sexta-feira, 13 de julho de 2012

No teu sotaque


Ilustração de Cida Mello

 Por Germano Xavier

me diz no teu sotaque
que bamba é no samba
o passo empregado sem juízo
a rede içada sem vela
o peixe pescado sem mar
(doce euforia, amor) - esta dança

me diz de prontidão o que nem e o que não
vem você assim devagarim
e me encalça
e me enlabeia
estes meus beiços coloridos

me diz no teu sotaque
que o samba virou canção
que o que arde é brasa, fia
é brasa de coração

- Brasa de coração é uma coisa que queima, simplesmente.
E não se sabe de onde nem. Só que vem na voz.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

5 anos do blog O Equador das Coisas


 Por Germano Xavier

O blog O EQUADOR DAS COISAS, do escritor e jornalista Germano Xavier, completou 5 ANOS de vida na internet no último dia 09 de Julho e quem ganha o presente é você. Este blog fará o sorteio de um exemplar da revista PIAUÍ novinha em folha. Para participar, é simples. Basta ser um seguidor do blog (clicar na barra lateral à esquerda) e comentar esta postagem com os seguintes dizeres: "Eu quero ganhar a revista sorteada pelo Blog O EQUADOR DAS COISAS", juntamente com o nome completo e sua cidade. A pessoa que MAIS comentar esta postagem até às 24 horas de DOMINGO, dia 15 de JULHO/2012, ganhará a revista. Vale comentar quantas vezes quiser, mas só vale comentário aqui, nesta postagem, neste blog. Depois de identificado o vencedor do sorteio, entrarei em contato com o mesmo para pegar o seu respectivo endereço e enviar o material pelos correios. Se o ganhador for da cidade de Iraquara-BA ou localidade próxima, pode vir pegar o livro em minha residência.

Sobre o Equador das Coisas



 Por Germano Xavier

No último dia 09 de julho, o Blog O Equador das Coisas completou 5 ANOS de vida na internet. Aos interessados, sugiro que leiam os textos abaixo. Enfim... continuemos, bucaneiros!

Um pequeno histórico sobre desembocaduras.
Escrito em 2010.

Tudo começou durante uma aula da disciplina Programas e Ferramentas II no curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) que eu até então fazia. A professora Jussara Moreira, depois de explanar um pouco do seu conhecimento acerca da linguagem HTML para produção de sites pessoais e outros projetos de cunho cibernético, levou-nos a conhecer uma ferramenta que, para mim, ainda era uma incógnita: o Blog (ou blogue, como preferir). Lembro que ela havia indicado alguns sites onde poderíamos escolher a plataforma que mais agradasse nosso gosto e, ainda sem nenhum conhecimento de causa, entrei na ferramenta que o portal UOL disponibilizava à época. De pronto, achei tudo muito simples e funcional. Uma espécie de caderno virtual, de diário, de pasta, um portfólio, "mas que coisa boa!", pensei. E assim se deu o meu primeiro contato expressivo com esta ferramenta informática. Houve a luz, diria o outro. E sem muito pestanejar, fui logo criando o meu próprio espaço na blogosfera. PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO foi o título que dei ao meu primeiro esforço bloguístico e foi parido em 09 de julho de 2007. Lá, e aos poucos, fui colocando alguns velhos textos que eu tinha guardados e também escrevendo coisas novas. Como nestes idos ainda não possuía computador em casa, reservava alguns momentos quando me encontrava no laboratório de informática da faculdade para postá-los. No PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO, a série de textos do “Sonhador Gervixa” foi, talvez, o maior destaque. Com cerca de 20 capítulos publicados, foi através deste personagem, um sujeito que se dizia não ser deste planeta devido a sua extravagante repulsa por todas as más ações humanas, que os primeiros leitores – geralmente meus próprios colegas de Jornalismo e outros poucos amigos - foram se acercando de minha produção textual, conquistando assim paulatinamente o que posso chamar de credibilidade e por que não dizer fidelidade no meio. Depois de algum tempo, burilando na internet, achei de investigar a plataforma BLOGGER. Percebi que nesta havia mais instrumentos de editoração e diagramação, além de que as interfaces eram muito mais convidativas que as do UOL. Destarte, abandonei o PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO e criei em 12 de novembro de 2007 meu segundo blog, agora intitulado A AUTO-ESTRADA DO SUL, por influência direta da leitura do livro de contos "Todos os fogos, o fogo", do escritor belga-argentino Julio Cortázar que andava a realizar naqueles dias. Transferi, ao passar dos dias, todos os textos que havia publicado no PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO para o novíssimo e empolgante – pelo menos para mim - A AUTO-ESTRADA DO SUL e, de modo bastante paciente, fui colocando mais um montante de produções textuais de minha autoria, assim como algumas colaborações que recebia de amigos, sempre com a preocupação de devidamente analisar se os mesmos se alocavam bem aos propósitos do blog. Com minha entrada no universo “BLOGSPOT”, percebi que o mergulho constante no blog - um saudável vício, penso - estava despontando em mim como um local de construção de saber e de possibilidades de diálogo acerca das incontáveis formas de conhecimento nunca antes imaginadas, cuja responsabilidade para com o que ali estaria exposto aumentava em progressão geométrica, o que muito me agradava. Alguns meses transcorridos optei por mudar apenas a titulação do blog, que agora passaria a receber o nome do meu primeiro livro de poemas, publicado no ano de 2006 pela Editora Franciscana, com sede na cidade pernambucana de Petrolina. Era o nascimento do blog CLUBE DE CARTEADO, nomenclatura que permaneceu até bem pouco tempo, mas que por problemas de ordem estrutural tive de deixá-lo para trás. O CLUBE DE CARTEADO foi quem guardou a maior parte dos textos que eu havia escrito ao longo dos anos, desde poemas e contos, passando por crônicas e resenhas de todos os tipos, até projetos de pesquisa mais apurados e artigos científicos, sendo também, tenho quase certeza, o primeiro blog a ter (ou a querer ter) a figura de um ombudsman – experiência que infelizmente não vingou. No total, foram exatos 821 textos/postagens publicados em seu espaço, registrando no período de pouco mais de um ano cerca de 30 mil visitas reais e algumas centenas de comentários e participações várias. Depois de visualizado o problema em sua configuração, a construção de um blog totalmente novo foi a alternativa mais viável para dar seguimento a minha relação com esta significante parcela do mundo virtual. Foi aí que O EQUADOR DAS COISAS veio à superfície do ciberespaço. Com ajuda de pessoas mais entendidas neste universo da informática, selecionei um template que trouxesse um pouco da carga dramática que o título requeria, e logo foi feito a transferência de todos os textos que estavam no CLUBE DE CARTEADO para o arquivo do novo blog. O primeiro texto originalmente escrito para O EQUADOR DAS COISAS data de 23 de julho de 2009. Daí por diante, outros inúmeros textos foram publicados até o presente dia – só para constar, já passamos da considerável marca das mil publicações/postagens. Fazendo os cálculos, a média ultrapassa 1 texto publicado por dia. Como se números fossem importantes, não é mesmo?! Tantos números assim soam como um discurso contraditório até para mim, que sou daqueles que têm mais medo de um sujeito que escreveu um livro em toda uma vida àquele que escreve meia dúzia de títulos em cinco anos – se formos vasculhar, exemplos não faltam. Recentemente o EQUADOR DAS COISAS passou por uma reforma, tanto na estética quanto em seu conteúdo. Agora o template é em estilo mosaico, bem mais atual e ao mesmo tempo diferente, onde na página principal só aparecem as imagens vinculadas aos textos, cabendo ao leitor clicar em cima do título das postagens para poder lê-los. O arquivo do blog agora conta apenas com as 18 postagens mais recentes. A decisão foi tomada por me achar no direito de resguardar mais o que escrevo, haja vista que exposição exagerada também não cai lá muito bem. Aí você me pergunta quando vou parar com tudo isso, e eu respondo que nunca. Cada vez que penso em desistir do blog, mais certo fico de que sem esta ferramenta, exemplo de expressão libertária e democrática, mesmo que virtualizada, fica mais pesada e difícil a balada das horas do meu dia. A vocês, leitores e leitoras, meu muito obrigado por ajudar na edificação e na concretagem deste real espaço de troca de experiências e saberes. Vocês são peças fundantes em toda esta ladainha. Recebam um abraço-amigo-imenso deste Germano que vos fala agora, exímio aprendedor de coisas. E para não dizer que não falei das flores, sim... continuemos, bucaneiros! – até porque o mar, o mar!, o mar quase nunca está para peixes...

*****

Leia o capítulo IV da série de textos intitulada O Sonhador Gervixa, quando este blog ainda se chamava PAROLAS DE UM SUJEITO QUEDO:

IV


Eu teimo, insisto e não desisto. Minha voz não pode parar. Eu sei que há "Mundos", menos confusos, menos humanos. Só não quero imaginar que eu estou aqui perdendo meus preciosos segundos falando para um bando de surdos e idiotas. A maioria de vocês não sabe ouvir. E não venha me dizer que eu estou querendo criar confusão porque eu sou apenas um sonhador e estou aqui só de passagem.

Outro dia presenciei um estudante esfaqueando seu próprio colega, num gesto animalesco de alguém que ainda não conseguiu se encontrar na vida. Se estou nervoso? Eu estou calmo! Não é nada disso! Ultimamente, quase nada me afeta. Tenho dado bons lucros à farmácia do meu bairro. Meus "queridinhos"! O sangue que escorria do corpo daquele pobre rapaz era o sinal dessa impiedosa insensatez, que cobre todo o áspero chão desse lugar onde vocês dizem que vivem.

Estão fadados à civilização?

Minha cabeça dói, parece não suportar toda essa pressão, todo esse peso que machuca o corpo. Acho que é hora do meu barbitúrico aromatizado! Mas... eu não acredito! Esqueci onde guardei meus "redondinhos"! Deus, não me faça perder o juízo!

Não preciso de ajuda. Quem necessita de auxílio aqui é você! Eu sei muito bem me comportar! O que quero de você é apenas o entendimento. Não, eu não sou louco. É que fúria dessa espécie faz do Capitão Acab parecer um santo. Os cachalotes da modernidade são muito mais pesados que os do livro do Melville, ou deveriam ser. Pesam as toneladas da consciência da humanidade, a honra da raça, a ética das multidões e, principalmente, os governos de si mesmo. Tenho inveja dos Quicquegs dessas terras, serão eles os loucos? Eu preciso descansar!

Estamos fadados à civilização?

Não tente me incriminar por tudo o que faço. Tenho consciência plena de que o que faço é o mínimo que realmente poderia eu fazer. Até pareço um de vocês, moralistas de esquina. O meu "chazinho" das três!?

Não, não fique zangado por minha causa! Eu não valho o que vocês desejam! Eu só quero que vocês me entendam e que me ouçam, ao menos uma vez. Eu não quero briga nem discórdia. Eu sou apenas um sonhador que acredita em "Mundos"!

Ai! Estamos fadados à civilização!

Abaixo, o texto de abertura do antigo A AUTO-ESTRADA DO SUL:


Antes do congestionamento, um início

Ouvindo Mautner, com "Todos os fogos, o fogo" do Cortázar aqui do meu lado direito, espiando-me para ver se não farei nenhuma besteira, dou-me mais uma vez à esta "coisa assassina" que é escrever. Faremos do "A AUTO-ESTRADA DO SUL" um espaço para constantes transformações e reformas humanas interiores. Por isso preciso de você, amigo. Tem um Dauphine aqui, vazio, com a chave na ignição. Não deseja acelerá-lo? Espero-te lá na frente, "onde ninguém saiba nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente".


Segue o prefácio do livro de poemas CLUBE DE CARTEADO, que também abriu o blog homônimo, seguido do poema que abre tanto o livro quanto o blog:


Apresentações

"Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal."

(Carlos Drummond de Andrade, do poema "A flor e a náusea")

Com a publicação de "Clube de Carteado", meu primeiro compêndio poético, acredito ter praticado um delito de obscura repercussão, diria enigmática. Acusado de tentar - bastante atenção aqui: eu disse "tentar" - "penetrar surdamente no reino das palavras", acabei tendo de pagar pelo erro cometido da forma mais cruel que imagino: o julgamento, a sentença-mor dada pelo povo. Por isso tentei uma fuga desesperada, um verdadeiro fiasco. Não havia como e para onde escapar. Terminei preso.

Prenderam-me com as amarras das palavras e com as correntes oxidadas do sentido (este último feriu-me gravemente). Porém, após tombar quase morto no chão negro desse mundo de significados efêmeros, percebi meus olhos abertos novamente. E eu já me encontrava sem algemas e menos preso.

Todavia, não sabem eles, os incriminadores, que é o "Clube de Carteado" minha mais proposital arma contra as arbitrariedades e desrumos do homem no mundo. Na posse dele cercaram-me e cerquei, fragilizaram-me e fragilizei, mataram-me e matei.

"Clube de Carteado" é um livro de erros e acertos, uma obra que dá ao erro a sua porção dicotômica e mágica, ora acertando por errar ora errando por acertar. E de que matéria são feitos ou alicerçados estes erros? Talvez da matéria sórdida humana ou das engrenagens tortas do fabrico do quotidiano, do que é natural dos sentidos ou do que é contíguo a uma atitude mais expressiva, do que vem junto com a água da chuva ou da carne podre de uma fruta que vai ao chão de madura. E, com uma maior intensidade, do hoje de todos, ou melhor, do que se precisa da poesia.

Um livro onde o autor se contradiz e a poesia acaba sendo, em quase toda a sua extensão, corrompida, como se o jogador - nesse caso, o leitor - utilizasse de um blefe. Imaginando possuir toda a simbolização da arte, o leitor-jogador vê-se numa densa cortina de fumaça, onde seus olhos são impedidos de enxergar a "realidade versada" ou, ainda, arquitetada. E é neste estado antitético das coisas que a poesia-una é fomentada, sem interesses, senão o de observar sangrias.

Um jogo onde nada ou ninguém pode vencer, apenas elaborar vontades num manejo perigoso, observando o tamanho e a capacidade humana frente às "instituições descriativas", mas também uma mínima bola de neve que, num movimento espontâneo ou pensado, pode transformar-se em braços, pernas, bocas e vistas operantes.

Se, dentre a totalidade dos escritos, um poema, um verso ou, na pior das hipóteses, uma palavra conseguir tocar o teu âmago, fazendo brotar um sorriso ou uma ferida, tenha certeza, caro leitor, que o crime que acabo de cometer fora imensamente compensado.


Por Germano Viana Xavier


*********


O papel e a caneta são meus amigos de infância. Lembro que na falta do papel, acabava sobrando até mesmo para as paredes do corredor da sala, coisa de criança.

Desenhar? Momento de concentração. Momento das sensações de liberdade, de que não existem correntes, da possibilidade de tudo. É a fuga das formas, do tempo, do choro, do outro. É lembrança, encontro e desencontro. É saudade. Retrato da vida e do que se deseja nessa vida. É registro das concepções sociais e políticas pelos sujeitos da história. É meio de protesto, é instrumento de luta. É tudo isso, mas no papel sempre haverá espaço para mais um pouco.

Foi através de Gladys, uma grande amiga, que Germano soube desta minha paixão. Tudo acertado, não demorou muito, marcamos os casamentos. Foi assim que unimos os filhos do poeta Germano com as minhas ilustrações. Foi um prazer ilustrar Clube de Carteado, e cada união era motivo de muita alegria. Essa bela obra é a representação das emoções que sinto quando leio os poemas. E cada galho, cada pétala de flor, cada gota d'água, cada lágrima, cada traço, é a transcrição de uma vírgula, de um acento, de uma palavra, de uma estrofe, de uma rima.

Assim, entre ilustrações e poemas, desejo, às leitoras e aos leitores, uma boa viagem pelas páginas deste livro.


Por Cida Mello


*****


Desses casos particulares


Assim, de início,
quereria meu poema
descansado, à espera
de um lucilante fio
de sol de fim de tarde.

Basta isso dele querer,
sem pedir nem mais nem menos,
e já começo dele não ser
compadre, que dirá dono!

De raio de olho,
vejo letras desajustadas,
perdendo-se, perdidas
na labuta buliçosa de formação
da palavra, que escorre
e vaza e fere e foge
e que, por não se achar
na aléia dos versos,
vira vento vulto
vazio:
ente insulso,
ou seria alimento?
(Um pouco de mim?)

E vai...
E continua,
visita sendas, fendas, plagas
do impensado,
ou seria estrangeiro?
Enfim, mais uma estrofe para trás,
deixada ao sol que não quis.

Nessas horas não o tenho
em vista; criou asas
na boca do povo
e voou desmetrificado,
sem rimas ricas,
sem correntes.

No fim de tudo,
poeta sem poema
(Pai sem filho),
porém rico,
o que se deseja
é Vida:

Vida longa ao poema!

P.S. Este texto permanecerá para sempre na página principal deste blog, servindo possa a quem se interessar em saber mais sobre este sítio, podendo ser atualizado a qualquer momento.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O divino maravilhoso



Por Germano Xavier 

uma carta acerca do agradável desespero

Querida Anatole,

Me ajude a entender o que está acontecendo. Sinto uma tristeza que parece não ter fim. Estou tão magoado, que nem consigo raciocinar o melhor passo a dar depois de tanta decepção... Até minha respiração agora é estertor, símbolo de vontades vascas. Ando assim há dois dias e três noites, e escrevo esta carta porque preciso desabafar todo este arfar rouco, só digno dos moribundos, que hoje se apoderou de mim, falar de mim com alguém, senão irei explodir e virar pó... A rua está cheia de gente, você vê?, cheia de faces suadas, sangue nas mãos, nos pulsos escorrendo, o sangue duro da luta, coagulado mas quente, cheia de gente ferida, gente com garra, pobre e imunda, mundo dos grandes, aquela luta de sempre... e eu aqui, diluído em minha total fraqueza de ânimo, vendo um exemplar fodido de uma nouvelle vague francesa, um Truffaut sem nome. Você bem sabe que o Free Cinema inglês nunca me encantou. Foi o Gaspar, lembra?, ele sim é amigo. Me emprestou ontem o longa. Esteve aqui e fez chá para mim, perguntou o que eu tinha, se estava precisando de alguma coisa, sabe, coisas de amigo de verdade. Cadê aquela tua amiga de verdade, que sempre fumava em roda com você quando Marx era o tom do crepúsculo? Outro dia fiquei sabendo que a Marta morreu na barricada lá na universidade. Naquele dia, por sorte ou sei lá, entrei pelos fundos da faculdade e não vi nada depois que invadiram a biblioteca, e aquela fumaça marrom sufocou todo mundo. Depois daquela agonia, o Fred chegou de viagem e foi lá na casa do meu irmão conversar comigo, ou melhor, foi brigar comigo e saber de mim o que eu queria. Eu disse que não era preciso mais um na luta, que o país inteiro já dava conta da guerra e que não era eu quem iria fazer falta. Ele dormiu lá e me disse que tinha terminado com a Marta naquele mesmo dia, que final triste para um amor que parecia não ter final, não é?, mas que não teve como terminar antes, nem na quinta e nem na sexta, porque sexta era o aniversário de casamento dos pais dela, e ele não tinha como terminar. Me apareceu com ainda muito mais pesar o olhar sempre pesado dele, lembra?, do olhar pesado do Fred?, sempre carregado de tristeza e sempre mortiço. Ele sim era um nouvellevaguista de carteirinha, fodido como o movimento todo. Eu disse que ele sabia o que estava fazendo, que podia amenizar a tristeza dela e ser mais homem, dizer na cara que o amor havia esvaído, que o amor é coisa que acaba, assim, vai ao vento e se desfaz, sabe... dizer na cara dela, da coitada da Marta, lembra da tatuagem dela?, que ela fez com um mês de namoro?, com o nome dele nas ancas graúdas?, mulher bonita por dentro e por fora era a Marta..., que o amor é uma merda e todo mundo sai fodido depois, disse que não concordava com ele, manter uma mentira com ela, assim, fazer ela sofrer sem merecer, porque ela estava sendo sincera com ele, nunca trocou um beijo por uma arma feita em garagem ou bandeira qualquer. A Marta que sempre dizia “je t’aime, je t’aime”, mulher boa demais, olhar de menina, não merecia, não!, não merecia nada disso. Tudo bem até aí, Tole... Marquei um encontro com o Gaspar na segunda, um outro na terça e combinamos que ele passaria na minha casa de noite antes de ir se encontrar com a Marie. Era uma mulher formosa, corpulenta, mentora de frases polidas e uma esquerdista de primeira linha. Gaspar me disse que Marie foi a causa da dor da Marta. É isso, Fred e Marie, aquela coisa que sempre acontece. Eu tinha comprado até um bolo e um vinho para festejar de noite as primeiras vitórias da gente na avenida. Ele chegou um pouco tarde, o Fred, porque tinha tomado café na casa do Antônio e depois do festejo me disse que ia logo sair com a Marie porque queria voltar logo para casa, que iria só "tapear", sabe... coisas que sempre acontecem, e que depois ia cedo para casa porque o mundo estava fervendo, e não bastava mais o western spaghetti e toda aquela nóia e medo do 13 de dezembro. O Fred sempre foi assim, lembra?, dos planos do Fred?, ele nunca chegava ao fim em nada, era um merda, mas eu gostava dele, andava pelos cantos chorando sonhos que nunca davam certo. Eu então pedi a ele que levasse um livro lá na biblioteca, porque no dia entrei pelos fundos para chegar. Queria devolver os livros do Marx que tinha lido no fim de semana, mas aquela fumaça toda, sabe, não dava, não dava, não deu. Acontece que no dia seguinte, Tole, eu liguei para o Gaspar e ele atendeu chorando, voz trôpega e ardida. Saí de casa em direção a casa da Marie, porque o Fred estava morto, Tole, o Fred, lembra?, aquele otário de merda, lutando por essas causas sem causa nenhuma, lutando pelo povo, era a desculpa dele, lembra?, o Fred agora não era mais nada e não tinha piedade da gente. O Fred e a Marta, os dois, lembro das tardes de domingo, os dois no rio, o amor?, agora mortos, sem vida, ausências encravadas na terra, terra cheia de molho agora, aquele velho divino maravilhoso, montículos no meio do mundo de argila e barro mesmo. Os dois, Tole, por nada, idiotas!, por nada tudo isso. Esta fé desgraçada em acreditar no que não tem sentido! Merda! Merda! Merda! Idiotas! Como podem nos deixar assim?! Para a minha surpresa, Tole, sabe... eu vi o carro da Marta na porta da casa do Fred. Os pais da Marta também foram chorar, porque ele era um cara bom, merda! Esta fé cega e desgraçada em nada, povinho sem força que se engaja por nada, pensando que vão mudar o mundo, sem querer acreditar que todo mundo depois pega no sono, e agora os dois, pensei, tinham pegado no sono... sei lá... Uma desgraça, Tole, todinha, tudo. Os outros não viam problema algum. Tudo provocantemente ambíguo, tipo filme do Kubrick, todos ovacionando o guerreiro e o féretro descendo no abisso e na escuridão do momento, nadas encaixotados, nadas, Tole, nadas... Aqueles movimentos basilares que os coveiros fazem quando estão quase no fim, quase lá, hora de cobrir o corpo com a terra e esquecer-se de tudo, de que existimos um dia, hora de fechar os olhos e continuar a ilusão, de continuar vivendo sem liberdade. Mas se arrependimento matasse, não é mesmo, Tole, ninguém tinha feito essa loucura, participado de tanto, com tanto fervor... porque para minha surpresa, Tole, quando eu desci a Rua das Marquises, sustos e perplexidades ainda em mim, vi gente aos gritos, mães aos gritos, três bêbados, muita correria e quando fui abrir a porta para a Marie, Gaspar me disse para não falar alto com os militantes, que era que eu queria?, que era que ele queria?, e que eu fosse embora quando desse porque depois ele conversaria comigo. Anatole, eu não tive nem palavras, só disse a ele que nunca mais me procurasse, que eu não queria mais saber de tudo isso, que eu não queria presenciar a morte de mais nenhuma merda de amigo, que todos formavam um bando de trouxas lutando sem armas contra um mal sem fim, sem pé nem cabeça, que a morte era o destino de cada um e que eu não queria ser o próximo da lista. Foi quando uma granada estourou bem do meu lado, Tole, um fogo amigo explodindo do meu lado. Minha pressão baixou na hora, a porta do carro abriu e eu caí no chão. Marie me arrastou até o outro lado da avenida, me deu um pouco d’água e disse “je t’aime, je t’aime”, os seios rotundos caindo sobre mim... Me levantei chorando, quase surdo, sem sentir minha voz, devolvi um olhar desesperadamente agradável, perguntei o que estava acontecendo... a Marie disse então que não ia falar nada, que só o tempo poderia falar. Desceu as escadas que davam para a estação do metrô quase me arrastando, fiquei sentado no chão, chorando sem saber, vítima de tudo aquilo que um dia não quis e pensando que se eu começasse a entender o meu papel em tudo aquilo, no volante, naquela hora, naquela avenida fodida, podia acontecer um acidente ainda mais grave comigo. A Marie estava sendo boa comigo, Tole, e sempre dizia “je t’aime, je t’aime”. Eu sem nada entender, não ouvia a palavra que saia daquela boca que era do Fred. Pedi a ela que me explicasse. Um zumbido no ouvido. Ela disse que não e eu sem ouvir nada. Os portões lá em cima sendo arrombados, o mundo todo morrendo, acabando, e a Marie se esforçando para me dizer que ainda havia uma esperança, que ainda havia uma possibilidade, que nem tudo estava terminado, que a flor poderia vingar e o jardim ser mais belo, que o amor venceria tudo e nada podia contra ele, esse ser tão imenso, tão imenso... Marie só fazia chorar e eu chorava sem saber das explosões que se aproximavam, das gritarias cada vez mais próximas. Foi quando eu quis dizer que o que ela falasse eu iria confirmar, que eu iria aceitar, que ela mais do que ninguém sabia do que eu queria, que eu a havia procurado, que ela não se preocupasse, que do mesmo jeito que eu cheguei eu podia sair, mas que estava nascendo um sentimento muito forte aqui no meu peito, uma dor boa de quem sente o calor da lava de um vulcão tocando a pele, que não podia ser falso com ela e esconder o jogo, porque eu sentia algo por ela agora, apesar de tudo e de todos. Tole, uma bomba explodiu. Eu não ouvi nada. Eu nada ouvia. Aquela fumaça marrom, sabe, vindo como uma avalanche, e a mão da Marie segurando o meu rosto, a Marie dizendo “je t’aime, je t’aime”, e a mão dela escorregando sem força sobre meu peito, todo o corpo dela sobre meu corpo, esgotada, sem força alguma, aquela fumaça marrom, sabe, o amor que eu não consegui dizer, a merda do amor que eu não consegui ouvir, Tole... o amor, Anatole! O amor...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sobre as variantes linguísticas


 Por Germano Xavier

INTRODUÇÃO

A língua materna é algo tão íntimo, tão indissociável do usuário, que faz com que a pessoa veja, crie, recrie o mundo em sua volta, sempre olhando pelo ângulo de seu idioma.

Expliquemos melhor. Logo após a concepção, tudo que nos é dirigido, por meio de palavras, vem em nossa língua mãe, o Português. Daí, podermos afirmar que o Português é nossa língua materna, isso porque nós o escutamos deste o ventre de nossas mães. Somos lusófonos antes mesmo de nos percebermos como pessoas. Diga-se de passagem que até nossa percepção como seres humanos, cidadãos acontece pela vertente da Língua Portuguesa.

Em nossas famílias, bairro, comunidades religiosas, grupos em que somos inseridos desde nossa tênue infância, permitem-nos perceber, participar, transformar situações, idéias, sentimentos em Língua Portuguesa. A nossa personalidade é formada em Língua Portuguesa; a nossa dignidade de seres humanos é respeitada ou ferida em Língua Portuguesa.

Portanto, podemos afirmar categoricamente que somos usuários, dominadores autênticos do Português, independente de qual variação utilizamos, independente do domínio técnico que detemos.

Assim, por meio desta pesquisa, buscamos detectar as reais dificuldades encontradas em sala de aula de um colégio estadual da cidade de Petrolina – PE em relação ao ensino de Português diante das variações lingüísticas. Os sujeitos desta pesquisa foram os(as) professores(as), por se tratarem das pessoas que estão mais engajadas no processo de ensino de Língua Portuguesa e que têm o conhecimento técnico necessário para analisar por uma ótica de criticidade a prática do ensino de Português no colégio pesquisado.

Ressaltamos, que os resultados alcançados nesta pesquisa não tiveram o propósito de definir metodologias para a prática do ensino de Português em sala de aula. Contudo, os resultados obtidos poderão contribuir para uma efetiva e democrática discussão do modo como vem ocorrendo em sala de aula o ensino de Língua Portuguesa, bem como, poderão a vir ocorrer, posto que detectar quais dificuldades são percebidas por professores(as) de Português no tocante ao ensino da língua diante das variações lingüísticas presentes em sala de aula, Identificando a(s) metodologia empregada(s) nas aulas de Língua Portuguesa no colégio pesquisado; averiguando como acontece a convivência entre a variação lingüística padrão e as diferentes variações não-padrão trazidas pelos alunos de casa; percebendo possíveis erros e contradições na(s) metodologia(s) empregada(s) por professores(as) de Língua Portuguesa no colégio pesquisado, abrimos novos caminhos para um progresso sociolingüístico em todas as esferas da sociedade e do conhecimento.


CAP. I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1 – A IMPORTÂNCIA DA VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA

“Brasil: país da miscigenação”. Essa frase é muito conhecida, tanto por brasileiros como por aqueles que são estrangeiros, mas que têm interesse por nosso país. Afinal, essa miscigenação vem de longas datas, desde quando os portugueses aqui chegaram, e a partir daí só deu continuidade a sua proliferação.

Se todos conhecem que a origem do Brasil se deu pela mistura de raças e culturas, por que querer estabelecer a variante da língua padrão como única correta? Por que querer impor que quem fala diferente da norma-padrão fala errado? A miscigenação também está presente em nossa língua, não falamos de uma única forma, há uma mistura, são várias as maneiras possíveis de nós nos comunicarmos.

É tão certo que a nossa língua materna é o português quanto que as pessoas que aqui nascem são brasileiras. Mas daí querer que todos os brasileiros nasçam com a mesma cor de pele, com as mesmas características quanto a cabelo, olhos, narizes... É impossível! Da mesma forma é com a língua. Querer que todos falem a língua portuguesa sem variação é impossível. Mesmo porque cada um se encontra em um contexto sociocultural e econômico específico.

1.2 – VARIANTES PRESENTES NA LÍNGUA

As variações lingüísticas estão presentes na nossa língua. Basta começarmos a passear pelos estados do Brasil para percebermos tal realidade. Comecemos pelo estado de São Paulo, lá observaremos que se destaca o uso do R, eles falam “poerta”, “poertão”. Já no Rio, destaca-se o uso do tch, ao invés de falar titia, eles falam tchitchia. Na Bahia, por sua vez, o falar manso e palavras no diminutivo, a exemplo de painho e mainha, são características marcantes daquele estado. Em Minas Gerais, encontramos palavras com terminações na vogal I, como meninim, ao invés de menino. Não será preciso analisar cada estado porque as variações estão presentes em todos eles de forma bem ampla, onde cada um fala de maneira particular. Assim, podemos afirmar que não é porque os paulistas falam “poerta” que estão certos e os falantes de outros estados estão errados. Todos estão corretos, embora falem de maneira diferente.

Bagno (2008, p.68, grifo do autor), enfatiza essa afirmação:

Ora, todos estão igualmente certos. O que acontece é que em toda comunidade lingüística do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico o tempo todo.

Ficou claro, pelas palavras de Bagno, que não existe uma única forma de usarmos a língua, cada um tem um modo diferente de se comunicar.

Portanto, não é preciso irmos a vários estados brasileiros para notarmos a presença de variedades lingüísticas, pois, até em uma mesma cidade notamos a presença de vários dialetos. O que mais determina o uso dessas variações é a ocasião e a quem estamos nos reportando, por exemplo, numa conversa entre amigos, é comum usar uma linguagem mais informal, já numa ocasião onde o uso formal da língua é exigido, essa linguagem deve ser evitada.

1.2.1 – AS VARIANTES DE ACORDO COM OS ESTADOS SOCIOCULTURAL E SOCIOECONÔMICO

Em nosso país há uma grande riqueza cultural. O Brasil foi formado pela miscigenação das raças indígena, negra e branca, e dessa mistura, absorvemos características fortes de cada uma delas, que são transmitidas de geração a geração.

Ora, uma vez que os estados brasileiros sofrem influências diferentes dos grupos étnicos, podemos afirmar que o Brasil tem uma pluralidade cultural maravilhosa.

Com a chegada dos colonizadores, os índios, que já habitavam essas terras, foram forçados a trabalhos escravos, logo após vieram os escravos negros.

Bem, essa recapitulação servirá para refletirmos sobre a nossa sociedade atual, pois, infelizmente, ainda há um grande preconceito sociocultural sobre esses dois grupos. Notamos que grupos de pessoas fazem uma classificação pejorativa de culturas, crenças, rituais, modos de vestir, dialetos, agindo assim de forma preconceituosa. Porém, devemos nos perguntar: como podemos classificar uma cultura como superior ou inferior? Quais os critérios que são adotados? Qual a referência entre elas para que possamos dizer se é melhor ou pior?

Em resposta a primeira pergunta, daremos como resposta uma citação de Soares(2000, p.38-39):

A Antropologia já demonstrou que não se pode considerar uma cultura superior ou inferior a outra: cada uma tem a sua integridade própria, o seu próprio sistema de valores e de costumes; não há culturas “simples” ou “complexas”, “pré-lógicas” ou “lógicas”.

Portanto, não existem culturas superiores, nem inferiores, existem diferentes. Tenhamos nosso país como exemplo, foi colonizado pelos portugueses, mas nossa cultura é diferente de Portugal, seja na maneira de se vestir, de agir, as crenças, os valores, ou seja, temos padrões culturais distintos. Não somos nem inferiores e nem superiores aos portugueses, somos apenas diferentes.

Assim também explica a sociolingüística, em nosso país falamos a língua dos nossos colonizadores, a Língua Portuguesa, porém aqui não é falado do mesmo jeito que em Portugal, inclusive como já dissemos anteriormente, uma mesma língua sofre variações até mesmo pelos falantes de uma mesma comunidade lingüística. Não devemos então achar que em uma região se fala melhor o Português do que em outra, uma vez que há apenas diferença no modo de fala de cada região.

Diante de tanta diversidade cultural, cresce o preconceito sobre as camadas menos favorecidas econômica, social e culturalmente, e isso reflete também no campo da Lingüística, onde em nosso país, principalmente, nas regiões norte/nordeste há o preconceito lingüístico, daqueles que se dizem usuários da norma-culta da Língua Portuguesa. Esses ainda vão além, pois afirmam que toda forma de uso da língua que está fora das normas da gramática normativa é “erro de português”.

1.2.2 – NÃO HÁ “ERROS” NA LINGUAGEM

O que são esses “erros de português” de que tanto falam os gramáticos?

Uma língua viva nunca é estática, ou seja, sofre modificações no decorrer do tempo, ou melhor dizendo, evolui. Para enfatizar essa afirmação usaremos como exemplo o pronome de tratamento você: Antes era “Vossa Mercê”, passou a vosmecê> você> e hoje já percebemos a forma ocê, vc ou apenas cê no uso da forma menos formal da fala.

Ainda falando dessa dinamicidade da língua, Bagno faz um interessante comparativo entre língua e gramática normativa, comparando o primeiro objeto a um rio caudaloso e o segundo a um simples igapó da Amazônia.
Em suas palavras,

Na Amazônia, igapó é um trecho de mata inundada, uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Me parece uma boa imagem para a gramática normativa. Enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renova quando vier a próxima cheia.(2008, p.20, grifos do autor).

É necessário pensar que a língua é feita para os seus falantes e esses é que irão determinar o seu uso. Devemos fazer então uma separação entre língua e gramática normativa, pois somente dessa forma poderemos evitar a exclusão que fazem àqueles que usam uma variante lingüística diferente da norma-padrão, ditada pela gramática tradicional.

É difícil, ou melhor dizendo, é impossível que num país tão grande em extensão como o Brasil, todos falem da mesma maneira, como assim querem os gramáticos. Isso acontece porque cada indivíduo vai desenvolver uma gramática internalizada de acordo com o meio em que vivem e socializam. Assim sendo, não é possível conceber a idéia de que eles falem errado, mas, que há apenas um uso diversificado da língua, diferente das normas impostas pela gramática tradicional, sobre isso Bagno (2008,p. 51) diz que “Saber uma língua, na concepção científica da lingüística moderna, significa conhecer intuitivamente e empregar com facilidade e naturalidade as regras básicas de funcionamento dela.”

Da mesma forma podemos dizer que erros de ortografia, não são o mesmo que “erros de português”.

Imaginemos então o que aconteceria com uma criança que se desloca de uma cidade do nordeste para estudar em uma cidade do eixo Sul/Sudeste; certamente sofrerá muitos preconceitos em relação ao seu modo de falar, e isso pode trazer conseqüências muito sérias em relação ao seu aprendizado e no seu desenvolvimento intelectual. Ela poderá por diversas vezes, se calar, mesmo tendo dúvidas em relação ao conteúdo abordado em sala de aula, pois poderá sentir-se constrangida e inferiorizada em relação aos seus colegas de classe.

Concebendo a língua dessa forma, cheia de preconceitos e de noções de erros, daqueles que usam variantes diferentes da norma-culta, estaremos criando uma barreira muito difícil de ser ultrapassada pelos falantes dessa língua.

1.3 – O ENSINO DA LÍNGUA

Os alunos ao ingressarem nas escolas, trazem consigo a sua linguagem aprendida em família, caso ela, a língua, não seja aceita em sala, a professora terá conseguido inibir os alunos, reprimi-los e penalizá-los o suficiente para transformar aquelas crianças tagarelas de casa em crianças “mudas” na escola.

Bortoni-Ricardo nos exemplifica essa situação de forma divina ao nos reportarmos ao trecho do livro Rememórias Dois, esse de Carmo Bernardes, vejamos:

Entrei numa lida muito dificultosa. Martírio sem fim o não entender nadinha do que vinha nos livros e do que o mestre Frederico falava. Estranheza colosso me cegava e me punha tonto. Acho bem que foi desse tempo o mal que me acompanha até hoje de ser recanteado e meio mocorongo. Com os meus em casa, conversava por trinta, tinha ladineza e entendimento. Na rua e na escola – nada; era completamente afrásico.(2004, p.13).

Nesse trecho, Bernardes narra sua experiência em seus primeiros dias de aula, experiência essa que tem sido de muitas outras crianças, por vergonha, inibição do seu dialeto, comportam-se como tagarelas em casa porém recanteadas e tímidas na sala e o pior é que essa inibição, a maioria das vezes, é desencadeada pelo professor, e auxiliada por alguns alunos e funcionários, o que faz com que várias crianças acabem desistindo ou sendo desestimuladas a estudar.

Bordoni-Ricardo (2004, Pág. 25), relata um episódio que aconteceu com sua, colega analisemos:

Ela se lembra de um grande constrangimento em sua infância, quando, recém-chegada da zona rural da Paraíba, apontou para uma palavra no quadro-de-giz e perguntou a professora: “Que palavra é aquela lá em riba?” Ao ouvir isso, a professora a ridicularizou em frente dos colegas.

Constrangimentos desse tipo afetam tanto o aprendizado como o psicológico da criança, mesmo depois de tanto tempo essa professora ainda lembra do episódio com detalhes, só a partir dessa informação percebemos o quanto a afetou emocionalmente.

É preciso repensar o método com que os professores lidam com os alunos quanto às variantes que estes usam em sala de aula. Talvez aí venha a dúvida. E então vai deixar a aluna falando em riba? Diante de questões como essas é que professores ficam apáticos, inseguros sem saber de que forma reagir aos tão famosos “erros de português”.

Vejamos o resultado de uma pesquisa feita por Bortoni-Ricardo sobre a conduta do professor perante a realização de uma regra lingüística não-padrão pelos alunos:

• O professor identifica “erros de leitura”, isto é, erros na decodificação do material que está sendo lido, mas não faz distinção entre diferenças dialetais e erros de decodificação na leitura, tratando-os todos da mesma forma;

• O professor não percebe uso de regras não-padrão. Isto se dá por duas razões: ou o professor não está atento ou o professor não identifica naquela regra uma transgressão porque ele próprio a tem em seu repertório. A regra é, pois, “invisível” para ele;

• O professor percebe o uso de regras não-padrão e prefere não intervir para não constranger o aluno;

• O professor percebe o uso de regras não-padrão, não intervém, e apresenta, logo em seguida, o modelo da variante-padrão.(2004, p.38).

Diante de tal postura do professor perante essa situação, a mesma autora recomenda,

Da perspectiva de uma pedagogia culturalmente sensível aos saberes dos alunos, podemos dizer que, diante da realização de uma regra não-padrão pelo aluno, a estratégia da professora deve incluir dois componentes: a identificação da diferença e a conscientização da diferença.
(2004, p.42, grifos da autora).

Retomando a questão citada: ‘”E então, vai deixar a aluna falando em riba?” Após observarmos a citação de Bordoni-Ricardo, diríamos: E por que não? Não é a sua linguagem? Não conseguimos entender, mas deixá-la com apenas esse vocabulário é que não é interessante, é preciso ampliá-lo e não menosprezar o que já tem.

Pois a linguagem é como um guarda-roupa, é preciso saber usar as roupas de acordo com a ocasião. Não é por que vamos a uma festa, que será preciso usar sport fino, que iremos jogar todas as nossas roupas jeans no lixo. Pode ser que precisemos do jeans para o dia seguinte; para irmos a um piquenique. Assim é a linguagem, a criança vem com a sua de casa, com suas variações de acordo com o seu status social e cultural; e a professora precisa apenas apresentar outras variações lingüísticas sem classificações extremistas, como certo ou errado.


CAP. II – METODOLOGIA

2.1 – TIPO DE PESQUISA

Esta pesquisa foi do tipo descritiva, desenvolvendo-se numa abordagem qualitativa, analisando a prática do ensino de Língua Portuguesa diante das variações linguísticas presentes em sala de aula dos Ensinos Fundamental e Médio de um colégio público estadual do município de Petrolina – PE.

2.1.2 – SUJEITOS DA PESQUISA

Professores(as) de Língua Portuguesa de um colégio público estadual da cidade de Petrolina – PE. Foram entrevistados(as) professores(as) que ministram aulas de Língua Portuguesa no colégio pesquisado.

Os sujeitos desta pesquisa foram escolhidos por fazerem parte da rede de ensino mais ampla e complexa - a rede estadual de ensino -, esta dotada de maiores estruturas físicas, material humano e recursos orçamentários.

2.2 – INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

2.2.1 – DESCRIÇÃO DOS INSTRUMENTOS

Foram elaborados questionários constituídos por indagações objetivas e subjetivas pertinentes ao ensino de Língua Portuguesa. Tais questionários foram respondidos por professores(as) que fizeram parte desta pesquisa e serviram para fornecer subsídios que permitiram verificar a prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações lingüísticas presentes em sala de aula do colégio pesquisado.

2.2.2 – APLICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS

Os questionários foram respondidos de forma escrita pelos(as) pesquisados(as), e os pesquisadores utilizaram-se do método da observação, objetivando captar subsídios que pudessem contribuir para um melhor êxito da pesquisa.

2.3 – LEVANTAMENTO DOS DADOS

As respostas dadas pelos(as) pesquisados(as) foram analisadas pelos pesquisadores e transcritas de forma direta ou parafraseada em texto oportuno.

2.3.1 – TRATAMENTO DOS DADOS

Os dados obtidos por meio dos questionários, respondidos por cada pesquisado(a), deram margem a interpretações concernentes à prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações presentes em sala de aula dos Ensinos Fundamental e Médio de um colégio público estadual da cidade de Petrolina – PE no ano letivo de 2008. Os questionamentos foram elaborados para que demonstrassem a verdadeira prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações lingüísticas presente em sala de aula do colégio pesquisado.

2.4 – MÉTODO DE PESQUISA

Esta pesquisa foi realizada utilizando-se o método dedutivo. Com 100% (cem por cento) dos(as) professores(as) de Língua Portuguesa dos Ensinos Fundamental e Médio do colégio pesquisado, fazendo-se a combinação dos dados levantados em sentido interpretativo, isto é, por meio da dedução, caminhando do geral para o particular.

CAP. III – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

Neste momento, temos como prioridade fazer a apresentação e a análise dos dados colhidos na pesquisa DIFICULDADES COM RELAÇÃO AO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA DIANTE DAS VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS PRESENTES EM SALA DE AULA. Num primeiro momento, relataremos todo o ocorrido nos processos de preparação e de pesquisa propriamente dita. Feito isso, seguiremos com a descrição do questionário destinado aos entrevistados, seguida de uma explicação do porquê de cada pergunta, para depois apresentarmos e analisarmos as respostas colhidas no desenrolar da pesquisa. Por fim, numa conclusão bem sintetizada, relataremos acerca de tudo que foi observado.

3.1 – CAMINHO PERCORRIDO PARA A REALIZAÇÃO DA PESQUISA

Na sexta-feira, 14 de novembro de 2008, dirigimo-nos à escola escolhida para o desenvolvimento da pesquisa, com o objetivo de apresentarmos à direção da mesma o Projeto de Pesquisa e pedirmos autorização para a aplicação dos questionários. Nesta ocasião, pela tarde e, também, pela noite, foi realizada a pesquisa junto ao professorado. Fomos cordialmente recebidos pela coordenação pedagógica, que deu a devida permissão para a realização da pesquisa, além de dar informações pertinentes aos professores do quadro da escola que ministram aulas de Língua Portuguesa. Os professores por nós procurados não se opuseram a colaborar na resolução do questionário. Todo o processo, incluindo aplicação e recebimento do material, deu-se em poucos minutos, tanto no turno matutino, vespertino e, de igual maneira, no noturno. Nenhuma das aplicações de questionário extrapolou 1 (uma) hora de duração.

Para a confecção e obtenção dos dados necessários, fez-se necessário irmos à escola no curso dos três turnos: matutino, vespertino e noturno. Em todas as ocasiões de visita, preocupamo-nos em procurar cada professor de Língua Portuguesa presente nos respectivos turnos. Ao todo, formaram a lista de professores pesquisados 5 (cinco) professores de Língua Portuguesa, que ministram aula de Língua Portuguesa na escola pesquisada e dão aulas em turnos diferentes. Destes, todos aceitaram participar da pesquisa. Contudo, pediram para responder ao questionário somente no momento do intervalo entre as aulas, pois os alunos se mantinham muito inquietos enquanto os professores tentavam responder às perguntas.

No período da manhã estivemos nas dependências da escola pesquisada entre 9h40min e 10h40min. No período matutino, foram entrevistados 3 (três) professores. Retornamos no período da tarde, onde entrevistamos mais 1(um) professor. Este pesquisado respondeu ao questionário entre 16h e 16h18min e nos atendeu com muito boa vontade.

Dos 5 (cinco) professores que fizeram parte da pesquisa, os cinco (cinco) são do sexo feminino. Cada professora pesquisada só ministra aulas na referida escola durante os turnos em que foram lá encontradas. O trabalho de pesquisa no turno matutino foi realizado entre 09h40min e 10h40min. A pesquisa no turno vespertino foi feita entre 16h e 16h18min. Já a pesquisa no turno noturno foi realizada entre 18h e 18h20min, do dia 14 de novembro de 2008.

A cada professor entrevistado dirigimo-nos com muita cordialidade e respeito. Agradecemos a eles por terem aceitado participar da pesquisa, fizemos uma apresentação pessoal e do projeto e pedimos para todos assinarem o protocolo de ética, este foi explicado e dado para todos lerem o seu conteúdo. Faz-se necessário destacar que, apesar dos poucos minutos diante das perguntas do questionário, passamos, literalmente, o tempo integral de aulas para efetivarmos a concretização da pesquisa, fato que nos deixou cansados, devido às repetidas idas e vindas ao estabelecimento de ensino. Algumas professoras demonstraram que não estão a todo o momento ligadas ao livro didático, outras se apresentaram como modos mais “saussurianos” de atuar em sala. Uma professora precisou levar o questionário para a sala de aula, no intuito de respondê-lo totalmente.

3.2 – DESCRIÇÃO DO QUESTIONÁRIO E JUSTIFICATIVA DAS QUESTÕES

Um questionário foi produzido para ajudar na efetivação da pesquisa, destinado e aplicado junto aos professores. O questionário direcionado aos professores foi composto de 7 (sete) questões abertas. Todas as questões foram respondidas espontaneamente e as respostas foram escritas de próprio punho pelos pesquisados.

A primeira pergunta do questionário direcionado aos docentes em Língua Portuguesa da escola pesquisada pretendeu captar a informação acerca do tempo de experiência de cada professor no trabalho com a citada disciplina em sala de aula. O segundo questionamento averiguou a formação do professorado, o local de sua graduação e suas possíveis especializações. A terceira proposição procurou saber se o professor ministrava aula em outra rede de ensino, que não da rede de ensino do Estado de Pernambuco. A quarta questão pediu uma descrição, por parte do professor, acerca dos preparativos necessários para o bom desempenho de uma aula que tem como ponto central os temas “variante-padrão e variantes lingüísticas trazidas pelos alunos da sua própria casa”. Na quinta provocação, ainda com base na questão anterior, requisitamos uma descrição relativa à realização da aula preparada e descrita no item anterior. A sexta questão buscou extrair do professor uma visão acerca da idéia que o alunado possui concernente às variantes lingüísticas diferentes da tida como padrão. A sétima e última pergunta quis observar no professor se ele, como objeto analisado, teria alguma consideração a mais para fazer, tendo em vista as temáticas por nós pesquisadas.

3.3 – RESPOSTAS DADAS PELAS PROFESSORAS PESQUISADAS

Em resposta ao primeiro questionamento, apresentado às pesquisadas, a primeira professora a responder disse ter quinze (15) anos de experiência como professora de Língua Portuguesa. A segunda professora afirmou ter oito (8) anos. A terceira pesquisada disse ministrar aulas de Língua Portuguesa há vinte e seis (26) anos. A quarta há vinte e dois (22) anos. E, por último, a quinta disse ensinar Língua Portuguesa há dezenove (19) anos.

Quanto ao segundo questionamento, todas as professoras perguntadas disseram ser graduadas em Letras pela Universidade de Pernambuco. Destas duas têm especialização em Língua Portuguesa e uma terceira está fazendo especialização em Lingüística e o Ensino de Português.

Quanto ao terceiro questionamento, dirigido às professoras pesquisadas, três professoras disseram que não trabalham em outra rede de ensino. Uma outra afirmou que também leciona na rede municipal de ensino de Petrolina e outra, por sua vez, disse que também ministra aulas de Língua Portuguesa na rede estadual de ensino do Estado da Bahia.

Em resposta ao quarto questionamento dirigido às professoras pesquisadas, a primeira disse: “A preparação dá-se de forma a preparar o aluno com a variante padrão, mas respeitando suas variações lingüísticas, ou seja, seus conhecimentos fora da escola”. A segunda respondeu: “Pesquisas de músicas. Pesquisa de regionalismo, gírias, etc”. A terceira entrevistada deu como resposta: “Através das gramáticas normativas, livros didáticos, músicas e pesquisas em geral”. A quarta respondeu: “Através de livros didáticos, textos jornalísticos e revistas”. Já a quinta entrevistada, escreveu: “Aproveitando falares próprios dos alunos em ocasiões discursivas anteriores ou textos, passarei a refletir sobre aspectos relevantes como: respeitar as falas como a necessidade de conhecer a variante culta ou padrão”.

A quinta pergunta, dirigida às pesquisadas, foi respondida assim pela primeira: “Com o surgimento das variações lingüísticas, procuro mostrar para o aluno, sem constrangimento, a variante padrão”. Em tópicos, a segunda respondeu: “Problematização sobre o tema. Leitura de diferentes textos. Observações. Testemunhos. Atividades”. E a terceira pesquisada disse: “Socialização dos textos escolhidos, observações dos mesmos e desenvolvimento de atividades em grupo e/ou individual”. A quarta pesquisada respondeu: “Produção de dissertações, onde o aluno possa desenvolver suas idéias mostrando assim os seus conhecimentos”. A quinta e última relatou: “Creio já ter respondido”.

Em relação ao sexto questionamento, a primeira das pesquisadas respondeu que “Ainda está em suas cabeças a divisão, mas a gente tenta valorizar o que ele já tem no seu dia a dia, sem esquecer de mostrar a padrão”. A segunda disse: “Os alunos acham interessante, um país tão diversificado”. A terceira deu como resposta: “Eles percebem claramente esta variação, respeitando-a”. A quarta insinuou: “Interessante, já que apesar de existir diferentes “formas” de comunicação o entendimento está presente em todas”. A quinta revelou: “Eles criticam como erros de português, mesmo nas reflexões de falares seus ou de sua região, entretanto falando e criticando os outros”.

Para o preenchimento da sétima e última questão, recebemos como resposta, seguindo as respectivas ordens de fala, o que segue: 1- “Respeitar o que o aluno traz”. 2- “O tema é muito bom, pois faz parte da nossa vida”. 3- “O tema abordado é propício, pois o Brasil é um país muito rico em variações lingüísticas”. 4- “O tema citado é importante já que aborda questões da própria comunicação social. Além de que o compartilhamento de conhecimento entre professor/aluno ajuda ambas as partes”. 5- “Acredito que todos nós, estudantes da língua portuguesa, temos um certo preconceito lingüístico e até então não encontramos a forma mais adequada para trabalhar esse tema em sala”.

3.4 – ANÁLISE DOS DADOS COLHIDOS

Das respostas dadas pelas professoras envolvidas na pesquisa, quanto ao primeiro questionamento, dirigido a elas, percebemos que as mesmas possuem vasta experiência na prática educativa de Literatura de Língua Portuguesa, em média 18 (dezoito) anos.

Quanto ao segundo questionamento, pudemos concluir que a formação das mesmas é boa, pois todas têm formação superior em Letras e, destas, 1 (uma) possui especialização concluída e 1 (uma) com a especialização em curso.

Quanto ao terceiro questionamento, todas foram claras ao apontarem suas respectivas funções em outras redes de ensino, sendo que apenas duas trabalham em outra rede.

Em relação ao quarto questionamento, observa-se que as pesquisadas, mais uma vez não se esquivaram da pergunta, umas mais sintéticas que outras, deixando perceptível o grau de aproximação das mesmas com o tema pesquisado.

Quanto ao quinto questionamento, e tendo em vista a resolução dada à quarta questão, confirma-se o caráter gradativo de apreço perante o tema abordado, revelando uma dissonância no que concerne à manipulação devida ou indevida da temática em questão.

As pesquisadas responderam ao sexto questionamento, denunciando que todas agem de forma tradicionalista, dando a entender que corroboram e intensificam o ensino da variante-padrão da língua. Todavia, ao mesmo passo, algumas perceberam o quão importante é trabalhar a diversidade da língua dentro da sala de aula, mostrando-se realmente preocupadas.

Na sétima questão, as considerações atribuídas pelas professoras centraram-se no respeito à bagagem lingüística que o aluno traz de fora da escola e na importância de se mostrar, também, a variante-padrão da língua portuguesa.

CAP. IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS

A língua, acima de tudo, é um elemento de inserção social, capaz de transformar uma dada humanidade, uma respectiva ordem, uma entidade dotada de um valor estritamente concreto e apalpável, perceptível, dona de uma vivacidade que muito bem poder-se-ia ser equiparada ao próprio ser que a utiliza. Diante disso, faz-se necessário desmistificar diversos mitos referentes às variantes lingüísticas e suas aptidões-valores, quase todas ainda vivas – e bem vivas, pasmem! – em nossa sociedade.

E fazer com que a língua, mecanismo que deveria funcionar para um bem geral, facilitando ações, produzindo interferências positivas, não termine dividindo opiniões, afastando pessoas, segregando valores, enraizada por um modelo de preconceito sutil e traiçoeiro que fragiliza a língua, dando-a um caráter dificultoso, de inacessibilidade, visto que conceitualiza e classifica o “utilizante” da língua a partir da escolha entre a norma culta ou não, criando uma perspectiva de fracasso e/ou sucesso nas pessoas.

Desconstruir a noção desse preconceito, “pondo a culpa” em peças importantes de todo o processo, como o analfabetismo, nossa escassa leitura, entre outras tantas, talvez seja o início de um caminho mais brilhante daqui pela frente, como afirma Marcos Bagno. Reiterar também a relevância das mudanças de atitudes por parte dos que usam a língua, apertando o cerco aos profissionais da língua materna e seus métodos pedagógicos de partilhamento do conhecimento faz-se de extrema necessidade.

Assim, foi com o intuito de detectar como eram vivenciadas as variações lingüísticas em sala de aula que desenvolvemos esta pesquisa.

Na qual concluímos que:

a) A concepção acerca das variações e da flexibilidade da Língua Portuguesa ainda é fortemente tradicional;
b) Os educadores estão procurando integrar e se preocupar mais com o desenvolvimento de um respeito pelas diversas variantes, fazendo com que o aluno saiba e possa a utilizar seu idioma de uma maneira mais ampla e positiva.

REFERÊNCIAS


BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: O que é como se faz. 50. ed. São Paulo: Loyola, 2008.

Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Educação em Língua Materna: A Sociolingüística na sala de aula. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2004.

SOARES, Magda. Linguagem e Escola: Uma perspectiva social. 17. ed. São Paulo: Ática, 2000.

Monumentos da doença



Por Germano Xavier

E nem o brusco movimento articulado de suas largas
compressões endurecidas

pelas linhas cartográficas
cegas, largadas ao deserto, mentiria nossa ira afiada
por esta estrada de túneis e de amarras ao nada.

Giram em forças que desatam laços os densos lençóis de aço das águas,
ou as léguas da língua,
pegadas da pedra fundamental do destino e dos partos.

A mirada espelhar das vestes da lembrança
tortura.

E se não se fartar em tanto, feriremo-nos dentro do que não há
porque na secura nosso peso envergaria mais que o suportável
do corpo,

(eis o complexo do todo)

mais do que nossa comum e avessa mandíbula humana
aguentaria. Porque não somos homens imortais,
assim
de restrito retrato
ou memórias manchadas a sangue.

Dos nossos restos um composto de matéria pode imperar.
De nossas galáxias um dejeto ou uma idéia.
(E quando blindamos os nossos fantasmas?)

E quando no nada o nada em que nos transformamos
vira ânsia ao redor do nada que não concentramos?

Não iremos embarcar numa teia de aventuras,
tampouco cairemos céticos no exótico limite das correntes?
A calda remanescente das lamas esporais

tende – não é certo -,
a afundar os monstros de qualquer esgoto.
Ademais é abandono.

domingo, 1 de julho de 2012

Mireille estranha


 Por Germano Xavier

Lado a lado estamos e é tão bonito, o tudo, o todo. Um jardim imaturado e com flores roucas nos acompanha. Cercados, nós, os nós das coisas nos observam nas próximas lonjuras, quase sempre intangíveis, quase nunca impossíveis. Hoje sinto que preciso me esforçar feito uma flor que vai se abrindo. Arrecadar de mim o bruto músculo e o movimento. Uma atividade será necessária, mas também o bastante. Uma. É um dia difícil por ser um dia diferente dos demais. No ar está acontecendo uma revolta e eu, mesmo com este meu olhar para baixo, consigo enxergar a novidade que veio do distante... O novo é uma espécie de chuva, cai sobre os nossos ombros, arrasta-nos na correnteza, inunda-nos com uma água penetrante, água-ácida. O que meu coração agora pergunta é tudo que a minha dimensão suspeita. Suas interrogações são as pontiagudas lanças que eu queria atirar, mesmo desconhecendo a melhor direção. Há um vento invadindo este momento e ele é tão justo, e silencioso. Apoio meu corpo meio deslocado para frente nos pares de punhos que se dobram. Um órgão dentro de mim inicia uma sinfonia e começo a olhar o teu rosto. Não acreditava tanto na beleza dos teus olhos e nem que eles pudessem também olhar. São verdes como a imagem que tenho de um pasto celestial, morada dum deus qualquer. O pobre banco de cimento frio nos comporta escravamente. O instante é doloroso e de espera... Vou percorrendo tua face, meticulosamente, morena pele clara de um anjo. Vou adormecendo em mim e você é filha de Medusa. Atravesso o triângulo do teu semblante como se meus olhos fossem minhas mãos, apalpando suas tímidas fugas percebidas. Raios solares propendem a desbastar escuridões. Estamos lado a lado num purgatoriozinho ensaiado de emoções. Quantos homens não sentiram o que estou sentindo! Quantas não foram as sensações idênticas! E me questiono acerca de tua origem, mulher, de tua casa, de teu fabrico. Eu estava seguro andando na tipóia velha do terreiro. Posso ser ingênuo, mas sou mais que um sesquicentenário, sei de experiências de que até Deus duvidaria. Tenho palmas hirsutas de tanto rastejar por terra, toupeirando na caçada infeliz. E tu ousas arrojar-se por minha fronde, diacho haurido a granjear a peste, estrepitando cores e ramalhando hastes, envergando-as, ditosamente... mas não nos esqueçamos do som seco do que não diz, esta estranha beleza. Que por entre os centímetros que nos separam, existe um sentimento de máquina que não pensa, um caminho próprio para o olvido. Estamos prestes a ser o fim de algo que não começou. Não vai adiantar eu me levantar e ir colher aquela rosa vermelha, triste porque que irá deixar de respirar, enfadonha porque irá receber as ordens de um reles modelo de maltrato. Que lindo ritual é o do ocaso. Nasce e morre na mesma tarde, com o brilho polido pronto para a miraculosa sobrevivência eterna da memória. Acho que atingimos o auge de nossas fortunas, e me engano pouco se estiver a sentir a loucura da felicidade. Teimoso, levanto-me. As pernas estão enferrujadas e pesam os quilos das imagens que passam por mim agora. O estalo da quebra e a rosa morta em minhas mãos. Posso fazer até um pedido que nada vai adiantar. Estamos nos matando porque não podemos fazer nada. Estamos pouco vivos porque sabemos que a nossa morte já aconteceu desde que nos sentamos aqui. Girassóis se escondem, margaridas temem o pior. Dou-te a rosa em despedida, porque vou já. A triste hora é já caída e, eu sei, mais não podemos. Se vai cobrir-me a lembrança de lampejos que me ajudem, não sei, não chegaremos lá. Abraça o que for agora, mesmo o vento solto, que vou eu mesmo abraçar. Como se procurasse o sorriso torto peculiar àqueles que não puderam amar.

Sobre gérberas e incêndios perfumados


 Por Germano Xavier

chegue sutil
mas fique, fique mais
de um abril

À deriva


 Por Germano Xavier

enquanto seus pais se distanciavam de si mesmos, um para cada carro na garagem da agora desfacelada família, imaginando estarem se tornando livres e abertos à felicidade, sofrendo a dor na alma que dá na gente quando nos sentimos diluídos pela consciência, martina, filha mais velha do recém-separado casal, dava braçadas firmes em direção à pequena viana instalada no mar daquele agosto insosso. a noite era triste em sua lâmpada-lua de luz morgada, o mar era uma dança negra profunda e misteriosa. a menina, ao passo que nadava frente ao desconhecido, tinha para si que o chegar era uma questão de tempo. pensava ininterruptamente na família, na última briga que os pais tiveram depois da festa de aniversário da irmã menor, e no menino de que ela não conseguia gostar. tinha sido dura com ele, agindo com desdém, não lhe incutindo nenhuma esperança no amor, mesmo que ainda pueris os dois. martina era rude quase sempre, não sabia o que fazer com tudo o que estava a lhe acontecer. martina preferia esperar o tempo, para tudo, mas aquele que somente passa e passa levando tudo consigo.

Hábito de ler e sociedade fast-food



 Por Germano Xavier

“Um país se faz com homens e livros”. Deste modo escreveu Monteiro Lobato, autor da saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo e tantos outros clássicos da literatura tupiniquim, relatando a importância e o papel social-transformador do simples ato de debruçar os olhos sobre as páginas de um livro. O ato de ler é essencial à vida e a qualquer área do conhecimento, desde viabilizar a inserção social até possibilitar o desenvolvimento cognitivo do ser humano. A prática ou não da leitura reflete diretamente na vida de cada indivíduo. “Ler é transformar, revolucionar, transgredir”, explica o pedagogo formado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Edeil Reis do Espírito Santo.

O Brasil, assim como a maioria dos países em desenvolvimento, possui uma tradição de leitura fundamentalmente elitista. No nordeste, as consequências negativas provenientes de tal costume são ainda mais comprometedoras. “Enquanto o governo insiste em exaltar números fantásticos concernentes à redução da taxa de analfabetismo no território nacional, estima-se que 60% da população brasileira é composta por analfabetos funcionais, o que quer dizer que aproximadamente 115 milhões de pessoas não adquiriram a capacidade de compreender o que lêem”, acentua Francisco de Assis, professor de Leitura e Produção no campus de Petrolina da Universidade de Pernambuco (UPE). Chiquinho, como é mais conhecido no ambiente acadêmico, diz que, com isso, multiplicam-se as críticas à metodologia usada pelos educadores durante a formação do aluno-leitor. A professora do ensino fundamental da cidade baiana de Juazeiro, Daise Magnólia, diz ser essencial encaminhar o aluno para além da decodificação dos códigos lingüísticos, aumentar a sua experiência de leitura, fazendo com que ele possa decifrar o que está subentendido no texto e, principalmente, fazer com que a criança ou o adolescente desenvolva a consciência da função social desse ato.

Para que esta mudança de postura seja devidamente efetivada, faz-se necessário a procura por novos métodos de incentivo à leitura por parte das instituições de ensino e educadores. De acordo com Maria Terezinha, professora da Escola Recanto do Pequeno Príncipe, o objetivo atual do professor das séries iniciais não é o de alfabetizar apenas, mas também de encurtar o caminho de cada criança em direção ao letramento. “Estamos trabalhando a partir da linha de pensamento da psicogênese da língua escrita, na qual é considerado que cada aluno já traz consigo, ao chegar à escola, algum saber sobre a construção da escrita, ação conseqüente ao ato de ler. Tudo isso no intuito de entender o contexto em que cada estudante está inserido, sempre percebendo a heterogeneidade das classes, e assim poder dizer a eles que os atos de ler e escrever possuem uma finalidade em si, ou seja, encerram uma espécie de recompensa”, assegura.

Os professores perceberam, também, a importância de se trabalhar com uma maior variedade de tipos textuais, assim como elevar o tempo destinado à leitura, para fazer com que se desenvolvam comportamentos leitores e escritores no corpo discente. “É claro que a responsabilidade maior fica a cargo do professorado, posto que são o espelho e a referência, porém é fundamental admitir que o auxílio dos pais deve ser incondicional no desempenhar da missão de incentivadores”, conta a educadora.

“É dentro de casa, vendo o exemplo dos pais ou dos parentes mais próximos, que as crianças irão começar a ter interesse pela leitura. Se elas costumam ver os pais lendo, acabarão percebendo que o livro é parte integrante da casa, e não só um objeto decorativo e supérfluo”, declara o estudante Romário Antônio de Alencar, hoje cursando o 2º ano do ensino médio no Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães, acrescentando que aprendeu a gostar de ler através das historinhas e dos livros infantis que a mãe lhe mostrava.

Com o intuito de aproximar a comunidade do ambiente escolar, a Secretaria de Educação de Juazeiro desenvolve, ainda em formato embrião, o Projeto Contos. “É uma proposta nova, na qual os professores comparam as diferentes linguagens empregadas na exposição de contos clássicos da literatura mundial. O programa é realizado em praças públicas e visa tornar o hábito da leitura presente e prazeroso, principalmente entre os jovens”, ressalta a secretária de educação do município, Walquíria Souza de Brito. Além disso, a repartição acertou uma parceria com a empresa de formação e capacitação de educadores Abaporu, no desígnio de aprimorar a técnica dos professores, o que, decerto, tenderá a gerar um progresso substantivo nesse aspecto.

Todavia, a situação ainda é pouco confortante. Para Maria Batista, professora e mãe de dois alunos do Centro Educacional Girassol, a escola deveria desempenhar a função de incentivadora, mas não tem feito da melhor maneira. “A escola não tem despertado o prazer da leitura, o livro paradidático ficou sendo um instrumento de avaliação e os professores passaram a cobrar resumos e fichas de leitura. Mesmo crianças que gostavam de ler na primeira infância perderam o prazer na escola, porque os alunos ficaram com a obrigação de responder questões superficiais sobre os livros”, comenta a instrutora.

Além do modo de ensino retrógrado usado pelas escolas, a diminuta influência familiar, a dificuldade no acesso a livros, revistas e jornais, outro fator tem contribuído para o desprezo frente ao hábito elevador e sadio da leitura: o ciberespaço. “Estamos atravessando a fase da ‘escola do espetáculo’, onde a palavra vem sendo substituída pela tríade imagem, som e movimento, perdendo espaço enquanto ferramenta de mediação comunicacional. Uma sociedade de espectadores viciados, hedonistas e consumistas está sendo gerada numa velocidade inimaginável. Por conseguinte, o tempo para o prazer está cada vez mais reduzido. Não tenho dúvidas que é esta ‘sociedade fast-food’ a causa maior da redução do número de leitores no mundo. E que para revertermos esse quadro será muito, mas muito difícil”, enuncia Edeil Reis.

Algumas perturbações poéticas


 Por Germano Xavier

• A poesia é o resultado de um ato criador individual que tem base na tradição poética e na língua empregada para a comunicação geral em cada época? 

• É mais antiga que a prosa? 

• A poesia já foi tudo? 

• Poesia é a arte da palavra manifestada numa linguagem em que a sonoridade e o ritmo predominam sobre o conteúdo? 

• Lirismo só diz respeito à evocação de sentimentos subjetivos? 

• O verso carrega em si as características mais tradicionais da linguagem poética? 

• Não se pode alterar a forma do poema, já que é isso o que há de mais importante nele? 

• Qual é mesmo a diferença entre Língua Natural e Código Estético? 

• Verso + Repetição= Destacamento? 

• Para que serve mesmo a aliteração? 

• Pés são unidades rítmicas formadas por uma sucessão determinada de sílabas longas e breves? 

• Se eu inverter a ordem direta das palavras estarei cometendo um hipérbato? 

• As metáfora e as metonímias realmente permitem mudar ou transfigurar o significado de uma palavra? 

• Na poesia é sempre preciso produzir um efeito de distanciamento? 

• Quem garante que o epíteto designa algo ou alguém? 

• A poesia tem de ser um ato inconsciente? 

• Poesia tem mesmo gêneros e formas? 

• Todo poeta tem de escrever seu epitáfio? 

• Quem me garante que Petrarca existiu? 

• Aliás, o que é existir?

Eu que não devia


 Por Germano Xavier

Eu não gosto de escrever sobre Jorge Luís Borges. Eu amo Jorge Luís Borges. Quem me conhece sabe que Jorge Luís Borges é (digo, hoje, até os meus presentes 27 anos de vida) o meu escritor predileto. Sim, eu tenho um escritor predileto. As pessoas possuem suas coisas prediletas, inclusive gostos e escolhas prediletas. Mas, o que significa ter um escritor predileto? Não me pergunte isto. Eu só sei que Jorge Luís Borges escreveu coisas que me tocam profundamente. Talvez porque eu seja também meio ou muito labiríntico. O que é ser meio ou muito labiríntico? Também não me pergunte isto. É por isso que eu não vou escrever nada sobre o livro dele que acabei de ler, intitulado de O livro dos seres imaginários, escrito com os olhos-mãos também da Margarita Guerrero. O que eu posso dizer é que ele faz uma listagem de seres fantásticos e imaginários que povoam e que povoaram o universo dos mundos (irreais?) por todos esses tempos de antanho até os de agora. É como se fosse um almanaque. Uma curta biografia de animais legendários e mitológicos, como o Cérbero, o Hipogrifo, a fênix, Aqueronte, Lilit, Quimera, só para citar alguns... o melhor mesmo é lê-lo. Mas, como eu ia dizendo... eu não gosto de escrever sobre Jorge Luís Borges. Eu amo Jorge Luís Borges. Quem me conhece sabe que Jorge Luís Borges é (digo, hoje, até os meus presentes 27 anos de vida) o meu escritor predileto. Sim, eu tenho um escritor predileto. As pessoas possuem suas coisas prediletas, inclusive gostos e escolhas prediletas. Mas, o que significa ter um escritor predileto? Não me pergunte isto. Eu só sei que Jorge Luís Borges escreveu coisas que me tocam profundamente. Talvez porque eu seja também meio ou muito labiríntico. O que é ser meio ou muito labiríntico? Também não me pergunte isto. É por isso que eu não vou escrever nada sobre o livro dele que acabei de ler, intitulado de O livro dos seres imaginários, escrito com os olhos-mãos também da Margarita Guerrero. O que eu posso dizer é que ele faz uma listagem de seres fantásticos e imaginários que povoam e que povoaram o universo dos mundos (irreais?) por todos esses tempos de antanho até os de agora. É como se fosse um almanaque. Uma curta biografia de animais legendários e mitológicos, como o Cérbero, o Hipogrifo, a fênix, Aqueronte, Lilit, Quimera, só para citar alguns... o melhor mesmo é lê-lo. Mas, como eu ia dizendo... eu não gosto de escrever sobre Jorge Luís Borges. Eu amo Jorge Luís Borges...