segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ardidas memórias

*

Por Germano Xavier


Uma vez eu me perdi com minha prima no sítio do meu avô. Eu tinha uns dez anos de idade. Ela, uns doze. Tínhamos ido buscar mangas e nos perdemos. O sítio ficava a bons quilômetros do centro da pequena cidade onde morávamos. Interior daqueles bem frondosos. Fomos aparecer no sítio vizinho, entre o cair da tarde e o raiar da noite. Andamos em mata fechada e nos arranhamos muito. Minha mãe já existia desde então. Remedinho nas mãos. O ardido nos ajudou. Evitou infecção. Quem sabe, até a morte.

Glorioso.

Viva como nunca. A memória é assim, inesperável. Quando menos se, lá ela em nós, em recordações a nos fazer parar.

Estanquei.

Naquele dia, sem cadeira de balanço, ali mesmo à mesa da lanchonete no centro da cidade feroz, um eu, um de mim, homem já formado, trinta e poucos anos, lembrei que a minha infância representou o tempo das feridas abertas. Dos arranhões. Dos cortes. Das sangrias. Não o tempo das dores indefinidas, das dores sem nome, as mais perigosas. Mas o tempo das quedas das altas árvores porque almejei olhar a menina que perambulava no outro quintal, dos joelhos lacerados, dos dedões dos pés topados depois das partidas de futebol no meio da rua.

Quantas saudades das peladinhas a la modalidade “travinha”, onde nossos chinelos serviam de barra!

Agora, no saboreio insosso desta pequena xícara de café impiedosamente frio e adoçado, a contragosto observo que as feridas da infância eram lúdicas, poéticas, não doloridas. Na caixa de medicamentos, que minha mãe guardava por detrás do espelho do banheiro, havia o Merthiolate. Um frasquinho, sempre à espera. Aquela ardência ajudava a imprimir as memórias. Depois, a dor se perdia na beleza e na pureza das lembranças.

O remedinho ardido ajudava a sarar. E ficavam somente as boas recordações do acidente de brincadeira.

Agora ele não arde mais.

Apurei as vistas, como quem busca um resquício de luz no meio do breu. Minha prima nem deve se lembrar.

- Por que a pressa?

- Não estou com pressa, Jó.

- Para onde estamos indo, então?

- Manga verde com sal e pimenta do reino, já comeu?

- Minha mãe me disse que faz mal.

- Crer nisso é que faz mal, Jó. Venha!

Jó era estabanada. Empolgou-se. Saiu abrindo picada para todos os lados com seu corpo, que era maior que o meu. Nem ligava. Eu ria dela, adorando o seu fervor. Coitadinha, foi quem mais sofreu com as arranhaduras naquele dia de exploração.

Difícil mesmo seria imaginar o Merthiolate assim.

Sem a ardência, que me fez armazenar tão bem aqueles machucados, como ficaria a memória real da minha vida? Seria tão viva como é hoje? Saberia eu quantas vezes lacerei o dedão do pé não fosse pelo ritual. De correr para a mãe, que corria com o remedinho ardido. Minha mãe fazia isso. Podia até não fazer. Para os jurados, todas faziam isso. Está no imaginário popular. A ardência está ligada às aventuras da infância. Às descobertas, às pequenas infrações, aos mais íntimos desmandos. Aos projetos mirabolantes que não deram certo. Aos nossos primeiros desgovernos.

Não era uma dor. Era uma ardência. Qualidade ou estado do que arde, do que fica em fogo, do que queima. O que é aceso, cintilante, iluminado. O que possui vivacidade, veemência. Calor. Ânimo. Entusiasmo. Picância. Aí acabaram com. Trocaram o Timerosal, a Acetona e o Álcool pelo Digluconato de Clorexidina. Alegaram um milhão de coisas. Deve ser verdade. Coisas ruins para a saúde. Tóxico. Deu nos jornais, na televisão, nas rádios. O povo foi alertado sobre a mudança na fórmula. Dali em diante, o velho remedinho deixaria de existir, e a infância dos homens seria impressa com tons menos garridos de vermelho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/child-voices-168828904

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Escaramuças e imbróglios sobre gêneros

*

Por Germano Xavier


No texto intitulado EQUÍVOCOS NO DISCURSO SOBRE GÊNEROS, o professor Benedito Gomes Bezerra (UPE/UNICAP) repercute a ideia, sem antes deixar de problematizá-la, de que as problemáticas envolvendo a discussão acerca de gêneros no espaço de competência da linguística foram alavancadas a partir da década de 90 do século XX (o que não é de todo verdade), prioritariamente depois da fomentação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que incorporou o debate sobre o assunto em setores antes ausentes na discussão, tal qual o espaço da Educação Básica em território brasileiro.

A devida introdução da matéria em novos espaços e sua consequente reformulação atitudinal frente às novas demandas de giro e de pesquisa, por alguns motivos, não se deu de maneira completamente tranquila e simples. Um dos fatores, demasiadamente alegado por profissionais e estudantes do ramo, foi o fato de ser o gênero um tema em providencial ordem processual, de caracterização por demais recente, o que, para alguns pesquisadores de renome, não passa de uma ingenuidade até certo ponto grotesca.

Durante o transcorrer das páginas, o professor destaca alguns pontos nevrálgicos no que tange aos equívocos de pensamento/conceituação ao se trabalhar com gêneros, como a citar os conflitos presentes nas dualidades gênero e texto, gênero e suporte, gênero e domínio discursivo, gênero e forma/estrutura e gênero e tipo textual. Com base em recortes avulsos de material publicados em diferentes locais, instalou-se uma aproximação afetuosa para com as bases do problema, servindo de prisma norteador para não iniciados e já iniciados em estudos relacionados ao tema.

Por andarem muito juntos, os conceitos de texto e de gênero dão início às escaramuças linguísticas aqui citadas. Seus caracteres de “materialidade linguística” são importantes pontos de divergência neste embate; claro, cabendo ao texto em si essa especificação de algo de cunho mais material.

Para o caso da diferenciação conceitual envolvendo gênero e suporte, bastaria se pensar que o suporte é algum instrumento onde se instanciam textos em diversos gêneros, a citar como exemplo a rede social Facebook. A bem da verdade é que, sobre tal posicionamento, não há um consenso, explica o autor do texto. Todavia, para ele, seria mais difícil apontar o Facebook como sendo um gênero por questões até certo ponto óbvias.

Acerca do conflito existente entre gênero e domínio discursivo, fica evidente que há uma aproximação palpável do conceito de domínio discursivo com a ideia de esfera de atividade humana bakhtiniana, o que dá ao jornalismo, por exemplo, não a faceta de se portar como sendo um gênero, mas um campo de atividade por onde transitam variedades as mais diversas de gêneros peculiares ao referido espaço de abordagem/uso.

A forma, por sua vez, também não pode ser considerada um critério único para a definição do que realmente seja gênero. Do mesmo modo ocorre com o conflito onde se envolvem gênero e tipo textual. Para o professor Benedito Gomes Bezerra, os tipos textuais se configuram como aspectos composicionais dos textos que, por sua vez, pertencem a respectivos gêneros. Aponta-se, destarte, um caminho mais aprazível e racional para o manejo de tais imbróglios linguísticos, a se fazer perceber quando de um direcionamento possível: esclarecer a relação que há, pois, entre os conceitos de texto, de gênero e de discurso. Talvez, o melhor percurso a se seguir nesta direção.



REFERÊNCIA

BEZERRA, B.G. Equívocos no discurso sobre gêneros. In: DIONÍSIO, Angela Paiva; CAVALCANTI, Larissa de Pinho. Gêneros na linguística e na literatura: Charles Bazerman, 10 anos de incentivo à pesquisa no Brasil. Recife: Editora Universitária UFPE/Pipa Comunicação, 2015. p. 63-79.


* Imagem: http://www.pipacomunica.com.br/works/generos-na-linguistica-na-literatura/

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um sonho


Por Germano Xavier

Sonhei. Sonhei e imaginei o meu futuro - pois que cada um possui um -, mágico e triunfante. Era apenas um sonho, mas era um sonho. E o meu sonho-instante cavalgou aventuras por mundos fantásticos, como se o meu transcendente pensamento fosse um sonho de algum "Pequeno Príncipe".

Precisei voar, por isso estive ao lado do Antoine, quando aquele pequeno avião beijou as areias do Saara. Depois de atingido por uma brutal tempestade de areia, por vez a mais clara metáfora da vida, montei no dorso do grande dragão branco, Fuchur, do Michael Ende, e me aventurei pelos universos da minha própria vida, com uma sandice alegórica, porém essencial, tal qual um engenhoso fidalgo da região espanhola da Mancha, que atendia pelo artificioso nome de Quixote.

E no meu ulular onírico, fui o próprio "Dom" de mim. Permiti-me o caminhar ao gosto do mais brando vento do norte.

Deixei-me, e fui.

Nesse ínterim, senti-me arrebatado, posto que era eu, senhor-tempo, o real proprietário dos castelos que criei...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Temporal


Por Germano Xavier

Não existe sinônimo perfeito, como quase tudo o que há não é ou não pode carregar a perfeição. Esta palavra é um deus, habita o longe, o distante. Uma palavra em branco e, ao mesmo tempo, uma palavra caleidoscópio. A rua era azul de asfalto e verde de árvores. A moça pintada a giz singrou intuitivamente o charco mar de um não-encontro. Exigiu de si mesmo um braço dobrado tristemente e uma mão sustentando a tonelada do rosto. Por vezes era pêndulo o braço. O significado não tinha o tempo que tinha a menina. Nada poderia explicar o mundo naquele momento de apatia existencial, nem mesmo as palavras. Palavras também são falhas.

...

O que fazer quando o outro não vem? O que fazer diante da amplificação de um eu silente, esperançoso por uma página nova? Como agir quando o adormecer da tarde é a própria alma?
...

Havia escrito uma carta de amor a menina. Desejava entregar a ele quando estivessem juntos novamente, naquela tarde, naquela praça, duas almas e dois corpos sob os auspícios da serra que suspeitava a verbosa panapaná que se origina em surpresas fantásticas quando o beijo acontece. A menina, pois, queria o tempo eterno, eternizado dentro e fora de si, em pulsos que latejam, em bocas que se abrem e que se tocam e que se escolhem pares. A menina queria, mas era só um desejo o querer da menina. Ninguém pode adiantar ou manipular desejos. Tem sempre de esperar o desejo sair de cima dos cadernos que não existem e acabar na vista desterrada de algum códice humano e, agradavelmente, deixar-se desesperar...

Ao passo que queria o seu querer, medava a menina. Porque o medo é o negro, o modelo geral da dor. E o relógio tic-taqueando um tempo que rasgava a carne de um coração que apenas ansiara por amar.

Não sabia a menina que amar é cemitério marinho, fragmento de narciso, esboço de uma serpente. Não sabia a menina que desejar o amor é desconstruir a história, desmantelar Duchamp, forçar o demanhar do dia, beber a felicidade pedindo um coda di Gallo numa mescita madrugadora e depois dizer ao autista do itinerário do recolhimento desgraçado de um pobre coração ferido.

A víbora da vida...

Aí é quando toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se ao lado do humano, como diria o Pessoa, do humano quando não é cristal o pranto, mas sim língua de comer resto, de lamber despojo, de passar na face das celebrações doentias.

E, sentada, a menina ,sozinha em si, quis querer rasgar a carta, riscar a palavra, abafar o papel perfumado, cobrir a impressão da alegria ingênua, findar a espera, nodoar o vestido novo em decote, sujar o sapatinho preto brilhoso, quebrar as pulseiras coloridas... E foi capaz de fazer tudo o que desejou a menina. Só não foi capaz de apagar o tempo, porque o tempo é foragido sem lei, sabedor dos desvios e dos esconderijos...

Serventia


Por Germano Xavier

Para que serve um texto? Certamente, esta é uma pergunta um tanto que pretensiosa, pois estamos dialogando com um assunto bastante amplo e, diria, ilimitado. Mas, por que ilimitado? A resposta é simples: porque os textos (gêneros textuais) sofrem influência do espaço temporal/tempo, assim como de todas as suas vicissitudes, sofrendo mutações constantes (transmutações) em seus modelos de organização e disposição de seus elementos, sem falar que novos gêneros são criados a todo instante, em diversas partes do mundo, em diversas circunstâncias. Os gêneros textuais são maleáveis. Os gêneros textuais refletem as mudanças pelas quais o mundo e o ser humano atravessam. A cada geração, novos gêneros textuais surgem, acompanhando as modernas ferramentas tecnológicas de comunicação que revolucionam o modo de efetuar a transmissão de mensagens, informação, conhecimento. Cabe ressaltar a importância e influência da internet, como também a fundação de um espaço virtual: o ciberespaço. Em outros tempos, as espécies textuais se restringiam ao romance, novela, conto, crônica, fábula, carta, apólogo, farsa, tragédia, ópera, revista, entre outros. Circunferência aumentada, nestes renovados idos, pelo uso do e-mail, torpedos, mensagens virtuais instantâneas. Construir o conhecimento e a cultura de um povo, registrando a história através da palavra e da expressão, este é o papel primordial que legitima a função de destaque dada aos gêneros textuais.

Do verbo poetar


Por Germano Xavier

poeta-me, que eu te conjugo!
transfigura-me, que eu te arrebato!
ponha-me de pé, que eu te desfaço!
sou palavra, sou arco
atirado no escuro...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Um sonho barato


Por Germano Xavier

A rua era a mesma. Algum movimento ali, algumas fofocas de bocas acolá... mas, no final, tudo acabava mesmo no sempre e eterno estado de início. Eram sempre as mesmas pessoas, as mesmas árvores, as mesmas calçadas, as mesmas sinfonias de vozes...

Certa vez, naquelas brenhas, passou um vendedor empurrando um carrinho de mão amarelo. A princípio, parecia um simples vendedor de iguarias caseiras tentando ganhar a vida honestamente. Todavia, quando ouvi de sua boca o anúncio que fazia do seu produto, tive o leve pressentimento de que não valia a pena viver.

O vendedor tinha dito, em alto e bom tom, “Olha aí o sonho! Somente cinquenta centavos!”. Aquela frase não soou bem em meus ouvidos. Posso até estar errado, mas durante toda a minha vida imaginei que os sonhos poderiam ser conquistados, com muito suor e, também com um punhado de sorte, porém jamais pensei que poderíamos comprar sonhos.

Vender sonhos, isso já o tornava um comerciante diferente e, talvez, vanguardista.

Outros poderiam dizer que eu estava exagerando, que eu estava “viajando na maionese” ou demais conclusões. Talvez o sonho fosse mesmo um bolinho feito com farinha, leite, ovos e com recheios diversos. Ora, o que é a fantasia senão a gordura da realidade?

O certo é que o vendedor sempre passava com seu carrinho cheinho de sonhos, e que rapidamente era formada uma fila de crianças, jovens e adultos. Todos compravam sonhos de cinquenta centavos. Alguns com recheio de goiaba, outros com recheio de queijo. Outras preferiam sonhos sem recheio. E os velhos, bondosos, jogavam pedaços de sonhos para os pombos da praça.

Quando a tarde chegava, era sempre a mesma coisa. O homem que vendia sonhos e um bando de esfomeados.

“Olha aí o sonho! Somente cinquenta centavos! Quem vai querer?”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Um brinde ao acaso


Por Germano Xavier

Desde que me entendo por gente que ouço falar do livro Feliz Ano Velho, do escritor Marcelo Rubens Paiva. Por onde andei nestes meus últimos 10 anos, período no qual fiquei longe da minha família, tive diversas oportunidades para lê-lo, porém só agora realizei a leitura completa da obra, best-seller desde o seu lançamento, no início da década perdida (anos 80). Num olhar mais simplório acerca do livro, poder-se-ia resumi-lo da seguinte forma: trata-se de uma autobiografia, que conta as aventuras e desventuras de um rapaz no auge de seus vinte anos, estudante de Agronomia da Unicamp, politizado e apaixonado por música, que vê sua vida virar de ponta-cabeça depois que mergulha a la Tio Patinhas num lago de água barrenta, bate a cabeça no fundo, lesiona a quinta cervical e fica tetraplégico.

Inapropriada visão, convenhamos. O livro ultrapassa a esfera da análise imediatista, para logo transformar-se numa leitura prazerosa, repleta de ironia e crítica, funcionando como um despertador social para os problemas vivenciados pelos deficientes físicos em nosso país. Marcelo, filho do deputado Rubens Paiva, perseguido e dado como desaparecido pelas forças militares no período ditatorial - anos depois a notícia de seu assassinato viria à tona -, tece inúmeros questionamentos diante do sistema político nacional vigente na época, posicionando-se de maneira veementemente contestadora sobre os mandos e desmandos do governo.

Através de suas memórias, o autor faz uma “limpa” dos momentos mais importantes de sua vida, desde antes até aproximadamente um ano depois do acidente em que se envolveu, narrando tudo numa linguagem direta, coloquial e, acima de tudo, descontraída. De tão informal, o texto por vezes ilude o leitor que, atingido brutalmente pela carismática trama, deixa de perceber um humor-negro constantemente permeado por tiradas sarcásticas e polissêmicas. Em diversas passagens do livro, Marcelo brinca (propositalmente) com situações vexatórias e preconceituosas vividas por ele em sua nova condição, ora fazendo o leitor gargalhar ora injetando uma dose de violência no sentido das palavras.

Como ele mesmo quer, sem lamentações, devemos ler o livro não como sendo a história de um rapaz que sofreu e que deu a volta por cima, e que agora serve de exemplo para todo mundo, mas sim como a de um sujeito que opta pela vida, encarando a realidade como ela deve ser encarada, jamais tendo a obrigação de ser forte o tempo todo. Extremamente humano talvez seja a melhor definição para o “enredo”, se é que podemos chamar a nossa própria vida disso. Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo, em 1959, hoje, cadeirante, é mestre em Teoria Literária e escreve para revistas e jornais. Além de Feliz Ano Velho, prêmio Jabuti de 1982, escreveu outros livros e vem se destacando no cenário da dramaturgia, destaque aqui para a peça Da boca pra fora – e aí, comeu?.

Para terminar, transcrevo aqui dois excertos do livro:


“Carnaval em hospital significa outra coisa: ausência de médicos e fisioterapeutas, enfermeiros irritados por terem de fazer plantão, silêncio no corredor.

A pressão não subiu, a temperatura ficou nos 36, 5, urina clara, evacuação normal, pernas sem dar sinal de vida e, pela porta do meu quarto, entrou uma visita especial.

Um encanto de menina. Maíta, que estudou comigo no Santa Cruz e agora fazia psicologia na USP. Uma graça. Foi a minha primeira amiga mulher que tive na minha volta a São Paulo, em 74. Lembrei-me que tanto eu quanto ela não conhecíamos muita gente na escola, e ficávamos juntos no recreio, até que descobri que o caminho que ela fazia de volta pra casa era o mesmo que o meu, com uma diferença: eu ia de ônibus e a mãe dela a buscava. Comecei a pegar carona no velho e simpático Aero Willys da família Maíta.

Lembro-me bem da solidão no colégio, e nós brincávamos que íamos roubar aquele Aero Willys e fugir juntos.

Agora, tinha vindo passar o carnaval comigo (não é uma graça?) e me trouxe até um livro de contos com o nome dela e a seguinte dedicatória:

“Marcelo, de nós todos pra você, com um beijo especial de cada um.” (2006, 138-139)

E mais a frente...

"Acabou meu carnaval, sem samba nem serpentina. Mas foi menos ruim do que pensava. A turminha, Maíta, Maira e Carca, não me abandonou um dia sequer, sempre ali, fazendo o tempo passar mais depressa, com a mesma eficiência que Nana & companhia. Afinal, carinho e pressa era o que eu mais precisava." (2006, P.164)

Você deve estar questionando sobre o porquê da escolha desses dois trechos de Feliz Ano Velho, eu explico. Em 2005, já cursando a faculdade de jornalismo, entro na sala no primeiro dia de aula do semestre. Sentada ao centro, vestindo "roupas de pano" e com um jeitinho cativante, belíssima em sua madura idade, está a minha professora da disciplina Psicologia da Comunicação. O nome? No quadro ela escreve: Maria Rita do Amaral Assy, ou simplesmente Maita. Isso mesmo, a mesma que foi visitar o Marcelo no carnaval de 1980. Certas coisas não mudam jamais. Maita, uma das fundadoras do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia, Campus III, e também do PT aqui em Juazeiro, decerto que não anda mais de Aero Willys por aí, mas sempre chega pra lecionar no seu Passat verdinho da década de 80, com o adesivo do Lula no pára-choque dianteiro e um Minister entre os delicados dedos. Eu concordo com o Marcelo e reitero: “Uma graça”.


PAIVA, Marcelo Rubens. Feliz ano velho. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

Do grego mímesis


Por Germano Xavier

Escrevendo “verde”,
eu poematizo uma árvore
frondosa e real.

Escrevendo “real”,
eu poematizo a circunstância
da imagem: a Vida.

Pois que “Vida” é existência
ou reexistência
ou, ainda, re-reexistência.
Ou melhor, ...
Pois que ninguém me dirá
que o que escrevo é mentira,
pois quando escrevo “mentira”
eu estou poematizando
o que há de contrário:
a verdade.
Que, por sua vez, ao ser escrita,
quer dizer,
na linguagem das crianças:
“de mentirinha” (sabe-se lá o porquê!)

O certo é que sempre é uma “renovação”.
Perdão, acabei por escrever “a mesma coisa”.

Do existir de verdade


Por Germano Xavier

Ao amigo Marcos Vinícius

dúvida... neste oceano escuro navego,
sentindo o desesperar das águas;
um turbilhão de almas!, dilaceras
o pulmão do meu rosto?... te nego!

sou carne, fraqueza e inutilidade,
choro, lástima em fúria insana,
asas pesadas em nuvem plana:
reles ser em tão imatura idade!

a ida me é porta, tento fugir...
pois se fico me porto desastre
e castração, pobre e infame contraste

de quem um dia sonhou seguir.
quem sincero verdade quer, esquece
digno e justo de que só o verdadeiro não falece.

Triste viagem


Por Germano Xavier

Sou um ser alado, dotado do desejo meu intranqüilo por liberdade. Utilizo-me desse artifício e com ele consegui, com muita labuta, chegar ao patamar superficial e firme deste planeta Terra. Durante todo o percurso, nenhuma placa sinalizadora, nenhuma seta advertiu-me dos perigos que poderia eu encontrar sobre este gigantesco regolito. Ao pousar, logo tomei nota da minha absurda pequenez. Andei compassadamente por longas horas e interroguei-me: “Como posso comunicar-me com estas criaturas incomunicáveis?”

(...)

Vivi feito um homem, andei como um homem e, principalmente, durante minha experiência sonhei como sonha um homem. Rapidamente, percebi que homens são solitários, indecentemente individuais. Morei no campo e na cidade, e vi que todas as pessoas dependem de um arcabouço exterior chamado informação. A partir dela fomentamos o conhecimento. Conhecimento é o nome de uma flor sem cheiro. No mundo contemporâneo, época em que vivi , perdi-me no trânsito de idéias e pensamentos. Tentava acompanhar a evolução em todos os segmentos da sociedade. Todavia, perdia-me profundamente no labirinto desse caos. Tinha de aprender a apertar botões de uma engrenagem que esvaziava meus bolsos. Aprendi a ter, a ter o gosto pelo não ser.

A rotina atrofiava minhas asas, e pouco a pouco perdi meu direito de voar. Tranquei-me num apartamento, com janelas pequenas, sem grande poder de visão... Tornei-me um ente atravessado numa desesperança e por ligação abúlico perante meu caminho.

Passei a vida alimentando-me de batatas fritas e de um líquido preto com gás. O único jeito que usei para me adentrar no mundo da literatura foi me metamorfoseando em uma traça. Acabei esmagado nas páginas de Sofia.

Olhava de soslaio para todas as esquinas e ruas, logo padecendo em minha suportável insignificância de ser só eu, um homem Um homem no meio de tantos homens.

Furei, não os bloqueios, mas os meus olhos quase verdes e luzidios, que tanto influenciaram na promoção dos cargos nas empresas em que trabalhei como máquina, impulsionado por uma bateria alcalina chamada dinheiro. Minha cegueira era total, apesar de poder abrir os olhos. Eu via tudo!, mas não enxergava além do meu pobre olhar. Não sentia o que minha mão humana tentava expressar. Nada.

Por fim, morri! Morri tendo a impressão de nunca ter vivido. Morri sem saber o que havia por trás de tudo. Morri sem saber usar do poder indescritível da comunicação e sem saber ser homem. Eu tinha asas, só que me impediram de voar...


O texto acima nasceu de uma análise que fiz de uma peça publicitária da revista SUPER INTERESSANTE, ainda no primeiro semestre do curso de Jornalismo. A professora Maita Assy assim comentou:

“Ei, Germano! Desculpe minhas limitações em dar conta do que você acaba de escrever – inclusive por conta de tua letra. Bem, mas me parece que seu texto fala de uma vida não vivida; fala também de alguém que se faz do consumo; fala ainda de falta de acesso ao conhecimento, ao mesmo tempo em que esse é flor sem cheiro. Seria preciso, agora, que essas coisas fossem mostradas na peça de mídia que você selecionou, sob o risco de seu texto não funcionar como uma análise desse material. Seja mais direto, por caridade!, exponha essa visão que você narrou movido pela propaganda da revista.”

domingo, 4 de setembro de 2011

Tabaco (um exercício de argumentação)


Por Germano Xavier

Um dos principais motivos para o tabagismo ser a doença mais importante no mundo atual é devido ao fato de existirem grandes grupos interessados em produzir e comercializar tabaco. E, para isto, contam com o auxílio de legiões de publicitários, sempre e cada vez mais criativos. O tabaco, para exercer o seu cartel de maldades, conta com muito ajuda externa.

As campanhas publicitárias têm como base o desejo. As mensagens são quase sempre ligadas a algo que gostaríamos de ter ou ser e os publicitários tentam fazer com que o produto que eles querem vender passe a impressão de que, uma vez possuindo-o, o sonho ou o paraíso tornar-se-á realidade. Os anúncios de cigarro não querem convencer de que fumar é bom. Os publicitários querem, sim, persuadir, mexer com os sentimentos, fazer com que passemos a querer fumar sem uma clara percepção do porquê.

O que as imagens vinculadas ao tabaco passaram por décadas: "fumem o nosso cigarrinho e vocês ficam poderosos". Como podem fazer isso? Colocam uma mulher linda acendendo o cigarro do usuário, de preferência, fazendo beicinho. Quer estratégia melhor? No início do século 20, o objetivo da indústria tabagista era vender cigarros somente para o homem. Por isso, a imagem da mulher era utilizada de maneira exclusiva, como o principal objeto do desejo masculino. Lembre-se que, naquela época, não havia televisão, nem outdoors, entre outros ferramentas de publicidade. Além de algumas poucas revistas e jornais, os próprios maços de cigarros eram o grande chamariz.

A publicidade subliminar do tabaco ou aquela que utiliza as imagens de poderosos formadores de opinião são recursos perigosos para a saúde pública. Quem acreditará que exista risco na prática do tabagismo, se, por exemplo, uma pessoa tão inteligente, e queridíssima, como o Jô Soares, não nos privou, em épocas passadas, de associar a sua imagem ao uso do tabaco? Fica a questão. Não é necessário explicitar o quanto sou a favor da proibição de qualquer propaganda que envolva artigos ligados ao tabaco. Todavia, é preciso revelar a minha vontade de ver um dia o mundo dizendo “não” ao tabaco, vivendo cada dia mais e melhor.

Signo linguístico e Saussure


Por Germano Xavier

Com base nos conceitos do lingüista suíço Ferdinand de Saussure, o signo lingüístico deve ser definido como uma unidade composta por duas faces diversas: uma face conceitual e uma imagem acústica, que corresponderiam, respectivamente, a significado e significante. O signo “tucano”, por exemplo, é a unidade que une uma face do som “tucano” a uma esfera de pensamento – como, por exemplo, ave silvestre. Ainda de acordo com Saussure, o conceito e a imagem acústica mantêm vínculos de ordem psíquica, já que necessitam de regras pré-modeladas mentalmente para se estabelecerem como signo.

Saussure revela duas características como sendo as principais do signo lingüístico: a arbitrariedade e a linearidade. Para o estudioso, a combinação entre significante e significado é feita de forma arbitrária, imotivada, determinada por convenções e hábitos sociais, fora do poder do indivíduo de criá-lo ou modificá-lo. Sendo assim, não haveria nenhuma ligação natural entre a idéia de “pé” (significado), por exemplo, e a seqüência de sons p-é-s (significante). Saussure destaca como exceção as onomatopéias, que, em sua concepção, remetem direta e objetivamente aos elementos da realidade que evocam.

Para Saussure, o significante, enquanto natureza auditiva, deve ser disposto numa só dimensão de ordem temporal. Tal propriedade, denominada por ele de linearidade, opõe-se aos significantes visuais, já que estes podem explorar mais de uma dimensão no espaço, podendo ser apreendidos simultaneamente e de diferentes maneiras. A partir dessa organização em cadeia, segundo a qual os significantes se sucedem uns após os outros, é possível a estruturação de um sistema lingüístico.

Desejada poética alma




Quisera eu verberar
Como fazes tu com as palavras;
E encantar
E despertar
E invadir a alma humana
No mais profundo interior,
No mais intenso oculto hominal,
E, com veemência, tragar ou renovar
Detalhes intrínsecos de cada ser
Que ouve ou lê verbos teus.


Homenagem ao colega de Letras Germano.
Por Nilton Borges

Quem sou eu, quem sou eu?


Por Germano Xavier

Da mesma forma que a cultura serve para denunciar o progresso da sociedade, o tempo serve para reformar ou construir novos conceitos e idéias. E, em se tratando do polêmico debate concernente ao estudo da identidade nacional (leia-se brasileira), fica ainda mais evidente e perceptível tal embate ideológico após uma análise mais acurada acerca do afloramento da visão de que o povo brasileiro deve ser pensado como a fusão de inúmeros fragmentos que, por conseguinte, irão desencadear numa unidade/singularidade frente outras etnias, fato esse que começou a ser mais bem tratado a partir dos anos 60 do século XX. "Nós somos um povo mestiço e isso não podemos esconder", assim escreveu Darcy Ribeiro, em seu influente livro "O Povo Brasileiro". Essa afirmação só vem a corroborar esse aspecto identitário nacional que, na pior das hipóteses, é completamente visível e indiscutível. Ou alguém aqui sabe dizer da verdadeira origem de seus traços? A formação de um povo "ninguém", como assim designou Darcy, mesclado e repartido em trejeitos europeus, africanos e indígenas, acabou implicando, querendo ou não, na produção dessa unidade multifacetada e multicultural chamada "brasileiro". O documentário homônimo à obra do grande pensador, antropólogo, escritor e político brasileiro, apresentando esse mesmo discurso, porém agora através de outra linguagem, faz brotar impactantes questionamentos no que diz respeito ao papel desempenhado pelos dispositivos midiáticos, ou melhor, que deveria ser desempenhado por eles, no justo desígnio de promoção desse universo homogêneo-total que é o povo deste país chamado Brasil.

sábado, 3 de setembro de 2011

Descoberta


Por Germano Xavier

Achei a palavra certa.
Aquela capaz de mudar os discursos,
de refolhar as copas
das árvores secas
deste mundo seco...

Achei a palavra certa.
Aquela que é sentimento,
que é som e sonho,
beijo, voz,
eu e você
dançando
na chuva
caindo
e nos transformando
em nuvens
brancas,
aves do céu,
voando, voando, voando...

Achei a palavra certa.
Aquela que é Vida!

Versos em mãos



 Peça nova de estação, dois olhos e o vapor d’água.

Pés no chão pra sentir que o chão é bom e triste é assistir filme sozinho. Eduardo é filho dos tempos de merenda escolar e dos ruídos da madrugada. Quartinho pequeno, tênis sem plural e mundo enorme. Eduardo tem os olhos bons. Bondade das senhoras que vendem doces e sabem a hora.

Saber a hora é questão de tempo.

Um par de mãos e Eduardo cata a vida que sopra sua melancolia de fim de dia. Mas o dia termina e logo ele traça plano novo. Vive desses planos – fazenda xadrez, subir ou descer. Adora algodão doce e finge não ter fome só pra servir de alimento.

Um santo. Um anjo em tons verdes. Compota de mel.

Se o vento tem nome, deve ter o nome desse personagem de verdade. Se as luzes se apagam, a força concreta que o menino Eduardo possui, acende e faz clarão - como relâmpago que ilumina cidade pequena. Rios correm por ele. Novas estrelas surgem. Deus faz as ordens e sabe que no mundo Eduardo faz sentido.

Porque menino é sentido. Amor também. Velas são.

Eduardo existe em excesso porque não sabe ficar quieto. Embora tímido, seu silêncio ecoa mais que hino em dia de jogo de futebol. Eduardo corre o mundo e não consegue ser ausente. É parte de versos escritos por Drummond que soube andar com as mãos.

Unidas mãos em oração.

Eduardo é verso e o seu inverso é contente.

Eduardo rima tudo e completa sua coleção de cenas enquanto ajusta o sinal de sua televisão. Ele só não acredita que o mundo mudou. Quase sem fé, mas sendo o Eduardo, tem perdão.

Criança que tem história tem sempre flores a seu favor.

Não esquece. Como mulher, ele não esquece. Fruta madura que alguém tenta roubar, mas daquela altura, é verso que permanece vivo. Sem transcrição. Eduardo é obra de outro autor.

Alice.


Para o poeta, jornalista e professor Germano Xavier.
Escreve livro, faz sentido e gosta de palavra difícil.
Verso Rouco.

Alice é Letícia Palmeira, Virgínia Borges e mãe do Pedro.

Desarranjo


Por Germano Xavier

Na calçada, caminho
sem sombra
minha noite.

Veloz, impresente
e flácida,
sobrevive minha existência.

Bifurco-me.
Tri, tetra...
Sou quatro, cinco,
insistência.

A queda noturna.
A clara água
na tímida esquina
banha-me de luzes,
de eus
meus.

Rosa-dos-ventos.
Tomo o caminho do mar.

domingo, 28 de agosto de 2011

Rua de passos


Por Germano Xavier

"Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração."
(Mario Quintana, in A Rua dos Cataventos)


Eu saio por aí como quem não quer nada, e como quem quer tudo ao mesmo tempo. Percebo, tão logo desço as escadas do apartamento onde moro, que o mundo está repleto de coisas, umas mais desimportantes, outras sem as quais a vida seria apenas um estado ruim de sensações. Na minha rua, por exemplo, tem prédio de tamanhos equivalentes, uns semelhantes aos outros, encarrilhados a mentir uma aparente igualdade na condição humana. Tem também carros estacionados, muitos carros, pretos, cinzas, de cores diversas, de marcas variadas, cujos donos dormem ou fazem amor com suas mulheres ou, talvez, estejam pensando no dia de amanhã. Quando saio, assim sem nem mesmo avisar a mim mesmo, na verdade estou querendo vencer o tempo. Se ao menos eu conseguisse derrotá-lo uma vez, uma vezinha que fosse, miseravelmente uma vez, se ao menos eu sentisse dentro de mim o gostinho misterioso de tê-lo vencido por um segundo, um milésimo de segundo vendo-o desamparado aos meus pés pedindo socorro, implorando veementemente por clemência, tenho a impressão de que eu seria muito mais feliz. Felicidade é uma dessas coisas do mundo, uma coisa importante, sem a qual a vida seria apenas aquilo que disse antes: um estado ruim de sensações. Acabar com o tempo, no meu caso, seria estar mais perto da felicidade. Engana-se aquele que diz que existem mais de um tipo de felicidade, ignorando assim a natural gênese harmônica dos sorrisos. Vou dando passos para a frente e encontrando pessoas com as quais, talvez, nunca irei trocar uma palavra sequer durante toda a minha vida. Vejo meninos na pequena praça brincando de alguma coisa, até com coisas invisíveis e sinto, mesmo estando longe, que estão felizes. Moços e moças agrupados, sentados em bancos de concreto, cumprimentando-se com beijos e abraços entusiasmados. Outras mulheres limpam as entradas de suas casas, homens pregam em paredes algum tipo de aviso. Eles realizam suas tarefas e estão bem, enquanto eu passo com olhos firmes no azul celeste que aponta no fim do horizonte. Estou querendo apenas ser feliz, mas ser feliz sem fazer barulho é um jeito difícil de ser feliz. Às vezes o som da minha caminhada parece ser algo insuportável. É quando me desvio de mim, porque senão acabo surdo no fim da estrada. Quanto mais ando e perco para o tempo, mais a dor dos passos me invade a alma. É o nascedouro dos passos em falso. Todas as pessoas têm uma fonte de passos em falso dentro de si. É muito triste ter a sensação de andar em círculos, muito ruim vagar diante de um nada. E no meio do caminho, quando me bate a idéia de fracasso, mais um passo insisto a dar, agora não contra o tempo propriamente dito, mas contra minha fraqueza de pensar que estou na iminência de parar. Pois que ninguém é forte o bastante quando sente que perde sempre. Um dia tudo cai por sobre as costas e o peso implica na presença da morte, porque sair de casa é dar de cara com nossa mortalidade, tão indefectível. As crianças brincando nas pequenas praças são como espelhos estilhaçados, esparramados pelo chão de nossas casas, e mesmo se quiséssemos montar novamente o quebra-cabeça das coisas da vida, jamais conseguiríamos reformar a peça perfeita. E numa certa idade – idade da alma, que fique bem claro - o passado se transforma num emaranhado de poeira que não serve mais para absolutamente nada, senão para fazer volume. O presente? Ah, o presente é justamente o andar. O futuro, como diz o outro, só a deus pertence. Eu saio em busca do meu presente - e pensar que tanto tempo errei saindo em busca do meu passado, tanto tempo jogado fora à procura de um futuro mais agradável para mim. Um dia eu serei o futuro, disso tenho certeza, assim como certo é que aumentarei meu coeficiente de passados. Só o presente é que dispensa embornais. Por isso ele é assim, silencioso, quase não incomoda, não ocupa espaço. Por isso ele sabe tanto passar despercebido, até mesmo para ele próprio. Ele é tão fluido e escorregadio que, colocado diante dos nossos olhos, sublima-se com extrema rapidez. O tempo é o presente, o agora. O agora é o que olho quando caminho. O que perco de vista tanto pode fazer parte de meu passado como do meu futuro, isso só o ciclo da vida me dirá. Da mesma forma um dia posso precisar ouvir a voz daquela pessoa até então estranha que passou por mim logo quando comecei a descer as escadas do prédio. Porém, o mais importante de tudo é que em minha rua há uma rua completamente desconhecida, cujas esquinas me afligem o coração, cujos becos me desafiam o medo, cujos transeuntes me cobrem de interrogações, cujas calçadas me avisam sobre as pedras de se tropeçar, cujos obstáculos me fazem ir pensando nos melhores saltos, cujas luzes clareiam apenas o básico, cujos sentidos me são depositados na palma da mão, como feijões mágicos, restando-me somente escolher a direção do terreno onde plantarei os grãos de minha saída, ou seja, de minha definitiva entrada.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rapsódia sobre zodiacais


Por Germano Xavier

Há no texto uma personagem que ama. Texto, pois feito de palavras. Um arrumado de letras que precisavam sair, tomar um ar, formar um lugar que precisava existir e ser escrito agora, neste exato momento. A personagem que vai se declarar daqui a pouco, agora olha para o punho direito. Vê o ponteiro menor do relógio prata quase parado no número 1 da madrugada. Uma personagem porque está dentro do texto e, dentro dele, vive. Um personagem homem irá declarar-se. E é logo. Já quase tudo pronto, olha novamente para o relógio prata em seu punho direito. Quase duas, notou. Sucedeu-lhe um bocejo estranho. Não era hora de ficar fraco, ainda. Sono sem. E é agora, vai. Foi. Disse um "eu te amo". Pra começar, sussurou consigo. Ajeitou as fotos da Julia que se encontravam por sobre a mesa-máquina-de-costura dobrável que dormia uma solidão de ferrugens na mesma sala de estar em que a conhecera. "Tão distante, ela, aquela vez... inacreditável", lembrou. "Não posso ser diferente, amor. Sou assim...", disse baixinho, certa feita. Mesmo em pensamento Julia era linda e o personagem apaixonado. Amava sem fim... eu te amos porque amava. Via vindo dias sem igual, onde perder-se-ia no jardim mais lindo. Ficando entre flores, no baile do tempo sem pressa, dançando a rubra-cor-rosácea do amor. Mais lindo que o dele não existia. Julia se tornara a maior razão para se continuar vivo. Esperava chegadas e o amor em cores e mandava sempre um beijo do teu menino até quando ela não quisesse mais. Pois queria ser o que ela era. Julia foi mandar recado no dia de feira e ele não encontrou seu nome lá. "O que aconteceu?", era uma dúvida. "Você o apagou da lista?", era outra. Levava sustos e não entendia deveras nada. Ficava triste e não entendia o porquê. "Porque você sabe que é grande o meu amor. E fico sem norte e perco o sul". Dizia "li teu último rebento e acerco-me das minhas mesmas assertivas. Você é minha escritora de cabeceira, Julia". Em metalinguagem, dizia tudo e deixava tudo faltando, o que é sem mundo humano. Outra dimensão. "Venho lendo coisa boa de ti em ti". Lendo e mudando, de supetão. Mulher que ensinava e assustava. Que voltava! Voltava porque amava. Coisas que não poderiam ser ditas para vocês, eles, os dois, porque eram os vencedores. Aqueles que devastam. Os heróis perpetuados que se assombravam de espantos. O que causava medo mais que o simples temor de madrugada de silêncios. Venciam suas vontades e defloravam as portas de suas tímidas vegetações. Mar que engolia praias e o vento que invadia a lenda mais antiga dos folclores que já teci. Um amor desonesto e cuidadoso que veste e despe suas coragens de ser eterna obra de um escritor. "Se eu escrevesse poemas, escreveria um por você. Falando de flores e ventos e cavalos e planos. Falaria sobre telhado e chuva e sobre peixe que vive feliz, mesmo sozinho. Eu amo você. Sei que amo você e entendo sonetos quando penso em você. Poema só faz sentido quando temos memórias e lembranças. Eu tenho você. Te amo, Baby". Lutadores em guerra. Perdedores de si. Leões mansos e famintos. Número três na madrugada, o relógio prata no punho direito marcava. Marcava com ferro e brasa o tempo caído. Tinha algo no que ela escrevia que perturbava os sentidos dele. Lia seus textos e brotavam sensações que não sabia explicar. Era forte. Acabava de ler e ia tomar banho e fazia coisas e tinha orgasmos. Não o orgasmo pleno, mas a voz que falava através do que escrevia. "Você pode falar até de carros do futuro ou ventilador. Para mim, é sempre algo mais. A dor de ser e sinto sexo em cada palavra. Sinto amor em cada palavra. E odeio você como quem ama em desespero e silêncio". Dias aparecia com raiva e fome. Eram iguais em suas desgraças. "Tenho tanto para dividir com você, Julia. Meu amor não cabe em mim. Você tem o dom de me possuir e ser a dona. Eu escrevo carta, poema e livro inteiro para você, meu amor. Você vai ser muito feliz ao meu lado". Eu dormi. Estava enjoado e tonto. Sei lá o que me dá às vezes. E vim te ver. Essa hora da manhã e eu olhando fotos suas e estou me acabando de chorar ouvindo música e olhando você. A gente finge às vezes, mas isso está acabando comigo e com você. Sentimento que mata mais que acolhe, baby. Só queria chorar abraçando você. E você não é um menino. É um homem. Só queria ter sido sua antes. Antes de tudo. Antes até do começo do mundo. Porra, baby. Que você fez comigo? Era Julia amando. O amor que atravessava tudo, derrubando tudo, maltratando. Eu sei que você vem sempre aqui. Tenho a bela notícia... eu vou acabar com você de tanto amar você. De tanto querer. Você faz poesia. Eu crio combustão. Será que devo viver sozinha, baby? Sou sua musa. Quase medusa, quase blusa, quase lua. Quase embora, quase livro ruim, quase orgasmo, quase múltipla. Quase rio, quase mundo todo, quase Brasil. Quase mariposa, quase mesa pronta. Comida de todo dia. Quase novo gosto. Quase mala pronta. Quase desafino cores. Quase engulo monstros. Quase sou pior. Quase mãe completa, quase boca tua ditando regra semântica. Quase livro todo espalhado no chão. Quase planto corpo no corpo e tenho nome e quase espanto. Quase amo tanto. Quase odeio mais. Quase odeio tanto quanto amo. Amor é quando acordo desesperada querendo você. E você não está aqui. Vou acabar me devorando de tanto querer você. Essa é a verdade. Amor é até quando. Eu quero que você escreva para mim e descreva como é me comer, me ter, me amar do jeito que você me ama. Você não escreveu ainda. Eu quero palavras suas ... eu preciso. Você não me perde. E não terei outra face junto a minha. Trata de fazer algo... me buscar, me levar... ando doente de amor. Doente de amor por você. E viver sem você é a pior solidão que existe. Têm horas que fico na cama... deitada, lembrando. Das suas mãos em minha cintura, me puxando, seu corpo querendo o meu. Minha voz está na sua voz porque somos um só. Não sei fingir que você não é o amor de verdade que tortura, machuca e me faz querer sempre. Eu sou louca por você, você me tem. Em alma, amor e sexo.

Aquário - Oi, Julia. Ontem, depois do que você me disse, passou um filme longo na minha cabeça, sabe... fui dar uma volta na rua. Fiquei andando. Devagar. Queria passar a noite andando. Acho que andei por umas três horas. O filme na cabeça passando. Pensava em tudo o que você me disse durante todo esse tempo e comparava com você dizendo que eu sou igual, que olho para a superfície e não para o que há dentro. Você machuca meu coração dizendo isso, Julia. Tive a impressão de que você não pode me amar. Eu queria saber o que você quer comigo. Porque se for para ser assim, me diz. Eu te amo demais para ficar ouvindo essas coisas. Eu ainda estou aqui, li teus recados porque leio e sofro também. Vi mensagem daquela tua amiga no meu telefone e também me preocupo. Estou sem dormir, mas você não sai da minha cabeça. Te amo.

Peixes - A sua melhor amiga ligou para mim agora cedo. Retornei a ligação. Ela ligou de novo e falou sobre você e sobre o nosso amor. São essas coisas que me ensinam a ler este livro grosso que é você, Julia. Tenho parcela de culpa em tudo isso. Apareci em tua vida, e diante do que ouvi ontem, fico em dúvida se tenho mesmo o direito de tirar você do teu mundo e das pessoas que estão com você. A gente vive aprendendo e agora vou deixar por tua conta. Você sabe do tamanho do meu amor e não vou perguntar mais nada. Você não me deve satisfação. Agora tenho a convicção de que precisava ter. Que seja por apenas uma hora ou um dia o nosso amor, eu já serei o homem mais feliz do mundo. Porque conheci o Amor. Não vou pedir para morar com você, não vou pedir para você ficar comigo. As portas estarão sempre abertas caso você queira vir ficar. Sei que tua situação é mais difícil que a minha, Julia. As pessoas te cobram quando você só precisa de amor. Fui grosso com você ontem, mas é porque eu te amo...

Carneiro - Me perdoa por tudo, Julia. Não vou agir mais assim. Você não pode sofrer mais. Quero te proteger e te colocar no colo. Pôr você para dormir e te fazer carinho. Não tenho direito de machucar você. Agora, me ame do teu jeito, mas não fique me lembrando que eu não vou poder ter você para mim... por favor. É meu último pedido. Sou louco por você e compro cigarros para fumar também. Você é minha vida.

Touro - Je t'aime, je t'aime...

Gêmeos - Que nosso amor sempre consiga viver. Que ele seja forte o bastante para matar o tempo. Que não finja o próprio amor que tem. Que seja eterno enquanto. Que não tenha fim. Eu amo você, Julia. Aqui eu posso dizer que te amo quantas vezes eu quiser. Até o tempo ser nosso.

Caranguejo - Você bem sabe que não adianta retirar suas partes de mim, porque já é tão grande o ser que de ti guardo, tão grande a mulher que me amamenta com os seios mais deliciosos que sei, tão verdadeiro e puro e essencial que o amor não é abalado. Por ti vivo do jeito que quiseres, sem ou com, amo do mesmo amor. Para Julia do meu coração.

Leão - Julia, levantei e logo pensei em você. Saudade aperta e o dia aproxima e fico feliz. Você me faz feliz. Amo você sem fim nem começo. E nunca vou esquecer você porque simplesmente não quero. Simplesmente assim. Te amo pra sempre, minha vida. Mas é pra sempre mesmo!

Virgem - Meu simbolismo é a tua poesia, Julia. Campina do meu ulterior arder. Faço fogo por você. O céu de fogos estrelado. Fogo santo. Não foi você quem escreveu esse poema. Tira ele e coloca um seu. Te amo e te odeio. E ainda mato você. Ou você me mata. Um dos dois.

Balança - Não, Julia! Não foi coisa passageira, coisa de dias, coisa de uma semana o meu amor por você. Meu amor vai muito mais além. Não sei te usar e te querer só para o amor do corpo. Amo teus defeitos e tuas verdades.

Escorpião - Ontem estive pesado, cordas de piano velho e novo sendo esticadas pelo vento duro do mar que não existe. Veio um novo sol e com ele um dia mais leve e uma imagem presente. Você me pede para eu desabotoar o zíper do meu corpo e eu mostro minha arma de matar. Mas mato também com as mãos e os olhos e os pêlos da minha perna, de andar até você.

Sagitário - Todo dia é mais um dia de descobrir que a dor é uma coisa relativa, Julia. Você me ensina isso. Tenho certeza que com você por perto, não vejo dor em mim, nem agonia. Você me faz assim, ser sem dor. E quando não estás em mim, a dor é insuportável. Por isso preciso tanto de você. Amar e amar muito. Sempre e só seu.

Capricórnio - Faltaria dois dias para eu rever o grande amor da minha vida, a mulher que mais me fez e faz feliz. E um dia uso verbos no presente e não no passado. Amo você até o fim, Julia. Logo mais viajo para a casa dos meus pais. Eles foram importantes para mim, em todos os momentos da minha vida. Talvez não seria possível eu ter te conhecido se não fossem eles os ensinadores do caminho que acabei seguindo. Tenho saudade deles, como tenho saudade de você. Você que apareceu em minha vida e fez morada. Que me deu um novo ânimo para continuar vivendo. Hoje posso dizer a mim mesmo que tenho um amor e que esse amor tem nome. Estas palavras são para agradecer por tudo que você tem me proporcionado, Julia. Do fundo do meu coração, recebe um abraço meu agora e um beijo verdadeiro. Você é a minha luz e o que de mais importante tenho e acredito. Vou te amar para sempre, onde quer que eu esteja. Eu te amo. Sem fim...

... e vou tentar ligar de novo. Se você ainda me quiser, eu sou sua. Seremos. Se não me quiser, ainda serei sua. Você deixou marca forte em mim. E tenho orgulho e digo a todos que te amo. Pensa em nós, baby. Pensa que somos um. Pensa que somos o sim que a vida tanto precisa... sem você, sozinha e sem vida... vou ligar de novo. Te amo sim.

sábado, 20 de agosto de 2011

De tanto


Por Germano Xavier

é tudo tanto
deveras quando
me aproximei de ti

a palidez do amor
em verdade
de moça azul

é tudo tanto
despedaçado pedaço
que roubei

em meus braços
desaguando

e por assim distante
e de tanto fugir
e de tanto imaginar

um de mim
me iludindo

tanto o triste canto
quis abafar o que vazava
no ar é que morro
em meu crivo maciço
de todo mar de amar

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O vale das borboletas


Por Germano Xavier

Uma borboleta azul pousou em seu ombro de mulher. Um pouso suave, como deveria ser toda aterragem de borboleta. Bela e cintilante, a pequena notável tivera pousado em terras femininas. Talvez tivera sido atraída pelo cheiro da alma feminil ou, talvez, ficado encantada com a beleza, também singular, daquela moça.

A rapariga descansava seu corpo na sombra de uma árvore centenária, diria milenar. Seus olhos fechados não foram capazes de perceber a chegada da borboleta. A sensação das suas perninhas tocando aquela tez branca também não fora percebida. A borboleta abria e fechava suas asinhas, mexia suas antenas pretas como se estivesse querendo dizer alguma coisa. Mas a moça continuava em seu profundo repouso. Emprestar um pouquinho de beleza a este mundo tão feio e miserável, talvez fosse mesmo um trabalho muito árduo.

A tarde vinha chegando...

Depois de percorrer todos os cantos da menina, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, a borboleta, após um leve vôo, foi parar na orelha daquela criatura que não aparentava nenhum desconforto com todo aquele zigue-zague que o pequenino inseto imprimia. O sossego era tamanho que, se porventura caísse um meteorito ao seu lado naquele instante, devo crer que seus olhos ficariam ali fechados, trancados com as chaves dos sonhos mais distantes.

A borboleta insistia, mas nada acontecia. Foi aí que ela içou um resoluto vôo até a altura superior das costas da menina. Chegando lá, abriu suas asas de um reluzente azul-marinho e, como num passe de mágica, a borboleta atravessou a barreira do espaço-matéria da pele, fazendo-se tatuagem. Agora a jovem tinha uma borboleta azul tatuada em suas costas.

Não demorou muito e a menina despertou. Mas não foi um despertar comum, de humano; fora um avivar de borboleta, como se tivesse acabado de sair de seu casulo. Os braços foram elevados, os cabelos foram penteados pelo vento, as pernas serviram de um impulso e, de repente, um vôo. Um infinito vôo.

Um vôo de menina-borboleta... E nada foi como antes.

Corporificação do alto nada


Por Germano Xavier

a quem não pesa
os vazios de dentro,
terminada a colheita
dos grãos
e ainda sob o seco
efeito do acontecido,
farei entendimento
perfeito
daquilo que é inconsciente e infinito...

separando do que deriva
a fonte de todo desejo,
e celebrando a existência
nas águas desmedidas,
objetarei na fria base do sentido
o meu excesso,
reconcebido
numa grávida
e indecente infância
e seiva nomeada
em sangue.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O tempo amarelo


Por Germano Xavier

A bolsa era amarela a da menina. Tinha uma rosa pintada à mão com tinta de tecido. O tempo era também amarelo. Falso, fraco, porém amarelo. O tempo havia adormecido. A coberta do tempo era do mesmo modo amarela. Assim como o papel do bombom deixado sobre o caderno rosa. A sala estava agora vazia. Virei a cabeça na direção da cadeira em que ela se encontrava antes de ter saído e vi, dentro do papel amarelo do bombom, uma mensagem...

“Nosso coração sabe imediatamente aquilo que nossa mente custa em descobrir”.

Eu não tinha noção do vazio daquela sala vazia. Nem suspeitava do amarelo do tempo. O ar totalmente condicionado a esfriar a pouca quentura que ainda existia em meu peito. Minha mão esquerda amarela sendo capturada pelo tempo amarelo no vazio da sala vazia. Na outra mão, um livro. Um livro aberto e a cor branca da folha branca do papel manchando o amarelo do tempo.

Afinal de contas, todo tempo é maculado, um dia ele sofre como sofre o humano quando não é cristal o pranto. Um dia todo tempo fica envolto por um merecimento de cor. A glória milenar do tempo é a memória carregada no dorso, tempo do tempo... Toda cor tem um tempo, tempo de nódoas ou tempo de tinturas coloridas em verdade. Todo tempo sabe a cor que possui. E o tempo da menina era o mesmo tempo da bolsa amarela pintada à mão com tinta de tecido em rosa charco dentro do vazio daquela sala vazia. Era um tempo de volta. Tempo de uma certeza quase certa de que ela viria em algum momento. Uma espera, também, de que o tempo mudasse aqui dentro, onde estive por todo o tempo em que ela não esteve, e mudasse para outra cor.

Olhei a porta, de dentro mesmo, e nada. Nenhum sinal. Nenhum barulho lá fora. Uma pequena chuva era anunciada pelos arautos nebulosos. O tempo ainda amarelo amarelecendo o meu tempo, tornando-o cinza de tão amarelo. Um tempo sozinho, página em branco, mensagem de erro, cadeira virada, a paixão segundo o sol que desaparecia no alto de minhas vistas.

E eu relendo a mensagem no papel espelhado e amarelo do bombom...

“Nosso coração sabe imediatamente aquilo que nossa mente custa em descobrir”.

Foi quando eu percebi a maçaneta sendo girada, de dentro, no vazio da sala vazia, a maçaneta rotunda girando vagarosamente. Tão lentamente que dava tempo de pintar meu tempo de uma outra cor mais forte e pesada, cor do receio. A maçaneta rodando rotunda e amarela e agora cor de receio e cor de suspeição e cor de assunção até o estalido no fim de seu curso giratório. A porta que se abre e o amarelo sufocado do tempo que foge pela abertura cada vez maior da porta. O vazio da sala vazia sendo preenchido por uma cor sem-cor, cor de mistério.

Depois do vazamento, a surpresa do meu coração. Não era ela. Não era... e o tempo se coloriu de um outro tempo, tempo de gerar outro tempo até o triunfo da chegada real. O tempo que mata, este tempo, tempo de assassinar o teu desenho interno de gente. O tempo que é começado no justo instante em que, de novo, a rotunda maçaneta, antes amarela, é lançada ao encontro do umbral negro e metálico do tempo das portas fechadas e do tempo que ainda há de vir a ser...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O problema


Por Germano Xavier

Continuação para o conto "A Solução",
de Clarice Lispector.


Almira numa certa noite inventou de fazer uma tereza com os únicos três lençóis de cama que possuía, depois de passar anos serrando surdinamente com uma faca o gradil da janelinha da cela, e num vulto sumiu no mundo novamente. Não deixara nada como recordação. Na prisão, virara mito. Podia ser novata ou veterana no xadrez, mas o fantasma da “elefanta de circo” rondava as bocas em papeação constante, em quaisquer que fossem os corredores e em todos os pavilhões. Mas o certo era que ninguém mais tinha ouvido falar em Almira. Algumas colegas de cela, mesmo passados dois anos ou mais da precipitada fuga, ainda empregavam lembranças da gorda em suas cabeças vazias. E diziam em pensamento que ela agora devia estar comendo, comendo chocolates, comendo como sempre comeu, empanturrando-se de qualquer que fosse a coisa, enchendo-se de qualquer matéria e preenchendo aquela pança insaciável, aquele estômago insociável. Almira ficou sendo procurada pela polícia por todos os cantos da cidade, até recompensas foram oferecidas a quem tivesse indícios do local onde ela pudesse estar. Mas nada acontecera. Almira jamais fora encontrada. Depois de mais alguns anos, o caso foi arquivado e posteriormente dado como encerrado pelos investigadores. O mais curioso de tudo aconteceu faz bem pouco tempo, quando um crime chocou a pacata cidade onde o que de mais cruel tinha acontecido em toda sua curta história de emancipação fora justamente o estouvado ataque a garfos de Almira em Alice no restaurante. Alice, que ficara afônica depois da garfada no pescoço que recebera de Almira em idos de antanho, havia saído de casa para comprar produtos alimentícios no armazém do bairro. Naquele dia Alice não voltou para casa. Ficou no meio do caminho atrapalhando o tráfego inexistente no justo momento em que estava fazendo o percurso de retorno. Os olhos esturricados dos passantes denunciavam a magnitude do caso. Falaram depois, quando o alvoroço se distendeu do imaginário da população, que a pobre moça morrera em plena rua com duas colheres enfiadas nos olhos. A polícia, na hora, chamou por alguma testemunha, porém ninguém se prontificou a dar algum tipo de depoimento. Exceto por um menino marronzinho de seus doze ou treze anos de idade, que dissera estar descansando o corpo do sol graúdo na calçada do bazar do velho Apolônio enquanto arrumava sua caixinha de engraxate. Falou que vira uma mulher magra entrar pela casa de número ímpar da esquina. Os policiais pediram mais informações, mas o menino não soube oferecê-las. O que podia dizer era já tudo e já gasto: uma mulher magra entrando na casa da esquina de número ímpar. Coincidência ou não, a casa em que Alice vivia era contígua à casa a que o menino se referia e que, por sua vez, era justamente a casa que fora de Almira no tempo em que andavam juntas e iam para o escritório labutar no mister da datilografia. A polícia levou o caso a estudo, agiu secretamente e fuçou a vida da possível assassina com a preocupação de não invadir a privacidade da mulher. Era consenso na corporação só agir em definitivo caso provas cabais pudessem ser levadas adiante e posteriormente servirem na incriminação da moça suspeita. Nada descobriram. A moradora da casa de número ímpar da esquina era realmente magra, tinha praticamente a mesma altura da desaparecida Almira e gostava de ficar olhando para o aquário quando a tarde ia caindo no horizonte. Fora isso, nenhuma pista segura. Muitos associaram o fato a uma provável vingança de Almira, mas Almira não existia mais. A gorda e psicopata Almira era apenas uma das lendas urbanas daquela cidadezinha incrustada onde o vento faz a curva. Nas noites escurosas, um ou outro sempre levantava o causo da mulher que apagava a voz das pessoas enfiando garfos em seus pescoços, mas nunca contavam o causo da mulher que cegava as pessoas enfiando colheres de sopa dentro dos globos oculares. Diziam ser maldição alvissareira, coisa ficciosa demais. E logicamente as crianças morriam de medo quando ouviam. Por isso, de noite, dormiam encolhidamente intranquilas e enroladas em seus cobertores de sonhos, e também de pesadelos.