segunda-feira, 1 de abril de 2019

Nunca mais



Por Muhatu



“[…]Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado […]



Jorge Luis Borges, excerto do poema 1964





Nunca mais



64

Nunca mais

Dizem os meus irmãos na outra margem

Do enorme rio atlântico

Nunca mais o pesadelo a tortura

A ignomínia o silêncio

Nunca mais

O nome de Deus e da família em bocas vãs

O amordaçar sumário das ideias

O apagamento de homens e mulheres

A condenatória sentença da dissidência

Nunca mais

A intolerância o ódio o bestial

E sádico prazer do encarceramento

O autoritarismo falho de liderança

A pátria algemada no ardil do nacionalismo

Nunca mais

A ditadura travestida de mão disciplinadora

A opinião condicionada ao medo

A expressão do pensamento algemada

E a liberdade esbracejando para a superfície

64

Será sempre

Um sonho de Paz por Martin Luther King

As constatações proféticas e dolorosas de Borges

A Literatura e As Palavras autobiográficas de Sartre

Chilenos marchando lado a lado com Allende

Será sempre

A combate pacífico e LOVE

Na voz de Nat King Cole

Outra Garota de Ipanema

Paris em festa n’as memórias de Hemingway

Será sempre

Os Pastores da Noite de Jorge Amado

Ou Isto ou Aquilo na poesia da Cecília

Millôr Fernandes e uma revista abortada

E também Luuanda do Luandino

Será sempre

Chitty-Chitty-Bang-Bang

Nós Matámos o Cão Tinhoso

A Legião Estrangeira

E O Cavaleiro da Dinamarca

Será sempre

Mariem Mint Derwich

José Rodrigues dos Santos

Adjoua Flore Kwame

E esta esperança que vos fala.


* Imagem: https://www.deviantart.com/s0n-et-lumiere/art/street-at-night-III-105032016

sábado, 23 de março de 2019

Canovaccio



Por Germano Xavier



Tema: o antídoto do Eu

Cena: há só um escritor no auge (nada pode descrevê-lo).

Personagem: um inverno.

Observação: ou se vive na carne ou tudo é anulação.


* Imagem: https://www.deviantart.com/humpf/art/dias-assim-64253843

sábado, 16 de março de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte II)



Por Germano Xavier


reza a lenda que uma serpente,
enveredada na noite quilométrica, 
correu chão até ser o encanto das línguas.



Itá Berá, pedra que brilha, veio e se foi em silêncio,
cidade das acutilâncias e dos espantos inaugurais.

Ikan era já Muhatu, Muhatu era já Ikan.
E toda uma Terra imensa se tremia.

Os dois, doentemente contagiados pelo tumulto
das farturas, agora veriam de perto a Mãe-Noite.

Sem-igual era a estrada.

A estrada era uma longa serpente
de riquezas, fluidos, sensos, línguas

e escolhas.

Sem-igual era a estrada.

A estrada bem no centro da Mãe-Noite, além-Orobó,
era a impressão mais nítida do Corpo, do Amor, da Vida.

Muhatu era o licuri maduro, inchado de dentros,
arte-mor de todo um conflito. Muhatu era a reação.

Ikan, caído em morte póstuma, agora renascia,
criança de colo no seio do Deus-Depois.

Ikan era a serpente, e a serpente era a estrada.
Muhatu, o emblemático destino e sua larga distinção.


* Imagem: https://www.deviantart.com/cllozdemir/art/ciplak-168844490

domingo, 10 de março de 2019

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XVI)




Viana, esta carta é ditada pela saudade.

Das nossas conversas, também, mas sobretudo das pessoas que já fomos e daquelas em que nos tornaremos.

Hoje ouvi a minha voz gravada há quatro anos. É estranho, eu já não sou bem aquela pessoa, dizer aquelas palavras agora seria plagiá-la. Continuo a subscrever o que diz, mas a voz endureceu e as esperanças são outras. Vamos empurrando com a barriga até atingir os nossos objetivos, que são simples: ser feliz e ajudar outros a sê-lo também. Tudo o mais parece ser secundário. Apenas os caminhos para se chegar lá podem parecer tortuosos e cheios de armadilhas. Como é o teu?

Falámos já das nossas rotinas e do meio local em que nos movemos. Não vou retomar esses diálogos porque gosto de pôr à prova a nossa memória das circunstâncias e das emoções, mais do que dos factos em si.

Pensei há dias que não gosto de política, ou melhor, de falar de política em público. Não significa que não me interesso, pelo contrário, apenas que nada tenho a dizer de relevante tendo em conta as opiniões fundamentadas de pessoas mais informadas do que eu, de especialistas, de cidadãos atentos. Fico a pensar se é possível que o nosso mundo esteja a viver em caos apenas porque andam soltos meia dúzia de monstros. Será que nós é que os parimos? Isso seria assustador. Nós manifestamo-nos contra extremistas e tentamos fazer prevalecer os valores em que acreditamos. Mas depois vemos cidadãos comuns, que compram pão na mesma padaria que nós e cujos filhos estudam com os nossos cometerem atrocidades, matarem indiscriminadamente, comportarem-se como vândalos, sem noção clara das suas responsabilidades e do impacto das suas ações. Até onde é justificável a ira? Até onde podemos ir para mostrarmos a nossa indignação? Não deveríamos nós também, cidadãos, que tanto clamamos direitos, termos consciência das nossas responsabilidades como seres humanos? Não vou citar factos concretos, tragédias comentadas até à exaustão, até porque qualquer uma delas depressa ficaria soterrada por tantas outras que acontecem diariamente e que desviam a nossa atenção. É a banalização da violência o sentimento de impotência que se instala.

Mas eu explico porque não falo de política, porque me abstenho de comentar, a não ser em conversas íntimas como esta nossa, impublicável e secreta. Se alguém nos lesse fora deste contexto caía o Carmo e a Trindade e a ditadura do politicamente correto haveria de se divertir a esmurrar-me a consciência. Chamar-me-iam alienada, superficial e egoísta. Desatenta e indiferente. Não sou tanto, não sou nada disso, na verdade. Cresci vendo nascer um país — Angola — com convicções éticas iluminadas por uma certa moral de esquerda, ligada aos ideais que professei toda a vida, e que mais não são do que uma expressão concreta do humanismo e da fraternidade. Esse país é também meu, pois ser angolano não exclui ser-se também português, ou de qualquer outra nacionalidade; e não falo de passaportes mas de cultura e de laços históricos e familiares.




Quando esse país nasceu eu tinha onze anos e experimentei coisas que causam estranheza a outros meninos da minha idade, nos dias de hoje: participei em campanhas de vacinação, assisti a reuniões de adultos na Comissão de Bairro, onde se tentavam sanar alguns problemas prementes de um país que começava com graves dificuldades, ligadas a infraestruturas inoperantes e muitos serviços deixados ao abandono. Tudo isso me marcou, positivamente, em termos de cidadania e de civismo. Acho que o que ficou para sempre, de maneira mais absoluta, foi a solidariedade. Por isso falar de política hoje parece-me algo descabido, absurdo, está tudo muito refém da economia e de uma certa noção de segurança. Os partidos têm programas de ação e uma base ideológica débil. O voto tende a ser meramente útil — o do medo, o da incerteza — e da derradeira e desvairada desesperança. O voto significa rejeição, condenação, algo como um simples “basta”. Não sei como se pode propor aos cidadãos, ao mesmo tempo: transparência, segurança, pleno emprego, ética, combate a todas as formas de discriminação, saúde e educação tendencialmente gratuitas e universais, uma economia equilibrada. Se alguém conhecer um político ou partido capaz de responder a estes desafios com responsabilidade diga-me que eu voto, se for daqui. Tu conheces?

Cada direito tem um custo e lá vamos nós ter outra vez à questão de direitos/deveres. Sem o cumprimento dos segundos, bem podemos sonhar com os primeiros.

Mas chega de banalidades sobre um tema de que nem gosto. Eu quero é ver gente à minha volta com saúde e bem-estar e acreditando no futuro.

Por aqui escreve-se muito, cada vez mais, de forma mais orientada. Tenho o sonho de publicar literatura infantil, mas como chegar a esses leitores tão exigentes? Ilustrador eu já tenho um em mente, uma pessoa que faz desenhos fabulosos que antecipam as minhas histórias.

A poesia e o conto estão sempre na ordem do dia e penso que alguma novela poderá surgir de um conto, mas isso implicaria mais cuidados com o desenvolvimento das personagens, do cenário e da história. Rigor cirúrgico, delinear situações que se mantenham de pé. É um exercício difícil. Agora divirto-me também lendo em voz alta, procurando interiorizar histórias alheias com as quais me identifico (muito). Poesia, sobretudo. Se soubesses como é difícil. Provavelmente saberás, até pelo teu percurso como professor: como reagem os teus alunos a estas pequenas torturas?

Viana, eu tenho sempre muita coisa guardada para te contar, às vezes quando faço longas caminhadas por aí vou falando contigo internamente, tenho pena que não me possas ouvir. Pouparíamos toneladas de papel. Estas conversas — nossas — têm um certo encantamento que surpreende: por mais tempo que passe a gente arranja sempre forma de resgatar aquela palavra que falta para ligar a ponte à outra margem.

E hoje fico por aqui. Na escrita. Pois no pensamento a conversa continua meses a fio.

Um beijo cheio de amizade,
Clara


Lisboa, 16 de Dezembro de 2018


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Clara,

É também a saudade imensa. Quanto tempo sem as nossas cartas, sem as nossas conversas e diálogos? Muito. Muito já. Muito para nós que somos-sempre e perto-querer. Aqui, deste outro lado do oceano Atlântico, as coisas não vão boas nem mesmo razoáveis. Eleições findadas em 2018 e um novo (des)governo assolando tão gerais gentios e terras tupiniquins. Brasil que perdeu o prumo, o rumo, o caminho.

E você que me pergunta sobre caminhos, impossível não ligar nosso caminho ao caminho que toma a nossa nação nativa, natal terreno. Se o país vai bem, nosso caminho é mais tranquilo, podemos chegar mais longe e levar mais gente do nosso lado. Se o nosso país capenga, titubeia, ardeja e claudica, nossos passos se tornam incertos, improváveis, repletos de surpresas pelo trajeto. Ficamos à mercê do destino ou quase isso. Mas é indubitável o nosso crescimento, o nosso amadurecimento. Por mais que não percebamos em sua inteireza, o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos é algo bastante real. Vez ou outra também caio nessa de me ver refletido em alguma ação do passado e termino por elaborar comparações que, em grande parte, me alegram pelo justo fato de me enxergar evoluído perante outrora.

Infelizmente, nem todos evoluem, Clara. Alguns não se tocam e permanecem os mesmos durante anos a fio. É o caso do Mijair Bozocoiso, vulgo Jair Bolsonaro (ou simplesmente "O Mito", para os seus devotos), que assumiu a presidência do Brasil após golpes e mais golpes contra o Estado Brasileiro e contra a Democracia. Este sujeito, ratazana política e parasita congressista da mais vil espécie, representa a mais tosca forma de discurso político que já presenciei em vida aqui neste imenso país. Mentiroso, caloteiro, corrupto, hipócrita e maldoso são apenas alguns adjetivos carinhosos que posso destinar a este homem que claramente é racista, misógino, defensor da tortura e de outros muitos métodos nada humanos de convívio para com o próximo.

Ludibriando o eleitorado com um pregão baseado em clichês sobre segurança pública, moral familiar e religião, além de vomitar ódio para cima da esquerda brasileira, este sujeito incutiu em parte da população um sentimento de ódio em ebulição, principalmente voltado ao Partido dos Trabalhadores (PT), e jamais concebido anteriormente. O certo, Clara estimada, é que estamos chegando ao terceiro mês do governo atual e nada além de prejuízos à sociedade puderam ser vislumbrados até então. O povo está em último lugar se depender dele e de sua equipe, completamente despreparada, por sinal.






Também não sou muito de conversar sobre política, Clara. Você bem sabe disso. Mas as coisas estão tão evidentes aqui, e risíveis e ao mesmo tempo preocupantes, que não dá para ficar calado, por vezes. O ódio contaminou a todos. Quem tem o pensamento voltado à esquerda, como eu, sofre para ficar sem alimentar ainda mais o pandemônio que estamos vendo e vivendo a cada novo dia.

Enfim, é preciso amadurecer. Decerto que não há no mundo nenhum grande homem com todos os poderes e soluções nas mãos. Todavia, aceitar monstruosidades e bizarrices de um governo puto e cruel não é papel de alguém que sonha ver seu país caminhando para frente. Não dá para regredir. Não mesmo. Para se revoltar o verbo é também muito útil, pois.

Uma curiosidade, Clara. Você poderia me dizer um pouco de como a imagem deste presidente brasileiro atual está chegando aí em Portugal? O que dizem os noticiários, os especialistas no assunto? Já há um pensamento formado acerca de Bolsonaro? Se não quiser responder, fique à vontade. Não perca seu precioso tempo com estas minhas coisas, também, se achar prudente.

Fico imensamente feliz quando me contas sobre tuas novas e próximas aventuras no ramo literário, Clara. E fico também ansioso para que elas vinguem e consequentemente para que eu possa tomar conhecimento ainda mais real acerca de todas elas.

Veja, Clara, sou e sempre fui professor de alunos mais humildes, de uma classe econômica mais desfavorecida, apesar de minhas investidas também no ensino superior e em outras faixas educacionais. O desafio meu, antes de tudo, é fazer com que o meu aluno se interesse pelo livro, por ler livros, textos, pelo letramento em si... Grande parte chega até os meus domínios com alguma dificuldade na escrita e na leitura. Daí é preciso todo um esforço de prevenção e assistencialismo mesmo, para que depois possamos vivenciar o amadurecimento de alguns estudantes frente ao poder transformador dos livros e da leitura. E como é gratificante ver o resultado em alguns deles! É um trabalho bastante exigente, mas necessário e muito importante, onde não se pode fraquejar em momento algum. 

Também carrego alguns projetos para os próximos dias, meses, anos... vamos ver se algum conseguirá sair do papel. Até lá, seguirei com o blog e outras tratativas. 

Um beijo doce, Clara, desta Caruaru pós-carnavalesca e de clima agora mais ameno.

10 de março de 2019.



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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

* Imagens: Cristina Seixas

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A grande insurreição armada de soluços



Por Germano Xavier


A chuva resolve cair, logo hoje, sobre os batalhões de mascarados e de foliões que se formam pelas ruas. Avenidas coloridas, a água escorrendo pelos bueiros entupidos. A chuva lava esse mundo tão sem freio. Lave a alma desse povo, chuva! Lave tudo! Leve tudo de ruim pra bem longe! Menos a criança, com o cabelo encharcado, que desvia das fantasias de mãos dadas com o pai. Menos a mãe, exposta aos olhos da filha, que enxerga um pierrot branco se achegar nela e dizer nenhuma-purpurina, nenhuma-lantejoula. É assim no baile municipal, é assim na Confraria da Sucata, é assim no Andaraí, na Vila Matilde, nos blocos do sul e do norte. 

Muitos pedrolinos sem noção, muita palavra feia, muita nenhuma-comédia muito menos arte. Mas vamos todos como não devíamos. Sorrindo à toa, indo ao léu, a esmo ao ermo, aos quatro cantos dos becos, largas tendas de sabores e dissabores. Vamos, como uma grande insurreição armada de soluços. E soluçando, vai o jovem que não se aposentará, soluça a moça que não pode abortar, soluça o mendigo oficial da praça, os pedrolinos sem-respeito algum, os pedrolinos sem-educação, os pedrolinos sem-futuro nem oportunidade, as colombinas sem-direitos e desdentadas, as colombinas sem-atenção, as colombinas sem-quase-tudo nem o mínimo. Ó, Momo, que rei sou eu? Que rei sou eu, que não me canso de me cansar de tanto pandemônio!? Que rei sou eu, que não sei brincar a brincadeira vazia de tantos? Que rei sou eu, que não me engano no meio de tantos panos?

E ronca o batuque, e sangra a voz, e chora o cavaco, e essa renca de gente sem voz, para onde trota? Que arreios invisíveis são esses, meu Deus? Onde Deus agora? Deus está bêbado? Deus é a ampla massa de afônicos, deslumbrada, rica em alegria vaga? E nossos rebentos? E nossa soberania? E aquilo tudo que nos prometeram na última eleição? A carestia dessa vida, Momo! Quem é você, é você o dono de toda essa armação?!

É show. O batuque é uniforme. Assim como o aperto, os embaraços, os choques, os voleios de corpo, as apreensões. Vede que mulher linda, de seios quase nus! Vede que homenzarrão! A vida é isso, pedrolino, amigo meu? A vida é quando? Somente, e quem é quem? E quem vem? E quem virá para nos salvar no fim da linha ou no fio da navalha? É um Cristo negro, o que vem? O branco não deu jeito. Quem tá sem jeito aí, levanta a mão! É pra pular! É pra gritar! 

Suadeira e muita cerveja. Sexo por detrás do banheiro químico. Que química! Que sol! Xô, chuva! Pra bem longe de nós todos. Já chega de tanto eu me afogar em meu paletó... em nosso avental diário, em nosso macacão de firma! É a festa da carne! Tanta carne, e essas novinhas! E esse país tão bonito em impunidades. Que país lindo! É carnaval, pedrolino, amigo meu! É isso aí, o ano só está começando! Desgraças mais estão por vir. Mas o filho que eles fizeram e não vão criar juntos nascerá no fim do ano.

Fim do ano tem mais festa. Antes, ainda mais festa. Farra com o dinheiro público, vadiagens com a coisa nossa. Arlequins mais espertos que nós, pedrolinos, irão contratar mais bandas e mais praças serão enfeitadas. Bandeirolas, fitas, roupas e sapatos. Tudo brilhando e cheirando a novo. Ensaiaremos cordões, unidos, na mesma castidade de vozes, na mesma rouquidão. Vozes virgens. Gargantas imaturas. Cérebros castigados. É o coreto! A filarmônica das preces sem milagres. Ronca tudo, Momo! Bota pra ferver! Ronca o estômago com fome, ronca a dor do desespero. E haja fogos! Lançaram a nova marchinha. Estão nos empurrando, pedrolino, amigo meu. Poderemos cair. Tem nada não, não é água da chuva? É não, pedrolino. Já é lama.


* Imagem: https://www.deviantart.com/idilynn/art/Carnaval-Venitien-Annecy-2011-210545785

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte I)




Por Germano Xavier


reza a lenda que bandeirantes,
atravessados pelo desconhecido, aqui vieram
e de Falsas Minas aqui chamaram.

Itá Berá | pedra brilhante |,
casa do amor entre Ikan, o Gigante, 
e Muhatu, a Pequena.



Orobó guardada no silêncio das vontades,
cidade mística do Amor Maior.

Ikan em fuga, dependurado na lama das alienações.
Muhatu, mulher de uma longa espera.

Rios em divisa, pedras e perdas em repenso vital.
Candombás em flor, o fértil solo de Sincorá.

Muhatu é a mulher mais macia, mais forte, mais quente.
O mundo é uma impensável penetração.

O vazio das absurdas distâncias, seus vencimentos.
A certeza na nudez cálida de todas as peças do corpo.

Golpe seco.

Ikan, entre o Verbo Ancestral e o Espaço da Vida, arde.
Ikan, consciente dos assanhos.
Ikan, dizimado pelos silêncios mortos do passado.
Ikan, membro úmido deslizante.

Muhatu, pois, chão da morte mais bela.
Muhatu, esparramada na fome.
Muhatu, pintura de refundar instantes.


* Imagem: https://www.deviantart.com/silecia/art/Del-sexo-y-othros-demonios-II-139727187

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A linguagem enquanto atividade constitutiva



Por Germano Xavier


Sobre a natureza e as funções da linguagem são variadas e múltiplas as inferências e as interpretações produzidas ao longo do tempo. Aos bandos são também os (re)surgimentos de teóricos e teorias que tentam classificar e burilar este universo tão vasto do estudo linguístico. Carlos Franchi foi mais um exemplo deste embate tão frutífero quanto melidroso que é o estudo da linguagem humana. Para ele, a língua é uma atividade constitutiva cujo problema básico é o da significação, e não o da comunicação. 

A significação, para Franchi, não está somente na ordem das relações sintático-morfológicas, mas no anteparo de atos intencionais que motivam interlocutores, atos comunicativos e formas de expressão. Todos estes elementos, juntos, ajudariam a situar a linguagem como uma ferramenta de construção do pensamento, da identidade e da realidade. Para Franchi, crer que a linguagem seja somente reflexo do real é uma falha no mínimo grotesca. Antes, faz-se preciso norteá-la como um ativo construtor de referencial para as ações humanas. É a partir dela que universos inteiros de significados são fomentados. 

Sua função constitutiva, assim posto, daria à linguagem uma historicidade, já que não serviria apenas para reproduzir a natureza das coisas. Por tomar a linguagem como um cosmos recheado de complexidades, a visão constitutiva de Franchi atrela a ela uma dada reflexão filosófica, bem como uma investigação experimental e uma elaboração teórica. Os sentidos e os significados dos discursos, destarte, ganham mais importância que os objetos linguísticos propriamente ditos.

A crítica à concepção institucional da língua produzida por Saussure é apenas umas das pontas do iceberg instalado pelo pensamento de Franchi, que, também, ao passear pelas ideia de Searle, Grice, Halliday, Buhler, Chomsky, entre tantos outros, também espeta a ferida do estruturalismo americano sem ressentimentos, realizando assim um esforço visível para articular diferentes concepções funcionalistas da linguagem, jamais ignorando-as. Portanto, fica mais que evidente que para Franchi é dos modi significandi (modos possíveis de significação) que podem surgir o real entendimento das funções da línguagem. Assim, mais fácil se torna a percepção de que a linguagem é comunicação, sim, mas não somente. Ela está também a serviço da dialética e das intervenções homem-mundo-homem.

A linguagem, segundo Carlos Franchi, está para construir, está para expressar, para comunicar e para significar, especialmente. Sendo cíclica e transitória a linguagem, tais fenômenos variantes a ela ligados podem não seguir ordenamento plausível e sofrer mutações e intermitências. Todavia, enquanto atividade essencialmente criadora, a linguagem sempre operará em alta no cotidiano das civilizações e no fazer-ser da humanidade. O exercício da linguagem, afinal, é o de sempre ser provisória, espontânea, iconoclasta e transformadora. 


* Imagem: http://materiais.parabolaeditorial.com.br/linguagem-atividade

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O moderno Jorge de Lima



Por Germano Xavier



Todas as vezes em que passei pela frente da cidade alagoana de União dos Palmares, duas imagens me foram sempre recordadas. A primeira é a do líder negro Zumbi dos Palmares, refletida na vista que temos da Serra da Barriga assim que logo apontamos nas redondezas da localidade. A segunda, sem dúvidas, é a do poeta Jorge de Lima, que ali nasceu e que, mesmo passando pouco tempo (cerca de seus 7 primeiros anos de vida), carregou União dos Palmares ao longo de toda a sua obra poética. No livro POEMAS (Record, 2004), observamos um poeta muitíssimo interessado em desvendar as coisas de sua aldeia (União e o nordeste em si) para também ser desvendado, elucidado enquanto ser humano. Claro, deixando intacto aquele fio de mistério que nos cobre desde o nascimento até a nossa morte. O conjunto de poemas revela o menino que se abriu à poesia do mundo e o mundo atravessado pelos olhos do poeta visto desde o Rio Mundaú até Terra-Lavada, passando pela Serra dos Macacos e, também, pelos territórios marcados em suas novas feições mundanas ganhadas no tempo das descobertas juvenis. Poeta que atirou no peito do Parnasianismo, ceifando sua vida já por demais avançada em nossos brasis, e que revigorou o Modernismo Brasileiro, Jorge de Lima ainda é um tanto quanto desconhecido da massa leitora neste nosso já entrado século XXI. O que é uma pena, diga-se de passagem. Para este ano de 2019, é bem já de planejado uma minha ida (agora para me enveredar) até as plagas nascentes deste que é um dos nossos maiores nomes na literatura. Jorge de Lima, salve!


* Imagem: Google

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte II)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Rilke, desequilíbrio, autossabotagem e reconhecimento


Há um vício constante no mundo moderno: o de se autossabotar – termo usado para definir a criação de obstáculos os mais diversos, e que, tendo como alvos o consciente e/ou o inconsciente, busca atrapalhar a realização dos nossos maiores sonhos, de nossas metas e objetivos. Desejos estes que, por motivos vários, as pessoas sentem ou têm insegurança em vivê-los. A procrastinação é um dos piores comportamentos de autossabotagem. Transferir um projeto para um futuro próximo, sem qualquer data definida, é quase sempre o resultado de não se efetivar nada.

Não é sempre que a consciência está crente do nosso comportamento autossabotador, das nossas atitudes, tampouco de nossas frustações. Faz-se necessário ou se requer reconhecimento, de moldagem múltipla, para que seja perceptível o nosso desenvolvimento pessoal e humano. Configura-se, portanto, tal qual uma batalha constante, diária, recorrente, combatida por meio de uma enorme coragem, um enorme condicionamento mental e, sobretudo, humildade para se reconhecer as falhas.

Todos estão aptos a se declararem incapazes. É comum. Infelizmente esta decisão é exigida pelo nosso ambiente social, já que todo indivíduo é testado e cobrado excessivamente, e tão logo acaba decidindo não tentar para assim evitar frustações de um possível fracasso. Com isso, tal prática torna-se um vício, com vários dilemas em mente, do tipo “eu não posso”, “eu não consigo” ou “amanhã eu tento”.

O poeta alemão Rainer Maria Rilke, quando respondeu a Franz Xaver Kappus (as 10 cartas de Rilke ao jovem podem ser lidas no clássico Cartas a um jovem poeta), não viu nas cartas enviadas a ele os porquês literários de um aspirante a poeta/escritor, mas percebeu que, antes de mais nada, seria necessário erguer a alma daquele jovem para que ele se sentisse forte e apto o suficiente para ir adiante em seus sonhos. Fugindo aos questionamentos quase óbvios do garoto, Rilke se desvia da mera crítica e acaba fomentando um pequeno postulado sobre a vida, sobre a coragem, sobre o autoconhecimento e, por conseguinte, um curto tratado contra todas as formas de autossabotagem.

Vale enfatizar que cada um tem o seu devido valor e, assim sendo, pode acrescentar muito para si e também para os outros. Nossas diferenças são nossas riquezas. Cada ser humano pode ser totalmente suficiente para si mesmo. No entanto, leitura e/ou escuta de apenas uma frase de autoajuda não basta. E não é besteira não admitir o quão difícil é, sentir-se inábil e querer se isolar. Com ajuda e acolhimento é possível superar. Acredite.


* Imagem: https://www.deviantart.com/carmineflame/art/Portrait-288558015

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pró Irlan



Por Germano Xavier



Poeminha escrito especialmente para que os pequeninos da Professora Iudes Ferreira recitassem 
em homenagem à minha mãe, Irlan Xavier.

Evento realizado pelo Colégio Francisco de Assis (Iraquara-BA/2018).



Pró Irlan, mulher destemida,
Fez da educação a sua vida.

Casada com Carlos, mãe de Gustavo e Germano,
Uma grande mulher, um belo ser humano.

Com muito empenho e suor,
Cuidou do outro e mostrou seu valor.

Pró Irlan, professora de uma geração,
Com graça e doçura entregou seu coração.

Do José de Arimatéia ao Francisco de Assis,
Seu caminho foi ensinar o bem ao aprendiz.

Eu, tu, ele, ela, nós, todo mundo não lhe esquece.
Pró Irlan, Iraquara inteira hoje lhe agradece!

São muitos anos alimentando sonhos com amor,
Peço a todos uma salva de palmas para ela, por favor!


* Imagens: Colégio Francisco de Assis

domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte I)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Saramago, loucura e lucidez



Desde os primórdios da civilização que o povo vive em constante e, até, em desenfreada deliberação. Mutação. Porque somos assim. Porque somos isso, simplesmente. Uma espécie animal resolvida em transformações, sejam elas fisiológicas, psíquicas ou atitudinais. Cada indivíduo infere, deduz, reflete, analisa e elabora uma forma de mundo diferente, à qual sempre incidirá um tipo de dependência frente ao momento, à situação, aos privilégios e ao lugar que o indivíduo vive.

Com o decorrer do tempo e, também, diante de seu natural transcorrer, o olhar da população diante do que a cerca pode sofrer fortes mudanças de trajetória, já que reflete nos acontecimentos vivenciados durante o decurso da vida e de sentimentos porventura surgidos em meio à jornada a qual estamos dispostos a percorrer. José Saramago, por exemplo, grande referência literária em Língua Portuguesa e antena sensitiva do mundo, afirmou que estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A sensação é a de que a única coisa que importa é o triunfo do agora. A isto, Saramago chama de “A cegueira da razão”.

Muitas pessoas têm a oportunidade de sonhar, planejar e consumar seus grandes objetivos, realizar metas, reformar e refundar desejos. Outros não têm tempo para seus sonhos, tampouco oportunidades para encará-los de frente, e nesta balada desanimadora logo acabam se tornando parasitas do hábito, numa simbiose por vezes quase incurável; muitos terminam por viver sem questionar o futuro, mais precisamente sobre os seus estilos ideais de vida e as suas preferências por determinadas áreas de trabalho. Tudo acontece numa implacável mecânica, tal qual uma corrente a qual se está preso e que leva boa parte dos cidadãos para uma dimensão escura e de inoperância, onde reina o acaso e a sorte. Há muita dúvida e incerteza para com todos aqueles que almejam por um espaço próprio de identificação no mundo. Como também há pouca esperança diante daqueles que estão longe de alcançar uma felicidade maior e segura.

Entretanto, quando ainda se é criança, é relativamente comum se ensinar a ser e viver de acordo com a sua respectiva realidade. Seria este um dos motivos da crise humanitária na atual sociedade? Uma criança da periferia não pode ter o mesmo acesso às melhores escolas e universidades que uma da zona sul? É obrigação do Estado exercer o seu papel sobre a Nação, bem como, também, é papel das pessoas burlar todos os padrões impostos pela sociedade, quando tais padrões não atendem aos seus desejos mais íntimos e férteis. Mudar o pensamento e a forma de existir quando necessário fosse deveria ser regra. Com estas mudanças, o indivíduo que via um muro em sua frente pode muito bem começar a repensar e criar suas metas para a vida.

Com a luta e a união de todos, qualquer forma de desilusão tende a desaparecer do mapa, e o ato de querer mudança por todos aqueles que não têm voz também passa a ser mais presente na alma do povo. Esta revolução, tão fundamental, ocorre simplesmente com um reflexo diante de um espelho, um instante de força maior, e em seguida abre uma janela de reflexão que revela que a existência humana não é unicamente posta à prática no intuito do bem individual, mas, acima de tudo, para um bem maior e múltiplo, para a inclusão de todas as classes excluídas.

Evidente que se torna indispensável o desenvolvimento da autoconsciência, do que podemos e do que não precisamos fazer. E saber que a aparência é um aspecto meramente referendado em padronizações. E saber que muito do que ensinaram ou ensinam, na realidade, é o oposto do que toda pessoa é capaz de conseguir. Saber, principalmente, que hierarquia dos povos existe sim (o Tempo soldou-a em vis moldes), mas que a educação também existe para que ela seja quebrada, desvelada, reformulada, reorientada. Para um bem maior e múltiplo, sempre.


* Imagem: https://www.deviantart.com/vermontster/art/Hand-500722555

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ars Poetica em linguagem mista



Por Germano Xavier



Eu me pego a pensar, meio que jubiloso, desde o momento que o li pela primeira vez, em como se deu todo o processo — ou apenas os seus meandros, os mais melindrosos, que sejam! — de confecção do livro Contexturas – Quadros de Armanda Alves “ilustrados” pelos contos de Luísa Fresta, lançado em Portugal no dia 13 de maio de 2017 e fruto de uma experiência arrojada de duas artistas (Armanda na pintura e Luísa na literatura).

Antes de ler o prefácio e o texto de apresentação, como costumo fazer com toda e qualquer leitura de âmbito literário, imaginei uma história de amizade muito forte e bonita entre as duas, com passagens de apego maior e de fortalezas mútuas. Confesso que quase logrei 100 % de êxito ao pensar assim. Em conversa rápida com Luísa Fresta, “ilustradora” responsável por “contar” os quadros da Armanda no respectivo livro, a autora terminou por me revelar, resumidamente: “Decidi extrair histórias de alguns dos quadros dela (Armanda), que selecionei previamente”.

Armanda Alves é uma artista luso-angolana que adotou Portugal como morada há bastante tempo. No começo, tinha a pintura como uma espécie de passatempo, produzindo peças primeiramente para o seu deleite pessoal. Como autodidata que é na arte da pintura, vive por maquinar diariamente novas técnicas e soluções para os seus quadros, entre as quais a mera aplicação dos dedos para a realização das telas, dispensando terminantemente qualquer espécie de pincel. Já a engenheira civil formada na França, Luísa Fresta, nasceu em Portugal, porém viveu boa parte da infância e da adolescência em Angola. No ano de 2014 publicou a obra 49 Passos - Entre os Limites e o Infinito (poesia), pela Chiado Editora.

O livro é um pequeno tratado de “Ars Poetica”, ao melhor e mais útil parafraseio-molde horaciano. Uma aguda dose de poesia e magia por todos os lados e por todas as páginas e por todas as imagens. Sendo ele uma fabricação de base retórica ficcional, a junção tela-texto convence-nos a partilhar uma dada visão de mundo dual/duplicada, de “realidade” amplificada, que pode a qualquer momento ser desviada para outros espaços interpretativos, afinal de contas se trata de duas linguagens artísticas bastante diferentes. Uma revelando a outra, nas 20 unidades de imagem-conto, num intenso e eterno entrelaçar-se.


* Imagem: https://artesecontextos.com/2017/05/contexturas-luisa-fresta-armanda-alves/

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Psicotrópico, de Mateus Dourado




Mateus Dourado é um dos caras mais inteligentes com quem já tive a oportunidade de estar/conhecer em vida. Hoje é professor no município de Irecê-BA, onde morei durante três anos com meu irmão mais velho e duas primas na época do Ensino Médio. Natural desta cidade, que já foi conhecida como “A capital do Feijão”, devido ao seu forte pendor agrícola, é formado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor do e-book “Palavrar” (2014). Penso que, para Mateus, um livro de poemas tem de benzer o gesto pagão, beber a escória das verdades, vomitar purezas. Mateus Dourado, em seu compêndio digital PSICOTRÓPICO, ensina a ser impuro. Impuro, de tão cru e desnudo. Um poeta feliz em se lançar perante o mundo, diante do outro. Sem medo, sem frescura, um poeta com seus quimbas escancarados ao vento, destemida voz em amplidão. Para Mateus, um livro de poemas deve cheirar ao gosto das roceiras infâncias, ao grude dos espermas adormecidos, despejados como tiros de misericórdia nas paredes dos banheiros de solidão. A voz de Mateus Dourado é uma inteira filosofia própria. Discípulo dele mesmo e de tantos outros grandes nomes das artes, músicos, literatos, pintores e teóricos. O livro é divido em setores, com assim resolvo chamar: NO TEMPO QUE ERA SEU & OUTROS VENTRES, MARMÓREO e O OVO DO NOVO. Cada parte é uma pancada de sinceridades. Poemas escritos para serem musicados ou pintados por chicos, linikers, picassos, jimmy pages, magrittes, zecas baleiros, van goghs. Um livro de poemas deve viver. E este vive. E como vive!

Obrigado por me permitir prefaciar teu livro, mestre Mateus. 
Honra. 

Sigamos!


* Imagem:https://twitter.com/mbdourado

Bolsonaro não é preciso



Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
outro parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil



lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é 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não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso 


* Imagem: http://centrovictormeyer.org.br/voto-critico-voto-nulo/

sábado, 20 de outubro de 2018

Roupa de menina



Por Germano Xavier


para Rainer Maria Rilke, in memoriam



ingressa teu corpo
| mínimo |
nesta fábula pequeno-burguesa

e compensa a morte
vestido de vida.


* Imagem: https://www.lpm-blog.com.br/?p=22966

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

São centauros meus cavalos (Parte I)



Por Germano Xavier



Gritei, com a voz fincada para dentro, em direção ao nada. O percurso palmilhado, aberto em fendas, a estrada, a solidão. Os dias passados para o homem. As noites passadas para mim. Esvaíram-se todos e tudo, absolutamente. Nenhuma contensão perante o tempo. Tudo sublimando, sumindo, indo. Quase tudo disse adeus, acontecendo, sendo. Todo o solo se diluiu em desassossegos. Um rumor de fantasia, talvez. E este homem sou eu, apenas humano, e como é impróprio esparramar-me no terreno do tempo e começar pelos detalhes mais escabrosos da memória! Na verdade, o dia é uma lástima neste aurorar de ano. A noite, idem. Toda noite é todo dia. Eu começo nesta exata hora e não sei o que isso representa em diferenças nem em semelhanças. Somente um bando de estorninhos acuados e velozes e em fuga, caçados, aparenta-se localizável através das janelas que são os olhos do homem, do homem que sou. Os pássaros me camuflam e o resto é angústia, calamidade para dentro e para fora - para fora e para dentro de mim. Sofro feito um animal caído - desinteligente? -, declarado morto por ter meramente levantado os dedos em riste e cerrado os punhos e querido se ser em completudes, em totalidades, ainda que tomado pela inicial vontade dos caminhos. Suspeitava que fosse um homem como qualquer outro homem do mundo, mas eu não aceitava fácil. Minha condição exigia uma determinada carga de negação. Causo contado sem nenhuma exclusividade, pouco inverossímil, pouco o bastante para ser somente real. Basicamente a tímida e nefanda história de uma paciente por demais corruptível: a história da soberania do ser. Um errante, perdido em si mesmo, marcado por suspeitas e conjurações que, por vezes, nem chegaram a existir. Aquele grito ouvido naquela noite de Natal soaria mais reacionário caso não tivesse sido eu mesmo o seu produtor, se não tivesse sido eu o próprio atormentado, se não fosse eu o meu particular abisso. Eu que nunca soube quem realmente fui diante do passado, se cresci, se amei alguém, se já odiei, se tive inimigos, se conquistei posses, se serei ou se sou. Toda a negatividade das ações, gestos de um mármore gélido, inacabado, de cor furtiva, companheiro de uma densa vida de aprovações e provações que eu mesmo não sei quando começou. Tudo estava dentro daquele barulho. E quando se está diante de uma estrada que você jamais ousou percorrer, o delírio tende a ser o único combustível, refleti, tentando suavizar-me momentaneamente, esperando que a reflexão e o silêncio viessem a disfarçar a real potência daquela hora. Foi pensando assim que, naquela noite de dezembro, aquele homem, aquele homem que sou eu, conheceu a conta dos fracos.


* Imagem: Amor de centauros (1635), de Rubens (Exposto na Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa/Portugal)

São centauros meus cavalos (Parte II)



Por Germano Xavier



Havia quatro tonalidades de azul no céu da cidade, mas eram azulidões frágeis propensas à volatilidade das ordens do mundo. Certamente se esgotariam e deixariam de ser azuis no absoluto negrume da noite. Talvez tudo entrasse em ruínas numa determinada fase do dia. Nada de tão especial se não fosse, aquele, o céu da cidade de um homem possuidor de uma vida. Cidades foram feitas para matar os homens, pensei, com uma branca impressão de que algum escritor teria imortalizado a frase que eu tinha acabado de construir. Talvez um poeta, daqueles tristes, malditos... hei de me lembrar um dia. Na verdade, aquela cidade não era a minha de origem. Por dentro, sabia que nenhum homem pode possuir a sua cidade. Cidades são como mães, que nos parem e que são desgraçadamente abandonadas pelos filhos, muitas vezes antes de se tornarem adultos. Afonso sentiu que estava em falta. É quase um costume saber-se rendido a todas estas manhãs e tardes ordinárias, a todas estas ocasiões especulativas, a todos estes comentários cegos. Decerto, ele estava em falta. Sim, em espera eterna, mutilado, de músculos quase flácidos, rosto ardido numa palidez indecisa, caído numa cama gritantemente nojenta de um pernoite barato ali no centro, virando sofregamente as páginas de um livro do Puig. Depois de alguns cochilos, signo das horas escuras, resolvi fazer um último ajuste no despertador. De chofre, a figura de Helia sobrevoou meus pensamentos. Dera-me o aparelhinho barulhento no mesmo dia em que falei a ela sobre a minha decisão, neste comenos já totalmente concretizada. Ele iria partir, mais cedo ou mais tarde, mas ele iria partir. A imagem daquela mulher ainda era muito viva em sua memória, mesmo depois de tantos meses separados. Talvez abraçasse os dias com a ternura do seu colo ou tivesse o busto da Nefertite ou fosse ela a entidade própria. Um abuso de efeitos femininos, com raízes de mulher que cortavam os solos mais impenetráveis. Helia gerava vãos enormes que lhe serviam de abrigo aos seus mais escuros vazios. Tinha ela lhe cortado com a faca que havia naqueles seus olhos, tinha ela ferido o homem com as armas do desconhecido que carregamos dentro de nossas carnes. Ele a habitava, peremptoriamente, dia ante dia, resoluto, em permanente frenesi e enlevo. Aqueles lábios rubros e candentes, como tremelicariam diante do susto noticioso! Não importa o que você esteja fazendo ou para onde você esteja indo, eu quero a sua felicidade, eu quero o seu bem! Você é um desgraçado, você me desgraçou, mas eu me preocupo com a sua vida! Saiba que sentirei a sua falta, como jamais me acontecera. Um pássaro, agora, sem asas, um pássaro de longos cabelos maviosos, de uma mistura de cores fortes, balouçantes, um pássaro de mãos melindrosas, extremamente macias, finas e de uma alvura definida, um pássaro de sonhos esgotados? Seria essa a Helia de agora?, já interrompida pela possibilidade de perder-me de vista?, pensou Afonso, num ataque cambaleante que misturava ódio e resignação. Ah, eu não seria tão fundamental assim, sussurrei. Eu não seria tão fundamental assim!, repetiu o homem, exclamando em bons decibéis para o lusco-fusco que dominava aquele aposento sinistro. O despertador marcava uma hora da madrugada e tudo era apenas lembrança, um passado que ele já queria esquecer.


* Imagem: https://www.deviantart.com/ar-ka/art/In-between-lines-143132646

São centauros meus cavalos (Parte III)



Por Germano Xavier



Helia quis falar de amor quando, do quintal da casa, atirou em minha direção o que sobrou de uma velha antena parabólica. Já estava melhor, agora desbravando o local onde eu estava. Falar de amor, para ela, era falar de tudo o tanto e mais, feição das horas. O que acabava tinha de ser amor, mas poderia ser chamado de avental, ou de cabide. Talvez o nome de um país. Inglaterra, quiçá! Helia era amante, e falava sempre no total das vestes do sentimento. A parabólica não passava de um mito. A captação dos sinais era feita por um receptor interno potentíssimo. As mensagens tanto chegavam como se despediam. A calha era sempre nova. Helia quis falar de amor até na vez em que fez dos longos canudinhos de alumínio da antena parabólica a letal arma contra a estupidez. Ela seria assim, brinquedo de se quebrar. A maquininha da boneca de plástico, o motorzinho de dentro a pulsar o sangue que havia. O coração de Helia batia no giro da pá do cata-vento. Batia girando, girava de teteia. Era sempre uma carinha de alegre o semblante daquela mulher. Ela amava, assim, como o vento ama a caminhada longa e sem barreiras. Amava sem pressa, sem cor o amor de Helia, sem cera, sincera. Amar era a palavra de Helia. Amar era o verbo de Helia. Amar fazia de Helia a mulher mais bela, porque era ela o amor. O amor era Helia, era sua palavra e o seu verbo, seu verbo materializado, vivo no papel, esperando longe a ânsia de ser. Foi Helia quem descobriu que para amar basta dobrar o fio da tomada e amarrar com o aramezinho o saco de pão, que o amor é volátil como o álcool que ela trouxe do supermercado para ajudar na feitura das unhas, que para amar é preciso desligar a televisão e deixar a caixinha de fósforo do lado esquerdo do fogão, para acender na véspera do vendaval. Helia amava abrindo potes e lavando os pratos, em exercício de cozinha. O tempero do amor era o caldo do feijão verde, com cebolas tostadas, alho e um pouco de sal. O amor corado, borbulhando a incerteza das horas e o próprio estado de efemeridade que é amar... Helia pegava as facas e ia cortando as carnes, esquartejando-as. O osso ficava para os cachorros que porventura... Todo o resto não combina com o amor. Amar é cortar, lâmina afiada de aparar fagulhas. Depois, Helia era máquina de moer, pois amar é moer, é pisar na carne, amassá-la, apertá-la, comê-la. Porque Helia era mulher de pular do telhado, sem medo de cair de rosto no chão e sangrar o sangue das enfermarias... Era uma boa desgraça ela, se assim eu pudesse afirmar. Suas asas, podadas, e o seu resto?, que fosse angústia aquele findar de vivências, mesmo assim, aturdido o relacionar-se, ele alquebrado, fragmentado, em pedaços, em miúdos. Mesmo assim. Estas coisas, estes fantasmas! Era o fim. Helia não era nada daquilo. Não há o que fazer, Helia. Ele rememorava. A casa no centro, o ar abafado do quarto, a lembrança ainda viva de que era ali, naquele cômodo, janela cerrada numa eternidade de medos, o local de nidificar, em excessos, demasiados amores. A casa com dois quartos, parte da parede em verde fraco, a janela para a noite escancarada quase sempre, aquela imensidão de sentimentos, de angústias e de dores. A lembrança dirigida à casa que havia sido o galpão de toda aquela fervura de corpos, o estábulo para tantos óleos humanos brotados da pele como uma erva que nasce, desenfreada, e interfere nas sequências horárias de um tempo muito maior. A lembrança de pé, saltitando sobre a testa. A memória de Helia, Mnemosyne, como diriam os gregos, mãe das musas. Fora ela, Helia, o despertar para algo que lhe traria dor, sinônimo para um caos fabricado, o passado penetrante a ferir esperanças. Não há o que fazer!, exclamei em urros. A coitada, olhando-se no espelho ínfimo do porta-batom de branco couro sintético, pensava sozinha. Primeiro que eu não existo com você. Existir sempre me foi um troço difícil. Não quero me complicar. Ainda mais nestes tempos tão civilizatórios, civilizantes. Dividem tudo, julgam tudo, mataram Deus, nem podemos mais transcender, nós não somos nada. O dia hoje está tão bonito, sei lá, deixa. Acordei cedo e me deu uma vontade de andar por um bosque que nem sei. Pus um livro na mochila. Vou ler quando chegar em algum lugar mais calmo. Minha tristeza viajou para longe. Foi tratar de negócios importantes, talvez. Morar longe dos centros de nós mesmos, talvez aí esteja o segredo para fugir do sofrimento. Dizem que é lá no bosque bonito que também fica o inferno. O inferno nos olha todo o dia, fica na espreita. Ele é terno - e tisne não? – e nos acompanha. Hoje eu optei por conhecer o inferno, não outra coisa. Quero-o porque ele me quer. Venha de onde vier, com a máscara que preferir, mas tem de ser ele. Quero ser derrubado. É a minha doença e talvez o meu último dia aqui neste lugar. O mundo é o meu lugar. Ou não é. Sou um terminal. Tenho a doença do meu pai e a doença do meu irmão e a doença do meu tio e a doença do chofer e a doença da ama e a da prisioneira e a doença da minha mãe... Eu tenciono algo e me acho responsável. Segura esta qualquer arma com o punho forte de você fêmea e me atire uma morte rápida se preferir. Que me paralise e me invalide, que me perturbe as vistas, ou que me torne nervoso e histérico, depressivo e suicida. Meu caso está registrado no amanhã e no hoje que é o agora. Vou me submeter ao tratamento dos desregrados. Por vida, sempre sofri e não estou aguentando mais. Você, que pode até sorrir um dia, irá relatar meus traumas e vai ver como sua infância foi tão nobre e silenciosa. A cura está no bosque e o bosque é sombrio. Lá, coisas desaparecem, homens se perdem, gritos são ouvidos, lamentos e lamúrias se expandem pelo ar. E quando eu cair por terra quem vai me amparar? Sou romântico e vou morrer. Sinto que posso levar algo, penso. Poderei levar a verdade? O que realmente importa daqui? Há alguma coisa que realmente sirva, que sentirei falta quando estiver morto? O teu sorriso? E o amor? Ninguém precisa do amor? Talvez já seja noite e eu estou te falando, falando, estou apenas falando, estamos sós, com quem estou falando? Quem é este que me cerca agora? Quem é este ser que me atormenta na quase-morte? Chega de saudade, chega de pouca ciência, chega de pouca miséria. Eu espero pela desgraça plena. Apague o café, seu fogo. Feche a torneira. Encoste sua cabeça aqui. Saia daí e venha. Vem, meu bem, e me diz obrigado. Que o inferno é tão lindo, lá vou ler um poema. Você vai ficar e vou te bater na cabeça. Vou beber teu sangue, vou matar teu filho que ainda não nasceu, serei tua e você poderá voltar. Repousa aqui, estira estas pernas e vem, amor, vem que é hora, não se iluda mais, o céu só é um novo assassino. Faremos alguma pornografia, celebraremos o nojo, como quiseres, mas venha. Um banho nessa vida de festim! Corre para cá, encontro-te, e me traz, por favor, o teu medo do demônio. Helia dizendo, quase vomitando. O quarto se transformara em uma ilha, incrustada na memória ancestral dos dois, escrita nos recônditos logradouros da consciência. Um mero quarto no centro da cidade, avenida Menezes Coimbra, 312. Um quarto peninsular, ligado ao humano apenas pelo fio da incerteza e do mistério. Tola, Helia! Tola!, insisti abertamente a me autoflagelar em constantes ataques verborrágicos que, no fundo, de nada adiantavam. Deixou cair a mão esquerda na altura de um dos bolsos frontais da calça jeans, puxou um cigarro. A chama curta do isqueiro, logo a baforada inaugural perfumaria os arredores. Helia pensava, não pode ser, todo esse tempo de entrega, de devoção, de uma quase submissão total àquele canalha, e agora... E agora o sumiço, a repentina saída, estratégica?, do homem que por ela fora amado sem economias. Não suspeitava que a dor estivesse tão próxima do gozo. Não era cabível ter de conviver com a ausência, com o vago, justo ela, Helia, vinte e sete anos de espera, mulher pronta, sonhos maternais, já experiente na arte da bordadura, dois ou três conjuntos de peças infantis na estante, esperando, pois tinha de ser dele, possuir o rosto dele, a carne grossa dos lábios dele, que tanto sugou seu néctar amante. Já ele conduzia-se ao desconcerto, ajeitando sua envergadura de anjo - ou de demônio? -, para tentar voos mais distantes. Rumava para a mesma Auto-Estrada do Sul do conto de Cortázar. Ou não. Era uma tentativa, sim, e ele devia ser o camponês do Ariane, especulando sigilosamente sobre o simplório mistério de saber para onde estaria se dirigindo, flutuando deliberadamente por sobre seus delírios, solto e preso, em sandices. Minha Alétheia!, exclamava. Sua verdade, seu destino. Tão quisto era assim como o esquecimento mais puro.


* Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/Waiting-140246784

São centauros meus cavalos (Parte IV)



Por Germano Xavier



Ouvi dizer que ela estava sentindo uma angústia, uma dor muito profunda. Eu não sabia que as pessoas sentiam dor. Imaginei ser o único. Ela resolveu telefonar para mim. Uma conversa rápida, cinco minutos ininterruptos. Cinco minutos dum aconchego em minha alma. Desejou me ver. Pediu. Veio, de ônibus. Eu ainda estava por perto. Não havia sido a despedida, aquela. Sempre quis demonstrar independência. Na verdade, nunca conseguiu fugir da saia da mãe. Uma burguesa. Certamente. Eu era diferente. Havia algo de diferente em mim. Não olhou para o meu rosto. Silenciosamente, oito ou nove passos, a geladeira. Bebeu água. Sentou-se. Abriu a pequena bolsa de couro sintético e retirou de dentro uma cartela de comprimidos. Não eram comprimidos, eram cápsulas. Estava com febre, uma moleza no corpo a dominava. Eu devia ser muito diferente. Colocou o remédio na boca, bebeu um gole d'água. Baixou a cabeça. Todos estão de mau humor, pensei, até os ratos. Eu havia alugado um quartinho no meio da cidade que logo iria ser deixada para trás. O carteiro passou e deixou duas correspondências junto à porta que dá acesso ao mundo. Eram dois envelopes brancos de tamanhos diferentes. Apenas observei os remetentes, assim como os endereços deles. Achei melhor não abri-los, apesar de saber que fazer isso não implicaria em absolutamente nada. Os antigos moradores da casa onde vivi meus últimos dias atualmente não passavam de fantasmas. Assim eu imaginava. Com o passar do tempo foram chegando mais correspondências. Eram muitas, de variados tamanhos e cores. A maioria com logomarcas impressas de empresas e bancos. Fui obrigado a reservar uma parte do velho guarda-roupa para organizar as missivas. Eram muitas. Onze dias se passaram e nada dos proprietários da casa. Ficaram de vir pegar o adiantamento pelos dias que eu ficaria lá, mas. Só consegui ouvir a voz de uma mulher que naquele dia havia combinado comigo que iria deixar as chaves com a vizinha, e que eu não me preocupasse. Cada vez mais curioso, eu relutava para não cair na tentação de dar uma espiada. Foi que não suportei e decidi abrir uma. A primeira de todas que eu havia guardado. Era um envelope branco com as bordas coloridas. Rasguei o papel silenciosamente. Helia estava ao meu lado, pálida de febre. O barulho do crepitar do papel poderia assustar os fantasmas. Retirei a folha de dentro e percebi que nada havia, nenhuma palavra, nenhum desenho. Somente a brancura do papel. Abri a segunda e lá estava, apenas o branco. A terceira, a quarta, a quinta... Só o branco. Não havia nada, mas o carteiro, sempre que podia, deixava uma ou duas correspondências na porta da casa onde moro momentaneamente. Eram de variados tamanhos e cores os invólucros. E o mundo lá fora continuava a passar. Nem com evento de tamanha estranheza Helia conseguiu fazer cara de espanto. Ela continuava absorta, sentada sobre sua perdição em tons rosáceos. Há exatos sete dias desejou sair de sua casa, de seu lar, verdadeiro?, de sua cidade. O que realmente importava para ele era o fato de ter posto suas pernas em fuga, mesmo em pensamento. Tanto que idealizei, tanto que briguei comigo, que lutei. Ele tinha saído daquele lugar infernal, lugar onde tinha deixado de se ser, local onde começava a sua vida prostituída, sua parcela vendida, seus setores mercadológicos, como impressos em papel jornal. Pela primeira vez sentia aquilo dentro dele, uma energia penetrante, reveladora de suas maquinagens potentes, antes enferrujadas. Helia! Vespa sem dó, sem pena, foste tu o rumo todo de minha perdição!, regurgitou ferozmente para si mesmo, olhando para a figura desalmada da criatura feminina que pendia para um desarme total. Mulher que acabava por encadear desde a mais insignificante manifestação utópica por liberdade ao maior grau de lucidez nas ações direcionadas a si mesma. Para ela, os sonhos eram como águas de excelência, águas que se fundiam num convite desavisado, vaga-lumes ao entardecer. Ele - eu - caía em suas lanças, em seus arcos, quando dúvida, quando devaneio. Por que, Helia?, perguntava-me, inocentemente. Aquele convite irrecusável feito pelo bater de asas daquela mulher, agora ex-amante, ex-amor, ex-mulher-mais-linda-do-seu-mundo, ex-tudo, sem pressa de se chegar ao fim, tão vagos eram aqueles passos, os dela, sutis, resumidos de direito numa incandescência mágica. Havia pedido que ficasse, que por favor não fosse embora, com uns olhos que prejudicavam as mais rudes emoções. Ele sabia que o passado era uma usina, uma usina que fervia. A madrugada, cindida, teimava.


Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/The-runner-139501905

São centauros meus cavalos (Parte V)



Por Germano Xavier



Corria a noventa quilômetros por hora entre automóveis espantados que o deixavam ainda mais solitário e opaco. E novamente a imagem daquela mulher, agora reluzindo na parte superior do pequeno espelho retrovisor em forma de gota, ali, ao seu lado. Todos os fogos acesos em sua parcela anímica, todas as combustões internas a queimar e colorir de um tisne imperfeito sua pele, seu cenho. Seus pulmões arfavam, desconfiados da veracidade do instante. Aprofundava o pé no duro acelerador daquele castigado possante, depositando todo o peso do medo, toda a carga de suas subjetivações, tal qual um paladino montado num corcel que galopasse desejos, que resfolegasse passados. Ela apareceu, assim, quando ele menos esperava. Apareceu mudando tudo ou quase tudo de lugar e sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração. Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados. Helia era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de tão entusiasmante conhecimento. Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era o meu coração, e só o meu. Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados. Eu tinha de escolher. Ela estava a me esperar, sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite. Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o corpo dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez. Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Helia, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante. Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei. Foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades. Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até Helia, em seu vestido cinza com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas. Ah, Helia, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que naquela agora me imprimia! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Helia, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração... meu coração bonito! Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, abarrotando-me de luas, emplumando-me de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo dos vendavais. Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas... como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas. Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pelos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo aquele líquido signo da brancura da nossa hora. Insuspeitosas foram as ânsias iniciais. O conhecimento distante, nosso e arraigado e eterno. Você me trazia os adobes e eu elevava nosso castelo, de vime o amor, torto em se querer direito. Aligeiradamente, como dona de minha fazenda, cercou-me de tuas fronteiras indispensáveis lá pela noite de teu sorriso. É do conhecimento de ti, mulher, o fermento que extravasava o líquido que tenho cá dentro - o não da máscara de se ser fantoche sagrado. Os deuses, se é que eles existem, vinham narcisos a nos olhar em súbito frenesi. E bebiam do nosso vinho. E sucumbiam diante de nossas virtudes. E invejaram do nosso amor austral, sem freios e sem obviedades, natural, humano, como deve ser o puro amor. E quando me surgias, assim, a poucos metros de minha mão, cálida, suave em se deixar ao enlevo maior do mundo, encarnava eu a canção do sequioso encontro, a música da necessidade de ser aquilo que queríamos ser, em qualquer instante, em baile, naquele nosso espaço azul. Dançamos nosso tango-corpo, o primeiro de muitos, porquanto desejamos, porquanto vivemos, únicos, coadunados. Embriagamo-nos, deitados sobre a nuvem de nossos planos, embriagamo-nos apaixonadamente, embriagamo-nos loucamente... como num sonho rebelde e jovem e real. Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Helia!, quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom. Ah, Helia, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que fosse o meu. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade. Você me amou, Helia, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro. Meu coração, Helia, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora à língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Helia, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Helia, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Helia, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Helia, toda, pois são centauros meus cavalos. Sentiu-se surpreendido por um toque de afirmação que, bem de leve, lançava-o a um entranhado estado de soluços que lhe cercavam todo o corpo de prazer. Seguiria, veloz e um tanto quanto esfuziante, por pelo menos dois quartos daquela madrugada, espalhado pelas divagações que ele mesmo houvera edificado. Uma estrada escura, completamente escura, deficiente em sinalização, margeada por uma gramínea rasteira de um tom que, àquela hora da noite, parecia desbotado e próximo de um cinza dissoluto. Grandes roçados desapareciam com a mesma volúpia que em seus flancos surgiam. Por vezes, um ou outro animal silvestre que atravessava a pista alertava-o sobre a existência de vidas, mormente sobre a sua. Duas ou três raposas, sob os auspícios da lua, alguns répteis rastejando e buscando as presas, almejando abocanhá-las, feri-las, devorá-las gananciosamente... tudo por ele passava. E aquela vida de fuga marchando, marcada por curtos silvos esporádicos que tocavam o oceano de seus ouvidos, reprimindo-o de certa forma, impedindo-o de rumar livre, com o sentimento curioso de poder ir sem restrições alguma, em despejo de potência máxima, sem freios nem travos, apenas sentindo o repentino impulso de um vento estranho e agradável içando aquelas suas asas podadas, aquele seu resto.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/around-the-streetmarket-1-167897271