domingo, 29 de janeiro de 2023

PASSEIO PELAS RUAS DE MIM (E DE OUTROS), de Mailson Furtado


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro "Passeio pelas ruas de mim (e de outros)", do poeta Mailson Furtado. Fique atento!

#passeiopelasruasdemim #mailsonfurtado #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Bolsonaro é fascista?


 Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Acho que muitos de vocês já ouviram falar no Henry Bugalho. Li recentemente um ensaio rápido dele, intitulado de BOLSONARO E O FASCISMO. Creio que faz parte de uma série de textos chamada de LEITURAS RÁPIDAS e que é disponibilizada de forma gratuita para leitura via aparelho Kindle. O texto é de caráter didático, filosófico, bem fácil de se ler e bastante esclarecedor, sem deixar de ser crítico. O autor inicia seu percurso narrativo tentando explicar as origens do termo “fascista”. Para isso, retoma preceitos estabelecidos em textos produzidos por George Orwell, entre outros nomes fortes do pensamento mundial.

Há também a preocupação em situar o brotamento e a expansão do uso do termo “fascista” no seio da sociedade brasileira. "Esse uso irrestrito serviu para esvaziar e empobrecer o debate, e mais confunde do que esclarece. Um dos dilemas decorrentes disso é justamente a ideia de que, ao se munir de maneira incorreta e exagerada de um termo forte e específico como “fascista”, atribuindo-o a todo e qualquer opositor político, será que, quando nos vermos confrontados com um fascista real, seremos capazes de reconhecê-lo? E, mais até do que isto, alguém prestará atenção às nossas advertências?", questiona Bugalho logo nas primeiras linhas.

É quando o Bugalho entra mais intimamente na figura do ex-presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Mais precisamente nele e em sua visível atividade fascista ao longo de sua história política desempenhada no país. Enfim, Bolsonaro é mesmo um fascista? Partindo desse questionamento – de resposta óbvia, considero -, Bugalho inicia o processo de cavoucamento e explicação para diante da resposta pungente, deixar que o leitor responda por si próprio.

Todavia, o que é mesmo o FASCISMO? O que fazer para se reconhecer um FASCISTA? "E essa, por si só, é outra questão problemática, posto que o fascismo, por ser um movimento nacionalista, possuía suas particularidades em cada nação na qual floresceu. Os fascistas italianos não defendiam as exatas mesmas noções ou propostas dos alemães nazistas, ou dos falangistas na Espanha ou do movimento integralista brasileiro, só para citarmos alguns casos." Bugalho, como se lê na citação supracitada, atenta em seu texto para as múltiplas facetas que o termo adquiriu ao longo do tempo e em diferentes regiões do mundo. Para tanto, considera que a maior parcela dos atuais estudiosos do tema utiliza como pressuposto inicial a definição proposta por Roger Griffin, em 1993, que diz: “Fascismo é um tipo de ideologia política cuja essência mítica em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.”

Assim posto, em seu ensaio, Bugalho segue afirmando que "Nessa definição de Griffin, estão presentes todos os elementos necessários para a compreensão do fenômeno político do fascismo: o nacionalismo, o populismo e o renascimento mítico desse espírito nacional". E continua, ao longo do material, colocando em debate as várias acepções e os inúmeros entendimentos acerca de tão nefasto conceito. Robert O. Paxton, Federico Finchelstein e Jason Stanley foram alguns dos autores utilizados por Bugalho para a construção do seu ensaio. Como disse, Bugalho deixa a conclusão em aberto. Evidentemente que a resposta é simples. Mas é sempre bom buscar o conhecimento das coisas de maneira cada vez mais ampla. Como texto de adentramento ao assunto, funciona bem. Enfim, fascista ou não, o certo é que Bolsonaro nunca mais.

 

* Imagem:  https://www.amazon.com.br/Bolsonaro-Fascismo-Henry-Bugalho-ebook/dp/B09ZTCFZYY

domingo, 8 de janeiro de 2023

RUA DA PADARIA, de Bruna Beber


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Rua da Padaria, da escritora, poeta e tradutora Bruna Beber. Fique atento! #ruadapadaria #brunabeber #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Sobre O RAIO QUE ME PARTIU, de Neuma Rozendo


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Do mundo eu sou e sei que o mundo é um moinho. O mundo gira a roda da vida sem dó e na maior parte das vezes nos parece moer. O mundo é um imenso moedor. A vida, idem. A vida não amolece para ninguém - ou melhor, para quase ninguém. A vida é quase sempre injusta, ou justa demais. O mundo é feito de pessoas. A vida é feita de e com pessoas. Todavia, nem toda pessoa é humana. Nem toda gente é gente, entende? Tem gente que é monstro mesmo. Tem gente que é demônio mesmo. Tem gente que torce e retorce a alma de uma pessoa, que tritura, que atropela, que desordena, que faz sangrar. Tem gente que faz isso e pronto. Tem gente que não tem um pedaço sequer de compaixão por dentro, nem por fora. Tem gente que é só por fora e nunca por dentro.

Sendo o mundo assim, justo e injusto, é plausível pensar que, infelizmente, estaremos para sempre rodeados pela violência. A violência humana é a mais violenta das violências. E violar uma pessoa, uma pessoa que é humana, é profundamente estarrecedor. Só sabe, de verdade, quem sofre a violenta violência humana desumana. Só sabe, ao certo, quem foi moído ou moída, quem sucumbiu e quem foi ao abisso num rompante, quem não teve tempo nem de gritar por socorro ou quem não teve a chance de vociferar na hora da agonia dilacerante. Triste é o mundo, sim. Triste é o nosso mundo, constituído de tudo isso que nos envergonha e nos revolta e que nos abocanha.

O livro de estreia da escritora pernambucana Neuma Rozendo, intitulado de O RAIO QUE ME PARTIU (Multifoco, 2022), versa sobre violentos e diversos atravessamentos de corpo e de alma que modificaram para sempre a história e a trajetória de vida de diversas mulheres ou, simplesmente, da Mulher que existe em cada mulher - assim mesmo, com M maiúsculo. Um livro sobre mulheres partidas ao meio, esquartejadas em golpes definidores e indefinidores de destinos - o que é mesmo um destino? A obra traz em seu miolo curtos textos em forma de contos/crônicas que fazem com que o leitor seja parte da dor impressa nas 88 densas e pesadas páginas do livro.

É um livro sobre sobrevivências múltiplas e unas e únicas e dolorosas e sobre partidas e sobre quebras e sobre quedas e sobre redemoinhos e sobre tantas outras coisas. Conhecendo a autora como a conheço, posso admitir que o livro é composto por verdades mais que sinceras, sentidas, vividas, vivenciadas, choradas, verdades rudimentares e memoriais, verdades ancestrais. O RAIO QUE ME PARTIU me partiu ao meio, me deixou aberto com uma tremenda ferida exposta aos ventos. Não é um livro como outro qualquer. As camadas de ficção nele tingidas são meros detalhes do fazer literário da talentosa autora. O que está em jogo é própria vida, maltratada e incontrolável. A vida em perigo, em constante perigo.

O primeiro livro de Neuma Rozendo é, também, um retrato agudo do descaso com que o mundo e, em especial, o Brasil, trata o ser mulher na sociedade. Um recorte fixo e etéreo sobre a barra que é ser mulher dentro de todas as violências e violações possíveis e impossíveis, pensadas e impensáveis. O primeiro livro de Neuma Rozendo é um grave acerto de contas com o passado e com a vida que ainda temos de viver, nós todos, sim, homens e mulheres, imiscuídos ou não a monstros e demônios humanos desumanos. O primeiro livro de Neuma Rozendo é, por fim, arma contra a obsolescência de nossas formas mais rebeldes, contrárias a quaisquer desmandos e violências cometidas a outrem. Um recado duríssimo a nos dizer, em voz alta, que é preciso estarmos atentos e fortes, atentos e fortes, atentos e fortes...


Considere lê-lo. 


Imagem: https://editoramultifoco.com.br/loja/product/o-raio-que-me-partiu/

CONTATOS NA CHAPADA DIAMANTINA, de Adolfino Alves Pereira Neto


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contatos na Chapada Diamantina, do escritor Adolfino Alves Pereira Neto. Na introdução do vídeo, acompanhe a psicóloga Angélica Carem em mais uma importante participação aqui no canal. Fique atento!

#adolfinoalves #contatosnachapadadiamantina #eventossobrenaturais #canalliterário #oequadordascoisas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A casa dos poemas regidos à óleo e torque


Por Germano Xavier


CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Livro de poemas, um petardo diferenciado no rol do que já li. Um estudo poético sobre a maquinaria do mundo, com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada. Repito: um petardo diferenciado no rol dos livros que já li, e olha que não foram poucos até aqui, no auge de meus 38 anos de idade e - bota aí... - uns 25 de amor à literatura, em especial à poesia.

Livro de capa preta. Livro de tarja assim também. Ele remedeia, ele escancara, ele previne um cancro maior, ou melhor, uma pane sem solução. Previne o caos com câncer da atualidade, já que o sistema já está instalado de tal maneira a nos sufocar os caminhares - um prevenção do olhar, sim. Aí está: o componente zero da poética de Guarnieri neste livro é talvez um olhar absurdado através da fumaça das chaminés das fábricas, um olhar alterado sobre o barulho das maquinarias e de seus pontos de ferrugem, um músculo retesado diante da ameaça de domínio intercontinental por meio desses lestrigões da modernidade.

Luminária acesa, o poeta opera todos os botões antes da decisão que fataliza uma produção de opinião: o homem sabe que sabe. Duas válvulas de neurose na mente aturdida do homem mecânico mundial. Discos rígidos da memória para um backup urgentíssimo acerca do que fomos antes da invenção de tantas quinquilharias eletro-hidráulicas e etc. Três engrenagens atormentadas pela ínfima certeza de um dia a falha geral descambar na realidade. Quatro motores ligados rompendo a ânsia pelo capital monopolizado de agora e de sempre e de até quando? Poemas com cinco cilindros justapostos batendo sob um virabrequim de máculas e enjoos. A humanidade está pulsando em prol de uma robotização satânica que disfarça bem o mal. Onze rebites cravados na alma do ser, na alma do não-ser, na alma do sim e do não.

O que ainda pode uma máquina de datilografia num mundo de computadores megavelozes?

Na alameda industrial, o poeta saca o módulo inaugural, a pedra filosofal que rompe a inércia da vida transmoderna. A casa das máquinas somos nós. Casa e máquina, nós. Seres de neon, brilhantes, efervescentes entidades fabricadas para o uso, minerados com as dragas drágeas da dor escorrida pelas esteiras de metal e borracha. Qual a bitola certa para a mesquinhez da vida que levamos? Por que não atritamos mais diante das desventuras que nos abalam? Perdemos força? Perdemos?

Catálise pesada é a angústia de nascer e morrer na repetição, encantados pela música do trabalho a entorpecer até o mais rude ouvido. Poemas para uma marcha, para um batalhão desgovernado e alinhado aos mesmos conflitos diários de monotonia. Roupa suja de graxa, almoço frio, líquidos que entram goela adentro para lubrificar os pistões nossos de cada dia, dai-nos hoje um instante qualquer de inatividade!

- Não, diz a Máquina-Mor!

Tipos impressos em prensa desalinhada somos nós, seres humanos maquináveis, manobrados por outros seres humanos maquináveis. Cosmogonia sonora das turbinas que defloram infâncias, adolescências e jovialidades ingênuas.

- Vamos dormir que o cabeçote não aguenta! Vamos dormir que o século XX já veio!

CASA DAS MÁQUINAS é um livro de poemas escritos com o peso da poluição e com o medo do acidente central, que pode fazer com que tudo estanque no meio do caminho. Guarnieri escreveu não um livro com poesia, mas antes um livro que despoetiza o falso brilho dos cromos, um livro que atiça mais a gofada nebulosa dos escapamentos de enxofre e que nos torna tóxicos e pecadores pelo simples fato de permitirmos a existência supervalorizada de tais máquinas animadas e sem coração.

CONTOS DA ARÁBIA: O CAMPONÊS, O REI E O SHEIK, de Amina Shah


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contos da Arábia: O Camponês, o Rei e o Sheik, da escritora escocesa Amina Shah. Fique atento!

#aminashah #contosdaarábia #ocamponêsoreieosheik #canalliterário #oequadordascoisas

O claro mundo literário de Thiago Medeiros



Por Germano Xavier



“Sem medo do medíocre, do ridículo, do grotesco. Nada é medíocre,
nada é ridículo, nada é grotesco no instante inicial da criação. 
Na gênese. Sem policiamento, sem censuras”.

(Raimundo Carrero, in Os segredos da ficção - CEPE, 2017)



Antes de começar a escrever estas linhas, ponho pra tocar o CD 4 da coleção The World’s Greatest Symphonies (The Intense Media). I Adagio. Allegro non tropo. Peter I. Tchaikovsky (1840 – 1893). Não estranhe, caro leitor, foi necessário. Foi preciso para refazer os ânimos depois de ler e reler o livro CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA (Patuá, 2018), do pernambucano Thiago Medeiros. O livro de contos em questão não permite que o leitor tenha qualquer rompante barato de engraçamento ou que se cogite a possibilidade de imaginar-se capacitado a viver as coisas da vida simplesmente pela metade. O discurso das personagens não é partido. A força do texto é em bloco maciço, é um inteiro.

A linguagem, por ser universal, assim como a poesia, é inelutável. A linguagem no livro de Thiago Medeiros avisa: ATENÇÃO, NÃO VAI SER LEVE! A linguagem, quando assim ela se dá, não se pode apagar. A vida, também não. A vida, tal qual a linguagem, é inelutável. Senão, óbvio!, não seria vida, não seria experiência, não seria travessia. Seria morte. E morte é o oposto. Pense comigo: não é perfeitamente compreensível que vivamos pela metade. É um golpe duro na existência de cada um que, dessa maneira, assim resolva transitar pelo mundo. São tantas as possibilidades a usufruir, os caminhos a picar, os destinos a seguir. O fenômeno da linguagem, por refletir a multiplicidade do viver, e das nossas vidas, compartilhadas ou não, sempre se expande quando em contato com outros extratos fundamentais do arcabouço semântico-discursivo das artes ou das práticas sociais. CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA consegue tal feito. O livro é um conjunto de perspectivas que se desdobra aos olhos de quem lê, que se afirma vário, que planta outras sementes de interpretação ao menor senso. E aí já se deu a amplidão. A literatura.

E literatura é linguagem fornida, bem temperada. Roman Jakobson, no seu O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, texto deflagrado em uma conferência ocorrida na cidade de Lisboa no ano de 1972, já atentava para tais movimentos da linguagem. Mas, por que razão endereço esta resenha a falar de linguagem sob este ponto de vista? Respondo, de pronto: é porque em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, estreia do escritor caruaruense e idealizador do Letras em Barro, circuito de eventos literários que movimenta a região do agreste meridional pernambucano, estamos diante de um livro que revolve, burilando, as funções semióticas que maquinam o fenômeno linguístico de grave e potencial perturbação.

Os contos do livro, que parecem seguir um agudo fluxo único, até em termos de personagens e sucessão dos fatos, trabalham com temáticas bastante variadas, porém muito complexas, vastas e/ou insólitas. É possível perceber o trato para com a profanação do sagrado, as ressonâncias da velhice, os impedimentos e os impérios da doença, a consagração e a conflagração da infância, as descobertas de envolvimento e de cunho sexual, o riso e a ironia vistos como respostas ao mal, o mal do medo, o medo do medo, desembocando, enfim, e completamente, no desvelamento de uma linguagem feita de quase-acertos - a não completude, aqui, a falta de algo que encerre um outro algo, pode ou deve ser vista como um ponto positivo.

Sobre esta incompletude e sobre a busca incessante do autor por um assunto que lhe erga do solo e que lhe retire o conforto da mente, Raimundo Carrero vai dizer que “escrever é preencher furos, criando armadilhas e seduzindo o leitor, assim como quem borda um tapete. Na talagarça limpa, os furos vão sendo fechados pela agulha e pela linha que completam o desenho. Ou seja, o escritor precisa revelar – ou não – situações que ainda não estão objetivadas no texto”. Thiago Medeiros, filho de uma terra de bons costureiros, deu provas mais do que cabais, já neste seu primeiro rebento, de que é um talentoso alfaiate das palavras em prosa.


ENTREVISTA COM O AUTOR


Germano Xavier - O que há para ser desvelado em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, Thiago?

Thiago Medeiros - Essa é a pergunta que gostaria que meus leitores respondessem. Confesso que não sei ao certo, mas o que move meu trabalho são meus questionamentos ao longo da vida, principalmente a questão da memória e a forma que certas lembranças e vivências podem nos influenciar. Raimundo Carrero costuma dizer que toda obra literária é um pedido de socorro lançado numa garrafa ao mar, e eu concordo plenamente com essa opinião, embora não seja exatamente um pedido de socorro por parte do autor/narrador em si. A verdadeira matéria-prima de qualquer obra de arte é a miséria humana, sendo ela trabalhada através de qualquer meio - ironia, tragédia, humor, o belo, o feio - sempre será a miséria humana o fato gerador. Logo, partindo desta premissa, na garrafa não vai um pedido de socorro de um indivíduo, mas de toda a humanidade, e as dificuldades em relacionar todo um mundo próprio com diversos mundos alheios. Os personagens de "Claro é o mundo à minha volta" estão diante de grandes descobertas - a própria identidade, o luto, a sexualidade, a certeza de finitude -, e estas descobertas, por tantas vezes, encontram uma barreira difícil de vencer, que são os outros. E, sim, sou muito influenciado pela filosofia existencialista, que surgiu num momento bem peculiar da minha vida, e até hoje molda minha maneira de encarar o mundo. Então, o que se desvela neste livro é essa busca por certezas que talvez sejam inexistentes.

Germano Xavier – Você busca. Todo autor busca algo. Seus personagens buscam. Alguns poetas, por exemplo, buscam o poema perfeito ou simplesmente uma obra que ajude a completar o que Elias Canetti chamou de “Poesia Una da vida”. De acordo com Roman Jakobson, em O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, a poesia é o domínio mais criador da linguagem. Tendo a palavra “verso” a mesma raiz da palavra “prosa” (provorsa/proversa), eu lhe pergunto: você já sente a sua prosa criar uma linguagem própria a partir de CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA ou será preciso um pouco mais de tempo para que esta percepção lhe seja mais óbvia? E sobre o processo criativo do livro, fale-nos um pouco a respeito, por favor.

Thiago Medeiros - Espero não encontrar nunca uma linguagem própria, creio que me levaria ao conformismo. Quem tem estilo é personagem, não o autor. Este deve se preocupar com a pulsação narrativa compatível com cada texto escrito. Claro que há textos que você identifica logo o escritor, mas há nuances em cada trabalho que vão para além do próprio enredo, então não dá para afirmar que exista uma espécie de molde. Arte é o grande espaço da anarquia humana. Não há poderes constituídos que possam limitá-la, bem como cada nova tentativa de criação deve ser movida pelo caos, sem saber aonde vamos parar. Ainda que arte seja um ofício como outro qualquer, envolvendo disciplina para mantê-la, é o caos que nos move.

Boa parte deste livro foi escrita entre fevereiro e setembro deste ano, apenas dois contos são anteriores - "Sal. Tangos, boleros e outras despedidas" e "A Paz na bandeja de Ágata" -, que foi justamente o período depois do meu pedido de demissão do Banco do Brasil - trabalhei lá por catorze anos e aderi a um plano de demissão voluntária para me dedicar integralmente à literatura. A origem de todos os contos vem do meu dia-a-dia, das histórias que ouço nas ruas. Gosto de boemia, o ambiente dos bares, feiras livres, são lugares que tudo pode acontecer. Então, por exemplo, as histórias que se entrelaçam de "Amargo xilofone para suicidas" e "Os teus retalhos eu guardei" foram de casos que ouvi, realmente conheci um senhor que foi tirar fotos da exumação dos ossos do filho aguardando ver os insetos. Há uma espécie de possibilidade de imortalidade do indivíduo através da arte, é tanto que um dos meus livros preferidos é "Memórias de um Caçador", de Turgueniev. A narrativa é quase sempre a mesma, o autor sai para caçar, encontra alguém com quem começa uma conversa, e esses estranhos passam a narrar detalhes das suas vidas. É universal demais. Poderia acontecer num ponto de ônibus qualquer. E todos aqueles indivíduos tiveram um detalhe incrível de suas vidas imortalizado. É isso que compõe minha forma de trabalhar.

Germano Xavier – Rainer Maria Rilke, em seu clássico CARTAS A UM JOVEM POETA, escreveu: “Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados”. Decerto, é sabível que a crítica literária passou por diversas “revoluções” nos últimos séculos. Para você, Thiago, qual o papel da crítica literária para a literatura contemporânea brasileira? O que você pensa sobre o fenômeno atrelado aos YouTubers?

Thiago Medeiros - Minha experiência com a crítica é muito pouca. Numa visão, até romanceada da coisa, imagino que o papel da crítica, ao menos deveria ser, apontar caminhos para a melhora da produção nacional, e não buscar erigir novos cânones, muito menos delinear tendências, o que corre o risco da padronização da escrita. Ninguém deve se preocupar tanto com o papel da crítica - embora seja difícil, é verdade. Sem acreditar no próprio trabalho ninguém vai a lugar nenhum, de bancários a pedreiros, garis e escritores.

O YouTube é uma ferramenta revolucionária, pode ser utilizada para muita coisa boa. Sim, é verdade que vai ter muita bobagem no meio, mas o problema de certos tipos de materiais serem oferecidos, e bem recebidos pela população, não é culpa de quem o faz, estaria num plano muito mais macro. Então cabe a quem realmente deseja produzir arte, cultura de qualidade, se apropriar também desses espaços de fala. Não podemos viver isolados, cultivando a nostalgia cult de coisas do passado - e isso afirmo na condição de colecionador de vinis e livros. As redes sociais estão aí, isso é um fato consumado, então temos que nos adaptar e produzir bom material. Tenho tentado fazer isso com o Letras em Barro, mas sou uma verdadeira negação com tecnologias, logo isso me deixa dependente demais em formar equipes, buscar pessoas que queiram participar das minhas megalomanias. Mas, planos eu tenho, e logo começarão a se concretizar.

Germano Xavier – Thiago, você participou por 3 anos de uma oficina literária ministrada por Raimundo Carrero na capital Recife. Qual a relevância deste momento para o seu amadurecimento enquanto escritor? Em Pernambuco, a Fundarpe e a Editora Cepe realizam anualmente algumas premiações de cunho regional e nacional em se tratando de arte literária. Você vê os prêmios literários com bons olhos para a legitimação do fazer literário? E qual a sua perspectiva para o futuro com relação à cena literária pernambucana, mais especificadamente a do interior do Estado?

Thiago Medeiros - Morria de medo de oficinas literárias. Pensava que ia entrar numa espécie de linha de produção fordista para escritores. Até que uma amiga me sugeriu o óbvio. Vá, se não gostar, não vá mais. Já conhecia o trabalho de Carrero, então também fui atraído pela chance de conhecer um ídolo. No final a oficina foi uma grande surpresa. É um espaço muito democrático, Carrero respeita demais o trabalho de cada um. É um lugar que você descobre que não está sozinho no mundo, há outros na mesma peleja que você. Sem contar que você vai mostrar seu trabalho a uma plateia de, geralmente, leitores experimentados, então já é uma boa prova de fogo. Logo, costumo dizer que uma boa oficina é uma boa pedida para quem puder - não chegaria a dizer essencial, mas ajuda bastante.

Prêmios literários são uma maravilha para a divulgação de novos nomes. Não chegaria a dizer que legitima o fazer, porque há uma limitação de premiados. Imagine um concurso tipo o SESC, que apenas um nome entre quinhentos ou mais é premiado. E os outros, não eram bons? Com certeza tinha muita gente com um bom trabalho ali. É um grande incentivo ganhar um prêmio, mas o prêmio também, por si só, já estimula a escrita. É um formato que deve ser cada vez mais incentivado.

Creio que há uma cena em efervescência forte no Agreste. A começar por Caruaru, com nomes que em breve despontarão nacionalmente - com a barba nesse tamanho me permito ao dom das profecias. Nay Harrison, por exemplo, tem apenas vinte e dois anos, escreve feito uma orixá entronada, digo sempre que o futuro da poesia pernambucana passa obrigatoriamente por ela. A força de Joana Figueredo, Aferrera Maria, Urbano Leafa, Iram Bradock, Germano Xavier, Birigui - poeta de Belo Jardim -, a iniciativa da Candeeiro Cartonera, o próprio Letras Em Barro, tudo isso mostra que há uma cena coesa em formação no interior de Pernambuco. Com um pouco mais de organização, isso será alavancado nacionalmente. Quem viver, verá. Um exemplo a ser seguido é Garanhuns. A partir de um grupo pequeno a cidade cresceu literariamente, começando com conversas entre Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório, Helder Herik. Hoje a cidade recebe uma Bienal e tem um espaço exclusivo para literatura no Festival de Inverno, e tudo começou aos poucos.

Germano Xavier – Há pouco mais de 3 anos, perdíamos o ator, diretor de teatro e apresentador Antônio Abujamra, uma de nossas mentes mais provocativas de todos os tempos. Em sua homenagem, repasso a você a pergunta que ele sempre gostava de fazer aos seus entrevistados: Thiago Medeiros, o que é a vida? Não satisfeito, provoco-lhe um tantinho mais: Thiago Medeiros, e o que é a literatura?

Thiago Medeiros - A vida não pode ser definida, sob o risco de perder seu único sentido, que é justamente não fazer sentido algum. Embora não faça sentido, não quer dizer que não seja interessante e bela em sua fragilidade.

Já a literatura é apenas um monte de garranchos e uma tremedeira infinita nas mãos. E, assim como a vida, também não deixa de ser bela, frágil e imprescindível. Digo que frágil pois está sempre sob risco, que o diga a atual situação política do Brasil, esta onda conservadora, que na realidade sempre existiu, é uma ameaça à literatura, mas também seu maior combustível.




Claro é o mundo à minha volta (Patuá, 2018)

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* Imagens: Acervo do autor

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

CHÃO DE KANÂMBUA, de Tomás Lima Coelho


 

Neste vídeo, a escritora luso-angolana Luísa Fresta fala sobre o livro Chão de Kanâmbua, do escritor angolano Tomás Lima Coelho. Fique atento!

#tomáslimacoelho #chãodekanâmbua #luísafresta #canalliterário #oequadordascoisas

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Sobre o Martín Fierro, de José Hernández



Por Germano Xavier



“A ovelha não bale quando é morta; revira os olhos.”


BORGES, Jorge Luís; GUERRERO, Margarita. O “Martin Fierro”. Porto Alegre: L&PM, 2005.


Em parceria com Margarita Guerrero, o escritor Jorge Luís Borges escreveu o seu parecer crítico acerca da obra Martín Fierro, de José Hernández. Num primeiro momento, os autores supracitados investem em um olhar sobre a dita poesia gauchesca, que para eles tanto reflete a vida dos gaúchos quanto escancara a existência de muitos “homens da cidade” identificados com os hábitos e com a linguagem dos pampas. Este laço está descrito na presença de inúmeras batalhas e guerras regionais, que colocaram lado a lado homens citadinos e homens da campanha, porventura nos papéis de aliados ou de inimigos. E não sendo a arte coisa vã, uma nova forma de sonho se deu nas tintas de Hernández, haja posto.

Passeando por diversas fontes que analisaram, de uma ou outra maneira, tal obra e tal personagem, Borges e Margarita sugerem que o mito de Hernández fora “criado” num tempo anterior por Lussich, mas que o próprio Martín Fierro também o ajudou a se tornar no que é/foi desde a sua publicação. Cabe aqui salientar que José Hernández foi um homem sem grande achaques, com atributos e convicções aparentemente normais para um escritor territorialmente instalado em tais paragens espaço-temporais, nascido a 10 de novembro de 1834 no distrito de San Martín.

Borges e Margarita "retiram" a pecha de caracterização épica dada por muitos ao livro de Hernández, apesar da obra se aproximar bastante das formalidades de uma epopeia. O personagem Martín Fierro é um gaúcho bravio, que é levado para os fortins das fronteiras e por lá passa três sofridos anos. Quando regressa, aturdido e revoltado por motivos até justificáveis, percebe que perdeu a mulher para outro homem e que seus filhos se perderam pelas vastidões mundanas. Fierro, daí em diante, transforma-se da água para o vinho e se revela um touro-homem quase que indomável. A sociedade, então, logo o rotula de marginal, de delinquente.

Os críticos pontuam, também, a existência do sobrenatural na obra de José Hernández, e acrescentam ainda que é por esse e outros fatores que Martín Fierro faz parte da literatura tida como duradoura, que é capaz de vencer o tempo a todo custo. O personagem se atira num frenesi tresloucado, misto de violência e vingança, e termina por escancarar a besta, a fera, a fúria humana. Sobra, pois, até para a figura do índio, colocado em postura de malfeitor dentro do texto. As coisas do coração, o sentimento, a paixão, por sua vez, são colocadas numa dimensão de escanteamento no trotar dos versos de José Hernández.

Martin Fierro é tido por muitos, intelectuais ou não, literatos ou não, como o livro máximo da Argentina, o livro que resume a figura emblemática do gaúcho ao pé da letra, o livro de um povo do sul. Parece ser o que Dom Quixote é para os espanhóis e o que a Chanson de Roland se tornou para os franceses, ou o que a Ilíada é para os gregos. Decerto que se transformou num exemplar privilegiado do cânone local. Para Borges e Margarita, mesmo com ressalvas várias, Martín Fierro é talvez o único livro que pode ser apontado como tal. Um poema-romance, épico, que exige perfeição das personagens, mas que também sabe conviver com e potencializar suas imperfeições. O personagem Martín Fierro, assaz-assim, será sempre uma entidade contraditória, pois muito além das ações que cometeu em sua jornada está a sua ética e a sua estética da coragem, que, muitas das vezes, nem pensa em pedir perdão.


* Imagem: https://www.deviantart.com/marcelosam/art/The-Gaucho-186264252

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

LONGE DA MULTIDÃO, de Thomas Hardy


 

Neste vídeo, a artista visual e professora angolana Cristina Seixas fala sobre o livro Longe da Multidão, do escritor inglês Thomas Hardy. Fique atento!

#thomashardy #longedamultidão #cristinaseixas #canalliterário #oequadordascoisas

Sobre Março entre Meridianos, de Luísa Fresta



Por Germano Xavier


MARÇO ENTRE MERIDIANOS (EAL, 2018) é o terceiro livro de Luísa Fresta - ou melhor, de Muhatu (seu pseudônimo) - e foi o vencedor do Prêmio de Poesia no Feminino "UM BOUQUET DE ROSAS PARA TI", organizado pelo MAAN - Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Angola no ano de 2018. O livro é dividido em três "cadernos": Caderno 1 (Cartão-Postal), Caderno 2 (Versos natalinos e outras histórias de (en)cantar) e o Caderno 3 (Palavras pintadas na tela).

Em Cartão-Postal, percebemos uma autora preocupada em revelar os centros de pequenas coisas, os núcleos sísmicos de elementos que fazem a vida de todas as pessoas, mesmo que estas fontes interiores e, por vezes, ulteriores de e acerca da vida sejam ou estejam integradas à própria faculdade vital do ser humano: o viver, o estar vivo-e-além. Neste Caderno 1, a poeta fotografa o caos, registra os medos de nós-gentes e articula a madeira que fará o fogo-máximo de nossas idas e vindas, de nossas descobertas e de nossas decepções. O soneto é a porta de entrada formal para a voz quase maternal da autora, que nos ensina a sentir mais, mais e mais. 

Os versos são dotados de uma maior liberdade no Caderno 2, intitulado de Versos natalinos e outras histórias de (en)cantar, Muhatu nos questiona se a felicidade é um bônus ou uma guilhotina. É a hora de tombarmos por cima das farturas e das fraturas dos símbolos mundanos, referenciar o sagrado nas coisas triviais e bulir com o absurdo das naturalidades cotidianas oriundas de convenções sociais e institucionais. Tudo isso, regado com uma boa dose de maturidade artística e pessoal. Aliás, ensinagens não faltam nas páginas do livro e na obra geral escrita por Luísa Fresta.

Já em Palavras pintadas na tela, a escritora quase ignora o real para nos abrir um mundo de percepções suavemente surreais, quando no tempo das intermitências e das incertezas da vida, colocando-nos numa posição de combate e, também, de respeito perante o tempo futuro. Afinal, o que faremos da vida que nos resta? O que estamos fazendo com o nosso Hoje, com o nosso Agora? Aquela velha batalha já por demais esgotada e profética: cada dia que passa é um dia a menos, não um dia a mais. Luísa Fresta é, por fim, a voz de uma infância revista e ressonhada, cheia de memórias e refundada em anunciações. 


* Imagem: Acervo Luísa Fresta

domingo, 27 de novembro de 2022

A CIRANDA DAS MULHERES SÁBIAS, de Clarissa Pinkola Estés


 

Neste vídeo, a economista alagoana Rebeca dos Anjos fala sobre o livro A Ciranda das Mulheres Sábias, da psicanalista e poetisa Clarissa Pinkola Estés, autora do já consagrado Mulheres que Correm com os Lobos. Uma jornada permeada de metáforas que tem como mote principal homenagear a força e a beleza das mulheres. Fique atento!

#acirandadasmulheressábias #clarissapinkolaestés #rebecadosanjos #canalliterário #oequadordascoisas

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O sol na cabeça (da literatura?)



Por Germano Xavier


MARTINS, Geovani. O sol na cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Visitei o Rio de Janeiro por duas vezes até hoje. Da última vez, o motivo maior foi o de prestigiar um show de Maria Bethânia no espaço Vivo Rio, evento por pouco cancelado devido a uma chuva torrencial que caiu sobre a cidade durante aqueles dias. A primeira vez foi no ano de 2012. Sozinho atravessei em voo os céus brasileiros e, através de um convite de uma amiga, daquelas da gente guardar para sempre no coração, pude conhecer de perto a Cidade Maravilhosa, segunda capital do país e berço de muita cultura desses nossos rincões tupiniquins. 

Nesta oportunidade, tive o prazer de conhecer a cidade histórica de Paraty em dias de FLIP - Feira Literária Internacional de Paraty, cujo homenageado do ano era nada mais nada menos que Carlos Drummond de Andrade, um de meus escritores diletos. Em Paraty, fiquei hospedado numa pousada bastante aconchegante na Ilha do Araújo, rodeado de muito verde e azul. Já na metrópole carioca, lembro que fiquei hospedado no Sesc Copacabana, ali pelas imediações da Rua Domingos Ferreira, a alguns passos de distância das praias mais famosas do lugar. 

Entre um ou outro passeio, em deslocamentos bastante saudosos, via, ao atravessar a pé os entroncamentos e as esquinas daquelas ruas, o horizonte próximo ser pintado em cores vivas de comunidades/favelas por todos os lados, numa dissonância bastante peculiar e já traço definido da terra que hospeda a sede do meu time do coração, o Clube de Regatas do Flamengo. Andando pelo centro ou caminhando em direção à barca que nos levaria à Niterói, também deu para ver, ainda com mais clareza, o tamanho real de tantos contrastes sociais, estampados fielmente nos semblantes das pessoas e na toda-matéria visual que meus olhos absorviam. 

Conto tudo isto para dizer que o Rio de Janeiro das favelas não é o Rio periférico, não. É o Rio orbital. O Rio solar, mesmo. O Rio-Astro-Rei. O Rio que impera sobre os outros Rios. Esta foi a minha primeira constatação, quando num pensativo instante me prostrei diante da estátua de Drummond ali pelo Posto 6 da orla de Copacabana. Todo um sistema planetário, onde pessoas transitam em massa, com suas sedes e suas fomes universais é o Rio de Janeiro. Um mundo contado com bastante simplicidade e honestidade através das letras do jovem escritor Geovani Martins, que sambou suas palavras às vistas do leitor num misto de oralidades com pandeiros mambembes acompanhados de retratos gravemente sérios de um sistema de sociedade de escanteamentos e opressões/repressões. 

Para o autor supracitado e motivo destas minhas impressões, o Rio é o próprio centro das atenções, das ações e das reações. O Rio do sol que aquece a cabeça das centenas e das milhares de pessoas dali, e que nos projeta para além via holofotes globais. Uma literatura onde não há o que supor, o que imaginar, o que solicitar. Só sentir, o clima, a barra que é viver. Só viver, viver-com, a Vida, mesmo sabendo que tudo é ainda em maior intensidade do que o narrado. Nas pouco mais de 100 páginas de seu livro inaugural estão os cariocas, as favelas, as drogas, as relações sociais, a realidade, a violência, o presente e o futuro repleto de passados. Pecado de um escritor em início de carreira esta falta de potência narrativa? Não vem ao caso tal discussão. O livro teve uma campanha de marketing exagerado? Melhor deixar isso para outro momento. Leia O SOL NA CABEÇA, de Geovani Martins, e se sinta na pele de um carioca da gema, armado até a tampa de um olhar nada trivial.


* Imagem: https://racismoambiental.net.br/2018/07/10/a-inspiracao-por-tras-do-livro-aclamado-de-geovani-martins/

sábado, 19 de novembro de 2022

A FELICIDADE CONJUGAL, de Ben Jelloun


 

A escritora luso-angolana Luísa Fresta comenta o livro A Felicidade Conjugal, de Tahar Ben Jelloun.

#afelicidadeconjugal #luísafresta #benjelloun #oequadordascoisas

Os amarelos olhos mortos de Bruno Liberal



Por Germano Xavier


Autran Dourado, prestigiado escritor brasileiro nascido em Minas Gerais, dizia que “a única coisa que um autor tem de verdadeiramente próprio é o corpo” e que “em cada autor há uma série de pequenos autores”. Se pensarmos que o “corpo” ao qual o autor supracitado se refere nada mais é que o texto, o “seu” texto, isso ganha de chofre um tom de necessidade e, por conseguinte, de requisito básico para a atividade literária dita de excelência. Encontrar a tal da “pulsação narrativa”, a citar aqui o conceito tão difundido pelo grande pernambucano Raimundo Carrero, autor de romances  muito respeitados pela crítica literária nacional, é deveras um desafio enorme para quaisquer escritores. Na maioria das vezes, demora-se uma eternidade para encontrá-la e, quando encontrada, mostra-se fugidia e arisca ao menor dos ventos.

...

Um homem velho que não aguenta mais a vida, um outro homem que mata a enfermeira e tudo parece permanecer normal, uma mulher solitária que afoga suas mágoas em uma piscina, o sonho interpretado por quem sonha o sonho, o desamparo de personagens várias... tudo isso há no livro de contos OLHO MORTO AMARELO, de Bruno Liberal, goiano radicado em Petrolina-PE, onde morei durante 5 anos. A obra, vencedora do I Prêmio Pernambuco de Literatura, realizado no ano de 2013, facilmente pode não entrar para a lista dos melhores compêndios de contos dos últimos tempos, porém revela o encontro do autor com o domínio de seu próprio texto, de sua própria verve ou veia literata. As estórias pulsam sobre uma ponte de brandas sensações e a narrativa, ao fim da leitura, ergue-se envolta em uma nuvem de mistérios e suspeições, o que para um conto é quase sempre um ponto positivo.

Tal ligação é feita com singular destreza que todas as pequenas narrativas presentes no texto se entendem com o leitor prontamente, pontualmente. Há um estilo, uma forma de amar as palavras e os olhos de quem lê não se perdem no vazio das páginas. Liberal conhece a intimidade de cada cena e comanda com talento as personagens. Vozes se entrecruzam, verbos agem com sutileza, as frases se harmonizam. Um problema é então criado, sempre ao término dos contos. Um problema ousado, disfarçado de sobriedade na escrita, que se alarga silenciosamente pelos campos da representação. Pequenos dramas são indefinidos, para o bem geral dos leitores. Como se Liberal tocasse um sax contemporâneo de som instantâneo e tão oculto, mas tão oculto, que somente com ouvidos bem treinados poder-se-ia evitar o inevitável das significações.





* Imagens: https://pixabay.com/pt/olho-parede-horror-arrepiante-3383682/
http://editora.cepe.com.br/livro/olho-morto-amarelo

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

5 poemas do livro EVANGELHO BANTU, de Kalunga (João Fernando André)


 

A escritora luso-angolana Luísa Fresta lê 5 poemas do livro Evangelho Bantu, de Kalunga (João Fernando André).

#especialjaneiro #joãofernandoandré #angolaecaboverde #oequadordascoisas

sábado, 5 de novembro de 2022

Três vezes Mariana Basílio (ou Impressões sobre o livro Tríptico Vital)




Por Germano Xavier



"Um final não se responde,
Ainda que finde."
(M.B.)


Mariana Basílio, autora do livro Tríptico Vital (Patuá, 2018), é também a mãe-voz dos livros Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Mariana é a pintora e a pintura de um universo poético muito particular e, ao mesmo tempo, coletivo, pelo qual orbita sua palavra e todo o seu poder de observatório: a Vida e tudo o que nela se inicia e/ou finda. Para que esta jornada se prostrasse de maneira mais sensível e palatável aos seus leitores, Mariana escolheu dividir seu mais recente livro em um objeto trifásico - daí a imagem de um tríptico.

De uma proposta que beira a absurdez, tamanho o gigantismo do percurso escolhido - nada menos que, como supracitei, a vida inteira de nós-todos, seres humanos. Em DA EXISTÊNCIA, primeira fase do tríptico, Mariana invade todos os úteros possíveis (Terra, Dor, Cor, Sentido, Homem, Mulher...) e caotiza o fenômeno da abertura inaugural da vida, e até de bem antes, quando ainda éramos/somos apenas uma ideia ou nem isso. E se não há esconderijos, se não há para onde fugir uma vez nascido, o negócio é viver. É assim o começo, que na verdade também é já um fim. Mas do que se trata "viver"? O que é "viver"? Há um sentido nisso tudo se a vida é também a certeza de uma morte próxima e até inesperada? Tal eclosão é dolorida, é sonora, é corada. Tem o sangue dos milênios. O nascer é também um grande sertão. Ser-tão vital.

DA EXPERIÊNCIA, segunda fase tríptica, é sobre a caminhada propriamente dita, sobre os passos, sobre a pujança amadurecida por dentro, sobre uma estagnação perceptiva: a de que estamos indo, mas para onde? Sobre uma pegada já instaurada socialmente ou sobre uma vontade de revolta. A esquina para a direita ou para a esquerda. Um estudo sobre o protagonismo e sobre a resiliência nossa de cada dia. Sim, assim mesmo, um lugar recheado de clichês, não da obra, mas os clichês das vidas que simplesmente vão sem rumo certo para lugar-algum-nenhum. O que perseguimos é colocado sobre uma mesa de discussão. Mariana anatomiza as sanhas, as iras, os recrudescimentos, os instantes de felicidade, as minúcias. Conclusões, decisões e argumentos são debatidos. Mariana põe a mão sobre o mundo e, feito uma ventríloqua, manipula com destreza de aranha tecedeira o não-manipulável, o que nos foge ao alcance dos olhos-nossos-nus de tudo para-sempre.

Na terceira fase, intitulada de DA EXTENSÃO, a autora faz jus ao título e expande todo o panorama normal sobre o fim ou sobre as possibilidades dos fins, pois há na poesia de Tríptico Vital um espaço exclusivamente destinado para o além-morte, mesmo que ainda em tons de segredo ou de uma outra gravidez místico-misteriosa ainda não inspecionada suficientemente. Há um passeio, um tour pelo fundo de todos os poços, um safári por todas as nossas de-composições e re-composições, um diálogo com os mais impressionantes círculos da existência e da resistência mundana. Mariana rompe o breu, amadurece o atordoamento e indetermina, sábia que é, todas as rotas. Tudo isto, com uma classe e um fundamento poético de densidade raríssima em nossos dias. 



breve entrevista com a autora


Germano Xavier: Mariana, desculpe-me, mas eu devo a você uma exclamação após a leitura do seu mais recente livro, o TRÍPTICO VITAL: Que livro, mulher! Fazendo uma alusão e retornando ao seu “Rebento”, poema do seu primeiro livro NEPENTE, eu lhe pergunto: sua intenção ainda é a pura essência?


Mariana Basílio: Não, pelo contrário. Vivo o que atualmente é a concretude do que desenvolvo, no sentido de contexto social e aporte filosófico. Penso que não há essência, ao menos como conceito permanente ou imaterial, que caiba na corpulência do que é a vida em sua materialidade. A pureza, no sentido da palavra, é então feita para ser desfeita. Voz-por-voz, a poesia tem essa função primordial: transformar o que existe em algo ainda inexistente – seja como sensação ou como ideia e resultado.


Germano Xavier: Tríptico Vital é uma imensa jornada pelo ser humano e pela vida dividida em três fases também amplas e complexas. Que fim temos (teremos), Mariana? Que trajetória seus versos implicam?

Mariana Basílio: Tríptico Vital foi meu primeiro exercício literário escrito em uma tomada só, um poema longo, escrito cronologicamente, apresentado cabralinamente: cada subseção e seção apresentam uma luta e uma disputa do eu-lírico, permeado de outras vozes e do passado e presente da humanidade em sua ideia de futuro (que sempre acaba por acontecer). Nesse sentido, é mesmo uma jornada. Como me disseram em janeiro, é uma espécie de épico pós-moderno. Eu gostei da observação, não tinha visto por esse lado. É também minha ideia poética que procura estabelecer diálogos com A Negação da Morte, de Ernest Becker – assim como com as indagações trazidas da morte, o canto pela morte, de Hilda Hilst.

Quem souber que fim teremos, por favor, se apresente em minha residência, a minha casa dos lírios. Será recebida(o) com festa!

Meus versos implicam, entre outras possíveis reflexões, um dos sentidos principais de todos os que já tentaram ou escrevem poesia: emancipar pela palavra os sentidos indizíveis da própria existência, a partir de nossa realidade social.


Germano Xavier: Mariana, a possibilidade de existência para além dos elementos que perpassam a ideia que sabemos/temos a respeito da vida e da morte sempre lhe foi muito ativa em tua poesia. Percebo que o Tríptico Vital também pode ser visto como um esforço seu em se aprofundar neste panorama. O que há de concreto neste meu pensamento?

Mariana Basílio: Tem muita verdade em sua observação. Mas o Tríptico Vital eu não vejo como um esforço, foi mais um processo naturalíssimo de estabelecer um diálogo com o silêncio da minha própria persona de uma forma mais filosófica e crítica, como se eu procurasse apontar para refletir o que seria, enfim, esse retrato da morte em mim. O que fui, o que sou, o que serei? O que, afinal, nós somos? São questões que me acompanharam durante toda a vida, e provavelmente ainda me assombrarão até o fim.

O flerte entre vida e morte para mim é a forma natural do crescimento, a partir do momento em que eu soube que deixaria de existir. Eu me recordo até hoje da sensação, eu era uma criança de oito/nove anos. E fiquei espantada, de mover as nuvens pelos dedos.


Germano Xavier: Fale-nos um pouco mais sobre o processo de elaboração, de escrita e de publicação deste teu belíssimo e profundo Tríptico Vital, Mariana.

Mariana Basílio: A ideia do livro aconteceu após minha residência artística na Casa do Sol, da Hilda. Era outubro de 2014. Nomeei o livro e o projeto surgiu na sequência disso, como um sopro. Costumo escrever livros assim: primeiro o nome (o insight), logo o projeto do livro (o que também pretendo transmitir nele), e depois a escrita (e sucessivas lapidações).
Como o livro surgiu na Casa do Sol, pela inspiração do lugar e coisas que vi e lá vivenciei, além da descoberta da leitura de A Negação da Morte – um dos livros de cabeceira da Hilda – resolvi dedicá-lo a ela, que tanto se intrigava com a temática da elaboração e desenvolvimento (finitude) da vida humana como eu.

Em 2017, fui contemplada com o edital do Prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo para criação literária e publicação dele em 2018. Assim, me aprofundei na escrita da obra, e acabei descartando mais de cinquenta poemas esparsos iniciais, porque percebi que não eram o que buscava com o sentido do livro.

Então, em certa noite de outubro de 2017, tive um insight derradeiro: meu livro seria um poema longo dividido em três partes, com início, meio e fim da vida da eu-lírico. Seria um diálogo entre problemas sociais, filosóficos, existências, particulares e coletivos, em meio a possibilidade da morte que nos pertence.


Germano Xavier: Por fim, quem é a escritora/poeta Mariana Basílio após ancorar no oceano da literatura um Nepente, um Sombras & Luzes e um Tríptico Vital? Há caminho de volta para quem se volta à poesia, Mariana? O que esperar da Mariana para o futuro?

Mariana Basílio: Sou apenas uma autora que vive para procurar a sua verdade, o que sou enquanto possibilidade, enquanto ainda existo. Ainda que seja completamente insuficiente procurar a vida a partir do teatro do absurdo que é fazer/ser literatura.

Mas diariamente continuo fazendo o que mais amo: lendo diferentes autores, traduzindo, construindo a minha verve autoral. Sinto que escrevi ainda pouquíssimo, tão pouco, isso me frustra.

Verdade seja dita: eu detesto meu primeiro livro (Nepente), o tenho como um esboço mal executado, mas necessário para que eu assumisse meu lugar no mundo; o segundo livro (Sombras & Luzes) eu acho até perdoável – em partes, pois ainda estava bastante influenciada pelos estudos dos movimentos literários que me envolvem na formação (como se eu ali buscasse a minha identidade); já no Tríptico Vital sinto que surjo mais regular e autêntica na autoria, pois amadureci mais o meu olhar do mundo, o meu trajeto pessoal também.

O que esperar da Mariana? Nada. Toda expectativa gera frustração.

Só posso dizer que trabalharei cada dia mais intensamente para trazer projetos diferentes. Tudo até aqui é apenas um começo do que espero publicar nos próximos anos, seja no que preparo no campo da tradução (Anne Sexton, Gabriela Mistral, Sóror Juana Inés de la Cruz), seja no romance (meu primeiro livro de prosa deve ser publicado em meados de 2020), ou na própria poesia (meu provável próximo livro, Megalômana, deve sair em 2021).






Mariana Basílio é prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Nascida em Bauru, interior de São Paulo, em 1989. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Anne Sexton, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do SESC (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.


* Imagens: Acervo da autora e http://www.literaturabr.com/2018/12/10/triptico-vital-a-grande-aventura-humana-por-mariana-basilio/

JUNG E O TARÔ - UMA JORNADA ARQUETÍPICA, de Sallie Nichols


 

A economista alagoana Rebeca dos Anjos estreia no canal literário O EQUADOR DAS COISAS explanando sobre as percepções do Tarô, feitas a partir do pensamento de Sallie Nichols, autora do livro Jung e o Tarô - Uma jornada arquetípica. Rebeca irá nos apresentar, a partir de hoje, um mundo de possibilidades diversas e caminhos múltiplos em prol da iluminação humana. Fique atento!

E seja muito bem-vinda, Rebeca!
#jungeotarô #sallienichols #rebecadosanjos #canalliterário #oequadordascoisas

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Sobre berços e memória: o testemunho de Selbor

*
Por Germano Xavier

Demora muito para a gente nascer de verdade – se é que nascemos de mentirinha algum dia. Eis o lugar ao qual chegamos quando se termina de ler SATOLEP, de Vitor Ramil: o berço. O Barão de Satolep, travestindo-se de Selbor, fotógrafo que resolve voltar a respirar seus natalícios caminhos após 20 anos de sumiço pelo mundo, envereda-se por um álbum de memórias congelado, repleto de mornas dores e clandestinos espantos, com os quais objetiva uma sangria baseada no retrato das perdições de um simples ser humano, sensível por natureza.

Em determinado momento, Selbor refresca-se com uma frase do seu amigo Cubano (alusão ao escritor Alejo Carpentier), que diz: “Se tivéssemos viajado puramente através da intensidade da luz e do rigor da paisagem, estaríamos agora penetrando em seu detalhe. Desembarcamos na estação das coisas essenciais”. Percorrendo o que chamou de “grande círculo”, Ramil nos faz embarcar em nossas respectivas reminiscências, impactando novos descobrimentos aos olhos leitores e fazendo brotar flores em meio à náusea cotidiana de nossas existências. Chega uma hora que temos de aprender a ver, como requer seu irmão em determinada passagem do livro. Ver para ver além, ver para ver aquém, ver para simplesmente ver. Obrigatório aprendizado.

É realmente difícil conseguir chegar onde nunca se esteve antes e mais difícil ainda é chegar onde se imaginou ter estado outrora. Existem cidades construídas no solo das ilusões. Existem pessoas que viveram/vivem em cidades que nunca existiram na realidade. Talvez seja o meu caso com a pacata e chapadeira Iraquara, no interior baiano, com a qual mantenho uma relação dual que vai do amor ao repúdio em questão de dois ou três pensamentos. Satolep é um amargo doce para o fotógrafo do livro, que tenta captar uma existência incapaz de se materializar sob a luz vermelha de seu laboratório. “Às vezes, o lugar onde queremos chegar fica exatamente onde estamos, mas precisamos dar uma longa volta para encontrá-lo. O senhor foi na direção do mundo, eu vim para Satolep”, relata Selbor.

Sem se esquivar das trevas nem das luzes diárias, Selbor encara o tempo de frente numa escaramuça duradoura imprópria para corações imaturos. Tendo como sibila a figura do escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, Selbor aponta a lente de sua câmera para as janelas de nossas almas e para as paredes de nossos corpos. O que se revela sob a luz vermelha de seu laboratório é antes a imagem branca do mundo, preenchida de nossos vazios tão sedentos, ancestrais e imorredouros. “De repente, sobreviver era insistir na busca de um lugar para pôr os seus restos”. Todavia, é em Satolep que Selbor irá encontrar as formas, cheiros e cores de que tanto precisa para seguir vivendo, mesmo sendo, por vezes, formas sem cantos, cheiros sem encanto e cores sem carinho. Não havia o que fazer, a não ser entrar naquele trem cujo destino era o calor geométrico das coisas.

Este texto foi escrito após a leitura do livro SATOLEP, de Vitor Ramil.


* Imagens: Google.

ELE, de Mailson Furtado


 

Impressões sobre o livro ELE, do escritor cearense Mailson Furtado. #ele #mailsonfurtado #poesia #oequadordascoisas

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Assim escreve André Balaio | ou Olhos sobre "Quebranto"




Por Germano Xavier


Tenho feito um exercício bastante peculiar nos últimos anos e isso não é novidade para ninguém que acompanha este O Equador das Coisas há algum tempo: ler ao máximo a nova literatura pernambucana para, primeiramente, entender um pouco mais acerca deste espaço territorial nordestino que, antes de ser o estado natal do meu velho pai, é hoje o lugar onde gasto a minha vida desde o fim de 2013, quando vim morar em Caruaru, cidade do interior situada à região meridional do setor agreste. E, em sendo assim - não tinha como ser diferente -, o Prêmio Pernambuco de Literatura (agora Prêmio Hermilo Borba Filho), assim como as publicações da Cepe Editora, sempre foram dois grandes norteadores para esta minha atividade, convenhamos, ainda recente de pouco mais de 5 anos. 

Todavia, alguns autores locais, terminaram por fincar raízes em editoras além-Pernambuco, como é o caso de André Balaio, autor de QUEBRANTO (Patuá, 2018), seu premiado livro inaugural, eleito Melhor obra de ficção escrita em 2018 pela Academia Pernambucana de Letras - APL.  Para minha grata surpresa, QUEBRANTO se mostrou um livro bastante convincente dentro de uma seara temática por demais explorada na literatura brasileira e, também, universal, e que possui grandes representantes espalhados pelos séculos e séculos da tradição literária. Mistério, quase-terror, segredos sombrios, desvendamentos, ilusões, revelações e manobras que beiram ou beijam o surreal-real são alguns dos líquidos preciosos que dão vida ao corpo de um dado corpúsculo engendrado nas teorias do fantástico e do noir impresso no papel pelas mãos treinadas, lúcidas e operantes de André Balaio. 

QUEBRANTO é um livro simples (eu disse simples, não simplório), bom de ser lido, que conta com um forte apego e um amplo prestígio ao rápido endereçamento do leitor ao clímax das narrativas expostas, sem deixar de causar um alumbramento necessário ao interlocutor ao longo da leitura transcorrida, como se feito a partir da melhor receita para brumas e névoas: a desfaçatez. O "nocaute" cortazariano é dado por Balaio aos flancos, de leve, quando menos se espera dele um soco ou um chute, com golpes lentos porém contundentes, nunca de frente, escancarados feito jebs desfloradores e nada criativos. O significado é o que parece importar ao fim, ou o rumo a uma dada cosmovisão, mas o caminho, justamente a graça de todos os percursos, é a ordem máxima dos passos dados pelas personagens, verossímeis de tão reais - ou vice-versa.

A respectiva obra é um alerta para nossos sonos diários, nossas malemolências vitais, nossos desacreditamentos. Humanos que somos, introjetados num sistema de vida de trejeitos nefastos e soturnos, maquinados dentro de afazeres sem sentido pleno, perdemos a capacidade de ver além, como se fôssemos acometidos por uma catarata eterna que nos oprime e nos cega dia após dia, noite depois de noite. Destarte, deixamos de ver a Beleza, o Real, o Mítico, o Filosófico, o Rude, a Bondade, o Desperdício, a natureza de todas as coisas e de todos os sentimentos... aí vem e se alteia e se altera Balaio e nos devolve o fantasmagórico de nossas jornadas que um dia chegarão ao fim - mesmo tudo permanecendo -, o que está pelas nossas costas, um tempo de olhos bem abertos, em brasa sempre acesa. 

André Balaio, nos 13 contos do livro, tende sempre a tirar a pelagem das inúmeras civilizações alheias a nós-todos, que vagam pela vida e pela morte e por todas as outras dimensões possíveis, populações inteiras construídas a partir da mesma matéria do escuro, da noite, do breu total, do que é ainda opaco ou translúcido e de tudo aquilo que não enxergamos ou que certo dia deixamos de vislumbrar. Sabedor de toda a jogatina e de toda a lida contista, Balaio age feito um alfandegário: bole-bole, separa-separa, escolhe-escolhe e, de quebra, ainda nos desloca desses "mundos-todos" para cenários bem pernambucanos, como sítios, fazendas, usinas... Resultado de tamanha arquitetura? Um livro com virtudes próprias, exato, ativo e leal ao que se propõe. Enfim, mais um belíssimo exemplar desta nova literatura pernambucano-nordestina que está aí a vencer fronteiras outrora tidas como intransponíveis e/ou irredutíveis, apesar de nossa larga tradição (a dos escritores do Nordeste) em derrubar todos os muros que, porventura, teimaram em nos atravancar o caminho.


breve entrevista com o autor



Germano Xavier – “Os homens de imaginação – eles vibram facilmente demais e são de sua natureza tempestuosos”, frase presente em Correspondência, de Eça de Queiroz, datado de 1885. Você concorda com tal afirmação? Quem é e como se porta o escritor André Balaio perante as possibilidades de vida e de morte ante o caos criativo?

André Balaio – A vibração existe, é necessária, vem do pathos criativo e do atrito com a vida. O caos surge diante da incerteza e da inevitabilidade da morte. Mas é preciso dar forma. Escrever é uma tentativa de organizar o caos. Extrair dele algo novo e questionador.

Eu, como escritor, busco uma conexão baseada na identificação e no encantamento. Preciso que o leitor sinta o que os meus personagens sentem, que os compreenda, que as histórias dos personagens de alguma forma o atinjam. Uma vez uma pessoa que leu o Quebranto, que aliás um ótimo poeta, me disse que não conseguia tirar um conto da cabeça. Ele não explicou o motivo, mas esta informação se bastou para me deixar contente. Não existe maior recompensa para um escritor do que marcar a lembrança de um leitor.


Germano Xavier – O mesmo Eça de Queiroz, neste mesmo livro supracitado, disse que “um livro de contos é um livro ligeiro de emoções curtas”. O que você pensa sobre esta assertiva, Balaio? E por que o conto? Quais os motivos para esta escolha?

André Balaio – Não acho que as emoções sejam curtas. Elas são condensadas, reprimidas. Precisam ser moldadas num espaço curto. Talvez por isso mesmo sejam tão intensas: estão a ponto de explodir, de fazer a tampa voar.

A opção pelo conto foi justamente essa capacidade de acertar o queixo e levar a nocaute (obrigado, Cortázar). O arrebatamento. Também influiu o fato de serem histórias surgidas quase na mesma época e que, apesar de tão diferentes entre si, tinham a mesma ideia do sobrenatural e do fantástico como ruptura diante da normalidade.


Germano Xavier – Lendo o seu QUEBRANTO, remontei-me a uma tradição muito peculiar a nós, amantes da boa literatura, produzida por nomes como J. J. Veiga, Horacio Quiroga, Isabel Allende, Guy de Maupassant, H. P. Lovecraft e, claro, o grande mestre Edgar Allan Poe. De onde veio a matéria-prima do seu primeiro livro de contos, Balaio? Quais as tuas fontes primárias de inspiração? E de que forma você se deixa influenciar por elas?

André Balaio – “Os Cavalinhos de Platipanto” de J. J. Veiga é uma fonte à qual sempre retorno. O mesmo acontece com vários contos e poemas de Poe. Maupassant e Lovecraft são referências importantes da minha formação. Há também Shakespeare, com a erupção emocional dos personagens. Na busca de uma linguagem precisa e cortante, Graciliano Ramos precisa ser lembrado. Cortázar vem com a sensação de estranhamento frente ao insólito, da quebra da realidade em pedaços que não mais se colam. “A Casa Tomada”, aliás, é um dos contos estrangeiros que mais gosto. Existem muitos outros autores como Raimundo Carrero, Herman Melville, Juan Rulfo, Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio” é meu conto brasileiro preferido), Lygia Fagundes Telles (o “Seminário dos ratos” é grande lembrança) e Hilda Hilst. Todos também estão por ali, espreitando de alguma forma.

Talvez seja um enorme lugar comum dizer que a matéria-prima da minha escrita esteja nos livros que li, nos filmes e peças que assisti e nas pessoas com quem convivi, mas é isso mesmo, são essas as principais fontes. Hamlet inspirou o conto “O resto é silêncio”. Paulo Honório de “São Bernardo”, personagem que muito me assombra, foi referência para um personagem de “Eu sou o filho do homem”. Uma história maravilhosa da família da minha esposa foi a base para “O lado de lá”, e quando a ouvi pela primeira vez parece que ela pedia para ser escrita. Por fim e não menos importante estão minhas relações familiares e meus demônios que de um jeito ou de outro se entranham no que escrevo.


Germano Xavier – Albert Camus disse, certa vez: “Não desejo mais ser feliz, e sim estar mais consciente”. Entendo que a literatura tem esse papel, também, o de despertar consciências. Você acredita nisso, Balaio? Se sim, que tipo de consciência o seu livro QUEBRANTO ou a literatura em si pode despertar nos leitores?

André Balaio – Escrevo para tocar algum nervo do leitor. A emoção, se não é superficial, pode levá-lo a uma pequena revolução interna. Esta revolução deve despertar a consciência. Não acredito que a arte tenha outro papel que não seja o impacto estético. Este impacto pode levar à reflexão e à consciência.

Apesar dos meus contos serem narrativas fantásticas o que mais procurei foi a dimensão humana dos personagens. As inadequações dos personagens, diante das vidas que levam e da morte, geram a tensão. E é no momento no momento da ruptura que surge o elemento fantástico. São quase sempre pessoas comuns colocadas em situações limite. Situações geralmente provocadas por quem está próximo: o pai, a mãe, o filho. Meus fantasmas não são distantes e misteriosos, são próximos, muito próximos, e estão sempre à espreita.


Germano Xavier – Fale-nos um pouco mais sobre o processo de elaboração, de escrita e de publicação deste teu QUEBRANTO. Como você enxerga o cenário atual da literatura brasileira? Em quê apostar daqui para frente?

André Balaio – Quebranto foi escrito durante aproximadamente três anos num processo de aprendizagem e de amadurecimento como autor. Foi quando passei a ver a escrita de uma forma mais intensa e várias questões surgiram. Os contos não são fotografias antigas que encontrei numa gaveta e colei no álbum. Foram pensados com uma ideia de unidade. Quase todos têm o conceito que o téorico Tzvetan Todorov apresenta em seu “Introdução à literatura fantástica”: o fantástico baseia-se na dúvida. Aquilo de fato está acontecendo ou é fruto da perturbação do personagem? Coloquei essa questão em pessoas que podemos encontrar na rua, no banco, num consultório médico. Meus personagens são agricultores, advogados, mendigos, jornalistas, fazendeiros, estudantes, office boys, comerciantes, usineiros. Todos se encontram em situações limite. E é aí que o fantástico se apresenta.

Com relação ao cenário atual da Literatura no Brasil, vivemos um momento interessante de mudança. Há muitos autores publicando por editoras independentes ótimos livros que não se encontram nas livrarias. Mas há uma falta absurda de leitores, principalmente os de boa ficção. Ainda lembro de quando O Nome da Rosa e Memórias de Adriano eram bestsellers e falávamos deles como hoje falamos de uma série de sucesso da Netflix. O grande desafio é formar novos leitores e chegar aos que existem. Para isso, é preciso colocar o livro debaixo do braço e partir para o corpo a corpo.




Obs: o livro pode ser encontrado no site da Editora Patuá.


* Imagens: https://zinebrasil.wordpress.com/2018/03/09/andre-balaio-lanca-quebranto-na-casa-cultural-villa-ritinha-em-recife/