quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Sobre berços e memória: o testemunho de Selbor

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Por Germano Xavier

Demora muito para a gente nascer de verdade – se é que nascemos de mentirinha algum dia. Eis o lugar ao qual chegamos quando se termina de ler SATOLEP, de Vitor Ramil: o berço. O Barão de Satolep, travestindo-se de Selbor, fotógrafo que resolve voltar a respirar seus natalícios caminhos após 20 anos de sumiço pelo mundo, envereda-se por um álbum de memórias congelado, repleto de mornas dores e clandestinos espantos, com os quais objetiva uma sangria baseada no retrato das perdições de um simples ser humano, sensível por natureza.

Em determinado momento, Selbor refresca-se com uma frase do seu amigo Cubano (alusão ao escritor Alejo Carpentier), que diz: “Se tivéssemos viajado puramente através da intensidade da luz e do rigor da paisagem, estaríamos agora penetrando em seu detalhe. Desembarcamos na estação das coisas essenciais”. Percorrendo o que chamou de “grande círculo”, Ramil nos faz embarcar em nossas respectivas reminiscências, impactando novos descobrimentos aos olhos leitores e fazendo brotar flores em meio à náusea cotidiana de nossas existências. Chega uma hora que temos de aprender a ver, como requer seu irmão em determinada passagem do livro. Ver para ver além, ver para ver aquém, ver para simplesmente ver. Obrigatório aprendizado.

É realmente difícil conseguir chegar onde nunca se esteve antes e mais difícil ainda é chegar onde se imaginou ter estado outrora. Existem cidades construídas no solo das ilusões. Existem pessoas que viveram/vivem em cidades que nunca existiram na realidade. Talvez seja o meu caso com a pacata e chapadeira Iraquara, no interior baiano, com a qual mantenho uma relação dual que vai do amor ao repúdio em questão de dois ou três pensamentos. Satolep é um amargo doce para o fotógrafo do livro, que tenta captar uma existência incapaz de se materializar sob a luz vermelha de seu laboratório. “Às vezes, o lugar onde queremos chegar fica exatamente onde estamos, mas precisamos dar uma longa volta para encontrá-lo. O senhor foi na direção do mundo, eu vim para Satolep”, relata Selbor.

Sem se esquivar das trevas nem das luzes diárias, Selbor encara o tempo de frente numa escaramuça duradoura imprópria para corações imaturos. Tendo como sibila a figura do escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, Selbor aponta a lente de sua câmera para as janelas de nossas almas e para as paredes de nossos corpos. O que se revela sob a luz vermelha de seu laboratório é antes a imagem branca do mundo, preenchida de nossos vazios tão sedentos, ancestrais e imorredouros. “De repente, sobreviver era insistir na busca de um lugar para pôr os seus restos”. Todavia, é em Satolep que Selbor irá encontrar as formas, cheiros e cores de que tanto precisa para seguir vivendo, mesmo sendo, por vezes, formas sem cantos, cheiros sem encanto e cores sem carinho. Não havia o que fazer, a não ser entrar naquele trem cujo destino era o calor geométrico das coisas.

Este texto foi escrito após a leitura do livro SATOLEP, de Vitor Ramil.


* Imagens: Google.

ELE, de Mailson Furtado


 

Impressões sobre o livro ELE, do escritor cearense Mailson Furtado. #ele #mailsonfurtado #poesia #oequadordascoisas

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Assim escreve André Balaio | ou Olhos sobre "Quebranto"




Por Germano Xavier


Tenho feito um exercício bastante peculiar nos últimos anos e isso não é novidade para ninguém que acompanha este O Equador das Coisas há algum tempo: ler ao máximo a nova literatura pernambucana para, primeiramente, entender um pouco mais acerca deste espaço territorial nordestino que, antes de ser o estado natal do meu velho pai, é hoje o lugar onde gasto a minha vida desde o fim de 2013, quando vim morar em Caruaru, cidade do interior situada à região meridional do setor agreste. E, em sendo assim - não tinha como ser diferente -, o Prêmio Pernambuco de Literatura (agora Prêmio Hermilo Borba Filho), assim como as publicações da Cepe Editora, sempre foram dois grandes norteadores para esta minha atividade, convenhamos, ainda recente de pouco mais de 5 anos. 

Todavia, alguns autores locais, terminaram por fincar raízes em editoras além-Pernambuco, como é o caso de André Balaio, autor de QUEBRANTO (Patuá, 2018), seu premiado livro inaugural, eleito Melhor obra de ficção escrita em 2018 pela Academia Pernambucana de Letras - APL.  Para minha grata surpresa, QUEBRANTO se mostrou um livro bastante convincente dentro de uma seara temática por demais explorada na literatura brasileira e, também, universal, e que possui grandes representantes espalhados pelos séculos e séculos da tradição literária. Mistério, quase-terror, segredos sombrios, desvendamentos, ilusões, revelações e manobras que beiram ou beijam o surreal-real são alguns dos líquidos preciosos que dão vida ao corpo de um dado corpúsculo engendrado nas teorias do fantástico e do noir impresso no papel pelas mãos treinadas, lúcidas e operantes de André Balaio. 

QUEBRANTO é um livro simples (eu disse simples, não simplório), bom de ser lido, que conta com um forte apego e um amplo prestígio ao rápido endereçamento do leitor ao clímax das narrativas expostas, sem deixar de causar um alumbramento necessário ao interlocutor ao longo da leitura transcorrida, como se feito a partir da melhor receita para brumas e névoas: a desfaçatez. O "nocaute" cortazariano é dado por Balaio aos flancos, de leve, quando menos se espera dele um soco ou um chute, com golpes lentos porém contundentes, nunca de frente, escancarados feito jebs desfloradores e nada criativos. O significado é o que parece importar ao fim, ou o rumo a uma dada cosmovisão, mas o caminho, justamente a graça de todos os percursos, é a ordem máxima dos passos dados pelas personagens, verossímeis de tão reais - ou vice-versa.

A respectiva obra é um alerta para nossos sonos diários, nossas malemolências vitais, nossos desacreditamentos. Humanos que somos, introjetados num sistema de vida de trejeitos nefastos e soturnos, maquinados dentro de afazeres sem sentido pleno, perdemos a capacidade de ver além, como se fôssemos acometidos por uma catarata eterna que nos oprime e nos cega dia após dia, noite depois de noite. Destarte, deixamos de ver a Beleza, o Real, o Mítico, o Filosófico, o Rude, a Bondade, o Desperdício, a natureza de todas as coisas e de todos os sentimentos... aí vem e se alteia e se altera Balaio e nos devolve o fantasmagórico de nossas jornadas que um dia chegarão ao fim - mesmo tudo permanecendo -, o que está pelas nossas costas, um tempo de olhos bem abertos, em brasa sempre acesa. 

André Balaio, nos 13 contos do livro, tende sempre a tirar a pelagem das inúmeras civilizações alheias a nós-todos, que vagam pela vida e pela morte e por todas as outras dimensões possíveis, populações inteiras construídas a partir da mesma matéria do escuro, da noite, do breu total, do que é ainda opaco ou translúcido e de tudo aquilo que não enxergamos ou que certo dia deixamos de vislumbrar. Sabedor de toda a jogatina e de toda a lida contista, Balaio age feito um alfandegário: bole-bole, separa-separa, escolhe-escolhe e, de quebra, ainda nos desloca desses "mundos-todos" para cenários bem pernambucanos, como sítios, fazendas, usinas... Resultado de tamanha arquitetura? Um livro com virtudes próprias, exato, ativo e leal ao que se propõe. Enfim, mais um belíssimo exemplar desta nova literatura pernambucano-nordestina que está aí a vencer fronteiras outrora tidas como intransponíveis e/ou irredutíveis, apesar de nossa larga tradição (a dos escritores do Nordeste) em derrubar todos os muros que, porventura, teimaram em nos atravancar o caminho.


breve entrevista com o autor



Germano Xavier – “Os homens de imaginação – eles vibram facilmente demais e são de sua natureza tempestuosos”, frase presente em Correspondência, de Eça de Queiroz, datado de 1885. Você concorda com tal afirmação? Quem é e como se porta o escritor André Balaio perante as possibilidades de vida e de morte ante o caos criativo?

André Balaio – A vibração existe, é necessária, vem do pathos criativo e do atrito com a vida. O caos surge diante da incerteza e da inevitabilidade da morte. Mas é preciso dar forma. Escrever é uma tentativa de organizar o caos. Extrair dele algo novo e questionador.

Eu, como escritor, busco uma conexão baseada na identificação e no encantamento. Preciso que o leitor sinta o que os meus personagens sentem, que os compreenda, que as histórias dos personagens de alguma forma o atinjam. Uma vez uma pessoa que leu o Quebranto, que aliás um ótimo poeta, me disse que não conseguia tirar um conto da cabeça. Ele não explicou o motivo, mas esta informação se bastou para me deixar contente. Não existe maior recompensa para um escritor do que marcar a lembrança de um leitor.


Germano Xavier – O mesmo Eça de Queiroz, neste mesmo livro supracitado, disse que “um livro de contos é um livro ligeiro de emoções curtas”. O que você pensa sobre esta assertiva, Balaio? E por que o conto? Quais os motivos para esta escolha?

André Balaio – Não acho que as emoções sejam curtas. Elas são condensadas, reprimidas. Precisam ser moldadas num espaço curto. Talvez por isso mesmo sejam tão intensas: estão a ponto de explodir, de fazer a tampa voar.

A opção pelo conto foi justamente essa capacidade de acertar o queixo e levar a nocaute (obrigado, Cortázar). O arrebatamento. Também influiu o fato de serem histórias surgidas quase na mesma época e que, apesar de tão diferentes entre si, tinham a mesma ideia do sobrenatural e do fantástico como ruptura diante da normalidade.


Germano Xavier – Lendo o seu QUEBRANTO, remontei-me a uma tradição muito peculiar a nós, amantes da boa literatura, produzida por nomes como J. J. Veiga, Horacio Quiroga, Isabel Allende, Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft e, claro, o grande mestre Edgar Allan Poe. De onde veio a matéria-prima do seu primeiro livro de contos, Balaio? Quais as tuas fontes primárias de inspiração? E de que forma você se deixa influenciar por elas?

André Balaio – “Os Cavalinhos de Platipanto” de J. J. Veiga é uma fonte à qual sempre retorno. O mesmo acontece com vários contos e poemas de Poe. Maupassant e Lovecraft são referências importantes da minha formação. Há também Shakespeare, com a erupção emocional dos personagens. Na busca de uma linguagem precisa e cortante, Graciliano Ramos precisa ser lembrado. Cortázar vem com a sensação de estranhamento frente ao insólito, da quebra da realidade em pedaços que não mais se colam. “A Casa Tomada”, aliás, é um dos contos estrangeiros que mais gosto. Existem muitos outros autores como Raimundo Carrero, Herman Melville, Juan Rulfo, Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio” é meu conto brasileiro preferido), Lygia Fagundes Telles (o “Seminário dos ratos” é grande lembrança) e Hilda Hilst. Todos também estão por ali, espreitando de alguma forma.

Talvez seja um enorme lugar comum dizer que a matéria-prima da minha escrita esteja nos livros que li, nos filmes e peças que assisti e nas pessoas com quem convivi, mas é isso mesmo, são essas as principais fontes. Hamlet inspirou o conto “O resto é silêncio”. Paulo Honório de “São Bernardo”, personagem que muito me assombra, foi referência para um personagem de “Eu sou o filho do homem”. Uma história maravilhosa da família da minha esposa foi a base para “O lado de lá”, e quando a ouvi pela primeira vez parece que ela pedia para ser escrita. Por fim e não menos importante estão minhas relações familiares e meus demônios que de um jeito ou de outro se entranham no que escrevo.


Germano Xavier – Albert Camus disse, certa vez: “Não desejo mais ser feliz, e sim estar mais consciente”. Entendo que a literatura tem esse papel, também, o de despertar consciências. Você acredita nisso, Balaio? Se sim, que tipo de consciência o seu livro QUEBRANTO ou a literatura em si pode despertar nos leitores?

André Balaio – Escrevo para tocar algum nervo do leitor. A emoção, se não é superficial, pode levá-lo a uma pequena revolução interna. Esta revolução deve despertar a consciência. Não acredito que a arte tenha outro papel que não seja o impacto estético. Este impacto pode levar à reflexão e à consciência.

Apesar dos meus contos serem narrativas fantásticas o que mais procurei foi a dimensão humana dos personagens. As inadequações dos personagens, diante das vidas que levam e da morte, geram a tensão. E é no momento no momento da ruptura que surge o elemento fantástico. São quase sempre pessoas comuns colocadas em situações limite. Situações geralmente provocadas por quem está próximo: o pai, a mãe, o filho. Meus fantasmas não são distantes e misteriosos, são próximos, muito próximos, e estão sempre à espreita.


Germano Xavier – Fale-nos um pouco mais sobre o processo de elaboração, de escrita e de publicação deste teu QUEBRANTO. Como você enxerga o cenário atual da literatura brasileira? Em quê apostar daqui para frente?

André Balaio – Quebranto foi escrito durante aproximadamente três anos num processo de aprendizagem e de amadurecimento como autor. Foi quando passei a ver a escrita de uma forma mais intensa e várias questões surgiram. Os contos não são fotografias antigas que encontrei numa gaveta e colei no álbum. Foram pensados com uma ideia de unidade. Quase todos têm o conceito que o téorico Tzvetan Todorov apresenta em seu “Introdução à literatura fantástica”: o fantástico baseia-se na dúvida. Aquilo de fato está acontecendo ou é fruto da perturbação do personagem? Coloquei essa questão em pessoas que podemos encontrar na rua, no banco, num consultório médico. Meus personagens são agricultores, advogados, mendigos, jornalistas, fazendeiros, estudantes, office boys, comerciantes, usineiros. Todos se encontram em situações limite. E é aí que o fantástico se apresenta.

Com relação ao cenário atual da Literatura no Brasil, vivemos um momento interessante de mudança. Há muitos autores publicando por editoras independentes ótimos livros que não se encontram nas livrarias. Mas há uma falta absurda de leitores, principalmente os de boa ficção. Ainda lembro de quando O Nome da Rosa e Memórias de Adriano eram bestsellers e falávamos deles como hoje falamos de uma série de sucesso da Netflix. O grande desafio é formar novos leitores e chegar aos que existem. Para isso, é preciso colocar o livro debaixo do braço e partir para o corpo a corpo.




Obs: o livro pode ser encontrado no site da Editora Patuá.


* Imagens: https://zinebrasil.wordpress.com/2018/03/09/andre-balaio-lanca-quebranto-na-casa-cultural-villa-ritinha-em-recife/

VÍRUS, de Monja Coen


 

Impressões sobre o livro VÍRUS, escrito por Monja Coen. #vírus #monjacoen #pandemia #oequadordascoisas

domingo, 23 de outubro de 2022

Sobre os livros que não lemos



Por Germano Xavier


Tenho muitos livros. Li muitos livros em bibliotecas espalhadas pelas cidades onde residi ou passei alguma temporada (quase nenhum no interior de livrarias - não consigo, mas acho bonito quem realiza esta prática). Li muitos livros que nunca tive em minha casa, em minha biblioteca particular. Do mesmo modo, li muitos dos livros que possuo. Houve uma época em que meu quarto quase não me cabia mais, de tantos livros que eu guardava dentro dele. Muitos outros livros que li, doei e/ou sigo doando. Outros que nem li, também resolvi passar adiante, por um ou outro motivo. Apesar de entender que os nossos livros ajudam a contar a nossa própria história, acredito hoje ser repugnante a ideia de privar outras pessoas do maravilhoso contato com os livros, ainda mais em se tratando de livros que, talvez, você nem se interesse mais em ler e que certamente ficariam em suas estantes por longos anos em processo de hibernação, inativos, como forças mortas.

Quem gosta de ler sabe que um dos grandes dilemas da vida de um leitor é saber-se incapaz de ler todos os livros supostamente imprescindíveis apenas numa vida, ainda mais diante dessa aligeirada relação vital contemporânea à qual estamos todos imersos, quase sempre baseada em trabalho, afazeres diversos, culpas, mea-culpas, tempo, dinheiro, sobrevivência e curtos espaços de nós-para-dentro-de-nós-mesmos. Em assim sendo, a gestão do conhecimento é uma habilidade cada vez mais importante em nosso dia-a-dia de seres-amantes do objeto livro, até porque bolinar com elementos não-concretos, que estão muitas vezes em formato de pensamento ou de imagem-representação, requer bastante cuidado e atenção.

O professor de literatura e psicanalista francês Pierre Bayard, em seu livro COMO FALAR DE LIVROS QUE NÃO LEMOS (OBJETIVA, 2007), retrata um pouco das experiências positivas de não-leitura ao longo da história do pensamento e da literatura, suas concepções, suas validades e seus respectivos entendimentos de uso na direção contrária a de uma sociedade que ainda sacraliza a prática da leitura, que tende a gerar uma obrigação por se ler tudo e de tudo, desmistificando um pouco a ideia de que é realmente necessário ter lido um determinado livro para se poder falar dele com o mínimo de destreza e efetividade. Para isso, Bayard enumera algumas maneiras de não-ler que temos disponíveis, traçando alguns paralelos acerca dos livros que não conhecemos, os livros que folheamos, os livros de que ouvimos falar e os livros que esquecemos, tudo envolto em exemplos vividos por grandes escritores de todos os tempos.

Bayard ainda recomenda algumas dicas ou estratégias para que o bom leitor, ou melhor, o bom não-leitor, consiga escapar de algumas situações de apuros quando interrogado acerca de algum livro de que não tenha feito a devida leitura até então. O professor declara que fazer confrontar nossas “bibliotecas interiores” em momentos desta natureza, conflitantes ao extremo, é uma boa técnica para se sair por cima nos debates ou para se escapar deles, bem como aliar os poderes dos nossos “livros interiores” e dos “livros coletivos” que circulam por nós e pelo mundo no intuito de se construir novos focos de referenciação discursiva em instantes. Portanto, não ter vergonha, impor as próprias ideias, inventar os livros e até falar de si tornam-se configurações de saber, de acordo com Bayard, completamente úteis para o fazer crítico ligado às artes em geral, e em especial ao trato da literatura em seus círculos de fogo, de discussão e de atuação.


domingo, 16 de outubro de 2022

SINCORÁ - SER PEDALANTE NA CHAPADA DIAMANTINA, de Evandro Torezan


 

Impressões sobre o livro SINCORÁ - SER PEDALANTE NA CHAPADA DIAMANTINA, de Evandro Torezan. Ainda neste vídeo, mais uma participação preciosa de Angélica Carem.

#sincorá #evandrotorezan #ciclismodeaventura #oequadordascoisas

Resistir pela água: por uma literatura viva



Por Germano Xavier


O homem é um ser literário, acreditem ou não. A literatura, por sua vez, é como a água do tempo, da vida. A água que alimenta a alma humana, e também o corpo humano, que nos preenche de cor, dor, força, medo e esperança. A água, no interior da literatura, pode ser também o território, o habitat, o próprio espaço dos fenômenos que nos constroem. “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante” (CANDIDO, 2011, p.182). A literatura, pois, pode representar o caos. O caos pode significar tudo. E a água, como parte integrante do todo do imaginário literário, é este deserto das coisas e também o oásis dos movimentos. A literatura, enfim, pode esboçar a paz. A literatura é o próprio mundo. A literatura é, enfim, o homem. O verso. O inverso. O reverso. De tudo. De todos.

A literatura é, antes de tudo, linguagem munida de significado, como requer Pound (2006). E tudo elevado à décima potência. Sem a presença da linguagem, nada pode funcionar com plenitude, o ser humano total não é construído muito menos reconstruído, o mundo não alcança seus refinamentos racionais de existência. Sem linguagem e sem literatura, a renovação da vida não é garantida. A água, por sua vez, é também uma linguagem. Linguagem dos que ribeiram os rios da vida e da morte, colo dos amargores e fonte das saciedades mais intensas. Literatura é, também, imagem, repertório de imagens.

No livro de Luís Alberto Brandão, intitulado Chuva de Letras, e que é, juntamente com o livro Cartas do São Francisco, de Nilma Gonçalves Lacerda, matéria central do presente texto, a imagem é explorada com demasiada intensidade, tanto é que a chuva de letras na tela da televisão, que acompanha todo o desenrolar da trama e que marcam as ações e os pensamentos do protagonista, provoca fortemente o imaginário do personagem, criando inúmeras possibilidades de ideias e suposições plausíveis, fato que evidencia o poder que a imagem televisiva exerce na capacidade criadora das crianças e dos adolescentes.

Há momentos, no livro Chuva de Letras, em que o receio de interagir com algum fantasma preocupa o personagem, de modo que tais imagens interferem no seu cotidiano, e ele passa a refletir sobre o que vê, tenta interpretar e procura compreender o significado de tudo que é retratado na chuva de letras reverberada na imagem televisiva propriamente dita. É possível perceber que, após essa preocupação inicial, ele se encanta com o que as imagens provocam no seu imaginário e passa a viver melhor, mais feliz, isso porque, como afirma Fittipaldi (2004, p. 103), “toda imagem tem alguma história para contar. Essa é a natureza narrativa da imagem. Suas figurações e até mesmo formas abstratas abrem espaço para o pensamento elaborar, fabular e fantasiar”.

O mero fato de o protagonista se abrir ao novo o faz se sentir melhor. Sendo assim, percebe-se que tudo que o personagem contempla gera um oceano de significados, possibilitando novas maneiras de explorar a realidade e capacidade para perceber o mundo ao seu redor, a partir da fantasia e do imaginário da chuva (água) a percepção se amplia e se consolidada a construção de novos saberes. Em retorno ao inventário temático que abriu este texto, Candido (2011, p.176) retoma o conceito de literatura e o traduz relacionando-o a “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura”. Em consonância com este refletir, há suspeitas naturais de que um mundo sem produção de significados em cadeia seria um cabal desastre, do mesmo modo que um homem que vive sem ter o devido contato com a literatura, ou com os textos de natureza literária, tornar-se-ia um impostor corpo disforme, pálido em termos de representatividade e de expressividade.

Não há homem sem água. Não há humanidade sem literatura. A água que é derramada em dias de chuva é o alento para o sertanejo, o fator de judiação para o favelado da grande cidade. A água esmaga o coração sofredor, assim como retira o amargo das secas. O povo é a água da literatura. A maior história de todos os mundos e tempos. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 2011, p.176). A literatura, pois, assim como a água, “é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente” (CANDIDO, 2011, p.177).

A humanização pelo fator literatura, para Candido (2011), deve ser entendida como todo processo que incute no ser humano rotas de reflexão, aquisição de saber, desenvolvimento do senso de alteridade, refinamento dos sentimentos e habilidade para enfrentamento das problemáticas do viver. Mas, por que a literatura seria tão importante para o homem? Qual o seu segredo? A literatura seria mesmo uma espécie de água, de líquido vital para a existência? No livro Cartas do São Francisco, escrito por Nilma Gonçalves Lacerda, a água figura no livro como o mote-mor da trama. A autora, fazendo um paralelo com a famosa obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, faz arvorar algumas unidades de cartas expressas direcionadas a um aspirante a escritor de histórias infantis e juvenis. Com sede por transmitir saberes, a autora faz um pequeno, porém apurado, apanhado do fazer literário relacionado à literatura infantil e juvenil, elencando informações tanto precisas quanto preciosas sobre tal atividade.

A literatura tem desses movimentos particulares. A água já foi território para várias importantes obras universais, desde as epopeias homéricas até Moby Dick, de Herman Melville, passando por Joseph Conrad, João Guimarães Rosa e tantos outros. Em Cartas do São Francisco, o Velho Chico é a matéria que gera a fluidez do conhecimento compartilhado, tal qual um espelho d’água que reproduz as faces de todo um organismo vivo, neste caso a literatura dita infantil e juvenil. Ao mesmo tempo em que a desloca do comum convívio frente a outras disciplinas relacionadas ao saber humano, como já citado anteriormente, Barthes (2001) faz da literatura, aqui em todas as suas acepções, uma caixa de guardados, um baú capaz de zelar atemporalmente por incomensuráveis saberes. Este, para ele, é justamente o aspecto que faz da literatura um fenômeno exclusivo quando comparado às demais áreas do saber. Para o referido autor, a literatura é a própria realidade, bastião da vida em si, o que a impulsiona a estar continuamente em vantagem perante as outras formas de conhecimento.

“Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles” (CANDIDO, 2011, p. 177). Para a literatura, um dos principais ingredientes a ser colocado em análise quando entrada, ela, em julgamentos por sua real e definida relevância é, de longe, o potencial conjunto de ferramentas de que possui para que o irreal seja desbastado, volatilizado e até expulso do que é caracterizado como sendo propriamente humano. A literatura, portanto, ao ser o real ou parte do real, ou até mesmo a força motora e gestora de tudo que é real, termina por ser o local onde tudo se alimenta do todo, em prol do todo e semelhante ao todo.

Tendo como ponto de apoio a citação acima, há de se considerar a inestimável importância da literatura para que seja fomentada, no seio das sociedades, uma espécie de cultura letrada sobre a qual a palavra é sempre apresentada nos centros das significações e das virtudes mundanas. Por ser uma expressão artística milenar, a literatura atravessou várias fases de contemplação reflexivo-existencial e hoje é um território de proporções inestimáveis onde bailam os ventos do fator resistência. E um dos seus efeitos cruciais é a linguagem, com suas mil e uma potencialidades. Língua e literatura, portanto, não sobrevivem separadas.

A Literatura, por sua vez, acaba por refletir no conjunto de suas verdades e de sua natureza universal toda a plasticidade de expressão que se vincula à linguagem. Também utilizada como ferramenta de comunicação, a literatura, embora circunscrita num contexto histórico mais recente que o da língua em si, consegue manter suas interconexões comunicativas demasiado objetivas e sem maiores afetações. Como é de se suspeitar, sem grande esforço, uma sociedade sem a presença da arte literária certamente exprimir-se-á com menor correção, nitidez e criticidade. A palavra, escrita ou lida, decerto desfruta de um poder único, largo, fator que não a limita, já que não sendo simples figurante, beira a fomentação do que é real, isto é, a natureza existencial acerca do que é realidade.

A literatura não está parada, assim como a água de um córrego não é um corpo-objeto que possui uma forma única. Pelo contrário, ela está constantemente em trânsito, a passear por várias paragens do conhecimento humano e a pegar carona em diversos veículos de mídia num efeito dinâmico que surpreende até os mais céticos estudiosos do ramo. Em uma sociedade acostumada a reprimir seus viventes por conta de inúmeros fatores geradores de desigualdade, e que, em pleno século XXI, ainda teima em conviver com máscaras flutuantes de segregação social, de intimidação e de terror, a literatura passa a se cobrar mais, como a exigir-se de si mesma em direção ao posto ocupado pelo outro, o leitor, baseando-se para isso num complexo argumento de alteridade, fomentadora de identidades e valores impagáveis.



REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, s/d.

BRANDÃO, Luis Alberto. Chuva de letras. São Paulo: Scipione, 2008.

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.

______________. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.

FRANTZ, Maria Helena Zancan. A literatura nas séries iniciais. Petrópolis: Vozes, 2011.

JOUVE, Vincent. A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

_____________. Por que estudar literatura? São Paulo: Parábola, 2012.

LACERDA, Nilma Gonçalves. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo. Cultrix, 2006.

WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é ficção. São Paulo: Brasiliense, 1986.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

TANTOS NÓS, de Mailson Furtado


 

Impressões sobre a peça teatral TANTOS NÓS, do escritor cearense Mailson Furtado. Ainda neste vídeo, mais uma participação preciosa de Angélica Carem.

#tantosnós #mailsonfurtado #teatro #dramaturgia #oequadordascoisas

sábado, 1 de outubro de 2022

Sobre o peso de nossos pássaros mortos



Por Germano Xavier


"A cura não existe."



Quanto custa para uma pessoa ter de conviver com as suas negações de vida, os seus infortúnios, as suas farsas, as suas danças mirabolantes em prol do Nada, suas angústias e destemperanças, suas aflições e suas impossibilidades? É possível sair ileso de uma perda significante? E de duas? E de três? E de infinitas perdas? Até onde se pode ir com tamanho peso nas costas? E que tipo de lacuna se configura na alma de um ser humano quando ele não mais enxerga em si força suficiente para sonhar, ou simplesmente para continuar? Quanto custa para desentalar de dentro de nosso corpo (que vai morrendo) o caroço dos trágicos fins cotidianos que nos afetam sem pena? É possível estancar a dor que dói lá no fundo de nós?

São perguntas ríspidas demais, sabemos. Mas são perguntas muito reais, e necessárias. Reais porque vivas e presentes. Porque elas simplesmente perambulam por aí, no centro da vida de muitos de nós. E é manipulando a narrativa de dores e perdas de uma mulher (sem nome), dos seus oito aos 52 anos de idade, que a escritora paulista Aline Bei se apresenta para a literatura em seu livro de estreia O PESO DO PÁSSARO MORTO (um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura 2018) de modo muito sutil e certeiro.

O livro (Editora Nós, 2017) tem 168 páginas de uma prosa bastante diferenciada, recortada incontáveis vezes como fatias de expressão que muito se assemelham à estilística voltada para textos poéticos. Tal estratégia faz com que a leitura flua com uma velocidade deslizante. Ponto positivo também para as marcas de oralidade bem definidas e bastante evidentes como centros de todo o discurso das personagens.

(Cuidado, contém spoilers) Numa análise rápida, a sequência que condensa a jornada da protagonista pode ser explicada da seguinte forma: Logo na infância, perde sua melhor amiga, com quem mantinha uma relação de afeto incomensurável. Aos 17, é estuprada pelo próprio namorado. O pai da criança some de sua vida. O filho não corresponde, a mãe não corresponde, ninguém corresponde. Bete, que ajudou na criação de seu filho desde sempre, é a única que mantém um contato mais verdadeiro com o garoto até então. Bete morre. O filho vai para uma cidade mineira para cursar uma faculdade. Filho e mãe não se entendem. Ela se encanta por um cão durante uma viagem. Leva Vento (nome que deu ao cão) para sua casa. Vento parece entendê-la mais que seu próprio filho. Há acolhimento entre os dois. Fica sabendo que seu filho vai ter um bebê. Torna-se avó. Seu filho vai morar no estrangeiro. Ela regressa para a antiga casa. Memórias são revisitadas. A solidão segue assombrando-a. Vento morre atropelado na frente da velha casa. Triste e desamparada, morre por conta de um forte engasgo (?). Sabedor da morte da mãe, o filho demonstra indiferença. Por conta de negócios, o filho retorna ao Brasil e decide ir ao cemitério onde sua mãe está enterrada. Algo inusitado acontece neste exato instante.

É desta maneira, com um enredo aparentemente muito simples, que Aline Bei esmiúça o interior da alma humana, não só da personagem sem nome, mas a minha e a de quem quer que seja. Interessante mesmo foi perceber que, por diversos momentos, fui transportado para a figura ímpar de Macabéa, de Clarice Lispector, força-mor da obra A HORA DA ESTRELA e, também, de cenho-alma-expressão das dores incuráveis do viver (não me pergunte o porquê disto, mas assim se deu). Destarte, que fique claro que o livro pode pesar uma tonelada nas mãos dos leitores mais desavisados. Assim sendo, bucaneiros e bucaneiras, venham preparados para O PESO DO PÁSSARO MORTO!


um registro ao lado da autora no II Letras em Barro (Caruaru-Pernambuco)


* Primeira imagem: https://livreopiniao.com/2017/09/12/aline-bei-lanca-o-romance-o-peso-do-passaro-morto-em-sao-paulo/

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O ALQUIMISTA, de Paulo Coelho


 

A escritora luso-angolana Luísa Fresta comenta o livro O ALQUIMISTA (L'Alchimiste), de Paulo Coelho. Romance alegórico do escritor brasileiro, a trama segue um jovem pastor andaluz em sua viagem ao Egito, após ter um sonho bastante misterioso. O Alquimista já vendeu mais de 150 milhões de cópias mundo afora, um verdadeiro fenômeno editorial. Ainda neste vídeo, mais uma participação preciosa de Angélica Carem.

#oalquimista #paulocoelho #romance #romancealegórico #oequadordascoisas

Sobre quem coleciona baleias



Por Germano Xavier


Fico imaginando o Rômulo César Melo acordando, ligando seu computador e saindo logo em seguida para colecionar suas baleias particulares. Todos nós temos as nossas baleias particulares, de estimação, fardos pesadíssimos até. E são tantas... Violências, perdas, dúvidas, mistérios, dores, pequenas felicidades e curtas alegrias, extensões nossas de um cotidiano cada dia mais cruel. As baleias são os nossos fantasmas, que não costumam avisar quando irão surgir no meio do nada e causar aquele espanto de brotar brava taquicardia.

Nessas horas é que passamos a entender um pouco mais sobre a grande fúria acometida ao Capitão Ahab... Moby Dick era o seu destino, sua redenção, seu modo de vencer a vida. “Eu não conheço tudo que vem pela frente, mas seja o que for, vou enfrentar gargalhando”, diz Ahab em uma das passagens clássicas da obra-prima de Herman Melville. E quando não conseguimos lidar com os nossos cachalotes, que tipo de mergulho é para se dar?

O livro O COLECIONADOR DE BALEIAS (CEPE, 2018), do autor recifense Rômulo César Melo, desafia nossa visão acerca de nossas rotinas e de nossos respectivos sensos comuns. Faz, com uma serenidade filosófica, com que entremos todos (nós leitores) numa mesma barca e nos sintamos singrando mares nunca antes navegados, apesar das temáticas e das problemáticas tratadas no livro serem bastante comuns e, por conseguinte, deveras verossímeis.

Um livro de contos ao bom molho, onde a ordem dos fatores não altera a soma de todas as nuances lítero-linguísticas, como tem de ser, creio. Um livro de perspectivas, calmo até certo ponto: o de mutação. Climático, improvável, uma obra aberta, como preconizava Eco. Rômulo não aborta os não-ditos, os interditos, afere o desconhecido como quem calcula sem o uso de postuladas e já vencidas fórmulas. Rômulo: pescador de inquietações massacrantes, de perturbações silenciosas, de belezas recônditas, um fabricante de redomas transparentes, ensinador de caminhos tortos.

O COLECIONADOR DE BALEIAS é composto por 17 narrativas. Rômulo César Melo é pai também dos livros “Minimalidades” e “Dois Nós na Gravata”, este um dos vencedores do II Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014. É muita água, bucaneiros, muita água que há no mundo, muita água que há n’O COLECIONADOR DE BALEIAS, livro feito o sal que nos mata lentamente, que nos resseca por dentro, que nos faz inchar, que aumenta a nossa pressão. E feito o remédio (des)controlado dos nossos futuros, também.


entrevista com o autor...



Germano XavierRômulo, responda-me, por gentileza: o que o seu livro de contos O COLECIONADOR DE BALEIAS (CEPE, 2018) não quer mostrar ou não ousa dizer?

Rômulo César Melo – Não quer mostrar o rosto do autor e nem ousa dizer suas opiniões sobre os temas ali elencados. O Colecionador revela algumas impressões sobre o mundo, a sociedade, as nossas misérias, sob a perspectiva de seus narradores, que não são eu; mas, não sou eu, sendo. Parece confuso, todavia acho que existem duas formas de entender a expressividade do autor por meio da escolha de seus personagens ou narradores. A primeira, a consciente, quando se quer contar uma história que traz um juízo de valor ou uma bandeira de uma causa importante ou o desejo de mostrar a indignação com um fato real acrescido das tintas da ficção. Isso aconteceu, por exemplo, no conto "Bárbara", que trata do linchamento e morte de uma mulher numa comunidade carioca apenas por se parecer com uma criminosa. A segunda, a mais intrigante, a inconsciente, suscitada nos consultórios de Psicologia. Dizem que tudo que colocamos nos nossos narradores é parte da gente, ao menos de uma forma neutralizada, subvertida, adormecida. Então, posso ser um assassino, um estuprador, posso ser mulher, um leão, um inseto como elaborou Kafka, claro, falando aqui de traços simbólicos da psique. É quando se escuta depois de certos acontecimentos, "nossa, nunca pensei que fulaninho fosse capaz de fazer isso ou aquilo". Nem ele, pode acreditar. Mas de alguma forma fazia parte da natureza de fulaninho, adormecida nele. Embora essa tese me amedronte, acho que faz sentido.

Germano Xavier O seu livro de contos poderia ser locucionado como sendo um livro de contos “de ideias”, por trabalhar com personagens bastante articulados e, respectivamente, cada um com pensamentos muito claros e/ou definidos. É papel do contista direcionar ao máximo os caminhos de suas personas ou a aporia ainda é a melhor solução para um texto ficcional, Rômulo?

Rômulo César Melo – Curioso você ter observado o lance das ideias. Tenho extremo cuidado na seleção dos contos de um livro porque desejo que as histórias ali contadas possam levar emoções diferentes ao leitor e, em certos casos, conduzi-los a uma determinada reflexão. Nessa toada, busco não repetir as temáticas que servem de pano de fundo aos contos, quando elas existem. Afora isso, não tenho a pretensão de conduzir os caminhos daquelas personas que habitam as páginas do livro, de forma a engessá-las ou fazer dos personagens meros robozinhos do senhor-autor-de-controle-na-mão. (Abaixo a ditadura do autor e todas as ditaduras, ainda mais as que nos querem fazer crer inexistentes!) Até mesmo nos contos em que já vou escrever sabendo do começo, meio e fim (são as exceções) há sempre algo novo que o personagem me mostra, pede ou exige. Acho que o papel do artista é ser o instrumento, o canal para que essas entidades abstratas, essas vozes querendo sair do plano do etéreo, possam se expressar da forma mais liberta, como bem quiserem, gritem o máximo e mais amplamente possível lá no papel. Eis a fantasia da escrita, senão vira um relatório, receita de bolo, petição jurídica. A aporia faz parte, sim. Gosto também dos contos em que se propõe uma dúvida, um não-fim, nos quais o leitor ficará se perguntando, mas e aí, o que aconteceu com o personagem? Fiz isso no conto "Claro escuro", então, aquela mãe comprará o remédio ou não? É uma forma de chamar o leitor para dançar, compor o texto conosco, entende? Amigo leitor, pense, dê o seu final, o que acha que aconteceu dentro da sua ótica? A gente precisa deixar de ser mãe do leitor, de dar a comidinha mastigada na boca dele. Eles sabem mais do que nós, são muitos; nunca devemos subestimar a capacidade do outro de criar e agregar a seu texto. Quantas vezes alguém me deu uma interpretação bem melhor do que a minha para um texto meu? Inúmeras. Fica um texto nosso, de todos, plural. Isso me agrada.

Germano Xavier Quais são as motivações mais comuns para seus contos, Rômulo?

Rômulo César Melo – São tantas e tão diferentes. Notícias na imprensa, cenas do cotidiano, o conto "A bonequeira" tirei de uma cena do carnaval no desfile do Galo da Madrugada, aquilo ali aconteceu, ao menos a senhorinha com o boneco entrevistada na TV. Outras vezes, cenas que vemos quando caminhamos no parque ou vamos comprar pão na fila do caixa. A capacidade de observar aliada à curiosidade são ingredientes basais do escritor. Gosto de escrever sobre situações que me causam espanto ou chateação. É como se precisasse por para fora a indignação, mas o faço com a roupagem ficcional, transformo algo feio e cru em um manufaturado estético. Há os contos que fazem parte da minha vida pessoal como a morte prematura de um grande amigo narrada em "A valsa". Existem os que apresentam discussões atuais, dou o exemplo da questão de gênero e adoção de crianças por casais homoafetivos exposta em "Aos três", que reputo um conto para reflexão muito mais do que qualquer coisa, tem essa função na obra. Os saídos dos livros de história como a vida do acendedor de lamparinas de Londres na época da Revolução Industrial que dá título ao livro. Portanto, são muitas as motivações.

Germano Xavier De acordo com David Lodge, toda ficção implica em uma constante troca, envolvendo estruturas formais e todas as aberturas que a vida possibilita. O que você pensa sobre?

Rômulo César Melo – Preciso reler David Lodge para contextualizar a frase no texto inteiro. Compreendo da assertiva o sentimento de que os textos ficcionais mais completos, se é que podemos chamar assim, tendem a fazer a junção do amplo espectro que a vida nos permite, toda a gama de possibilidades e experiências humanas a serem trazidas ao foco narrativo, que seria o conteúdo, com um arcabouço estrutural mínimo de forma, uma linguagem, uma estética própria do autor. Essa simbiose entre matéria e forma faria com que se oferecesse um produto de qualidade ao leitor, um texto literário que não se afastasse da vida real, aquela enfrentada por todos no dia-a-dia, mas também agregasse a beleza estética e as particularidades técnicas da escrita hábeis a suavizar e tonificar a narrativa. Uma Literatura apenas de fatos da vida pode se tornar um relato, uma notícia de jornal, uma carta. Ao mesmo tempo, aquele jogo de palavras vazio de emoções ou conteúdos, ausente de alma, planificado e sem sentido humano, que se propõe a inovações de linguagem e formas, pode se resumir a um ensaio ou um mero exibicionismo linguístico-acadêmico. Assim penso.

Germano Xavier Fale-nos um pouco sobre o processo de escrita de O COLECIONADOR DE BALEIAS, a importância dos prêmios literários no cenário nacional e sobre seus planos literários futuros.

Rômulo César Melo - O "Colecionador de Baleias" é irmão do livro de contos que o antecede, o "Dois Nós na Gravata". O pensamento de elaborar uma obra que pudesse oferecer aos leitores textos de diferentes matizes foi o mesmo. Quis dar aquilo que gosto de receber, ou seja, emoções variadas, do riso ao choro, da repugnância à poesia. Por isso não há uma temática una. A partir dessa premissa, chegou a hora de escolher os contos e dar a ele a sequência devida na obra.

Considero os prêmios literários importantes como meio de autoafirmação do escritor. Sempre bate uma insegurança, será que estou no caminho certo, será que escrevo bem mesmo, tenho ideias boas? Se bancas de jurados de vários lugares do país premiam diferentes textos seus é um bom sinal disso. Ademais, um prêmio faz seu nome circular, empresta a projeção necessária para que possa aparecer nas rodas literárias, na mídia, receber resenhas e perguntas tão bem elaboradas e desafiadoras quanto essas suas, Germano, abrem portas.

Planos, tantos, muitos, sempre. Que bom! Estou trabalhando em duas frentes neste momento. Um livro de poemas que será diferente do "Bad Trip", meu primeiro livro de poesias temático e soturno. Tem o título provisório "Delicatessen" e a ideia é a de que seja, de fato, sortido, cheio de prateleiras e mercadorias poéticas distintas. E ainda um livro temático de contos, que visitará o insólito, o horror e o fantástico. São esses os projetos iminentes.




* Imgens: https://www.kobo.com/us/en/ebook/o-colecionador-de-baleias 
e http://agendaculturaldorecife.blogspot.com/2018/11/a-editora-cepe-comemora-10-anos.html

terça-feira, 13 de setembro de 2022

A ARTE DA QUARENTENA PARA PRINCIPIANTES, de Cristian Dunker


 

Vídeo sobre o livro A ARTE DA QUARENTENA PARA PRINCIPIANTES, de Christian Dunker. O livro é mais um compêndio de curtos ensaios sobre os avanços da pandemia do novo coronavírus e suas consequências no Brasil e no mundo, tendo como mote central a análise geral de seus efeitos sobre a mente humana em todo o planeta. Este livro é mais um exemplar da Coleção Pandemia Capital, da Editora Boitempo.

#aartedaquarentenaparaprincipiantes #christiandunker #ensaios #pandemiacapital #editoraboitempo #oequadordascoisas

As lápides musguentas de Helder Herik



Por Germano Xavier


Estava eu ali andando por Garanhuns, Pernambuco, quando desço a antiga Rua dos Cajueiros (creio que é assim que se fala) a pé, em busca de um sebo que me indicaram. Avistado o local, fui buquinando desde já. 10 reais a peça, em geral. Literatura estrangeira, contos, literatura brasileira, poesia... Bati os olhos num livrinho vermelho: sobre a lápide: o musgo, de Helder Herik, professor e poeta ligado à turma da confraria u-Carbureto, da qual descendem também os escritores Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório e outros. Fininho, poucas páginas, maior parte de poemas esguios, feito poema-faca, de se enfiar mesmo. Terceiro livro do sujeito, lançado em 2010. Aí fui lendo. Pancadinhas. Livro ferino, sim. Dose certa. O Helder é um bom poeta. (O que é um bom poeta?) O cabra começa burilando a infância, dita-cuja-de-nós-quase-todos-artesãos-das-palavras. Burila. Infância grudenta, imunda, lesmenta, farpante, cortadeira, ossuda, curvada, úmida, embutida em multiplicações, chuviscada nas poeiras pueris do Homem. A gente meio que se recolhe, depois de tanto a gente se encontrar nos versos do poeta. Depois o Helder reforma as coisas da casa dele com o verniz do novo olhar. Destapeta tudo, tempera, conserva, arma, põe fogo, cobre mesa, assenta, mija e caga, ara e dorme. Aí na terceira parte do livro, o poeta vira parteiro e faz brotar um broto, um novelo de luz. Na quarta e última fagulha, Helder lapida um músculo novo batedor dentro do corpo, salga o mar, aquenta o sangue, desenterra, semeia, coça, fratura, parte, mina, até tudo virar alma, ou melhor, musgo. Porque o musgo permanece, mesmo depois dos finais. Feito o sol. Essa coisa tão.


* Imagem: http://www.helderherik.com.br/2011/01/lapide-e-musgo-ou-poesia-escatologica_21.html

domingo, 4 de setembro de 2022

À CIDADE, de Mailson Furtado


 

Vídeo sobre o livro "à cidade", escrito pelo cearense Mailson Furtado. O livro teve produção independente e foi agraciado com dois Prêmios Jabuti em 2018 (categorias poesia e livro do ano), algo inédito até então. "à cidade" é um poema-elogio ao interior dos brasis mais profundos e originais.

#àcidade #mailsonfurtado #literaturabrasileira #oequadordascoisas

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Nossos desacontecimentos

*
Por Germano Xavier

"Nesses anos todos testemunhei muita gente se alienar da própria escrita 
para não sofrer. É uma alternativa. Bem cara. Para mim essa escolha 
nunca foi nem desejo nem possibilidade. Eu era o que escrevia. Sou."
(Eliane Brum)

Nascemos e morremos várias vezes durante nossas vidas. Eis uma grande verdade cuja escapatória o homem ainda não soube descobrir. A vida assim é constituída, de ressurreições e falecimentos diários, cotidianos. A memória se serve de algumas porções de história e guarda o que é mais urgente. Mas nem tudo sobrevive às intempéries do tempo, que tritura e dilacera.

Nascer, como podemos suspeitar de antemão, não é uma tarefa das mais fáceis. Morrer dói. Renascer pode doer mais ainda. Desta forma, em pedaços, nossos corpos e corações são feitos para durar até o limite da dor que não podemos suportar. A fronteira entre o que podemos e o que não podemos aguentar está diante do que parece simples, como uma página em branco pousada sob um lápis ou um mero olhar sobre o comum.

Escrever pode ser a salvação quando os nossos nascimentos passam a se confundir com nossas mortes. É sobre a invenção da vida a partir da palavra que trata o livro MEUS DESACONTECIMENTOS a história da minha vida com as palavras, da renomada jornalista Eliane Brum. Um livro nada singelo - e até rude - sobre a menina quebrada ou o menino quebrado que pode existir dentro de cada um de nós.

Nossos desacontecimentos podem imperar a qualquer momento, podem nos sufocar, mas também são a partir deles que podemos retirar a maior parcela dos aprendizados que nos conduzirão por toda a nossa jornada vital. Nossos desacontecimentos acontecem todos os dias, ininterruptamente. Enxergá-los com serenidade pode significar a condenação brutal ou o fértil arremate em prol de um futuro melhor, mais digno e justo.

E a palavra, onde entra em tudo isso?

A palavra, como ser-de-fazer-ser, sacrifica-se para produzir a vida que nos falta. Escrevendo somos mais do que sabemos ser. A palavra nos ponteia, transporta-nos para além do que somos ou pensamos ser. A palavra ajuda a fazer travessias. Mas, cuidado: a palavra fere, macula e pode matar. O mundo sem palavras é escuridão, como nos diz Brum. Para sair de local tão funesto, saber ler o banal que nos transforma é talvez a provável saída mais inteligente.

Autobiográfico por excelência, MEUS DESACONTECIMENTOS não fica só na área da crônica acerca da infância da autora. É mais um apanhado sobre paixão e amor pela palavra escrita e/ou oralizada/contada do que qualquer outra coisa e merece a atenção do cuidadoso leitor. Brum encanta e desencanta nos encantando, coisa que só os bons escritores conseguem fazer.

domingo, 21 de agosto de 2022

GUIA PEDALAR NA CHAPADA DIAMANTINA - OITO TRECHOS MAPEADOS, de Marcelo Rudini


 

Vídeo sobre o GUIA PEDALAR NA CHAPADA DIAMANTINA - OITO TRECHOS MAPEADOS, escrito e vivenciado por Marcelo Rudini. Notas importantes para se praticar ciclismo de aventura por um dos lugares mais bonitos do Brasil e do mundo.

#marcelorudini #guiapedalar #chapadadiamantina #oequadordascoisas

domingo, 14 de agosto de 2022

SE O DISSERES NA MONTANHA, de James Baldwin


 

A professora e artista visual angolana Cristina Seixas fala sobre o livro SE O DISSERES NA MONTANHA, do escritor norte-americano James Baldwin. Publicado pela editora Alfaguara, este foi o primeiro romance escrito por Baldwin. O livro escancara ao leitor as condições reais da população negra estadunidense em meados do século XX e, ao mesmo tempo, apresenta-se como uma ficção autobiográfica que, por sinal, consagrou o autor como uma das mentes mais brilhantes de sua época. De quebra, fique com mais um vídeo produzido por Angélica Carem para a coluna Fala & Escuta.

#jamesbaldwin #seodisseresnamontanha #literaturanorteamericana #oequadordascoisas

domingo, 7 de agosto de 2022

O escritor das serranias diamantinas



 Por Germano Xavier


A existência deste texto não parte do agora, i.e., do tempo do presente instante, mas de alguns muitos anos atrás, mais precisamente a partir do dia em que mantive contato - em primeira leva - com os textos dele: o Sr. Ângelo de Mattos Pereira, uma das mentes mais abençoadas desta pacata cidade chapadense e baiana de nome Iraquara. A bem da verdade é que sempre tive vontade de entrevistá-lo, iniciar uma conversa com este homem de letras vigorosas, aprender apreendendo o seu mundo - que também é o meu mundo, o nosso, patrimônio de todo iraquarense e/ou habitante da inigualável Chapada Diamantina-, mundo regado de recordações, poemas de expressividade nada parca, contos cativantes no encalço de assuntos pertinentes à nós, histórias de se prender atenções, estórias de se atravessar gerações, realidades puras, ficções mais puras ainda... sempre, sempre foi a minha intenção senti-lo assim de mais perto, alma tão gigantesca, mas se antes não tive a força necessária para produzir fatos a partir deste meu desejo, foi por me saber ainda despreparado para tal. Um encontro assim não poderia ser elaborado à revelia, sem os devidos preparativos. Era preciso um cuidado todo especial, ler mais coisas sobre ele, dele, escutar mais, suspeitar mais, amadurecer mais... só assim o caminho do nosso primeiro encontro dar-se-ia em mais validade para os propósitos futuros.

Pois sim, foi na manhã de uma sexta-feira, dia 20 de janeiro de 2012. De casa saí em direção à residência do escritor - as horas que vingariam prometiam um teor de vida muito grande. Minha imaginação especulava muito sobre todas as coisas e seus respectivos equadores. Algo de muito maravilhoso eu estava para presenciar, enfim. Porta da casa do escritor: tudo muito natural. Manhã nem quente nem fria. Céu aberto. Falei com o filho do escritor logo na entrada, mãos trocadas e apertadas, e ele entrou para avisar ao pai que o rapaz jornalista da entrevista tinha acabado de chegar.

Fui no tracejo marcado pelo filho, entrando-me sem receio, o Sr. Ângelo estava retirando algumas sacolas de dentro de seu veículo, dentro da garagem de sua morada. Recebeu-me com um sorriso divertido no rosto e um aperto de mãos alongado. Jeito simples, olhar simples, ser humano. Terminou a tarefa que estava fazendo com um pouco mais de pressa e logo pôs passos nas pernas em direção ao andar superior, convidando-me a segui-lo, por onde se via uma espécie de plaqueta em tinta com o seguinte dizer: Toca do Poeta.

Uma certeza: eu estava no lugar certo, no abrigo das letras, na fábrica de poemas e contos de um dos maiores nomes da literatura (seja de ficção ou não-ficção) regional de nossos dias. Não é todo dia que podemos nos encontrar com um poeta vivo, fato que substancia ainda mais o valor daquelas horas para mim. Subimos, ele meio de lado, pisando com firmeza os degraus, em paciente subida. Fiquei no primeiro degrau, enquanto via o molho de chaves nas mãos do poeta, tremulando. Ele tentou uma, a porta não abriu. Escolheu outra chave, a porta continuava sem querer ser aberta. Até que na terceira tentativa, a porta que dava para o interior da Toca do Poeta descerrou-se e, encantado com o encantamento do aposento – de uma simplicidade comovente -, fui me atirando nos dentros do lugar, ao passo que o Sr. Ângelo organizava alguns objetos que se encontravam sobre a mesa.

Sentamos, compartilhando de uma mesa em madeira escura. Opostos, um de cada lado, num mesmo frenesi baseado em cumplicidade e respeito. Eu, um mero aprendiz das artes e gracejos das palavras, jornalista ainda mais mambembe, ao lado de um homem já de vida plena que hoje está preparando o seu quarto livro, este intitulado de Odisséia dos Coronéis Sertanejos, já quase finalizado. Os outros são, por ordem de publicação, respectivamente: Fragmentos de Saudade (2006), O Império das Serranias (2008) e Realidades Telúricas (2009). O que seria uma entrevista, logo nos primeiros minutos desmanchou-se de formato e deu lugar a uma prosa inesquecível de quase três horas de duração – não tinha fita de gravador que resolvesse.

Questionado sobre a infância, o poeta começou a falar sobre sua árvore genealógica. Família com antepassados de Portugal, avó materna portuguesa. Nascido no dia 19 de junho de 1939, na encosta de um outeiro na Vila de Olhos D’Água do Seco, em Ibitiara-BA, ainda adolescente perdeu a mãe, quando ainda tinha de 11 para 12 anos, vitimada de doença do coração. Filho legítimo de Rosalvo Pereira e Maria de Queiroz Pereira. Contou-me que o pai casou-se novamente após a morte de sua mãe, que gostava também da madrasta, a senhora Leonília de Queiroz Pereira, mas era da mãe Maria que o filho tecia as mais saudosas considerações e reminiscências.

Ele recorda, no que senti um tantinho de emoção na fala e nos olhos, do dia em que viu pela primeira vez o retrato da mãe pendurado numa parede. “Eu nunca tinha visto uma foto da minha mãe. Naquele tempo só se via foto de gente “importante”, ligado à política. Foi uma grande surpresa para mim. Ela estava linda.” Depois que o pai morreu, foi morar em Lençóis-BA, na casa de um irmão. Era o ano de 1958. Assim que atingiu a maioridade civil, veio para Iraquara, onde fez o curso de magistério e trabalhou 35 anos exercendo o cargo de Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais com Funções Notariais. Cursou Letras e Artes na Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia e, depois de aposentado, começou a perceber que sua vida estava muito parada, sem grandes novidades nem atrativos. E foi justamente após ter parado de trabalhar que o Sr. Ângelo de Mattos Pereira sentiu a necessidade de começar a escrever.

O poeta relata que sempre teve tendência para a escrita de textos dos mais variados formatos. “Em Ibitiara, certa vez uma professora chamada Lindaura de Brito, minha primeira professora, me passou um trabalho. Lembro como se fosse hoje. No outro dia entreguei-o pronto, todo feito em versos. Eu nem sabia o que era um verso. Eu me lembro dela dizendo: Isso aqui é uma poesia. Você é poeta, meu filho!” Tudo estava iniciado, como se tudo já estivesse escrito há muito tempo no destino. Sr. Ângelo citou alguns nomes dentro da família que também escreviam, a citar o seu avô materno, exímio poeta e médico, assim como também o grande e polêmico Gregório de Matos Guerra, conhecido também como “Boca do Inferno” e que, segundo o escritor iraquarense, é parente bem chegado dentro da genealogia familiar.

Entre uma e outra nova informação sobre os três livros de sua autoria que estavam sobre a mesa, pediu-me que eu lesse em voz alta o poema “A Terra não nos pertence”, que está na orelha do seu terceiro livro, o Realidades Telúricas. Ao passo que lia, sorria como que dizendo: “Não é verdade? Concorda comigo, Germano?” Um belo exemplar das temáticas mais trabalhadas pela verve do poeta-escritor, poema mesclado em linguagem culta e coloquial, com forte presença metafísico-religiosa. Falou-me de como se deu o processo de feitura e escolha da capa, e do quanto gostou da que trazia a figura de um anjo negro sobre a Igreja de São Francisco, na capital soteropolitana. “Era a capa perfeita”, balbuciou, feliz.

Ao passo que a parola se desenrolava, Seu Ângelo, como é mais conhecido pelos iraquarenses, reforçava a idéia do interesse pela escrita nascido depois do recesso do trabalho no setor da Justiça. “A gente tem tudo na cabeça. A gente sabe disso. Você mesmo sabe do que estou falando. Mas é o que é melhor dentro de tudo que possuímos que a gente deve cultivar. Todo mundo carrega tudo dentro de si, até as doenças estão dentro da gente, mas devemos tentar desenvolver só aquilo que é bom. Foi assim com a minha escrita. Eu sabia que tinha isso dentro de mim. Um dia sentei e comecei, e estou até agora. Não tenho vontade de parar. Hoje escrever é uma das coisas que me dão mais prazer. Vou lendo, vou escrevendo, aplicando alguma coisa de minhas experiências, arrumando outras informações e os textos surgem naturalmente. Eu pensava muito em como eu iria começar a escrever, mas aí as idéias foram surgindo, fui fazendo pesquisas também, e pronto, decidi escrever. Nessa brincadeira, já vou em quase quatro livros, e o quinto já vem aí, que será sobre a genealogia da família Matos.” Sobre o quinto livro, o mestre deu uma palhinha: “O primeiro da família Matos foi José Pereira de Matos, que chegou de Portugal, era um alferes, mais ou menos o que representa um sargento hoje e viveu em Santo Inácio. Quando ele chegou em Santo Inácio, casou-se com uma tapuia...”

"A melhor escola da vida é o mundo, e a melhor escola do mundo é a vida", soprou o mestre iraquarense, num movimento inesperado. Seu Ângelo geralmente escreve na parte da noite, após o jantar, indo até a meia-noite. Falou-me que gosta mais de escrever quando a cidade está bem parada, com pouco ou quase nenhum movimento, "quando até parece que Deus pára para ver a gente lá de cima", retrucou. É assim a sua tática de produtividade textual mais comum. "Eu adoro ser entrevistado, sabia?!", exclamou perguntando, da mesma maneira inesperada. "Muita gente começou a me visitar depois que comecei a publicar meus livros, gente de faculdade, estudantes, etc. Eu gosto por demais disso", revela.

Seu Ângelo chegou em Iraquara no ano de 1958, muito novo, ficou na casa de uma senhora, que servia de hotel, e acabou casando com a filha dela, Helenita Pereira Matos. Disse que veio para Iraquara porque ouviu dizer lá em Lençóis que havia uma vila, nem cidade era ainda, muito boa de morar, mais tranquila, de povo ordeiro e hospitaleiro. “Eu tava procurando um lugar para morar, aí vim para cá. Quando eu cheguei, a política me colocou logo para trabalhar no cartório, ganhando pelas custas, porque não era registrado naquele tempo... depois veio o concurso, e fiquei trabalhando até me aposentar. Naquele tempo só tinha buraco, terra, nada era calçado, quando chovia era um lamaçal, mas o povo era muito bom, aí fui ficando por aqui mesmo.

Teve ele outras oportunidades de morar em localidades várias, porém preferiu ficar em Iraquara. Com trinta e poucos anos foi que entrou para a faculdade de Letras, chegou a lecionar Língua Portuguesa e foi também vice-diretor do Centro Educacional Manoel Teixeira Leite, algo em torno de dois anos, porém depois ficou só no cartório. O escritor foi também quatro vezes vereador, em mandatos consecutivos, e candidato a prefeito, não conseguindo se eleger. “Não vou dizer que perdi, porque eu tiro esse fato como uma lição.” Sobre esta experiência, diz que se envolveu com a política porque a família era muito ligada nisso. “Quase todo mundo do meu sangue era da política. Tudo que fosse bom para as pessoas, eu buscava ajudar. Ajudei a fundar o segundo grau no C.E.M.T.L., eu registrei o segundo grau aqui na cidade.

Entrado em questionamentos mais metafísicos direcionados por minha curiosidade, começou: “Eu sou eu mesmo. Eu sou uma pessoa de família pobre, apesar de ter gente muito famosa dentro da família, a citar o coronel Horácio de Matos, que era primo carnal de minha mãe. Horácio de Matos tinha muito nome, era um cara quase analfabeto, foi Senador Estadual e muitas outras coisas, e continuou mandando na Chapada Diamantina todinha por muito tempo. Foi ele que fez a Chapada Diamantina, foi ele que escreveu a história da Chapada Diamantina. Certa feita eu ouvi um senhor dizer - ele era do começo do século passado -, que a história que se sabe do coronel Horácio não é nem metade da que ele realmente ajudou a fazer.”

Narrou um pouco sobre as antigas rixas entre famílias da região, inclusive com a sua, na localidade onde hoje é o Cochó do Malheiro, perseguições por causa de fazendas e terras, entre tantos outros motivos. “Perseguiram meu pai, perseguiram meu avó. Meu pai contava que um dia estava em sua casa, na fazenda, aí de repente chegava um caminhão cheio de soldados, e que eles corriam pelos fundos da casa, escondiam-se e lá ficavam horas e horas esperando eles irem embora. Um dia minha mãe me contou que todos da casa se esconderam perto dum riacho, e quando voltaram para casa os soldados, de prontidão, perguntaram por meu pai. Minha mãe disse que ele havia viajado, mentindo, como proteção. Um fuzil atrás da porta dava para ser visto. Eles iam para matar mesmo. Iam matar o meu pai. Sobre minha mãe, eles diziam: “Deixa, é mulher”. Se fosse meu pai tinha matado ali mesmo. Minha mãe era muito corajosa, morena, dos cabelos grandes, muito bonita, me lembro dela até hoje”, reitera.

As lembranças de uma Iraquara que não existe mais ainda continuam vivíssimas na mente do poeta, memórias vivas do período de emancipação da cidade de Iraquara, em 05 de julho de 1962. Era um homem muito novo, mas ajudou muito. “Aqui era muito atrasado, não tinha nada, todavia eu tenho saudade daquele tempo...” Foi me contando como tudo aconteceu, os primeiros mandatos, as primeiras confusões e embates, as disputas partidárias e as vaidades de alguns políticos. “Eu montava numa bicicleta e ia até a casa das pessoas tentar contribuir com alguma coisa em minha carreira política, fazer um favor, trazer um benefício, também ia no lombo de animal levar um remédio, um pouco de comida, tudo que eu pudesse fazer, eu fazia... naquele tempo quase que não se via automóvel por estas bandas”, balbuciou, com uma voz um pouco trôpega.

Sobre seus primeiros livros, a começar de Fragmentos de Saudade, diz ter escrito com o propósito de resgatar a cultura de nossa gente, que fez pesquisas sobre a Chapada Velha, sobre as formações rochosas... “Meu primeiro livro é muito apegado à minha mãe, saudade dela, daquele tempo, ela gostava mais de mim do que qualquer outro de seus filhos. A gente tinha tanto amor! Era uma pessoa muito prestativa, de coração enorme. Por exemplo, quando ela sabia que tinha uma pessoa com furúnculo, podia estar onde estivesse, ela preparava um espinho de mandacaru e ia lá furar ele, todo dia, até sarar o ferimento da pessoa.

E seguiu dizendo do seu papel de escritor: “O poeta não estuda, o poeta nasce. É o dom que deus dá.” Citou um pouco da história das polêmicas envolvendo Gregório de Matos e também do movimento Barroco e riu lembrando-se de várias passagens do poeta baiano. Falou da palmatória, instrumento de madeira com um furo no meio que sua mãe mantinha em casa. “Às vezes eu fazia alguma coisa errada, aí ela me batia com a palmatória. Quando doía muito, eu a abraçava chorando e ela chorava junto comigo.”

Ainda sobre a sua formação, recorda: “Se eu pegasse um pedaço de jornal no chão, eu lia todinho, um livro velho, qualquer coisa... Não havia tantos livros como hoje. Um dos autores que mais eu admirava era Erasmo de Carvalho Braga, educador e intelectual brasileiro. Ele escrevia contos, dissertações, ficções, os livros dele eram muito aplicados nas escolas. Naquele tempo a gente lia mesmo, tinha que decorar o significado das palavras do livro, porque a professora ia perguntar a gente no dia seguinte. Era só uma professora para toda a turma. Eram mais de 40 alunos. E eu sempre fui um dos mais adiantados. E quando era trabalho escrito, eu fazia tudo em verso. Eu amava minha professora. Quando ela me via, corria e vinha me abraçar”, lembra, emotivo. Sobre o livro Império das Serranias relata que ele nasceu depois de um convite de um amigo para conhecer a gruta da Torrinha, umas das mais completas em espeleotemas do mundo. Já o intitulado Realidades Telúricas diz ser um compêndio que reúne textos acerca de vários assuntos, do mais trivial ao mais filosófico.

E, como que de chofre, o tempo foi atravessado nas horas, certeza de amizade eterna travada. Era hora de deixar o poeta fazer sua refeição da tarde, porque poetas não são deuses, poetas são homens comuns – o que é muito mais difícil de ser. Fui me despedindo, depois de ser presenteado com dois exemplares autografados pelo autor. O Sr. Ângelo de Mattos Pereira relatando umas lembranças muito antigas, de crianças pobres que de perto via quando ainda era criança, no que destacando também seu lado humanitário aflorado nos dias de agora. Ao passo que ia colocando todos os materiais da entrevista dentro de minha mochila, reparei que atrás de onde eu permaneci por quase todos aqueles minutos estava um quadro com a imagem de Gandhi. “É preciso fazer o bem, meu filho, o bem. O bem em prol do Belo”, finalizou, num até breve sincero e amigo.

TESES SOBRE FEUERBACH, de Karl Marx


 

Vídeo sobre as TESES DE FEUERBACH, do filósofo alemão Karl Marx. Publicado pela editora Centaur, o conjunto de 11 teses curtas representa um dos grandes marcos da carreira do pensador que levou adiante as diretrizes do pensamento socialista no mundo.

#karlmarx #astesesdefeuerbach #literaturaalemã # filosofia #oequadordascoisas

sábado, 6 de agosto de 2022

REFLEXÕES SOBRE A PESTE, de Giorgio Agamben


 

Vídeo sobre o livro REFLEXÕES SOBRE A PESTE, do filósofo e ensaísta italiano Giorgio Agamben. Publicado pela editora Boitempo em 2020, o livro traz algumas impressões polêmicas ainda do início da pandemia do novo coronavírus no mundo, e em especial na Itália.

#giorgioagamben #reflexõessobreapeste #literaturaitaliana #oequadordascoisas

terça-feira, 2 de agosto de 2022

A Nova York de E.B. White

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Por Germano Xavier

"A prosperidade, assim como a depressão, também cria as suas filas de pão."
(E. B. White)

Elwyn Brooks White, ou simplesmente E.B. White, foi um escritor norte-americano que trabalhou em diversos jornais e revistas, autor das aventuras do ratinho Stuart Little (mais difundidas por conta de sua versão cinematográfica) e do célebre ensaio intitulado AQUI ESTÁ NOVA YORK (Here Is New York), publicado no ano de 1949 e motivo-mor destas rápidas impressões.

O escritor, misturando veios jornalísticos com uma delicada apuração sensorial da atmosfera da cidade, entrega ao leitor logo nas primeiras páginas uma Nova York de meados do século XX repleta de flagelos e encantos. De antemão, forjamos a ideia de que a cidade que possibilita a dádiva da solidão é a mesma que empresta a todos a dádiva da privacidade, seja você um nativo, um mero gafanhoto que vai-e-vem ou um desbravador que escolheu a Grande Maçã como refúgio. 

O relato, curto e com traços impiedosamente poéticos, beira a perfeição textual, bem aos moldes de um New Journalism. Saímos de sua leitura com vontade de conhecer a cidade que White retrata, curiosos por saber se ainda hoje, em pleno século XXI, Nova York mantém as mesmas características explicitadas no ensaio, dura, rude, luminosa e autêntica em seu cosmopolitismo. Ficamos, nós leitores, meio que atordoados por saber se a “lei” dos 45cm ainda representa a medida exata entre o elo que aproxima e a distância que dissipa o anonimato da fama.

A Nova York de White é a cidade em que podemos contatar Oz em toda a sua misteriosa magia, um lugar de homens que nunca mudam e que também podem ter suas almas reformadas a cada novo quarteirão, uma terra que tem tudo para parar de funcionar a qualquer momento e que, teimosamente, dá certo quase todos os dias, um mundo do mundo que é abandonada nos fins de semana de verão e que se abarrota em outras estações. 

E já no fim do ensaio, num tom profético, como quem suspeitava de alguma anormalidade diante de tamanho e aligeirado avanço da cidade, White escreve: “A mudança mais sutil em Nova York refere-se a algo de que as pessoas não falam mas que está na cabeça de todo mundo. A cidade, pela primeira vez em sua história, ficou destrutível. Uma simples revoada de aviões pouco maiores do que gansos pode rapidamente acabar com essa ilha da fantasia, queimar suas torres, desmoronar as pontes, transformar as galerias do metrô em câmaras letais, cremar milhões. A suspeita da mortalidade faz parte agora de Nova York: no som dos jatos sobre nossas cabeças, nas manchetes pretas da última edição.” Enfim, alguma semelhança com a realidade pode não ser mera coincidência.


Imagem:  http://www.brainpickings.org/2014/07/09/e-b-white-here-is-new-york/