segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira 16 de novembro de 2017
Visagem


Illusion

Accrochée à la mer
comme la crête d’une vague,
si fluide et si sérieuse
si blanche, tu es revenue.

La violence et la souffrance m’ont ramené à la vie.
Où sont donc tes morts?
Qui sont-ils?
Hier je rêvais d’une énorme tête tournée vers le vent
dont le visage était la solitude.
Pas aujourd’hui.

Aujourd’hui tu es venue.
Et ici le sable est chaud.

Ici même.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/%C3%B3culos-retro-vintage-floresta-3301674/

sábado, 7 de abril de 2018

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XV)



Viana, meu bom amigo,

Passaram-se dez longos meses desde a tua última missiva, à qual não consegui responder senão em pensamento. Esgotei há muito todas as desculpas airosas, convenientes ou aceitáveis mas sei que não preciso de nenhuma delas para continuar esta conversa interminável, um pouco ao estilo de Sherazade. Nesta idade (minha) as longas pausas tornam-se perigosas porque corro o risco de repetir-me até à exaustão, e tu ainda não atingiste aquela bonita idade em que também já te vais esquecendo e por isso não voltarás a rir das minhas velhas piadas nem a aturar as minhas lamúrias recorrentes. Se o fizeres será por pura elegância, por seres um cavalheiro, coisa que nunca te agradecerei o suficiente.

Depois de tanto tempo sem conversa consistente não posso pôr-te a par de tudo e sei que também não é o que te interessa. Mas lembrei-me de te falar de uma coisa que me tem perseguido: será lícito separar o autor da sua obra, quando fazemos uma apreciação crítica sobre alguém que foi um modelo de outras épocas, que ainda é? Hoje li, sobre um autor de referência, um texto muito bem escrito por um historiador que revelava algumas posições polémicas do escritor sobre a escravatura. Descontextualizadas, certo, mas ainda assim bastante explícitas. O próprio historiador autor do ensaio refere que aquele seria “o pensamento dominante da época”; é sempre um risco julgar alguém a posteriori, mas a verdade é que a História é feita assim e nós também seremos olhados por um prisma desconhecido, nós, sociedades atuais, pois conhecemos o passado mas não o futuro nem os modelos sociais que irão impor-se.

Voltando a este autor e comparando-o com outras figuras da época, quando muitos já se opunham à escravatura e pediam incessantemente o seu fim, pode parecer, e parece, que ele assumia plenamente e conscientemente a sua posição, provavelmente moldado também pelos países em que viveu. Esta faceta mais obscura, digamos, não se observa nos seus escritos literários, nota bem, mas apenas em artigos de opinião. Ainda assim levanta-se a questão que te coloquei há pouco: podemos ou não separar o autor da sua obra?

Lembrei-me de outros casos, senão semelhantes, comparáveis. Não falo de escravatura mas de outros temas igualmente polémicos que hoje, HOJE… reúnem consenso, pelo menos quando os autores falam em público. Muitos têm uma prática contrária ao que expressam. Penso em Vargas Llosa e em Jorge Luís Borges, dois autores magistrais, grandiosos, mas em relação aos quais não me revejo forçosamente no plano político, nas suas afiliações filosófico-partidárias ou em muitas posições assumidas ao longo da vida. Penso num romancista francês conotado com o nazismo, colaboracionista ativo, cujo nome não recordo, executado depois da segunda Grande Guerra. A sua obra, até onde a li, não revelava essas opções mas a sua prática sim, claramente. E penso inevitavelmente naquele belíssimo poema do Silvio Rodríguez (Playa Girón, um dos temas cubanos que marcaram a minha adolescência), em cuja letra ele se questiona, nos questiona sobre o assunto…

“(…)Compañeros de historia,
Tomando en cuenta lo implacable
Que debe ser la verdad, quisiera preguntar
Me urge tanto,
¿Qué debiera decir, qué fronteras debo respetar?
Si alguien roba comida
Y después da la vida, ¿qué hacer?
¿Hasta dónde debemos practicar las verdades?
¿Hasta donde sabemos?
Que escriban, pues, la historia, su historia
Los hombres del Playa Girón(…)”

Como Silvio continuo estupefacta procurando encontrar um sentido para os comportamentos dos homens, saber quem são os bons e os maus neste caos em que nos encontramos. Mas por outro lado o facto de encontrar “faltas graves” nos meus ídolos torna-os mais humanos, falíveis, mais perto de mim também. Há valores imutáveis mas outros sofrem rápidas transformações. Cresci acreditando que a honra e a palavra dada, por exemplo, eram coisas sagradas, hoje pouco valor têm em muitas sociedades. Não eram os únicos princípios a reter, claro, mas a responsabilidade e o dever eram glorificados. Hoje as liberdades individuais são sacralizadas, ainda bem, são valores que também subscrevo, mas vejo com espanto que muitos não conseguem conciliar esses conceitos com os outros que referi. Apenas em uma ou duas gerações as coisas mudam… então respondamos à questão do Silvio: “Se alguém rouba comida e depois dá a vida (por algo, por alguém), que fazer?” Eu continuo a não saber. Diz-me tu, meu amigo, se souberes.

Quanto aos escritores de hoje, conheço alguns que não são exemplo de ética, ignoro como serão olhados no futuro. Não estou a falar de opiniões mas das suas vivências. Pessoas que dissertam maravilhosamente sobre a condição humana mas que podem, como empresários ou representantes de algum tipo de elite, financeira, política, etc., ter relações muito questionáveis com os seus trabalhadores, confinando-os a uma posição de quase escravatura, ignorando os seus direitos mais elementares. Veremos como o futuro nos trata, os trata… veremos, sentados em algum cadeirão aveludado em frente de uma qualquer estrela e com um banquinho para os pés.

Mas não quero chatear-te com estas coisas existenciais, qualquer dia nem respondes às minhas cartas... agora para aligeirar um pouco, se eu te disser “O Gugu vai à escola” ainda pensas que ando a escrever uma história infantil. E porque não? Mas eu explico: volta e meia vou ao tradutor do Google fazer umas experiências e ver como anda a evolução daquilo. E tem evoluído. Bastante. Está longe de ser um instrumento exemplar mas nota-se que há um esforço grande para aperfeiçoá-lo, dá para ficar com uma ideia do texto talvez em 80% dos casos. Então hoje eu experimentei usar um texto de umas 150 palavras, que já tinha traduzido manualmente e tive a surpresa de ver que a tradução estava quase humanizada, com subtilezas até, embora ainda com muitos erros. De repente ocorre-me esta expressão: “O Google foi à escola!”, o que passou para “O Gugu vai à escola!”. Se um dia vires este título num conto infantil saberás quem é a autora e o que está na génese disto tudo. Mas aposto que com um nome destes, quase de certeza que já existe…

Agora sobre a minha última carta reparei que algumas coisas andaram no bom sentido, prova de que mesmo sem fazermos planos quando remamos para um lado acabamos por ir nessa direção ainda que sem grande velocidade. Mas é importante manter o rumo, não perder o fio à meada, para percebermos que a pessoa que somos hoje tem alguma relação com quem fomos há um ano. Eu falei-te na altura num caderninho vermelho, estofado, onde tinha muitas notas e desenhos. Pois bem, imagina que andou perdido uns meses e depois reapareceu dentro de uma camisola velha. Há escassas semanas…garanto-te que festejei!

Sobre os caminhos da fé crismei-me no ano passado, a 25 de Junho, sei que não é um fim em si mas um começo, atribulado e cheio de tropeços, mas é um começo. Na altura em que te escrevi estava a receber aulas para chegar a esse sacramento. Valeu a pena? Espero que venha a fazer sentido, um pouco mais cada dia. E também te tinha confidenciado que andava metida nuns projetos com a Armanda, escrevendo contos sobre os quadros dela, e com a Santana, poesia sobre fotografias. Hoje são dois filhotes já cá fora, o livro com a Armanda saiu em Maio último e o de poesia, que implica também indiretamente a minha amiga Ysabelle, pintora, está cá fora desde o princípio deste mês. Não tínhamos planos, não tínhamos um horizonte temporal, mas tínhamos um desejo de concretizar e fomos aproveitando as oportunidades. Temos esses pequenos sonhos realizados e a vontade de sonhar outros, de levá-los mais longe. E um livro é sempre um princípio de alguma coisa, pois só faz verdadeiramente sentido quando chega a quem o deseja ler. Foram duas parcerias que me animaram e me realizaram muito, sei que contigo também tenho um caminho e quero saborear cada curva da estrada e cada grão de poeira. Não sou de pressas, gosto apenas de fazer bem e mesmo isso nem sempre se consegue.

E tu que me falavas na tua última carta de inadaptação, da maneira como nós conseguimos sobreviver embora nada o fizesse prever, porque seriamos dessas espécies destinadas à extinção. Mas aqui estamos, Viana, haverá com certeza um propósito nisso, somos bichos atípicos mas alguma coisa nos faz esbracejar e mantermo-nos à tona. Talvez seja a palavra, escrever para viver e vice-versa. E também discutíamos a questão do Minimalismo, aquele conceito de consumir só o necessário, de reduzir, no fundo de evitar ao máximo o desperdício não é? Tu explicavas-me na altura que tem a ver com sustentabilidade. Eu confesso que me parece uma ideia ótima, subscrevo completamente. Creio que herdei esses princípios dos meus pais e avós, numa época em que não se falava nos termos em que se fala agora, apenas se exaltava a importância da poupança e de economizar, de uma certa frugalidade, as irmãs mais novas herdavam roupas das mais velhas, os livros passavam de mão em mão, a água de lavar legumes servia para regar as plantas e o frango assado era depois usado para desfiar. As cascas de fruta eram adubo, enfim, coisas simples e práticas. Fazes bem em pensar que podemos mudar alguma coisa no metro quadrado em que vivemos, se todos pensarmos assim chegaremos com certeza a algum lado melhor. Acho que os mais jovens estão a voltar a ter essa consciência, essa onda do Minimalismo, do reciclar, reutilizar e reduzir. A minha geração foi muito perdulária e habituou-se ao desperdício mas creio que estamos no bom caminho. Ingenuidade minha?

Meu querido amigo, fico, como sempre, ansiosa por ler-te. Sobre o Brasil, que também nos tem preocupado ultimamente, sobre ti e tudo o que vais observando. Sobre este mundo estranho em que muitos pensam que dar uma arma a cada cidadão nos protege. Nada como uma pessoa medrosa e armada para se transformar num assassino em potencial. Mas isso é outra história.

Um abraço fraterno, muitas saudades, e vontade de ter essa conversa pessoalmente. A promessa e o convite já vêm de longe.

Clara.

Lisboa, 24 de Março de 2018



********






Clara,

Perdoe-me. Prometo retomar os assuntos abordados por tua pena numa próxima conversa nossa. Prometo.

Daqui, sigo feliz por suas conquistas. Por todas elas. E me desculpe por estas minhas últimas faltas contigo. Hoje talvez levem Lula à prisão. A política nacional está em polvorosa. O Brasil clama. O coração do povo insiste, batendo, teimoso que é. Para mim, é um dia mais triste que alegre. Mas, sigamos...

Com estima e saudade, Viana.

Pernambuco, Brasil, 07 de abril de 2008.



********



Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

* Imagens: Cristina Seixas

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCVI)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Adiante nem é um porém

Aller de l’avant n’est pas une contrainte

Mon temps à moi n’a pas de montre.
J’ai laissé derrière moi deux ou trois amours,
Un silence d’auteur et une douzaine d’abîmes.
Maintenant, en ce qui me concerne, seule la paix est une nouvelle
Sur mes textes critiques le temps n’a pas de traces,

[Déliée de bornes]
L’humanité apparût par la suite
Et à la fin nous perdîmes tous le temps nucléaire,
Celui qui s’ouvre en face, face à face, et qui créa le vent.

Mon cœur démuni est un fragile colon,
Vaincu maintes fois par la beauté du monde.
Violé, parfois inapte, mais qui fait preuve de courage face aux demandes de mon insistance, de mon refus de désister
Le cœur est toujours pris par sa mission, le verbe aimer.

Toi qui es dans l’ombre ne crains pas les nuits des jours.
Car la vie se reproduit, se déroule et ne se retourne pas
[mais les cycles se répètent à perpétuité].


* Imagem: https://pixabay.com/pt/malabarista-truque-ma%C3%A7%C3%A3-homem-1216853/

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Textos literários: como lidar com eles?


Por Germano Xavier


A sedução literária – sabemos - não necessita, obrigatoriamente, do que é enfeite, do que se apresenta tal qual um ornamento ou algo do tipo, e por um mero detalhe apenas: a sedução por si mesma não engrandece a criação, a obra, o valor de uma autoria. Todavia, há de se suspeitar – ao menos isso – de que a sedução presente em um texto literário mais importa pelo que revela ou desnuda o quanto de humano existe em uma determinada construção narrativa.

Dentro deste espectro de entendimento e de debate, presencia-se no mercado livresco a publicação de um grande quantitativo de livros destinados ao ensino prático de alguns domínios e técnicas voltadas à narração literária, e isso não é lá nenhuma imperiosa novidade. Como exemplo disso, podemos tomar o livro COMO MELHORAR UM TEXTO LITERÁRIO, da série Guias do Escritor, de Lola Sabarich e Felipe Dintel, publicado pela editora Gutemberg em 2014. Para os autores supracitados, na dada obra, a elaboração de um bom texto literário passa automaticamente e quase que unicamente – infelizmente, essa é a impressão que fica após a leitura do material - pelo conhecimento de uma base técnica de ferramentas, instrumentos e recursos que, quando dominadas com excelência por um eventual autor, possui a capacidade de fazer com que boas narrativas sejam criadas a quaisquer instantes e por quem assim desejar. Mas isso é realmente o bastante?

É óbvio que os autores do referido livro sabem muito bem que apenas dominar as técnicas de redação de textos literários não fará de um leitor comum um exímio escritor. Tal acontecimento pode até se dar, num enlace muito fortuito do destino ou do acaso, mas é bem aí que mora o perigo. Será que os leitores interessados nesse tipo de leitura – leia-se, manuais de escrita - possuem semelhante esclarecimento em suas mentes? Será que sabem que a literatura não é tão simples assim a ponto de se permitir dominar através da leitura de reles "10 mandamentos"? É, deveras, relativamente fácil se perder em tais diretrizes e ensinamentos camuflados ao melhor estilo “cartilha” ou “manual” e, assim posto, acabar por ver nascer uma enorme confraria de entusiastas na matéria que desconhecem outras práticas de aprimoramento da escrita de textos literários, e por vezes muito mais eficazes.

A mera criação de um texto literário não faz de nenhum leitor um artista, é preciso que saibamos disso. No texto “O direito à literatura”, Antonio Candido (1995, p.242), afirma que a literatura é uma “[...] manifestação universal de todos os homens em todos os tempos [...]”. Segundo ele, não há quem possa “[...] passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia [...]” (CANDIDO, 1995, p.242). Todos nós possuímos o direito de bolinar no que é do universo íntimo e natural da literatura. Porém, faz-se cada vez mais urgente o desenvolvimento de um sentimento de respeito para com tal órbita do conhecimento humano. Não que devamos respeitar tanto a ponto de nos distanciarmos dela, pelo contrário. Precisamos respeitar a literatura para que possamos adentrá-la em sua real magnitude e encantamento.

Muito antes de encararmos estes guias que nos fornecem as ferramentas ditas necessárias para o aprimoramento de um texto literário, que nos emprestam facilmente exemplos de como construir uma cena, de como caracterizar e construir personagens, de como manipular o tempo no texto, de como adaptar o ritmo narrativo à ficção, entre tantos outros “achados” imprescindíveis, é preciso compreender que a literatura, como salienta Colomer (2007, p.70), “[...] é um dos instrumentos humanos que ensina “a se perceber” que há mais do que o que se diz explicitamente. Qualquer texto tem vazios e zonas de sombra, mas no texto literário a elipse e a confusão foram organizadas deliberadamente. Como quem aprende a andar pela selva notando as pistas e sinais que lhes permitirão sobreviver, aprender a ler literatura dá oportunidade de se sensibilizar os indícios da linguagem, de converter-se em alguém que não permanece à mercê do discurso alheio, alguém capaz de analisar e julgar [...]”. Com outros gêneros ou tipologias textuais, você pode até tentar um domínio pleno de atuação perante o objeto de seu usufruto, mas com o texto de ordenação literária isso tende a se mostrar um tanto quando duvidoso e melindroso.

A linguagem literária é considerada por muitos um código bastante elaborado e apto a disfarçar outro, como se exercesse a partir e após ele mesmo um cruzamento de linguagens várias. Daí eu acreditar que não é o homem que está logo ali a caminhar e a criar narrativas, mas as narrativas é que estão a criar o homem e a ensiná-lo a caminhar. Daí, também, a importância de ler. De aprender a ler, ler profundamente, ler com todas as aberturas da alma, pois no fim de tudo, o que assume o plano primeiro em um texto literário é a sedutora - sim -, e também traiçoeira, palavra conotativa. Sendo assim, e de antemão, torna-se necessário mostrar a verdade – ou as verdades - e, por isso, a construção da fantasia não pode jamais terminar se transformando em um empecilho a essa ideia. E – convenhamos - dificilmente um guia de escrita de textos literários poderá ter a audácia de querer destrinçar tais nuances e segredos.

Se, de algum modo, a literatura, a leitura-fruição ou a leitura-prazer é capaz de amenizar os males, as marcas e as dores do caráter humano, de nos pôr mais sensíveis perante as coisas e o mundo, de nos projetar como sendo seres mais harmoniosos e solidários, por outro, o ato de ler abre nosso campo de visão de maneira irreversível. Um mundo melhor passa – não só, mas também – por uma literatura cada vez melhor, mais sábia, atuante e presente. Por isso, trabalhar com literatura deve sempre ser visto como um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre literatura é, de algum modo, ser o outro no momento do outro, num movimento de compreensão e empatia mútuas. O trabalho com esse campo do conhecimento e da arte, como em qualquer outro, termina por ser inútil quando não há nenhuma pretensão de transformação, seja ela qual for.

Para mim, em assim sendo, será bem mais fácil ou bem mais provável imaginar que alguém possa “melhorar” um texto literário lendo um bom autor de textos literários do que lendo mantras de produção de textos literários recheados de táticas de elaboração redacional. Pois que, quando a leitura produz sentido ao homem, este mesmo homem pode exercer uma capacidade propriamente humana – a sua criatividade – e, assim, por meio da produção e da construção de sentidos, é avidamente capaz de transformar sua realidade (ROMÃO, 2006, p.34). Vamos pensar mais sobre isso?





* Imagem: http://escolakids.uol.com.br/texto-literario-e-nao-literario.htm

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Não existem poemas de Amor



Por Germano Xavier


não existem poemas de Amor
quando se altera o estranho dos Verbos,
quando o circuito costumeiro das entregas
forma uma chuva de emboras

| ou apenas pesa.

sobre o Amor, prontificam-se poemas
quando o capricho é último
ou quando a palavra abre a porta do miúdo quarto
de hotel reservado às pressas, no centro
de todas as representações.

não existem poemas de Amor
quando a alma, como num ímpeto da carne,
esconde o que nos antagoniza.

não existem poemas de Amor
quando, iniciados e implacáveis
diante do acabamento das coisas,
reduzimo-nos a nós mesmos.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/velas-natal-cart%C3%A3o-de-sauda%C3%A7%C3%A3o-2993936/

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCV)


Por Germano Xavier

"tradução livre"



A sutil diferença


La différence subtile


L’éclat n’a aucune importance
ni les machines d’aluminium glacé.
La qualité de la poudre blanche non plus
Ce qui vaut le coup tient en une boite à saveurs et couleurs.

Elle a le goût probable,
la fièvre certaine de la cure, une fin subtile
faite d’oublis et de croyances

Le goût
avance et rassemble nos efforts communs
de courage et d’espérance.

C’est la goutte,
minimale, qui se transforme en l’eau
la vie, les battements cardiaques, le mouvement.

Le silence impérissable
des terres, la maitrise réelle des précisions,
sont les revenus de ceux qui veulent se défier eux-mêmes
ou de ceux qui existent, tout simplement, de ceux qui se soulèvent.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/montanha-neve-montanha-de-neve-pico-1245916/

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Prêmios para pulhas em manobra

*
Por Germano Xavier

os que acreditam em tudo que leem,
por serem os mais numerosos,
comporão a massa dos desavisados
- ou dos pássaros tontos.

os que já não mais acreditam em coisa alguma,
por serem nômades em seus atos,
desconfiarão amargamente das agitações.

os que submetem tudo à crítica para chegarem ao juízo final,
pavões elitistas dispostos aos cuidados da mamãe,
lerão, perplexos, as notícias de seus vexames.

ABAIXO O PERIGO! ABAIXO O PERIGO!

os outros,
caixas sem prego,
serão premiados pelo livre descaso.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/disease-565742510

A vida errante de Magerno Raviex

*

Por Germano Xavier


soube adiantar o passo:
passou para o lado oposto das ruelas
antes logo de qualquer impasse.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Evil-and-victim-689880907

domingo, 10 de dezembro de 2017

Minha vida e o português brasileiro contemporâneo



Por Germano Xavier


Desde que inventei de assumir o posto de professor pela primeira vez em minha vida, ali pelos idos do ano de 2004, precisei mudar o trato para com a Língua Portuguesa. Antes, aquele jovem professor, com vinte anos incompletos, muito inexperiente e refugiado em um mundo onde a literatura representava o reino mais perfeito dentre todos os outros possíveis, facilmente confundia o que era mesmo importante a ser reforçado ou levado à discussão diante de uma plateia que, por vezes, passava dos cem alunos. O jovem professor que fui, encantado de maneira plena com a possibilidade de poder auxiliar pessoas em suas diversas escolhas profissionais ou de vida - propriamente dita -, ainda desconhecia em parte o poder dos letramentos.

Foi com o tempo - e já se passaram 13 anos até então -, que o professor que sou foi se formando e adquirindo o que outrora muito lhe custou: a plena percepção de que promover o letramento de seus aprendizes através de estudos novos e reformados da língua e seus afluentes era o caminho mais aprazível a se almejar. Assim, a gramática – dura e pura – começou a ceder espaço para atividades epilinguísticas, que percorrem um caminho de análise que parte do uso para, no fim, retornar ao uso, passando antes pelo momento da reflexão. A minha fala foi deixando de ser uma fala forte, de tom único, que se expandia pelo vão das salas tal qual uma verdade absoluta, tal qual um colosso inquebrantável. A minha fala deixou de ser a “minha fala” e se transformou na fala dos meus alunos, na fala de suas experiências de vida, na fala dos outros que somos, na fala das ruas, na fala dos acontecimentos, na fala do mundo.

Destarte, aprendi que textos autênticos, falados e/ou escritos, dotados de força vital, seriam as melhores armas para fazer com que meus aprendizes partissem diretamente para o momento de beleza máxima que é o da construção de sentidos, não estritamente ligados à língua, mas também os seus próprios sentidos percebidos enquanto seres humanos singulares um a um. Com isso, em minhas aulas, adentraram a sala de aula os mais diversificados autores, músicos, poetas, escritores e artistas em geral, de todas as categorias e nichos, com ou sem prestígio social, aclamados ou não pela crítica muitas vezes burra e parcial de nosso país. Foi quando comecei a dar aulas de base semântica utilizando um cedê da funkeira ou do pagodeiro da moda, quando fiz um debate de cunho mais pragmático relacionando o noticiário do momento e quando prestigiei a análise dos discursos assistindo aos vídeos mais descolados que tanto faz a cabeça da garotada.

Esqueci de destacar: nesses 13 anos como professor, tenho escolhido ser professor de alunos menos favorecidos socialmente, alguns muito pobres, outros residentes em localidades fincadas em zonas rurais quase que totalmente esquecidas pelo poder público do Brasil, que sofrem com carências mínimas relacionadas aos mais comuns dos direitos humanos, como falta de água, alimentação e moradia. Um Brasil profundo que muitos professores, pelos mais diferentes motivos, desconhecem ou fingem desconhecer. Esses aprendizes, ou seja, aqueles meus alunos que mais dificuldades passaram durante a vida escolar – e também não só durante a vida escolar -, foram os que mais me fizeram aprender sobre a necessidade de eu reformar métodos e planos de ensino.

A língua, num olhar geral, só é ativada a partir do momento em que se dá a produção de sentido no interior de uma força de interação social. Se não ocorrer tal fenômeno, de nada servirá aprender ou ensinar uma língua. É a partir do uso que o falante se constitui enquanto ator social, é a partir do uso que o escrevente se forma cidadão pensante, é a partir do uso que as gramáticas se fortalecem e se sedimentam como bases necessárias... Portanto, é a partir da vida que pulsa em cada novo aprendiz que o ensino-aprendizagem de uma língua se legitima. E tem sido assim comigo, desde que adotei o português brasileiro contemporâneo como idioma a ser ensinado em quaisquer das salas de aula por onde passei - zonas rurais e interior da Bahia e de Pernambuco, na capital do Maranhão e na capital da Paraíba - e que, indubitavelmente, ainda transitarei.

Partindo do pressuposto de que somente há língua em uso e de que todas as engrenagens atreladas a ela constituem atividades próprias à natureza humana, minha felicidade mais gloriosa se dá justamente em finais de ano como o de agora, mês de dezembro já adiantado, quando presencio novos e eternos aprendizes sendo encaminhados para as estradas do mundo, cada qual possuidor de uma fala e de uma escrita não mais fracas ou inoperantes, porém capazes de mover pedras imensas e de abrir picadas onde antes era só e somente só escuridão e incerteza. Tem sido assim a minha vida como professor, dura e densa como um rochedo, mas também leve e fluida como uma esperança.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-quadro-negro-blue-conselho-1869471/

sábado, 2 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCII)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Círculos de cura em minha casca

Sur ma peau, des cercles qui guérissent


Les cœurs condamnés se hérissent,
Alors que les cris sont comblés, menus et murmurés
Imprégnés d’une joie perverse vide de zèle et d’amour.

L’ombre rachitique sur le ciment
Dévore les jeux d’enfants, à contre-courant des vents
Elle essaierait sans doute, si possible

D’interdire l’impossible.

Ma main conquise par la poésie,
Sur un terrain imprécis et pourtant ferme,
Expulse de mon corps les idées sombres, exemptées de soleil,
Et réclame un sol tout à fait inoffensif.

Ma main m’apprivoise, me griffe la peau comme personne d’autre,
C’est une raclée magistrale, un coup de poing bourré de pluie
{Si au moins elle était semence et foyer pour moi…
….en gros tout ça}

Un morceau de rêve jeté quelque part

Sur le chemin de mes ruisseaux


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-brown-c%C3%ADrculo-corte-detalhes-84678/

sábado, 25 de novembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCI)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 3 de maio de 2017
Ensaiando destinos


Des destins expérimentaux

Il faut du courage
Pour essayer des destins
Pour succomber au risque
Pour se livrer à la mort
Pour inciter des faiblesses

Voyons le cas de ce pont secondaire
Qui s’effondra durant les premières pluies
Comme celui qui a miné, éliminé
En face de la déchirure insoupçonnée

Du courage, oui
Pour écrire des poèmes
Pour assortir des mots
Pour décider des sens
Pour dévier les discours

Comme la certitude que nous éprouvons
Lorsque tout paraît déjà contaminé
Comme le rude motif de l’amour
Qui ne peut pas se stocker

Du courage, oui
Pour s’incliner vers l’abîme
Pour atteindre la violence
Pour essayer la fureur chimique des trahisons
Pour s’arrêter tout simplement

Et il arrive que ce chaos que l’on recherche
Ne reconnaît qu’un vainqueur : la technique de la vie
E le malheur va interrompre ce qui n’échoue jamais

Comment sera donc cet humain élaboré
Au niveau de ses petites réactions
Comment agira-t-il, celui que nous méconnaissons
Lorsque l’indifférence nue le provoque?


* Imagem: https://pixabay.com/pt/machado-madeira-hack-casos-1748305/

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XC)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Domingo, 12 de março de 2017
Octaedro

Toujours pour Julio Cortázar


Octaèdre


Ce sont huit histoires sur ce que l’on acquiert :

La première nous montre un narrateur ravissant qui dimensionne la vie.
La seconde dévoile l’étreinte entre le cordon insolite et le réel.
Dans la troisième nous interpénétrons le Temps.
La quatrième nous laisse côtoyer les logarithmes.
La cinquième marque le début de notre déroulement.
Dans la sixième nous sommes dominés par une accaparante anxiété.
Arrivés à la septième nous comprenons que nous n’avons rien compris.
La huitième nous permet de devenir un conte.

Et dans toutes ces histoires nous éprouvons la même sensation :
Le rêve est immédiat.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/alho-ervas-cozinhar-alimentos-2810491/

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Alessandra Barcelar e o sempre-é-tempo para a escrita (uma entrevista)



Uma conversa sobre quem se inaugura...



GERMANO XAVIER – O que a literatura significa para você?

ALESSANDRA BARCELAR - Meu contato com a literatura começou muito cedo, numa estante na casa de uma tia do interior, com uns 7 ou 8 anos de idade. Literatura, para mim, quando treino a escrita, é a possibilidade de ser outra pessoa, de ter outras vidas, estar num mundo paralelo. E isso é fascinante. Como leitora, a maior satisfação é constatar o que a literatura pode fazer a um paciente crônico, ou uma criança de comunidade, exercitando meu voluntariado em hospitais e contação de histórias em projetos sociais. Literatura une.


GX – Fale-nos um pouco mais sobre esses processos transformadores vivenciados por você a partir da literatura...

AB – Os dois projetos de leitura não foram premeditados. O primeiro surgiu de um voluntariado que eu estava fazendo, uma espécie de capacitação com pacientes soropositivos. Eu tinha uma inquietação com o ambiente fóbico das redes sociais, queria tirar do que eu lia ou conhecia algo além de uma resenha, queria algo além... Foi então que comecei a pesquisar sobre a Biblioterapia e, daí, passei a conhecer projetos envolvendo leitura em hospitais, já que é o meu ambiente de atuação, e assim começamos a trabalhar com leituras diversas para pacientes crônicos, com internações de longa permanência ou com pessoas de baixa renda e sem acesso à cultura. O resultado é maravilhoso, empatia, envolvimento. Geralmente opto por levar contos, pela rapidez da conclusão da leitura. A contação de história para crianças aconteceu em uma reunião social da rede SENAC juntamente com a prefeitura regional e ONGs... me encantei com um projeto de leitura e distribuição de livros para crianças que vivem em comunidades. Com certeza, se não fosse essa inquietude, eu não poderia estar vivenciando isso.


GX – Em sua jornada como leitora e difusora de textos literários, qual a experiência de leitura que mais te marcou? E por quê?

AB - É difícil falar de uma obra apenas, pois muitas me foram importantes em vários momentos. Mas a que me vem à mente devido a dificuldade que tive à época, já que achava um livro difícil e que foi muito importante para mim, foi Grande Sertões Veredas, pela obra, pela história, pelo dilema de Riobaldo, pela atração, pela religiosidade, pela forma de como foi contada aquela história, sem dúvida um livro para vida toda.


GX – Você, recentemente, tem conseguido adentrar espaços antes tidos como mais distantes. Como você enxerga a incursão de textos seus em algumas antologias e em outros tipos de publicações especializadas em difundir literatura? O que muda a partir de tais eventos?

AB - No meu caso, eu não via como espaços mais distantes e sim impossíveis. Sempre tive medo de colocar no papel qualquer pensamento, mesmo sendo uma leitora responsável. As incursões foram uma surpresa para mim, bem gratificante, confesso. O que muda são as possibilidades que aumentam, novos contatos, muitos trabalhos que antes não tinha noção que existiam, obras que posso trabalhar com os clubes de leituras, são mudanças que em um primeiro momento não pensei que aconteceriam.


GX – Vamos falar de predileções: Poesia ou prosa? E por quê?

AB - Prosa! Eu acredito que não tenho intimidade com a poesia, apesar de ler vários poetas como Wislawa Szymborska. E outros. Na contemporaneidade, eu não salto os olhos para poemas que nada mais são que contos pulando linha... não sei também se é algum preconceito meu, mas acabo preferindo textos em prosa. Mesmo sabendo que existe muita coisa boa na poesia. É mais uma questão de preferência mesmo, de contato com a palavra.


* Imagem: Acervo pessoal de Alessandra Barcelar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mariana Basílio, poeta de olhos queimados (uma entrevista)


Uma conversa sobre o livro Sombras & Luzes (Penalux, 2016)



GX – Quem é a Mariana Basílio de Sombras & Luzes?

MB – É uma poeta que aceitou sua condição. No primeiro livro, Nepente, eu ainda estava procurando o que seria o elemento propulsor que havia me movido nos anos anteriores – versar o inominável, dialogar com os detalhes, escavar os mistérios – então tive um insight. Publiquei o primeiro livro meses depois, aos 25 anos, procurando trajar este meu novo trajeto.

Com o próximo livro, Sombras & luzes, foi completamente diferente. Já não tentava me encontrar ou me adaptar, já me compreendia na realidade a que me propus. Projetei o livro de maneira mais madura, e passei a ter uma rotina diária bem mais rigorosa em relação às leituras e escrita – como consequência, passei a escrever com mais liberdade e confiança.


GX – Teus poemas são como buquês repletos de rosas densas, cujos espinhos do caule perfuram até o mais profundo lugar de nossa alma (ou consciência). De onde vem toda essa força?

MB – Fernando Pessoa dizia: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu”. Está tudo na essência do sentir, sentir que o interior não é mais do que o exterior, nada nos salvará da morte, que então a poesia (ou o amor, como versava Neruda), nos salve da vida. Já Herberto Helder, num dos poemas que mais aprecio, parece me denunciar: “Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer / com os olhos queimados pelo poder da lua”. Os olhos queimados – olhos de poeta, da criatura que não sossega sem cavar as profundezas. Talvez o que eu seja cintile no bruto das palavras.


GX – No fim do livro, você esboça uma rota de construção de seu livro. Todavia, eu reforço a curiosidade sobre tal processo e lhe pergunto novamente, na expectativa de arrancar de ti algum “segredo” não revelado em suas considerações finais. Então, Mariana, como se deu a feitura do seu Sombras & luzes? Há semelhanças e/ou diferenças nele para com o seu Nepente?

MB – Me sinto nesse contexto como Júlio Cortázar: pareço mesmo ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas. Faço e desfaço, desfaço e faço. É sempre um tecer melodramático viver em minhas decisões. Fiquei realmente em dúvida sobre expor as tais observações gerais, o tal roteiro. Mas como o livro acabou se tornando um projeto de quase 300 páginas, acabei me decidindo por publicá-las em conjunto.

Se há semelhanças nos livros? Bem, talvez estejam na temática mais abrangente que ainda me recobre, envolvendo temas como vida e morte, humanidade e natureza, e ainda, alguns autores que são minhas influências em ambos os livros. Mas, sem dúvida, vejo e sinto muito mais diferenças do que semelhanças, já sou outra pessoa e poeta nessa época do Sombras & Luzes.

Tudo mudou, simplesmente.


GX – Mariana, existe alguma pergunta realmente necessária a se fazer a uma poeta como você? Alguém já a fez? Se não, qual seria?

MB – Não sei, talvez haja inúmeras, talvez não haja nenhuma. Não sei o que significa direito “uma poeta como você”. Mas vou tentar levar isso para um campo mais abrangente e traduzirei um pouco como me vejo no presente da poesia brasileira – deslocada das tendências mais contemporâneas. O que faço é bem particular e, por isso mesmo, um movimento muito solitário. Mas não me incomodo com isso, a minha única preocupação é estar focada e trabalhar muitíssimo no invisível dos invisíveis – perfurando o rumo das palavras em que realmente me encontro.


GX – Se todo escritor é um país estrangeiro, como diz um de teus versos, qual seria o teu lugar neste mundo, Mariana? E qual seria o lugar da poesia que teces?

MB – Meu lugar é o lugar universal, o lugar do vazio que recobre o todo (e talvez eu o encontre quando escrevo) – aqui sou uma inocência socialista abaixando as fronteiras dos países, unificando o que amo na humanidade: o total de nós.

Só me vejo no “eu” porque me propago em “nós”. Por isso “todo escritor é um país estrangeiro” – além de outros preâmbulos do verso.


GX – O que há para ser descoberto, ainda, na vida?

MBO que há para não ser descoberto? Só estou no começo, mesmo que eu morra amanhã, saberei, ainda é vago, ao mesmo tempo que intensa, a lâmina com que lapido minha voz e construo, exausta, as minhas espirais. Não sei precisar (e adoro isso). Mas como diz Mia Couto (e assumo em prévia do futuro): “grandes palavras escondem grandes enganos”.

Sigamos então, ainda mais humanos do que no instante que já se findou.






*Mariana Basílio (Bauru, 1989) é uma escritora, poeta e tradutora paulista. Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Bauru (2012). Mestre em Educação pela Unesp, campus de Rio Claro (2015). Autora dos livros de poesia Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Recebeu em outubro de 2017 o prêmio ProAC de criação literária do Estado de São Paulo, contemplando a publicação de sua terceira obra poética, Tríptico Vital (prelo, 2018). Escreve atualmente seus três próximos livros: Megalômana (poesia), Kairós (poesia) e A Revolução das Rosas (romance). É colaboradora dos portais Zonadapalavra e Liberoamérica. Possui poemas, entrevistas, resenhas e traduções publicados em diversas revistas do Brasil e de Portugal, entre elas: Alagunas, Diversos Afins, Escamandro, Efémera, Garupa, Germina, InComunidade, Inefável, Limbo, Mallarmargens, Oceânica, Odara, O Garibaldi, O Equador das Coisas, Raimundo e Vida Secreta. Site para contato: www.marianabasilio.com.br

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mulher-rio



Por Germano Xavier

para Carol Piva, em ani-versos


estio | equador
quente de tão-quente
verão inteiro



Carolina Piva é o nome dela. Toda uma estação. Ela. Desde que a sei que sou mais. Ela tem isso. Dentro. Cria e difunde. Ama. Este espaço é mais com ela. Por ela, também. Rio que corre na noite. Sereno. Misterioso, de tão profundo. 

Feliz aniversário, C..
Sigamos!


* https://pixabay.com/pt/gotejamento-molhado-gota-de-%C3%A1gua-2806027/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os contos febris de Nivaldo Tenório



Por Germano Xavier



Secos, os contos de Nivaldo Tenório em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA. Não secos por não possuírem um osso nutritivo medular, mas secos por não revelarem nada mais que o essencial. Ou seja, nada. O cotidiano na obra, também áspero, parece o centro de todas as maldições humanas que abarcam os personagens. Sufoco, evasão, fuga, desterro e suicídio percorrem os cenários de suas narrativas curtas. A cidade aparece na trama e nela quase nada aparenta estar fora do lugar. Aparenta, eu disse. No fundo, tudo está muito deslocado, mesmo tudo estando em seu devido lugar. E o leitor, temeroso, também muda de lugar simplesmente por achar estranho o fato de ter de ficar parado, estanque. O leitor, por vezes imóvel, perde o lugar, vira personagem, anda e é chamado pelo narrador, é barrado pelo personagem de um determinado conto, fica, sai, corre, foge, perde-se. Uma violência quase delicada se instala nas páginas do livro desse escritor de Garanhuns, integrante de uma leva de narradores do interior pernambucano que até hoje marca o solo próprio de suas letras literárias. Nivaldo Tenório escreve parte da história universal do abismo, do abisso, do nada em nós. Em pouco mais de 100 páginas, detona qualquer ideia mais elaborada de valia acerca da caminhada humana sobre a Terra. Seus tipos são desenganados, desprestigiados, feitos de glórias vãs ou destituídos de brilho próprio. Têm muita amargura as personas de Tenório. Nada parece possuir um propósito, como se a qualquer movimento fosse dado um destino de ser fim, de ser término um dia, de acabar. O patético é a forma comum. O dia é trivial e é sempre e apenas um outro instante em relação ao momento anterior. Nada é novo e, por isso, o homem é ninguém. O homem é ele mesmo. O homem em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA não conseguiu se multiplicar nem se transformou em outros. O homem é ele próprio e, devido a este fato, não consegue se aceitar por completo. Em tudo há uma espécie de repulsa, de vômito, de escarro. A cabeça ferve ao ler o livro de Tenório. Os dias fervem dentro dele. A febre é deveras febril. O livro, lançado pela Confraria do Vento em 2014, tem orelha escrita por Raimundo Carrero.





* Imagem: https://pixabay.com/pt/xarope-para-a-tosse-medicina-colher-2557629/

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A indiferente grandeza



Por Germano Xavier


à Rua Tito Luna Freire
vive um menino que sou
da cor da cal da velha pedreira
sem reino conquistado
com uma parede inteira de livros

a infeliz invasão veio
quando inventaram de trazer o inquilino

repartiram a casa ao meio
levantaram alvenaria onde uma porta existia

meus velhos escritores mortos
da estante me gritavam:

- Para onde vamos nós, agora,
sem as perspectivas do corredor?


domingo, 17 de setembro de 2017

A Grande Praça do olhar (ou Morte na Grote Markt)



Por Germano Xavier


em Bruxelas
enquanto muitos passavam
enquanto muitos passeavam
e viam e riam e bebiam e viviam
eu morri no olhar de uma pedinte

na Grand-Place
em plena abertura solar do meio-dia
eu morri dentro dos olhos de uma mulher
que não me conhecia | mas que me conhecia

| bem mais do que me conheço |

em uma de suas mãos uma pequenina lata
em seu corpo um colorido tecido-cobertor
em sua voz um descuido milenar da humanidade
em seu chegar uma dor comum sentida

em Brussels
quase às vistas do Manneken Pis
bem no meio da praça mais bonita do mundo
no centro dos olhos daquela mulher
eu morri uma de minhas tantas mortes | guturais

e espantosamente silenciosas


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Bruxelas-213335121

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada


Regard


Je ne sais pas, au juste

En quoi je convertis

Ces regards imaginatifs

Que je pose sur toi.


Toute la poésie que l’on possède est incroyable

Insuffisante pour décrire ces regards qui ne se sont jamais croisés,

Sauf dans les rêves.


Je pense notamment au regard de Janus vers la baleine,

A la baleine qui regardait Janus,

Comme dans un film de Béla Tarr.


Voilà tout dont je suis capable

Et, comme toujours

Ma mémoire me poignarde.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sadness-of-the-rail-677195295

domingo, 27 de agosto de 2017

O barro em cor de Ma Ferreira


Por Germano Xavier


A pernambucana Ma Ferreira é graduada em Pedagogia, artista visual e como ceramista desenvolve com vigorosa individualidade sua arte, trabalhando com o material mais antigo conhecido pelo homem, a argila. Seu trabalho destaca-se pela dinâmica das cores que compõem suas obras de maneira harmoniosa e contagiante, rebuscando a magia e o encanto de nossas memórias materializadas pela nobreza da cerâmica. Participou de diversas exposições dentro e fora do território nacional. As imagens de suas obras já serviram para ilustrar capas de livros e inspiraram poemas já publicados em livros. No momento, tem feito uma série de exposições no espaço de algumas lojas Livraria Cultura na cidade de São Paulo. Ma Ferreira papeou um tantinho comigo.


Germano Xavier - Ma Ferreira é sinônimo de arte em cerâmica. Conte-nos, Ma, quando e como tudo isso começou...

Ma Ferreira - Começou por acaso. A única pretensão na época era ocupar o meu tempo. Depois de 17 anos trabalhando na área comercial da Ford, já casada, tinha resolvido parar de trabalhar para me dedicar a educação de minha filha. O tempo foi passando e com ele chegou a depressão. Fui fazer terapia. Nunca tinha me interessado por arte. Não conscientemente. E confesso que nem pensei em cerâmica naquele momento como arte. Queria apenas ocupar o meu tempo e sair daquele inicio de depressão. Uma amiguinha da minha filha fazia cerâmica. Minha filha me contou e fiquei encantada quando vi aquela tigelinha de barro. Foi ai que resolvi fazer uma aula de cerâmica. Coloquei muita energia naquela aula. Sai de lá muito cansada e com meio vasinho quase pronto. Poderia ter desistido ali. Mas resolvi me dar uma chance: paguei um mês de aula antecipado. No final daquele mês, eu já tinha feito uma bandeja, com desenhos de borboletas, inspirada num hai-kai. Quando fui buscar a minha bandeja-borboleta na Olaria, encontrei uma pessoa que vendo a minha bandeja teve a generosidade de elogiar. Exagerou nos elogios, nas cores que usei. Disse que eu era uma artista. Pela inspiração no hai-kai, pelas cores etc. Sai de la toda feliz e disse: posso não ser uma artista. Mas serei. Foi ai que tudo começou...

Germano Xavier – Você enxerga a existência de uma relação, ou até mesmo uma interação, da poesia ou da literatura com a sua arte, Ma?

Ma Ferreira - Claro que sim. Sou uma contadora de histórias. Eu sempre gostei de poesia. Houve uma época que eu colocava na internet a palavra hai-kai só para ficar lendo. Viajava em cada hai-kai. Meu primeiro desenho em cerâmica foi baseado em um hai-kai. Desenhei borboletas coloridas em cerâmica. Já fiz uma exposição em homenagem a Vinícius de Moraes e um amigo escritor, o Marcos Pizano, escreveu os versos. Minha cerâmica já inspirou poemas. O contrario também aconteceu. Digo sempre que sou uma contadora de histórias. Cada cerâmica, um verso. Uma poesia. A boa palavra tem o poder de encantar. O Barro e as cores, também.

Germano Xavier – Fale-nos um pouco sobre o seu processo de criação, Ma.

Ma Ferreira - Eu sou muito intuitiva. Não faço ficha técnica de minhas obras. Eu crio a peça... um prato, por exemplo. Na hora da pintura eu olho para o prato, como se eu conversasse com ele. Aí, sim, vou pensar qual arte colocar... quais cores colocar. Meus trabalhos não tem perfeição técnica. Conheço vários ceramistas muito mais técnicos do que eu. Mas eu coloco sentimento. Cada obra, uma história. Não importa se pequena ou grande. Crio em cima da imperfeição. Para mim, nada é errado. Nada sai errado. Sai como deveria ser. Decido o que vou fazer na hora. Como um verso de um poema, uma construção. Adoro cores.

Germano Xavier – Quais são os planos para o futuro?

Ma Ferreira – Penso em criar a marca "maferreiracerâmica". Penso em diversificar um pouco mais a minha arte. Até o momento, tenho me dedicado à criação de objetos cerâmicos com função mais decorativa. Em um curto espaço de tempo, penso em desenvolver uma linha de objetos utilitários em que eu possa juntar essas duas funções: a decorativa e a de utilidade prática, tornando-os mais versáteis. Isso sem perder a minha identidade e característica maior que é a exploração máxima do uso das cores em meus trabalhos. Então, por que não começar criando a marca "Ma Ferreira"?






Imagens: Arquivo Ma Ferreira

sábado, 26 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIII)

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 1 de janeiro de 2017
A terceira perna

La troisième jambe

"Cette troisième jambe, je l’ai perdue. 
Et je suis redevenue quelqu’un que je n’ai jamais été."
(Clarice Lispector, in A Paixão segundo GH)

La jambe
Que j’ai perdue,
Lorsque j’ai conquis la douleur,
M’a ramené vite à l’étouffement
Habituel, causé par le néant ou la frayeur.

Découragé,
J’ai du me soulever sans m’apercevoir
De l’organisation de tout l’effort
Car la liberté était juste effrayante

J’ai marché d’un pas ferme ; puis, devenu stable
Le seul choix était de partir, tout simplement, absent,
Silencieux, je suis retourné là ou je me suis égaré.

Des chiens aboyaient dans la rue vide – nous serions alors
Des étrangers, qui vivaient de la chair, du mucus, de la sève.
Le corps n’étant plus qu’une idée.

J’ai pris la route, à coups de rames
J’ai vécu, tel un pâtre, guidant des inutiles moutons mensongers
Certaines issues apparurent alors, dont j’ignorais l’existence.

Prisonnier de ma jambe égarée
Apeuré, avant tout, d’une peur plus grande encore
Cette jambe qui restait là au fil du temps
Brutalement brouillée
La jambe-sans-destin.

Cette jambe, construite, on m’en a fait cadeau
Après son départ, la douleur s’accrochait
Au temps, identique au fruit du hasard.

Cette jambe,
On me l’a offerte
Et ce fût une illusion, ma seule certitude.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Leg-700995767

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXI)


Por Germano Xavier



Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016
Menina a caminho

Dialogue avec le conte Menina a caminho, de Raduan Nassar.


La petite fille sur la route

Petite fille sur le chemin
sans destin
sèche de tendresse
une fille l’air de rien
au départ et à l’arrivée
part vers le ventre qui s’assèche
de la vie, des aubes d’ailleurs
vers les après-midis sans soie
une fille à contresens
vidée dedans
comme dehors, une fille affamée,
qui ressent la faim d’être une fille,
la petite fille, l’être, rêve d’être
le chemin


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/grass-for-fts-698143816

sábado, 5 de agosto de 2017

Paname: a contemplação no encontro (ou Um texto sobre Paris)



Por Germano Xavier


para Ernest Hemingway  e Rainer Maria Rilke (in memoriam)
e para Luísa Fresta, que viveu uma Paris estudantil


Por muitos anos vivi me aprofundando no ofício da contemplação. Olhar, ver, enxergar, sentir, cheirar, tocar, imergir, emergir, afundar, sobrevoar as coisas, povoar e ser parte, tudo isso parecia um grande desafio há alguns anos. E continua sendo, um mistério. Aliás, continuará porque saber contemplar é uma arte que demanda muita sabedoria. Por mais que você se sinta capaz de absorver tudo com os seus próprios sentidos, sempre algo de muito valor é deixado para trás, como pegada perdida no vão do tempo.

Assim, com essa consciência galopada na mente, foi que olhei pela janela do avião após a passagem pela capital portuguesa, onde aconteceu uma breve escala, e vi de cima, por cima, uma das poucas cidades eternas do mundo, bem ali, pousada sob meus olhos como um imenso forte rebatedor de ventos hodiernos. Paris!, Paris!, meu coração gritou num profundo silêncio de contemplação. Eu só pude me acercar da ideia de que era preciso manter o exercício a postos. Segui, de olhos bem abertos, pois.

A grande cidade do reino de Frankia, a imponente cidade cercada por torres dos lutares sangrentos de encontro aos vikings, das iluminagens revolucionais, dos solares reis absolutos tão místicos, dos palácios especulares, das livrarias míticas, dos napoleões gigantes e também dos nanicos, das grandes avenidas suntuosas, das tantas histórias sobre tudo, dos escritores e da boemia, dos grandes pensadores e das renomadas correntes do pensamento global, das grifes mais charmosas, da gastronomia incomum, dos museus intermináveis, das pessoas livres ao ar livre, do mundo inteiro num só lugar, simplesmente Paris! Eu estaria apto a tamanho exercício de contemplação? Questionei-me, por longos minutos.

Hemingway, em seu “Paris é uma festa” nos disse em tons quase proféticos, em uma das várias passagens que dialogam com o fazer literário, para escrevermos a frase verdadeira, a mais verdadeira possível, tentar ela, sempre. Confesso que pensei muito numa frase que resumisse o estado de encantamento que esta cidade me proporcionou na primeira vez que nela desembarquei – até então a única, mas pretendo voltar quantas vezes me for possível. Paris é mesmo uma consagração. Tão falada por todos, tão desejada e tão verdadeira, apesar desse universo inteiro de coisas tão falsas que nos rodeia ultimamente. Paris é uma constatação, uma alegria descomunal aos olhos, um tempo inteiro e particular.

Soou clichê dizer tudo isso? Que importa? Pegue um avião e vá para Paris o quanto antes. Verás! Sentirás tudo que senti, mesmo que não olhes para Paris da maneira como a olhei. Que pena que Paris é tão distante para nós, pobres mortais. Mas não impossível. Conhecê-la, andar por seus bairros, rasgar suas ruas, olhar seus monumentos, viver suas escuridões e suas luzes, comê-la, é necessário em vida. Paris resume toda uma ópera europeia. E infeliz daquele que resolve conhecer Paris primeiro e só depois outras cidades do Velho Mundo, como eu fiz. Paris retira a graça das outras cidades, como quem anseia e tem fome, como quem sabe que é, de longe, a mais bela.

Não é de se espantar, portanto, o grande êxodo de artistas em geral e escritores para Paris no início do século XX. As muitas “gerações perdidas” nela se encontraram. Quando se lê um livro como “Paris é uma festa”, de Hemingway, logo se percebe toda a questão e de chofre suspeitamos de tamanha magnética encantatória que esta cidade reúne em si. Hemingway passeia por uma Paris que, praticamente cem anos depois, continua igual ou mais fascinante ainda.

Inspiradora, de aspecto físico-geográfico incomum e detentora de mil recantos maravilhosos, Paris é grávida de um rio que a torna muito erótica, mas também muito sombria, sórdida, como qualquer grande metrópole. Parece-me que as pessoas que vivem em Paris podem contar histórias de amor e de beleza a qualquer instante, mas também de vidas duras em HLM (Habitation À Loyer Moderé – alojamentos em edifícios com rendas muito baixas, para pessoas e famílias carentes). Paris não esconde nada aos olhos dos visitantes. Facilmente sentimos a discriminação e a invisibilidade social dos imigrantes.

É bem sabido que as pessoas hoje são desconfiadas, medrosas, que já não se podem dar nem doar espontaneamente. Perderam a inocência. E quem é medroso pode ser mais cruel que o próprio bandido, porque o medo antecipa a violência. Tristeza maior foi ver muitos sírios atirados ao chão a pedir ajuda. Nem tudo é perfeito, não é mesmo? Para lembrar que vivemos num mundo de muita crueldade, de muita desumanidade. Enfim... Talvez isso um dia mude. O mundo hoje é um local perigoso, a pobreza invadiu os salões, a tragédia rasgou os contos de fadas. As pessoas dos subúrbios podem, por incrível que se pareça, chegar ao ponto de não enxergarem a cidade, de não usufruí-la. Paris pode para eles estar muito longe.

Aprende-se a amar um lugar instantaneamente em Paris. Gente do mundo todo, os nativos livres em seus piqueniques à margem do Sena e nas praças, suas pontes, seu casario, os metrôs surrados, as grandes galerias, os cafés, aquela aura inexplicável e também irresoluta - a sensação é a de estar num lugar em que as pessoas estão à frente do seu tempo, em que a estética beira a perfeição e a harmonia, pois se percebe de cara uma ética na estética.

Para o turista, Paris se mostra muito acolhedora. Paris começa em Piaf, Montand, Aznavour, nas baguettes e nos croissants quentes, no humor próprio de seu gentio, no cigarro aceso nas bocas das belas mulheres, em sua dinâmica por vezes engraçada, mas Paris não termina aí. Ela também começa na desconfiança. Paris tem cheiro de pão quente e um olhar desconcertante sobre quem chega. Poética, musical, extremamente cultural, de comida bonita – nem sempre gostosa -, Paris é mesmo uma festa, onde chapéu de operário panamenho dita a moda, onde uma dança de periferia argentina (o tango) vira referência e até caracóis portugueses se transformam em “escargots”. Ah, Paris, você não existe!


* Imagem: http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2011/09/fotos-historicas-de-paris.html