| Desde 2007 | Por Germano V. Xavier | Em memória de Milton de Oliveira Cardoso Júnior | + de 2.200 textos publicados |
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
ROSEIRAL, de José Inácio Vieira de Melo
terça-feira, 27 de outubro de 2020
Mil retas
Por Germano Xavier
nós
que somos das
encruzilhadas,
suspeitamos
é de quem não tem
mil retas a caminhar
* Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fogo
terça-feira, 20 de outubro de 2020
CERCO, de Stenio Erson
domingo, 18 de outubro de 2020
Santiago
Por Germano Viana Xavier
Manolin, meu jovem,
o mar é a única verdade,
o mar é o nosso Tempo.
não descanse.
as ondas não facilitarão.
o peixe estará ao seu lado
quando pensar em desistir.
Manolin,
o peixe é Deus.
* Imagem: https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1945546-romance-pop-de-ernest-hemingway-inspira-frances-em-hq-bela-e-sombria.shtml
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Manolin
Por Germano Viana Xavier
a sorte, Santiago,
é a grande estrela que persegue
o dia e a noite de quem sai para pescar.
o astro da grande luz, turva esfera
rebrilhando nossas frágeis verdades.
vencer não é tão óbvio.
por isso, o mar.
tão distante de ter um fim.
o fim, meu velho,
é como um sonho entre leões.
* Imagens: https://revistafabulas.com/2015/01/26/o-velho-e-o-mar-do-livro-aos-filmes/
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
JORNAL DE LITERATURA "O EQUADOR DAS COISAS" | O EQUADOR DAS COISAS | CANAL LITERÁRIO
terça-feira, 13 de outubro de 2020
“SIGAMOS, BUCANEIROS!” – uma viagem histórica com Germano Xavier
![]() |
| Eu e as Frestas (Zeza e Luísa). Lisboa, Janeiro de 2020. |
CEM TEXTOS/SEM CENSURA
Quando, há sete anos, tomei contacto com o blogue O Equador das Coisas, eu não podia imaginar o que poderia nascer de uma parceria que ainda nem estava no horizonte.
Na altura dava os primeiros passos no mundo da escrita (publicada), sobretudo na imprensa. Queria participar em projetos literários em vários países lusófonos, para além das minhas duas mátrias: Angola e Portugal.
Se por um lado existem afinidades naturais com outros países dos PALOP[1], por partilharmos língua, aspetos históricos e culturais, por outro lado há uma ligação muito forte ao Brasil, país ao qual nos unem igualmente laços seculares e que para mim sempre foi uma referência em termos de literatura, desde criança. Já o mencionei noutros contextos mas relembro aqui que durante a minha infância e adolescência, mesmo não tendo muitas vezes água, eletricidade ou acesso a bens de primeira necessidade, por via da guerra, em Angola, tínhamos livros de bolso entre os quais se contavam obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou José Mauro de Vasconcelos. Essas obras são parte da minha identidade como leitora.
Foi em 2013 que Germano Xavier me abriu as portas da sua casa literária, denominada O Gazzeta, uma vez que O Equador das Coisas era um blogue pessoal que eu continuo, aliás, a seguir com o maior interesse, dada a sua qualidade e multiplicidade de temas e géneros. Não nos conhecíamos mas a reação foi muito calorosa, de tal maneira que não me senti escrutinada nem censurada e comecei a enviar-lhe regularmente alguns textinhos meio rudes e com fragilidades, mas que ele aceitou de coração aberto. Sobre livros, cinema, pintura, música, algumas criações próprias também (ficção), em prosa. Assim nasceram, nomeadamente, as séries dedicadas ao cinema africano, ao cinema lusófono, contos-crónicas agrupados com a designação genérica de Memórias Inventadas e Ficha de Leitura, a mais recente das séries, sendo que todas estão ainda em aberto.
Percebi depois que Germano é o tipo de pessoa que ensina sobretudo pelo exemplo. Professor, escritor e jornalista, de um dinamismo singular, tornou-se ao longo do tempo num parceiro literário inestimável. Mostrou-se um colega experiente e original, sem medo de arriscar, porém prudente e sensato, coerente e persistente. Com o tempo tornou-se um amigo ímpar, mais novo na idade e mais velho no saber, capitão de uma frota de navios: não sei, sinceramente, como consegue capitaneá-los com tanto equilíbrio, segurança e destreza.
Sinto-me orgulhosa por estar incluída em várias iniciativas com a sua assinatura. Neste caso, falando de O Gazzeta, o motivo da celebração é o facto de contar agora com cem textos meus no blogue, prova de grande generosidade do seu criador, que abriu o espaço inicialmente dedicado à Chapada Diamantina para outras regiões e países, estimulando a diversidade de estilos, saberes, assuntos e pontos de vista.
Na verdade o centésimo texto é “Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie (Ficha de Leitura)”, publicado no blogue a 3 de outubro último. E o primeiro? “O mundo de Vinicius”, editado a 25 de novembro de 2013, assinalou o início de uma já longa e feliz colaboração.
Pelo meio temos desenvolvido outras experiências divertidas, quer no blogue coletivo quer no pessoal. Atrevi-me a traduzir algumas séries de poemas de Germano para francês (As árvores amorosas, O homem encurralado, As coisas minhas de Sophia e finalmente Trompetes para Ennio, entre outros textos poéticos sem etiqueta). São traduções não revistas que resultam apenas da forte vontade de tentar outra orquestração para poemas fundamentalmente belos e densos, joias únicas que me inspiram particularmente. Criámos também um projeto que ainda tem sementes para frutificar, pois alimenta-se do quotidiano: Entre Mares e Marés, Conversas Epistolares: trata-se de uma troca de missivas ao longo dos últimos cinco anos, entre dois personagens (Clara e Viana, nossos outros antropónimos) que nos representam, a mim e Germano; cartas magnificamente ilustradas pela Cristina Seixas, desenhadora/ilustradora ligada à corrente Urban Sketchers e professora luso-angolana, que agora é também parceira no blogue e no canal do Youtube O Equador das Coisas.
A primeira carta data de 24 de abril de 2015 (Germano, sendo um cavalheiro, concedeu-me o pontapé de saída!). E começa assim:
“(…)Viana?
Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. (…)”
Temos ainda a recordar com grande alegria uma pequena participação numa das edições físicas do jornal O Equador das Coisas, magazine de grande beleza e conteúdo que me leva a citar outra pessoa de raro talento, generosa e dedicada, que venho descobrindo através de Germano: Carol Piva.
Antes de começar a ficar chata (já vai tarde, não é?) tenho ainda que referir que Germano apresentou um livro meu de poesia (Março entre Meridianos) aquando do lançamento da edição lisboeta, em julho de 2019, junto com os poetas Manuel Iris (mexicano) e Cíntia Gonçalves (angolana). E como foi isso possível, uma vez que nenhum dos três vive em Lisboa? Resolvemos o “problema” de forma prática: esses textos foram lidos no local pela Carol (minha filha), pela Maria Fernanda Silva (poeta portuguesa) e pelo amigo Olímpio Neves, com o seu bonito timbre de rádio. Para mim foi muito importante ter todas essas pessoas que tanto estimo e respeito à minha volta, os autores dos textos e quem lhes deu voz. E também uma oportunidade de ouro para consolidar a aventura literária com Germano, que ao longo destes anos tem apresentado diversos textos críticos e vídeos com a sua leitura do meu trabalho. Após sete anos de convivência e troca de experiências tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente e de estreitar laços com os respetivos familiares. É um privilégio dado a poucos, um presente da vida.
Para terminar, vou agradecer efusivamente não apenas a Germano Xavier, pela abertura e ensinamentos, pela tolerância, mas também a todos os companheiros/as e amigos/as que fiz ao longo destes anos através de O Gazzeta, aos colegas redatores, oriundos das mais diversas áreas. Os vossos textos e vídeos são fonte de aprendizagem e também de bem-estar. Aprender pode e deve ser prazeroso e divertido.
E também, necessariamente, a quem nos lê, vê e escuta, com paciência, curiosidade e mente aberta, no blogue e no canal. Caso contrário estaríamos a “falar para o boneco”, como se diz neste jardim à beira-mar plantado de onde vos escrevo.
Espero ter ocasião de contribuir durante mais sete anos, pelo menos, com a mesma alegria e energia, junto de companheiros de jornada e amigos tão brilhantes quanto surpreendentes, na sua humanidade e pluralidade cultural e geográfica.
Luísa Fresta
Lisboa, 9 de outubro de 2020
domingo, 4 de outubro de 2020
Entre a dor e o nada
entre a dor e o nada,
subo escadas e me canso, escuto
o silêncio da sala de minha casa
vazia.
entre a dor e o nada,
trato de conversar comigo mesmo.
lá fora a primavera vem quente.
| alguma coisa toca o telhado: espero |
sinto pena de tudo.
lembro e esqueço.
acendo um livro em meus olhos na noite sem brilho.
minha calma parece um melodrama, mas é que todo dia
a gente se encontra no que parte ou entroniza.
entre a dor e o nada
escolho ser um cão uivando para a lua.
* Imagem: google
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Novos movimentos
Por Germano Xavier
Conto
para todos - quando tenho a oportunidade, óbvio - que saí de casa com 14 anos
de idade. Numa tarde já bem distante no tempo, esperei meu pai terminar o
expediente em seu consultório odontológico situado numa pequena cidade da
Chapada Diamantina, e pedi que escutasse o que eu tinha para lhe dizer naquele
momento. Era um pedido. “Painho, quero estudar em um lugar que ofereça uma
educação melhor do que a daqui”. Eu queria realmente sair, rumar mundo, criar
novos movimentos. Estava entrando no Ensino Médio e a hora era justamente
aquela.
Lembro-me
do meu pai ali sentado, cansado de um dia cheio de trabalho, mas escutando meu
incomum pedido. “Tudo bem, Germano, vamos pensar sobre esta possibilidade”,
disse-me, levantando-se para ir tomar o seu banho e se preparar para o jantar. Meu
pai não era de mentir. Se ele havia dito que ia pensar sobre o caso, é porque
ele realmente iria pensar sobre o caso. Aquilo me apascentava, acalmava-me os
ânimos de menino desejoso por bons estudos e um melhor “futuro”. A situação que
meu irmão mais velho enfrentava na escola estadual da minha cidade natal à
época, com muitas aulas vagas e muita falta de estrutura educacional,
fizeram-me atentar para o desejo de sair dali e querer estudar em um local mais
bem aparelhado para tal.
Sair
de casa cedo me fez aprender que o mundo é muito diferente e bem mais hostil
que o mundo existente de dentro de nossas casas, quando temos tudo ou quase
tudo que queremos, sempre muito perto de nosso alcance ou do alcance de nossos
genitores. Por falar nisso, agradeço aos deuses dos caminhos por ter tido uma
infância razoavelmente tranquila e poder falar isso aqui agora sem grandes
complicações. Mas, como eu estava dizendo, sair de casa me fez acordar para a
vida real que havia e que pulsava longe dos holofotes de minha mãe e do meu
pai.
Fui,
então, para uma cidade maior, mas ainda próxima da que eu nasci e morava. Encarei
aquilo como uma espécie de fase intermediária. Quando a barra pesava, era
sempre possível, e nada custoso, solicitar os auspícios da mãe e do pai, que sempre
foram pais incríveis e prontos para o embate, seja ele de qual natureza fosse
ou se apresentasse. Anos depois, viajei para mais longe, sertão nordestino
agora, para passar cinco anos da minha vida entre faculdades e primeiros
trabalhos. Tudo só, na companhia de alguns poucos amigos, mas geralmente só no
mundo e pelo mundo.
Estar
e ser só no mundo me proporcionou muitos aprendizados e algumas dores, também. Engolir
dores, sem dúvidas, é um dos melhores aprendizados que temos quando somos sozinhos
na jornada. Durante boa parte de minha vida, já adulto e crescido, foi sempre
preciso tomar conta das coisas todas da vida de um jeito muito semelhante aos
tempos de antanho. Coisas da vida, não? Quem nunca?
Aí, repentinamente encontramos uma pessoa que muda todos esses parâmetros. Uma pessoa cuidadosa ao extremo, que gosta de zelar e agradar, termina por fazer revolução e muda o modo como lidamos com tudo e com todos. Acredito que estar só no mundo por muito tempo me proporcionou sensibilidade suficiente para entender o valor que pequenas ações de cuidado possuem na vida do outro. Uma companhia que cuida de verdade é algo muito prazeroso, para citar apenas um adjetivo. Tem sido bom sentir novos movimentos em minha vida. Tem sido sereno e leve. Não ser ou estar só é bom também. Tão bom que já começo a esquecer como era mesmo ser sozinho ou estar sozinho. A vida não para mesmo de girar. A vida é incrível!
* Imagem: Google
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
Borges e a escrita do esquecimento

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1899. Viveu perto de 87 anos e adquiriu a cegueira mais incorrigível como prêmio por tanto amor e devoção à literatura. Autor de diversas obras, Borges sempre esteve no mais alto patamar do cânone literário. Dono de uma palavra tecida sobre o sudário do misterioso, do secreto e mitológico, do metafísico e do fantástico, o homem que tinha verdadeira paixão por livros, principalmente enciclopédias, é possuidor de uma linguagem marcada por construções e narrativas labirínticas - leia-se "labirinto" como lugar de achar-se e perder-se. Para ele, é no espaço do texto onde tudo pode acontecer, inclusive o despertar para a vida, inclusive o entendimento perante o dilema da morte, genitora de outros nascimentos.
Trecho da obra:
Poema la lluvia (A chuva)
Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto
patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.
***
Bruscamente a tarde se há desanuviado
Porque já cai uma chuva minuciosa
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.
Quem a ouve cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor de nome rosa
De tão peculiar avermelhado.
Esta chuva que escurece os vidros
Há de alegrar os subúrbios perdidos
As uvas pretas de uma parra em certo
Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
De meu pai que volta e que não morreu.
sábado, 1 de agosto de 2020
Meu encontro com Sophia de Mello Breyner
Lisbon Art Stay, em algum dia de
janeiro de 2020.
Quando
pagamos o bilhete que dava direito ao ingresso no Oceanário de Lisboa, ali
dentro da sala de recepção do Lisbon Art Stay, jamais imaginaria o que estava
por acontecer em minha vida. A Rua dos Sapateiros parecia tranquila àquela hora
da manhã. Lisboa é uma cidade tímida nas primeiras horas do dia, bem como
acontece com grande parte das cidades turísticas pelo mundo. Depois de um
rápido preparo, lá fui eu. Na verdade, estávamos em número de três. Porém, a
experiência que narro aqui certamente só a mim cabe explanar. Tomamos autocarros
e bondinhos, cruzamos viadutos, atravessamos pontes, e logo o bairro do Chiado começou
a ser visto através dos reflexos das janelas.
O
objetivo do dia era desbravar a região do Parque das Nações, realizar algumas
visitas naquela freguesia e, em especial, conhecer o grande expositor de vida
marinha da capital portuguesa. Não gosto de zoológicos ou de locais
semelhantes, confesso, todavia resolvi apostar algumas horas naquilo de estar
entre animais exóticos confinados. O Parque das Nações é um imenso conglomerado
de espaços físicos voltados a exposições ao ar livre, congressos e movimentos
de arte ou negócios diversificados. Particularmente, naquele dia, fazia
bastante frio, mas tranquilamente suportável.
Fomo-nos
achegando ao local. O rio Tejo mostrava-se bravio, com suas águas fazendo ondas
nervosas e balouçantes, auxiliadas pelos ventos fortes que por ali emanavam
logo ao meio da manhã. Depois de voltearmos por quase a totalidade dos espaços,
tomamos a direção ao Aquário Central do Oceanário, maior da Europa e segundo
maior do mundo.
Subimos
as rampas. Placas me chamavam a atenção. Foi como estar diante de uma espécie
de anunciação. Todas elas davam conta de nos preparar para uma exposição de
poemas, na área central do Oceanário, precisamente de uma exposição de poemas
da escritora Sophia de Mello Breyner Andersen. Enfim, entramos. E, para minha
sorte, os corredores não se mostravam abarrotados de pessoas. Um sinal de que
seria possível ver tudo com calma.
Os
grandes vidros, a enorme quantidade de água marinha represada, os peixes e as
outras criaturas marinhas realmente despertavam muito a minha curiosidade, ao
passo que não entendia como nós, seres humanos, chegamos ao ponto de sacrificar
a liberdade de todos aqueles seres vivos daquela maneira. Isto nunca vai entrar
em minha cabeça como algo saudável à sociedade. Porém, por ora, esqueçamos
isto. Vamos ao motivo de eu estar escrevendo este texto.
No
alto do primeiro grande vidro, Sophia já nos alertava para toda a sua
potencialidade poética: “Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que
não vivi junto ao mar”. Depois de ler aquilo, não dava mais para me arrepender
por ter ido ao Oceanário, tido por muitos como o melhor e mais completo em todo
o planeta. Enquanto os outros dois companheiros de viagem se deliciavam com os
mistérios do fundo do mar, eu me prostrava silenciosamente aos versos de
Sophia. Espalhados por todo o Aquário Central, estavam “submersos” nas paredes
poemas inteiros feito de sal e saudade, de medo e de desejo, escritos por
Sophia.
Quase
uma manhã inteira a ziguezaguear, a perambular, e a cada passo dado em direção ao
fim do percurso, a certeza de que eu me aproximava e me apaixonava mais pelo ideário
poético dos mares de Sophia de Mello Breyner Andersen. Foi um verdadeiro
encontro. Inusitado, diriam alguns, como aqueles que sempre costumam nos marcar
para todo o sempre. Um verdadeiro encontro, indubitavelmente. Guardei imagens
em minha mente, em meu celular, e voltei ao Brasil com o intuito de estudá-la,
de lê-la e também de homenageá-la, de alguma forma.
Deste
ímpeto, nasceu uma série de poemas bilíngues (português-francês) em homenagem à
Sophia, com a grandiosa parceria da escritora luso-angolana Luísa Fresta, que
belissimamente traduziu a série intitulada de AS COISAS MINHAS DE SOPHIA e que
é constituída de 10 poemas.
Uma
palhinha:
AS
COISAS MINHAS DE SOPHIA (Parte III)
ao
longe,
lá
onde o sol se confunde com o fim,
uma
água lisa e pura abraça
toda
a impossível matéria.
nesta
ondular existência sem sal,
os
sonhos dos alguns
se
abraçam, dissipados ao vento,
e
para conter
o
avanço das misérias,
livres
no horizonte e perdidas, fecho os olhos
e
sinto toda uma escola de sensações.
autossuficiência
| dor | escape
o
alto mar engole o Grande Peixe
que
é você, e por serem tão claros os tormentos,
outros
azuis vão, seguidamente,
se
modulando.
MES
CHOSES À MOI ET SOPHIA (Partie III – em francês)
au
loin,
là
où le soleil se confond avec la fin,
des
eaux lisses et pures enlacent
toute
l’impossible matière.
dans
cette flottante existence sans sel,
les
rêves de certaines personnes
se
serrent, dissipés dans le vent,
et
pour contenir
l’avancée
des misères,
égarées
et libres à l’horizon, je ferme les yeux
et
je ressens tout un éventail de sensations.
l’autosuffisance
| la douleur | la fuite, l’échappatoire
la
haute mer avale le Grand Poisson
qui
n’est autre que toi, et puisque les chagrins sont si clairs
d’autres
bleus, modulaires
se
suivent.
Uma
combinação incrível entre o azul vindo das lâminas das vidrarias do Aquário
Central e o negro quase total dos corredores. Era o que eu via lá dentro. Em
pequenas entradas que nos aproximavam dos vidros, bancos me serviam para sentar
por bons minutos em contemplação passiva. Não era cansaço. Era estupefação. Na
frente das banquetas, impressos na parede, ficavam instalados os poemas da
Sophia, como já dito. Para os leitores. E para mim. Os peixes em círculos,
vagando ao meu lado, transformaram-se em meros detalhes diante de meus olhos
realmente interessados em Sophia.
Se
um dia alguém me perguntar como e quando conheci a poesia de Sophia de Mello
Breyner Andersen, responderei sem titubear: nas paredes escurecidas do Aquário
Central do Oceanário lisboeta, numa exposição de poemas que, depois, ficaria
sabendo que tinha se iniciado em comemoração ao Dia do Mar, em 2004. Sophia,
falecida em 2 de julho de 2004, sempre teve o mar como um de seus maiores
personagens e motivos para encantamentos íntimos, tanto na esfera vital quanto
em sua obra literária. Eu, a partir daquele dia, havia encontrado o Grande
Peixe. E isto é demais até hoje.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Sobre a Alice e sobre os Dias em Daniela Delias
"(...) não vê que ela acorda meus mortos
quando entre um rio e outro
desova-me viva"
Do poema A PEDRA, de Daniela Delias.
É de se suspeitar que o poeta só é multiforme se se tenta sê-lo. Daniela Delias, natural de Pelotas-RS, é um bom exemplo deste movimento de variação de formas poéticas, e de formatações humanas, imprescindível para o fazer literário em tempos também tão (des)personalizados. A cada livro novo lançado, mesmo muito sutilmente, reinventa-se a poeta na professora e na psicóloga Daniela Delias. Ela, mulher de olhares necessários, acaba se transformando na poesia que a continua enquanto artesã de dúvidas e sentidos insondáveis. Em seu último livro, Delias finge ser Alice, quando na verdade Alice finge não ser Delias. Um verdadeiro embate que, inteligentemente, sempre a renova e sempre a renovará.
Conheço o BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS e o NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, ambos publicados pela Editora Patuá. Delias se desmanchou para fazer a travessia do primeiro para o segundo livro, assim imagino. Quem leu estas duas obras, sabe. Ela era uma, tornou-se duas, sem deixar de ser quem se era. E agora, com o lançamento do seu ALICE E OS DIAS (Editora Concha, 2019), Delias já é três, tornada. Delias é outra, mas os seus caraterísticos versos curtos e livres foram mantidos - para o nosso deleite. Mas nem tudo pode ser analisado a partir de sua respectiva forma. Fingindo no dito, a poeta parece escolher ser o contraponto entre a solidez da palavra escrita e a cronicidade do que porventura flui, intermitentemente. Um fenômeno, outros movimentos. Aqui está o campo da memória, o paraíso do desconhecimento, a visão dos medos e o nome dos assombros: o não-existir, o existir e o instante.
Agora pegue o livro. Vamos juntos. Ali, onde nunca pode ser o que é para acontecer, rio de atravessar sem asas a ideia do Amor, tão fácil durante a noite, quando quase nada consegue ser escondido da memória. Ali é onde a rosa se avermelha nas reminiscências e explora seus segredos de fogo. OS OLHOS são os nossos próprios escombros. Os olhos nos espatifam. Peça o tempo que quiser, Alice. Tudo se demora, sempre. Mas nem sempre Alice sabe esperar. Por isso Alice aprendeu a chorar. E foi assim que descobriu que A PELE que importa é a do coração. Devota em aforas, protegeu os adentramentos. Tudo lhe chama à ferida das partidas: essas fomes. Para entrecortar o couro que pulsa sob a válvula dos Dias, A LÍNGUA faz de seu sentido a lâmina, a seta que se move por sobre os seixos da alma e do desejo, como pedra-viva.
Cantaremos, também, a queda.
Depois do desfiladeiro, de conhecermos o abismo que o Amor guarda, faz-se necessário O PASSO. Entre as cordas, Alice perde seus Dias. Perde para ganhar. Perde para reler possibilidades. Para se destrancar. Para sair de um novelo. A linha se une à agulha e com ela resolve viver de atravessar. Toda agulha é nômade. Faz casa onde. Faz casa quando. Faz casa e é percurso. AS HORAS são postas em caixinhas para se organizar o passo, para orientar a língua, para acobertar a pele, para endereçar os olhos. Agora saia dessa armadilha. Feche o livro. Fica o estranhamento nítido e pouco caro aos livros que nos propõem e que movem algo, seja um indício a mais de conhecimento a respeito de si mesmo ou da própria literatura. Fica o desfio. A agulha, presente entre os dedos, sem o devido fio para coser. Costuramos a impossibilidade dos silêncios e a beleza do porto criado, mesmo aquele irreal.
Por fim, estamos. Estamos, apenas. E não estamos.
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Pandemia de Arte
Ao se colocar luz sobre a obra do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, percebemos instantaneamente que o conteúdo do texto levanta fundamentais questões que nos implicam como indivíduos e sociedades. Regressar à normalidade de antes da pandemia não é, deveras, uma ideia inteligente. A forçosa e dolorida irrupção de uma pandemia desta magnitude mundo afora, apesar de toda a tristeza proporcionada pelas milhares de mortes ocorridas de modo abrupto e com suas outras cruéis consequências, muitas ainda inclassificáveis, tornou possível e quase que inevitável o reencontro de outros milhares de indivíduos com a sua própria casa, antes apenas um local de repouso pós-trabalho, viabilizou o reencontro mais verdadeiro com os filhos, com o seu parceiro ou sua parceira, com os livros outrora empoeirados nas estantes, com os filmes nunca vistos por pura falta de tempo, com as séries, com o tempo propício a se escutar boas canções, com o ócio que ajuda a criar, a ver, a sentir mais, a ser mais, aclarou novamente a importância da contemplação e a magnitude da Beleza.
No Brasil, nos já quase completados quatro anos pós-impeachment de Dilma Rousseff (sim, pasmem, já se passaram 4 anos pós-Golpe de 2016), a Cultura já deixou o panteão dos Ministérios e agora amarga um doído rebaixamento à categoria de Secretaria. O (des)governo Bolsonaro opera a máquina pública para trucidar o que restou da Cultura em todos os seus valores, e o resultado disso é uma estrutura capenga e segregacionista (ideologicamente) de promoção das expressões artísticas nacionais baseada (até o prezado dia) em cinco trocas de liderança na pasta de Secretaria de Cultura, no retorno à vil prática da censura e no extermínio daquilo que é o mais fundamental no meio: a liberdade. Nesses quatros anos de desordem e de regresso, não vimos surgir sobre as manjedouras messiânicas Temer-bolsonaristas nem sequer um projeto efetivo para o avanço nesta área primordial.
A invisibilidade artístico-cultural de um país gigante como o Brasil é um dado preocupante. Parece que tudo fora neutralizado por uma pedagogia sociolóide gestada a partir da proliferação de fake news e piadas de muito mau gosto, com referenciais nazifascistas e inoportunamente autoritários. Não obstante, um mundo novamente polarizado (principalmente pelo embate EUA x CHINA), discursos vendidos e repassados a todo custo e reduzidos esforços para se fomentar soluções democráticas para as crises sem fim pelas quais a humanidade vem atravessando. Não é possível que a Arte em geral só seguirá sendo vista com bons olhos em momentos caóticos, durante catástrofes ou diante de centenas de óbitos mundo afora. Quem mesmo quer de volta uma tal normalidade quando esta "normalidade significa vivermos em um estado de permanente exclusão e de negação das diversas minorias existentes?
Reproduzo aqui, por fim, uma fala da amiga escritora luso-angolana Luísa Fresta, diante dos apontamentos retidos no referido livro do Boaventura de Sousa Santos: "Gostaria de pensar que aprendemos (aprenderemos) alguma coisa com esta crise. O neoliberalismo selvagem não me parece de todo a solução para a demanda social e econômica do mundo atual. Teremos que nos reinventarmos. Como disse há umas semanas o PM português, uma das coisas que aprendemos é a produzir mais localmente e a dar mais valor aos nossos investigadores e empresas, às pessoas. Outra coisa, penso eu, é a desmaterializar muitos procedimentos, a desburocratizar certas práticas sobretudo no acesso aos serviços púbicos. Afinal é possível fazer muitas coisas de outra forma..." Com a cultura, com a arte em geral, não é diferente. Oxalá melhoremos...
domingo, 31 de maio de 2020
Um café
Um caribenho para revoluções. Um mocha para desanuviar, meramente. “Saindo um machiatto para o sonhador na mesa 43!”, vocifera o garçom. Um cortado para equilibrar o doce e o salgado da vida. Um capucinno, amigo. Ou melhor, dois. Não temos tempo para desperdiçar. Sente aqui. Precisamos conversar. O dia está lindo. Como vai a sua família? Há muito tempo não passo por lá. Como o tempo lhe fez bem! Um panna. Merecemos. Dois, sim. Dois. Estamos congregando. O café nos aproxima de Deus. Você acredita em Deus?
Deus é café com leite, um clássico. Prefiro um latte. Sou de exageros, de discórdias. A rebeldia é o que nos trouxe até aqui, não acha? Essa conversa não termina aqui, amigo. Estou na Praça do Vigário, 656. Apareça por lá, quando possível. Será um prazer. Tomaremos um irlandês, preparado com um whisky 18 anos. Se preferir, um amaretto. Sua esposa ainda aprecia um caramelo? Meu filho do meio adora um hawaiano, com leite de côco da região. Você não envelhece nunca, Doutor. Dê um abraço em seu pai. Diga a ele que jamais me esquecerei daquele dia.
Amigos são para essas coisas. Deixa eu lhe dizer... você sabia que meu querido avô plantava conilon? Sim, mas depois percebeu que negócio mesmo era mexer com o arábica. Está cedo. Boa noite. Bom dia, vizinha. Não quer entrar para tomar uma xícara de café? Não, ela viajou. Fique à vontade. Com ou seu açúcar? Na cama. O homem não sabe mais para onde ir. E tudo fora penetrado. Até a madrugada que embala os sonhos mais reais. Um café para depois do fim do mundo, please.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Um tripé literário de dor e esperança (ou Para que servem as histórias?)
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XVII)
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