadiagens com a coisa nossa. Arlequins mais espertos que nós, pedrolinos, irão contratar mais bandas e mais praças serão enfeitadas. Bandeirolas, fitas, roupas e sapatos. Tudo brilhando e cheirando a novo. Ensaiaremos cordões, unidos, na mesma castidade de vozes, na mesma rouquidão. Vozes virgens. Gargantas imaturas. Cérebros castigados. É o coreto! A filarmônica das preces sem milagres. Ronca tudo, Momo! Bota pra ferver! Ronca o estômago com fome, ronca a dor do desespero. E haja fogos! Lançaram a nova marchinha. Estão nos empurrando, pedrolino, amigo meu. Poderemos cair. Tem nada não, não é água da chuva? É não, pedrolino. Já é lama.


* Imagem: https://www.deviantart.com/idilynn/art/Carnaval-Venitien-Annecy-2011-210545785

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte I)




Por Germano Xavier


reza a lenda que bandeirantes,
atravessados pelo desconhecido, aqui vieram
e de Falsas Minas aqui chamaram.

Itá Berá | pedra brilhante |,
casa do amor entre Ikan, o Gigante, 
e Muhatu, a Pequena.



Orobó guardada no silêncio das vontades,
cidade mística do Amor Maior.

Ikan em fuga, dependurado na lama das alienações.
Muhatu, mulher de uma longa espera.

Rios em divisa, pedras e perdas em repenso vital.
Candombás em flor, o fértil solo de Sincorá.

Muhatu é a mulher mais macia, mais forte, mais quente.
O mundo é uma impensável penetração.

O vazio das absurdas distâncias, seus vencimentos.
A certeza na nudez cálida de todas as peças do corpo.

Golpe seco.

Ikan, entre o Verbo Ancestral e o Espaço da Vida, arde.
Ikan, consciente dos assanhos.
Ikan, dizimado pelos silêncios mortos do passado.
Ikan, membro úmido deslizante.

Muhatu, pois, chão da morte mais bela.
Muhatu, esparramada na fome.
Muhatu, pintura de refundar instantes.


* Imagem: https://www.deviantart.com/silecia/art/Del-sexo-y-othros-demonios-II-139727187

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A linguagem enquanto atividade constitutiva



Por Germano Xavier


Sobre a natureza e as funções da linguagem são variadas e múltiplas as inferências e as interpretações produzidas ao longo do tempo. Aos bandos são também os (re)surgimentos de teóricos e teorias que tentam classificar e burilar este universo tão vasto do estudo linguístico. Carlos Franchi foi mais um exemplo deste embate tão frutífero quanto melidroso que é o estudo da linguagem humana. Para ele, a língua é uma atividade constitutiva cujo problema básico é o da significação, e não o da comunicação. 

A significação, para Franchi, não está somente na ordem das relações sintático-morfológicas, mas no anteparo de atos intencionais que motivam interlocutores, atos comunicativos e formas de expressão. Todos estes elementos, juntos, ajudariam a situar a linguagem como uma ferramenta de construção do pensamento, da identidade e da realidade. Para Franchi, crer que a linguagem seja somente reflexo do real é uma falha no mínimo grotesca. Antes, faz-se preciso norteá-la como um ativo construtor de referencial para as ações humanas. É a partir dela que universos inteiros de significados são fomentados. 

Sua função constitutiva, assim posto, daria à linguagem uma historicidade, já que não serviria apenas para reproduzir a natureza das coisas. Por tomar a linguagem como um cosmos recheado de complexidades, a visão constitutiva de Franchi atrela a ela uma dada reflexão filosófica, bem como uma investigação experimental e uma elaboração teórica. Os sentidos e os significados dos discursos, destarte, ganham mais importância que os objetos linguísticos propriamente ditos.

A crítica à concepção institucional da língua produzida por Saussure é apenas umas das pontas do iceberg instalado pelo pensamento de Franchi, que, também, ao passear pelas ideia de Searle, Grice, Halliday, Buhler, Chomsky, entre tantos outros, também espeta a ferida do estruturalismo americano sem ressentimentos, realizando assim um esforço visível para articular diferentes concepções funcionalistas da linguagem, jamais ignorando-as. Portanto, fica mais que evidente que para Franchi é dos modi significandi (modos possíveis de significação) que podem surgir o real entendimento das funções da línguagem. Assim, mais fácil se torna a percepção de que a linguagem é comunicação, sim, mas não somente. Ela está também a serviço da dialética e das intervenções homem-mundo-homem.

A linguagem, segundo Carlos Franchi, está para construir, está para expressar, para comunicar e para significar, especialmente. Sendo cíclica e transitória a linguagem, tais fenômenos variantes a ela ligados podem não seguir ordenamento plausível e sofrer mutações e intermitências. Todavia, enquanto atividade essencialmente criadora, a linguagem sempre operará em alta no cotidiano das civilizações e no fazer-ser da humanidade. O exercício da linguagem, afinal, é o de sempre ser provisória, espontânea, iconoclasta e transformadora. 


* Imagem: http://materiais.parabolaeditorial.com.br/linguagem-atividade

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O moderno Jorge de Lima



Por Germano Xavier



Todas as vezes em que passei pela frente da cidade alagoana de União dos Palmares, duas imagens me foram sempre recordadas. A primeira é a do líder negro Zumbi dos Palmares, refletida na vista que temos da Serra da Barriga assim que logo apontamos nas redondezas da localidade. A segunda, sem dúvidas, é a do poeta Jorge de Lima, que ali nasceu e que, mesmo passando pouco tempo (cerca de seus 7 primeiros anos de vida), carregou União dos Palmares ao longo de toda a sua obra poética. No livro POEMAS (Record, 2004), observamos um poeta muitíssimo interessado em desvendar as coisas de sua aldeia (União e o nordeste em si) para também ser desvendado, elucidado enquanto ser humano. Claro, deixando intacto aquele fio de mistério que nos cobre desde o nascimento até a nossa morte. O conjunto de poemas revela o menino que se abriu à poesia do mundo e o mundo atravessado pelos olhos do poeta visto desde o Rio Mundaú até Terra-Lavada, passando pela Serra dos Macacos e, também, pelos territórios marcados em suas novas feições mundanas ganhadas no tempo das descobertas juvenis. Poeta que atirou no peito do Parnasianismo, ceifando sua vida já por demais avançada em nossos brasis, e que revigorou o Modernismo Brasileiro, Jorge de Lima ainda é um tanto quanto desconhecido da massa leitora neste nosso já entrado século XXI. O que é uma pena, diga-se de passagem. Para este ano de 2019, é bem já de planejado uma minha ida (agora para me enveredar) até as plagas nascentes deste que é um dos nossos maiores nomes na literatura. Jorge de Lima, salve!


* Imagem: Google

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte II)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Rilke, desequilíbrio, autossabotagem e reconhecimento


Há um vício constante no mundo moderno: o de se autossabotar – termo usado para definir a criação de obstáculos os mais diversos, e que, tendo como alvos o consciente e/ou o inconsciente, busca atrapalhar a realização dos nossos maiores sonhos, de nossas metas e objetivos. Desejos estes que, por motivos vários, as pessoas sentem ou têm insegurança em vivê-los. A procrastinação é um dos piores comportamentos de autossabotagem. Transferir um projeto para um futuro próximo, sem qualquer data definida, é quase sempre o resultado de não se efetivar nada.

Não é sempre que a consciência está crente do nosso comportamento autossabotador, das nossas atitudes, tampouco de nossas frustações. Faz-se necessário ou se requer reconhecimento, de moldagem múltipla, para que seja perceptível o nosso desenvolvimento pessoal e humano. Configura-se, portanto, tal qual uma batalha constante, diária, recorrente, combatida por meio de uma enorme coragem, um enorme condicionamento mental e, sobretudo, humildade para se reconhecer as falhas.

Todos estão aptos a se declararem incapazes. É comum. Infelizmente esta decisão é exigida pelo nosso ambiente social, já que todo indivíduo é testado e cobrado excessivamente, e tão logo acaba decidindo não tentar para assim evitar frustações de um possível fracasso. Com isso, tal prática torna-se um vício, com vários dilemas em mente, do tipo “eu não posso”, “eu não consigo” ou “amanhã eu tento”.

O poeta alemão Rainer Maria Rilke, quando respondeu a Franz Xaver Kappus (as 10 cartas de Rilke ao jovem podem ser lidas no clássico Cartas a um jovem poeta), não viu nas cartas enviadas a ele os porquês literários de um aspirante a poeta/escritor, mas percebeu que, antes de mais nada, seria necessário erguer a alma daquele jovem para que ele se sentisse forte e apto o suficiente para ir adiante em seus sonhos. Fugindo aos questionamentos quase óbvios do garoto, Rilke se desvia da mera crítica e acaba fomentando um pequeno postulado sobre a vida, sobre a coragem, sobre o autoconhecimento e, por conseguinte, um curto tratado contra todas as formas de autossabotagem.

Vale enfatizar que cada um tem o seu devido valor e, assim sendo, pode acrescentar muito para si e também para os outros. Nossas diferenças são nossas riquezas. Cada ser humano pode ser totalmente suficiente para si mesmo. No entanto, leitura e/ou escuta de apenas uma frase de autoajuda não basta. E não é besteira não admitir o quão difícil é, sentir-se inábil e querer se isolar. Com ajuda e acolhimento é possível superar. Acredite.


* Imagem: https://www.deviantart.com/carmineflame/art/Portrait-288558015

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pró Irlan



Por Germano Xavier



Poeminha escrito especialmente para que os pequeninos da Professora Iudes Ferreira recitassem 
em homenagem à minha mãe, Irlan Xavier.

Evento realizado pelo Colégio Francisco de Assis (Iraquara-BA/2018).



Pró Irlan, mulher destemida,
Fez da educação a sua vida.

Casada com Carlos, mãe de Gustavo e Germano,
Uma grande mulher, um belo ser humano.

Com muito empenho e suor,
Cuidou do outro e mostrou seu valor.

Pró Irlan, professora de uma geração,
Com graça e doçura entregou seu coração.

Do José de Arimatéia ao Francisco de Assis,
Seu caminho foi ensinar o bem ao aprendiz.

Eu, tu, ele, ela, nós, todo mundo não lhe esquece.
Pró Irlan, Iraquara inteira hoje lhe agradece!

São muitos anos alimentando sonhos com amor,
Peço a todos uma salva de palmas para ela, por favor!


* Imagens: Colégio Francisco de Assis

domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte I)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Saramago, loucura e lucidez



Desde os primórdios da civilização que o povo vive em constante e, até, em desenfreada deliberação. Mutação. Porque somos assim. Porque somos isso, simplesmente. Uma espécie animal resolvida em transformações, sejam elas fisiológicas, psíquicas ou atitudinais. Cada indivíduo infere, deduz, reflete, analisa e elabora uma forma de mundo diferente, à qual sempre incidirá um tipo de dependência frente ao momento, à situação, aos privilégios e ao lugar que o indivíduo vive.

Com o decorrer do tempo e, também, diante de seu natural transcorrer, o olhar da população diante do que a cerca pode sofrer fortes mudanças de trajetória, já que reflete nos acontecimentos vivenciados durante o decurso da vida e de sentimentos porventura surgidos em meio à jornada a qual estamos dispostos a percorrer. José Saramago, por exemplo, grande referência literária em Língua Portuguesa e antena sensitiva do mundo, afirmou que estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A sensação é a de que a única coisa que importa é o triunfo do agora. A isto, Saramago chama de “A cegueira da razão”.

Muitas pessoas têm a oportunidade de sonhar, planejar e consumar seus grandes objetivos, realizar metas, reformar e refundar desejos. Outros não têm tempo para seus sonhos, tampouco oportunidades para encará-los de frente, e nesta balada desanimadora logo acabam se tornando parasitas do hábito, numa simbiose por vezes quase incurável; muitos terminam por viver sem questionar o futuro, mais precisamente sobre os seus estilos ideais de vida e as suas preferências por determinadas áreas de trabalho. Tudo acontece numa implacável mecânica, tal qual uma corrente a qual se está preso e que leva boa parte dos cidadãos para uma dimensão escura e de inoperância, onde reina o acaso e a sorte. Há muita dúvida e incerteza para com todos aqueles que almejam por um espaço próprio de identificação no mundo. Como também há pouca esperança diante daqueles que estão longe de alcançar uma felicidade maior e segura.

Entretanto, quando ainda se é criança, é relativamente comum se ensinar a ser e viver de acordo com a sua respectiva realidade. Seria este um dos motivos da crise humanitária na atual sociedade? Uma criança da periferia não pode ter o mesmo acesso às melhores escolas e universidades que uma da zona sul? É obrigação do Estado exercer o seu papel sobre a Nação, bem como, também, é papel das pessoas burlar todos os padrões impostos pela sociedade, quando tais padrões não atendem aos seus desejos mais íntimos e férteis. Mudar o pensamento e a forma de existir quando necessário fosse deveria ser regra. Com estas mudanças, o indivíduo que via um muro em sua frente pode muito bem começar a repensar e criar suas metas para a vida.

Com a luta e a união de todos, qualquer forma de desilusão tende a desaparecer do mapa, e o ato de querer mudança por todos aqueles que não têm voz também passa a ser mais presente na alma do povo. Esta revolução, tão fundamental, ocorre simplesmente com um reflexo diante de um espelho, um instante de força maior, e em seguida abre uma janela de reflexão que revela que a existência humana não é unicamente posta à prática no intuito do bem individual, mas, acima de tudo, para um bem maior e múltiplo, para a inclusão de todas as classes excluídas.

Evidente que se torna indispensável o desenvolvimento da autoconsciência, do que podemos e do que não precisamos fazer. E saber que a aparência é um aspecto meramente referendado em padronizações. E saber que muito do que ensinaram ou ensinam, na realidade, é o oposto do que toda pessoa é capaz de conseguir. Saber, principalmente, que hierarquia dos povos existe sim (o Tempo soldou-a em vis moldes), mas que a educação também existe para que ela seja quebrada, desvelada, reformulada, reorientada. Para um bem maior e múltiplo, sempre.


* Imagem: https://www.deviantart.com/vermontster/art/Hand-500722555

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ars Poetica em linguagem mista



Por Germano Xavier



Eu me pego a pensar, meio que jubiloso, desde o momento que o li pela primeira vez, em como se deu todo o processo — ou apenas os seus meandros, os mais melindrosos, que sejam! — de confecção do livro Contexturas – Quadros de Armanda Alves “ilustrados” pelos contos de Luísa Fresta, lançado em Portugal no dia 13 de maio de 2017 e fruto de uma experiência arrojada de duas artistas (Armanda na pintura e Luísa na literatura).

Antes de ler o prefácio e o texto de apresentação, como costumo fazer com toda e qualquer leitura de âmbito literário, imaginei uma história de amizade muito forte e bonita entre as duas, com passagens de apego maior e de fortalezas mútuas. Confesso que quase logrei 100 % de êxito ao pensar assim. Em conversa rápida com Luísa Fresta, “ilustradora” responsável por “contar” os quadros da Armanda no respectivo livro, a autora terminou por me revelar, resumidamente: “Decidi extrair histórias de alguns dos quadros dela (Armanda), que selecionei previamente”.

Armanda Alves é uma artista luso-angolana que adotou Portugal como morada há bastante tempo. No começo, tinha a pintura como uma espécie de passatempo, produzindo peças primeiramente para o seu deleite pessoal. Como autodidata que é na arte da pintura, vive por maquinar diariamente novas técnicas e soluções para os seus quadros, entre as quais a mera aplicação dos dedos para a realização das telas, dispensando terminantemente qualquer espécie de pincel. Já a engenheira civil formada na França, Luísa Fresta, nasceu em Portugal, porém viveu boa parte da infância e da adolescência em Angola. No ano de 2014 publicou a obra 49 Passos - Entre os Limites e o Infinito (poesia), pela Chiado Editora.

O livro é um pequeno tratado de “Ars Poetica”, ao melhor e mais útil parafraseio-molde horaciano. Uma aguda dose de poesia e magia por todos os lados e por todas as páginas e por todas as imagens. Sendo ele uma fabricação de base retórica ficcional, a junção tela-texto convence-nos a partilhar uma dada visão de mundo dual/duplicada, de “realidade” amplificada, que pode a qualquer momento ser desviada para outros espaços interpretativos, afinal de contas se trata de duas linguagens artísticas bastante diferentes. Uma revelando a outra, nas 20 unidades de imagem-conto, num intenso e eterno entrelaçar-se.


* Imagem: https://artesecontextos.com/2017/05/contexturas-luisa-fresta-armanda-alves/

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Psicotrópico, de Mateus Dourado




Mateus Dourado é um dos caras mais inteligentes com quem já tive a oportunidade de estar/conhecer em vida. Hoje é professor no município de Irecê-BA, onde morei durante três anos com meu irmão mais velho e duas primas na época do Ensino Médio. Natural desta cidade, que já foi conhecida como “A capital do Feijão”, devido ao seu forte pendor agrícola, é formado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor do e-book “Palavrar” (2014). Penso que, para Mateus, um livro de poemas tem de benzer o gesto pagão, beber a escória das verdades, vomitar purezas. Mateus Dourado, em seu compêndio digital PSICOTRÓPICO, ensina a ser impuro. Impuro, de tão cru e desnudo. Um poeta feliz em se lançar perante o mundo, diante do outro. Sem medo, sem frescura, um poeta com seus quimbas escancarados ao vento, destemida voz em amplidão. Para Mateus, um livro de poemas deve cheirar ao gosto das roceiras infâncias, ao grude dos espermas adormecidos, despejados como tiros de misericórdia nas paredes dos banheiros de solidão. A voz de Mateus Dourado é uma inteira filosofia própria. Discípulo dele mesmo e de tantos outros grandes nomes das artes, músicos, literatos, pintores e teóricos. O livro é divido em setores, com assim resolvo chamar: NO TEMPO QUE ERA SEU & OUTROS VENTRES, MARMÓREO e O OVO DO NOVO. Cada parte é uma pancada de sinceridades. Poemas escritos para serem musicados ou pintados por chicos, linikers, picassos, jimmy pages, magrittes, zecas baleiros, van goghs. Um livro de poemas deve viver. E este vive. E como vive!

Obrigado por me permitir prefaciar teu livro, mestre Mateus. 
Honra. 

Sigamos!


* Imagem:https://twitter.com/mbdourado

Bolsonaro não é preciso



Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
outro parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil



lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso 


* Imagem: http://centrovictormeyer.org.br/voto-critico-voto-nulo/

sábado, 20 de outubro de 2018

Roupa de menina



Por Germano Xavier


para Rainer Maria Rilke, in memoriam



ingressa teu corpo
| mínimo |
nesta fábula pequeno-burguesa

e compensa a morte
vestido de vida.


* Imagem: https://www.lpm-blog.com.br/?p=22966

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

São centauros meus cavalos (Parte I)



Por Germano Xavier



Gritei, com a voz fincada para dentro, em direção ao nada. O percurso palmilhado, aberto em fendas, a estrada, a solidão. Os dias passados para o homem. As noites passadas para mim. Esvaíram-se todos e tudo, absolutamente. Nenhuma contensão perante o tempo. Tudo sublimando, sumindo, indo. Quase tudo disse adeus, acontecendo, sendo. Todo o solo se diluiu em desassossegos. Um rumor de fantasia, talvez. E este homem sou eu, apenas humano, e como é impróprio esparramar-me no terreno do tempo e começar pelos detalhes mais escabrosos da memória! Na verdade, o dia é uma lástima neste aurorar de ano. A noite, idem. Toda noite é todo dia. Eu começo nesta exata hora e não sei o que isso representa em diferenças nem em semelhanças. Somente um bando de estorninhos acuados e velozes e em fuga, caçados, aparenta-se localizável através das janelas que são os olhos do homem, do homem que sou. Os pássaros me camuflam e o resto é angústia, calamidade para dentro e para fora - para fora e para dentro de mim. Sofro feito um animal caído - desinteligente? -, declarado morto por ter meramente levantado os dedos em riste e cerrado os punhos e querido se ser em completudes, em totalidades, ainda que tomado pela inicial vontade dos caminhos. Suspeitava que fosse um homem como qualquer outro homem do mundo, mas eu não aceitava fácil. Minha condição exigia uma determinada carga de negação. Causo contado sem nenhuma exclusividade, pouco inverossímil, pouco o bastante para ser somente real. Basicamente a tímida e nefanda história de uma paciente por demais corruptível: a história da soberania do ser. Um errante, perdido em si mesmo, marcado por suspeitas e conjurações que, por vezes, nem chegaram a existir. Aquele grito ouvido naquela noite de Natal soaria mais reacionário caso não tivesse sido eu mesmo o seu produtor, se não tivesse sido eu o próprio atormentado, se não fosse eu o meu particular abisso. Eu que nunca soube quem realmente fui diante do passado, se cresci, se amei alguém, se já odiei, se tive inimigos, se conquistei posses, se serei ou se sou. Toda a negatividade das ações, gestos de um mármore gélido, inacabado, de cor furtiva, companheiro de uma densa vida de aprovações e provações que eu mesmo não sei quando começou. Tudo estava dentro daquele barulho. E quando se está diante de uma estrada que você jamais ousou percorrer, o delírio tende a ser o único combustível, refleti, tentando suavizar-me momentaneamente, esperando que a reflexão e o silêncio viessem a disfarçar a real potência daquela hora. Foi pensando assim que, naquela noite de dezembro, aquele homem, aquele homem que sou eu, conheceu a conta dos fracos.


* Imagem: Amor de centauros (1635), de Rubens (Exposto na Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa/Portugal)

São centauros meus cavalos (Parte II)



Por Germano Xavier



Havia quatro tonalidades de azul no céu da cidade, mas eram azulidões frágeis propensas à volatilidade das ordens do mundo. Certamente se esgotariam e deixariam de ser azuis no absoluto negrume da noite. Talvez tudo entrasse em ruínas numa determinada fase do dia. Nada de tão especial se não fosse, aquele, o céu da cidade de um homem possuidor de uma vida. Cidades foram feitas para matar os homens, pensei, com uma branca impressão de que algum escritor teria imortalizado a frase que eu tinha acabado de construir. Talvez um poeta, daqueles tristes, malditos... hei de me lembrar um dia. Na verdade, aquela cidade não era a minha de origem. Por dentro, sabia que nenhum homem pode possuir a sua cidade. Cidades são como mães, que nos parem e que são desgraçadamente abandonadas pelos filhos, muitas vezes antes de se tornarem adultos. Afonso sentiu que estava em falta. É quase um costume saber-se rendido a todas estas manhãs e tardes ordinárias, a todas estas ocasiões especulativas, a todos estes comentários cegos. Decerto, ele estava em falta. Sim, em espera eterna, mutilado, de músculos quase flácidos, rosto ardido numa palidez indecisa, caído numa cama gritantemente nojenta de um pernoite barato ali no centro, virando sofregamente as páginas de um livro do Puig. Depois de alguns cochilos, signo das horas escuras, resolvi fazer um último ajuste no despertador. De chofre, a figura de Helia sobrevoou meus pensamentos. Dera-me o aparelhinho barulhento no mesmo dia em que falei a ela sobre a minha decisão, neste comenos já totalmente concretizada. Ele iria partir, mais cedo ou mais tarde, mas ele iria partir. A imagem daquela mulher ainda era muito viva em sua memória, mesmo depois de tantos meses separados. Talvez abraçasse os dias com a ternura do seu colo ou tivesse o busto da Nefertite ou fosse ela a entidade própria. Um abuso de efeitos femininos, com raízes de mulher que cortavam os solos mais impenetráveis. Helia gerava vãos enormes que lhe serviam de abrigo aos seus mais escuros vazios. Tinha ela lhe cortado com a faca que havia naqueles seus olhos, tinha ela ferido o homem com as armas do desconhecido que carregamos dentro de nossas carnes. Ele a habitava, peremptoriamente, dia ante dia, resoluto, em permanente frenesi e enlevo. Aqueles lábios rubros e candentes, como tremelicariam diante do susto noticioso! Não importa o que você esteja fazendo ou para onde você esteja indo, eu quero a sua felicidade, eu quero o seu bem! Você é um desgraçado, você me desgraçou, mas eu me preocupo com a sua vida! Saiba que sentirei a sua falta, como jamais me acontecera. Um pássaro, agora, sem asas, um pássaro de longos cabelos maviosos, de uma mistura de cores fortes, balouçantes, um pássaro de mãos melindrosas, extremamente macias, finas e de uma alvura definida, um pássaro de sonhos esgotados? Seria essa a Helia de agora?, já interrompida pela possibilidade de perder-me de vista?, pensou Afonso, num ataque cambaleante que misturava ódio e resignação. Ah, eu não seria tão fundamental assim, sussurrei. Eu não seria tão fundamental assim!, repetiu o homem, exclamando em bons decibéis para o lusco-fusco que dominava aquele aposento sinistro. O despertador marcava uma hora da madrugada e tudo era apenas lembrança, um passado que ele já queria esquecer.


* Imagem: https://www.deviantart.com/ar-ka/art/In-between-lines-143132646

São centauros meus cavalos (Parte III)



Por Germano Xavier



Helia quis falar de amor quando, do quintal da casa, atirou em minha direção o que sobrou de uma velha antena parabólica. Já estava melhor, agora desbravando o local onde eu estava. Falar de amor, para ela, era falar de tudo o tanto e mais, feição das horas. O que acabava tinha de ser amor, mas poderia ser chamado de avental, ou de cabide. Talvez o nome de um país. Inglaterra, quiçá! Helia era amante, e falava sempre no total das vestes do sentimento. A parabólica não passava de um mito. A captação dos sinais era feita por um receptor interno potentíssimo. As mensagens tanto chegavam como se despediam. A calha era sempre nova. Helia quis falar de amor até na vez em que fez dos longos canudinhos de alumínio da antena parabólica a letal arma contra a estupidez. Ela seria assim, brinquedo de se quebrar. A maquininha da boneca de plástico, o motorzinho de dentro a pulsar o sangue que havia. O coração de Helia batia no giro da pá do cata-vento. Batia girando, girava de teteia. Era sempre uma carinha de alegre o semblante daquela mulher. Ela amava, assim, como o vento ama a caminhada longa e sem barreiras. Amava sem pressa, sem cor o amor de Helia, sem cera, sincera. Amar era a palavra de Helia. Amar era o verbo de Helia. Amar fazia de Helia a mulher mais bela, porque era ela o amor. O amor era Helia, era sua palavra e o seu verbo, seu verbo materializado, vivo no papel, esperando longe a ânsia de ser. Foi Helia quem descobriu que para amar basta dobrar o fio da tomada e amarrar com o aramezinho o saco de pão, que o amor é volátil como o álcool que ela trouxe do supermercado para ajudar na feitura das unhas, que para amar é preciso desligar a televisão e deixar a caixinha de fósforo do lado esquerdo do fogão, para acender na véspera do vendaval. Helia amava abrindo potes e lavando os pratos, em exercício de cozinha. O tempero do amor era o caldo do feijão verde, com cebolas tostadas, alho e um pouco de sal. O amor corado, borbulhando a incerteza das horas e o próprio estado de efemeridade que é amar... Helia pegava as facas e ia cortando as carnes, esquartejando-as. O osso ficava para os cachorros que porventura... Todo o resto não combina com o amor. Amar é cortar, lâmina afiada de aparar fagulhas. Depois, Helia era máquina de moer, pois amar é moer, é pisar na carne, amassá-la, apertá-la, comê-la. Porque Helia era mulher de pular do telhado, sem medo de cair de rosto no chão e sangrar o sangue das enfermarias... Era uma boa desgraça ela, se assim eu pudesse afirmar. Suas asas, podadas, e o seu resto?, que fosse angústia aquele findar de vivências, mesmo assim, aturdido o relacionar-se, ele alquebrado, fragmentado, em pedaços, em miúdos. Mesmo assim. Estas coisas, estes fantasmas! Era o fim. Helia não era nada daquilo. Não há o que fazer, Helia. Ele rememorava. A casa no centro, o ar abafado do quarto, a lembrança ainda viva de que era ali, naquele cômodo, janela cerrada numa eternidade de medos, o local de nidificar, em excessos, demasiados amores. A casa com dois quartos, parte da parede em verde fraco, a janela para a noite escancarada quase sempre, aquela imensidão de sentimentos, de angústias e de dores. A lembrança dirigida à casa que havia sido o galpão de toda aquela fervura de corpos, o estábulo para tantos óleos humanos brotados da pele como uma erva que nasce, desenfreada, e interfere nas sequências horárias de um tempo muito maior. A lembrança de pé, saltitando sobre a testa. A memória de Helia, Mnemosyne, como diriam os gregos, mãe das musas. Fora ela, Helia, o despertar para algo que lhe traria dor, sinônimo para um caos fabricado, o passado penetrante a ferir esperanças. Não há o que fazer!, exclamei em urros. A coitada, olhando-se no espelho ínfimo do porta-batom de branco couro sintético, pensava sozinha. Primeiro que eu não existo com você. Existir sempre me foi um troço difícil. Não quero me complicar. Ainda mais nestes tempos tão civilizatórios, civilizantes. Dividem tudo, julgam tudo, mataram Deus, nem podemos mais transcender, nós não somos nada. O dia hoje está tão bonito, sei lá, deixa. Acordei cedo e me deu uma vontade de andar por um bosque que nem sei. Pus um livro na mochila. Vou ler quando chegar em algum lugar mais calmo. Minha tristeza viajou para longe. Foi tratar de negócios importantes, talvez. Morar longe dos centros de nós mesmos, talvez aí esteja o segredo para fugir do sofrimento. Dizem que é lá no bosque bonito que também fica o inferno. O inferno nos olha todo o dia, fica na espreita. Ele é terno - e tisne não? – e nos acompanha. Hoje eu optei por conhecer o inferno, não outra coisa. Quero-o porque ele me quer. Venha de onde vier, com a máscara que preferir, mas tem de ser ele. Quero ser derrubado. É a minha doença e talvez o meu último dia aqui neste lugar. O mundo é o meu lugar. Ou não é. Sou um terminal. Tenho a doença do meu pai e a doença do meu irmão e a doença do meu tio e a doença do chofer e a doença da ama e a da prisioneira e a doença da minha mãe... Eu tenciono algo e me acho responsável. Segura esta qualquer arma com o punho forte de você fêmea e me atire uma morte rápida se preferir. Que me paralise e me invalide, que me perturbe as vistas, ou que me torne nervoso e histérico, depressivo e suicida. Meu caso está registrado no amanhã e no hoje que é o agora. Vou me submeter ao tratamento dos desregrados. Por vida, sempre sofri e não estou aguentando mais. Você, que pode até sorrir um dia, irá relatar meus traumas e vai ver como sua infância foi tão nobre e silenciosa. A cura está no bosque e o bosque é sombrio. Lá, coisas desaparecem, homens se perdem, gritos são ouvidos, lamentos e lamúrias se expandem pelo ar. E quando eu cair por terra quem vai me amparar? Sou romântico e vou morrer. Sinto que posso levar algo, penso. Poderei levar a verdade? O que realmente importa daqui? Há alguma coisa que realmente sirva, que sentirei falta quando estiver morto? O teu sorriso? E o amor? Ninguém precisa do amor? Talvez já seja noite e eu estou te falando, falando, estou apenas falando, estamos sós, com quem estou falando? Quem é este que me cerca agora? Quem é este ser que me atormenta na quase-morte? Chega de saudade, chega de pouca ciência, chega de pouca miséria. Eu espero pela desgraça plena. Apague o café, seu fogo. Feche a torneira. Encoste sua cabeça aqui. Saia daí e venha. Vem, meu bem, e me diz obrigado. Que o inferno é tão lindo, lá vou ler um poema. Você vai ficar e vou te bater na cabeça. Vou beber teu sangue, vou matar teu filho que ainda não nasceu, serei tua e você poderá voltar. Repousa aqui, estira estas pernas e vem, amor, vem que é hora, não se iluda mais, o céu só é um novo assassino. Faremos alguma pornografia, celebraremos o nojo, como quiseres, mas venha. Um banho nessa vida de festim! Corre para cá, encontro-te, e me traz, por favor, o teu medo do demônio. Helia dizendo, quase vomitando. O quarto se transformara em uma ilha, incrustada na memória ancestral dos dois, escrita nos recônditos logradouros da consciência. Um mero quarto no centro da cidade, avenida Menezes Coimbra, 312. Um quarto peninsular, ligado ao humano apenas pelo fio da incerteza e do mistério. Tola, Helia! Tola!, insisti abertamente a me autoflagelar em constantes ataques verborrágicos que, no fundo, de nada adiantavam. Deixou cair a mão esquerda na altura de um dos bolsos frontais da calça jeans, puxou um cigarro. A chama curta do isqueiro, logo a baforada inaugural perfumaria os arredores. Helia pensava, não pode ser, todo esse tempo de entrega, de devoção, de uma quase submissão total àquele canalha, e agora... E agora o sumiço, a repentina saída, estratégica?, do homem que por ela fora amado sem economias. Não suspeitava que a dor estivesse tão próxima do gozo. Não era cabível ter de conviver com a ausência, com o vago, justo ela, Helia, vinte e sete anos de espera, mulher pronta, sonhos maternais, já experiente na arte da bordadura, dois ou três conjuntos de peças infantis na estante, esperando, pois tinha de ser dele, possuir o rosto dele, a carne grossa dos lábios dele, que tanto sugou seu néctar amante. Já ele conduzia-se ao desconcerto, ajeitando sua envergadura de anjo - ou de demônio? -, para tentar voos mais distantes. Rumava para a mesma Auto-Estrada do Sul do conto de Cortázar. Ou não. Era uma tentativa, sim, e ele devia ser o camponês do Ariane, especulando sigilosamente sobre o simplório mistério de saber para onde estaria se dirigindo, flutuando deliberadamente por sobre seus delírios, solto e preso, em sandices. Minha Alétheia!, exclamava. Sua verdade, seu destino. Tão quisto era assim como o esquecimento mais puro.


* Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/Waiting-140246784

São centauros meus cavalos (Parte IV)



Por Germano Xavier



Ouvi dizer que ela estava sentindo uma angústia, uma dor muito profunda. Eu não sabia que as pessoas sentiam dor. Imaginei ser o único. Ela resolveu telefonar para mim. Uma conversa rápida, cinco minutos ininterruptos. Cinco minutos dum aconchego em minha alma. Desejou me ver. Pediu. Veio, de ônibus. Eu ainda estava por perto. Não havia sido a despedida, aquela. Sempre quis demonstrar independência. Na verdade, nunca conseguiu fugir da saia da mãe. Uma burguesa. Certamente. Eu era diferente. Havia algo de diferente em mim. Não olhou para o meu rosto. Silenciosamente, oito ou nove passos, a geladeira. Bebeu água. Sentou-se. Abriu a pequena bolsa de couro sintético e retirou de dentro uma cartela de comprimidos. Não eram comprimidos, eram cápsulas. Estava com febre, uma moleza no corpo a dominava. Eu devia ser muito diferente. Colocou o remédio na boca, bebeu um gole d'água. Baixou a cabeça. Todos estão de mau humor, pensei, até os ratos. Eu havia alugado um quartinho no meio da cidade que logo iria ser deixada para trás. O carteiro passou e deixou duas correspondências junto à porta que dá acesso ao mundo. Eram dois envelopes brancos de tamanhos diferentes. Apenas observei os remetentes, assim como os endereços deles. Achei melhor não abri-los, apesar de saber que fazer isso não implicaria em absolutamente nada. Os antigos moradores da casa onde vivi meus últimos dias atualmente não passavam de fantasmas. Assim eu imaginava. Com o passar do tempo foram chegando mais correspondências. Eram muitas, de variados tamanhos e cores. A maioria com logomarcas impressas de empresas e bancos. Fui obrigado a reservar uma parte do velho guarda-roupa para organizar as missivas. Eram muitas. Onze dias se passaram e nada dos proprietários da casa. Ficaram de vir pegar o adiantamento pelos dias que eu ficaria lá, mas. Só consegui ouvir a voz de uma mulher que naquele dia havia combinado comigo que iria deixar as chaves com a vizinha, e que eu não me preocupasse. Cada vez mais curioso, eu relutava para não cair na tentação de dar uma espiada. Foi que não suportei e decidi abrir uma. A primeira de todas que eu havia guardado. Era um envelope branco com as bordas coloridas. Rasguei o papel silenciosamente. Helia estava ao meu lado, pálida de febre. O barulho do crepitar do papel poderia assustar os fantasmas. Retirei a folha de dentro e percebi que nada havia, nenhuma palavra, nenhum desenho. Somente a brancura do papel. Abri a segunda e lá estava, apenas o branco. A terceira, a quarta, a quinta... Só o branco. Não havia nada, mas o carteiro, sempre que podia, deixava uma ou duas correspondências na porta da casa onde moro momentaneamente. Eram de variados tamanhos e cores os invólucros. E o mundo lá fora continuava a passar. Nem com evento de tamanha estranheza Helia conseguiu fazer cara de espanto. Ela continuava absorta, sentada sobre sua perdição em tons rosáceos. Há exatos sete dias desejou sair de sua casa, de seu lar, verdadeiro?, de sua cidade. O que realmente importava para ele era o fato de ter posto suas pernas em fuga, mesmo em pensamento. Tanto que idealizei, tanto que briguei comigo, que lutei. Ele tinha saído daquele lugar infernal, lugar onde tinha deixado de se ser, local onde começava a sua vida prostituída, sua parcela vendida, seus setores mercadológicos, como impressos em papel jornal. Pela primeira vez sentia aquilo dentro dele, uma energia penetrante, reveladora de suas maquinagens potentes, antes enferrujadas. Helia! Vespa sem dó, sem pena, foste tu o rumo todo de minha perdição!, regurgitou ferozmente para si mesmo, olhando para a figura desalmada da criatura feminina que pendia para um desarme total. Mulher que acabava por encadear desde a mais insignificante manifestação utópica por liberdade ao maior grau de lucidez nas ações direcionadas a si mesma. Para ela, os sonhos eram como águas de excelência, águas que se fundiam num convite desavisado, vaga-lumes ao entardecer. Ele - eu - caía em suas lanças, em seus arcos, quando dúvida, quando devaneio. Por que, Helia?, perguntava-me, inocentemente. Aquele convite irrecusável feito pelo bater de asas daquela mulher, agora ex-amante, ex-amor, ex-mulher-mais-linda-do-seu-mundo, ex-tudo, sem pressa de se chegar ao fim, tão vagos eram aqueles passos, os dela, sutis, resumidos de direito numa incandescência mágica. Havia pedido que ficasse, que por favor não fosse embora, com uns olhos que prejudicavam as mais rudes emoções. Ele sabia que o passado era uma usina, uma usina que fervia. A madrugada, cindida, teimava.


Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/The-runner-139501905

São centauros meus cavalos (Parte V)



Por Germano Xavier



Corria a noventa quilômetros por hora entre automóveis espantados que o deixavam ainda mais solitário e opaco. E novamente a imagem daquela mulher, agora reluzindo na parte superior do pequeno espelho retrovisor em forma de gota, ali, ao seu lado. Todos os fogos acesos em sua parcela anímica, todas as combustões internas a queimar e colorir de um tisne imperfeito sua pele, seu cenho. Seus pulmões arfavam, desconfiados da veracidade do instante. Aprofundava o pé no duro acelerador daquele castigado possante, depositando todo o peso do medo, toda a carga de suas subjetivações, tal qual um paladino montado num corcel que galopasse desejos, que resfolegasse passados. Ela apareceu, assim, quando ele menos esperava. Apareceu mudando tudo ou quase tudo de lugar e sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração. Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados. Helia era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de tão entusiasmante conhecimento. Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era o meu coração, e só o meu. Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados. Eu tinha de escolher. Ela estava a me esperar, sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite. Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o corpo dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez. Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Helia, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante. Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei. Foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades. Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até Helia, em seu vestido cinza com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas. Ah, Helia, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que naquela agora me imprimia! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Helia, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração... meu coração bonito! Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, abarrotando-me de luas, emplumando-me de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo dos vendavais. Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas... como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas. Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pelos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo aquele líquido signo da brancura da nossa hora. Insuspeitosas foram as ânsias iniciais. O conhecimento distante, nosso e arraigado e eterno. Você me trazia os adobes e eu elevava nosso castelo, de vime o amor, torto em se querer direito. Aligeiradamente, como dona de minha fazenda, cercou-me de tuas fronteiras indispensáveis lá pela noite de teu sorriso. É do conhecimento de ti, mulher, o fermento que extravasava o líquido que tenho cá dentro - o não da máscara de se ser fantoche sagrado. Os deuses, se é que eles existem, vinham narcisos a nos olhar em súbito frenesi. E bebiam do nosso vinho. E sucumbiam diante de nossas virtudes. E invejaram do nosso amor austral, sem freios e sem obviedades, natural, humano, como deve ser o puro amor. E quando me surgias, assim, a poucos metros de minha mão, cálida, suave em se deixar ao enlevo maior do mundo, encarnava eu a canção do sequioso encontro, a música da necessidade de ser aquilo que queríamos ser, em qualquer instante, em baile, naquele nosso espaço azul. Dançamos nosso tango-corpo, o primeiro de muitos, porquanto desejamos, porquanto vivemos, únicos, coadunados. Embriagamo-nos, deitados sobre a nuvem de nossos planos, embriagamo-nos apaixonadamente, embriagamo-nos loucamente... como num sonho rebelde e jovem e real. Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Helia!, quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom. Ah, Helia, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que fosse o meu. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade. Você me amou, Helia, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro. Meu coração, Helia, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora à língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Helia, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Helia, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Helia, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Helia, toda, pois são centauros meus cavalos. Sentiu-se surpreendido por um toque de afirmação que, bem de leve, lançava-o a um entranhado estado de soluços que lhe cercavam todo o corpo de prazer. Seguiria, veloz e um tanto quanto esfuziante, por pelo menos dois quartos daquela madrugada, espalhado pelas divagações que ele mesmo houvera edificado. Uma estrada escura, completamente escura, deficiente em sinalização, margeada por uma gramínea rasteira de um tom que, àquela hora da noite, parecia desbotado e próximo de um cinza dissoluto. Grandes roçados desapareciam com a mesma volúpia que em seus flancos surgiam. Por vezes, um ou outro animal silvestre que atravessava a pista alertava-o sobre a existência de vidas, mormente sobre a sua. Duas ou três raposas, sob os auspícios da lua, alguns répteis rastejando e buscando as presas, almejando abocanhá-las, feri-las, devorá-las gananciosamente... tudo por ele passava. E aquela vida de fuga marchando, marcada por curtos silvos esporádicos que tocavam o oceano de seus ouvidos, reprimindo-o de certa forma, impedindo-o de rumar livre, com o sentimento curioso de poder ir sem restrições alguma, em despejo de potência máxima, sem freios nem travos, apenas sentindo o repentino impulso de um vento estranho e agradável içando aquelas suas asas podadas, aquele seu resto.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/around-the-streetmarket-1-167897271

domingo, 14 de outubro de 2018

Diante do não sabido



Por Germano Xavier



Não, eu não sei amar. Confesso, ainda não aprendi a arte da dissimulação. Eu sou bem moço, sim, mas já bem crescido para saber que a vida é uma provocação. E das mais infames. Sou um sujeito quedo. O silêncio é a parte mais sobressalente em mim. As pessoas não entendem que esse é o meu jeito de ser, de me expressar, de me comunicar. Sinto que elas estão sempre esperando algo oriundo de minha face ou mão ou boca, alguma palavra a mais ou alguma loucura que eu possa fazer de súbito, matar alguém, estrangular o professor ou executar a pessoa com quem converso. Mas eu só sinto. Não sei o porquê de tudo isso. Parece que sonhei. E no sonho acendi a lâmpada do meu quarto e percebi que os ratos tinham desaparecido. Talvez estivessem escondidos em algum móvel, pensei, em estado de alerta, prontificados ao ataque. Tremo só de pensar naquelas centenas de pequenas mandíbulas, atarraxadas em minha pele, grudadas em meu cabelo, roendo-me, sangrando-me. Olhei para o chão. Parecia estar seco. Hesitei. Imaginei, mas depois de muita luta decidi levantar de onde estava. Havia uma escuridão longa depois e que não sei como dizer. Não há um pequeno feixe de luz que consiga penetrá-la. Não que eu seja um admirador das trevas, mas a noite é o momento mais misterioso e instigante. A noite, no sonho, não respeitava os solitários. Destino longínquo. Separava-se de si mesmo em pulsares e alguns goles de bebida quente. Rumava. Realmente estava sendo difícil se ser ultimamente. Difícil, porém ele era já menos triste. Podia até se sentir um pouco mais feliz em raros instantes. Eu, sombra perfeita do que o mundo é capaz de fazer com a humanidade, passivamente comporto-me num assento confortável e cinza-verde de cor. Deixo que o vento que vem vindo do exterior sussurre e prostre-se diante dos meus olhos, agora cosmopolitas. Uma morbidez ilusória e procedente do dia que não seria mais um dia normal. Em minhas reentrâncias correm cósmicas as sensações que parecem subterrâneas. Sob alguma minha forma de sotaina, algo poderia acontecer a qualquer instante. Os papiros foram escritos e simultaneamente lidos pelas retinas visionárias que meu corpo não suporta. Átimo. Surpresas foram destruídas, todos os focos tristes em que pensava. Metafísica trac trac trac, tesoural, dilacerantes tracs que vinham predominar minha existência. Segundos aproveitáveis, não se sabe, de nada sabemos, ou serenos?, ao lado do vibrátil plasma feminil que dialogava potencialmente com minha alma, coitado de quem, ou em? Dizia coisas belas. Falava com tamanha ternura que me deliciei cruamente. Que palavras possuo, ainda lembro!, sangue feliz no final. Sei que não me encontro nesse arrebol cotidiano. Sei que ainda existem, sob as fardas e uniformes, corações como o meu, tão lindamente deflorados. Acordei rodeado por capinzais extremamente altos. Tinha invadido o acostamento da rodovia por onde circulava. A marca de borracha no asfalto, riscado naquele anil desbotado pelo sol. Levantei e percebi o estrago que tinha causado ao carro. O farol do lado direito em caquinhos, o para-choque arrebentado, uma roda levemente empenada. Havia entrado forte no matagal. Estou vivo, e isso me retirava um pouco o desânimo matinal. Entrei no carro novamente e dei a partida. O motor teimou um pouco, mas roncou forte instantes depois. Joguei pela janela alguns cigarros fumados pela metade, duas garrafas de uma vodka barata, alguns recibos e peguei a estrada sem dó. Um chiado fino surgiu e, pelo que me parecia, vinha das proximidades da jante dianteira esquerda. Ele que não sabia para onde ir deveras, onde se esconder. De quem?, perguntava-se, sem pronunciar voz. Ouvia vozes que muralhas de concreto sussurram no flamejar dos segundos insuspeitosos. Eram tão estranhas e ao mesmo tempo disfônicas, que tentava sem grande sucesso parar de escutá-las com o gesto de sufocar com as mãos suas orelhas. Estes clamores, tão voluptuosos para alguns, não o faziam sentir orgulho por ser proprietário de um sentimento valioso e único como o amor. Ouvia as mesmas vozes de sempre e agradecia às paredes por terem sido escudos, livrando-lhe da vista o vômito que os homens repelem de suas bocas más e carnívoras. Os sons humanos modernos, contemporâneos, perderam sua verdadeira lógica. Não havia mais transparência no aquário afetuoso dos entes que lhe habitavam - alguns ainda insistiam em dizer que toda essa transformação vo-ca-bu-lar dera-se pela enorme necessidade de sempre se estar em renovação, para não ficar para trás nessa corrida cada vez mais doméstica pela vida. Todavia, como ser tão ordinário, a ponto de sepultar a beleza natural do nosso caráter?, pensava. Tornara-se muito difícil discutir tais assuntos, porém era indiscutível sua serventia para o seu desenvolvimento enquanto homem. Era impressionante a percepção que tinha do mundo atual, parecia-lhe não haver nenhuma tentativa ou esforço para que coisas que já fizeram parte do manual dos homens, e que agora se encontravam em processos de putrefação num destes baús enterrados pelo universo, voltassem ao cotidiano de normalidades. A espécie perdera o mapa do tesouro e com isso o próprio tesouro também. O seguimento que daríamos a todo esse bordel era incerto, mas tranquilamente previsível acaso levássemos em conta a realidade dos fatos. Era como dizer que muitos preferiram andar descalços, mesmo tendo em casa um calçado para proteção dos pés. Como bom seria se tudo isso fosse uma questão de esquecimento, que ao sair de casa os indivíduos sempre se esquecessem ou não se lembrassem de pôr no bolso de suas camisas as sensibilidades e as intuições. Quisera ele que fosse assim! A verdade é que estamos pintando o nosso próprio quadro biográfico com tintas frias, cujos princípios ativos são a extinção e o erro. A vida não cessa, o tempo se esconde entre árvores e o homem sempre a padecer diante de seus próprios olhos. Alguém de muito longe derrama lágrimas de arrependimento e angústia ao ver o estrago que sua obra-prima está a fazer no enredo panorâmico da sinfonia que lhe foi destinada. O criador lamenta ter criado em seu paraíso não só a serpente e o fruto proibido, mas milhões de cobras e aranhas peçonhentas enfeitiçadas por verbos malignos. Não há mais o que modelar, tudo já havia sido escrito e lapidado. Pena que muitos não leram os ensinamentos ou não souberam interpretar o texto da maneira certa. O nosso tálamo agora é coletivo, o serviço foi feito por todos que contribuíram incessantemente para esta arquitetura perversa e mitigada. A carcaça fica e o miolo se desfaz. A música é feliz, sem saber que podia ser mais, a lua já iluminou mais corações, o brilho radiante das estrelas já foi mais autêntico. Antigamente, pensou, o fim era apenas um novo recomeço. Hoje, o fim é o coto do nada, dilacerado pela ordem que dopa a mentalidade emocional original dos nossos cromossomos, fazendo-nos perder grande parte da visão resoluta que tínhamos sobre a verdade e sobre tudo aquilo que nos faz bem. Neste momento, entra em cena o lobo mau, que não é o das histórias infantis, mas o mesmo que se vestiu de cordeiro e que acabou nos cativando pela sua delicadeza e ingenuidade. Uma seringa com uma solução, pitadas de purpurina injetada em nossas veias sem qualquer tipo de cerimônia. Este sim é seu real semblante, que nos amordaçou com suas correntes de metal e ecos de aço, tornando-nos servos e escravos do hábito, do modismo, do belo e da miséria espiritual. Este é o lobo vigente, a babilônia do ontem, do hoje e de sempre, a bomba atômica do medo, esta é a comitiva do governo, ou melhor, do desgoverno. O homem se perdeu na matéria, no esboço do certo, na crua ânsia de ser mais. Acabou se machucando em espinhos e nas rochas pontiagudas escorregou. A cicatriz vingou toda a dor e o ser que se diz humano traz hoje na bagagem as sequelas de uma escolha sem retorno. A morte veloz é agora sua maior consequência. Traído pelos seus próprios gestos, exilou-se, ele-eu-nós, em nosso próprio lar, nossas casas, casulos. O sangue da ferida aberta não estanca, rejubila-se em alimentar o solo sedento por adubos orgânicos. Como é cruel ter de usar máscaras para não ser intoxicado pela sujeira que nos impede a naturalidade, que nos priva de um belo adjetivo derivado de nossa tão explorada e subestimada mãe natureza. Ao relento, inspiro uma harmonia demente, puxada pelos acordes da britadeira e pela regência mágica das betoneiras. Ao invés de aproveitarmos a noite para sonharmos com um mundo mais digno e justo, preferimos acertar o sono para não perdermos as horas. Tudo reincide, recai sobre a terra, menos a vida que não é retroativa... inúmeras pessoas registram em folhas de papel teses sobre reencarnação ou ressurreição, mal sabendo elas que tais ações podem acontecer a qualquer momento e que, para isso ocorrer, só é necessário um incentivo pessoal, para que floresça o renascer e a redenção que a todos falta. Estou divagando? Sinto um novo resmungar em meus tímpanos... é só mais um anjo torto com estranhos pedidos e alertas. Ele implora de joelhos para que eu pare de pensar, de falar. Por que devo parar? O oitavo anjo do apocalipse responde: Se você não parar com essa conversa, eles irão te prender. Eles quem? Os torturadores e trituradores. Mas que crime cometi? Pensar, amar, viver... Mas isso não é crime! Meu caro amigo, qualquer ideologia contrária aos interesses do dragão é potencialmente exterminável. Não querem formar pessoas capazes de domar o seu ego ou que tenham um conteúdo crítico sobre as novas regras que impuseram. Somos a ameaça aos seus reinados e domínios. Cortaram-nos a língua e as mãos, furaram nossos olhos com estacas gananciosas e porcas. Restou-me o choro por não ter mais como reunir meu exército e fazer uma frente de combate contra todo o mal que nos assola. Meu sexto sentido me revela a morte de irmãos e irmãs que, como eu, defendiam o bem a qualquer preço. A triste sensação de que não haverá mais recomeço e que o fim será somente o fim me salta aos nervos. Sentado onde estou vou à morte lentamente, numa tétrica solidão forjo meu arsenal vingativo numa paranoia que me altera. O silêncio me afaga, meu companheiro nas horas mais insanas e improdutivas da minha existência. Quando mais uma lua se aproxima, recordo que ali na estante guardo medalhas de honra ao mérito, verdadeiros símbolos de uma guerra que tracei. Lá se vai um espião, um amante dos dizeres, vai ao chão que os vermes hão de usar como alimento num prato rico em sonhos e proteínas de esperança. Vai ao céu porque tens o seu lugar. O homem morre ante a vida que o acolheu, pois carrega o pecado de não saber amar sem mentir. Falava alto consigo mesmo e ele não tinha respostas. Foram longos quilômetros pela estrada vazia, o carro se arrastando, até encontrar uma casa rosada com um letreiro já apagado pelo tempo que estampava: Pousada 31. A placa de metal localizava-se próxima à porta. Uma pousada naquele fim de mundo. Aproveitável e útil, realmente. Mas era dia, manhã, e ele precisava mesmo era de um bom banho e de um café reforçado. Não pensou duas vezes. Estacionou seu Ariane bem em frente à porta de entrada. Desconfiado, caminhou em direção ao balcão, dando passos cautelosos. Havia um cheiro forte de charque frita no recinto. No balcão principal, ninguém. Tocou a pequena campainha de ferro que se encontrava na ponta esquerda da mesa. Por um breve instante pensou ter escutado o som do silêncio. Pouco depois uma sombra se ergueu lá no fundo do estabelecimento. Percebeu que não estava sozinho ali. Nesse ínterim, resolveu passear seus olhos pelas paredes do lugar, repletas de pôsteres e frases pintadas em cores chamativas. Uma, em especial, chamou sua atenção. Era uma carta, já amarelecida, assinada por um desconhecido, grudada no alto por duas tachinhas de metal. Enquanto ouvia passos vindos dos fundos, o homem leu a epístola. Eu compro clichês para dizer "te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A maturidade, atividade para especialistas, me operacionalizando gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia. Outono de 1988. Era somente dúvida o errante homem. Lembrou dela, seu mais que atual espectro. Não sabe o porquê, mas ela lhe surgiu, novamente, ali mesmo. Agora deveria estar no 312 da Menezes Coimbra, aquele continente criado sem precisar esperar a ação de placas tectônicas, aquele universo mítico-austral onde se renovavam constantemente, lugar de apuros e mergulhos, de beijos e abraços, mágoas e amores. Lembrou dele, ele mesmo, daquele que tinha sido há pouco tempo, daquele que não mais desejava ser. Cerca de um minuto após ter terminado a leitura, escutou passadas bem próximas e a respiração ofegante e desconfortante de uma anciã que vestia uma túnica azul de veludo, adornada por um xale de renda carmim demasiado extravagante. Mais pessoas pareciam se levantar e vir em direção de onde permanecia o homem, aturdido. Que desejas, forasteiro?, de chofre, a velha interrogou. Rápido, virou o rosto. Estava diante, mais uma vez, do não sabido.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/stories-from-the-station-12-204327260

Uma presença incômoda



Por Germano Xavier



Hoje, véspera de feriado, beiro a morte. A minha morte. Por onde passei, pessoas denunciaram preocupações, perguntaram-me sobre o meu estado, se eu estava passando por algum problema ou se tinha acontecido algo comigo. Porque, nas vozes e mentes destas pessoas, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de rios. Não havia resposta em mim, nem teria como. Creio que morri um pouco hoje. Um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite. Engraçado, também morro agora enquanto escuto os passos da proprietária deste hotel, um pouco é certo. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga. Necessito da morte para viver. Todavia, enquanto ela não me abraça com o todo de sua envergadura, sigo a viver, em reduzidas linhas, minha morte. Persisto, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, absorvendo com a alma minha morte mais vital.




Eu moraria. Eu morar ia, eu amaria e amar iria caso fosse possível atravessar a ponte aquática do destino. Distância atenta ao andar dos passos do coração, vergel cruzado pelo verde de se querer, aleia albina essa toda em torno de transcender o ser. Uma pintura cravada na tela do amor é uma celebração inteira. Nós. Fogos seriam acesos nas madrugadas frias e o júbilo das estrelas encontraria no escuro o abrigo dos brilhos. Eu estaria aberto sobre a fenda dos sentimentos e uma cor de presente o mundo teria na lançada curva da estrada. Eu moraria no mar-céu que é só teu. Eu moraria na dor marítima do teu gemido. Moraria no encontro de tuas marés. Eu moraria. E você estaria sempre no pedestal da calçada mais alta na rua enladeirada mais densa de sabores. Cinzento, o firmamento velho se contorceria em lágrimas e uma chuva de vivas lamberia o ácido de tua pátina amorosa. Bronze, prata e ouro. O amor em lumes em ti. Eu. Raso. Passo alto sem tocar superfície. Saudade é uma verdade doída, menino. Amor nem pensar. Café seco com instinto na manhã decorrida ativa o nada que não suportamos. Eu viajo pensando na esquina onde dobram as pernas. Estar sentado é estar pronto para alguma coisa também que não ou que sim. Raso, insisto. Assim, sem nem. Um universo tão distante. Uma força. Uma forma. Evoco essa prosperidade dos tempos idos em mim. Eu costumava achar diamantes sem me esforçar tanto. Achava-os, empós um mundo em punhado puro. Cascalhada era a minha sina. E hoje? Não é mais fundo, tudo? Jaçados seixos pontificam a trilha de se ir. Para onde, quando nada? Para quando, quando sempre? Refugo. Pareço partida. Vejo diamantes na água que bebo. Me diamanto. A água traz um reflexo. Há alguma coisa nela que adocica. Acendo e incendeio. Há um fogo molhado. Arreio minha cavalgadura e teimo. Teimo.



* Imagem: https://www.deviantart.com/deviousclown/art/Waiting-for-something-180810558