quarta-feira, 28 de outubro de 2020

ROSEIRAL, de José Inácio Vieira de Melo


 

VÍDEO Nº 03
Impressões sobre o livro ROSEIRAL, de José Inácio Vieira de Melo.
Errata 1: Onde se escuta "um pouco mais humana, esse contato", entenda "um pouco mais humano, esse contato" (00:33);
Errata 2: Onde se escuta "Pedra do Sol", entenda "Pedra Só" (02:27).
* José Inácio Vieira de Melo, nasceu no povoado de Olhos d'Água do Pai Mané, município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Filho de Inácia Rodrigues de Santana e de Aluízio Vieira de Melo. Viveu em Alagoas até o ano de 1988, entre as cidades de Palmeiras dos Índios, Arapiraca e Maceió. Em 1988 muda para o estado da Bahia. Morou uma década na fazenda Cerca de Pedra e na cidade de Maracás; oitos anos em Salvador, onde fez jornalismo, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA); e, desde 2006, divide seu tempo entre a cidade de Jequié e a fazenda Pedra Só, município de Iramaia.[4] Tem poemas traduzidos para os seguintes idiomas: alemão, árabe, espanhol, francês, italiano, inglês e finlandês. Ganhou os prêmios Iararana (2001/2002), Capital (2005) e Quem (2015).[5][6]
Pubicou os livros Códigos do silêncio (Salvador: Letras da Bahia, 2000), Decifração de abismo (Salvador: Aboiador livre Edições, 2002), A terceira romaria (Salvador: Aboio livre edições, 2005), A infância do Centauro (São Paulo: Escrituras Editoras, 2007), Roseiral (São Paulo: Escrituras Editora, 2010), Pedra Só (São Paulo: Escritura Editoras, 2012 e as antologias 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011) e O galope de Ulisses (São Paulo: Editora Patuá, 2014), esta última organizada pelo poeta Igor Fagundes, que defendeu tese de doutorado sobre a poesia de José Inácio Vieira de Melo, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier INSTA: https://www.instagram.com/germanovianaxavier ISSUU: https://issuu.com/art_brazil
LATTES: http://lattes.cnpq.br/8697294516715015

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Mil retas


 


Por Germano Xavier


nós 

que somos das 

encruzilhadas,


suspeitamos

é de quem não tem

mil retas a caminhar



* Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fogo

terça-feira, 20 de outubro de 2020

CERCO, de Stenio Erson



VÍDEO Nº 02
(Inscreva-se no canal)
Exibido na Universidade do Estado da Bahia - UNEB/Campus Seabra-BA quando do lançamento do livro CERCO, de Stenio Erson. * Stenio Erson, além de Pedagogo, é formado em Língua Portuguesa pela UNEB e mora na Comunidade Rural Lagoa da Boa Vista – município de Seabra-BA. É membro do Grupo de Teatro Lamparinas do Sertão – grupo que existe há dezesseis anos e participa das Caravanas de Teatro Itinerante que ocorrem, a cada dois meses, na região da Chapada Diamantina.

domingo, 18 de outubro de 2020

Santiago


 

Por Germano Viana Xavier


Manolin, meu jovem, 

o mar é a única verdade,

o mar é o nosso Tempo.


não descanse.

as ondas não facilitarão.


o peixe estará ao seu lado

quando pensar em desistir.


Manolin, 

o peixe é Deus.




* Imagem: https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1945546-romance-pop-de-ernest-hemingway-inspira-frances-em-hq-bela-e-sombria.shtml

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Manolin


 

Por Germano Viana Xavier


a sorte, Santiago,

é a grande estrela que persegue 

o dia e a noite de quem sai para pescar.


o astro da grande luz, turva esfera

rebrilhando nossas frágeis verdades.


vencer não é tão óbvio.

por isso, o mar. 

tão distante de ter um fim.


o fim, meu velho, 

é como um sonho entre leões.


* Imagens: https://revistafabulas.com/2015/01/26/o-velho-e-o-mar-do-livro-aos-filmes/

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

JORNAL DE LITERATURA "O EQUADOR DAS COISAS" | O EQUADOR DAS COISAS | CANAL LITERÁRIO



 VÍDEO Nº 01
(Inscreva-se no canal)


Um pouco do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS, by MOLOTOV PRODUÇÕES.
* Nas palavras de Carol Piva:
"O EQUADOR DAS COISAS" é uma publicação semestral, independente e sem fins lucrativos. É todo ele janelas se abrindo a uma literatura o mais esquiva possível das tais "amarras-mercado" naquilo que faz a gente residuar desgostos. Propõe o diálogo com autores, seus textos e imagens, equadores que nos chegam, livre e deliciosamente, de acolás vários e, ainda, dos artistas convidados. Nossa paixão é pela escrita... palavras, sons, imagens e até os silêncios deles... este intercâmbio entre línguas e linguagens. O jornal ziguezagueia entre os t(r)atos editoriais no Brasil, Estados Unidos e agora, muito bonitamente, também na Irlanda. Uma honra-deliciúra! Tudo aqui publicado é de responsabilidade exclusiva de seus autores."

terça-feira, 13 de outubro de 2020

“SIGAMOS, BUCANEIROS!” – uma viagem histórica com Germano Xavier

Eu e as Frestas (Zeza e Luísa).
Lisboa, Janeiro de 2020.

 

CEM TEXTOS/SEM CENSURA


Quando, há sete anos, tomei contacto com o blogue O Equador das Coisas, eu não podia imaginar o que poderia nascer de uma parceria que ainda nem estava no horizonte.

Na altura dava os primeiros passos no mundo da escrita (publicada), sobretudo na imprensa. Queria participar em projetos literários em vários países lusófonos, para além das minhas duas mátrias: Angola e Portugal.

Se por um lado existem afinidades naturais com outros países dos PALOP[1], por partilharmos língua, aspetos históricos e culturais, por outro lado há uma ligação muito forte ao Brasil, país ao qual nos unem igualmente laços seculares e que para mim sempre foi uma referência em termos de literatura, desde criança. Já o mencionei noutros contextos mas relembro aqui que durante a minha infância e adolescência, mesmo não tendo muitas vezes água, eletricidade ou acesso a bens de primeira necessidade, por via da guerra, em Angola, tínhamos livros de bolso entre os quais se contavam obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou José Mauro de Vasconcelos. Essas obras são parte da minha identidade como leitora.

Foi em 2013 que Germano Xavier me abriu as portas da sua casa literária, denominada O Gazzeta, uma vez que O Equador das Coisas era um blogue pessoal que eu continuo, aliás, a seguir com o maior interesse, dada a sua qualidade e multiplicidade de temas e géneros. Não nos conhecíamos mas a reação foi muito calorosa, de tal maneira que não me senti escrutinada nem censurada e comecei a enviar-lhe regularmente alguns textinhos meio rudes e com fragilidades, mas que ele aceitou de coração aberto. Sobre livros, cinema, pintura, música, algumas criações próprias também (ficção), em prosa. Assim nasceram, nomeadamente, as séries dedicadas ao cinema africano, ao cinema lusófono, contos-crónicas agrupados com a designação genérica de Memórias Inventadas e Ficha de Leitura, a mais recente das séries, sendo que todas estão ainda em aberto.

Percebi depois que Germano é o tipo de pessoa que ensina sobretudo pelo exemplo. Professor, escritor e jornalista, de um dinamismo singular, tornou-se ao longo do tempo num parceiro literário inestimável. Mostrou-se um colega experiente e original, sem medo de arriscar, porém prudente e sensato, coerente e persistente. Com o tempo tornou-se um amigo ímpar, mais novo na idade e mais velho no saber, capitão de uma frota de navios: não sei, sinceramente, como consegue capitaneá-los com tanto equilíbrio, segurança e destreza.

Sinto-me orgulhosa por estar incluída em várias iniciativas com a sua assinatura. Neste caso, falando de O Gazzeta, o motivo da celebração é o facto de contar agora com cem textos meus no blogue, prova de grande generosidade do seu criador, que abriu o espaço inicialmente dedicado à Chapada Diamantina para outras regiões e países, estimulando a diversidade de estilos, saberes, assuntos e pontos de vista.

Na verdade o centésimo texto é “Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie (Ficha de Leitura)”, publicado no blogue a 3 de outubro último. E o primeiro? “O mundo de Vinicius”, editado a 25 de novembro de 2013, assinalou o início de uma já longa e feliz colaboração.

Pelo meio temos desenvolvido outras experiências divertidas, quer no blogue coletivo quer no pessoal. Atrevi-me a traduzir algumas séries de poemas de Germano para francês (As árvores amorosas, O homem encurralado, As coisas minhas de Sophia e finalmente Trompetes para Ennio, entre outros textos poéticos sem etiqueta). São traduções não revistas que resultam apenas da forte vontade de tentar outra orquestração para poemas fundamentalmente belos e densos, joias únicas que me inspiram particularmente. Criámos também um projeto que ainda tem sementes para frutificar, pois alimenta-se do quotidiano: Entre Mares e Marés, Conversas Epistolares: trata-se de uma troca de missivas ao longo dos últimos cinco anos, entre dois personagens (Clara e Viana, nossos outros antropónimos) que nos representam, a mim e Germano; cartas magnificamente ilustradas pela Cristina Seixas, desenhadora/ilustradora ligada à corrente Urban Sketchers e professora luso-angolana, que agora é também parceira no blogue e no canal do Youtube O Equador das Coisas.

A primeira carta data de 24 de abril de 2015 (Germano, sendo um cavalheiro, concedeu-me o pontapé de saída!). E começa assim:

“(…)Viana?

Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. (…)”

Temos ainda a recordar com grande alegria uma pequena participação numa das edições físicas do jornal O Equador das Coisas, magazine de grande beleza e conteúdo que me leva a citar outra pessoa de raro talento, generosa e dedicada, que venho descobrindo através de Germano: Carol Piva.

Antes de começar a ficar chata (já vai tarde, não é?) tenho ainda que referir que Germano apresentou um livro meu de poesia (Março entre Meridianos) aquando do lançamento da edição lisboeta, em julho de 2019, junto com os poetas Manuel Iris (mexicano) e Cíntia Gonçalves (angolana). E como foi isso possível, uma vez que nenhum dos três vive em Lisboa? Resolvemos o “problema” de forma prática: esses textos foram lidos no local pela Carol (minha filha), pela Maria Fernanda Silva (poeta portuguesa) e pelo amigo Olímpio Neves, com o seu bonito timbre de rádio. Para mim foi muito importante ter todas essas pessoas que tanto estimo e respeito à minha volta, os autores dos textos e quem lhes deu voz. E também uma oportunidade de ouro para consolidar a aventura literária com Germano, que ao longo destes anos tem apresentado diversos textos críticos e vídeos com a sua leitura do meu trabalho. Após sete anos de convivência e troca de experiências tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente e de estreitar laços com os respetivos familiares. É um privilégio dado a poucos, um presente da vida.

Para terminar, vou agradecer efusivamente não apenas a Germano Xavier, pela abertura e ensinamentos, pela tolerância, mas também a todos os companheiros/as e amigos/as que fiz ao longo destes anos através de O Gazzeta, aos colegas redatores, oriundos das mais diversas áreas. Os vossos textos e vídeos são fonte de aprendizagem e também de bem-estar. Aprender pode e deve ser prazeroso e divertido.

E também, necessariamente, a quem nos lê, vê e escuta, com paciência, curiosidade e mente aberta, no blogue e no canal. Caso contrário estaríamos a “falar para o boneco”, como se diz neste jardim à beira-mar plantado de onde vos escrevo.

Espero ter ocasião de contribuir durante mais sete anos, pelo menos, com a mesma alegria e energia, junto de companheiros de jornada e amigos tão brilhantes quanto surpreendentes, na sua humanidade e pluralidade cultural e geográfica.

 

Luísa Fresta

Lisboa, 9 de outubro de 2020



[1] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

domingo, 4 de outubro de 2020

Entre a dor e o nada


Por Germano Viana Xavier



para Antônio Torres e James Wilker


entre a dor e o nada,

subo escadas e me canso, escuto

o silêncio da sala de minha casa

vazia.

 

entre a dor e o nada,

trato de conversar comigo mesmo.

lá fora a primavera vem quente.

| alguma coisa toca o telhado: espero |

sinto pena de tudo.

 

lembro e esqueço.

acendo um livro em meus olhos na noite sem brilho.

minha calma parece um melodrama, mas é que todo dia

a gente se encontra no que parte ou entroniza.

 

entre a dor e o nada

escolho ser um cão uivando para a lua.

 


* Imagem: google

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Novos movimentos


 

Por Germano Xavier


Conto para todos - quando tenho a oportunidade, óbvio - que saí de casa com 14 anos de idade. Numa tarde já bem distante no tempo, esperei meu pai terminar o expediente em seu consultório odontológico situado numa pequena cidade da Chapada Diamantina, e pedi que escutasse o que eu tinha para lhe dizer naquele momento. Era um pedido. “Painho, quero estudar em um lugar que ofereça uma educação melhor do que a daqui”. Eu queria realmente sair, rumar mundo, criar novos movimentos. Estava entrando no Ensino Médio e a hora era justamente aquela.

Lembro-me do meu pai ali sentado, cansado de um dia cheio de trabalho, mas escutando meu incomum pedido. “Tudo bem, Germano, vamos pensar sobre esta possibilidade”, disse-me, levantando-se para ir tomar o seu banho e se preparar para o jantar. Meu pai não era de mentir. Se ele havia dito que ia pensar sobre o caso, é porque ele realmente iria pensar sobre o caso. Aquilo me apascentava, acalmava-me os ânimos de menino desejoso por bons estudos e um melhor “futuro”. A situação que meu irmão mais velho enfrentava na escola estadual da minha cidade natal à época, com muitas aulas vagas e muita falta de estrutura educacional, fizeram-me atentar para o desejo de sair dali e querer estudar em um local mais bem aparelhado para tal.

Sair de casa cedo me fez aprender que o mundo é muito diferente e bem mais hostil que o mundo existente de dentro de nossas casas, quando temos tudo ou quase tudo que queremos, sempre muito perto de nosso alcance ou do alcance de nossos genitores. Por falar nisso, agradeço aos deuses dos caminhos por ter tido uma infância razoavelmente tranquila e poder falar isso aqui agora sem grandes complicações. Mas, como eu estava dizendo, sair de casa me fez acordar para a vida real que havia e que pulsava longe dos holofotes de minha mãe e do meu pai.

Fui, então, para uma cidade maior, mas ainda próxima da que eu nasci e morava. Encarei aquilo como uma espécie de fase intermediária. Quando a barra pesava, era sempre possível, e nada custoso, solicitar os auspícios da mãe e do pai, que sempre foram pais incríveis e prontos para o embate, seja ele de qual natureza fosse ou se apresentasse. Anos depois, viajei para mais longe, sertão nordestino agora, para passar cinco anos da minha vida entre faculdades e primeiros trabalhos. Tudo só, na companhia de alguns poucos amigos, mas geralmente só no mundo e pelo mundo.

Estar e ser só no mundo me proporcionou muitos aprendizados e algumas dores, também. Engolir dores, sem dúvidas, é um dos melhores aprendizados que temos quando somos sozinhos na jornada. Durante boa parte de minha vida, já adulto e crescido, foi sempre preciso tomar conta das coisas todas da vida de um jeito muito semelhante aos tempos de antanho. Coisas da vida, não? Quem nunca?

Aí, repentinamente encontramos uma pessoa que muda todos esses parâmetros. Uma pessoa cuidadosa ao extremo, que gosta de zelar e agradar, termina por fazer revolução e muda o modo como lidamos com tudo e com todos. Acredito que estar só no mundo por muito tempo me proporcionou sensibilidade suficiente para entender o valor que pequenas ações de cuidado possuem na vida do outro. Uma companhia que cuida de verdade é algo muito prazeroso, para citar apenas um adjetivo. Tem sido bom sentir novos movimentos em minha vida. Tem sido sereno e leve. Não ser ou estar só é bom também. Tão bom que já começo a esquecer como era mesmo ser sozinho ou estar sozinho. A vida não para mesmo de girar. A vida é incrível!


* Imagem: Google

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Borges e a escrita do esquecimento



Por Germano Xavier

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1899. Viveu perto de 87 anos e adquiriu a cegueira mais incorrigível como prêmio por tanto amor e devoção à literatura. Autor de diversas obras, Borges sempre esteve no mais alto patamar do cânone literário. Dono de uma palavra tecida sobre o sudário do misterioso, do secreto e mitológico, do metafísico e do fantástico, o homem que tinha verdadeira paixão por livros, principalmente enciclopédias, é possuidor de uma linguagem marcada por construções e narrativas labirínticas - leia-se "labirinto" como lugar de achar-se e perder-se. Para ele, é no espaço do texto onde tudo pode acontecer, inclusive o despertar para a vida, inclusive o entendimento perante o dilema da morte, genitora de outros nascimentos. 

O Fazedor, publicado primeiramente em 1960 é, segundo ele, seu livro mais pessoal, mais íntimo, mais próximo do homem Jorge Luis Borges. Quase sem linearidade, desprovido de uma unidade morfológica e temática, misto de poemas, ensaios e contos, O Fazedor revela um Borges preocupado com as nuances de sua vida "comum", como pode ser percebido já no texto de abertura do livro intitulado homonimamente. Neste texto, falando sobre sua cegueira, Borges finaliza com a construção: "Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao afundar até a última sombra". 

Remoído e remoendo-se diante da tão extensa potência da memória, e agora sobrepujado pela presença da possibilidade do esquecer, do deslembrar o sentido das coisas e suas faces, suas sensações e iminências sígnicas, o escritor parece amargar um sentimento de derrota frente à evolução do seu corpo, do seu organismo que, velho e já gasto pelo uso, pressente o fim chegando. Ainda no texto, Borges questiona: "Por que lhe vinham essas lembranças e por que chegavam sem amargura, feito mera prefiguração do presente?", duvidando, talvez, ou simplesmente incrédulo ao suspeitar da existência dessa forma viva, autônoma, agente de si: a memória. 

Atulhado de emoções e recortes de lembranças, livrescas ou não, Borges altera a morosidade da mecânica das reminiscências e põe na superfície do tempo, à mostra de tudo e de todos, o rosto que há por debaixo do capacho humano, do tapete de nossa mente, livrando-nos de certas mortalidades e fragilidades infantis. "O que morrerá comigo quando eu morrer?", pergunta o argentino, falecido em Genebra no ano de 1986. Percebe-se a sapiência e o alumbramento diante da existência de algo mais que não somente a armadura do corpo, da matéria, e essa percepção vai perlongar as páginas do livro inteiro. 

Mais a frente, no texto Dreamtigers, diz assustado: "(Ainda me lembro dessas figuras: eu, que não consigo recordar sem engano a fronte ou o sorriso de uma mulher.)" É a memória que persiste em não morrer, mesmo dentro da escuridão da visão ofuscada, opaca, translúcida. O susto de ter um outro olho, um olho que não para de lembrar, de ver, de rememorar, de reviver. 

Após iniciado o confronto, Borges retalha-se em perguntas, a tomar como exemplo: "O que pratiquei com fervor na infância?" - quase uma tentativa de descobrir as razões que o fizeram possuir o "bem" ou o "mal" do guardar tudo, dentro de si. E continua: "Você se suicidou naquele dia?"; "O que ele sentiu?"; "O que buscam os espelhos?"... no centro do furação, no redemoinho da batalha que o autor trava consigo mesmo, surge a presença de Deus: "Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número?", e finaliza o seu argumentum ornithologicum cosendo a frase: "ergo, Deus existe". 

A experiência de conhecer o algo a mais que apenas humano faz com que Borges receie, sem muito titubear, que a morte não passa de uma ilusão. Portanto, o esquecimento, ou seja, a morte do que um dia existiu, é simplesmente uma mentira que criamos, ora por nos acharmos fracos ora por não tendermos à resolução de nossos próprios problemas, quaisquer que sejam eles. Nada morre, porque tudo é imortal. A morte pode ser uma invenção da debilidade do homem, uma espécie de doença. E o sonho, "o sonho de um é parte da memória de todos", escreve no texto martín fiero, onde ainda cita: "o que aconteceu uma vez volta a acontecer, infinitamente". 

Navega pelas estradas do seu passado tentando averiguar os motivos para tanta liberdade entregue a sua memória, tanta incapacidade de manipular, domar o seu ato de esquecer ou o de lembrar. Depois de já ter lutado consideravelmente contra tais mistérios, Borges relata: "O esquecimento devora tudo". Como um rolo compressor, o "parecer e o não ser" adquire o que tanto ele temia: a imortalidade. E o que fazer diante de uma coisa que nos parasita, que mora dentro de nós e que não podemos cercá-la? Buscar o silêncio, seria essa a resposta? Calar-se? Deixar-se? O que operar em nós mesmos quando somos muitos e ao mesmo tempo não somos ninguém? Qual a ordem do jogo e a dos dominados? Nesta celeuma, "sempre se perde o essencial?", interroga Borges. Qual a voz que prevalece, qual o som que fica? O que vive, se "tudo já teve fim há muitos anos?" O que permanece, se "toda glória é somente uma das formas do olvido?" 

A leitura borgeana não adormece quando fechamos o livro. Toda uma esfera de edificações se apronta no momento destinado à reflexão. Mestre da ficção, Borges confessa que muito do que está contido em sua obra não foi vivido, mas lido. Abre-se, então, a porta que dá para o vestíbulo da irremediável memória, este demônio que temos dentro de nós, tantas vezes ponto de partida para sofrimentos, angústias e alegrias várias. 

No labirinto onde nos perdemos e nos encontramos dia ante dia, noite após noite, assombro vis assombro, resta-nos contentarmos com a ideia de que não estamos sozinhos dentro de nossa individualidade, que não estaremos mortos depois da morte, que não estamos vivos quando pensamos que estamos. Até porque, o que existe por detrás dos espelhos, pode não ser muito bem o que imaginamos que seja. Porque nada pode ser tão óbvio quando suspeitamos que a escuridão é o nosso maior vigia.


Trecho da obra:

Poema la lluvia (A chuva)

Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.

***

Bruscamente a tarde se há desanuviado
Porque já cai uma chuva minuciosa
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.

Quem a ouve cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor de nome rosa
De tão peculiar avermelhado.

Esta chuva que escurece os vidros
Há de alegrar os subúrbios perdidos
As uvas pretas de uma parra em certo

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
De meu pai que volta e que não morreu.

sábado, 1 de agosto de 2020

Meu encontro com Sophia de Mello Breyner





Por Germano Xavier


Lisbon Art Stay, em algum dia de janeiro de 2020.

 

Quando pagamos o bilhete que dava direito ao ingresso no Oceanário de Lisboa, ali dentro da sala de recepção do Lisbon Art Stay, jamais imaginaria o que estava por acontecer em minha vida. A Rua dos Sapateiros parecia tranquila àquela hora da manhã. Lisboa é uma cidade tímida nas primeiras horas do dia, bem como acontece com grande parte das cidades turísticas pelo mundo. Depois de um rápido preparo, lá fui eu. Na verdade, estávamos em número de três. Porém, a experiência que narro aqui certamente só a mim cabe explanar. Tomamos autocarros e bondinhos, cruzamos viadutos, atravessamos pontes, e logo o bairro do Chiado começou a ser visto através dos reflexos das janelas.

O objetivo do dia era desbravar a região do Parque das Nações, realizar algumas visitas naquela freguesia e, em especial, conhecer o grande expositor de vida marinha da capital portuguesa. Não gosto de zoológicos ou de locais semelhantes, confesso, todavia resolvi apostar algumas horas naquilo de estar entre animais exóticos confinados. O Parque das Nações é um imenso conglomerado de espaços físicos voltados a exposições ao ar livre, congressos e movimentos de arte ou negócios diversificados. Particularmente, naquele dia, fazia bastante frio, mas tranquilamente suportável.

Fomo-nos achegando ao local. O rio Tejo mostrava-se bravio, com suas águas fazendo ondas nervosas e balouçantes, auxiliadas pelos ventos fortes que por ali emanavam logo ao meio da manhã. Depois de voltearmos por quase a totalidade dos espaços, tomamos a direção ao Aquário Central do Oceanário, maior da Europa e segundo maior do mundo.

Subimos as rampas. Placas me chamavam a atenção. Foi como estar diante de uma espécie de anunciação. Todas elas davam conta de nos preparar para uma exposição de poemas, na área central do Oceanário, precisamente de uma exposição de poemas da escritora Sophia de Mello Breyner Andersen. Enfim, entramos. E, para minha sorte, os corredores não se mostravam abarrotados de pessoas. Um sinal de que seria possível ver tudo com calma.

Os grandes vidros, a enorme quantidade de água marinha represada, os peixes e as outras criaturas marinhas realmente despertavam muito a minha curiosidade, ao passo que não entendia como nós, seres humanos, chegamos ao ponto de sacrificar a liberdade de todos aqueles seres vivos daquela maneira. Isto nunca vai entrar em minha cabeça como algo saudável à sociedade. Porém, por ora, esqueçamos isto. Vamos ao motivo de eu estar escrevendo este texto.

No alto do primeiro grande vidro, Sophia já nos alertava para toda a sua potencialidade poética: “Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto ao mar”. Depois de ler aquilo, não dava mais para me arrepender por ter ido ao Oceanário, tido por muitos como o melhor e mais completo em todo o planeta. Enquanto os outros dois companheiros de viagem se deliciavam com os mistérios do fundo do mar, eu me prostrava silenciosamente aos versos de Sophia. Espalhados por todo o Aquário Central, estavam “submersos” nas paredes poemas inteiros feito de sal e saudade, de medo e de desejo, escritos por Sophia.

Quase uma manhã inteira a ziguezaguear, a perambular, e a cada passo dado em direção ao fim do percurso, a certeza de que eu me aproximava e me apaixonava mais pelo ideário poético dos mares de Sophia de Mello Breyner Andersen. Foi um verdadeiro encontro. Inusitado, diriam alguns, como aqueles que sempre costumam nos marcar para todo o sempre. Um verdadeiro encontro, indubitavelmente. Guardei imagens em minha mente, em meu celular, e voltei ao Brasil com o intuito de estudá-la, de lê-la e também de homenageá-la, de alguma forma.

Deste ímpeto, nasceu uma série de poemas bilíngues (português-francês) em homenagem à Sophia, com a grandiosa parceria da escritora luso-angolana Luísa Fresta, que belissimamente traduziu a série intitulada de AS COISAS MINHAS DE SOPHIA e que é constituída de 10 poemas.

Uma palhinha:

 

AS COISAS MINHAS DE SOPHIA (Parte III)

 

ao longe,

lá onde o sol se confunde com o fim,

uma água lisa e pura abraça

toda a impossível matéria.

 

nesta ondular existência sem sal,

os sonhos dos alguns

se abraçam, dissipados ao vento,

 

e para conter

o avanço das misérias,

livres no horizonte e perdidas, fecho os olhos

e sinto toda uma escola de sensações.

 

autossuficiência | dor | escape

 

o alto mar engole o Grande Peixe

que é você, e por serem tão claros os tormentos,

outros azuis vão, seguidamente,

se modulando.

 

 

MES CHOSES À MOI ET SOPHIA (Partie III – em francês)

 

au loin,

là où le soleil se confond avec la fin,

des eaux lisses et pures enlacent

toute l’impossible matière.

 

dans cette flottante existence sans sel,

les rêves de certaines personnes

se serrent, dissipés dans le vent,

 

et pour contenir

l’avancée des misères,

égarées et libres à l’horizon, je ferme les yeux

et je ressens tout un éventail de sensations.

 

l’autosuffisance | la douleur | la fuite, l’échappatoire

 

la haute mer avale le Grand Poisson

qui n’est autre que toi, et puisque les chagrins sont si clairs

d’autres bleus, modulaires

se suivent.

 

Uma combinação incrível entre o azul vindo das lâminas das vidrarias do Aquário Central e o negro quase total dos corredores. Era o que eu via lá dentro. Em pequenas entradas que nos aproximavam dos vidros, bancos me serviam para sentar por bons minutos em contemplação passiva. Não era cansaço. Era estupefação. Na frente das banquetas, impressos na parede, ficavam instalados os poemas da Sophia, como já dito. Para os leitores. E para mim. Os peixes em círculos, vagando ao meu lado, transformaram-se em meros detalhes diante de meus olhos realmente interessados em Sophia.

Se um dia alguém me perguntar como e quando conheci a poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen, responderei sem titubear: nas paredes escurecidas do Aquário Central do Oceanário lisboeta, numa exposição de poemas que, depois, ficaria sabendo que tinha se iniciado em comemoração ao Dia do Mar, em 2004. Sophia, falecida em 2 de julho de 2004, sempre teve o mar como um de seus maiores personagens e motivos para encantamentos íntimos, tanto na esfera vital quanto em sua obra literária. Eu, a partir daquele dia, havia encontrado o Grande Peixe. E isto é demais até hoje.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sobre a Alice e sobre os Dias em Daniela Delias




Por Germano Xavier


"(...) não vê que ela acorda meus mortos
quando entre um rio e outro
desova-me viva"

Do poema  A PEDRA, de Daniela Delias.



A gente sabe que o poeta é uma deformidade. A Claudia Roquette-Pinto já nos avisou sobre isto, certa vez. Fernando Pessoa nos consagrou o dom de fingir, escrevendo sob diversas personas. Vários outros poetas já nos provaram que esta afirmação é verdadeira ou por demais possível. Somos tantos, outros, múltiplos, diversos, quandos e quantos, por isso somos o que somos: poetas. O sólido que se desmancha no ar, na água, no fogo, ao vento... o sólido que, na poesia, é algo muito líquido. A linguagem, por vezes, toma até a "forma" de um gás e simplesmente invade os espaços vazios de quem lê um livro de poemas, com arte, puro. Mas esta dada pluralidade do poeta é, na verdade, um caminho que é reflexo de muito labor e de muita astúcia.

É de se suspeitar que o poeta só é multiforme se se tenta sê-lo. Daniela Delias, natural de Pelotas-RS, é um bom exemplo deste movimento de variação de formas poéticas, e de formatações humanas, imprescindível para o fazer literário em tempos também tão (des)personalizados. A cada livro novo lançado, mesmo muito sutilmente, reinventa-se a poeta na professora e na psicóloga Daniela Delias. Ela, mulher de olhares necessários, acaba se transformando na poesia que a continua enquanto artesã de dúvidas e sentidos insondáveis. Em seu último livro, Delias finge ser Alice, quando na verdade Alice finge não ser Delias. Um verdadeiro embate que, inteligentemente, sempre a renova e sempre a renovará.

Conheço o BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS e o NUNCA ESTIVEMOS EM ÍTACA, ambos publicados pela Editora Patuá. Delias se desmanchou para fazer a travessia do primeiro para o segundo livro, assim imagino. Quem leu estas duas obras, sabe. Ela era uma, tornou-se duas, sem deixar de ser quem se era. E agora, com o lançamento do seu ALICE E OS DIAS (Editora Concha, 2019), Delias já é três, tornada. Delias é outra, mas os seus caraterísticos versos curtos e livres foram mantidos - para o nosso deleite. Mas nem tudo pode ser analisado a partir de sua respectiva forma. Fingindo no dito, a poeta parece escolher ser o contraponto entre a solidez da palavra escrita e a cronicidade do que porventura flui, intermitentemente. Um fenômeno, outros movimentos. Aqui está o campo da memória, o paraíso do desconhecimento, a visão dos medos e o nome dos assombros: o não-existir, o existir e o instante.

ALICE E OS DIAS, de 72 páginas, está dividido em cinco partes: 1: OS OLHOS; 2: A PELE; 3: A LÍNGUA; 4: O PASSO; e 5: AS HORAS. Numa análise muito pessoal, e apesar deste caprichado ALICE E OS DIAS nos sugerir uma outra leitura de linguagem e também de autodescoberta, algumas linhas de voz que sempre estiveram presentes nos textos escritos por Delias permanecem vívidos e por demais explicitados nos poemas do livro. Alguém pode perguntar: E isso é ruim, pode ser ruim? Não, definitivamente não. Neste caso, não. Um dos traços de maior destaque da poesia de Daniela Delias é o trato suave que se dá às forças de desertificação da vida. Isso, definitivamente, é parte de sua verve.

Agora pegue o livro. Vamos juntos. Ali, onde nunca pode ser o que é para acontecer, rio de atravessar sem asas a ideia do Amor, tão fácil durante a noite, quando quase nada consegue ser escondido da memória. Ali é onde a rosa se avermelha nas reminiscências e explora seus segredos de fogo. OS OLHOS são os nossos próprios escombros. Os olhos nos espatifam. Peça o tempo que quiser, Alice. Tudo se demora, sempre. Mas nem sempre Alice sabe esperar. Por isso Alice aprendeu a chorar. E foi assim que descobriu que A PELE que importa é a do coração. Devota em aforas, protegeu os adentramentos. Tudo lhe chama à ferida das partidas: essas fomes. Para entrecortar o couro que pulsa sob a válvula dos Dias, A LÍNGUA faz de seu sentido a lâmina, a seta que se move por sobre os seixos da alma e do desejo, como pedra-viva.

Cantaremos, também, a queda.

Depois do desfiladeiro, de conhecermos o abismo que o Amor guarda, faz-se necessário O PASSO. Entre as cordas, Alice perde seus Dias. Perde para ganhar. Perde para reler possibilidades. Para se destrancar. Para sair de um novelo. A linha se une à agulha e com ela resolve viver de atravessar. Toda agulha é nômade. Faz casa onde. Faz casa quando. Faz casa e é percurso. AS HORAS são postas em caixinhas para se organizar o passo, para orientar a língua, para acobertar a pele, para endereçar os olhos. Agora saia dessa armadilha. Feche o livro. Fica o estranhamento nítido e pouco caro aos livros que nos propõem e que movem algo, seja um indício a mais de conhecimento a respeito de si mesmo ou da própria literatura. Fica o desfio. A agulha, presente entre os dedos, sem o devido fio para coser. Costuramos a impossibilidade dos silêncios e a beleza do porto criado, mesmo aquele irreal.

Por fim, estamos. Estamos, apenas. E não estamos.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pandemia de Arte




Por Germano Viana Xavier



Em seu mais recente ensaio, intitulado de A CRUEL PEDAGOGIA DO VÍRUS (Boitempo, 2020), Boaventura de Sousa Santos nos interroga logo de cara: O que aprenderemos com a atual pandemia do novo coronavírus que assola o mundo inteiro desde os últimos meses de 2019? Para o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, não é possível classificar este período de agora como sendo uma "nova" crise civilizatória, já que o termo "crise" tornou-se um estatuto permanente à humanidade atual e essa ideia só é alimentada pelos sistemas políticos e financeiros para se "legitimar a escandalosa concentração de riqueza e impedir a iminente catástrofe ecológica" e, também, para inviabilizar qualquer movimento humano de mudança que deseje pensar alternativas ao modelo dominante de sociedade.

Ao se colocar luz sobre a obra do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, percebemos instantaneamente que o conteúdo do texto levanta fundamentais questões que nos implicam como indivíduos e sociedades. Regressar à normalidade de antes da pandemia não é, deveras, uma ideia inteligente. A forçosa e dolorida irrupção de uma pandemia desta magnitude mundo afora, apesar de toda a tristeza proporcionada pelas milhares de mortes ocorridas de modo abrupto e com suas outras cruéis consequências, muitas ainda inclassificáveis, tornou possível e quase que inevitável o reencontro de outros milhares de indivíduos com a sua própria casa, antes apenas um local de repouso pós-trabalho, viabilizou o reencontro mais verdadeiro com os filhos, com o seu parceiro ou sua parceira, com os livros outrora empoeirados nas estantes, com os filmes nunca vistos por pura falta de tempo, com as séries, com o tempo propício a se escutar boas canções, com o ócio que ajuda a criar, a ver, a sentir mais, a ser mais, aclarou novamente a importância da contemplação e a magnitude da Beleza.

Não é novidade a esta altura do campeonato: a Arte, de um modo geral, tem ajudado a salvar vidas durante o período de isolamento social ao qual tivemos de aderir por necessidade e por orientação dos órgãos mais competentes. O cinema, a literatura, a música, só para citar alguns bons exemplos, estão nos retirando da escuridão dos dias insossos e fugidios, e nos devolvendo a capacidade de imaginar, a boniteza de inventariar, a competência de sonhar com dias e atitudes melhores, com um planeta mais harmônico e limpo, com criaturas mais solidárias e justas a povoar o globo terrestre. Todavia, esta mesma Arte que nos salvaguarda hoje e sempre, tornou-se um dos maiores alvos da onda política conservadora e extremista que cresce mundialmente nos últimos anos em diferentes regiões do mapa mundi.

No Brasil, nos já quase completados quatro anos pós-impeachment de Dilma Rousseff (sim, pasmem, já se passaram 4 anos pós-Golpe de 2016), a Cultura já deixou o panteão dos Ministérios e agora amarga um doído rebaixamento à categoria de Secretaria. O (des)governo Bolsonaro opera a máquina  pública para trucidar o que restou da Cultura em todos os seus valores, e o resultado disso é uma estrutura capenga e segregacionista (ideologicamente) de promoção das expressões artísticas nacionais baseada (até o prezado dia) em cinco trocas de liderança na pasta de Secretaria de Cultura, no retorno à vil prática da censura e no extermínio daquilo que é o mais fundamental no meio: a liberdade. Nesses quatros anos de desordem e de regresso, não vimos surgir sobre as manjedouras messiânicas Temer-bolsonaristas nem sequer um projeto efetivo para o avanço nesta área primordial.

A invisibilidade artístico-cultural de um país gigante como o Brasil é um dado preocupante. Parece que tudo fora neutralizado por uma pedagogia sociolóide gestada a partir da proliferação de fake news e piadas de muito mau gosto, com referenciais nazifascistas e inoportunamente autoritários. Não obstante, um mundo novamente polarizado (principalmente pelo embate EUA x CHINA), discursos vendidos e repassados a todo custo e reduzidos esforços para se fomentar soluções democráticas para as crises sem fim pelas quais a humanidade vem atravessando. Não é possível que a Arte em geral só seguirá sendo vista com bons olhos em momentos caóticos, durante catástrofes ou diante de centenas de óbitos mundo afora. Quem mesmo quer de volta uma tal normalidade quando esta "normalidade significa vivermos em um estado de permanente exclusão e de negação das diversas minorias existentes?

Reproduzo aqui, por fim, uma fala da amiga escritora luso-angolana Luísa Fresta, diante dos apontamentos retidos no referido livro do Boaventura de Sousa Santos: "Gostaria de pensar que aprendemos (aprenderemos) alguma coisa com esta crise. O neoliberalismo selvagem não me parece de todo a solução para a demanda social e econômica do mundo atual. Teremos que nos reinventarmos. Como disse há umas semanas o PM português, uma das coisas que aprendemos é a produzir mais localmente e a dar mais valor aos nossos investigadores e empresas, às pessoas. Outra coisa, penso eu, é a desmaterializar muitos procedimentos, a desburocratizar certas práticas sobretudo no acesso aos serviços púbicos. Afinal é possível fazer muitas coisas de outra forma..." Com a cultura, com a arte em geral, não é diferente. Oxalá melhoremos... 

domingo, 31 de maio de 2020

Um café




Por Germano Xavier



Um café coado antes do Verbo. A roda gigante do mundo que não para. Relógios badalam. Um café expresso para o pecado original. E tudo fora penetrado. O homem não sabe mais para onde ir. Um café com especiarias, por gentileza, para nossos desertos e futuros. Um lágrima para nossos prantos de crocodilo, por vezes inevitáveis. Um café breve para alimentar o temporal. Sim, o mundo lá fora é uma loucura. Outra dosa do americano para as ordens de desordem. Em tudo se pode confiar?

Um caribenho para revoluções. Um mocha para desanuviar, meramente. “Saindo um machiatto para o sonhador na mesa 43!”, vocifera o garçom. Um cortado para equilibrar o doce e o salgado da vida. Um capucinno, amigo. Ou melhor, dois. Não temos tempo para desperdiçar. Sente aqui. Precisamos conversar. O dia está lindo. Como vai a sua família? Há muito tempo não passo por lá. Como o tempo lhe fez bem! Um panna. Merecemos. Dois, sim. Dois. Estamos congregando. O café nos aproxima de Deus. Você acredita em Deus?

Deus é café com leite, um clássico. Prefiro um latte. Sou de exageros, de discórdias. A rebeldia é o que nos trouxe até aqui, não acha? Essa conversa não termina aqui, amigo. Estou na Praça do Vigário, 656. Apareça por lá, quando possível. Será um prazer. Tomaremos um irlandês, preparado com um whisky 18 anos. Se preferir, um amaretto. Sua esposa ainda aprecia um caramelo? Meu filho do meio adora um hawaiano, com leite de côco da região. Você não envelhece nunca, Doutor. Dê um abraço em seu pai. Diga a ele que jamais me esquecerei daquele dia.

Amigos são para essas coisas. Deixa eu lhe dizer... você sabia que meu querido avô plantava conilon? Sim, mas depois percebeu que negócio mesmo era mexer com o arábica. Está cedo. Boa noite. Bom dia, vizinha. Não quer entrar para tomar uma xícara de café? Não, ela viajou. Fique à vontade. Com ou seu açúcar? Na cama. O homem não sabe mais para onde ir. E tudo fora penetrado. Até a madrugada que embala os sonhos mais reais. Um café para depois do fim do mundo, please.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Um tripé literário de dor e esperança (ou Para que servem as histórias?)




Por Germano Xavier


Você já pensou em quantas vezes estamos a contar histórias, dia após dia? Já parou para pensar que a todo instante estamos diante da necessidade de contar algo, de narrar algum acontecimento, de expor em forma de "contação" ou "resenha" um fato recente ou até mesmo um mais antigo? Mas, para que servem as histórias que insistimos tanto em contar ou, pasmem, que precisamos, por um ou outro motivo, esconder? Certamente não chegaremos a nenhuma definição plena, mas podemos mexer neste imenso baú interpretativo que nos rodeia desde que começamos a nos importar com os efeitos da comunicação em nossas vidas - ou seja, desde sempre. Sim, chegaremos a respostas razoáveis, mas não definitivas.

Os argumentos que podem ser utilizados para explicar (ou tentar responder) este questionamento nos remete à própria trajetória do Homem, de forma direta ou indireta. Nossos ancestrais possuíam o belo costume de se reunirem assim que a noite tombava através dos horizontes e, ao redor de fogueiras em brasa e de labaredas crepitantes, os mais velhos exerciam seus dotes e poderes de historiar (estoriar) aos mais jovens. Era desta forma que as lendas e os mitos iam sendo transmitidos gerações após gerações. E desta maneira a vida era perpetuada, as árvores eram tomadas de uma magia vital e as belezas naturais realçadas, os campos se alongavam em distâncias, os sóis se repartiam em vários tons e estações, e tudo o mais vencia a barreira imposta pelo ser-Tempo.

Com esta força simbólica impressionante e incomensurável, o que temos a dizer, a falar, a gritar, a externar, sempre teve papel fundamental em nossas vidas, em nossa evolução enquanto seres humanos detentores de uma tal capacidade racional perante nossas escolhas e decisões. Seduzidos, pois, pelo fascínio causado pelas palavras, sempre estivemos diante de seus caprichos. Porém, a palavra dita, escrita, falada, cantada, expressa ou o que quer que seja, também é hoje uma espécie de arma contra as diversas formas de injustiça, de destemperança, de intolerância, de desigualdade, de afrontamento às nossas liberdades, de aprisionamento, de opressão e de terror. As histórias também servem para nos salvar de nós mesmos. Acredite!

Bem como Sherazade, personagem da milenar narrativa oriental AS MIL E UMA NOITES, que se viu na necessidade de envolver o sultão até mais não pode com suas historietas fantásticas na justa finalidade de escapar da morte, milhares de mulheres hoje se sentem na obrigação de narrar suas histórias ao mundo para que também não se tornem as mais novas vítimas do machismo, da repressão e de uma sociedade orientada por um mecanismo-dejeto que abafa o som da mulher e que tende sempre a expandir em ecos os guturais sons do homem, mas principalmente para incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo. E é justamente aqui que a literatura, e a palavra, entra em ação e pode ainda mais fazer perante círculos viciosos desta natureza.

Todos sabemos. Literatura é arte. Arte é também ação política. Literatura é enfrentamento e contestação. Literatura é denúncia e crítica, janela para o outro que também somos. A literatura está a todo instante se renovando, até mesmo em suas funções, em suas finalidades, em seu teor pragmático. Nesta toada, as histórias servem para expôr o que de mais impiedoso há nos convívios em sociedade, revelar as agruras das relações interpessoais antes camufladas, desvelar o que antes eram espectros impostores de um perfeição padronizada pelos costumes e pelas crenças. A literatura contemporânea tem se concentrado nisso e talvez aqui esteja o seu grande mérito ou papel a ser desempenhado. Principalmente a literatura mais consciente, que não se prende ao sistema mercadológico que há por detrás de livros de venda em massa e editoras descompromissadas com a tais causas.

Ao escrever, em 2018, uma resenha sobre o livro O PESO DO PÁSSARO MORTO, da escritora Aline Bei, fiz questão de interrogar aos meus leitores: "Quanto custa para uma pessoa ter de conviver com as suas negações de vida, os seus infortúnios, as suas farsas, as suas danças mirabolantes em prol do Nada, suas angústias e destemperanças, suas aflições e suas impossibilidades? É possível sair ileso de uma perda significante? E de duas? E de três? E de infinitas perdas? Até onde se pode ir com tamanho peso nas costas? E que tipo de lacuna se configura na alma de um ser humano quando ele não mais enxerga em si força suficiente para sonhar, ou simplesmente para continuar? Quanto custa para desentalar de dentro de nosso corpo (que vai morrendo) o caroço dos trágicos fins cotidianos que nos afetam sem pena? É possível estancar a dor que dói lá no fundo de nós?"

O premiado livro da Aline Bei dialoga profundamente com dois outros livros que andei lendo neste ano de 2020: REDEMOINHO EM DIA QUENTE, de Jarid Arraes, e A PRINCESA SALVA A SI MESMA NESTE LIVRO, da Amanda Lovelace. Os três juntos formam um tripé que versa sobre a dor quase insustentável de não caber em si mesma, por conta de tanta negação e de tamanha violação, bem como funcionam como caminhos a se trilhar para que a esperança em dias melhores estejam sempre disponíveis àquelas que se disponham a seguir seus sonhos de ser no mundo. Enfim, viva está a literatura, motor de tantas histórias que ainda precisam ser narradas, difundidas e debatidas. Todavia, voltando, para que servem mesmo as histórias? Talvez a leitura destes três últimos livros aqui supracitados lhe ajudem a chegar à resposta. Tomara.


* Imagem: google

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XVII)




Querido amigo Viana,

Eu vou começar por lembrar-te aquele chiste de dois ingleses que jogavam uma partida de xadrez tranquilamente quando um deles exclama, sem tirar os olhos do tabuleiro: “Acaba de passar um Bugatti Chiron”. Ao cabo de dez minutos, o seu adversário, sem tirar os olhos do tabuleiro, responde: “Não era só um Bugatti Chiron… era um Centodieci”. Finalmente, passados mais alguns minutos, o primeiro atalha assim esta promissora conversa, levantando-se e procurando o seu sobretudo: “Lamento, meu caro, mas não vim aqui para discutir. Receio que tenhamos que interromper esta partida”. (Já contei esta história milhentas vezes, e tu não terás escapado a ela, certamente…).

Esta é a maneira como em certa época se caricaturava a fleuma atribuída aos britânicos. Não sei se tem fundamento ou não, porque nunca tive oportunidade de comprovar a visão irónica acerca de um povo que na verdade não conheço por dentro. Em todo o caso estereótipos como este e outros valem o que valem mas não devemos deixar de sorrir apesar dos tempos sombrios que nos cercam. A visão do “homem encurralado” torna-se cada vez mais corpórea. Nós dois adiámos esta conversa por demasiado tempo e por isso me lembrei destes senhores britânicos que aqui tão bem nos representam (não me refiro, obviamente, ao diferendo deles por um motivo que nos pode parecer tão fútil e risível, mas à tranquilidade vagarosa com que interagem, na camaradagem, no esgrimir de argumentos ou nas quase-zangas subtis).





A última prosa (nossa) por esta via ocorreu no “longínquo” ano de 2018. E digo longínquo propositadamente para referir tudo o que ocorreu nas nossas vidas desde então, como indivíduos e peças desta engrenagem maravilhosa que é a humanidade. Desde logo tivemos oportunidade de conhecer-nos pessoalmente no momento pré-catástrofe sanitária. Foi uma bênção para todos, incluindo para as nossas famílias, pois nos dias que correm, tal não seria possível. É um presente raro da vida podermos estar diante das pessoas que tanto admiramos e com quem trocámos já tantas experiências e conhecimento ao longo de vários anos. Acredito que serão muitos mais daqui por diante, os anos, as décadas e as partilhas, como fazedores de literatura e como leitores compulsivos. Em todo o caso na vida tudo acaba por acontecer no momento certo.

Hoje vivemos tempos excecionais de angústia, de prudência, de adrenalina, em que mais do que nunca é importante fazer uma correta triagem da informação relevante para não perdermos tempo com futilidades e desinformação, maldosa ou simplesmente inconsciente. Não me vou alongar muito sobre isso porque é tema de conversa diária inclusive na imprensa e entre pessoas que se estimam. Apesar disso abro um parêntesis para desabafar contigo sobre o quanto me preocupa que a insanidade de alguns, incluindo líderes de grandes nações, possa pôr em perigo milhões de vidas, mais do que já estão. Estes são momentos que nunca vivemos (a tua geração ou mesmo a minha), mas talvez voltemos a conhecer ainda algumas vezes durante a nossa passagem pelo planeta, por isso é bom que aprendamos a agir em situações de risco, atualizando o conhecimento dia a dia em função dos novos dados.




Porém, há coisas que são sempre válidas, que não devem mudar nunca: a solidariedade entre todos e em relação aos mais vulneráveis, a consciência de que todos nós (sim, todos nós, e não apenas os supostos “grupo de risco”, expressão que é infelizmente usada muitas vezes com uma certa condescendência e sobranceria), somos potenciais vítimas e portadores de uma doença que pode causar outras tantas vítimas de gravidade variável.

Quando ouvia a minha avó materna, ou a minha Mãe, falarem da “pneumónica” de 1918, aquilo para mim era sobretudo uma referência histórica, embora me tocasse tremendamente pela dimensão trágica da doença, arrasadora, impiedosa, que vitimou muitas pessoas da geração da minha avó, nascida em 1885. Hoje a ameaça da “ceifeira” é real, apesar de termos meios tecnológicos e sistemas de saúde razoavelmente sólidos (em alguns países) para nos precavermos um pouco mais do que em zonas do planeta onde não se pode contar com essas estruturas, já frágeis e insuficientes em tempo normal. Quando passar esta imensa crise talvez nos lembremos que na hora da verdade contamos sobretudo com o Serviço Nacional de Saúde e que por isso talvez devêssemos investir mais, muito mais, nesta estrutura que é o nosso suporte, nos seus profissionais abnegados, na formação e equipamento.

O futuro dirá o que aprendemos com tudo isto. Para já digo-te que a minha buganvília cor-de-rosa, indiferente a tudo e a todos e concentrada apenas na sua própria beleza — e na primavera, que teima em revelar-se —, está a florir de dia para dia, junto com uma violeta africana e um aspargo que não para de crescer. Elas são assim mesmo, leves e quase levianas, livres e exuberantes em qualquer circunstância, por mais dramática que se nos afigure. Não sei porquê eu pensei também — e pelas mesmas razões— na Nina e na Lola, sempre belas e sorridentes, porque no mundo delas está sempre tudo bem, desde que existam livros e carinho. Elas são encantadoras e soltas, imunes a tristezas e preocupações, não é?



Entretanto, neste lapso de tempo em que nos calámos um perante o outro saiu para o público um novo “MARÇO Entre Meridianos” e uma “Fabulosa Galinha de Angola” que começou timidamente o seu périplo, este ano, em Lisboa. Projetos que começaram um trajeto agora interrompido porque, como se diz e bem, valores mais altos se levantam. A literatura pode esperar, a vida não. Além disso os livros podem circular de forma alternativa, e para isso cá estamos para tentar conciliar vontades, interesses e prioridades.

Por ora digo-te que estou a frequentar uma oficina de escrita criativa online (gosto da palavra oficina!); surgiu a oportunidade e quis experimentar. Nunca tinha pensado nisso antes seriamente, mas acontece que a pessoa que está a ministrar o curso, pro bono, é uma romancista luso-moçambicana com um vasto conhecimento e experiência como historiadora e ficcionista. Daí o meu interesse, até porque pretendo melhorar as minhas ferramentas de comunicação escrita, sobretudo de textos longos. Não tenho ainda estaleca para escrever uma novela e muito menos um romance, escrever um conto de média dimensão para mim já é um “grande” feito; mas confesso que se um dia conseguir fazê-lo, de maneira a prender um leitor da primeira à última linha, com coerência, rigor, humor e interesse (tal como acontece com muitos e bons autores que leio desde a infância), ficarei muito satisfeita.

Tu és uma daquelas pessoas em que me miro e com quem mais aprendo, e agora falo especificamente das tuas vivências como ficcionista e ensaísta, como poeta também. Porque consegues estabelecer uma fronteira confortável entre prosa e poesia, deixando que uma dialogue com a outra e se entreajudem, sem no entanto perder o fio narrativo e conseguindo sempre adaptar a linguagem e o estilo ao efeito pretendido. Mas nota-se que nada é forçado, e isso é uma coisa verdadeiramente invejável, fruto de um dom natural, certamente, mas também de muito treino, imagino, como leitor e como escritor. Tens também uma grande facilidade de comunicar oralmente com eficácia (aí sobressai o professor!) e fluidez máxima: isso para mim é ainda mais extraordinário porque não me sai nunca espontaneamente, a não ser entre amigos, quando me sinto segura e confortável.



Há também outra forma de expressão que me atrai desde a infância, creio que já comentámos, que é o desenho; embora faça longas pausas injustificáveis nos meus rabiscos e exercícios. Já a nossa Cris vai evoluindo dia após dia, com treino intenso, inspiração e dedicação, procurando superar-se ensaiando novas técnicas e métodos. Por isso vou recorrendo a ela quando preciso de algo mais específico, um certo tipo de traço rápido e realista, com uma interpretação impregnada de humor, colorida e jovial. Assim é a Cris e também os seus desenhos.

Os dias são pequenos para encaixar neles tudo o que queremos: partilha familiar, trabalho criativo e rotineiro, atividade física, higiene e desinfeção redobrada dos locais e dos objetos…mas nunca pode faltar o tempo para nós mesmos, para fazermos alguma coisa prazerosa, e quem gosta do que faz pode multiplicar esses momentos em cada atividade, em cada pequeno gesto, por mais simples que pareça.

Não vou cansar-te mais, Viana, com as trivialidades às quais já te habituei e que escutas há anos mercê de uma inesgotável paciência e generosidade.

Aguardo notícias de ti, do Brasil, esse país-mundo tão próximo dos nossos afetos e preocupações.

Um abraço fraterno e gigante,
Clara


Lisboa, 28 de março de 2020



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Clara,

paramos a prosa, sim, para olhar melhor para além da poesia do mundo, das pessoas, das nossas atitudes, para além de nossos engraçamentos ou desaforos individuais. É sabido, nunca paramos por completo, apesar de nossos encurralamentos diários, sazonais, temporais, quase que ritualísticos. Nesse ínterim, absorvemos todas as dores do universo, os amores, cumprimos as ordens dos dias e tentamos, quando necessário, burlar os movimentos naturais do ser e da vida. Paramos, sim, mas nos movemos.

Eu mesmo me fui em navegâncias, Clara, a correr mares inóspitos, mesmo trilhando, por vezes, o trivial das rotas dos destinos insondáveis. Eis o segredo. Ir. Ir apenas. Sobreviver para ir apenas. Ir apenas para viver. Se não consegui por completo chegar aos locais por ora pretendidos, eis aí um outro detalhe, ou melhor, um mero detalhe. Um mero detalhe, sim. O importante é que andei tentando, mesmo deixando pelo caminho atalhos antes prazerosos por conta das paisagens bonitas. Necessário seguir a trilha que escolhemos. Escolhemos, sempre. 

Outra coisa não, mas explorar todas as nossas tolerâncias e capacidades de resiliência foi o que fizemos durante todo este tempo em que nos dispomos a estancar nossos diálogos, mesmo que inconscientemente. Muita coisa aconteceu, muita coisa nos aconteceram. Você sabe. O Brasil é um país que, vira e mexe, surpreende-nos, tanto positivamente quando negativamente. Nos últimos tempos, negativamente em 90 % das vezes. Sim, claro que estou citando aí o campo político nacional. É de se suspeitar que, com um sujeito desse naipe “comandando” esta nau desvairada o assunto não poderia ser outro. Mas bem que poderia, sim. Pode, sim. Esquivar-se é também um golpe artístico, por vezes.

Sem zanga nem nenhum sentimento de desperdício de tempo ou qualquer coisa de culpa no ar, cá estamos, ressuscitados de nós mesmos, de nossas próprias mortes diárias, mensais, anuais. Bom notar o quanto nos reerguemos, o quanto nos refazemos mesmo diante de tantas quedas ou travessias abortadas no meio dos passos. Precisamos passar. Somos passantes.

E eis que veio esta pandemia.



Sim, Clara, encontrar você às margens do Tejo, aos som dos sóis e dos frios imemoriais de um janeiro de ventos, foi tão bom quanto me sentir vivo até o prezado instante de encontrá-la. Eu que, timidamente, insisto na ideia de que fora um reencontro. Digo a você e exponho aqui a todos os nossos leitores: você é igualzinha à persona que imaginei em mente. Mesma força e mesma beleza. Também creio que nossos laços de amizade e parceria se incluam em campos temporais bem mais distantes que os visíveis a olhos nus. Então, isto só está a começar. Fomos sortudos. Ainda deu tempo de podermos nos abraçar. Se demorasse mais, nem isso.

Temo, Clara. É incrível saber que a história está sempre a se repetir diante do Tempo e quase não percebemos. Mais, e pior, e daí vem meu temor maior, incrível é saber o quanto nós, seres humanos, recusamo-nos a aprender com os erros cometidos no passado. Uma espécie de eterno retorno Não foram poucas as chances que tivemos para deixar de errar, Clara, e também de nos precaver diante de situações desta natureza. Você bem sabe. As consequências serão devastadoras, principalmente para os mais desfavorecidos Por que diabos insistimos tanto nos erros, Clara? Para onde vamos com tamanha ignorância ou desprestígio ao saber real? O temor é crescente e se expande. O que é mesmo o futuro?



O vir-a-ser, o depois-de, como será? Como seremos após isto tudo cessar? Haverá mesmo alguma mudança na maneira de pensarmos a engrenagem vital? Alguma incrível e transformadora novidade que valha a pena a espera? Ou tudo continuará freneticamente a remoer os nossos últimos alicerces e ossos? Temo, temo, temo. Não sei como isso irá se dar. O que serei? O que serás? Eu preciso mesmo pensar sobre isso? E se for perda de tempo? O que fazer? O que é o melhor a se fazer? O que é o pior a se fazer? Estamos sucumbindo?

O Brasil não está preparado, Clara. Verdade seja dita. O Brasil nunca esteve preparado para lutar contra uma dor geral invisível tão aterrorizante e alastrante. Acho até que nunca estaremos preparados para algo do tipo, nunca mesmo. Mente quem diz o contrário. Mente o presidente, este idiota partícipe da necropolítica que assola o mundo hoje. Bolsonaro é o lixo do lixo, a coisa mais degradante. Aqui, neste país de meu deus, não sabemos qual mal é maior e mais perigoso, se é o vírus ou se é o presidente. Enfim, nós que lutemos para derrotar estes males. É o que nos resta.

Mudando de assunto. Nina e Lola são, sim, imunes a tudo isto. São nossas criaturinhas que nos acordam em pulos sobre a cama ou em ranhuras na lateral do lençol. Ideia de minha esposa tê-las em nossa companhia. Onde morava antes, eu tinha o Sam, um vira-lata branco que muito alegrou minha família. Acabei me despedindo dele muito cedo quando por outras paragens citadinas tive de aportar. Nina e Lola meio que resumem meu amor para com o meu velho Sam. Não esqueço dele. E elas me fazem recordá-lo. 

Nina é calma, inteligentíssima e é de esquerda também, como Lola (risos). Lola é mais nervosa, gosta muito de passear e de correr. Lola é mais dependente, sempre quer carinho. Nina é mais autossuficiente. Mas não fica muito atrás de Lola no quesito apego. As duas se completam, as duas se complementam. Por termos horários de trabalho bastante diferentes, a companhia delas supriu um pouco de nossas ausências mútuas. São excelentes companheirinhas, fofinhas e não dão nenhum trabalho. Gostam de brincar e até conversam com seus sinais já compreensíveis por nós.

Seus livros são essenciais, Clara. Daqui os observo, guardo, compartilho impressões e leituras. E muito obrigado por ter tido a oportunidade de lê-los. Suas inquietações referentes à aprendizagem do fazer literário são oportunas e válidas. Aqui também estou sempre de olho em algumas oportunidades de aprimoramento, apesar do tempo que às vezes nos parece escasso e faltante. Escrever é o que somos. Precisamos continuar. Por isso, cuide-se. Cuide de tudo que importa a você e aos seus. Precisamos continuar, apesar do mundo e das pessoas. Apesar das histórias que a História insiste em nos contar. Precisamos. Por isso, vamos. 

Um beijo. 


Caruaru, 14 de abril de 2020



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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

As imagens são da queridíssima e talentosa Cristina Seixas.