quarta-feira, 5 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVII)

*

Por Germano Xavier



Quinta-feira, 10 de Agosto de 2016

Prelúdio para Cravo


Prélude pour Clavecin

ça aurait pu être le début
vu les ressemblances et la gratitude esquissée,
vu la chimie atomique des mots,
un bel exposé sur la beauté, s’approprier l’instrument/un clavecin du baroque français/,
ou un Jean-Baptiste Lully, l’âme égarée dans le temps,

ça aurait pu être le temps volé, l’absence de limites,
exister sans les prémisses d’une rencontre inattendue,
synchronisée dans une mosaïque de fragments,

Bach nous parle, nous sommes des semblables
Cancer fils de la lune par une sorcière de Bélier qui joue la guitare
des candélabres et des résonances domptent les caléidoscopes
et transposent des transes,
et parce que nous avons des faims voraces
nous semons les mêmes chaleurs…

ça aurait pu être n’importe où, les lèvres entre les corps,
rien ne servirait alors de courir, de prévoir les dommages ni de s’indigner,
avoir le courage de nier le désir insensé
et dans la fantaisie de nos vies, concéder en centuries
les bons termes du mystère, du sexe, de la volupté et de l’amour.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecin-wip-cordes-2-336030976

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 30 de Julho de 2016
Templo do Tempo

Le Temple du Temps


En pleine mer, sans ancrage
Ni voiles, nous voilà enracinés
À la dérive de la machine révélatrice les destins.

En pleine mer du Temps, ce gaucher
Qui accomplit des milliers de désastres
Nous marchons brouillés d’incertitudes
Et prenons le cap, allongés dans l’impermanence.

Cette mer dévoile ce que l’on prend, en flagrant délit
Nos faits les plus anodins, c’est la mer
Qui étale sur terre les mécanismes de l’enfer.

En pleine mer déferlent des vagues de supplice,
Dont la force isole des sueurs libidineuses
Les transformant en larmes chastes d’illusion.

La mer, ce Temple aquatique du Temps,
Ce grand noir profond, juge et masque
Ce qui plonge en lui, tout en étant libérateur.

En pleine mer mon dos chancelle,
Et à l’intérieur même des malédictions du jour,
Je m’assois sur ce que restera encore de moi. Pour la vie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Special-Vers-02-690285173

domingo, 7 de maio de 2017

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIV)

*


Viana, amigo querido,

Há tempos atrás comecei a sentir-me culpada pelo atraso na resposta à tua carta, como todas, sempre tão cheia de vida e de boas vibrações.

Durante algum tempo essa culpa seguiu-me, perseguiu-me, até me atar mãos e braços e me impedir de te escrever com liberdade e total “falta de vergonha”, no melhor dos seus sentidos. Tenho ou tive por momentos alguma vergonha, e aqui na sua aceção mais penalizante, por não ter conseguido manter o ritmo que se impõe a uma conversa entre amigos.

Resumindo, quando passou a culpa veio a vergonha e quando me livrei de ambas resolvi enfim ir ter contigo, por este mar feito de palavras que é a única estrada que temos. Aqui me tens, com todas as minhas ausências, disposta a ouvir os ralhetes e desaforos que possa ter merecido – embora saiba que não terei que passar por essa amarga experiência, porque tu és das pessoas mais tolerantes e cordatas que eu conheço.

Então, Viana, não te posso contar tudo o que vivi neste lapso de vários meses, mais precisamente desde agosto passado. É muita coisa em atos, em vivências, em fracassos, tentativas ou sucessos, mas por outro lado sinto que se diz em pouquíssimas palavras ou num simples bocejo. Continuo a insistir para que venhas cá, e então estas cartas vão-se transformar num diálogo mais difícil porque mais próximo e é sempre mais difícil falar com alguém de frente, sem poder emendar o que se disse ou escreveu, pois não se podem rasurar sorrisos, palavras gaguejadas, mal-entendidos, gaffes ou um arroz queimado por esquecimento. Estas experiências presenciais partilhadas implicariam que nos desnudássemos um pouco mais e nos permitíssemos viver com palavras reais, com sons e tonalidades, que se dizem antes de serem escritas. E talvez jamais o sejam.

Mas sei que pelos pequenos fragmentos de episódios que te vou contar és capaz de me reconstruir à distância com tanto rigor e realismo que chega a parecer que sou obra tua. Deixa-me dizer-te, para me perceberes neste exato momento, que hoje está um dia maravilhoso, e olha que os domingos costumam ser egoístas e não dar a conhecer a alegria que trazem dentro. Pelo menos por aqui, para mim.

Pois hoje o domingo levou-me até uma ampla praça no coração da baixa lisboeta, o Martim Moniz, onde há sempre animação de rua assim que começa a aparecer o sol, desde que o local foi reabilitado. Para teres uma ideia, é aquele tipo de espaço cheio de barraquinhas e roulottes, neste caso roulottes de comida temática e algumas tendas de artesanato, frutos secos, roupa alternativa, no sentido de que não representa a moda atual nem de nenhuma época, talvez mesmo de nenhuma geografia, mas apenas o gosto que quem expõe e a curiosidade de quem vê, apalpa…e às vezes compra. Voltando às roulottes, que lá em Luanda se chamam ou chamavam lanchonetes, aquela que a minha amiga gere com o marido tem umas sanduíches de picanha de se lhe tirar o chapéu, cogumelos com molhos inconfessáveis e uma sangria de beber e chorar por mais. Eles vão percorrendo o país inteiro entre festivais e festividades locais, todos os lugares onde aquele conceito possa ser apreciado, comida de rua, para se saborear sem pretensões, com requinte mas ao mesmo tempo uma rusticidade que aguça o paladar e puxa por uma boa conversa. Mas digo-te eu que o que os distingue de outros expositores não é só a qualidade e a originalidade do que vendem, mas o sorriso permanente e genuíno, a simpatia e a descontração. Para quem compra e também para quem apenas olha e ali se enraíza por infindáveis minutos sentindo o cheiro dos grelhados e dos temperos.

Entretanto há uma coisa fabulosa que te deve acontecer também, (diz-me que sim para não me sentir tão solitária) … há um instante preciso em que estás a viver uma experiência agradável e de repente sentes necessidade de escrever e de registar as tuas impressões. Podes fazê-lo num telemóvel, num tablet ou mesmo num caderninho vermelho como aquele que eu perdi há semanas (e ainda não me recompus); mas se a torrente de ideias e palavras for longa precisas de um computador e vens a correr para um sítio onde possas ter acesso a esses meios, que te permitem contar e efabular. Para nós, que escrevemos, isso também é viver, viver duas vezes e em discurso indireto. E depois essas histórias já são outras, porque tu não vives só aquilo que te aconteceu e testemunhaste mas também aquilo que te ficou subliminarmente agarrado aos sentidos, fica uma quase memória paranoide em que viste e ouviste milhares de outros pequenos enredos para além daqueles que efetivamente te foram oferecidos pelos dias. Sossega, não é esquizofrenia criativa, apenas um desabafo que ouvirás com indulgência, tenho quase a certeza. A propósito de caderninho vermelho, é sério, Viana, tinha um de formato A6, julgo eu, um caderninho amoroso e com uma capa estofada como um sofá onde eu de vez em quando escrevia quando não tinha computador; tinha lá poemas inacabados, retratos, ideias soltas e tópicos para desenvolver. E sobretudo muitas folhas brancas que me fascinavam pelas infinitas possibilidades que ofereciam. Retratos de pessoas que poderei nunca mais ver, talvez por isso tivessem uma importância singular. Feitos a esferográfica, que é o meu instrumento de eleição.
Se alguém se lembrasse de pedir resgate, eu saberia que pelo menos essa pessoa, por piores que fossem os seus instintos ou intenções teria percebido a importância do caderninho para mim. Mas ninguém o fez ainda, o que me leva a pensar que talvez um dia, quando o meu aspirador cá de casa se enfurecer, esse caderninho apareça envolto em pó por trás de algum móvel mais pesado ou dormindo sobre um chinelo velho. Rezemos por isso.

Viana, eu já te falei também daquele interesse que tenho em conhecer mais sobre os caminhos da fé, sobre a ritualização da igreja, o cerimonial, as orações, os cânticos… não é um tema sobre o qual fale facilmente, mas contigo falo sobre tudo, até sobre aquilo (sobretudo sobre aquilo) que não conheço bem. Eu estou a dar os primeiros passos num caminho que costuma ser trilhado por crianças – sinto muitas dúvidas e questionamentos, mas creio que só assim esta aprendizagem poderá ter um significado profundo para mim. Quando tal caminho se converter num sacramento, como espero e desejo, quero ter-te aqui também. Faz por apareceres.

Quero dizer-te também que tenho coisas em mãos que me motivam e emocionam: alguns textos em prosa para tentar descrever o que leio nos espantosos quadros da Armanda, outros em poesia que mostram o que me trouxe a fotografia dos olhos da Sant’ana, que tu conheces e conhecerás um bocadinho mais ao longo dos anos, pois o que ela tem para desvendar é muito, inesgotável.

Eu sei que a última vez que nos escrevemos por este canal estavas cheio de raiva no sangue, não uma raiva vingativa mas uma coisa justiceira e redentora. Uma indignação contra tudo aquilo que tentamos corrigir no mundo e que nos foge das mãos, contra a hipocrisia, contra a maldade, contra a manipulação, contra a indiferença. Diz-me em que temperatura anda a tua raiva, como a tens canalizado, o que fazes quando ela te queima as mãos. Eu escrevo, mas não chega.

Agora eu vou ficar à espera que tu me mandes aquele abraço que me falta, que me contes tudo o que se passa à tua volta mas sobretudo dentro de ti, nessa cabecinha fértil e atenta ao mundo.

Um beijo muito grande, agora por cá, ouço falar em “abreijos”, parece-me uma coisa simpática. 

Recebe o meu carinho da forma que te for mais conveniente.

Clara,


Lisboa, 12 de Março de 2017.



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Clara, queridíssima,

Perdoe-me. Prometo retomar os assuntos abordados por tua pena numa próxima conversa nossa. Prometo.

Meu carinho. E sigamos... 

Caruaru-PE, 07 de maio de 2017.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Cristina Seixas

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Germanices equatoriais

*

Por Nadine Granad


Para O Equador das Coisas

Entre sombras e mares,
Avante, adiante,
Tão somente seguir...
Toma-nos ares...
O velejar, tal constante
- Em dez anos a sorrir...

Não há como dizer,
Aquilo que não tem razão...
Todas as cores beijam em tom de azul,
Palavras que dançam em solidão
- E ganham a amplidão do verbete nu...

As distâncias dos polos inexistem,
No peito do poeta o magnetismo é um...
A poesia é perpendicular,
Certeira ao lugar-incomum...

Entre estorvos e (re)começos,
Da inação à Comunicação,
Agracia-nos com essências...
Uma a uma que abraçam e pingam... coram ação...



Obs. Poema em homenagem aos dez anos do blog "O Equador das Coisas" - o presente ganhamos a cada postagem!...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sun-Goes-Down-Over-Equador-222764427

sexta-feira, 10 de março de 2017

1800 publicações n'O Equador das Coisas


Por Germano Xavier


Prestes a completar 10 anos de existência no ciberespaço, o blog O Equador das Coisas registra hoje a marca de 1800 publicações. Aos que por aqui chegam, vindos de todos os cantos e recantos, meu abraço. 

Sigamos, bucaneiros!

domingo, 5 de março de 2017

Tem a gente ali-acolá



Baixe e leia a edição Número 1 da REVISTA GUETO, empreitada luso-brasileira editada por Jerome Knoxville e Amanda Sorrentino. Tem lá um conto do meu livro SOMBRAS ADENTRO, finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016. Sigamos, bucaneiros!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nada muito sobre filmes (Parte XXIX)

*

Por Germano Xavier,
com extrema preguiça de escrever


Versos de um crime

1944. Allen Ginsberg e Lucien Carr. Poesia, literatura, contracultura e atração. Vai lá, dê uma espiadinha!


A casa dos pequenos cubinhos

Delicado. Quase sublime.


Bonnie & Clyde

Gosto da história dos dois, mas da versão cinematográfica de 2013, não.


Guardiões da Galáxia

Sei lá.


O último capítulo

Frustrante.


Black Mirror

A primeira temporada tem um conteúdo bem legal.


Demônio

Nem lembro mais de tanto que é desprezível. O terror/horror precisa se reinventar. Tá difícil!


A viagem de Chihiro

É deveras interessantíssimo. Todavia, é preciso entender bem o que há por detrás de tanta simbologia. O mundo oriental é fascinante. Para ver e rever, várias vezes.


La La Land – Cantando Estações

Valeu a meia-entrada que paguei.


* Imagem: http://www.blog.365filmes.com.br/2015/04/Estudante-reune-120-anos-de-Cinema-em-video-de-7-minutos.html

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confesso que li

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Por Germano Xavier


A aventura da leitura começou cedo em minha vida. Muito, mas muito cedo, também não. Melhor seria se eu começasse este texto da seguinte forma: a aventura da leitura começou na hora certa em minha vida. Desta forma, até que soa mais verdadeiro. Mas há uma “hora certa” para se começar a ler? Sete ou oito anos de idade, com alguma margem de erro ou de acerto para mais ou para menos. É quando começo a recordar de alguns momentos... Guardo memórias ainda infantes de quando chegavam até mim alguns exemplares de gibis e alguns velhos e surrados almanaques. Foi assim por boa parte da minha infância no interior baiano. E, como sempre, tomado por um bom espanto, eu me agarrava àqueles materiais impressos e lia, lia e lia.

Com o tempo, revistas sobre automóveis e motocicletas foram me chamando a atenção. Meu pai, vendo meu gosto crescer com o passar dos dias, logo se prontificou a fazer uma assinatura da revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Tamanha era a fome demonstrada pelo conteúdo, que eu me prontifiquei a guardar todas as edições estrategicamente organizadas por anos e edições, além, é claro, de dificultar ao máximo as cada vez mais frequentes “mãos bobas” do meu irmão, que também começava a se interessar pelo assunto. Emprestar, para quem é aficionado e mesmo para um irmão, era sempre um suplício. Minha coleção de revistas sobre os mais diversos assuntos rapidamente entupiu uma estante e outra e depois mais outra, e assim sucessivamente. Perdi a conta de quantas tive, de quantas li. Até hoje, guardo comigo “notório saber” sobre automóveis e motocicletas em geral. Curioso, não?

No começo, literatura era mais difícil de se encontrar. Chegavam-me livros em porções parcas. Lia tudo. Quase tudo. Sem distinção. De Paulo Coelho a Dalton Trevisan e Borges. De Hilda Hilst a George Orwell, passando por Drummond e Melville. No início, bem lá no início, acreditei na ideia de que existia uma “Grande Literatura”, e mais ainda, que era bonito e elegante ler e expor conhecimentos sobre os “cânones” da literatura universal. Hoje sei o quão bobo era, o quão ingênuo fui. Os livros que outrora apontava como sendo magnânimos e quase solenes, hoje são apenas bons livros em sua maioria. Entendi, a bom custo, que não há melhor literatura que outra, que não há literatura ruim nem literatura boa. Entendi, senão, que existem literaturas e, principalmente, que existem circunstâncias de leitura literária.

A escola não me ajudou muito no processo de gostar de ler. Todavia, alguns momentos foram cruciais para que a chama da leitura fosse acesa dentro de mim. Um deles foi quando a professora de português cobrou a leitura de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e de Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos. Como aluno, não entendia bem o porquê de se cobrar a leitura de um livro para dar conta, depois, de algumas tarefas quase sempre banais. Hoje, do outro lado, como professor, entendo a importância de se levar livros ao encontro dos estudantes. E livros de todas as espécies, é bom frisar.

A escola, com todas as suas falhas e perrengues já ancestrais, ainda é um espaço em que se pode ensinar a gostar de ler, e de ler literatura! A maioria do alunado aprenderá a falar, mesmo que raramente, de alguns exemplares ou de algumas leituras. Outros alunos, mesmo que sendo poucos no meio de um enorme contingente, farão a mesma viagem que fiz. Uma viagem sem volta, diga-se de passagem, porque quem aprende a gostar de ler textos de cunho literário alcança o infernal paraíso insuspeito das coisas e do homem, e é muito raro alguém deixar este espaço para trás sem mais nem menos. São esses meus alunos os tesouros de minha profissão.

Jamais reprimi um aluno meu pelo fato de ele estar lendo um best-seller atual, dos que figuram nas mais reles listas dos mais vendidos, quase sempre sobre romances vampirescos ou distopias de cunho adolescente. Ao contrário, incentivo. Nem tudo o que parece ser, é. Nem tudo que é, é. O que é mesmo que garante a um texto ser taxado de literatura? Quais são os fatores de literariedade que ajudam a potencializar um texto? O que é mesmo essa tal de literatura de qualidade? Alguém aí tem a resposta? Eu prefiro acreditar, hoje, que a qualidade de um texto literário começa pelo olhar de cada ser-leitor e que um uso “afetadamente artístico” da linguagem não garante que o texto seja considerado literário. 

Por ser, ela, a literatura, um fenômeno cultural e histórico ao mesmo tempo, diferentes grupos sociais em diferentes épocas podem classificá-la de diferentes maneiras. Sendo assim, faz-se necessário crer na ideia de que a literatura não é um seixo inamovível. A literatura está mais para fluido, e mesmo as mais rígidas “instâncias de legitimação” atreladas à Grande Literatura não podem agregar valores incorrigíveis ao que denominamos de texto literário. Até mesmo as nossas expectativas podem mudar o conceito do que seja a literatura. Ou não?

Outro grande desafio que sempre tive e tenho em sala de aula é o de introjetar mais o “popular” no espaço do saber literário, de discuti-lo mais amplamente com meus alunos, especialmente em esferas de maior carência de recursos educacionais ou, também, em seus opostos. É preciso “impor” variedade. O professor está lá para isso, para ofertar. Como diz Márcia Abreu (2006, p.80), em seu livro intitulado de Cultura letrada: literatura e leitura, “a apreciação estética não é universal: ela depende da inserção cultural dos sujeitos. Uma mesma obra é lida, avaliada e investida de significações variadas por diferentes grupos culturais”. 

Assaz assim, como diz a autora supracitada, será inteligente de nossa parte entendermos que “não há obras boas e ruins em definitivo. O que há são escolhas – e o poder daqueles que as fazem. Literatura não é apenas uma questão de gosto: é uma questão de política” (2006, p.112). As razões para o surgimento de um leitor contumaz de literatura são as mais díspares, sabemos. Todavia, se observarmos tais indícios, a tendência é que outros muitos obstinados aventureiros da leitura sigam aparecendo mundo afora, talvez até com mais facilidade, sabedores de suas escolhas e capazes de discernir o que é melhor para si mesmos enquanto leitores. As literaturas, pois, agradecem!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/leituras-148596519

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Marguerite Duras e a memória amante

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Por Germano Xavier


Amigos, leitores de literatura ou não, é já sabido, pois: a palavra é um ser vivo, como a parafrasear o grande Victor Hugo. “Tão vivo que se transforma, se ajusta, se articula, se combina, de acordo com os humores do seu manipulador ou ante as exigências do texto (oral ou escrito)”, como diria Maria Teresa Gonçalves Pereira em seu texto A Língua Portuguesa e a leitura: Convergências no ensino e na vida. A palavra é também o tempo. E foi, sim, o tempo de Marguerite Duras. “Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci” (DURAS, 1985, p. 7).

Assim, assaz, muito é o tempo e muito é a palavra. Demasiado é o tempo para Marguerite Duras, que confessa a nós um tanto-imenso de sua adolescência em O Amante, livro dos mais-mais saídos de sua verve. O tempo que revela o próprio tempo das coisas, das coisas que também são as palavras. Palavras. Como acontecimentos. O tempo que elabora e desvela a vida. O tempo que ilumina. A palavra que abarrota. Mas quem terá sido a menina amada pelo amante do livro? Seria ela mesma, a autora? A narradora duvida de seu próprio tempo enquanto ser vivo: “Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído” (DURAS, 1985, p.8).

A face destruída da menina é o retrato do tempo. Um portfólio de suas palavras. Mas que rosto é esse que tanto viu e viveu? Quem é a dona da palavra vida? “Não, aconteceu alguma coisa quando fiz dezoito anos que moldou este rosto que tenho agora. Devia acontecer durante a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus” (DURAS, 1985, p.11). O medo fala? O que fala a treva de nós mesmos? O que cala? “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha” (DURAS, 1985, p.12). Só pelo centro da vida é que contamos nossa vida? O que está no centro? Duras fala o que quer falar, quer o que vive: enredo, história, o modo como se narra a memória, a escolha das palavras que tecem o texto, sem limite, limpo, rígido, sem constrangimento, doce.

Cuidado. Pode não ser o que você pensa. “Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Hoje, muitas vezes escrever pode parecer não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso” (DURAS, 1985, p.12). Mais dúvida: escrever é nada? Quem lê não enxerga além? A leitura é uma prática que faz pensar, falar, comunicar, sentir. Quando lemos, muito além do conteúdo, estamos a observar a forma das coisas, as palavras do tempo, as disposições das frases, dos parágrafos, os demais elementos, todos, unidos, constituídos e constituintes. Para Marguerite, escrever não era nada. Escrever era tudo. Por isso, escreveu. Por isso, principalmente, viveu, amou. Suponho.

A menina do livro não responde nada. Ela antevê. Ela é prisma. Assim como a palavra de Duras, que deflagra todos os processos, que explora todas as possibilidades. “A palavra age quando encontra (quem) outra que a provoque, obrigando-a a livrar-se do conformismo, se (re)descobrindo em novos sentidos. Não há vida onde não há luta”, regozija Maria Teresa Gonçalves Pereira. Estará certa? A menina no livro luta. Ferve. O amor é um lutar, quando não um luto. Descreve. “A pele é de uma doçura suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser o corpo de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sua única virilidade é a do sexo, é muito fraco, parece estar à mercê de um insulto, parece sofrer. Ela não olha para o rosto. Não olha. Só o toca. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a novidade desconhecida. Ele geme, chora. Dominado por um amor abominável” (DURAS, 1985, p.44). Eis o amante. Eis o amor?

“Juro por minha vida que nada aconteceu, nem mesmo um beijo. Como é possível, eu digo, com um chinês, como quer que eu faça alguma coisa com um chinês, tão feio, tão raquítico?” (DURAS, 1985, p.66). Seria o amor possível assim pensado, possível? Seria o amor capaz de ir além-muros? Que tipo de amor é o ilustrado por Marguerite Duras em O Amante? Quem, afinal, ama? “O amante de Cholen perdia-se no prazer da adolescência da menina branca. Esse prazer que desfrutava todas as noites tomava todo o seu tempo, toda a sua vida” (DURAS, 1985, p.108). O que é, deveras, o amor? Explica-se? Mede-se? “Ele a abraça como abraçaria sua filha. Abraçaria a filha do mesmo modo. Brinca com o corpo da filha, faz com que se vire, cobre-lhe de beijos o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a se abandonar, seguindo a direção exata determinada por ele no começo do jogo” (DURAS, 1985, p.110).

Sentir não é uma decisão. Sentir é uma ordem. Uma ordem do instante. Se não for assim, simples, não é sentir. Necessário, faz-se, jogar-se. Banhar-se. Afundar-se. “Penso que minha vida começou a desvendar-se para mim. Penso que já começo a me conhecer, tenho já o vago desejo de morrer” (DURAS, 1985, p.113). O amor é um espanto. Rota. Amores. Sempre díspares. Quem ama? O que ama quem ama? Quantos tipos de amor existem? “O corpo do meu irmão havia morrido. A imortalidade morrera com ele. E assim caminhava o mundo agora, privado desse corpo visitado, e dessa visitante. Todos tinham errado completamente. O erro percorreu todo o universo, o escândalo” (DURAS, 1985, p.114).

Quantos tipos de amor são possíveis? “Seria preciso avisar as pessoas dessas coisas. Ensinar que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que acontece ainda. Que ela não se anuncia por si mesma, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no detalhe, mas somente no princípio. Que certas pessoas podem contê-la em si, desde que ignorem o fato. Assim também outras pessoas podem descobrir sua presença nos outros, com a condição de ignorarem seu poder. Que é enquanto se vive que a vida é imortal, enquanto ela está viva. Que a imortalidade não passa de uma questão de mais ou menos tempo, que não se trata de imortalidade, mas de outra coisa ignorada” (DURAS, 1985, p.115).

Em O Amante, livro vencedor do Prêmio Goncourt de 1984, Duras esclarece parte de uma memória extremamente particular invadida pela própria vida, que teima em violar os laços aparentemente inquebrantáveis do ser que tecem o novelo de todas as criações humanas, feitas de passos, fugas e revelações. Um livro singelo, rude, com gosto de vinho e cheiro de mar. Mar-alto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marguerite-Duras-412423150

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As coisas cegas e inteligentes de Matheus Rocha (uma entrevista)

*

Por Germano Xavier


"Quem diria que naquele espaço estéril, encardido e pálido do apartamento aquilo ia acontecer – não sei o que aconteceu, e se aconteceu. Tudo isso podia ser só invenção, mera especulação descarnada do plano físico. Mas sabia, desde já, que aquela coisa ia virar referência: ia ser tatuagem, cicatriz, mancha, massa sem fermento ou qualquer coisa que o valha. Eram os olhos abertos, a boca pronunciando e provocando, os lábios se chocando maciamente, e tudo isso se avolumando, se encorpando – condição humana. Não era amor, não é e não será. Amor desumaniza. Era o que tinha que ser. E o que podia ser?”

Impossível não citar o excerto supracitado. A autoria é do Matheus Rocha, um “caba” novo lá de Garanhuns, Pernambuco, e seu livro de estreia na literatura é o INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS (u-Carbureto, 2015). Novo de idade, o sujeito parece bem mais velho na escrita. Velho, sim, mas velho de se dizer experiente. A obra é um pequeno compêndio de “onze contos e uma narrativa mais longa”, como o próprio autor definiu na apresentação.

O retalhe posto em evidência é apenas uma demonstração da escrita madura do autor, caminhante-camarada de dois outros grandes nomes da literatura garanhuense, Mário Rodrigues, que recentemente ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2016 com o livro de contos RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO, e Hélder Herik, que levou o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014 com o livro A ARTE DE RUMINAR PALAVRAS. Tais nomes ainda se juntam ao de Dominguinhos e ao de Luís Jardim, dois fenômenos artísticos da cidade.

No trato do conteúdo do livro, o autor parece revisitar um conjunto de memórias dolorosas da vida, de uma vida, real ou não, e não se importa em nos revelar tudo com detalhes. O tom geral dos contos é de angústia. Algo parece não estar bem com as personagens e, por consequência, com o todo das narrativas. O leitor embarca, assim, numa viagem por dentro de brumas nada epifânicas. Como se Matheus não quisesse ensaios ou, como ele mesmo escreve na décima quinta página, “como se eu quisesse viabilizar uma estranheza permanente em cada linha...”.

Muito gentilmente, Matheus concedeu uma pequena entrevista a este que vos fala. Segue...


ENTREVISTA COM O AUTOR

Germano Xavier - O canal Redemunhando, do Youtube, listou uma sequência de temas ligados ao INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS, seu primeiro livro, a citar “solidão, insegurança, incerteza, morte, amor, desejo, desamor”. Do que trata o seu livro, Matheus?

Matheus Rocha – Inteligência das Coisas Cegas é um livro angustiado, sim. Pesado, inclusive. A Natasha acertou demais quando usou Back to Black, da Amy, como um eco do livro. É muito de como ele aconteceu. Foram três anos escrevendo, reescrevendo, mexendo nos contos. Eu diria que é um livro sobre dar adeus apenas com palavras – usando uma frase da própria música. É tudo isso em latência. Tá ali, às vezes explícito, às vezes implícito.

Germano Xavier - Helder Herik, escritor garanhuense, diz num vídeo-resenha no Youtube que a sua literatura provoca um “buscar”. Afinal, o que sua literatura busca?

Matheus Rocha – Não sei bem, ainda. Meus contos são muito pessoais – obviamente, a única experiência que posso ter é a minha própria e isso acaba sendo indissociável da literatura que produzo. E, geralmente, eles me tomam completamente e não dão espaço pra outras coisas. Passo semanas cozinhando histórias, convivendo com personagens até que eles se escrevam. Não paro muito pra saber ou perguntar o que busco, ou o que os contos buscam. É um processo muito vasto. Acho que essa busca é uma ressonância em quem lê. Talvez os leitores saibam mais disso do que eu.

Germano Xavier - Fale-nos de seu blog, o NA SOLIDÃO DAS VEIAS...

Matheus Rocha – O Na solidão das veias é um blog (parado, no momento) que criei pra colocar algumas impressões de leitura. Leio sempre e bastante, colocando metas de leituras mensais e anuais. Tenho pais professores, cresci rodeado de livros. Então, nada mais certo do que continuar com esse movimento. Geralmente, escrevo sobre livros que me afetam e me movem. Isso de elaborar literatura sobre literatura é um exercício interessante e importante. Hoje não tenho feito muito isso – acabo tragando todas as referências para os contos do próximo livro, e não numa coisa mais resenhista, mesmo.

Germano Xavier - No conto intitulado DUAS EPÍSTOLAS, você escreve: “Enquanto a distância for maior que o alcance das mãos, sim vou escrever”. A literatura tem alguma serventia, Matheus?

Matheus Rocha – A rigor, não. Nenhuma. E acho que isso é o mais importante, mesmo. Ela não é uma coisa que precise ter serventia. Ela é um caminho possível – que não tenho ideia da onde vai levar, isso só se sabe caminhando, mesmo.

Germano Xavier - Alberto Moravia, certa feita, disse que toda literatura é antissocial. Concorda com essa afirmação?

Matheus Rocha – Penso que sim. Escrever é algo muito solitário. Leitura também. Você tá sozinho, de cabeça baixa, lendo. Ou escrevendo. A forma como te afeta, como te move, já é outra coisa. É outro momento, já. Então, enquanto prática social, é sim terrivelmente antissocial.

Germano Xavier - Por que escreve?

Matheus Rocha – Por pura necessidade. Uma hora, é como se a literatura aprisionasse, segregasse e obrigasse à ter uma espécie bem dark e herege de vida. Pra ter o que produzir. Necessariamente, não é doloroso e nem precisa ser. Mas não é legal, não é feliz escrever e precisar disso. Eu escrevo, inclusive, por excesso. Tiro todas as referências da minha vida, mesmo. Claro, existem as homenagens que vou deixando nos textos. Apesar de transportar a sensibilidade pros contos – impregno tudo com afetos -, o texto é pensado. É possível viver o caos e escrevê-lo ao lada dessa organização estranha que chamam de razão. No fim das contas, tudo acaba sendo artifício – a própria vida, inclusive.

Germano Xavier - Como avalia as obras de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu, que parecem figurar como grandes inspirações para o seu INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS?

Matheus Rocha – O Caio F. é o meu grande amor literário. Conheci sua literatura quando tinha 15 anos. A biblioteca da escola tinha uma grande quantidade de exemplares dos Morangos Mofados. Um dia, tentando pegar um livro do Pedro Bandeira, acabou que um dos exemplares do Caio caiu na minha cabeça – literalmente. E levei pra ler. Era tão cru, tão doloroso, era tão sensível – no sentido de sentir, mesmo – que me senti completamente sugado nos contos. Ele não escreve amenidades nem essas pílulas de auto-ajuda que a gente vê nos status do Facebook ou nas fotos do Instagram. É uma literatura de desespero, de contestação, de resistência mesmo. Sempre que o leio, e leio sempre, me emociono. E escrevo. A Clarice eu conheci por conta dele. Ela era sua grande paixão literária. E acabou que aconteceu o mesmo comigo. A obra dos dois dialoga muito, embora o Caio seja muito mais apocalíptico e urbano. A bruxa Lispector tem uma obra epifânica, súbita e inexplicavelmente simples. Isso me encantou. Tudo isso tento trazer pros meus textos. E nunca escondi essas referências nos contos. São homenagens diretas e abertas aos dois. E à outros mais.

Germano Xavier - A literatura é mesmo uma forma de insurreição, como preconiza Mario Vargas Llosa?

Matheus Rocha – A partir do momento em que a gente se dá conta de que a gente vive imerso numa cultura imagética (e não necessariamente narrativa), é possível pensar na literatura como insurreição. Isso porque o que tá em jogo é ser visto. Nas redes sociais, nos eventos, e assim vai. Existem ecos disso na própria cultura literária, claro. Ainda mais num país como o Brasil, com leitores dispersos e onde prêmios formam clubinhos autorais e chancelam qualquer tipo de qualidade. Então, ler e escrever acaba sendo um ato ambíguo de resistência. Justamente por essas questões.

Germano Xavier - Fale-nos sobre o trabalho das Edições u-Carbureto e a cena lítero-cultural da cidade de Garanhuns-PE.

Matheus Rocha – A u-Carbureto começou como um jornal literário. O trio de ferro aqui da cidade - Helder Herik, Mário Rodrigues e Nivaldo Tenório – inventaram o jornal pra ter um espaço literário por aqui. Acabou que virou um pequeno selo editorial independente, onde começaram a publicar suas obras. Ganhou notoriedade no estado, pela qualidade da edição e, obviamente, da literatura produzida por aqui. Logo que me lancei nessa desventura literária, os três abriram as portas do selo e lancei por ele. O próximo, que sai ano que vem, também leva o selo em negrito. A insistência e iniciativa dos três foi um impulso importante pra quem produz literatura por aqui. Pra além, claro, da herança de Luís Jardim – indispensável leitura. Em termos de literatura, Garanhuns já mostrou o peso que tem. Helder e Paulo Gervais, recentemente, levaram o Prêmio Pernambuco de Literatura. Mário trouxe o Prêmio Sesc, um prêmio nacional – do qual ele já tinha a menção honrosa. Outro que figurou nas menções honrosas foi Wagner Marques e seu isso que escorre, uma coletânea brutal de contos. E você, Germano. Tem Fernanda Limão, uma poeta maravilhosa. Uma poesia de toque, mesmo. Alexandre Revoredo, idem. Além de poeta de mão cheia, um músico e tanto. Leo Noronha e sua Neander, um espetáculo à parte. Andrea Amorim, claro. Outra explosão maravilhosa daqui. E Marcelo Francisco, que tem uma adaptação teatral de um dos contos que mais gosto do Caio F., dama da noite. Vale demais ver. O que me incomoda profundamente, nesse cenário todo, é a cidade não dar a mínima pra todo mundo. Com todo esse peso literário, Garanhuns não tem UM festival de literatura. Apesar da cena ser bem clara e ativa, ainda existem algumas ilhas – inclusive entre quem produz arte aqui. Talvez seja ingenuidade pensar numa unificação e fortalecimento – no fundo, tá todo mundo muito só, mesmo.

Germano Xavier - Michel Temer, Donald Trump, Jair Bolsonaro... o que nos reserva o futuro, Matheus?

Matheus Rocha – Acho que não precisa ir muito pra frente pra sentir o que nos reserva. Tá tudo muito escancarado. As neuroses todas transbordando. Preparem seus punhais, amigos.



* Imagens: Google.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sigamos, bucaneiros!

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Por Germano Xavier


Veredito final para a manhã do dia 24 de novembro de 2016: 

Mestre em Letras pela Universidade de Pernambuco, minha querida UPE. Um salve ao meu orientador Dr. Elcy Luiz da Cruz, à coorientadora Dra. Amara Cristina de Barros e Silva Botelho e aos examinadores Dr. Kleyton Ricardo e Dra. Jaciara Gomes. Agradecer aos colegas de mestrado pela intensa partilha, ao coordenador do programa, professor Dr. Benedito Bezerra, a todos que fazem a UPE/Campus Garanhuns e a todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para este momento. Foram 2 anos de muitas batalhas enfrentadas e vencidas. Em mim, a certeza de que tudo vem no tempo certo, no tempo certo de cada um. Agora é olhar para frente e, com calma, trilhar caminhos para se chegar aos próximos passos dessa jornada acadêmica. Deus é grande. A literatura é a minha arma para melhorar o mundo. Sim, melhorar o mundo é possível. Sigamos, bucaneiros!



















* Imagens: Vida.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Poema-Trump

*

Por Germano Xavier



ogivas em marcha, homens
à prancha: a flor com náusea
está para (re)nascer!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Trump-Nightmare-601518563

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Os engenhos da máquina do mundo

*

Por Germano Xavier


"Atravesso a noite
lírico:
sou poêmio."

(Trecho de POEMIA, de Wilson Pereira)



Marcelo Mourão, poeta carioca, publicou em 2016 o livro de poemas MÁQUINA MUNDI. O livro é dividido em cinco partes, intituladas na seguinte sequência: A máquina do mundo ou O mundo da máquina, As engrenagens de Eros, Os mecanismos poéticos, Os engenhos de dentro e A máquina de interrogações. Todos os capítulos, por assim dizer, juntos, elaboram uma visão sobre a atualidade, sobre a realidade das relações humanas que vigoram no hoje e terminam por esboçar uma visão de mundo autêntica acerca do que se passa com o agora da humanidade.

Mourão é feliz ao escolher as palavras com que narra suas angústias e medos, pois sentidos vivos por demais expressivos podem ser visualizados desde as primeiras páginas. Beijando a face de filósofos e escritores de rara estirpe, num jogo de alusões e de referencialidades bem direcionadas, o poeta, que também é um dos idealizadores do Sarau POLEM (Poesia no Leme), retrata a doença da modernidade com olhos sinceros e ao mesmo tempo simples. O resultado é um corpo poético onde cabem várias forças orgânicas de imaginação e de existência.

MÁQUINA MUNDI é um pequeno tratado poético que intenta, ao fundo, a promoção de um senso de resistência. Resistir, convenhamos, é tão essencial hoje em dia quanto respirar. Num mundo onde a informação desinforma, onde amor desanda e agride, onde o homem decide desumanizar-se para chegar ao topo (dos nadas), onde o maior peso é o de não-ter, a poesia de Mourão escancara a certeza de que a dúvida está muito presente no ser (humano) do homem contemporâneo. O mundo, sabemos, espera já cansado um ressurgimento, um rebrotamento. A arte, esmagada pelas catástrofes diárias, inclina-se, doente, para o horizonte dos quandos.

Assaz assim, há quem comporte a absoluta resolução dentro de si acerca da função inutilitária conferida à poesia, não raras as vezes colocando-a num rol onde se despejam sandices e alumbramentos vãos. Todavia, é sendo esse acessório aparentemente “inútil” que a boa poesia revela-se tal qual um grande artefato de luta e de rebeldia. A poesia contida nos engenhos de dentro de MÁQUINA MUNDI não instaura um manual para bons comportamentos nem está a serviço da ordem da informação seca, antes se pronuncia enquanto conjunto de mensagens sobre o desconforto da vida moderna.

Inusitado, MÁQUINA MUNDI explica o inexplicável, o mundo que perdeu o rumo, o homem que naufragou nas águas do tempo, o tempo que está sem receber a corda necessária. Mourão nos faz recordar aqui as palavras de Louis Guillaume, que dizia crer “que numa sociedade a poesia não serve para nada, e nisso é que está seu valor”. Sim, a poesia, de quem quer que seja, não serve para nada nem jamais servirá. Mas é somente ela, a boa poesia - este deus-ser ilógico e sublime -, que tem a potência e a sagacidade de nos prestar para tudo.

(Oficina Editores, 2016)

* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Black-Light-81834879

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A palo seco (ou O melhor baile que não dancei)

*

Por Germano Xavier

Para Belchior, selvagem homem de corações.



A casa da minha melhor infância era grande, de vários cômodos, duas salas imensas, uma dedicada somente às esporádicas visitas. Esta, a maior, vivia sempre arrumada e com um ar solene misto de silêncio e inacessibilidade. Lembro muito bem. Meados dos anos 90, eu já entendedor das coisas, um gosto musical amadurecendo por dentro. No centro da sala, encostado à parede branca, ao lado da porta principal da casa, um imponente Gradiente 3 em 1. Entrei na sala descalço. Piso gelado de um dia bom na minha Chapada Diamantina. Toquei o botão Power. Pequenas luzes por toda a face do aparelho beliscaram com brilho o mofo do tempo. Naquele dia, minha professora de português, de nome Dalva, havia me emprestado um disco que tinha um homem bigodudo na capa. “Você vai gostar”, disse ela ao me passar o objeto.

Nessa época eu começava a esboçar, dentro e fora do ambiente escolar, um certo gosto pela leitura e pela escrita. Gosto é só um modo de falar, pois para mim era mesmo uma grande obsessão. Claro que fiquei surpreso. Do nada, a professora me emprestara um disco pessoal. Logo após o almoço, fui ter com todo aquele mistério. Mistura de curiosidade e apreensão. Levantei a tampa, posicionei o LP na pista plástica circular, ajustei a agulha, xiiii... Som! “Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos, lhe direi:/Amigo, eu me desesperava/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português”...

A música entrando na alma e meus olhos vidrados na capa, fitando a letra da canção, os detalhes, as cores, os melindres, os alcances dos sentidos que me formavam e que borbulhavam como um grande astro em fervura, arrastando-me dali em questão de segundos. “Belchior”, eu li. “Belchior”. “A palo seco”. “Que será que significa?” A música tocando. “A palo seco”. “Tenho vinte e cinco anos/De sonho e de sangue/E de América do Sul/Por força deste destino/Um tango argentino/Me vai bem melhor que um blues/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”...

Aquele canto torto, feito faca, cortando na pele, a pele que é deveras a parte mais profunda da gente, aquela voz desesperada a me revelar uma tonalidade de mundo bem mais forte da que eu suspeitava até então... “Belchior”, eu lia. “Belchior”, eu repetia aquele nome desordenadamente. A sala, naquele instante, havia sido preenchida por uma espécie de espuma invisível, que tomava conta dos quatro cantos a formar uma câmara acústica de tal modo perfeita que todos os sons imprestáveis do mundo haviam dado lugar à mensagem que aquela voz me trazia. Mensagem de rebeldia, de pertencimento, de chão, de poesia, de humanidade, de sensibilidade, de veracidade, de engrandecimento, de simplicidade. Dessa forma, e durante todo o disco, como um encontro às avessas, marcado pelo espanto alegre, escutei Belchior pela primeira vez em minha vida. E aquilo me soou como uma voz ancestral, meio mágica, meio mítica.

Dali em diante, Belchior faria parte de minhas andanças pelo mundo tal qual um oráculo sempre presente e prestes a aconselhar-me sobre minhas próprias forças individuais, sobre minha identidade, sobre meus passos. Já homem, crescido em meus pra-lá de 20 anos, estudante em terras estrangeiras, fiquei sabendo por telefone que aquele músico fantástico e tão amado por mim iria se apresentar no tradicional festejo de São João da cidade baiana de Iraquara, minha terra natal. Impossibilitado de ir vê-lo se apresentar, por inúmeros fatores, acabei escutando-o à distância, num compasso que transcendeu uma vontade irrefreável. 

Tempos depois, vi algumas fotos do Belchior no pequeno palco montado no meio da praça Péricles Gama, empunhando seu violão selvagem e sua voz forte nordestina erguida numa jaqueta jeans de grosso pano. Vi, também, que ele até posou com moradores conhecidos do lugar que me viu nascer após o show. Certo é que jamais esqueci aquelas imagens. Era Belchior sob o céu estrelado da minha Iraquara. Era uma rota aberta no meio do meu espanto. Uma trilha salpicada de dores e amores a partir de um coração rebelde fincado na história de minha própria vida. Uma estrela que não vi passar, mas que senti, a palo seco, feito fúria engolida às vésperas de toda uma particular criação, como a iluminar o canto úmido de vida que há em minhas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Belchior-251954440

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Menina a caminho

*


Por Germano Xavier

em diálogo com o conto Menina a caminho, de Raduan Nassar.



menina a caminho
sem caminho
menina sem carinho
menina sem arzinho
de menina a menina
a caminho do ventre seco
da vida, da madrugada alheia
a caminho da tarde sem seda
menina-descaminho
menina sem menina dentro
nem fora, menina com fome
de ser menina
a menina, ser, quer ser
caminho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aldeia-da-Roupa-Branca-156185887

Nada muito sobre filmes (Parte XXVIII)

*

Por Germano Xavier



THINNER

Um advogado tem muita dificuldade para emagrecer. Certo dia, é vítima de uma maldição “fatal” após atropelar uma velha cigana. A maldição? Emagrecer até a morte! Aí começa uma corrida contra o tempo. É preciso reverter a maldição. Mas, como fazer isso? THINNER é um terror dirigido por Tom Holland em 1996. O filme é baseado num conto de Stephen King, que está presente em uma das cenas do longa. Não me surpreendeu.


A VOLTA DOS MORTOS VIVOS

De 1986, dirigido por Dan O'Bannon. Um vazamento de gás, de procedência muito esquisita e causado por dois funcionários de um armazém de produtos médicos, misteriosamente faz com que os mortos de um cemitério próximo retornem à vida. O filme é muito trash. À época, deve ter sido legal de ver. Hoje, dói de tão bizarro.


OS OITO ODIADOS

Em 2016, Quentin Tarantino lançou OITO ODIADOS. Para quem viu CÃES DE ALUGUEL, vai identificar traços típicos do diretor desde as primeiras cenas. Durante uma nevasca, um carrasco, uma prisioneira, um caçador de recompensas e um xerife se confinam em um velho armazém. No local, encontram mais quatro desconhecidos que também fogem das péssimas condições climáticas do momento. Com o passar do tempo, estas oito pessoas começam a travar uma guerra particular uns com os outros, a partir da descoberta dos segredos de cada um. O resultado é um confronto que parece não ter fim. O espectador, de camarote, assiste tudo sem saber quem está certo ou quem está errado. Mais um filmaço com a marca de Tarantino. Para quem não gosta de sangue e cenas de violência, melhor nem tentar. Recomendo a todos os mortais!


STRANGER THINGS

Série criada por Matt Duffer e Ross Duffer em 2016. Nostalgia pura, anos 80, fantasia, monstros, crianças, bicicletas, aventuras, trilha sonora belíssima, mundos paralelos, referências a The Goonies (meu filme preferido da infância), Winona Ryder... enfim, podem me chamar de infantil ou de qualquer outra coisa, mas eu gostei. Gostei muito. Recomendo a todos os mortais!


BRUNA SURFISTINHA

De Marcus Baldini (2011), o drama brasileiro sobre a mocinha de família que resolve largar tudo e virar uma garota de programa consegue ser melhor que o livro em que se baseia: O doce veneno do escorpião. Sim, eu li este livro! No fim, quando você junta tudo, não sobra nada de serventia. Se ela foi feliz com tudo isso, sorte a dela. Mas o livro e o filme são dois zeros à esquerda. Bláh!


NARCOS

A segunda temporada me causou um profundo desencanto. Da primeira temporada gostei. Aprecio as narrativas, muita das quais exageradas, que envolvem o traficante colombiano Pablo Escobar. Histórias que fazem parte do ser latino-americano diante do mundo. A história de Pablo Escobar tem muito a nos ensinar, em muitos sentidos. Agora é aguardar a próxima temporada...


A BUSCA

De 2013, filme de Luciano Moura. Um casal de médicos, que não está numa relação relativamente saudável, depara-se com o fato de o único filho ter fugido de casa quando de seu aniversário de 15 anos. O pai, prestes a se separar da mãe, resolve cair no mundo em busca do filho. Ao passo em que tenta descobrir pistas sobre o menino, vai aos poucos descobrindo mais acerca de si mesmo. Um filmezinho bom.


SEVEN - OS SETE PECADOS CAPITAIS

De David Fincher (1995). Dois detetives encarregam-se de investigar um serial killer que mata as pessoas de acordo com a ordem dos sete pecados capitais. Precisando lutar contra seus próprios egos, os dois travam um embate conjugal muito perigoso até as vias de fato. Confesso que esperava mais. Sigamos, bucaneiros!



* Imagem: http://mochilaonerd.com.br/category/cinema/

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 20/05/2016
O velho lobo do mar


Le vieux loup de mer

"Que peut valoir la vie, si la première répétition de la vie est déjà la vie même ?"
(Milan Kundera, in l’INSOUTENABLE LEGERETÉ DE L’ÊTRE)


je me suis adossé à la mer plus d’une fois
et par crainte de l’inconnu, cette distance qui nous dévore
caché sous les fentes ondulantes des marées,
j’ai construit en moi le son des peurs réelles.

en partie conscient, j’ai su occulter
la bête indestructible des eaux dans les écumes.
en partie grâce à mes ruses, j’ai avorté des routes insensées
de vaillance vers les imprudences.

force est de constater que les histoires où je navigue
mes plus fortes campagnes en tant qu’homme
ont toujours été des traces jetées aux feux
et aux étoiles de l’âme.
tout se résume, donc,
jusqu’à présent (et ceci m’a sauvé la peau),
a une victorieuse carrière d’instants fugaces.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marujo-418521549