quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VIII)

*

Viana, querido amigo,

Depois da tua introdução “fabulástica”, usurpando o neologismo de outro amigo, fiquei com muito poucas palavras para te responder. Todas as que tenho, que não são minhas mas sim um imenso património partilhado, são poucas, baças e apagadas face ao muito que sempre me levas a dizer, pela tua amizade pura e inspiradora. Muito rapidamente deixa-me retribuir-te a gentileza, não por gentileza reflexa mas por pura espontaneidade: tu ensinas-me, e muito, todos os dias. A ser melhor, a ser maior, com um olhar mais atento, maternal e tolerante, como pessoa e nas minhas criações. E também, muito, sobre a língua portuguesa, até de um ponto de vista mais técnico e teórico em áreas que me são alheias mas que eu descubro com uma enorme curiosidade através dos teus trabalhos académicos. Gosto imenso de ver trabalhos científicos que fazem sentido mesmo para leigos e que fazem a diferença no dia-a-dia das pessoas.

Quanto à figura de Iara (mãe d’água no folclore brasileiro) sinto-me honradíssima pela comparação, pois mesmo remotamente há esse meu lado um pouco maternal que começou a manifestar-se bem antes de ser mãe – já nos longínquos anos 80, quando andávamos a “vinteanear”, um grande amigo mauritano me chamava, e chama até hoje “La Mère Luísa”, um pouco por graça, um pouco por motivos que só ele saberá explicar… então, essa referência que tu fazes é muito engraçada e tem um sabor especial para mim.

E há outro aspeto da tua última carta que diz muito sobre ti, sobre nós, os que gostamos de escrever e procuramos “a palavra perfeita”. Eu passo por um processo idêntico quando crio ou adapto textos, prosa ou poesia, talvez mais poesia, porque a música e o ritmo são mais exigentes, evidentes e notórios. Tenho poemas, textinhos incipientes e imperfeitos, que ficam guardados semanas e meses, alguns mais, antes de verem a luz do dia, porque sei que lhes falta essa palavra imprescindível que lhes dará sentido e emoção e que sem isso pouco valem, são superficiais, pouco mais do que uma bonita amálgama de palavras, na melhor das hipóteses, lidas por um olhar mais indulgente.

Alguns têm duas versões, que proporcionam leituras algo diversas, e por vezes é difícil acertar com essa palavra, expressão, sílaba, que nos faz tanta falta e se esconde teimosamente de nós. Por isso te digo que concordo absolutamente com o mestre Carlos Drummond de Andrade, e que o teu desabafo encontra eco em mim, pois somos, nesse particular, muito parecidos: essa angústia levar-nos-á um dia a bom porto e porventura nos encontraremos diante dessa palavra!

Vou-te confessar um segredo, que doravante deixará de o ser: algumas palavras perseguem-me, porque são belas, porque são musicais, e sobretudo porque nunca as usei e as ouvi ou li na boca ou através da pena de outros. Eis uma delas: vitupério! Um interlocutor usou-a há dias numa conversa informal e eu fiquei apaixonada pela palavra. Nem perguntei o que era para não quebrar o encanto. Por mais que consultemos dicionários, essa palavra não será nossa enquanto não soubemos inseri-la no nosso discurso, coloquial ou não. Por ora mantenho-me à distância de tal termo que me infunde um atemorizante respeito…

A propósito, lembro-me desta canção de Nilton César, que estava na moda na minha adolescência (sim, também ele procurava uma palavra…que acabou por encontrar!)

«(…)Por que será que pra fazer meus versos
Eu não encontro rima pra porque
Já procurei nos temas mais diversos
Pra acabar meus versos
Tem que ter você (…)»

E sobre política? Creio que concordamos, do ponto de vista do cidadão comum, que o povo parece ser o que menos interessa a quem governa. Há dias confrontei um político no ativo com uma questão muito simples: o senhor sabe quanto custa um pacote de leite, um pão, uma ida ao dentista, um par de óculos, um bilhete de transporte? Ele próprio, que me parece honesto, levantou a questão de como os políticos e a política formal se vêm distanciando da realidade, das pessoas (que para a maioria são meros “eleitores” e só nessa qualidade são tidos em conta). Penso muitas vezes que as pessoas que acrescentariam ética à política não estão interessadas nela…vejo com tristeza o que passa e passou recentemente na Guiné-Bissau e fico com a impressão de que esse caso exemplifica o que acabo de dizer.

Mas falemos de Amor, conceito que nos é ainda mais impenetrável: por conta desse deslize em que ambos incorremos levámos um raspanete da nossa querida e talentosíssima Santana (merecido, diga-se de passagem). Conheço bem esse Amor que referes e tão bem descreves no teu comovente texto dedicado ao teu Pai, aliás Painho. Texto de uma beleza sem tamanho, criativo e poético. (A propósito, aqui o dia do pai é 19 de Março, dia de São José).

Perguntas-me de que tenho saudade. Posso responder com poesia?

«Saudade
de não temer os pequenos nadas
de julgar que os dias são eternos
de acreditar nos contos de fadas
Saudade
de tomar banho de chuva na Praia Morena
nadando sem pé num mar sem fim
olhando a Mãe ali tão perto, serena
Saudade
de ver o Pai a ler o jornal
acreditando no infinito das manhãs de sol
navegando naquele imenso areal
Saudade…»

Quero acrescentar, sobre o Amor, sobre o companheirismo, que tive há dias reunido aqui em casa um grupo de amigos-família e família-amiga que me deixou um suave gosto a temperos quentes na boca e na alma. Foi um momento histórico em que para além do carinho dos amigos recebi também como presente a atuação de vozes, cavaquinhos e guitarras de amigos-músicos de exceção. Senti-me verdadeiramente abençoada, pelos que vieram, pelos que se fizeram presentes mesmo sem cá estar, pelas manifestações ininterruptas de afeto.

Foi realmente um aniversário muito especial, em que também tu cá estiveste, à tua maneira sempre clara de aparecer, assim como a nossa querida parceira de aventuras Cristina Seixas…

E por agora te deixo, sendo que uma parte de mim fica sempre por aí, observando que mares e que marés te trarão de novo até aqui.

Um abraço de sorriso aberto, sempre o mesmo, sempre renovado.

Até já, até breve,
Lisboa, 25 de Agosto de 2015


*

Minha caríssima Clara,

Muitos são os vendavais de desumanidade que atravessam as fronteiras do mundo, imensos são os rios formados pelas lágrimas das centenas de milhares de pessoas em desespero, muitas foragidas de si mesmas ou em fugas brutais, que choram uma tristeza que não tem tamanho nem explicação cabível. Mundo, mundo, vasto mundo, doído mundo! E nós?!

E nós, amantes das palavras e sobreviventes de uma guerra diária bastante visível e não muito distante, encontramos refúgio nesta nossa partilha verbal repleta de significados bem mais que somentes atlânticos, porque sabemos que escrever também é como respirar, é como se alimentar, é como acender uma tocha de fogo incandescente no centro de uma profunda escuridão. E nós, como vamos? Como estamos? Como continuamos?

Como a estarmos sempre em apelo comum em prol de um movimento de vida que abrace a parte mais importante de nossas faculdades e necessidades, somos constantemente atingidos pelo desejo – aquele mesmo desejo de que nos falava o grande Balzac, desejo que conflagra a própria vida, que a legitima em nossas mãos! - que move até um dos mais rígidos estatutos do ser humano: o insistir. Por isso, mesmo maculados e mesmo sangrando por todas as nossas válvulas de escape, a fé que depositamos na potência poética do verbo aleita nossas fraquezas que nos desavançam e nos revelam novos sóis. Então, se estou em ti, como bem dizes, é também porque estás em mim. E é porque estamos que seguimos provocando o insondável e lutando pelo mistério dos desconhecidos.

“La Mère”, então tu fazes como o poeta brasileiro Mario Quintana dizia em quereres: deixas a tua criação dormir, para que num breve futuro ela surja no mundo como explosão de beleza e voz ainda mais duradoura. E assim se é, num-sendo. Para quem enxerga a partir de uma dada distância, até parece simples descrever todo o processo de escrita que nos envolve, mas a verdade é que não é bem assim em meu caso. É bem mais difícil, um processo por demais complexo.

Tenho muitos textos em prosa e também em poesia engavetados, produções que julgo mais interessantes e que saberão aguardar um momento mais pertinente para virem ao mundo. Todavia, no geral, não titubeio e me utilizo bastante da ferramenta blog. Penso que é um bom meio de difusão, mesmo atingindo um número bastante limitado de leitores... mas os textos estarão lá, sempre disponíveis a qualquer momento... Assim, pois, seguimos. Não é a vã toda a luta diante de.

E já que entramos a falar sobre issos e istos, as literaturas e suas caminhaduras, adianto-te que numa aula recente que tive o prazer de assistir, uma professora muito querida da referida área fez a seguinte pergunta: “Onde está a literatura?” Respondê-la, ou melhor, ousar respondê-la será uma de nossas avaliações do semestre, num seminário que iremos organizar para o público da universidade em que curso o mestrado. Duas semanas depois de ouvi-la, confesso-te que ainda estou com o questionamento da professora na cabeça, e ele vem pulando feito uma criança feliz diante de um mago brinquedo a redefinir o mundo com seus próprios olhos.

É deveras uma pergunta instigante. O lugar da literatura no mundo é, penso eu, ao mesmo tempo demasiado vasto e exageradamente exótico, por ser um lugar ainda de difícil acesso para muitos de nós. Daí a escaramuça formada em minha mente e, desconfio, na dos meus colegas de classe também. Enfim, qual o lugar da literatura no mundo? Qual o lugar da literatura no ser humano? Há resposta para tal indagação? Saberias tu me dizer onde está a literatura, Clara?

Palavras, palavras, como não se apaixonar por elas? Como não se espantar diante delas? Tão bonito o seu relato de assustar-se em presença da bendita da palavra vitupério, Clara! Eu me alegro em ler estes acontecimentos tão naturalmente verdadeiros e raros na vida de uma pessoa. Também tive palavras que me marcaram muito, talvez uma lista bem grande delas que nem citá-la aqui seria interessante. As palavras fundam mundos na gente, alargam nossos passos, são portais por onde iniciamos travessias. Sem elas, o que seríamos? Seríamos alguma coisa? Não somos corpo, alma, carne, osso e palavra? Incontáveis delas?

Minha palavra de amor para o mundo, Clara!
De uma Garanhuns em noite fria, num Pernambuco de Luís Jardim.
10 de setembro de 2015.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Um olhar sobre os Estudos Retóricos de Gênero

*

Por Germano Xavier


O capítulo 6 do livro Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino, que versa sobre os Estudos Retóricos de Gênero (ERG) delineia com precisão conceitual os meandros dos estudos elaborados principalmente pelos autores Charles Bazermam e Carolyn Miller, sendo os dois devidamente analisados e esmiuçados por Anis Bawarshi e Mary Jo Reiff, autores do supracitado livro publicado no Brasil em 2013, traduzido pelo professor Dr. Benedito Gomes Bezerra, docente da Universidade de Pernambuco (UPE).

É justamente no referido capítulo onde ocorrem as distinções referentes ao ideário do gênero compreendido como sendo uma ação social, assim como objetos culturais de base demasiado complexa. Dentre todo o conteúdo abordado nas cerca de 30 páginas do excerto, destacam-se as ideias em ERG de “sistemas de gêneros”, “conjuntos de gêneros”, “apreensão”, “metagêneros”, “sistemas de atividades” e “cronotopos de gêneros”.

Diante de tais lances conceituais, alguns autores pontuam, a partir de Bazerman (1998), sobre a existência de uma relação dialógica entre as formulações do gênero aliadas à formação do conhecimento em si e, também, por parte de sua condição sócio-histórica. Para tais autores, a citar Berkenkotter e Huckin (1993), gêneros são arcabouços estruturais de base retórica e por demais dinâmicos. Assim se postulam, já que podem sofrer variações caso ajam para isso forças acerca de condicionantes e interesses de uso, além de outros mecanismos de influência.

Em ERG, gêneros são também entidades retóricas sensíveis, dinâmicas, que estabilizam práticas e legitimam sentidos. Para esta corrente dos estudos de gênero, o papel e a importância dada ao usuário da língua é fator preponderante, pois é o usuário da língua quem também induz o gênero ao conhecimento e usufruto de mecanismos linguísticos coletivos.

O fundo, o contexto, o conteúdo, o momento (Kairós), os pressupostos, combinados com as devidas e referenciadas oportunidades retóricas, passam a se estabelecer como pontos de alicerce do gênero enquanto matéria de estudo. Assim posto, ao promoverem o fenômeno da integral comunicação, os usuários da língua tornam-se membros de uma dada comunidade linguística. Esta, por sua vez, serviria a uma multidimensionalidade que exerceria uma aproximação do gênero para com os conceitos de processo social.

De tal modo, a sistematização de gêneros liga-se aprioristicamente e basilarmente ao poder do indivíduo no tocante às ações de interação num campo aberto de interferências contextuais. Promove-se daí o brotar de expressões do tipo “ecologia de gêneros”, “conjunto de gêneros”, “repertório de gêneros” e, até, “constelação de gêneros” que, juntos, preconizam uma espécie de união conceitual e de atuação determinantes a grupos parelhos de gênero, possuidores de características e funcionalidades semelhantes.

Amy Devitt, Clay Spinuzi, Aviva Freedman, Graham Smart, Janet Giltrow, Engestrom, Cole e Davi Russel são alguns dos nomes importantes que ajudaram e ajudam a interpretar boa parte das nuances dos estudos centrados em gênero na vertente em ERG. Alguns dos pesquisadores supracitados instauraram análise sobre a relação da cognição e do gênero. Os laços encontrados, mesmo alguns no âmbito da comum abstração, colaboram para a conduta dos gêneros junto às demandas da esfera social.

Objetivos e bem dimensiondos, os gêneros seriam produtos de contundente interação, extremamente ativos, socialmente mediados, estruturalmente conflitantes e fortemente motivados, portanto vivos, coordenados e complexos. Destarte, o front de embate, porventura natural ao conceito de gênero, dar-se-ia devido à possibilidade de diálogo entre frentes de ações inerentes ao todo do complexo da engenharia dos gêneros.


Referência

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Estudos retóricos de gênero. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 103-133.

domingo, 30 de agosto de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XX)

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Por Germano Xavier


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

Bucaneiros e bucaneiras, eis um filme indispensável para os vossos repertórios cinematográficos, de temática por demais delicada, para ver mais de uma vez e com muita calma. A mente humana é deveras um troço muito complexo. Já imaginou o seu filho ser o autor de um massacre sem ter nenhum motivo aparente? Como lidar com um filho assim, com tendências psicopatas/sociopatas? Como se reerguer depois que seu próprio filho se torna o assassino de sua própria família? Questões como essas são solucionáveis? O que fazer diante de tais adversidades? PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011), de Lynne Ramsay, é simplesmente imperdível. Recomendo a todos os mortais!

LINDA DE MORRER

Perderam uma ótima oportunidade para fazer uma crítica ao mundo da beleza (beleza?), dos cosméticos, da vaidade... (perderam?). Quem está interessado nisto? Ingenuidade pensar assim. O filme LINDA DE MORRER (2015), de Cris D'Amato, termina sendo um nada ao cubo vezes mil. Ponto para a Globo Filmes!

O JOGO DA IMITAÇÃO

O JOGO DA IMITAÇÃO (2014), do diretor Morten Tyldum, tomando como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, narra o exato momento em que a Inglaterra resolve criar um time de especialistas em criptografia com o intuito de desmembrar o Enigma, famoso sistema de códigos usado pelos submarinos alemães durante os embates. Para isso, o matemático Alan Turing resolve construir uma máquina que tem o poder de processar todas as possibilidades de codificação em menos de 24 horas, o que possibilitou prever ataques da Alemanha Nazista e mudar o roteiro de toda a guerra, além de, posteriormente, ser considerada a precursora do que hoje conhecemos por computador. Um filme sobre a genialidade de mais um ser humano que não foi compreendido em vida. Recomendo a todos os mortais!

MERCEDES SOSA: A VOZ DA AMÉRICA LATINA

La Negra: para mim, um dos maiores símbolos do ser latino-americano de todos os tempos. Choro por dentro e por fora toda vez que escuto a canção SOLO LE PIDO A DIOS, que tocou em tons solenes no dia da minha colação de grau em Letras. Argentina de lutas e de voz incomparável, entoou hinos à democracia e, também, contra os desmandos sociais e de falta de humanidade de todas as espécies. A voz mais marcante, a mulher cujo rosto carregava toda a sombra de dor de um povo e, ao mesmo tempo, todo um embornal de esperanças. O documentário MERCEDES SOSA: A VOZ DA AMÉRICA LATINA (2013), dirigido por Rodrigo H. Vila, emociona ao revelar um pouco mais da artista de importância extrema para a história política e cultural da América Latina. Recomendo a todos os mortais!

O PEQUENO PRÍNCIPE

O PEQUENO PRÍNCIPE (2015), dirigido por Mark Osborne, é um filme muito bonito sobre o clássico de Saint-Exupéry, muito bonito mesmo. Bem trabalhado nos mínimos detalhes, com uma forte crítica ao modo de vida mecânico da humanidade, que deixa de lado a imaginação das pessoas e a poesia das coisas da vida. Recomendo a todos os mortais!

HORROR EM AMITYVILLE

De bom mesmo, só tem o título. HORROR EM AMITYVILLE (2005), de Andrew Douglas, é um filme do gênero terror sem grandes atrativos.

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO

Espanto-me com a beleza deste filme cada vez que o assisto. Dias atrás, ao lado de meus alunos... A reação deles ao final: todos de pé numa salva de palmas, alguns visivelmente emocionados. Bonito de ver. Por isso só, especial. A escola da vida imperando sobre tudo e todos, a verdade da vida no ensinar dos passos. QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (2008), dirigido por Danny Boyle, merece uma boa dose de nossa atenção. Recomendo a todos os mortais!

CADA UM NA SUA CASA

Gosto de animações, já é sabido. CADA UM NA SUA CASA (2015), do diretor Tim Johnson, não é lá um tesouro do gênero - longe disso -, mas passa uma mensagem interessante, os personagens Boov usam um linguajar muito interessante em termos de colocação pronominal, além de ter a primeira protagonista negra da DreamWorks Animation, o que é um fato por demais significativo. Sigamos!

20 ANOS SEM RAUL SEIXAS

Nos dois anos em que morei em Salvador, presenciei fãs do Maluco Beleza subindo as ladeiras do bairro de Brotas em cantoria emocionada em dias de aniversário do grande ídolo, todos indo em direção ao cemitério onde este ícone do rock mundo-nacional está enterrado. Era um momento muito bonito de se ver e ainda deve ser igual. Raul Seixas dispensa comentários. O vídeo-documentário 20 ANOS SEM RAUL SEIXAS (2009) revela um pouco da essência deste sujeito sem igual. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem:  http://nilljunior.com.br/blog/hoje-tem-sessao-gratuita-de-cinema-cineclube-alternativo-sao-jose%E2%80%8F-2/

sábado, 22 de agosto de 2015

Sempre e para sempre

*
Por Aparecida Izídio e Germano Xavier

para Francisco Izídio, in memoriam


No começo da caminhada de agora já em fins de partida, quase não parei para perceber que seria assim, ou melhor, que poderia ser assim desse jeito meio que doído, com essa força que sufoca o peito e que não alarga o tempo nem afasta o temor. Em minhas lembranças mais vivas, lá estava ele, sempre, portentoso como uma aurora inteira de brilhos a matinar invernos e verões. Era sempre e para sempre será. Decerto, um homem simples, do campo, sem escola ou com quase nenhuma - cursou até a 3ª série primária, dizia isso com orgulho! -, que tinha por mim e por minha vontade de aprender a maior admiração possível de se imaginar.

Os tempos nunca foram fáceis. A lida era diária e oprimia até os mais rijos músculos e pulsos vitais. Mas as lembranças... jamais, elas nunca morrerão. Levava-me à escola, aquele homem, como quem adiantava a visão do paraíso para a filha querida. Ajudava-me a atravessar o rio. Em época de enchentes, colocava-me no colo e seguia titubeando com os pés descalços sobre as pedras e pequenos troncos para que eu não perdesse a aula do dia, para que eu não sujasse os pés ou simplesmente para que eu pudesse chegar.

Incentivava tudo o que eu fazia. Confiava que era sempre o melhor a ser feito, sem entender ao certo os motivos. E foi sempre assim. E continuou sendo assim. Durante dezessete anos moramos em uma casa muito humilde, eu partilhava de todos os seus medos, sentia as suas necessidades, queria que fosse diferente. Uma filha que funcionava como se fosse o próprio coração do pai. Sabia que eu poderia ser a chave da mudança. Acompanhava-o à feira livre, ao mercado, nas negociações de galinhas, ovos, carvão. Nem sempre gostava do que via ou ouvia. Até hoje guardo muitas imagens mentais. Impossível esquecer.

Eu queria protegê-lo. Queria que minha mãe soubesse que ele tentara trazer mais coisas na sacola. Nem sempre acontecia o entendimento. Assim, das cinco filhas, fui crescendo a mais preocupada, adulta antecipada. Estudava o tempo todo, os livros eram minha companhia. A insônia assolava a janela do meu quarto. As estrelas encantavam. O céu era lindo. Quando tinha lua, eu passava longo tempo sentada à janela. Não queria perder a luz da noite. Não tínhamos energia elétrica, não tínhamos televisão e as noites passavam a passos lentos. Meu pai levanta-se às 4 horas, fazia o fogo, preparava o café, ia ao meu quarto. Eu ouvia sempre a mesma alegre reclamação: “Ainda não dormisse?”. Corria para o café. Contávamos umas histórias curtas, eu voltava a deitar. Ele ia tirar o leite e na volta me acordava.

Assim dividíamos nosso tempo, como a estarmos num passeio calmo por uma campina de verde sereno. Ele foi a pessoa que mais me teve. Não fazia nenhum esforço para que fosse assim. Não fugia dele! Um dia ele comprou um lampião e deu-me de presente para que eu fizesse as tarefas à noite - agora, estudava durante a tarde e ajudava na queijaria que tinha perto do sítio.

Fui para a faculdade. Chegava tarde. Ele ia me encontrar na porteira. Agora, tínhamos energia elétrica e ele piscava a lâmpada para dar sinal e para que eu não tivesse medo. No caminho, contava as aprendizagens, as brincadeiras, sobre as amizades. Ríamos. Segui os estudos, ele mal percebeu. Raramente falamos sobre. Ele não entendia, não sabia o que era nem para que serviriam tantos diplomas. Não compreendia a razão da minha ausência. Tentei explicar o que era, o que fazia, o que poderia proporcionar, mas ele, vez ou outra, tornava a questionar as viagens, a quantidade de livros. O tempo. Se não já bastava o emprego, a faculdade.

Hoje, depois de sua ida para o paraíso dos grandes e honrados homens, acredito que eu só deveria ter dado tempo. Não consegui contar histórias durante todo esse percurso, os risos diminuíram, as responsabilidades foram mais severas, a minha fragilidade deu lugar à fuga. Após sua viagem, percebi toda a crueldade do tempo. No fundo, sempre quis que ele me admirasse, apenas isso.

E no fim da jornada de agora já em começo de fins, quase não parei para perceber que seria assim, ou melhor, que poderia ser assim desse jeito meio que sofrido, meio que pendido na direção da tristeza, mas uma tristeza luzidia, com essa força que abraça o peito e que fabrica ainda mais amor. Em minhas lembranças mais vivas, ele estará lá, sempre, portentoso como uma aurora inteira de brilhos a matinar invernos e verões. Sempre e para sempre.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/River-394087741

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 26/05/2015
A doce introdução

La douce introduction

je pourrais conter les heures
faciles et individuelles de mes silences
les déchirer, éventuellement, et même, par moments,
les haïr, comme des phares trop pleins bondés de nuit.

je pourrais les attraper au vol
dans une quelconque rue froide, craintif,
les voler à l’enfant gai qui court dans le boulevard,
pour les remettre au vent en criant aux cieux :
le bleu, le bleu !

pourtant, même avant que les visages intenses
de la mort, journaliers, impétueux,
me déchirent la peau, je me plie en refus
ici et maintenant:

et je deviens plus intense, je me renouvelle
le jour est parti, mon cœur ne veut plus qu’un rêve , une intention
vers toi, dans le sens de ta plastique direction


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Mother-On-The-Other-Side-554285912

domingo, 9 de agosto de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VII)

*

Meu querido amigo,

Aqui estamos nós prolongando deliciosamente este convívio sem pausas. Amizade é uma coisa sem interrupção, que mesmo quando está no modo de economia de energia continua a funcionar. 

Pegando-te na palavra, deixa-me dizer-te que eu estou bem, melhor ainda quando me solto entre estas linhas que vão direitas a ti e que me ordenam as ideias. Reparei num pormenor curioso, coisa minha, de prestar atenção a detalhes inócuos: ao copiar parte da tua carta, deixei escapar uma letra e por lapso meu o meu nome “Clara” transformou-se em “Iara”. Pensei que poderia ter sido outra pessoa, que mais uma letra, menos uma letra, faz diferença na vida das pessoas. Como no filme “El Secreto de tus Ojos” em que o escritor escrevia no bloco-notas “TE AMO” ou “TEMO”, já não me lembro bem; sei que ao acordar aquilo gerava uma enorme inquietação na sua cabeça de criador. Passarás tu por inquietações semelhantes?

A arte do encontro, como descrita pelo nosso admirável poetinha, é essa que nós vamos cultivando como sabemos, de maneira meio coxa, disléxica, mas sempre próxima e carinhosa. Como sabemos e podemos. 

Eu não conhecia a “política do café com leite”, mas sei que esses joguinhos malandros se usam muito, fazem parte da estratégia e das alianças políticas e comerciais, existem entre empresas, partidos políticos, países e regiões. Modernamente chama-se a isso “tráfico de influências”, expressões suaves para amenizar o impacto negativo do conceito que lhes deu origem. Dir-se-ia que política nos dias de hoje é mais uma forma de expressão do poder económico e pouco tem a ver com ideologias, princípios ou filosofias. É um programa de ação que se vai adaptando às circunstâncias e ao momento global (soa bem, não é?), um discurso feito à medida de quem o ouve, que utiliza as mesmas estratégias de marketing que uma empresa de lacticínios ou uma marca de roupa. Estarei a ser demasiado radical?

A nossa paixão comum pela vida, pelas coisas simples e palpáveis, que tu tão bem sublinhas, é a mesma que leva os teus pais a partilharem esse momento da xícara de café (que nós por aqui chamamos chávena; xícara é considerada quase um arcaísmo, embora tenha uma sonoridade deliciosa, insubstituível) com pontualidade e regularidade britânicas. São rituais que nos ajudam a ter uma vida regrada, doce, e a eternizar momentos de partilha em que nada precisa de ser dito. Esse é o objetivo máximo da comunicação, não é? 

Já deves ter reparado que estou a ganhar coragem para enfrentar o teu desafio maior, quando me pedes para explicar o que é o amor. Entretanto deixa-me falar desse café ou outra bebida que tomaremos juntos, já sei até onde vai ser: em Évora, em companhia da nossa fotógrafa de eleição, guia turística e cozinheira de mão cheia. Como sabes este fim-de-semana foi dedicado a conhecer a região: Évora, Évoramonte, Estremoz e toda uma série de herdades e vinhas ali à volta. A Cristina é uma cicerone única, que vai explicando o caminho a casa passo. Ela conhece ao pormenor a região que se fez sua companheira há décadas e em cujo isolamento encontra um abrigo e uma tela de fundo para os dias. 

Lá estivemos, várias meninas, moças-senhoras conforme a luz do dia e ao ritmo da conversa adolescente. Com a minha família, um exército de mulheres, e a Cristina, vasculhámos tudo o que a região tem de mais belo, ficando ainda muito por descobrir, segundo ela. Provámos dos melhores vinhos, comemos pratos caseiros feitos por mãos de fada e passeámos entre gentes acolhedoras e gentis. O povo lá é assim: o vendedor da feira de Estremoz que diz às senhoras e meninas que a coisa mais bonita que ali tem não é a sua mercadoria mas as clientes que por ali passam; um outro que faz negócio com a Cristina mas diz que não precisa de pagar logo, paga quando voltar, daqui a quinze dias; um agricultor-vendedor que explica todo o processo de reprodução do abacateiro, com a maior das gentilezas, roubando tempo à venda. E uma fila de trânsito que se forma só porque uma condutora resolveu parar para conversar descontraidamente; a Cristina diz-me: “Aqui é assim! Ninguém buzina; se fosse em Lisboa já estávamos todos aos gritos!”

Mas Évoramente foi a paisagem que nos encheu os olhos da alma de matizes várias, fomos lá roubar a luz do dia e obrigar o sol a esconder-se; fotografámo-lo sem piedade, captámos toda a luz do local, cada pormenor das casas caiadas, das telhas e do piso, das paredes desgastadas da velha igreja, das muralhas, do cemitério. Sempre com a Cristina no comando e um gato tímido seguindo os nossos passos. 

Há uma curva perigosa no caminho; creio, aliás, que o são todas... Depois de ultrapassá-la sentimos que valeu a pena correr alguns riscos para aceder a tal paraíso. Este é um dos sítios onde nos farás companhia, isso é ponto assente. E depois imaginei que a nossa comum amiga, leitora e intérprete de exceção poderia muito bem cantar uma morna sob aquele céu muito azul sem limites. Já imagino a Sant’Ana com os seus cabelos côr-de-fogo e voz suave e dolente a desafiar a quietude alentejana. Creio que vamos ter que criar esse momento. Creio que o gato que toma conta de Évoramonte, ou do seu centro histórico, se encarregará de passar a mensagem.

Mas não penses, meu amigo, que fujo à tua interpelação. O amor? Se te disser que não sei, não vais acreditar. Mas saberá alguém explicá-lo? Eu sei o que é afeto, desejo, vontade de estar próximo, de fazer coisas com alguém. Carinho, admiração, cumplicidade, intimidade, medo, insegurança.

Febre, paz, relaxamento total, sensação de entrega e abandono. Respeito, confiança, um doce hábito que se cultiva. Se o amor tiver alguma relação com isso, sou capaz de tê-lo visto de longe. Caso contrário, pode ser só uma construção dos poetas, uma criação literária, destinada a complicar a vida dos mortais. Será? No dia em que soubermos exatamente o que é amor, terá ele ainda algum sentido?

Agora devolvo-te o desafio, passo a bola, e entrego-te nas mãos a granada com a espoleta ativada. Desenrasca-te, como se diz em terras lusas.

Fico-me por aqui, amigo de regiões quentes e cheias de memórias, que um dia partilharemos sob um sol alentejano. Ou baiano. Ou luandense. O que não sendo igual, poderá ter efeitos semelhantes. Haja chapéu de abas para tanto sol!

Um beijinho muito grande aqui desta Europa do Sul, tão perto de África que com ela se confunde.

Clara
Lisboa, 23 de Julho de 2015


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Clara,

A amizade nossa enraizou, entrou pela terra, bebeu da seiva da vida verdadeira e agora está a cada dia gerando fecundos rebentos de luz e amor. Vejo muitas coisas bonitas criadas por nós dois, e por nossos outros também, que se proliferam vivos a nos aumentar em volume e vidência, desde o momento-instante em que demos o primeiro passo entre as palavras e os pensamentos. Você, sempre generosa, abriu vestíbulos de sol para que eu pudesse aprender a ser mais e, sendo, auxiliou-me também em minhas caminhadas de olhares sobre tudo no mundo.

Realmente, Clara, como é deveras interessante este teu colocar-se. Como uma mísera letra pode conturbar um presente feito de tempos de memória. Iara certamente não é você, mas bem que poderia. Mãe d’água no folclore brasileiro, personagem lendário de beleza fascinante, sereia Uiara encantadora dos rios que apaixonam os homens, você nas entrelinhas, mãe dos meus dias leves de alegria e sol.

Durante o processo de criação de poemas ou textos em outros gêneros, vez ou outra fico a contar letras, sílabas, escandir versos, testar sons de desfecho, tudo no desígnio da procura da palavra ou da expressão que julgo perfeita. E, de novo, percebo como cada palavra tem o seu lugar dentro de um texto. Existem palavras que não cabem em poemas, mas adentram bem as prosas e vice-versa. Dizem as más línguas que uma letra ou palavra no lugar certo ou errado pode mudar o mundo, e eu sou daqueles que acreditam piamente nisto. Como escreveu nosso Carlos Drummond de Andrade, mestre dos magos da poesia, temos a "obrigação" de penetrar surdamente o reino das palavras, respeitá-las, admirá-las e usá-las com o pulso necessário para as grandes revoluções humanas, mesmo as mínimas e diárias.

Não, Clara, você não está sendo radical. Acredito que suas palavras englobam um sentimento mais que universal acerca do que vem acontecendo mundo afora em quesitos atrelados à política. É como se disséssemos: a política perdeu a política ou, ainda, não há mais política na política. A jogatina é feroz e no fim os umbigos de cada um são os fatores que mais prevalecem em termos de importância. No Brasil, a coisa não é diferente. Aqui, como diz um colunista famoso, é o país da piada pronta em aspectos políticos e parece que tudo finda numa enorme “pizza” ou marmelada. Poucos conseguem desempenhar um papel digno quando no alto escalão das esferas políticas e de governo. A maioria não está nem aí para as necessidades da população, a verdade é esta. Tem muito de senso comum no que escrevi aqui, eu sei, mas o sistema assim gira e vai e segue.

Sobre o Amor, Clara, também não ouso. Cada um de nós tem seus motivos, cada qual sabe a dor do amor, a sua delícia, o seu tom no diapasão da vida. Eu não sei de quase nada sobre ele, apenas imagino-o. Sonho com ele, quem sabe, um dia, aquela coisa de proporções invislumbráveis a nos deter as vistas mornas dos dias. Enfim, fico também com a incerteza da resposta e a prontidão da espera, já que o tal-imenso nos acena os pulsos mais esplendorosos sempre que.

De pronto que sim, Clara, é na simplicidade de nossas rotinas que construímos os alicerces para uma bonita caminhada. Meus pais possuem há muito o ritual do café da tarde de que lhe falei. E por falar em pais, hoje comemoramos o Dia dos Pais aqui no Brasil – em Portugal também? Tem um quê de intuito comercial a fomentação de tais marcos, todavia não tem como ficar impassível diante das significações oriundas da presente datação.

Meu pai sempre foi a minha maior referência. Meu pai, como escrevi certa vez num texto há bem uns 7 anos, “queria dar tudo de presente, entregar o mundo inteiro, a alegria toda do mundo, a vida ou qualquer coisa assim de verdadeiro”, a mim. E continuando num gesto de, reproduzo cá embaixo um pouco do mais textual em sua homenagem, numa voz minha para ele em lembranças: 

“Filho precisa ser”, pensou. E lembrou de quando furava a parede da garagem para construir a rede da brincadeira de bola no ar. O irmão era maior e, por vezes, vivia em outro mundo. O mais novo fazia castelo modelando tijolinhos de barro molhado com caixinhas de fósforo por detrás da casa, quintal de mangueira que já não existe mais. Ele aprendendo a caminhar sozinho, amparado. O filho subia o pé e era como subir ao sonho. Nas costas, sempre a figura de proteção dele, dizendo “cuidado” sem privar da liberdade certa. Era amor e não era outra coisa. Emudeceu por um instante. Pensou: “Eu não seria nada se não fosse meu pai”. Ou quase nada, porque tinha a mãe também. Depois lembrou dele com aquela velha faquinha insubstituível modelando com mãos de Deus a futura prótese, perto do jardim, raspando raspando raspando, construindo sorrisos de gente, colocando sorrisos na gentes, restaurando sorrisos perdidos, de gentes também perdidas, no meio das rosas e das plantinhas verdes da mãe. Era puro encanto. Aquelas sobrancelhas arqueadas, quase sem, diminutas, a calvície que sempre foi, o olho manso de quem tem o coração bom e a alma limpa, modelando com o foguinho de álcool, prudente, fingindo uma sisudez que era mais o liame de toda uma vida de sacrifícios para agora estar ali, todo de branco, direto do Pernambuco mais seco, mais sofrido e azedo, ostentando uma missão de honra e honestidade. “Meu pai é o maior homem do mundo”, o filho matutou. E olhava-o de longe, de perto, o tudo em nós que havia, o cheiro ocre dos produtos com nomes catastróficos misturado a alicates e brocas, um ar blasé atmosférico no fim da tarde, quase barroco, agudo, hora de fechar o engenho e tomar o banho merecido. Cirurgião Dentista de ofício, o velho era mesmo sábio em amar. Amava sempre quando ligava o chuveiro quente para o filho menor, dizendo mais uma vez “cuidado, use o chinelo”, para no outro dia se poder ir ao mercado fazer a feira e organizar produto por produto na hora da volta, rótulos bem visíveis, tudo muito organizado, tudo muito. Era mesmo um pai em excesso. Um pai que não conseguia ser pouco. Pai sem plágio. Amava no dia em que o escorpião picou a noite do pé branco sobre a Iraquara de lembranças. Ele dormindo e o filho mais novo pensando no presente do pai. Queria ser o autor do texto e resolveu e foi. Subverteu a ordem lógica das coisas e seguiu, pertinente, sabedor das hierarquias. Lugar de rei é lugar armado de uma beleza moral torcida em flor. O filho, crescendo e oblíquo, fingiu a discrição e quis a vulgaridade regada a palavras. Pensou: “Não sei fazer outra coisa senão escrever...”, e pensou mais um pouco. Não precisou de venenos, licores, cigarros. Foi o exemplo e espelho. “A gente aprende que, como o espinho, a pétala também fere”, com os seus botões, ensimesmado. O pai ensinou que a vida é vontade, que se precisa ir com garra, sem atropelar ninguém, e defendeu defendeu defendeu a cria. Não sabia ele que o filho já pedira muito aos céus a felicidade e a vida longa, que o filho já chorou muitas vezes com medo de qualquer coisa de mal, que o filho jurou ser coisa boa no mundo, orgulhar um coração que cabe um universo inteiro.” 

Está aí, moça bonita, uma espécie de amor que conheço. Um amor que atende pelo nome de Carlos Adailton Xavier, ou simplesmente “painho”. Meu pai é uma de minhas maiores saudades, Clara. E você, do que sente saudade?

Sendo assim, deixo-te um carinho.

09 de agosto de 2015, Caruaru de um Pernambuco Manguebeat.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XIX)

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Por Germano Xavier


BONEQUINHA DE LUXO

Há tempos queria ver Audrey Hepburn interpretando a festeira Holly Golightly, no famoso drama romântico hollywoodiano baseado em romance do grande Truman Capote, grande mestre do New Journalism norte-americano. E até que pude assisti-lo, enfim. BONEQUINHA DE LUXO (1961), dirigido por Blake Edwards, é um clássico com passagens emblemáticas e referências luminosas. Merece nosso tempo. Sigamos, bucaneiros!

O NEVOEIRO

O NEVOEIRO (2007), dirigido por Frank Darabont, é um filme de terror baseado num conto de Stephen King. Talvez, tal referência já indique a certeza de uma boa história assustadora. Com algumas ressalvas, o filme agrada aos amantes do gênero. Os jogos de poder e as discussões acerca da fé dão o tom em meio ao desconhecido. Depois dele, impossível olhar para um supermercado da mesma maneira que antes. Sigamos, bucaneiros!

THE WALKING DEAD

Confesso que não sou fã de séries, novelas etc, de quaisquer natureza. Tenho pouca paciência para o lento (e proposital) desenrolar das ações típicas de tais produções midiáticas. Todavia, THE WALKING DEAD, criado por Frank Darabont, tem me chamado a atenção nos últimos dias (já vou entrando pela quarta temporada). É uma empreitada muito bem feita, que mexe com muitos assuntos interessantes ligados à natureza humana. Não é só drama e terror, tem muita coisa aproveitável. A série é baseada numa graphic novel de muito sucesso mundo afora. Vale a pena dar uma conferida, bucaneiros!

AS TARTARUGAS NINJA

Eu já não gostava muito do desenho animado homônimo quando pequeno. O filme comprovou: não sinto nenhuma empatia para com o leitmotiv das aventuras ficcionais destes sujeitos verdes comedores de pizza e habitantes do esgoto, cujos nomes fazem alusão aos grandes artistas renascentistas italianos Leonardo (da Vinci), Rafael (di Sanzio), Michelângelo (di Ludovico) e Donatello (di Niccoló). AS TARTARUGAS NINJA (2014), dirigido por Jonathan Liebesman, é um filme de ação completamente desprezível. Sigamos, bucaneiros.

MEU PASSADO ME CONDENA 2

Já tinha vista o 1. Vi o 2. MEU PASSADO ME CONDENA 2 (2015), dirigido por Julia Rezende, é um besteirol brasileiro e fica por isso mesmo. O que há de melhor no filme são as imagens bonitas de um Portugal rural. Quem vai encarar?

BESOURO – NASCE UM HERÓI

BESOURO - NASCE UM HERÓI (2009), dirigido por João Daniel Tikhomiroff, é um filme nacional que narra a história de Manoel Henrique Pereira, o "Besouro", que nasceu na Bahia em 1897. Na década de 20 do século passado, os negros ainda eram tratados como escravos no Brasil, mesmo depois da abolição da escravatura. Ao defender seu povo utilizando a filosofia da capoeira, Besouro termina sendo um grande exemplo de justiça, lutando contra toda forma de opressão e preconceito. Há tempos eu queria assisti-lo, mas só agora pude. As cenas foram gravadas nas cidades baianas de Cachoeira, no Recôncavo, e de Igatu e Lençóis, na minha natal Chapada Diamantina. Mais um grande personagem brasileiro que precisa ser (re)conhecido. Recomendo a todos os mortais!

TREM NOTURNO PARA LISBOA

TREM NOTURNO PARA LISBOA (2013), de Bille August, narra uma insólita aventura vivida pelo professor Raimund Gregorius que, após conhecer uma estranha moça em uma ponte em Berna, resolve seguir pistas de um livro misterioso escrito pelo médico português Amadeu de Almeida Prado. O professor termina abandonando suas aulas e sua comportada vida para entrar no universo episódico da Revolução dos Cravos portuguesa, ali nos idos de 1974. O filme é belo, muito bem feito, tem conteúdo, mas achei que se perdeu nos últimos 30 minutos. Fica vago, definha-se em si mesmo e não se pronuncia. Mesmo assim, há méritos. Recomendo a todos os mortais!

MINIONS

Engraçadinho só até a metade, depois tornou-se chato até demais. MINIONS (2015), dirigido por Pierre Coffin e Kyle Balda, é apelação. Mais um. Só isso.

COPA DE ELITE

Mas que mer...cadoria é esta?! De 0 a 10? Marque aí um - 5 para este COPA DE ELITE (2013), dirigido por Vitor Brandt. Um verdadeiro fiasco em forma de produção cinematográfica, a la seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo 2014. Não deu para assisti-lo até o fim. Que desperdício!

O PEQUENO NICOLAU

O PEQUENO NICOLAU (2010), do diretor Laurent Tirard, retrata a vida de um garotinho pacato que leva uma vida aparentemente tranquila ao lado de seus colegas de escola. Certo dia, Nicolau começa a suspeitar que sua mãe está novamente grávida, fato que, para ele, fará com que todas as atenções de seus pais se voltem para o novo rebento. Nicolau, diante de tal panorama, começa a elaborar estratégias mirabolantes para impedir que o seu possível irmãozinho vingue. Tudo isso até descobrir que... (eu não vou contar o final!). O filme é garantia de risos e boas surpresas. Muito bem feito. Fotografia cuidadosa. Recomendo a todos os mortais!


Imagem: Google.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A estrada

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Por Germano Xavier


você quer acelerar, vencer o tempo, matar a distância. você pensa. você age. você acelera. mas o carro é fraco. você é forte. mas o carro não é forte. você é forte. você acelera. você não vê resultado algum. você se sente fraco por acelerar sem piedade, apertando fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você pensa. você não sabe o que fazer. o carro é fraco. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo se altera. o pensamento se atordoa. você olha para uma nuvem no céu. você se espanta, sente medo por um instante, revira o olhar, reolha, vira-se para o relógio no painel do carro, você está lento, queria correr, devastar a vastidão, você queria, mas o carro é fraco, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é forte. você pensa. você quer fugir. você não quer ficar. sente uma vontade de ir em frente, dobrar a curva que se anuncia, você quer a reta destruída, a linha de chegada, alguém para segurar a fita do final, alguém para aplaudir o seu feito quando extenuado você descer do carro e esboçar um sorriso de glória. você sente saudade de alguma coisa. quer acelerar, gerar história, contar todos os seus ânimos. você quer chegar. você se declara ao espelho retrovisor central. de fato, você quer a consagração. você afunda o pé no acelerador. mais, mais e mais. você ignora as regras de trânsito. você trafega. mas o carro é fraco. você é forte. você imagina. você se encanta com a possibilidade. quer a aventura de ir. você precisa durar mais que a hora. você se volta ao mundo. repara. você leva um tempo para perceber. você sofre. você nunca mais. você poderia. vê o câmbio, aciona a embreagem, troca de marcha. você quer marchar. você teima, insiste. você vê placas. são amarelas, azuis, verdes, toda-cor. setas indicam caminhos. pontes, viadutos, canais, ruas, avenidas, semáforos, guias, calçadas, pessoas, árvores, postes, animais. você olha para uma moça que passa vestida de supermercado. você olha para a criança indecisa do outro lado da pista. você atropela uma carreira de formigas saúvas. você não é mal. você nem sabe que acabou com todo um formigueiro. você quer acelerar. você acelera. mas o carro é fraco. o carro não responde. o carro sentencia você. a vida é tão curta. você pensa. você poderia estar lá. você se anima novamente. viver é prematuro em você. você começa. você não tem pena. você mira o pedal direito. acerta-o em cheio. você quer acelerar, abocanhar o tempo, desdenhar das distâncias. você não pensa. você não age. você não acelera. o carro não é fraco. você é fraco. o carro não é fraco. você é fraco. você não acelera. você não sente nada por não acelerar, não aperta fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você nada pensa. você não sabe o que fazer. o carro é forte. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo não se altera. o pensamento erra, perde-se. você olha para uma nuvem no céu. você não se espanta, não sente medo do desconhecido, revira o olhar, reolha, enxerga o relógio preso ao painel do carro sob o volante, você está devagar, não quer correr, não quer devassar a imensidão, mas o carro é forte, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é fraco. você pensa. você não quer fugir. você quer ficar.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Anti-Road-105338294

quarta-feira, 15 de julho de 2015

As pequenas vastidões de um Diário Bordô

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Por Germano Xavier


Há tempos acompanho a escrita da “paulistana sem sotaque e paraibana de coração” Letícia Palmeira. Desde 2009, ano de lançamento de seu primeiro livro, Palmeira vem se mantendo num ritmo bastante acentuado com relação à publicações em papel, o que já a faz contar hoje com 4 livros impressos, sendo 3 livros de crônicas - Artesã de Ilusórios (EDUFPB/2009), Sinfônica Adulterada (MULTIFOCO/2011) e Diário Bordô e outras pequenas vastidões (MULTIFOCO/2013) - e 1 romance, intitulado de Sol e Névoa (PENALUX/2015). 

Diário Bordô e outras pequenas vastidões, seu terceiro livro em ordem de publicação, é, para mim, a obra-prima da escritora Letícia Palmeira dentre todas as suas produções até o prezado momento. Como a reinventar ou simplesmente como a pintar com novas tonalidades de cores o gênero crônica, com pinceladas de uma ironia que beira o desconcertante, a autora conseguiu imprimir uma voz una desde a primeira até a última página, firme e magnética, o que não aconteceu de forma plena em suas duas primeiras coletâneas de crônicas aqui supracitadas, estas mais desconexas e afetadas.

A crônica de Diário Bordô e outras pequenas vastidões, como lugar para a interação tempo/narrativa/espaço, transporta o leitor para dentro de um ambiente extremamente caloroso, ora enfeitado com a ficção que transcende o verbo ora abotoado numa trama que faz transparecer a verdade das expressões cotidianas e das situações onde o convívio é a ordem máxima das horas. Enxergamos, pois, tanto a escritora que fabrica uma realidade fotografável e lenta quanto a realidade que caminha sem freios pelos olhos cansados dos transeuntes. A fotografia mental é a literatura de Palmeira. A fotografia que desafia o simplório, mesmo não exibindo demasiados recursos. 

Há uma exposição autoral, de uma vida autoral, de uma vida comum, de seus caminhos e de seus atalhos, uma exposição que nem sempre condiz com a verdade, mas que também é característica da crônica. Marca própria de quem publica em blog - que é o caso de Palmeira -, espécie de gaveta virtual que quase sempre nos invoca ao uso de tal linguajar. O sentido do livro é o da liberdade, o do gosto pela descoberta do macro no micro, da beleza na quase ingênua rebeldia, do dizer puro entoado com as nódoas dos tempos de prontidão vital presentes em cada uma de nossas humanidades.

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 Imagens: * http://www.deviantart.com/art/Diary-75126194
** http://baixar-livro-gratis.com/?p=174854

terça-feira, 14 de julho de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VI)

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Querido Viana,

Saudades são muitas, destas nossas conversas. Parece que se passou uma eternidade desde o nosso último encontro (sim, para mim, são encontros, e eu quase sinto o cheiro do café que tomamos quando te escrevo e quando te leio). E falando do café, que aqui em Portugal é um ritual imprescindível, deixa-me sobrevoar alguns episódios engraçados. 

As pessoas encontram-se para tomar um café como pretexto para cimentar uma amizade recente, cometer uma inconfidência, fazer negócios, discutir um projeto, desenhar uma ideia ou partilhar um momento de abstração, falar de política ou literatura, conhecer talvez um futuro amor sem o saber. Café é tudo. Mesmo quem não toma café diz: “Quando é que vamos tomar um café?”. E depois bebe uma água, uma imperial (chopp) ou coisa nenhuma. O que conta é o simbolismo. Há tempos, quando estudava espanhol no Cervantes, a professora propôs-nos um artigo muito engraçado de um jornalista espanhol. Precisamente sobre o café. O homem dizia que só existiam dois países no mundo onde o café era bom: Portugal e Itália! Depois continuava humilhando impiedosamente o café americano, o mexicano e por aí afora… e ia mais longe, afirmando: “em Portugal, em qualquer aldeia remota do Alentejo, de Trás-os-Montes, seja onde for, onde há mais cabras que pessoas, se pode beber um expresso cremoso e perfumado. Noutros sítios, grandes metrópoles até, o que se bebe é água suja, sumo de terra”, isto dito por ele, que eu nem entro nessas polémicas, só me divirto… Um colega meu, praticante de desportos radicais, dizia que após seis meses na Austrália, ao reencontrar os primeiros amigos em Lisboa, só lhe perguntavam: “Como é o café, lá?”. Ele achava a preocupação absurda, mas isto tem a ver claramente com a alma portuguesa; que fazer? ou, como se diz na gíria suburbana angolana: “Vamos fazer mais como, então?”

Agora deixa-me fazer uma viragem de 360º graus para te responder sobre Maria Bonita e o Lampião, que nós conhecemos muito bem em Angola, sim, na minissérie dos anos 80. E é bom lembrar Nelson Xavier, actor arrepiante, que tive o prazer de rever agora há dias num filme brasileiro de que te falarei um dia destes detalhadamente. Esse universo do cangaço chegou até nós, lembro-me também do Zeca Diabo, cangaceiro famoso da ficção interpretado pelo incrível e insubstituível Lima Duarte, que tinha uma fé e uma religiosidade intrínseca e deliciosa, a par da sua insólita profissão.

Talvez essa familiaridade com a morte tenha a ver com a adversidade do clima, das condições de vida, a morte é roçada de perto tantas vezes que parece ser sentida como uma eventualidade muito próxima. Não quero fazer filosofia barata sobre tão sério assunto, mas é o que me ocorre…

Mas antes que eu me perca de vez, porque me conheço e tu me conheces, aqui vai a explicação do “sempre a aviar”: na verdade, essa expressão significa qualquer coisa que se faz sem interrupção, no contexto anterior (o homem que dizia que quando era novo era “sempre a aviar”) trata-se de um homem que teve uma infinidade de conquistas, umas atrás das outras (diz ele!); no universo masculino isso parece ser uma mais-valia importante…enfim, coisas de rapazes…e coisas de rapazes são também essas cumplicidades que juntam homens, como tu e o teu pai, conversando numa garagem em torno de motos e de carros. Essa cena é quase um clássico do cinema, e da vida real, claro. Vem-me à memória “O Gotejar da Luz”, do português Fernando Vendrell, em que o rapazinho se aconselha com o amigo mais velho sobre mulheres, sobre o amor, enquanto fumam um cigarro, no meio de uma oficina. Talvez seja comparável às conversas que as mulheres/meninas têm usualmente nas casas de banho dos restaurantes enquanto retocam a maquilhagem. Não quero traçar um quadro fútil nem estabelecer limites de género para nós (homens e mulheres), mas embora não sejamos iguais, temos rituais comparáveis, claro. 

Mas o fascínio por motos é uma coisa que eu já observei e sempre me intrigou: uma amiga que era gerente de um stand de motos disse-me um dia que os clientes de motos e de carros têm um perfil completamente diferente. Quem compra motos fá-lo impulsivamente, por paixão. Disso eu entendo, mesmo que não de motos. E também de vento na cara, sensação que eu não dispenso.

E deixaste-me surpresa com os teus passos sem sentido, muito mecânicos…e a vontade do teu coração. Eu queria perceber, sem invadir. Quase que entendo, parece-me um questionamento que temos de vez em quando na vida. A eterna dicotomia entre a razão, o que esperam de mim, e o que eu quero fazer no momento. Será isso? Em todo o caso tu pareces-me alguém com um equilíbrio invejável, que consegue ser racional sem deixar de ter empatia com as pessoas e de demonstrar emoções. Acertei?

Mas não te quero fazer esperar mais para te falar sobre o encontro de literaturas africanas da lusofonia. Foi nos jardins da Gulbenkian, uma Fundação com um espaço exterior muito bem aproveitado; ali estávamos numa tenda decorada para o evento e tudo decorreu num ambiente informal e caloroso. Os palestrantes, um moçambicano, uma cabo-verdiana e um angolano, todos escritores premiados e com um percurso de vida denso, gente com histórias dentro. Ungulani, Vera Duarte e José Luís Mendonça. A moderadora era uma professora portuguesa de literatura. Foi um encontro breve mas empolgante em que fiquei sobretudo fascinada pela comunicação e pela postura rigorosa mas descontraída de Vera Duarte, juíza desembargadora e ex-ministra, com um percurso na escrita e fora dela digno de nota. Neste colóquio falou-se do percurso das nossas literaturas durante os últimos 40 anos, da influência de autores brasileiros e portugueses, da interdependência, das nossas vivências e histórias, do estado actual das Letras nos nossos países. Fiquei com uma enorme curiosidade pela escrita de Vera e Ungulani, JL Mendonça já conheço e gosto bastante, sobretudo do seu primeiro romance recentemente publicado, “O Reino das Casuarinas”.

Li de uma assentada um romance de Vera e um livro de crónicas e reencontrei-a casualmente dias depois noutro lugar em Lisboa. Acolheu-me com uma enorme simpatia e alegria, estava de malas feitas para regressar a Cabo Verde mas ainda falámos alguns minutos e confirmei a impressão que os seus livros me deixaram: mulher de fibra, de um imenso coração e uma disponibilidade e clarividência que é raro encontrar. Talento, já nem falo, um dia vais lê-la também, o romance é “A Candidata”, e talvez o possas encontrar no Brasil, pois ela tem uma relação fortíssima com as Letras do Brasil e alguns académicos brasileiros. Gostava que o lesses para comentarmos, aliás penso escrever algo sobre o assunto, não é o tipo de obra que se encontre ao virar da esquina.

Querido amigo, fico por aqui mesmo, muito mais haveria para dizer, há sempre, mas a casa está em pinturas e eu tenho as costas todas moídas de esvaziar armários, limpar, arrumar de novo e fazer pausas para escrever, ou vice-versa.

Um beijo cheio de calor, com gosto de Grécia e Portugal, com tempero de Angola, com sabor a futuro e a esperança.

Sempre ansiosa por receber o teu abraço em forma de letra.

Clara
Lisboa, 09 de Julho de 2015


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Clara,

Tarde de sol ameno por aqui. Como vai Portugal? Como vão os portugueses? Como vai você, minha querida? E como a desafiar-me, ligo o áudio do notebook que agora uso para escrever esta missiva a você neste exato instante e no batuque psicodélico de um Radiohead lanço minhas palavras por todo o teclado. 

A vida, como diria o “poetinha” Vinicius de Moraes, é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros em toda a sua extensão... pois, querida minha, cá estamos, encontramo-nos, para seguirmos a trilha da beleza que nos acerca e que nos aflora ainda mais ao passar do tempo que nos devora. Também eu fico a esperar você com muita ansiedade desde o momento em que finalizo cada carta-resposta que daqui segue em sua direção, Clara. É de nossa natureza a curiosidade sem limites, não?

Sinto o aroma da conversa. Deixo-me ao deleite. Café é artigo de história bem grande cá em terras tupiniquins, Clara. Brasil das milhões de toneladas de grãos de café, exportadas para todo o mundo. Dizem cá que produzimos o melhor de todos, mas que não chegamos a tomá-lo, a sorvê-lo, a senti-lo em aromas de cotidiano, de povo mesmo. As mais reluzentes safras vão direto para o exterior e ficamos nós com os grãos de menor qualidade. Ironia, não? Assim também acontece com nossas frutas e tantas outras coisas mais. 

Café nosso que foi até piso-tema para tramagens políticas importantes na história... você por acaso já ouviu falar na questão da “política do café-com-leite”, Clara? Uma espécie de acordo entre políticos de São Paulo (produtor de café) e de Minas Gerais (produtor de leite), para que a ordem de sucessão sempre acontecesse tendo como base o revesamento de líderes naturais destes estados. Um complô, na verdade, dos tempos da chamada República Velha. 

Café das manhãs, café das noites, café das tardes, este último sagrado lá em casa de meus pais, na Bahia chapadeira. Toda santa tarde, três ou quatro horas do tempo vespertino, lá estão meus pais a tomar suas xícaras de café acompanhadas de algum deguste leve. Café que nunca me foi a predileta das bebidas, mas que aprendi a apreciar em horas singulares da vida, como que a colocá-lo num canto especial de mim. Café que nos aproxima, café que um dia, quiçá, tomaremos juntos numa praça aberta ao céu das eternidades memoriais.

Incrível é mesmo saber do poder que os meios de comunicação possuem já há anos e sempre, ver como chegam ao grande percentual populacional, e facilmente, as produções televisivas (principalmente) em solos europeus e africanos. Agora tudo interconectado, mundo global das redes de tv a cabo, dos fios ópticos, das ondas eletromagnéticas mil, da internet! 

Confesso a você minha surpresa, Clara, em suspeitar que temas bem próprios das gentes de cá a você parecem tão próximos em verdade. E é bem por aí mesmo as significações cangaço-sertanejas. Decerto que a história por detrás de toda esta ambientação factual vai bem além de nossas imaginações, sendo necessário de nossa parte grande e responsável aparato de leituras. O cangaço e toda a sua aura é um caldo apaixonante de mistérios, lendas e narrações. 

No cangaço, vida e morte que se conflagravam. O homem no meio do torvelinho. Personagens contraditórios, Lampião e Maria Bonita estão escritos para sempre no imaginário popular do Brasil, principalmente para as pessoas que habitam o nordeste brasileiro. Eles são, só para citar um exemplo, personagens vivíssimos dentro do que aqui conhecemos como Literatura de Cordel. Aqui mesmo em Caruaru, em terras de minhas atuais pegadas, em sua famosa feira já cantada e decantada pelo Rei do Baião, é comum encontrarmos folhetos de cordel que malinam com esta temática cangaceira e, por conseguinte, com seus principais condutores. Salve, salve, Maria Bonita! Salve, salve, Lampião – nosso Robin Hood, diriam alguns.

Pois este tão bonito explicar-se acerca da expressão “sempre a aviar” fez-me recordar agora uma de nossas atuais leitoras, também ansiosa pelo resumo. Ah, e a paixão pela vida, Clara! A paixão pela vida entrando por nossas veias! Como não se permitir chegar ao paraíso através da paixão, mesmo com a possibilidade das quedas?! Do vento sobre as rodas das motocicletas, estanco a parola nessa nossa inconstância de ser-no-mundo: amantes que somos, amadores que somos, até o dia final. 

Você me acerta em cheio, Clara. Mas há impérios que me movimentam em cujo silêncio austero prefiro resguardá-los. São coisas nossas, que nos animam e que nos entristecem, como as distâncias, como as impossibilidades momentâneas, como os entraves múltiplos do dia a dia, mas que invariavelmente nos fazem rumar ao desconhecido, para as frentes de batalha. 

O amor, Clara, se é que isto lhe servirá de dica, o amor é o que conturba as minhas vistas dos agoras. Mas o amor possui tantas facetas, não é mesmo, querida? O amor é tão grande, mas tão grande e tão incontestável em suas multidireções, que por vezes não cabe no peito e vaza e rompe as nossas manhãs de paz, fazendo-me brincar de esconde-esconde ou pega-pega comigo mesmo. O amor, enfim, esta una espécie de Deus! Deixemos para lá, por agora, já que estou mais sereno. A paz abraçou-me novamente, mas como tudo na vida, pode não durar tanto e regressar. 

O que é o Amor, Clara?

Ontem, dia-rock, foi dia de renascer em nova idade. Cá estou, vivo. 

Um beijoceano e um carinho neste frio dia. Até mais ver!

Caruaru-PE, Pernambuco de Gilberto Freyre, 14 de julho de 2015.



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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 15/05/2015
Lucille

Lucille

pour B.B.King, in memoriam

le son c’est un passage de la langue sur le serpent
(je lèche ses écailles), douce machine
pour passer le temps, le bleu triste des conflagrations :

des tons.

que de la pureté noire, un contenu esthétique
lorsqu’il jouait les sinueux rêves de l’aurore.
Le roi de la bouche : suaire vivant d’un dieu musical.
Le son serait-il comme une tache sur un vêtement sidéral ?
une avant-première des bals pour les esprits en feu ?
en partant, tout un éther poétique : Lucille manque d’air.


* Imagem:  http://popculthq.com/2015/05/15/blues-legend-b-b-king-passes-away-at-age-89-rip/

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Joseph Mitchell, Joe Gould e o elogio à escuta

*
Por Germano Xavier


“A melhor conversa é sem arte, sem cálculo.”
(Joseph Mitchell)


Joseph Mitchell foi um dos grandes jornalistas do século XX - há quem diga que foi o maior jornalista do século passado e outros que afirmam veementemente que ele foi o maior jornalista de todos os tempos. Eu não saberia precisar se tal afirmação é certeira, mas Mitchell foi, sim, um jornalista estupendo e realmente raro. Tinha faro, mas fazia questão de farejar tudo lentamente. Um homem, um artista das palavras, a quem devemos todo o nosso respeito.

Decerto, o legendário integrante da redação da New Yorker não se adaptava facilmente ao trabalho, era o trabalho que havia de se adaptar a ele. Processava os fatos antes de escrevê-los, coisa rara no meio periodístico dos dias atuais. Não foi, jamais, um jornalista comum. Sua maior característica era, talvez, a capacidade de escutar o outro e o mundo, como bem destacou João Moreira Salles em posfácio escrito para a obra O SEGREDO DE JOE GOULD, obra máxima de Mitchell.

Gould, como escreveu o consagrado jornalista da Carolina do Norte, nascido em 1908 e falecido em 1996, foi um “homenzinho alegre e macilento, conhecido em todas as lanchonetes, tabernas e botecos imundos do Greenwich Village há um quarto de século” e que às vezes se gabava por ter sido “o último dos boêmios”. Um homem com alma de menino e alado, um artista da loucura e da lucidez, a quem devemos, também, todo o nosso respeito.

Além de piolhento, ranzinza, de ingerir litros e mais litros de Ketchup sempre que podia, de saber falar a língua das gaivotas e de ter sido aquele que escreveria a obra mais fantástica e abrangente do universo, por ele intitulada de UMA HISTÓRIA ORAL DE NOSSA ÉPOCA, Gould foi a razão existencial de Mitchell. Não seria funesto dizer que Mitchell não teria sido Joseph Mitchell se não fosse Joseph Ferdinand Gould e vice-versa. Os dois, em vida, completar-se-iam ad infinitum.

Por décadas, os dois travaram conversas e discussões que, ao fim, resultaram em dois dos mais famosos e relevantes textos de Mitchell e, por conseguinte, do New Journalism norte-americano: os perfis “O professor Gaivota” e “O segredo de Joe Gould”, ambos com base na saga de Gould. De um lado, Gould e todo o seu mistério. Do outro, Mitchell e sua monumental paciência. Os dois, irremediavelmente, terminariam conflagrando-se numa das mais fantásticas histórias reais envolvendo um entrevistador e um entrevistado já existentes.

Escutar o outro – o ser entrevistado, matéria de suas palavras -, para Mitchell, significava uma questão de sobrevivência, de ética e, acima de tudo, de amor. Quando imiscuído em um novo projeto, jamais pretendia encurtar caminhos. Era um apaixonado pela demora, pelo critério das pausas, pelos sons que não se ouvem facilmente, pelas falas que atravessam horas a fio, pelos ritos do ir e vir sem ter de necessariamente se chegar a algum lugar. Não fosse o amor de Mitchell pelo fazer jornalístico natural e puro, Gould fatalmente viveria numa bolha de memória comum com data marcada para se desfazer no ar. Mitchell, para Gould, foi o arrebol. Gould, para Mitchell, o prato da eternidade.


*  Imagem: http://edfayette.com/2014/03/