| Desde 2007 | Por Germano V. Xavier | Em memória de Milton de Oliveira Cardoso Júnior | + de 2.200 textos publicados |
sábado, 28 de dezembro de 2024
O HOMEM ENCURRALADO, de Germano Xavier (3 poemas lidos, por Luísa Fresta)
domingo, 22 de dezembro de 2024
Ouro
por Germano Xavier
para Débora Xavier
| o ouro reluz |
tua pele absorve o denso
dourado do amor
a cor-imperatriz que revolve
o mundo em destinos tantos
e únicos
o ouro que agora em ti vigora
alcança teus olhos nus
de entusiasmo
e reverte o Tempo
das esperas
o ouro encontrado
nas jazidas do teu coração
é alma pura e faz girar
a roda que nos enreda
| união |
que o ouro burle toda turba
e nos convide ao gesto final
| quisto em quimeras |
como a morte e o flagelo
da solidão
* Imagem: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2022/07/25/ouro-ilegal-do-brasil-e-ligado-a-refinador-italiano-e-a-big-techs-mostram-documentos.htm
ALI BABÁ E OS QUARENTA LADRÕES (As Mil e Uma Noites), recontado por Tatiana Belinky
Neste vídeo, Germano Xavier fala sobre a narrativa ALI BABÁ E OS QUARENTA LADRÕES, que faz parte do monumental As Mil e Uma Noites. O exemplar lido e comentado é um reconto produzido por Tatiana Belinky para a Coleção Clássicos Recontados.
domingo, 15 de dezembro de 2024
O vestido
por Germano Xavier
para Débora Xavier
por baixo do vestido
dou-te meu sobrenome
bem antes de nosso amor nascido
já havia promessa de amor tingido
em laranja | ou rosa (sua cor) |
num natural mistério em manifesto
por baixo do vestido
recolho o mel da mulher que amo
uma ânfora poética inteira entre lábios
e corações | minha nação de estar
de bem-estar
por debaixo do teu vestido
existe um lar em que habito
casa de um só corpo em alma única
sendo dois o número de nossa sorte:
a do encontro
porque eu prefiro teu evangelho de amar
e nossas bocas entrecortando as noites
nos retirando dos desertos de antanho
nos referindo às águas quentes do hoje
(nosso mar)
teu vestido cobre o feminino fatal
que mudou o rumo de meus passos
que ceifou a inverdade de uma vida
refinando minha nada cega vontade
de ter você
* Imagem: https://www.amazon.com.br/Mulher-Vestido-Laranja-Abstrato-60x40cm/dp/B0CBCR26QN
NEM TUDO O QUE HÁ NO MUNDO (ANTOLOGIA)
sábado, 7 de dezembro de 2024
A(mar) é
por Germano Xavier
para Débora Xavier
eu te saúdo
feito o sol que toca tua pele
ancorada no prazer
feito a água do mar que salga
tua alma malina | eu te embarco
na onda do amor mais puro
que vem descendo e que vem
tomando o inteiro horizonte
e te remeto ao certo e simples destino
dos amantes | eu te navego
com o mapa do teu corpo
em minhas mãos e a maré...
e a maré...
e (amar) é
nossa flutuação
* Imagem: Google
sábado, 30 de novembro de 2024
BRANCA DE NEVE, dos Irmãos Grimm (por Tatiana Belinky)
Neste vídeo, Germano Xavier fala sobre o conto Branca de Neve, dos Irmãos Grimm, em versão de Tatiana Belinky.
Estrada de infinitos
por Germano Xavier
para Débora Xavier
reconheço meu lugar
em tua voz-terra
o futuro dos meus passos
alinhados em alinhavos
a estrada de infinitos
curvados pelo destino
que me mostra o coração
dos agoras-e-além
reconheço em você
toda dor vencida
toda vitória reunida
sob a égide do amor
o escudo que carrego
nos ombros largos
é força tamanha (imperiosa chama)
de se quebrar barreiras e de rumar idas
para bem distante do mal
reconheço minha casa
em teus aromas de não-distância
e para lá me vou
unido ao mar das coragens
ancorado nas velas de resgate
que me retiram do breu e me devolvem
para muito perto
do paraíso
* Imagem: Google
ÉPOCA DE MIGRAÇÃO PARA NORTE, de Tayeb Salih
Neste vídeo, Cristina Seixas fala sobre o livro ÉPOCA DE MIGRAÇÃO PARA O NORTE, de Tayeb Salih.
quarta-feira, 27 de novembro de 2024
Invisível aos olhos, o amor
por Germano Xavier
para Débora Xavier
as coisas são assim
simplesmente acontecem
como quem nunca espera o trem
da vida na primeira hora do dia
como quem jamais se ancorou na quimera
e nos sonhos sem cor: e estamos
cá
onde estamos?
(tu)
chegaste como o sol
que me banhou a pele na mais memorável
das semanas (e dentro do Tempo: uma espera de almas)
que se reconhecem na aurora dos sons
no alvorecer dos sorrisos
na boca úmida sem o beijo
na força humana do querer
quem me dirá que a noite já me era dona
na redoma das demoras e dos fastios?
mas você me retirou da imperiosa
sanha de morte dos meus desacontecimentos
agora tudo é fúria (tudo)
arranha e tudo forja a glória
e a manha das manhãs nos teus olhos d'amor
em teus pulsos me leva você
ao pioneiro dos rumos: o de amar loucamente
uma mulher como quem ama
uma fé
no fim
(de tudo que agora se inicia)
fica feito em êxito o novo em que me aposso
do tamanho do que nunca senti
originalíssima invenção do Real
aquele de ir sem desistir
mistério fundado em te amar
e só
* Imagem: Google
domingo, 27 de outubro de 2024
O TEMPO VOA, de Pedro Dias
Neste vídeo, Germano Xavier fala sobre o livro O TEMPO VOA, de Pedro Dias. #otempovoa #pedrodias #literaturainfantojuvenil #canalliterário #oequadordascoisas
sábado, 17 de agosto de 2024
VIDA E OBRA DE CAROLINA MARIA DE JESUS (LIVE)
terça-feira, 13 de agosto de 2024
Sobre a escritora Luísa Fresta (Texto para o Canal do Poetariado - Youtube)
Por Germano Xavier,
em especial para o CANAL DO POETARIADO (YOUTUBE).
É
com enorme satisfação que esboço aqui uma apresentação sobre a escritora Luísa
Fresta, voz poderosa de nossa literatura contemporânea em Língua Portuguesa.
Sua carreira literária é marcada por textos de tonalidades muito
diversificadas, perfazendo um percurso que vai da literatura infantojuvenil às
formas mais clássicas e tradicionais da poesia, passando por outros importantes
gêneros como o conto e a crônica.
Luísa
Fresta é amplitude portuguesa e angolana, uma dupl'alma concentrada em uma
força-motriz-feminina que entrelaça Angola, Portugal, Brasil, Áfricas e Mundos
em um coração delicado e dedicado a enxergar a mais pura arte literária nas
situações mais comuns ou nas circunstâncias mais rudes. Suas mãos tecem um
conjunto de textos que pontuam suas múltiplas influências culturais e humanas
como quem aborda o próprio espelho das grandezas da vida. Uma mulher que a todo
instante nos apresenta à lusofonia e ao africano, uma mulher que não se cansa
em opinar sobre livros, filmes, artes em geral... uma mulher em constante
movimento.
Com
a escritora Luísa Fresta, aprendi que o essencial está por vir, ainda no
próximo verso, ainda no próximo parágrafo, porque a literatura está no que
avança e no que nos desdobra, no que nos recobra e no que nos aplaina,
apontando para as mazelas mundanas mais irrefutáveis. Com a escritora Luísa
Fresta, aprendi que é necessário perceber e revelar os centros das pequenas
coisas, os núcleos sísmicos dos elementos que fazem a vida de todas as pessoas,
mesmo que estas fontes interiores e, por vezes, ulteriores de e acerca da vida
sejam ou estejam integradas à própria faculdade vital do ser humano: o viver, o
estar vivo-e-além.
Ao
lado de Luísa Fresta, numa jornada de parcerias que já ultrapassa uma década,
aprendi que o verdadeiro poeta fotografa o caos, que o verdadeiro escritor registra
os medos de nós-gentes e articula a chama que fará o fogo-máximo de nossas idas
e vindas, de nossas descobertas e, também, de nossas decepções. Luísa Fresta
soa quase sempre maternal, como uma mãe que ensina as suas crias os segredos do
caminho.
A
escritora Luísa Fresta nos questiona, em seus textos, se a felicidade é um
bônus ou uma guilhotina. Dentro de suas palavras, tombamos por cima das
farturas e das fraturas dos símbolos mundanos, adentramos o sagrado nas coisas
triviais e bulimos com o absurdo das naturalidades cotidianas oriundas de
convenções sociais e institucionais. Tudo isso, regado com uma pessoalíssima
dose de maturidade artística e pessoal. Aliás, ensinagens não faltam nas
páginas dos livros e na obra geral escrita por Luísa Fresta. E isso me chama
muito a atenção. Luísa Fresta sempre está a nos ensinar algo. E de uma forma
muito espontânea e inteligente.
A
escritora Luísa Fresta, por vezes, quase ignora o real para nos abrir um mundo
de percepções suavemente surreais, quando no tempo das intermitências e das
incertezas da vida, colocando-nos numa posição de combate e, também, de
respeito perante o tempo futuro. Afinal, o que faremos da vida que nos resta? O
que estamos fazendo com o nosso Hoje, com o nosso Agora? Aquela velha batalha
já por demais esgotada e profética: cada dia que passa é um dia a menos, não um
dia a mais. Luísa Fresta tenta parar o tempo para que possamos observá-lo,
tamanho o seu poder perante todos nós. Luísa Fresta é, por fim, a voz de uma
humanidade revista e ressonhada, cheia de memórias e refundada em
anunciações.
* Imagem: https://www.voaportugues.com/a/4324514.html
domingo, 9 de junho de 2024
EVANGÉLICOS E PANDEMIA, de Pierre Salama
Neste vídeo, Germano Xavier fala sobre o livro EVANGÉLICOS E PANDEMIA, de Pierre Salama. #evangélicosepandemia #pierresalama #neopentecostalismo #canalliterário #oequadordascoisas
terça-feira, 4 de junho de 2024
Nivaldo Tenório e as camadas do conto
sábado, 13 de abril de 2024
O SEGREDO, de Rhonda Byrne
Neste vídeo, Rebeca dos Anjos fala sobre o livro O SEGREDO, de Rhonda Byrne. #osegredo #rhondabyrne #rebecadosanjos #psicologiapositiva #canalliterário #oequadordascoisas
quinta-feira, 11 de abril de 2024
Então você quer ser escritor?
domingo, 7 de abril de 2024
O ÚLTIMO SACI, de Renata Limão Campos
quarta-feira, 27 de março de 2024
Não haverá futuro
Por Germano Xavier
não haverá futuro
até que se aprenda a aproveitar o dia
como uma estrutura sólida de sempres
até que se possa viver o hoje
sem o incômodo destemperado do Tempo
não haverá futuro
antes de mais nada que não seja nada
ou mesmo depois do pior
não haverá
futuro sem amor
se não intentarmos a ferina variação
dos nossos humores
dos rumores e dos tumores e dos temores
não haverá futuro
se continuarmos a espionar nossas presenças
com os olhos autogovernados dos sistemas
surpreendentemente secretos do amanhã
sobremaneira
não haverá futuro
somente o saldo romântico das contestações
* Imagem: https://www.notibras.com/site/solidao-vira-risco-para-o-futuro-dos-jovens/
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024
OBRA LITERÁRIA, NÃO LITERÁRIA, ANTOLOGIA E COLETÂNEA, por João Fernando André
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024
Os abismos de Trevisan
terça-feira, 6 de fevereiro de 2024
O GARIMPEIRO DO RIO DAS GARÇAS, de Monteiro Lobato
Avalovara
Notas sobre Abel, a mulher sem nome, Roos e Cecília.
Osman Lins é um exímio construtor de máscaras, pois mascarados são seus personagens no enredo mítico de sua obra-prima: o romance Avalovara. Mascarados não por não conterem em si “nenhum caráter”, como o ilustre Macunaíma, de Mário de Andrade, mas sim por serem elas (as personagens) entidades existentes primordialmente numa esfera de imaginação onírica que, por diversos momentos, sufoca a presença de uma anunciada realidade.
Osman Lins (1924-1978), pernambucano de Vitória de Santo Antão, literalmente põe as personagens sobre a palma da mão do leitor, como que almejando um fenômeno receptivo baseado em referencialidades mais espontâneas ou automáticas. Assim sendo, não basta a simples leitura, a mera decodificação dos códigos lingüísticos, o comum debruçar-se sobre a obra para a boa compreensão da trama. A atitude decisiva do leitor perante o texto é agora o que importa mais, pois o leitor tem diante das vistas um multilivro, um polilivro, cuja fabricação das compreensões vai se basear nos caminhos tomados por ele, sujeito que lê.
Com o leitor podendo compor histórias variadas e variáveis a partir de uma história central, as personagens em Avalovara também passam a agregar dentro de suas existencialidades o caráter de mutabilidade, moldando-se, sempre que requeridas, a partir das rotas desejadas pelo leitor. Essa foi uma fórmula encontrada por Osman Lins para lutar contra o fantasma do fim/esgotamento do gênero romance – idéia muito em voga nos anos 70, década em que Avalorava foi publicado, mais especificadamente em 1973.
Para ele, com a disponibilização escancarada do poder de co-agir e co-produzir a narrativa, tanto o leitor quanto o romance se fortificariam enquanto sujeito e gênero textual, respectivamente, e por conseguinte apagariam qualquer vestígio factual acerca da não-sobrevivência do romance dentro do vasto universo da literatura.
O início dessa revolução estrutural na obra do escritor pernambucano se dá com a publicação de Nove, novena, livro de narrativas curtas datado do ano de 1966. Inclusive, e para fortificar a preocupação diante do referido tema, a questão da estrutura romanesca, principalmente os elementos espaço-temporais, foi objeto de pesquisa durante toda a vida acadêmica do autor. Segundo a professora doutora Ermelinda Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “Sua insistência no estudo da estrutura, sobretudo a do espaço narrativo – tema de sua tese de doutorado – e sua exigência por um leitor participativo, presente em textos construídos como jogos verbais e visuais, vistas à luz das questões postas pelo avanço dos mais recentes meios de comunicação, adquirem aquela clareza a que ele tanto aspirava quando falava de sua obra”.
Comparável a O Jogo da Amarelinha (Rayuela), obra labiríntica máxima do argentino Júlio Cortázar, Avalovara é, por assim dizer, um romance desprovido de seqüenciamento lógico, onde o espaço (O quadrado) bifurca-se no contato com o tempo (A espiral) num movimento de contágio temático que beira o assombroso. O espaço é a própria edificação das personagens, que habitam inatamente o território da racionalidade, figurada pelo quadrado, e que sem cerimônia transitam sobre o plano simbólico-metafórico-onírico de um local que é apenas simulação, mas perfeitamente existível, a espiral.
“Avalovara é uma obra virtual, se entendemos virtual como o oposto ao atual, e não ao real. Real sem ser atual e ideal sem ser abstrata, esta obra ditava, há três décadas, os preceitos de uma nova forma para a escrita e para a leitura, elaborando-se não como um romance de ficção científica, mas como uma ficção científica do próprio romance, como uma metáfora cibernética de um futuro possível para a literatura, projeção imaginária e idealizada de um suporte que viesse somar uma riqueza de possibilidades à palavra, potencializando-a e aos seus efeitos no mundo”, reforça Ermelinda.
Sobreposta ao quadrado da razão, a espiral mágico-mitológica do enredo elabora a passos vagarosos e milimetricamente pensados os fragmentos de uma moldura única. Cada fragmento constitui uma personagem que, por sua vez, representa a necessária estrutura para que o outro passe a existir, mesmo que este outro aparentemente apareça destituído de realismo. Realismo, no caso de Avalovara, não é nem de longe um dos objetivos que norteiam o leitmotiv da obra. É como se o irreal, visto aqui como uma opção de recurso literário, funcionasse a vapores plenos em matéria de complexidade formal e conteudística.
Toda personagem surge de uma aresta, de uma esquina onde uma lacuna possibilita uma entrada, mesmo sabendo que só há uma entrada para o mundo da razão, ou seja, para o quadrado, que é pela ponta da espiral, ou seja, a voz do narrador: caminho sem-razão. Sendo assim, todo personagem é um só, o espaço delimitado e percorrido pela espiral: o quadrado. A espiral representa o infinito, o quadrado simboliza o além-infinito. A espiral está dentro do quadrado, que apesar de ser o ad infinitum é um território demarcado, portanto finito em sua infinitude. As personagens escorregam pelo corpo imaginário da espiral e elaboram um trançado de ações que se movimentam para um centro aglutinador de energia, para uma espécie de olho de furacão.
De acordo com Ermelinda, “Osman Lins acopla seus motivos clássicos, grande parte deles de influência medieval, traduzindo talvez um paradoxo que se percebe em toda a sua obra, tantas vezes verbalizado em seus textos de intervenção e de crítica: um misto de amor e de horror à tecnologia, à máquina, ao ruído contemporâneo, que o fazem desviar a atenção constantemente para a arte antiga. Este sentimento ambíguo de desejo e repúdio com relação à modernidade; este apreço confesso à história e ao ritual, ao lado da criação de procedimentos narrativos que aniquilam a linearidade e a seqüencialidade históricas, encontram tradução em Avalovara, na busca de ambientação na arte medieval (pintura, música e literatura), representada pelos volteios da espiral, posta “sobre” ou “dentro” de um arcabouço racional (o quadrado)”.
Abel, personae-narrador do livro, divide seu protagonismo com o amor de sua vida: uma personagem mulher sem nome, representada por um símbolo gráfico circular pontuado ao centro e com duas espécies de aspas na parte superior. A mulher que não possui nome é criação de Abel, portanto protagoniza o romance que Abel está escrevendo. Isso reforça a idéia de que Avalovara é, segundo o próprio Osman Lins, uma “alegoria da arte do romance”. Há um romance dentro de um romance, uma história dentro de outra, uma ficção no interior de uma ficção. A mulher sem nome na verdade não existe, ou existe para além dos muros da realidade que não é real, ou seja, a realidade do romance escrito por Abel.
Para Marisa Balthasar Soares, professora doutora da USP, Avalovara “ficcionaliza sua própria elaboração”, onde “é proposto um enredo em jogo palindrômico, que nada tem de gratuito, mas, pelo contrário, promove a possibilidade de ruptura com a linearidade do tempo narrativo. A mesma ruptura perseguida pelo personagem central Abel, um escritor marcado pela tensão entre a história imediata e um projeto literário de cunho universalizante, fundado no tempo mítico e para quem o passado não se cristaliza, mas se faz, como na utopia benjaminiana, a condição de transformação do presente”.
Abel a descreve como sendo ela filha de um ciborgue, simulacro de duas existências, mulher feita de metades e junções. Ao passo que a ama, Abel também a odeia, por saber que a única verdade da personagem amada é que ela não pertence ao mesmo plano existencial que o seu. “É na experiência de amor e morte de Abel junto a três mulheres - que ambiguamente são personagens do romance, no mesmo grau de ficção em que está Abel e, simultaneamente, sugerem-se como personagens de segundo grau, isso é, criações dele - que surge a experiência do tempo único”, diz Marisa.
A mulher sem nome é fruto da imaginação de Abel. Abel, por sua vez, é fruto da imaginação de Osman Lins e a entidade que melhor representa o quadrado. “Em um mesmo corpo reúnem-se o mecânico e o orgânico, a cultura e a natureza, o simulacro e o original, a ficção científica e a realidade social, exatamente o que encontramos no romance de Osman Lins”, afirma Ermelinda.
O corpo da personagem é um disco rígido, onde as memórias de Abel são armazenadas sem piedade. Tudo é depositado nela: dor, angústia, revelações, lembranças, alegrias, tristezas... Tudo amontoado numa caótica limpeza físico-espiritual da alma de Abel, por isso “ela circula numa atmosfera algo imprecisa e nebulosa à qual não escapam percepções que hoje nos parecem frutos de uma visão premonitória de um novo suporte técnico para a ficção, intimamente relacionado com a estrutura do hipertexto”, reitera Ermelinda. Como escreve o próprio narrador, ele se serve a mulher como “uma imensa máquina que mói e derrama sobre seu corpo, triturados, os anais do universo, a gigantesca massa de eventos e processos não só do mundo visível, mas do imaginado e do inimaginável”.
A mulher sem nome é o amor em grau máximo para Abel, material significativo para explosões emotivo-racionais, o que lhe é causa para inúmeros destemperamentos e rumores de desconfiança. Mas não é só a relação com a personagem sem nome que é conflituosa e difícil. Com Roos – alemã, símbolo de um platonismo cru – os percursos que dão para o amor são tortuosos para Abel, muitas vezes nebulosos. Mesmo relacionada ao paradoxo do encontro desencontrado, Roos é o índice da compaixão. Roos é o percurso, a estrada que leva Abel para a vida. Roos é o próprio pássaro Avalovara, no qual Abel viaja por imensidões inestimáveis montado em seu dorso de penas imaginárias. Sem Roos, nem Cecília nem a mulher sem nome existiriam.
Já Cecília é o encontro, a certeza que se chega a algum lugar, mesmo que este lugar não tenha piso, parede, terra. Cecília é também o tempo, por isso é inesgotável e onipresente. Cecília está em Roos e na mulher inominada. Cecília está no plano do romance de Abel e no plano narrativo que Abel representa (O quadrado). Todas as mulheres são metafóricas, imitações de um desejo. São elas o próprio romance que Abel está escrevendo, ou seja, A viagem e o rio. Uma depende da outra para ser, uma acontece depois da outra e antes da outra.
Após a andança amorosa de Abel, que percorreu Pernambuco e Europa e por fim desemboca em São Paulo, ele encontra o percurso certeiro para o amor perfeito. Abel morre e assim todo o mosaico está completo. O bordado terminado. A catedral, com suas naves repletas de simbologias, erguida ao céu dos sentidos. Com Abel morto, a mulher sem nome, Roos e Cecília se libertam do quadrado. São agora somente a espiral. E tudo pode acontecer, só depende do leitor e de como ele fará a releitura, ou melhor, só depende de como e para onde ele seguirá, claro, preso às asas do pássaro mítico de Osman Lins.
sábado, 20 de janeiro de 2024
TORTO ARADO, de Itamar Vieira Junior
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Descobrindo Bartleby em mim

Era o meu último ano em Salvador-BA quando li o livro Bartleby, o escriturário (Uma história de Wall Street) pela primeira vez. O ano era o de número 2004 e eu contava 19 anos de idade. De Herman Melville (o Homero do oceano Pacífico, no dizer de Albert Camus), escritor estadunidense tido como um dos precursores da filosofia existencialista e autor da obra acima citada, eu "somente" havia lido o seu texto mais importante: Moby Dick, publicado originalmente em 1851 e, curiosamente, motivo para seu "desprestígio" literário quando ainda em vida. Após o deleite sentido ao ultrapassar as muitas páginas e as águas infindas do oceano, como mais um tripulante do navio baleeiro Pequod na fantástica busca à enfurecida baleia branca, a história do excêntrico escriturário Bartleby me ocorreu às vistas. Deitado no sofá da sala, ali no 201 do bloco 61, no Conjunto dos Comerciários, numa tarde amena, li de um só pulso o impactante livreto que, segundo Jorge Luis Borges (meu escritor preferido), é uma das obras literárias mais relevantes da humanidade. Digo impactante porque, apesar de curto o enredo, foi após o findar da leitura que tive a noção perturbável de como um "não", enquanto resposta, pode ter seu sentido salvaguardado e justificado em nossa humanidade quando nos encontramos diante de certas situações convencionadas como corretas e básicas dentro das relações sociais. O conto é narrado por um velho advogado que trabalha no bairro nova iorquino de Wall Street. Com o aumento da demanda de trabalho dentro do estabelecimento, o advogado-narrador, tentando cumprir com o seu quinhão, percebe que os seus dois ajudantes oficiais, Nippers, Turkey, assim como o menino Ginger Nut não conseguiriam dar conta das novas empreitadas e, assim sendo, resolve contratar mais uma pessoa para acelerar as atividades. Depois de colocar anúncios nos jornais, Bartleby surge à porta destinado a ocupar a vaga de copista de documentos estritamente burocráticos:
"...palidamente limpo, tristemente respeitável, incuravelmente pobre!"
Conta-nos, o advogado-narrador, que nenhuma pessoa lhe causou tanta estranheza e lhe despertou tantos sentimentos como o jovem Bartleby. Desinformado quase que por completo a respeito do novo contratado, segue dizendo:
"Bartleby foi um daqueles seres sobre os quais nada é passível de confirmação".
Tudo estava indo bem, Bartleby aparentando ser um sujeito por demais responsável com os seus afazeres. É quando ocorre o primeiro susto. Requerido pelo chefe a conferir todo o trabalho que houvera feito, Bartleby calmamente responde:
"Prefiro não fazer".
Após o primeiro desordenamento provocado pela inesperada resposta do novato, uma série de alterações morais, psicológicas e de humor são desencadeadas nos personagens que compõem a trama.
"... havia algo em relação a Bartleby que não apenas me desarmava estranhamente, como, de um modo maravilhoso, tocava-me e desconcertava-me".
Num misto de piedade e inconformismo, o advogado-narrador começa a ser atingido de diversas formas pela personalidade obscura e misteriosa de Bartleby.
"Não são raros os casos em que um homem intimidado de uma maneira irracional e sem precedentes tenha suas crenças mais básicas abaladas".
"Nada irrita tanto uma pessoa séria quanto uma resistência passiva".
E Bartleby, numa resistência estóica a qualquer pedido, seguia desafiando "sem desafiar" - porque não era verbalmente ríspido, agindo sempre com o extremo da paciência - a ordem natural das coisas.
"Eu me sentia estranhamente disposto a provocar uma nova oposição de sua parte para arrancar alguma fagulha de raiva dele a que eu pudesse responder da mesma forma. Mas era o mesmo que tentar fazer fogo esfregando os nós dos dedos numa barra de sabão Windsor".
Certo dia, indo a um culto numa igreja próxima, o advogado resolveu passar antes no escritório. E, para a sua surpresa, lá encontra Bartleby. Detalhe: não era dia de expediente. Bartleby conseguira adentrar não só a alma e mexer com as faculdades mentais de todos os seus convivas, mas agora havia tomado de vez o espaço físico do lugar, o que causava ainda mais confusão no arranjo das reflexões inerentes a ele feitas pelo chefe.
"Porque eu considero castrado um homem que permite tranquilamente que seu funcionário lhe dê ordens e diga-lhe para retirar-se do seu próprio imóvel".
Mas, ao mesmo tempo:
"Não se podia pensar por um segundo sequer que Bartleby fosse uma pessoa imoral".
"Ao relembrar todas essas coisas e compará-las com o fato recém-descoberto de que ele fizera de meu escritório sua residência fixa e lar, e sem esquecer de seus caprichos mórbidos; ao relembrar isso tudo, um sentimento de prudência começou a tomar conta de mim.
"Eu poderia oferecer compaixão ao seu corpo, mas não era seu corpo que lhe doía; era sua alma que sofria, e a sua alma eu não conseguia alcançar".
Diante de tal dérbi, o chefe decide demiti-lo. Mas ouve a resposta:
"Prefiro não ir"
"Ele era mais um homem de preferências do que de conclusões".
Beirando a estafa, lutando contra sua própria cólera e já por demais entregue ao desconhecimento de alguma provável solução para o caso de seu funcionário, o advogado decide, ele próprio, distanciar-se de Bartleby.
"... um errante, que se recusa a sair do lugar?"
"Já que ele não vai me deixar, eu devo deixá-lo".
...
O final não cabe a mim contar, porque não é meu desejo tirar de você, leitor, o prazer da plena leitura. O certo é que quando me perguntam se eu já li a história de Bartleby, digo que sim e ainda complemento: foi lendo este livro que aprendi a muitas vezes dizer um "não" como resposta. O condensado "prefiro não" (no original: I would prefer not to) evoca um tempo reflexivo de que o ser humano está demasiado carente atualmente. Engendrado numa mecânica social sistemática, onde as relações humanas se dão através de valores baseados na eficácia de sua produção, ligados a uma forma desumana de vida, capitalista ao extremo, o simples gesto de não aceitar fazer o que é requerido acaba se transformando numa metafórica afronta à "entidade superior", detentora do poder. Sófocles, dramatrugo grego, já dissera certa vez: "Há algo de ameaçador num silêncio muito prolongado", e o silêncio de Bartleby, apesar de aparentar-se simples, funciona como o grito mais operante, o berro último contra o absurdo dos modos "normais" de se viver e de se relacionar, a reação mais pura diante de uma barbárie metamorfoseada em rotina, quase sempre camuflada e desconectada da verdadeira essência do ser humano. O livro é uma ode à rebeldia coletiva, partindo do princípio de que somente através de uma mobilização individual somos capazes de reverter os quadros de subalternidade, desrespeito e desassossego a que estamos diariamente sujeitos. Vale lembrar o contexto histórico ao qual o livro está unido, época de afirmação do modo de produção capitalista. Aí me recordo de um dia, numa aula no curso de jornalismo, quando um professor disse-me: "Germano, seu silêncio é mais perturbador que todo o barulho da sala". De chofre remontei Bartleby dentro de mim, com fixas peças de obstinação e verdade. Naquele dia me senti na pele daquele jovem escriturário de Wall Street, silencioso em sua revolta interna, explodindo como um vulcão ativo suas ânsias mais vorazes, perscrutando da vazia paisagem na janela o sentido mais íntimo destinado ao verbo "SER".










