domingo, 24 de setembro de 2023

Viver sobre duas rodas


 

Por Germano Xavier


Poucas pessoas no mundo sabem ou desconfiam que tomei gosto pela leitura, pela leitura mesmo!, lendo – “devorando”, seria o melhor termo - revistas sobre automóveis e/ou assunto semelhantes, como motociclismo, antigomobilismo, automobilismo... Numa época ainda desprovida de computadores e sem a febre atual dos smartphones movidos à internet de fibras ópticas e bandas largas, ler o que víamos ou tínhamos acesso nas bancas de revista ainda era uma espécie de solução rápida e menos custosa.

            Não sei precisar qual foi o ponto de partida, mas o certo é que era sempre uma espera ansiosa pela próxima revista do mês, que chegava ali no interior baiano um pouco antes que nas bancas. Essa era a grande cartada para se optar pelas assinaturas anuais ou bianuais. Eu tinha as minhas preferidas: Quatro Rodas e AutoEsporte. Foi no fim de minha infância e no início da adolescência que comecei, então, a curtir a ideia da liberdade e da velocidade, como elementos de prazer e de “desobediência civil”, claro, anos mais tarde aflorados no imaginário e nas ações cotidianas.

             Apesar da maior parte das leituras terem sido sobre carros, foi a motocicleta a grande paixão adolescente daqueles idos. A moto era, por assim dizer, um sonho bem mais próximo, diria. Alimentei o desejo de possuir uma até o momento em que comecei a ganhar meus primeiros centavos de Real na vida como professor. Foi quando, num dia bonito de minha juventude, saí com uma motocicleta novinha em folha de dentro de uma concessionária na cidade de Jacobina-BA. Nem bem terminei de assinar toda a papelada, caí na estrada com ela.

            Lembro-me do coração feliz dentro de minha caixa torácica, do vento na pele, da pista passando rente aos meus sapatos gastos, eu me sentindo como a me mover num tapete mágico como daqueles dos melhores e mais famosos contos da Arábia... Aquele dia está, sem dúvidas, entre os dias mais felizes da minha vida. A sensação era quase indescritível e só saberá medi-la quem já passou por algo semelhante envolvendo o mesmo assunto e mesma maquinaria. Podem falar o que quiserem, mas a moto é sim uma invenção fenomenal – e fenomenológica, por que não? - em todos os seus simbolismos intrínsecos, até mesmo quando o debate se cerca dos perigos que envolvem tal veículo.

            Mas não seria tão gostoso andar de moto se não fosse ela, a moto, um risco móvel ambulante. Gostamos do que é arriscado, do que nos causa medo, daquilo que, porventura, tira-nos do sossego ou daquilo que nos apavora, de certo modo. São muitos e diversificados os clichês que englobam moto e motociclista, mas nem sempre precisamos tê-los como manifestações erráticas ou errôneas sobre quem faz do motociclismo parte do seu inteiro-viver. A própria expressão “viver sobre duas rodas” é baliza para inúmeras problemáticas e para egos feridos, óbvio.

            Todavia, acredito que a “vida sobre duas rodas” tem sim os seus encantos e privilégios. No instante em que aceleramos nossas motos, tornamo-nos senhores dos caminhos e enfrentamos ventos, chuvas, todos os tipos de obstáculos ou acidentes geográficos. A possibilidade de nos mover e de transportar nosso corpo e nossa alma para os lugares mais comuns, incomuns ou os mais distantes é por si só uma das maiores maravilhas do estar vivo no mundo, do estar-com-o-mundo e do ser-no-mundo. Sobre uma moto, ouvindo o ronco de um motor cujos pistões sobem e descem logo abaixo de suas pernas, explodindo o combustível que lhe resta, o que impera é apenas o ir e, só depois, o chegar. Cada ida é um medo vencido. Cada chegada, uma nova pessoa feita dentro de si, mais forte e mais poderosa.

            Sou motociclista desde os meus tenros anos de adolescência, agora muito mais compenetrado e sabedor de todas as consequências e temores que abarcam tal prática e gosto. Menos eufórico, mais consciente. Mas ainda louco pela estrada e por todas as suas bifurcações, metafísicas e metafóricas. A estrada é o inimaginável, o esconderijo dos destinos incertos, a mãe de todas as paisagens. Para se chegar a algum lugar, é preciso sempre atravessá-la. De preferência, sem pressa, claro. A estrada, como uma lei, atinge-nos, ataca-nos, sem piedade. A estrada pede, dia após dia, que a vençamos. E, principalmente, que não a menosprezemos. Ser a estrada, eis o segredo.


* Imagem: https://blog.pantaneirocapas.com.br/estradas-para-andar-de-mota/

terça-feira, 12 de setembro de 2023

CRIANÇAS NA ESCURIDÃO, de Júlio Emílio Braz


 

Neste vídeo, o professor e escritor baiano Stenio Erson fala sobre o livro CRIANÇAS NA ESCURIDÃO, de Júlio Emílio Braz.

#criançasnaescuridão #júlioemíliobraz #stenioerson #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 9 de setembro de 2023

eu tenho um verso


 

Por Neuma Rozendo e Germano Xavier


I


me conte seu verso

o mais querido

ou o mais desprezado

aquele que você rasgou ontem

depois jogou na lata do lixo

 

me conte o homem

o menino e a mulher em você

me conte o velhinho

que sai de moto aos noventa

cantando pneu e horizontes

 

me conte seu verso

pra eu fazer de meu

pra eu jantá-lo com café

vendo aquele filme

que vimos juntos

 

me conte seu verso

pra eu interpretá-lo inapropriadamente

e convenientemente esquecer

todo o contexto

e o resto da existência

 

me conte seu verso

secreto, quente, abraço, colo

choro, sofá para dois, lembranças

arte milenar em uso comum

 

me conte seu verso

pra lavar a alma (da Penumbra).

 

(Neuma, Campinas, 20/10/2024)

Para Xavier, o poeta dos altos silêncios.

 


II


eu tenho um verso

esquecido no Tempo

de minha paciência

 

um verso avesso

um verso sem terço

um verso no verso

do Temporal

 

que diz à menina

em rima pobre

caída

no leito do rio

que é o texto

 

você me conhece

você me decifra

você me reforma

e isso me basta

de um modo inteiro

na noite de agora

no dia de quando

as coisas em sendo

a ordem exata

sem data

sem nada

só sendo e tal

 

eu tenho um verso

sedento e seco

que compra a vida

sem medo e real


(Germano, Caruaru, 27/10/2024)

Para Neuma, a poeta-penumbra.

LITERATURA BRASILEIRA DOS ANOS 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, por João Fernando André


 

Neste vídeo, o professor e escritor angolano João Fernando André faz uma incursão pela história da Literatura Brasileira, mais especificamente dos anos 30 até os anos 70 do século XX.

#históriadaliteraturabrasileira #joãofernandoandré #séculoxx #canalliterário #oequadordascoisas

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Os versos grávidos de Maíra Ferreira

*
Por Germano Xavier


“os velhos que um dia
seremos estão pedindo
perdão”

Excerto do poema face a face, de Maíra Ferreira

Maíra Ferreira é o nome da poetisa que estreia sua inaugural fatalidade no mundo das palavras impressas. A PRIMEIRA MORTE é o nome do livro da poetisa e é também o nome do poema que abre seu livro de poemas: “quando era criança tinha um medo/de borboletas como quem não suporta/tamanha delicadeza desde sempre”. Poema-fala de uma grandiosidade perigosa gerada a partir do que é sutil e mantido entre ternuras.

Figuras infantis brincando de ofuscar nossas fatigadas vistas são encontradas nas ladeiras que as estrofes não ousam subir nem descer, como em “entre os instantes e eu vejo pensando que é tudo/na verdade simples e o mundo é no fundo/isso mesmo só isso tudo isso”. Melhor deixar tudo intacto no meio do percurso. Esplendores alheios fazem o papel dos arruaceiros derrotadores de silêncios e iconoclastas.

Cantos de erros em datas importantes que maculam as imensidões, tal qual no trote “e logo é tarde e já se perdeu tudo/o que nunca se teve”. Parece poesia feita em rota marginal, apesar da nítida presença dos saberes universais de ordem. A veia de Maíra discute a pressa das horas sem construção, a vida gasta sem ter motivo real. E pede autorização para romper cada vez mais.

Poema lindo é “pequena princesa”, versos com sal. Referências depostas e provadas no abrir das rimas inexistentes, o livro de Maíra é um exemplo de paraíso caótico. Cada poema é uma viagem, cada um é uma chegada e cada qual uma partida. Somos atingidos. A poesia vence no final da escaramuça, eis a única certeza que o desavisado leitor tem logo no passeio das páginas primeiras.

A palavra como artefato. Arma para dizer, mesmo que nada se compreenda ou mesmo que nada sofra incorporações. A PRIMEIRA MORTE dá vida a uma voz nova que tem vez no singular mundinho das frases quebradas com sanha que todos os poetas inventam de inventar. Outra coisa: poesia que debocha e quem ri não é o leitor. O leitor antes sofre sabendo-se infame e partícipe de todas as peripécias devotadas. O leitor dessas primeiras mortes de Maíra é parte do cortejo. O funeral é de espantos.

Assim: “quando me perguntarem vou ser/completamente aberta/horrivelmente honesta/e por isso aviso/nenhuma verdade vai sair/de mim”. Maíra Ferreira, pois, é o nome da poesia que tem autoridade para ser inaugural, não decepcionar e, ainda mais, para ser horizonte no universo das palavras que mancham papéis de preto em tipos misturados. Falseia tudo cobrindo os equadores (centro) das coisas com o limão das bocas em ira. Palavras grávidas: logo nascerão outras de seu ventre. Favor, não duvidar. Favor, desejar.


* Imagem: Google.

domingo, 13 de agosto de 2023

JAVALIS NO QUINTAL E OUTRAS ESTÓRIAS, de Ana Paula Maia


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro JAVALIS NO QUINTAL E OUTRAS ESTÓRIAS, da escritora Ana Paula Maia.

#javalisnoquintaleoutrasestórias #anapaulamaia #contos #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 23 de julho de 2023

A senhora das manhãs


 

Por Germano Xavier


Uma senhora perambula pela avenida onde costumo fazer caminhadas com uma sacola plástica contendo ração para gatos e cães. Sempre que saio do meu apartamento, geralmente antes das seis da manhã, e passo pelo local, ali na parte final do muro de uma faculdade de Direito instalada no bairro há anos, faço demorar mais meus passos e fico a observar o ritual daquela mulher.

Com uma calma estrondosa, ela deita a sacola no chão e abre-a lentamente. Como num rompante, gatos e gatas se aproximam caminhando pelos altos muros, cachorros e cadelas em situação de rua aparecem dobrando esquinas e vencendo logradouros, afoitos e brincantes. Logo, todos estão reunidos ao lado dela. Esperam, pacientemente, ela terminar de ajeitar potes e completar a água que restou do dia anterior.

Automaticamente, como se soubessem já os gatilhos do “estão liberados, podem comer e beber!”, aninham-se como irmãos de fome e de sede, numa fotografia de rara beleza e harmonia. São muitos. São para mais de dez. Os animais vez ou outra param, entre uma mordida e outra no alimento, entre um gole e outro na água, para olhar aquela altiva senhora que agora inicia o fechamento da sacola e os ajustes finais de seu rito. Eles parecem agradecer com os olhos.

Ela permanece ali, ao lado dos caninos e dos felinos, por um bom momento. Um instante muito singular. Ajusta alguma coisa que saiu do lugar, encaminha olhares para os mais magrinhos, deixa um carinho naqueles que mais se aproximam. É uma cena realmente muito bonita. De uma grandeza e de uma naturalidade incomuns. Aquela senhora ama estar com eles e, certamente, eles sentem o mesmo.

Não vi isso acontecer uma ou duas vezes no mesmo local. É uma imagem constante, como já falei, que abre as minhas manhãs com uma esperança desmedida na humanidade (ou no que restou dela). Depois de toda a movimentação, ela sai de mansinho quando ainda poucos terminam de comer. Gatos e gatas a olham de cima dos muros, cães emparelham-se a acompanhá-la por um bom trajeto, até ela se embrenhar por um pequeno trecho de chão batido e mato ao redor.

Não sei o que a move nem os reais motivos para tal esforço diário. Sua presença, para mim, naquele setor da avenida por onde passo com certa frequência, é como a de uma entidade mística, alguma deidade superior, que precisa ser resguardada dos perigos e das infâmias, para assim poder realizar o milagre imperativo de seus dias: o da distribuição gratuita de compaixão e de amor.

É ela a senhora das manhãs. Quando ela some do horizonte de meus olhos, aperto o passo outra vez, com um conforto insólito instalado em meu coração e em minha alma. Os gatos e as gatas somem de vista, os cães partem para seus dias nas ruas da cidade. Os carros também passam velozes. A manhã passa. Até a vida passa. Mas passa bem melhor agora.


* Imagem: https://www.nationalgeographic.pt/meio-ambiente/as-mentes-dos-caes-e-dos-gatos-afinal-o-que-sabem-eles_2229

sábado, 15 de julho de 2023

A COR DE CORALINE, de Alexandre Rampazo


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro A COR DE CORALINE, de Alexandre Rampazo. #acordecoraline #alexandrerampazo #literaturainfantojuvenil #canalliterário #oequadordascoisas

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O monstro-criança de Mário Rodrigues


Por Germano Xavier



O livro RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016 na categoria Contos. O compêndio do escritor e professor garanhuense Mário Rodrigues decerto que mais lembra - ou se confunde com - um romance aos moldes de um folhetim, já que os textos estão dispostos como cápsulas em composição de um aglomerado narrativo por demais particular e que segue uma linha tênue acerca das peripécias de uma criança em formação e incrivelmente insólita. Porém, como sabemos, tais definições de gênero são bastante difíceis de serem construídas e taxá-lo - o livro - como sendo uma coletânea de contos não é deveras um equívoco.

O menino-monstro - ou com exagerado senso de humanidade -, personagem principal em todo o enredo, não tem nome e nem sente compaixão. A sua maldade, quase sempre crua e ao mesmo tempo ingênua em sua elaboração e posterior análise pré-consciência, é a marca-mor de seu caráter. Maldade que é ruindade mesmo, outros podem salientar. Ambientado no universo dos anos 80 do século XX e com referências diretas a tal época, o livro consegue transportar o leitor para dentro do corpo e da alma do protagonista, o que faz com que o interlocutor receba, também sem dó, uma enxurrada de golpes e de rasteiras morais, estéticas e éticas.

Em princípio, o conto pode bem servir para a distração e, também, para o ensino. Assim suspeitamos. Os contos sobre o “monstro-menino” fazem isso, divertem e ensinam. Muito bem elaborado, e com uma linguagem cruzada de informações que se trocam no presente-passado e no seu inverso, nada no livro parece ficar sufocado ou encoberto. A dimensão da escrita é a da realidade e não a da órbita do que não existe. Por isso mesmo, choca, desnuda em nós uma intempérie momentânea e no fim de tudo, obriga-nos a uma espécie de dissecação interior... afinal de contas, quem nunca cometeu uma perversidade na vida e, principalmente, no período da infância?

Após lida a metade da totalidade da obra, a sedução não sofre corte abrupto em sua essência e somos convidados a encerrar dignamente a leitura só depois da última linha escrita. Findada, pois, eis o milagre: o manto diáfano da fantasia em desabrochares de espanto e, também, de encantamento. Perguntamo-nos: Como pode? É mesmo possível uma criatura nesses moldes? E o escritor, de que maneira fora inspirado? Terá vivido tudo ou parte daquilo quando ainda infante?

Sedução por sedução, de nada valeria o esforço e a empreitada. O livro tem mais conquistas do que perdas. O que importa é o que resta, o que vale mesmo é o que o livro revela. E nesse quesito, não há dúvidas, RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO cumpre bem o seu papel e mereceu o lugar de destaque que alcançou. Um livro que pode ser observado e lido a partir de inúmeros prismas, a começar pelo do nosso próprio umbigo ou pelo do nosso baú de memórias de maldade. Que tal o desafio? Vai encarar?


* Imagem: http://images.gr-assets.com/books/1479861248l/33098856.jpg

sábado, 24 de junho de 2023

TEORIA U, de C. Otto Scharmer


 

Neste vídeo, a economista Rebeca dos Anjos fala sobre o livro TEORIA U: Como liderar pela percepção e realização do futuro emergente, de C. Otto Scharmer.

#teoriau #cottoscharmer #rebecadosanjos #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 18 de junho de 2023

Em tua garganta


 

Por Germano Xavier


você entendeu

que a semente se enraíza dentro

das entranhas do corpo


e me engoliu

com a sede das ervas

que se danam


e que dançam ao vento


meu líquido fez brotar

em você 

nada menos que um instante eterno



* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/l%C3%A1bios-sedu%C3%A7%C3%A3o-sexy-eliciar-839236/

sábado, 17 de junho de 2023

PANDEMIA: COVID-19 E A REINVENÇÃO DO COMUNISMO, de Slavoj Žižek


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro PANDEMIA: COVID-19 E A REINVENÇÃO DO COMUNISMO, do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Fique atento!

#pandeminacovid19eareinvençãodocomunismo #slavojzizek #ensaio #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 10 de junho de 2023

Toda vez


 

Por Germano Xavier


toda vez

que invado 

a tua bunda


que é Templo

feito o mar


toda vez 

que nela entro

venço o Tempo


algo que sempre me pareceu

impossível


* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/er%C3%B3tico-gl%C3%BAteos-molhado-nua-3139549/

quinta-feira, 8 de junho de 2023

MARÇO - MÊS DAS MULHERES | Indicações de leitura, por Cristina Seixas


 

Neste vídeo, a professora e artista visual angolana Cristina Seixas fala sobre os livros MULHERES DE MINHA ALMA, da escritora chilena Isabel Allende, e MARÇO ENTRE MERIDIANOS, da escritora luso-angolana Luísa Fresta. Fique atento!

#mulheresdeminhaalma #isabelallende #marçoentremeridianos #luísafresta #romance #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 3 de junho de 2023

A voz de Anna Akmátova


 Por Germano Xavier

As emoções da razão.


Sim, os russos também sofrem. Os russos também confessam suas dores, seus amargores, seus dissabores. Os russos, apesar da sisudez e do aspecto aparentemente indiferente às coisas do coração e da alma, também comem do pão que o diabo amassa, diariamente, nos quatro cantos da Terra. Os russos, por fim, também sentem felicidade. E a literatura, mais uma vez funcionando como poço de guardações, opera um de seus papéis primordiais: revelar um tempo determinado, dotado de pormenores sígnicos, ou um mundo de símbolos, mesmo que a partir dos sentires de uma só pessoa, de um só poeta, de um só escritor.

Anna Andrêievna Gorienko, nascida em 23 de junho de 1889, adotou o nome Anna Akhmátova e com ele fez registrar uma das passagens mais belíssimas da poesia russa moderna. De opiniões fortes e de atitudes tidas como ameaçadoras para a época, Akhmátova desempenhou papel fundante para a consolidação da voz feminina na Rússia pós-revolução de 1917. Vivendo num tempo marcado pela opressão dos vários modos de expressão humana, a poeta de “soberana presença, nariz aquilino e lábios altivos” – como gostava de dizer - não se deixou corromper pela gratuidade das fraquezas e das rendições da rotina.

Mesmo sofrendo durante toda a sua vida males diversos, muitos de base emocional, a poeta abotoou seu casaco, saiu à rua e fez frente ao frio das horas. Anna não copiou modelos poéticos para criar sua lírica, não imitou suas precedentes russas para germinar seu discurso de luta pela classe feminina, não precisou se ancorar em cânones para aparecer diante de seus leitores. Ela simplesmente deu origem a um novo modo de fazer poesia, agora mais intimista, sem deixar de prezar pelo despojado de recepção rápida. Linguagem clara, versos desrimados, ausência de metáforas, temáticas do cotidiano, ritmo aberto e alígero são algumas das características gerais presente em toda a obra da artista.

Os poemas de “Noite” (Viétcher), seu primeiro livro, destacam-se por serem responsáveis pela elaboração de uma fase inicial muito mais baseada na consciência crítica da autora frente a sua própria vida e aos acontecimentos que, por um ou mais motivos, chegaram a interferir no curso normal de suas respectivas vivências. O apreço à reflexão sobre si mesma indica uma maturação da mulher enquanto ser de ação, que agora não só pensa o pensar, mas também pensa o agir do pensamento, ou seja, a sua atuação no meio em que se vive.

Apesar de se apresentar com uma carga muito grande de intimismos – o que pode ser confundido com uma espécie de fraqueza sentimental -, “Noite” encerra uma idéia generalizada sobre as transformações envolvendo mulher e sociedade, a partir do momento em que fica presente a participação desta voz feminil na tomada de decisões que o cotidiano lhe implica, seja ele familiar ou social. Uma mulher que sente as dores de um matrimônio mal resolvido e que tem no sarcasmo e na ironia prováveis armas para combater o mal que lhe assola são os caminhos mais utilizados pela artista, que também explora os espaços do vazio, do arrependimento e da frustração.

“Rosário” (Tchiôtcki), seu segundo livro, diferente do primeiro, já deixa mais evidente uma voz humana mais consciente de si mesma e do outro, mais centrada nos efeitos dos problemas vividos que perdida na visão do que deles poderiam vir a suceder ou suas causas. Em versejos simples e velozes, Anna vai se permitindo conhecer perante o seu leitor, como em: “... componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima”. Uma vida lhe atormenta, e esta vida faz-se necessária estar exposta, não para o usufruto da lírica da poeta, mas para o aprendizado da alma de um tempo pelos olhos alheios. Há uma espécie de desenvolvimento dos temas que foram matéria basal para seu livro inaugural, com apelos agora mais voltados à paciência e ao agir tolerante, sem o abandono de sua marca rebelde, contrastante da maioria, que reluta, indiferente às tiranias.

Anna Akhmátova escreveu mais de uma dezena de livros em vida, e muitas antologias de sua obra já foram organizadas e publicadas em diversos países. Entre os títulos, estão Revoada Branca, Tanchagem, Anno Domini MCMXXI, Junco, Réquiem: um ciclo de poemas, Sétimo Livro, Poemas Não-Coligidos e sua obra-prima Poema sem Herói. Deixou a certeza de que a palavra é um instrumento eficazmente feroz quando objetiva limpar as frestas de um tempo feito para se esquecer lembrando.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE, de Miriam Leitão


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE, da escritora Míriam Leitão. Ilustrações de Bruna Assis Brasil. Fique atento!

#fláviaeobolodechocolate #míriamleitão #brunaassisbrasil #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 20 de maio de 2023

“SIGAMOS, BUCANEIROS!” – a história de uma parceria com Germano Xavier


 

14 dezenas de textos

partilhados n’O Gazzeta,

ao longo de 10 anos

 

Tomei contacto com o blog pessoal de Germano Xavier, O Equador das Coisas, em 2013. Não imaginava então a firme parceria que daí nasceria e se iria consolidar, semana após semana, através do blog coletivo O Gazzeta. Hoje, volvidos 10 anos, festejamos entusiasticamente com os leitores e todos os companheiros que publicam neste espaço.

Na altura dava eu os primeiros passos no mundo da escrita, sobretudo na imprensa. Começava a levar-me um pouco mais a sério, quero dizer, pois cultivo o hábito de escrever desde criança, mas de uma forma episódica e descomprometida. Nessa altura, em 2013, pensei em participar em projetos literários em vários países lusófonos, para além das minhas duas mátrias: Angola e Portugal.

Se, por um lado, existem afinidades naturais com outros países dos PALOP[1], por partilharmos língua, aspetos históricos e culturais, por outro lado há uma ligação forte ao Brasil, país ao qual nos unem igualmente laços seculares e que para mim sempre foi uma referência em termos de literatura.

Já o mencionei noutros contextos, mas relembro aqui que durante a minha infância e adolescência, mesmo não tendo muitas vezes água, eletricidade nem acesso a bens de primeira necessidade, por causa da guerra, em Angola, tínhamos livros de bolso, entre os quais se contavam obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou José Mauro de Vasconcelos. Essas obras são parte da minha identidade como leitora.




Assim, foi em 2013 que Germano Xavier me abriu as portas da sua casa literária, O Gazzeta, uma vez que O Equador das Coisas era um blog pessoal que eu continuo, aliás, a seguir com o maior interesse, dada a sua qualidade e multiplicidade de temas.

Não nos conhecíamos, mas a reação foi muito calorosa, de tal maneira que não me senti escrutinada nem censurada e comecei a enviar-lhe regularmente alguns textinhos, mesmo com fragilidades, que ele aceitou de coração aberto. Sobre livros, cinema, pintura, música, algumas criações próprias também (ficção), em prosa. Assim nasceram, nomeadamente, as séries dedicadas ao cinema africano, ao cinema lusófono, contos-crónicas agrupados com a designação genérica de Memórias Inventadas e Ficha de Leitura (resenhas), a mais recente das séries, sendo que todas estão ainda em aberto, principalmente esta última.

Percebi depois que Germano é o tipo de pessoa que ensina sobretudo pelo exemplo. Professor, escritor e jornalista, de um dinamismo singular, tornou-se ao longo do tempo num parceiro literário inestimável. Mostrou-se um colega experiente e original, sem medo de arriscar, porém prudente e sensato, coerente e persistente. Com o tempo tornou-se um amigo ímpar, mais novo na idade e mais velho no saber, capitão de uma frota de navios: não sei, sinceramente, como consegue capitaneá-los com tanto equilíbrio, segurança e destreza.

Sinto-me orgulhosa por estar incluída em várias iniciativas com a sua assinatura. Neste caso, falando de O Gazzeta, o motivo da celebração é o facto de contar agora com cento e quarenta textos meus no blog, prova de grande generosidade do seu fundador, que abriu o espaço inicialmente dedicado à Chapada Diamantina a outras regiões e países, estimulando a diversidade de estilos, saberes, assuntos e pontos de vista.

O mais recente texto (meu) no blog, até ao momento, é uma resenha de “Vidas Seguintes”, de Abdulrazak Gurnah (Ficha de Leitura). O primeiro é “O mundo de Vinicius”, editado a 25 de novembro de 2013, que marcou o início desta longa e feliz colaboração.




Pelo meio temos desenvolvido outras experiências literárias singulares. Atrevi-me a traduzir algumas séries de poemas de Germano para francês (As árvores amorosas, O homem encurralado, As coisas minhas de Sophia e finalmente Trompetes para Ennio, entre outros textos poéticos sem etiqueta). São traduções não revistas que resultam apenas da forte vontade de tentar outra orquestração para poemas fundamentalmente belos e densos, joias únicas que me inspiram particularmente. Criámos também um projeto que se alimentou do quotidiano: Entre Mares e Marés, Conversas Epistolares: uma troca de missivas que durou cinco anos, entre dois personagens (Clara e Viana, nossos outros antropónimos) e que nos representam, a mim e Germano; cartas magnificamente ilustradas pela Cristina Seixas, desenhadora/ilustradora ligada à corrente Urban Sketchers e professora luso-angolana, que agora é também parceira no blog e no canal do Youtube O Equador das Coisas. A primeira carta data de 24 de abril de 2015 (Germano concedeu-me o pontapé de saída!). E começa assim:

“(…) Viana?

Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. (…)”

Tenho ainda que referir que Germano apresentou um livro meu de poesia (Março entre Meridianos) aquando do lançamento da edição lisboeta, em julho de 2019, junto com os poetas Manuel Iris (mexicano e americano) e Cíntia Gonçalves (angolana).

E como foi isso possível, uma vez que nenhum dos três vive em Lisboa? Resolvemos o “problema” de forma prática: esses textos foram lidos no local pela Carol (minha filha), pela Maria Fernanda Silva (poeta portuguesa) e pelo amigo Olímpio Neves, com o seu bonito timbre de rádio.

Para mim foi importante ter todas essas pessoas que tanto estimo e respeito à minha volta, os autores dos textos e quem lhes deu voz. E também uma oportunidade para consolidar a aventura literária com Germano, que ao longo destes anos tem apresentado diversos textos críticos e vídeos com a sua leitura do meu trabalho.

Após sete anos de convivência e troca de experiências tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente e de estreitar laços com os respetivos familiares. É um privilégio dado a poucos, um presente da vida.




Nos últimos anos tive ainda a alegria de traduzir para francês os seus livros de poesia O Homem Encurralado e Esplanada do Tempo, ambos com a selo da Penalux, a circular no Brasil na forma de edições bilingues (português-francês) em diversas plataformas. Foi um presente maravilhoso que me concedeu o poeta e que não me canso de agradecer. Estes dois livros, que integram a trilogia do Centauro, uniram-nos também aos poetas Regina Correia e Luís Oseth Carvalho, cujos textos abraçam as duas obras de um modo singular.

Para terminar, agradeço calorosamente, não apenas a Germano Xavier, pela abertura e ensinamentos, pela tolerância, mas também a todos os companheiros/as e amigos/as que fiz ao longo destes anos através de O Gazzeta, aos colegas redatores, oriundos das mais diversas áreas. Os vossos textos e vídeos são fonte de aprendizagem e também de bem-estar. Aprender pode e deve ser prazeroso e divertido.

E também, necessariamente, a quem nos lê, apoia, vê e escuta, com paciência, curiosidade e mente aberta, no blog e no canal.

Espero ter ocasião de contribuir durante mais dez anos, pelo menos, com a mesma alegria e energia, junto de companheiros de jornada e amigos tão brilhantes quanto surpreendentes, na sua humanidade e pluralidade cultural e geográfica.

 

Luísa Fresta

Queluz, 18 de maio de 2023

 

Nota: este texto é uma adaptação do artigo escrito a 9 de outubro de 2020, para assinalar cem textos meus no blog O Gazzeta.



[1] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Imagens: Acervo pessoal de Luísa Fresta.

domingo, 7 de maio de 2023

SOL DE INFÂNCIA - MEMÓRIAS DAS MACIAS MANHÃS SOLARES, de Carlota de Barros


 

Neste vídeo, a escritora luso-angolana Luísa Fresta fala sobre o livro SOL DE INFÂNCIA - MEMÓRIAS DAS MACIAS MANHÃS SOLARES, da escritora Carlota de Barros. Fique atento!

#soldeinfância #carlotadebarros #romance #canalliterário #oequadordascoisas

terça-feira, 2 de maio de 2023

Os bichos somos todos nós

Imagem: Google
Por Germano Xavier

“(…) Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todos iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir, quem era homem, quem era porco.”
(Último parágrafo de A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, de George Orwell)

Qual é mesmo a natureza dessa nossa vida se eu sou um ser humano?

Eu sou, sim, um ser humano. Eu sou um ser porco também. Eu sou um ser cachorro. Eu sou um ser cavalo, aliás. Eu sou um ser corvo, vez em quando. Eu sou todos os seres bichos possíveis e não sou diferente de você, que lê este texto agora. Somos aquilo de que participamos e aquilo de que não participamos, aquilo de que compartilhamos e aquilo de que não compartilhamos, aquilo de que protestamos e aquilo de que deixamos de protestar, aquilo que dissemos e mais ainda aquilo que não saiu de nossas bocas. Somos e ao mesmo tempo não somos, enfim, bichos.

Utilizando-se da imagética confabulatória de uma fazenda, repleta de animais diversos e de situações também as mais variadas possíveis, o escritor Eric Arthur Blair, ou simplesmente George Orwell, dirige-se ao leitor com uma sanha mordaz por reflexão acerca do comportamento humano de todos os tempos, e principalmente a tocar sobremaneira em algumas passagens históricas importantes ao mundo, tal como a Revolução Russa, fator que serviu de alvo para a obra.

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS pode ser considerada uma fábula, não como as que o grego Esopo e o francês La Fontaine escreviam, sem dúvida, mas uma fábula mais longa, onde o desejo de um porco por criar uma granja gerida somente por animais, e que estivesse bem distante de qualquer espécie de exploração humana, termina por elaborar uma concepção vital moderna e tida como revolucionária, fato que provoca uma mudança total no modo como a categoria dos bichos lidavam com suas próprias existências.

A moral da história já nos é bem conhecida, ou nem tanto. De uma "revolução" para a gestão de um sistema de governo baseado na tirania é apenas um pulo, e justamente o que acontece no decorrer da trama de Orwell. O poder existe para ser apoderado. Alguém ou algo o exerce perante o outro. Com alguém à frente dos outros a liderar os passos e a caminhada de uma coletividade, a voz imperativa de quem ordena logo se transforma na voz que oprime uma massa de meros ouvintes, de agentes sem-ação, partícipes de uma miserável e indefinível desgraça que mais atinge os que estão por baixo.

Tendo como pano de fundo a Revolução Russa, a historieta deixa claro o ideário de que “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”. Posto que sim, sempre existem os com privilégios. E os devotos. Quem não se lembra dos cavalos no livro AS VIAGENS DE GULLIVER, de Jonathan Swift, que tal qual o personagem Sansão, possuía caracteres de abnegação e devoção demasiado destacados? O livro de Orwell satiriza a facilidade humana de nos desfigurarmos moralmente, esquecendo-nos de máximas éticas e racionais em prol de uma conduta totalmente arbitrária, ligada essencialmente ao momento.

A classe operária inglesa dos anos 1930 passava por dificuldades sociais e econômicas. Eis o leitmotiv. A alegoria de Orwell pincela o processo evolutivo da Granja do Solar, nome da granja onde ficavam os bichos antes da "tomada de poder", que vai de um sonho socialista a um pesadelo ditatorial em cerca de cem páginas.

Garganta, Mimosa, Moisés, Major, Napoleão, Sansão, Bola de Neve, Benjamim e Quitéria são os personagens de um livro que fala sobre a busca por liberdade. O homem, para todos eles, era visto como um agente inimigo e por isso deveria ser extirpado. Para isso, os porcos liderariam o movimento, pois eram tidos como os mais inteligentes. Criaram um sistema de pensamento, ao qual chamaram de Animalismo. 7 mandamentos regeriam a turma inteira.

Todavia, o senso de democracia é maculado aos poucos, sempre no desígnio de favorecer os mais "poderosos". Alguma semelhança com a realidade não é mera coincidência, aviso. O discurso é mudado, os rostos também se transformam. Não se sabe mais a quem os bichos serviam e por que lutar. O líderes, antes iguais aos demais, começam a se diferenciar e a ostentar suas regalias sem fazer nenhuma cerimônia até os estados de alma serem sufocados de uma vez por todas pela insegurança. A REVOLUÇÃO DOS BICHOS é um livro fundamental para entender o homem e as circunstâncias que o perfazem. Eu não passaria a vida inteira sem lê-lo se fosse você.

domingo, 30 de abril de 2023

A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, de Marcelo Maluf


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, do escritor Marcelo Maluf. Fique atento!

#aimensidãoíntimadoscarneiros #marcelomaluf #romance #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 2 de abril de 2023

1968 – Um ano que eu queria ter vivido


Por Germano Xavier

Qual a diferença entre uma história escrita por alguém que realmente viveu a história que foi narrada em seu livro e uma história escrita por alguém que não viveu na pele a respectiva história que é narrada por suas mãos? Há quem diga que não há diferença alguma, que existem meios de o escritor desviar-se de possíveis entraves referentes a tal imbróglio, já outros argumentarão de mil formas diversas apoiando a ideia de que fazer parte literalmente do que é contado no enredo dá a obra um caráter mais denso e aumenta a sua credibilidade enquanto fonte de informação. Roberto Piva, poeta marginal paulista, tem uma frase que pode resumir o pensamento de muitos. Dizia ele que só acreditava “em poeta experimental que tenha vida experimental”. Apesar de não lhe cair bem a alcunha de poeta, o jornalista Zuenir Ventura, autor do clássico 1968 – O ano que não terminou, viu-se impregnado de nódoas oriundas de sua própria realidade quando decidiu escrever o supracitado livro.

1968 – O ano que não terminou é um livro-reportagem, gênero que consagrou os fundadores do New Journalism norte-americano em meados do século XX e que depois se espalharia pelo mundo revolucionando a maneira de se escrever para periódicos e afins. E por pertencer a este padrão, conseguiu dar conta de revelar, com uma sensação de veracidade muito amplificada, boa parte dos acontecimentos que marcariam de uma vez por todas o cenário político-social do Brasil pós-golpe militar até anos após o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que promoveu a censura no país, entre tantos outros desmandos de irracionalidade social-administrativa.

O autor, estudante e militante naquela época, narra com detalhes desde a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda, composta de muitos intelectuais brasileiros, até o fim do ano de 1968, marco de um sentimento de rebelião e desregramento não só nacional, mas mundial, haja vista o nunca esquecido Maio de 68 francês, esboçando também algumas consequências após algumas décadas vividas sob o regime ditatorial. Esta festa seria, como diz o título do capítulo, uma espécie de rito de passagem para o formigamento das expressões humanas e também para o surgimento de uma efervescente juventude disposta a lutar até as últimas consequências a favor de ideias que acreditavam ser relevantes para o progresso da nação.

Parece, ao ler o texto, que o mundo para o povo brasileiro havia sido descoberto justamente naquele ano. O consumo de drogas explodiria em diversos setores da sociedade. As pessoas mudariam quase que totalmente o jeito de se vestir, de concatenar com ideologias reformuladas acerca das relações interpessoais, o mundo, i.e., o povo brasileiro arregimentaria uma condição nunca vista no tocante ao tema liberdade. A música viria a se tornar uma arma contra os mandos e desmandos das autoridades e das máquinas abstratas do poder, com o começo do movimento Tropicalista.

Tudo era ou podia ser ferramenta para construção, instrução e formação humana. O Cinema Novo vingava, fortalecido pelo sucesso dos filmes de Glauber Rocha & Cia, os partidos políticos de esquerda e as organizações clandestinas pintavam os muros com cores de discussões intermináveis, as organizações estudantis eclodiam em congressos e mais congressos, lideranças políticas e artísticas entravam em ebulição e o debate massivo acerca do Brasil militar não arrefecia fácil. Tempos de paixão, pressa, afobamentos e verdades que, senão outra coisa, revelavam ao povo que, unido, ele tinha vez e voz.

Entre as passagens mais marcantes do livro, estão a organização sem organização do movimento que viria a ser conhecido como Passeata dos Cem Mil e a preparação para a votação do AI-5. Lições que Zuenir Ventura nos presenteia com maestria típica de quem fez da própria vida um caderno rabiscado de pautas jornalísticas.

Tomando o assunto para os nossos tempos, o livro ganha ainda mais relevância, apesar de há muito já não ser uma novidade nos meios livrescos, pois constantemente nos deparamos com situações de embate político-ideológico entre diferentes camadas das sociedades, a citar o exemplo do último choque entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e o Estado, na figura da polícia.

Livros como este ajudam a entendermos melhor o porquê da mecânica humano-social do agora, pois serve de manual para sabermos o que houve de bom e de ruim num passado próximo, ou seja, o que pode ser imitado ou melhorado e aquilo que jamais pode voltar a acontecer. 1968 – O ano que não terminou é uma aula de jornalismo para eternos estudantes do jornalismo que, como eu, interessam-se em aprimorar todas as suas técnicas e, também, um registro de civilidade e respeito ao próximo (neste caso, o próximo somos nós, geração esta e outras do porvir), por nos abrir os olhos da história de um país que incrivelmente e quase que inexplicavelmente existiu um dia.

quarta-feira, 29 de março de 2023

PRETINHA, EU?, de Júlio Emílio Braz


 

Neste vídeo, o professor e escritor Stenio Erson fala sobre o livro PRETINHA, EU?, do escritor Júlio Emílio Braz. Fique atento! #pretinhaeu #julioemiliobraz #romance #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 18 de março de 2023

Lados opostos


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


comemoram a vida

seguem a direção do paraíso

e eu me firmo


sujam seus uniformes

maculam suas peles

e eu aprendo a viver


masturbam-se com ilusões ordinárias

e eu espero o Tempo


drogam-se

e eu escuto


desfilam trajes de falsidade

em sorrisos dados pelos cantos

e eu mostro meus dentes


cospem amizades fundamentais

e eu sou o mundo perdido


matam por dinheiro

e eu festejo o fracasso de todos vocês


meu lado é oposto

e assim me contento



* Baseado em poema homônimo escrito em 18/07/2002.

Imagem: Google

sábado, 4 de março de 2023

CIDADE FINADA, de Thiago Medeiros


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro CIDADE FINADA, do escritor pernambucano Thiago Medeiros. Fique atento! #cidadefinada #thiagomedeiros #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

quinta-feira, 2 de março de 2023

A poesia do ascensorista

*
Por Germano Xavier

Literatura é um engajar-se, Sartre vociferava. Convenhamos: há algo de verdadeiro nisso. Mas até quando seria possível manter o punho da voz firme ao sentir que “o fracasso é que a língua perde/ritmo”, como escreve o Gabriel Resende Santos, nascido num Rio de Janeiro em maio de 1994. E se o ritmo está alquebrado, a vida inteira se desmonta. Destarte, acreditar em Rimbaud e Whitman pode ser mesmo uma solução. O menino que questiona “quantos minutos tem a pétala”, é o mesmo que não conta segredos para nenhuma fúria e que sabe que todo “entendimento é um jogo de morte”.

A poesia presente em ELEVADOR tem o corpo sem acomodação, a alma sem afetações e gasta seu tempo e seu espaço tentando gritar alguma coisa no meio deste mundo de inaudíveis - habitado por um gentio estranho, muito estranho. Por tentar tal feito, já deixa a simplicidade de ser mera anotação em papel barato e ganha o status daquelas decididas palavras que nos emocionam por ou em determinado momento de nossas vidas. A poesia do garoto sobe e desce, eleva-se e se revela, releva e desvela a pessoa entrada no cubículo dos sentidos.

O efeito poético que se vê na respectiva obra brota de um ritmo aparentemente sólido e por demais amarrado. O autor trabalha o poema, não parece ser um amontoado de versos sem passado. Há sim um dito com elementos simples e modificações de forma um tanto já corriqueiras neste universo, mas talhada como escultura por mãos de quem realmente emprestou sofrimento à palavra. Como pregavam os gregos, o texto poético é aquele que cria alguma coisa, indefinida, mas alguma coisa. Eis a mais simplória definição da poiesis, conceito ao qual Gabriel se enamora em ELEVADOR.

Como não existe uma definição perfeita para a boa ou para a má poesia, os aspectos essenciais de uma obra ficam mesmo nas garras dos olhos-tempo do leitor, ser quase sempre ensimesmado que irá confrontar as estrofes lidas enquanto complementa o vago possível dos eixos em verbo com a ideia mais precisa do instante. A poesia de ELEVADOR acredita na grande beleza plástica que a palavra pode exprimir, mas não se deixa morrer neste detalhe.

Fala-se muito em mistério quando o ser enunciado é a poesia. Dá-se margem a rios de águas que correm por este mundo. Emoção demais, dizem, pode nublar a vista real das notáveis importâncias. Todavia, escrever é um passo para se sair dos labirintos – ou para se adentrar ainda mais por eles. E escrever poesia num mundo tão surdo-mudo quanto este em que vivemos soa como uma necessidade digna de aplausos. Portanto, uma salva de palmas para o ascensorista.


* Imagem:  http://www.evento.br.com/eventos-arquivo/382263/lancamento-do-livro-elevador-poemas-de-gabriel-resende-santos