segunda-feira, 20 de abril de 2020

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XVII)




Querido amigo Viana,

Eu vou começar por lembrar-te aquele chiste de dois ingleses que jogavam uma partida de xadrez tranquilamente quando um deles exclama, sem tirar os olhos do tabuleiro: “Acaba de passar um Bugatti Chiron”. Ao cabo de dez minutos, o seu adversário, sem tirar os olhos do tabuleiro, responde: “Não era só um Bugatti Chiron… era um Centodieci”. Finalmente, passados mais alguns minutos, o primeiro atalha assim esta promissora conversa, levantando-se e procurando o seu sobretudo: “Lamento, meu caro, mas não vim aqui para discutir. Receio que tenhamos que interromper esta partida”. (Já contei esta história milhentas vezes, e tu não terás escapado a ela, certamente…).

Esta é a maneira como em certa época se caricaturava a fleuma atribuída aos britânicos. Não sei se tem fundamento ou não, porque nunca tive oportunidade de comprovar a visão irónica acerca de um povo que na verdade não conheço por dentro. Em todo o caso estereótipos como este e outros valem o que valem mas não devemos deixar de sorrir apesar dos tempos sombrios que nos cercam. A visão do “homem encurralado” torna-se cada vez mais corpórea. Nós dois adiámos esta conversa por demasiado tempo e por isso me lembrei destes senhores britânicos que aqui tão bem nos representam (não me refiro, obviamente, ao diferendo deles por um motivo que nos pode parecer tão fútil e risível, mas à tranquilidade vagarosa com que interagem, na camaradagem, no esgrimir de argumentos ou nas quase-zangas subtis).





A última prosa (nossa) por esta via ocorreu no “longínquo” ano de 2018. E digo longínquo propositadamente para referir tudo o que ocorreu nas nossas vidas desde então, como indivíduos e peças desta engrenagem maravilhosa que é a humanidade. Desde logo tivemos oportunidade de conhecer-nos pessoalmente no momento pré-catástrofe sanitária. Foi uma bênção para todos, incluindo para as nossas famílias, pois nos dias que correm, tal não seria possível. É um presente raro da vida podermos estar diante das pessoas que tanto admiramos e com quem trocámos já tantas experiências e conhecimento ao longo de vários anos. Acredito que serão muitos mais daqui por diante, os anos, as décadas e as partilhas, como fazedores de literatura e como leitores compulsivos. Em todo o caso na vida tudo acaba por acontecer no momento certo.

Hoje vivemos tempos excecionais de angústia, de prudência, de adrenalina, em que mais do que nunca é importante fazer uma correta triagem da informação relevante para não perdermos tempo com futilidades e desinformação, maldosa ou simplesmente inconsciente. Não me vou alongar muito sobre isso porque é tema de conversa diária inclusive na imprensa e entre pessoas que se estimam. Apesar disso abro um parêntesis para desabafar contigo sobre o quanto me preocupa que a insanidade de alguns, incluindo líderes de grandes nações, possa pôr em perigo milhões de vidas, mais do que já estão. Estes são momentos que nunca vivemos (a tua geração ou mesmo a minha), mas talvez voltemos a conhecer ainda algumas vezes durante a nossa passagem pelo planeta, por isso é bom que aprendamos a agir em situações de risco, atualizando o conhecimento dia a dia em função dos novos dados.




Porém, há coisas que são sempre válidas, que não devem mudar nunca: a solidariedade entre todos e em relação aos mais vulneráveis, a consciência de que todos nós (sim, todos nós, e não apenas os supostos “grupo de risco”, expressão que é infelizmente usada muitas vezes com uma certa condescendência e sobranceria), somos potenciais vítimas e portadores de uma doença que pode causar outras tantas vítimas de gravidade variável.

Quando ouvia a minha avó materna, ou a minha Mãe, falarem da “pneumónica” de 1918, aquilo para mim era sobretudo uma referência histórica, embora me tocasse tremendamente pela dimensão trágica da doença, arrasadora, impiedosa, que vitimou muitas pessoas da geração da minha avó, nascida em 1885. Hoje a ameaça da “ceifeira” é real, apesar de termos meios tecnológicos e sistemas de saúde razoavelmente sólidos (em alguns países) para nos precavermos um pouco mais do que em zonas do planeta onde não se pode contar com essas estruturas, já frágeis e insuficientes em tempo normal. Quando passar esta imensa crise talvez nos lembremos que na hora da verdade contamos sobretudo com o Serviço Nacional de Saúde e que por isso talvez devêssemos investir mais, muito mais, nesta estrutura que é o nosso suporte, nos seus profissionais abnegados, na formação e equipamento.

O futuro dirá o que aprendemos com tudo isto. Para já digo-te que a minha buganvília cor-de-rosa, indiferente a tudo e a todos e concentrada apenas na sua própria beleza — e na primavera, que teima em revelar-se —, está a florir de dia para dia, junto com uma violeta africana e um aspargo que não para de crescer. Elas são assim mesmo, leves e quase levianas, livres e exuberantes em qualquer circunstância, por mais dramática que se nos afigure. Não sei porquê eu pensei também — e pelas mesmas razões— na Nina e na Lola, sempre belas e sorridentes, porque no mundo delas está sempre tudo bem, desde que existam livros e carinho. Elas são encantadoras e soltas, imunes a tristezas e preocupações, não é?



Entretanto, neste lapso de tempo em que nos calámos um perante o outro saiu para o público um novo “MARÇO Entre Meridianos” e uma “Fabulosa Galinha de Angola” que começou timidamente o seu périplo, este ano, em Lisboa. Projetos que começaram um trajeto agora interrompido porque, como se diz e bem, valores mais altos se levantam. A literatura pode esperar, a vida não. Além disso os livros podem circular de forma alternativa, e para isso cá estamos para tentar conciliar vontades, interesses e prioridades.

Por ora digo-te que estou a frequentar uma oficina de escrita criativa online (gosto da palavra oficina!); surgiu a oportunidade e quis experimentar. Nunca tinha pensado nisso antes seriamente, mas acontece que a pessoa que está a ministrar o curso, pro bono, é uma romancista luso-moçambicana com um vasto conhecimento e experiência como historiadora e ficcionista. Daí o meu interesse, até porque pretendo melhorar as minhas ferramentas de comunicação escrita, sobretudo de textos longos. Não tenho ainda estaleca para escrever uma novela e muito menos um romance, escrever um conto de média dimensão para mim já é um “grande” feito; mas confesso que se um dia conseguir fazê-lo, de maneira a prender um leitor da primeira à última linha, com coerência, rigor, humor e interesse (tal como acontece com muitos e bons autores que leio desde a infância), ficarei muito satisfeita.

Tu és uma daquelas pessoas em que me miro e com quem mais aprendo, e agora falo especificamente das tuas vivências como ficcionista e ensaísta, como poeta também. Porque consegues estabelecer uma fronteira confortável entre prosa e poesia, deixando que uma dialogue com a outra e se entreajudem, sem no entanto perder o fio narrativo e conseguindo sempre adaptar a linguagem e o estilo ao efeito pretendido. Mas nota-se que nada é forçado, e isso é uma coisa verdadeiramente invejável, fruto de um dom natural, certamente, mas também de muito treino, imagino, como leitor e como escritor. Tens também uma grande facilidade de comunicar oralmente com eficácia (aí sobressai o professor!) e fluidez máxima: isso para mim é ainda mais extraordinário porque não me sai nunca espontaneamente, a não ser entre amigos, quando me sinto segura e confortável.



Há também outra forma de expressão que me atrai desde a infância, creio que já comentámos, que é o desenho; embora faça longas pausas injustificáveis nos meus rabiscos e exercícios. Já a nossa Cris vai evoluindo dia após dia, com treino intenso, inspiração e dedicação, procurando superar-se ensaiando novas técnicas e métodos. Por isso vou recorrendo a ela quando preciso de algo mais específico, um certo tipo de traço rápido e realista, com uma interpretação impregnada de humor, colorida e jovial. Assim é a Cris e também os seus desenhos.

Os dias são pequenos para encaixar neles tudo o que queremos: partilha familiar, trabalho criativo e rotineiro, atividade física, higiene e desinfeção redobrada dos locais e dos objetos…mas nunca pode faltar o tempo para nós mesmos, para fazermos alguma coisa prazerosa, e quem gosta do que faz pode multiplicar esses momentos em cada atividade, em cada pequeno gesto, por mais simples que pareça.

Não vou cansar-te mais, Viana, com as trivialidades às quais já te habituei e que escutas há anos mercê de uma inesgotável paciência e generosidade.

Aguardo notícias de ti, do Brasil, esse país-mundo tão próximo dos nossos afetos e preocupações.

Um abraço fraterno e gigante,
Clara


Lisboa, 28 de março de 2020



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Clara,

paramos a prosa, sim, para olhar melhor para além da poesia do mundo, das pessoas, das nossas atitudes, para além de nossos engraçamentos ou desaforos individuais. É sabido, nunca paramos por completo, apesar de nossos encurralamentos diários, sazonais, temporais, quase que ritualísticos. Nesse ínterim, absorvemos todas as dores do universo, os amores, cumprimos as ordens dos dias e tentamos, quando necessário, burlar os movimentos naturais do ser e da vida. Paramos, sim, mas nos movemos.

Eu mesmo me fui em navegâncias, Clara, a correr mares inóspitos, mesmo trilhando, por vezes, o trivial das rotas dos destinos insondáveis. Eis o segredo. Ir. Ir apenas. Sobreviver para ir apenas. Ir apenas para viver. Se não consegui por completo chegar aos locais por ora pretendidos, eis aí um outro detalhe, ou melhor, um mero detalhe. Um mero detalhe, sim. O importante é que andei tentando, mesmo deixando pelo caminho atalhos antes prazerosos por conta das paisagens bonitas. Necessário seguir a trilha que escolhemos. Escolhemos, sempre. 

Outra coisa não, mas explorar todas as nossas tolerâncias e capacidades de resiliência foi o que fizemos durante todo este tempo em que nos dispomos a estancar nossos diálogos, mesmo que inconscientemente. Muita coisa aconteceu, muita coisa nos aconteceram. Você sabe. O Brasil é um país que, vira e mexe, surpreende-nos, tanto positivamente quando negativamente. Nos últimos tempos, negativamente em 90 % das vezes. Sim, claro que estou citando aí o campo político nacional. É de se suspeitar que, com um sujeito desse naipe “comandando” esta nau desvairada o assunto não poderia ser outro. Mas bem que poderia, sim. Pode, sim. Esquivar-se é também um golpe artístico, por vezes.

Sem zanga nem nenhum sentimento de desperdício de tempo ou qualquer coisa de culpa no ar, cá estamos, ressuscitados de nós mesmos, de nossas próprias mortes diárias, mensais, anuais. Bom notar o quanto nos reerguemos, o quanto nos refazemos mesmo diante de tantas quedas ou travessias abortadas no meio dos passos. Precisamos passar. Somos passantes.

E eis que veio esta pandemia.



Sim, Clara, encontrar você às margens do Tejo, aos som dos sóis e dos frios imemoriais de um janeiro de ventos, foi tão bom quanto me sentir vivo até o prezado instante de encontrá-la. Eu que, timidamente, insisto na ideia de que fora um reencontro. Digo a você e exponho aqui a todos os nossos leitores: você é igualzinha à persona que imaginei em mente. Mesma força e mesma beleza. Também creio que nossos laços de amizade e parceria se incluam em campos temporais bem mais distantes que os visíveis a olhos nus. Então, isto só está a começar. Fomos sortudos. Ainda deu tempo de podermos nos abraçar. Se demorasse mais, nem isso.

Temo, Clara. É incrível saber que a história está sempre a se repetir diante do Tempo e quase não percebemos. Mais, e pior, e daí vem meu temor maior, incrível é saber o quanto nós, seres humanos, recusamo-nos a aprender com os erros cometidos no passado. Uma espécie de eterno retorno Não foram poucas as chances que tivemos para deixar de errar, Clara, e também de nos precaver diante de situações desta natureza. Você bem sabe. As consequências serão devastadoras, principalmente para os mais desfavorecidos Por que diabos insistimos tanto nos erros, Clara? Para onde vamos com tamanha ignorância ou desprestígio ao saber real? O temor é crescente e se expande. O que é mesmo o futuro?



O vir-a-ser, o depois-de, como será? Como seremos após isto tudo cessar? Haverá mesmo alguma mudança na maneira de pensarmos a engrenagem vital? Alguma incrível e transformadora novidade que valha a pena a espera? Ou tudo continuará freneticamente a remoer os nossos últimos alicerces e ossos? Temo, temo, temo. Não sei como isso irá se dar. O que serei? O que serás? Eu preciso mesmo pensar sobre isso? E se for perda de tempo? O que fazer? O que é o melhor a se fazer? O que é o pior a se fazer? Estamos sucumbindo?

O Brasil não está preparado, Clara. Verdade seja dita. O Brasil nunca esteve preparado para lutar contra uma dor geral invisível tão aterrorizante e alastrante. Acho até que nunca estaremos preparados para algo do tipo, nunca mesmo. Mente quem diz o contrário. Mente o presidente, este idiota partícipe da necropolítica que assola o mundo hoje. Bolsonaro é o lixo do lixo, a coisa mais degradante. Aqui, neste país de meu deus, não sabemos qual mal é maior e mais perigoso, se é o vírus ou se é o presidente. Enfim, nós que lutemos para derrotar estes males. É o que nos resta.

Mudando de assunto. Nina e Lola são, sim, imunes a tudo isto. São nossas criaturinhas que nos acordam em pulos sobre a cama ou em ranhuras na lateral do lençol. Ideia de minha esposa tê-las em nossa companhia. Onde morava antes, eu tinha o Sam, um vira-lata branco que muito alegrou minha família. Acabei me despedindo dele muito cedo quando por outras paragens citadinas tive de aportar. Nina e Lola meio que resumem meu amor para com o meu velho Sam. Não esqueço dele. E elas me fazem recordá-lo. 

Nina é calma, inteligentíssima e é de esquerda também, como Lola (risos). Lola é mais nervosa, gosta muito de passear e de correr. Lola é mais dependente, sempre quer carinho. Nina é mais autossuficiente. Mas não fica muito atrás de Lola no quesito apego. As duas se completam, as duas se complementam. Por termos horários de trabalho bastante diferentes, a companhia delas supriu um pouco de nossas ausências mútuas. São excelentes companheirinhas, fofinhas e não dão nenhum trabalho. Gostam de brincar e até conversam com seus sinais já compreensíveis por nós.

Seus livros são essenciais, Clara. Daqui os observo, guardo, compartilho impressões e leituras. E muito obrigado por ter tido a oportunidade de lê-los. Suas inquietações referentes à aprendizagem do fazer literário são oportunas e válidas. Aqui também estou sempre de olho em algumas oportunidades de aprimoramento, apesar do tempo que às vezes nos parece escasso e faltante. Escrever é o que somos. Precisamos continuar. Por isso, cuide-se. Cuide de tudo que importa a você e aos seus. Precisamos continuar, apesar do mundo e das pessoas. Apesar das histórias que a História insiste em nos contar. Precisamos. Por isso, vamos. 

Um beijo. 


Caruaru, 14 de abril de 2020



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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

As imagens são da queridíssima e talentosa Cristina Seixas.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Pandemia



Por Germano Xavier




todos pareciam dormir
todos pareciam alguma coisa
de antes

foram surgindo entre os becos
nas vielas
pelas avenidas

descerram os morros
subiram os elevados

todos aquietados
pasmos ainda

os passos eram surdos

os quintais foram se desafogando
os braços se despregando
do resto do corpo

tocaram as suas faces
enxugaram as lágrimas

olhei para o capacho
ao fechar a porta por fora
uma recordação

ENTRADA


* Imagem: google

quarta-feira, 8 de abril de 2020

As máquinas de costurar famílias



Por Germano Xavier


Um fato me chamou a atenção hoje quando me coloquei a pensar sobre coisas alheias e, por conseguinte, resolvi sentar e escrever este texto: as costureiras e as máquinas de costura sempre estiveram muito presentes em minha vida ou na vida das mulheres de minha família. Sim, das mulheres. Homens não, de jeito nenhum, é preciso que se diga. Praticamente todos os parentes (mulheres) mais próximos tinham alguma relação com o ato de costurar ou possuíam máquinas de costura em seus aposentos, para fins particulares de produção em pequenas quantidades ou simplesmente para efetuar reparos e até para dar vazão à imaginação na confecção de vestimentas próprias. 

Lá em casa mesmo, minha mãe, muito vaidosa, buscava sempre a ajuda de costureiras na cidade para apurar as linhas de peças de roupas as mais diversas, muitas delas criadas a partir de sua própria inventividade. Era comum a rotina quase semanal de ir visitar uma costureira ali nos idos dos anos 80 e 90 do século passado, exato tempo em que se passam estas minhas deambulantes recordações. Nas proximidades da casa onde morei até os 14 anos em Iraquara, na Bahia, havia duas costureiras que executavam com maestria as quase geniais e ousadas ideias maternas acerca do vestuário feminino. Existiam outras costureiras na pacata cidade, mas Gilda e Vera eram as preferidas da minha mãe. Lembro com carinho de toda aquela movimentação. 

As máquinas de costura, historicamente, acabaram por representar dois lados de uma paradoxal moeda social. Ora funcionaram como importante passo para a autonomia econômica das mulheres, ora representaram mais um empecilho para as suas respectivas emancipação e socialização. A máquina de costura é uma inovação oriunda da Revolução Industrial e as fábricas têxteis inicialmente simbolizaram, através do uso deste objeto, a possibilidade de criação de vínculos empregatícios para várias mulheres. Todavia, logo o esmagador sistema fabrico-patriarcal encobriria tal feito, substituindo um possível avanço por segregações ímpares, monitoramentos excludentes dentro e fora das próprias fabriquetas, desigualdades funcionais e salariais, bem como assédios sexuais por demais inadmissíveis. 

Enfim, as máquinas de costura não trouxeram consigo a libertação das mulheres, tão quista e possivelmente prometida. A vigilância era tão grande, que até setores ligados à medicina criaram teorias no mínimo nefastas para dificultar o acesso à este "utensílio de libertação" feminina, utilizando-se de discursos do tipo "a trepidação das máquinas de costura pode levar a mulher à infertilidade" ou coisas semelhantes. Sem dúvida, esta é uma matéria que merecia uma maior investigação por parte de nós, estudiosos e curiosos de plantão. No Brasil, costurar sempre foi tipicamente feminino. Há relatos de escravas costureiras já desde a época colonial, bem como de senhoras mais bem afortunadas. 

Minha avó Isaura possui uma máquina daquelas Singer dobráveis até hoje. Uma verdadeira relíquia. Recentemente, minha mãe comprou uma moderna e portátil para ela. Na família do meu pai, Tia Estelita se destacava. Tinha um quartinho com máquina e muitos rolos de tecido. "Costurava para fora", diziam. Mas costurava "para dentro" também. Lembro bastante de suas roupas de "senhora já viúva"(é possível dizer algo assim?). Algumas mulheres àquela época possuíam um jeito particular de se vestir. Tia Estelita vestia suas próprias ideias. Era mulher forte, destemida e resoluta. O quarto de costurar dela ficava bem no cômodo que dava para a rua. Aquela posição facilitava a entrada e saída de clientes. A máquina de costurar, para a minha tia, significava também proximidade e afeto. Sabia que ela também costurava roupas e cobertores para doar aos mais necessitados. Era bonito demais para a alma ver tudo aquilo. 

Hoje, por acaso do andar natural da vida, vim parar em uma região onde a máquina de costura tem um papel fundamental para o cotidiano de milhares de pessoas, em especial para a vida das mulheres. Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, principalmente, são cidades pernambucanas que fazem girar altíssimos valores em dinheiro por conta da fabricação e da comercialização de produtos têxteis e de seus derivados. A integração homem-máquina de costura nessas redondezas é percebida facilmente nas ruas sob diversos prismas analíticos, assim como é bastante perceptível a dureza que é ter de lidar com as agruras deste mercado de trabalho, que entre as agulhas da informalidade e as linhas da necessidade, costura uma esperança humana num pano rústico de autocomiseração, labor e resiliência.


* Imagem: https://c1.staticflickr.com/3/2464/3855514241_2aa317a9c3_b.jpg

terça-feira, 7 de abril de 2020

Foi de lá que chegou



Por Germano Xavier


a manhã veio áspera. boca meio fétida. a alma parece ter sofrido durante o sono. quem sonha? quem sonha ainda? deveria ocorrer em breve. quão mínimo é máxima espera? sem paciência. arde tudo. um rubor. aqui dentro não tem brisa nem a última esperança existe. a manhã veio sem disciplina. pegou a todos. ave maria. cheia de graça. rogai por nós. alguma coisa da janela vejo e faz tudo balançar. alguma coisa para além. para ali. alguma coisa lá. baita rabisco no céu esquisito. louca besta solta. há um caminho entre meus olhos. um caminho que vejo. longo. áspero que nem a manhã. um caminho amanhecido e com cara de destino. ou desatino. meu caminho, lembrei. e o seu? qual é o seu caminho? ei, você que caminha, para onde estamos indo? o que é este caminho aí em frente? a linha nunca termina. parece jamais acabar. dentro da linha pode haver buracos. nos buracos podemos cair. o caminho é perigoso. é recheado de buracos o caminho dentro da linha do caminho. a linha pode bater numa pedra. a linha pode bater no caminho. a linha pode dar num buraco. dentro do buraco pode haver uma palavra. uma palavra ou uma esquina. aí eu nem entendo. mínima é a minha pedra. minha pedra sem linha. minha linha sem caminho. só buraco. a vida surge. não tenho caminho. tenho a palavra. e não é aqui que esta manhã termina. 


* Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEilib43IfY5k-3BRViOtJvDQJVCriIf4B9MlsCyKzdOUFRoFtfh4YwaZxmUw9lrDCuB3S5_efIYjnvwOfvp10Y8VtFvT3gom-IE0fo3WJx1S_xs-mulAcJdrp0mqoWADZkyhiKYxBGNoJQ/s1600/vento.jpg

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Crime de lesa-vida



Por Germano Xavier



cúmplices: Arte e Vida.

"juntos
nos distrairemos
vendo o Tempo (este bobalhão)

passar"


* Imagem: https://quotecatalog.imgix.net/assets/title-N94qXDlAU83RLsizYgWBDefE/original.jpg?w=680&h=415&fit=crop&crop=top

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Avalovara (e suas mulheres)




Por Germano Xavier


(Notas sobre Abel, a mulher sem nome, Roos e Cecília)


Osman Lins é um exímio construtor de máscaras, pois mascarados são seus personagens no enredo mítico de sua obra-prima: o romance AVALOVARA. Mascarados não por não conterem em si “nenhum caráter”, como o ilustre Macunaíma, de Mário de Andrade, mas sim por serem elas (as personagens) entidades existentes primordialmente numa esfera de imaginação onírica que, por diversos momentos, sufoca a presença de uma anunciada realidade. Osman Lins (1924-1978), pernambucano de Vitória de Santo Antão, literalmente põe as personagens sobre a palma da mão do leitor, como que almejando um fenômeno receptivo baseado em referencialidades mais espontâneas ou automáticas. Assim sendo, não basta a simples leitura, a mera decodificação dos códigos linguísticos, o comum debruçar-se sobre a obra para a boa compreensão da trama.

A atitude decisiva do leitor perante o texto é agora o que importa mais, pois o leitor tem diante das vistas um multilivro, um polilivro, cuja fabricação das compreensões vai se basear nos caminhos tomados por ele, sujeito que lê. Com o leitor podendo compor histórias variadas e variáveis a partir de uma história central, as personagens em Avalovara também passam a agregar dentro de suas existencialidades o caráter de mutabilidade, moldando-se, sempre que requeridas, a partir das rotas desejadas pelo leitor. Essa foi uma fórmula encontrada por Osman Lins para lutar contra o fantasma do fim/esgotamento do gênero romance – ideia muito em voga nos anos 70, década em que Avalorava foi publicado, mais especificadamente em 1973.

Para ele, com a disponibilidade escancarada do poder de coagir e coproduzir a narrativa, tanto o leitor quanto o romance se fortificariam enquanto sujeito e/ou gênero textual, respectivamente, e por conseguinte apagariam qualquer vestígio factual acerca da não-sobrevivência do romance dentro do vasto universo da literatura. O início dessa revolução estrutural na obra do escritor pernambucano se dá com a publicação de NOVE, NOVENA, livro de narrativas curtas datado do ano de 1966. Inclusive, e para fortificar a preocupação diante do referido tema, a questão da estrutura romanesca, principalmente os elementos espaço-temporais, foi objeto de pesquisa durante toda a vida acadêmico-intelectual do autor.

Segundo a professora doutora Ermelinda Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “Sua insistência no estudo da estrutura, sobretudo a do espaço narrativo – tema de sua tese de doutorado – e sua exigência por um leitor participativo, presente em textos construídos como jogos verbais e visuais, vistas à luz das questões postas pelo avanço dos mais recentes meios de comunicação, adquirem aquela clareza a que ele tanto aspirava quando falava de sua obra”.

Comparável a O JOGO DA AMARELINHA (Rayuela), obra labiríntica máxima do belga-argentino Júlio Cortázar, AVALOVARA é, por assim dizer, um romance desprovido de sequenciamento lógico, onde o espaço (o quadrado) bifurca-se no contato com o tempo (a espiral) num movimento de contágio temático que beira o assombroso. O espaço é a própria edificação das personagens, que habitam inatamente o território da racionalidade, figurada pelo quadrado, e que sem cerimônia transitam sobre o plano simbólico-metafórico-onírico de um local que é apenas simulação, mas perfeitamente existível, a espiral. “Avalovara é uma obra virtual, se entendemos virtual como o oposto ao atual, e não ao real. Real sem ser atual e ideal sem ser abstrata, esta obra ditava, há três décadas, os preceitos de uma nova forma para a escrita e para a leitura, elaborando-se não como um romance de ficção científica, mas como uma ficção científica do próprio romance, como uma metáfora cibernética de um futuro possível para a literatura, projeção imaginária e idealizada de um suporte que viesse somar uma riqueza de possibilidades à palavra, potencializando-a e aos seus efeitos no mundo”, reforça a professora Ermelinda.

Sobreposta ao quadrado da razão, a espiral mágico-mitológica do enredo elabora a passos vagarosos e milimetricamente pensados os fragmentos de uma moldura única. Cada fragmento constitui uma personagem que, por sua vez, representa a necessária estrutura para que o outro passe a existir, mesmo que este outro aparentemente apareça destituído de realismo. Realismo, no caso de AVALOVARA, não é nem de longe um dos objetivos que norteiam o leitmotiv da obra. É como se o irreal, visto aqui como uma opção de recurso literário, funcionasse a vapores plenos em matéria de complexidade formal e conteudista.

Toda personagem surge de uma aresta, de uma esquina onde uma lacuna possibilita uma entrada, mesmo sabendo que só há uma entrada para o mundo da razão, ou seja, para o quadrado, que é pela ponta da espiral, ou seja, a voz do narrador: caminho sem-razão. Sendo assim, todo personagem é um só, o espaço delimitado e percorrido pela espiral: o quadrado. A espiral representa o infinito, o quadrado simboliza o além-infinito. A espiral está dentro do quadrado que, apesar de ser o ad infinitum, é um território demarcado, portanto finito em sua infinitude.

As personagens escorregam pelo corpo imaginário da espiral e elaboram um trançado de ações que se movimentam para um centro aglutinador de energia, para uma espécie de olho de furacão. De acordo com Ermelinda Ferreira, “Osman Lins acopla seus motivos clássicos, grande parte deles de influência medieval, traduzindo talvez um paradoxo que se percebe em toda a sua obra, tantas vezes verbalizado em seus textos de intervenção e de crítica: um misto de amor e de horror à tecnologia, à máquina, ao ruído contemporâneo, que o fazem desviar a atenção constantemente para a arte antiga. Este sentimento ambíguo de desejo e repúdio com relação à modernidade; este apreço confesso à história e ao ritual, ao lado da criação de procedimentos narrativos que aniquilam a linearidade e a sequencialidade históricas, encontram tradução em Avalovara, na busca de ambientação na arte medieval (pintura, música e literatura), representada pelos volteios da espiral, posta “sobre” ou “dentro” de um arcabouço racional (o quadrado)”.

Abel, personae-narrador do livro, divide seu protagonismo com o amor de sua vida: uma personagem mulher sem nome, representada por um símbolo gráfico circular pontuado ao centro e com duas espécies de aspas na parte superior. A mulher que não possui nome é criação de Abel, portanto também protagoniza o romance que Abel está escrevendo. Isso reforça a ideia de que AVALOVARA é, segundo o próprio Osman Lins, uma “alegoria da arte do romance”. Há um romance dentro de um romance, uma história dentro de outra, uma ficção no interior de uma ficção. A mulher sem nome na verdade não existe, ou existe para além dos muros da realidade que não é real, ou seja, a realidade do romance escrito por Abel. Para Marisa Balthasar Soares, professora doutora da USP, AVALOVARA “ficcionaliza sua própria elaboração”, onde “é proposto um enredo em jogo palindrômico, que nada tem de gratuito, mas, pelo contrário, promove a possibilidade de ruptura com a linearidade do tempo narrativo. A mesma ruptura perseguida pelo personagem central Abel, um escritor marcado pela tensão entre a história imediata e um projeto literário de cunho universalizante, fundado no tempo mítico e para quem o passado não se cristaliza, mas se faz, como na utopia benjaminiana, a condição de transformação do presente”.

Abel a descreve como sendo ela filha de um ciborgue, simulacro de duas existências, mulher feita de metades e junções. Ao passo que a ama, Abel também a odeia, por saber que a única verdade da personagem amada é que ela não pertence ao mesmo plano existencial que o seu. “É na experiência de amor e morte de Abel junto a três mulheres – que ambiguamente são personagens do romance, no mesmo grau de ficção em que está Abel e, simultaneamente, sugerem-se como personagens de segundo grau, isso é, criações dele – que surge a experiência do tempo único”, diz Marisa. A mulher sem nome é fruto da imaginação de Abel. Abel, por sua vez, é fruto da imaginação de Osman Lins e a entidade que melhor representa o quadrado.

“Em um mesmo corpo reúnem-se o mecânico e o orgânico, a cultura e a natureza, o simulacro e o original, a ficção científica e a realidade social, exatamente o que encontramos no romance de Osman Lins”, confirma Ermelinda. O corpo da personagem é um disco rígido, onde as memórias de Abel são armazenadas sem piedade. Tudo é depositado nela: dor, angústia, revelações, lembranças, alegrias, tristezas… Tudo amontoado numa caótica limpeza físico-espiritual da alma de Abel, por isso “ela circula numa atmosfera algo imprecisa e nebulosa à qual não escapam percepções que hoje nos parecem frutos de uma visão premonitória de um novo suporte técnico para a ficção, intimamente relacionado com a estrutura do hipertexto”, reitera Ermelinda. Como escreve o próprio narrador, ele se serve à mulher como “uma imensa máquina que mói e derrama sobre seu corpo, triturados, os anais do universo, a gigantesca massa de eventos e processos não só do mundo visível, mas do imaginado e do inimaginável”. A mulher sem nome é o amor em grau máximo para Abel, material significativo para explosões emotivo-racionais, o que lhe é causa para inúmeros destemperamentos e alguns vários rumores de desconfiança.

Mas não é só a relação com a personagem sem nome que é conflituosa e difícil. Com Roos – alemã, símbolo de um platonismo cru – os percursos que dão para o amor são tortuosos para Abel, muitas vezes nebulosos. Mesmo relacionada ao paradoxo do encontro desencontrado, Roos é o índice da compaixão. Roos é o próprio percurso, a estrada que leva Abel para a vida. Roos é o próprio pássaro Avalovara, no qual Abel viaja por imensidões inestimáveis montado em seu dorso de penas imaginárias. Sem Roos, nem Cecília nem a mulher sem nome existiriam. Já Cecília é o encontro, a certeza que se chega a algum lugar, mesmo que este lugar não tenha piso, parede, terra. Cecília é também o tempo, por isso é inesgotável e onipresente. Cecília está em Roos e na mulher inominada. Cecília está no plano do romance de Abel e no plano narrativo que Abel representa (o quadrado).

Todas as mulheres de AVALOVARA são metafóricas, imitações de um desejo. São elas o próprio romance que Abel está escrevendo, ou seja, A viagem e o rio. Uma depende da outra para ser, uma acontece depois da outra e antes da outra. Após a andança amorosa de Abel, que percorreu Pernambuco e Europa, e que por fim desemboca em São Paulo, ele encontra o percurso certeiro para o amor considerado perfeito. Abel morre e assim todo o mosaico está completo. O bordado terminado. A catedral, com suas naves repletas de simbologias, erguida aos céus dos sentidos. Com Abel morto, a mulher sem nome, Roos e Cecília se libertam do quadrado. São agora somente a espiral. E tudo pode acontecer. Só depende do leitor e de como ele fará a releitura, ou melhor, só depende de como e para onde ele seguirá, claro, preso às asas do pássaro mítico de Osman Lins.


* Imagem: https://www.bing.com/images/

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pensando o inconsciente humano




Por Germano Xavier



O texto O inconsciente maquínico – ensaios de esquisoanálise, de Félix Guattari, inicia-se deslocando os posicionamentos construídos pelos psicólogos ou psicanalistas para um patamar ou plano de menor relevância, alegando que as máquinas abstratas do inconsciente humano percorrem um trajeto onde não há choques com os chamados “estádios”, pois além de não serem processos automáticos, estão desligadas dos reagenciamentos dos modos de codificação e de semiotização do inconsciente.

Para Guattari, a criança não é um complexo individualizado, mas sim uma totalidade em construção intensa, onde outros componentes semióticos “exteriores” podem acelerar, inibir ou redirecionar os efeitos dos componentes biológicos, sócio-econômicos e materiais que a atravessam. As interações com o campo social são muito mais presentes do que se imaginava. A família, a escola, as leis, e tudo mais que rege o comportamento humano, são os fatores primordiais para o sufocamento das mudanças biológicas que se processam no adolescente.

A criança é já uma série de máquinas abstratas, não nela inscrita, mas que a atravessa, e quando dentro de alguma outra máquina abstrata, sofre uma mudança radical na ordem de suas manifestações internas inatas, deixando de lado a espontânea prosperidade e florescimento de seus gestos para se adaptar à expressões adultas e “maquinadas” de um modelo existente. Toda essa adaptação funciona como uma arma repressora e coibitiva, aniquilando qualquer forma vigente de desejo original, e cristalizando índices maquínicos dentro de uma nova máquina abstrata.

A repressão não procura submergir completamente a criança, mas se inserir nas forças que envolvem a formação dos significados. O conjunto repressivo não age sobre o conjunto das máquinas desejosas, porém antes, por meio de máquinas abstratas, vai do socius ao indivíduo. As máquinas do poder dominante só podem ser eficientes quando se prendem à zonas bio-psico-sociais.

Enquanto que os índices, os sintomas, podem a todo momento se espalhar e permitir que se instale o retorno poderoso das antigas estratificações, as máquinas abstratas continuarão ameaçando-as com uma possível transformação revolucionária. As máquinas abstratas inconscientes podem materializar sua própria dissociação voltando ao processo primário dos índices maquínicos, a adaptação normal ou neurótica às realidades dominantes e à potencialidade de uma diagramatização desestratificante. O inconsciente só existe após a sua manifestação nas estruturas semióticas ou nas estratificações sociais ou materiais.

Guattari amplia o pretendido período de latência descrito pelos freudianos à esfera das passagens de um agenciamento para outro, marcado pelas repressões sociais. A máquina do ensino tem por fim primordial transformar as coordenadas semióticas da criança. O período de latência é, neste contexto, um fabricar pessoas que dura quinze anos, e objetiva submeter os indivíduos até o mais íntimo de suas fibras nervosas aos sistemas de produção capitalista.


sábado, 21 de março de 2020

Tio Didi




Por Germano Xavier


Dava uma certa apreensão quando a gente resolvia que no fim do ano iríamos passar alguns bons dias em Pernambuco, especialmente no Pernambuco do meu pai, o Pernambuco atravessado pelo castigado Rio Una, revendo parentes, tios e primos, refazendo todas aquelas aventuras infantojuvenis e que, porventura, ainda cabia a nós dar uma continuação. E uma das coisas que sempre passava pela minha cabeça antes mesmo de partirmos para São Bento do Una era saber se o sítio de Tio Didi estaria tão bonito quanto no ano anterior. 

Era um lugar de espírito quase mítico, úmido e seco ao mesmo tempo, verde e cinza, com cheiro próprio, de uma atmosfera particular que acabava por contrastar com todo o seu derredor. De um lado, via-se alguns galpões onde ele criava galináceos em grandes proporções para posterior venda (a região é uma das maiores produtoras de frango e derivados do país), uma casa simples ao centro e do outro lado da propriedade uma lagoa, com vistas para a rodovia e seus carros das décadas de oitenta e noventa zunindo e se perdendo na primeira curva, que era quase em sempre multipovoada de marrecos coloridos, onde pássaros e garças pousavam seus voos mais deslumbrantes aos finais das tardes.

Tio Didi era um grandalhão, pra lá dos 1,90m de altura, matuto dos bons, contador de histórias engraçadas, típico homem guerreiro de um Brasil profundo que precisou batalhar pelo pão abençoado de todos os dias com suas unhas e seus dentes. Sem grandes estudos formais, foi um grande mestre na arte de lidar com as coisas da natureza. Os tempos eram outros, as preocupações com os direitos dos animais também, gostava de caçadas na companhia de irmãos e amigos. Todavia, apesar de saber tudo isso hoje, os animais gostavam dele. Lembro de seus vira-latas obedientes a todo tipo de necessidade, de seu papagaio falastrão e de um sofrê (corrupião) que vez ou outra saía do alpendre, voava sua vida de pássaro livremente e voltava para dentro da casa do meu tio como se sentisse saudade daquele homenzarrão. Percebia sua dedicação em dar comida aos cães, aos marrecos, a preocupação com a água da lagoa. Enfim, era um homem integrado ao seu quintal - e que belo quintal!

Mas a vida é muito estúpida, às vezes. E triste foi perceber, aos poucos, o declínio do meu tio, aquela sua vida inteira entrelaçada em problemas conjugais e também com o álcool em forma de bebida. Aquele gigante se rendendo aos poucos às doenças do corpo, aos males da alma, o sítio sendo repassado para os outros e ele logo se encostando à morada do irmão mais próximo, irmão mais velho, meu tio Abdoral, ali do outro lado do asfalto onde a vida parecia ter a mesma densidade de pedra e a peleja diária era a mesma. Gado pouco, granjas que não ofertavam mais nenhum futuro, tentativas e mais tentativas. Muito rapidamente a lagoa se transformou num imenso buraco seco de piso rachado. Veio a secura de anos sem chuva. Veio o outro dono do lugar. Foram-se as garças, os marrecos, os cães. Ficou a desolação em meus olhos adolescentes. Ficou muito mais coisa em mim do que parece. Ficou tanta coisa.

Mas lembrar é uma forma de vencer. A vida. A lembrança é o lugar onde guardamos aqueles que nos marcaram. E quando algo ou alguém nos marca, este algo ou este alguém jamais morre. Fica. Como se na forma de adubo, a ajudar na caminhada da eterna semente perene que somos. Até o fim. Pois no fim há o Tempo. O Tempo coloca tudo em perspectiva. Até a dor. O Tempo voa. E também não passa. É uma gaiola. Como a gaiola do concriz do meu tio Didi. A gente abre e fecha ela, sempre, mas no fim voltamos para nossas casas. E depois de muitas experiências, de idas e vindas, a gente aprende que tudo muda. Então, o inferno de hoje será diferente amanhã. Mesmo que seja outro inferno, outra dor. Mas será diferente. Isso dá um certo conforto.

Ontem liguei para o meu pai. A notícia ainda era recente. A voz do meu pai estava embargada. Tentei escapar do assunto algumas vezes, para não alimentar o instante. Nossas raízes estão indo. E não tem outro jeito. A gente acaba lembrando de tudo que pode lembrar, de tudo que dá. Lembrar é tão importante quanto escrever. Para mim, sinto que as coisas acontecem quando escritas. Para avançar, é preciso escrever. Para finalizar. Para ser. É preciso escrever. Escrevo o que é muito real para mim. Muito vivo. Minha escrita/literatura me movimenta. É bonito ver. Sentir. Por isso estas palavras em memória deste irmão do meu pai, em memória do meu tio Didi, que não morreu. Mas que ficou. Em algum lugar. Dentro. Bem dentro. Um lugar ainda sem nome em mim, onde ponho tudo aquilo que me ajudou a chegar aqui, a ser até aqui. A estar aqui. 

Tio Didi, muito obrigado. Muito obrigado.


* Imagem: Acervo Germano Xavier

domingo, 15 de março de 2020

Corona



Por Germano Xavier


não sendo a de espinhos
| pois esta já carregamos | pode
ser até que me adorne os breus


P.S. Mais um vírus está aí. Cuidemo-nos.


sexta-feira, 6 de março de 2020

Entrevista com Stenio Erson, autor de CERCO




Estrevista para o Blog O EQUADOR DAS COISAS
LIVRO: CERCO, de Stenio Erson.


Germano Xavier – O que a literatura significa para você?

Stenio Erson – A literatura significa uma possibilidade que o ser humano encontrou para poetizar a vida real. É uma manifestação artística que utiliza-se das diversas possibilidades que a comunicação, através da linguagem e criatividade, permite. Nesse sentido, a literatura é um instrumento de liberdade e expressividade, capaz de despertar sentimentos diversos e transformações infinitas.

GX – Em sua jornada como leitor e professor ligado à difusão da literatura, qual a experiência de leitura que mais te marcou? E por quê?

SE – Sempre busquei em minha trajetória enquanto professor, criar estratégias de apreciação e disseminação da arte literária. Nesse processo, o trabalho que mais me marcou foi a ação que desenvolvi com a obra “Felicidade não tem cor” de Júlio Emílio Braz. O enredo traz a questão do preconceito e aborda a história de Fael, narrada por uma boneca de pano chamada Maria Mariô. Ambos se sentem muito incomodados por serem negros. Por um lado, nenhuma das meninas escolhia a boneca negra para brincar. Por outro, Fael era um menino muito excluído que sofria muito preconceito por conta dos apelidos que seus colegas colocavam nele. Por isso, decidiu ir atrás de Michael Jakson para descobrir como ele conseguiu ficar branco.

No início do ano letivo, observei que na sala de aula do 7° ano, havia muitas ocorrências de preconceito entre eles, muitos alunos sofrendo bullying por meio de apelidos racistas. Isso me incomodou bastante, pois os alunos não percebiam o quanto a sala era composta por uma diversidade étnica.

Durante a leitura da obra ocorreu muitos debates relevantes, sempre relacionando com o que acontecia na sala de aula. No dia da culminância do projeto os alunos fizeram uma análise completa da obra para os presentes apontando a depreciação que os apelidos causam, a relevância de respeitar a diversidade existente na sociedade. Nos estandes um painel com as fotos individuais de cada alunos, de modo a se observar a diversidade e valorizar cada característica, além de fotos de negros que ficaram famosos por habilidades artísticas ou esportivas.

Enfim, após essa ação observei o quanto as pessoas que convivem na escola e que possuem características negras, passaram a valorizar sua identidade étnica, principalmente em relação ao uso de penteados que potencializam as características do povo negro. Passou a ocorrer uma aceitação natural do outro, não só em sala de aula, mas também na relação com alunos de outras turmas.

Essa ação mostrou a potência que a literatura tem de promover a reflexão e a transformação.

GX – Como surgiu a ideia para o seu livro de estreia CERCO e como está sendo a receptividade da obra?

SE – A ideia de elaboração da obra Cerco surgiu a partir dessa real necessidade que a sociedade atual tem de conquistar um território de atuação da nossa liberdade. Vivemos numa sociedade que a cada dia reduz a liberdade que temos e nos conduz para o nosso cerco, seja ele social, emocional, afetivo, psicológico, moral, violência física, dentre outros.

Após as eleições de 2018, com a aceitação e a implantação das ideias bolsonarianas no cenário social brasileiro, o autoritarismo e as decisões autocráticas, passaram a serem utilizadas em muitos setores que antes tinha uma relação democrática habitual. Tal ocorrência contribuiu para o crescimento de uma tentativa de negar ou tentar descaracterizar as lutas de segmentos sociais que em algum momento da história tiveram que se mobilizar e articular estratégias para desarticular o cerco anunciado.

Essa instabilidade social, demonstrou que a luta contra o nosso cerco deve ser diária e que precisamos enfrentar esses elementos que ameaçam nossa liberdade. Sinalizou que a conquista de território só ocorre com movimento, seja ele feminista, étnico, de gênero, enfim.

Então, com base nesse conceito, procurei adequar alguns contos antigos para essa temática e a produzir contos novos para compor a coletânea da obra, de modo que se pudesse apresentar os personagens e sua relação com os elementos de opressão e desarticulação da nossa liberdade.

GX – Fale-nos um pouco sobre o seu processo de criação, Stenio.

SE – Iniciei meu processo de escrita no teatro. No ano de 2003 fui um dos fundadores do Grupo Cultural Lamparinas do Sertão, em atividade até hoje. Nessa instituição cultural, além de atuar e dirigir espetáculos, escrevi inúmeros enredos teatrais. Esses momentos de formação artística me qualificou para ler e analisar obras literárias significativas, bem como adaptar e produzir enredos teatrais, adequando-os a uma identidade sertaneja e uma linguagem teatral peculiar.

Esse contato com a arte teatral, foi extremamente significativo para o meu processo de criação literária, pois passei a prestar muita atenção nos movimentos que ocorrem em minha volta e também nas narrativas orais que tenho acesso através de memórias vivas que me levam a realizar pesquisas.

Muitos desses elementos: uma frase, uma palavra, uma expressão, uma imagem, uma história; sinalizam caminhos para a construção de enredos literários; ora totalmente fictícios; ora com pitadas de um caráter memorial; ora baseados em fatos reais, mas com traços fortes de ficção.

Geralmente, primeiro registro a ideia, depois organizo a ideia para uma proposta de construção de uma malha literária, em seguida desenvolvo a ideia, deixo-a por um tempo sem voltar ao que foi produzido, por fim, releio e vejo se a proposta será original e relevante para, só após prosseguir com a proposta literária ou engavetá-la.

GX – Seu livro CERCO possui um caráter memorial muito forte, quase predominante, e que se estende a toda estética social que envolve o território da Chapada Diamantina e seu povo. Foi um traço proposital? Como se deu isso em CERCO?

SE – A Chapada Diamantina sempre foi narrada por olhares externos de mídias diversas que valorizam, predominantemente, as belezas naturais. Ficava sempre questionando o porquê de tantas narrativas ricas ficarem ocultadas ou silenciadas na memórias desse povo, sempre desconsiderado nesse cenário. Nesse processo, acredito que de forma predominante, prevaleceu na obra Cerco, o perfil de narrativas narradas por personagens originários da Chapada que apresentam com o olhar peculiar, o nosso o cenário, a nossa identidade cultural, as nossas histórias. Ou seja, o olhar nosso sobre o que é nosso, uma visão peculiar sobre a identidade cultural da Chapada que vai além do que as belas paisagens. A ideia foi dá voz aos oprimidos, de modo que eles pudessem apresentar seu olhar sobre essa luta diária de enfrentar tudo que reduz nosso território e viabiliza o nosso cerco, diante desse cenário que não é somente feito de paisagens, mas também de pessoas.

GX – Como você vê, hoje, o cenário literário e artístico da Chapada Diamantina?

SE – Acredito que o cenário de produções literárias na Chapada Diamantina ainda se apresenta de forma um tanto tímida, porém em ascensão. Alguns eventos literários têm acontecido de forma muito consistente, abrindo possibilidades para que escritores da região possam disseminar suas produções literárias. No entanto, acredito que ainda falta uma conscientização das secretarias de educação de cidades da Chapada Diamantina para incentivar o consumo dessas obras no âmbito educacional, de modo que a literatura regional possa se estabelecer e contribuir para a formação de leitores e novos escritores.

GX – Achei o conto “Nunca mais vi Irene”, presente em CERCO, de uma plasticidade arrebatadora. É um conto bem curto, um tanto diferente dos outros do livro. Fale-nos um pouco acerca dele.

SE – A ideia da construção da malha literária do conto “Nunca mais vi Irene” sempre havia sido de uma narrativa curta. Essa proposta, viabilizou o uso de frases reduzidas, dinâmicas, capazes de produzir movimentos que conduzem o leitor a um desfecho surpreendente. A ideia surgiu a partir de um suicídio que ocorreu no cenário da Cachoeira da Fumaça. Esse fato, teve repercussão e muitas mídias começaram a tentar denegrir, desconstruir, condenar o cenário como perigoso e um ambiente para não se visitar. Diante disso, procurei dá um novo rumo a esse fato a partir do fazer literário, um ar de misticismo misturado com sonho, de modo a valorizar tanto a cena narrada quanto o cenário. Não se sabe a verdadeira intenção de Irene ao levar seu amor para o deslumbrante cenário da Cachoeira da Fumaça, se vivenciar um momento romântico num lugar encantador ou registrar seu desaparecimento misterioso justamente no clímax do enredo, deixando o leitor diante da labuta de tentar compreender se o desfecho é algo real, místico ou apenas um sonho.

GX – Stenio, vem novidade por aí? Se sim, compartilhe com os leitores d’O Equador das Coisas”? Deixe suas considerações finais aqui, se possível.

SE – Sim. A obra que talvez esteja mais pronta para lançamento é uma peça teatral que narra o retorno nos dias atuais, por conta de uma crise hídrica, dos primeiros portugueses que navegaram o Velho Chico no ano de 1501. Nesse processo, os portugueses irão se deparar não só com elementos da modernidade, mas também com elementos que caracterizam as comunidades ribeirinhas e a identidade sertaneja do rio São Francisco. O espetáculo foi apresentado como forma de experimento, pela primeira vez, na UNEB Campus XXIII em Seabra, no dia 17 de abril de 2015 no evento “Fifó Cênico: Iluminando a Arte Sertaneja” por atores do Grupo Cultural Lamparinas do Sertão, com direção minha. A proposta é que esse espetáculo seja retomado nesse ano de 2020.

Além dessa proposta, tenho trabalhado bastante em um romance, novos contos e poesias, além de livros infantis.


* Imagem: Arquivo Stenio Erson

domingo, 1 de março de 2020

Os manejos em assanho de Orobó (Parte V)



Por Germano Xavier


reza a lenda que duas montanhas se erguiam 
na parte norte do corpo de uma mulher
eram dois vulcões a ativar o redemoinho do mundo



A ordem era: atacar o cume, chegar ao fim.
Mas antes, na amurada das horas,
apegar-se às duas montanhas da carne.

Casas do leite maternal, pousos para o cansaço
das mentes: o grande algodão das tuas mamas.

Ikan fez-se feto. Muhatu permitiu a sucção vital.
Era, pois, o alimento mais vivaz de toda a sua lida.

Ali, entregue à maciez da pele, Ikan era Muhatu.
E toda a temperatura foi sendo um redemoinho.

E a Terra se lançou em mais encontros. E o Sol cumpriu
o seu duro dever: anunciar a passagem do Tempo.



sábado, 29 de fevereiro de 2020

Os meus verdes cabralinos



Por Germano Viana Xavier

"(...)
O coqueiro e a cana lhe ensinam,
sem pedra-mó, mas faca a faca,
como voar o Agreste e o Sertão:
mão cortante e desembainhada."

(João Cabral de Melo Neto, em A Escola das Facas)


Quando atravessei a Chapada Diamantina e me deparei com o Pernambuco do meu pai pela primeira vez, ali ainda em minha infância mais tênue e profunda, senti que aquele chão esbranquiçado e desmentido pelas sortes, de poeira mais fácil que a do solo baiano, impregnaria em mim com muita facilidade e quase nenhuma relutância. E não deu outra. Hoje, já bem crescido em idade e apesar da certidão chapadeira, sinto-me pernambucano em vários detalhes de alma, a começar pelo prazer que desenvolvi em ler a poesia deste “estado-trampolim”, como diria o incomensurável João Cabral de Melo Neto, autor do monumental A ESCOLA DAS FACAS.

Lendo este livro, vi de perto a superação da palavra-imagem em transformação consoante ao que é real. Uma espécie de transposição das águas ficcionais em águas de beber, de viver e, principalmente, em águas de sobreviver. Sobre-ser. Digo por experiência própria que já adentrei os pernambucos por todos ou por quase todos os lados, vez ou outra vindo de Paulo Afonso-BA, outrora descendo pela Paraíba de João Pessoa ou por Campina Grande, e até enfrentando-o de frente pelas rodovias de Alagoas, e aquele mesmo verde-nervoso e balouçante do poeta João Cabral de Melo Neto tão bem traduzido em seus poemas respinga até hoje pelas telas e pelas paisagens do mundo pernambucano-nordestino a todo instante.

Bem verdade, faz-se necessário salientar, um verde já carcomido pela ação do tempo, principalmente em localidades por onde o “progresso” oriundo do funcionamento das grandes usinas de cana-de-açúcar deixou de herança apenas as ruínas de suas construções e o maquinário em ferrugem, como feridas abertas sob o sol. Porém, assim mesmo digo de relance: sou um homem transformado pelas transformações que meus olhos viram, um homem lapidado pela intersecção das caudalosas águas negras diamantinas e a secura latente de um agreste pernambucano aparentemente sempre à beira de um colapso. De um lado, a exuberância divinal das pedras úmidas, do outro o seixo inamovível das artérias agrestinas por onde o Rio Una passou. Una morto, nascituro e natimorto, que quase só existiu em mim sem nem conseguir existir direito.

Em A ESCOLA DAS FACAS, de lírica extremamente cabralina, aceitei-me mais pelo que realmente sou ou pelo que me tornei ao longo da vida e de minhas caminhadas, quase sempre solitárias. Distanciei-me da surrealidade com a qual me afogo em alguns dias de nuvem. E vi o quanto isso foi bom, o quanto isso é bom. Livros assim são como pontes, fontes inquestionáveis de aprendizado e de des-razão. E até mesmo quando Cabral passeia seus versos verdes nada-verdes pela área metropolitana do Recife ou até pela própria capital, locais ainda muito incógnitos para mim, conferi em pessoa uma espécie de confiança nos passos já dados.

Bahia e Pernambuco me inventaram, e eu inventei estes lugares. Por inventá-los, criei estradas e abri picadas no verde dos coqueirais e das canas e também na cor seca de suas paragens. Fui menino ali e acolá, ancorei banguês nos ombros dos dois orvalhos e bebi da melhor garapa dos engenhos múltiplos. Tive e tenho este privilégio. Nasci com dois sangues e duas almas e vivi em dois estados supremos deste gigante país. Vivi. E vivo. Dois povos, os sertões, os rios, os canaviais, os agrestes, as pedras, as cachoeiras, os diamantes, a sombra dos diamantes... E o que há de belo em todo este movimento alargado por minhas pernas é o fato de que beber dessas duas águas me fizeram suportar com serenidade as impostoras belezas que porventura outros mundos emprestaram-me aos olhos.

João Cabral de Melo Neto completaria 100 anos se vivo fosse no dia 09 de janeiro de 2020. Hoje, com o início desta coluna sobre livros, literaturas e afins, um Sergipe aclarado pelo sol da belíssima Aracaju me abre portas para minhas visagens em formato-palavra. Estou implicado em meu dizer crítico-analítico, pois sei que várias são as tradições literárias e encarnados são os badalares do Tempo. Quero que meus leitores se apaixonem pela poesia, que os curiosos se intrometam e que algumas fomes humanas sejam saciadas. Num país que parece regressar às mais grotescas escuridões, trazendo à tona censuras e maldades as mais variadas para com seu já castigado povo, eu aposto na esperança. Aqui, neste espaço, recolheremos a própria Vida estampada nos livros, para que dela aprendamos a reproduzir somente as mais magníficas formas de se rebelar e de se tolerar.

TEXTO ESCRITO PARA O PORTAL SÓSERGIPE.COM.BR.

Referência

NETO, João Cabral de Melo. A escola das facas. Rio de Janeiro: J.Olympio, 1982.


Imagem: http://www.bvl.org.br/aniversario-de-joao-cabral-de-melo-neto/

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Eu ensino para os outros




Por Germano Xavier



É comum, confesso. Alguém chega e diz: "Professor, por que você não trabalha em uma faculdade?" Ou assim: "Professor, não sei como o senhor aguenta ser professor desses meninos. O senhor nunca pensou em fazer outra coisa, não?" Vez outra isso assim, desta forma dita, chega até os meus ouvidos. Posso até fazer que entendo o porquê das pessoas me questionarem, mas por dentro eu rio delas e sinto um pouco de tantos sentimentos... Não sabem elas que tenho plena consciência de onde estou e o que quero para mim. Sou feliz. Sou rico. O que é a riqueza para você? É verdade que ser professor "desses meninos" por vezes é deveras cansativo, a gente fica esgotado, sem forças, enfim. Mas eu repito: estou no melhor dos lugares para uma pessoa como eu estar. Ao lado de, comandando um certo grupo de peregrinos, sedentos (ou quase sedentos) pelo desconhecido, pelo que pode vir a ser.

Penso a educação para a Vida, e o ambiente escolar tem muito a ver com isso. Há quem duvide, mas teimo que sim. O componente curricular ao qual me dedico, a Língua Portuguesa/Literatura, é também sinônimo de Cidadania, Fruição e Autoria. É muita responsabilidade, camarada. Muita mesmo. Precisamos dar conta de um bocado de coisas: interdisciplinaridade e concepção de linguagem, texto, leitura do texto escrito, leitura do texto falado, produção de textos escritos e orais, questões envolvendo identidades, ambientes, gêneros e discursos, formulamos planos de trabalho, mexemos em acervos textuais para serem pontos de partida na hora do jogo ensino-aprendizagem, só para citar alguns. E depois ainda temos de pensar num modo de avaliar todo este pessoal e todo um potencial.

Aí a gente começa o ano e pá! Construção. Levantamos paredes. União. Se não tiver união, não vai para lugar algum. É barra! Tem hora que a coisa parece não querer andar, fluir, mas de repente algo acontece. Nem sempre irá acontecer. Mas com esforço acontece. Kabum! Aproximações se dão. Preparamos a meninada para as mais diversas leituras e compreensões de mundo, estudamos textos, focamos em outras referências, escrevemos individual e coletivamente, reescrevemos mais e mais. Efetuamos a reflexão linguística. Tentamos formar leitores literários e, depois de uma longa caminhada, fechamos um ciclo. Eu sei, pode não ser tão lindo assim o caminho. Mas para mim, sempre há de ser.

Entre nós, alunos e professores "desses meninos", deve haver sempre uma vontade de integração. Para que possamos criar. A criação é o que, no fundo de tudo, ainda vale a vida. Para que serve a escola hoje? Para aninhar. Para agrupar. Para que sintamos que ainda temos forças suficientes para alterar o estado "confortável" das coisas, apesar de tantos males que nos rodeiam. Como fazer? Querendo. Nós formamos o cidadão intervindo, sensibilizando, compreendendo, responsabilizando. A escola pode ainda mais. O professor pode ainda mais. O aluno pode ainda mais. Muita coisa ainda pode mais. Eu estou nessa de acreditar e me iludir, e nessa de acreditar de novo, há 15 anos. Eu ensino para os outros. E você?


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Tio Jânio

Minha mãe e Tio Jânio.

ou A vida é uma mala Caterpillar que se quebrou na primeira grande viagem



Por Germano Xavier


Para Tio Jânio, in memoriam.



Passei a manhã inteira limpando o quarto de hóspedes do apartamento onde moro, pois no próximo fim de semana uma amiga de velha data de minha esposa virá do Rio de Janeiro para passar um fim de semana conosco aqui no Agreste Meridional de Pernambuco. Arrumei pilhas e pilhas de livros que estavam fora do lugar devido, revistas, velhas apostilas sobre assuntos diversos. A Menina do Sorriso Cacheado preparava um pequeno almoço de domingo. Finalizada a arrumação do quarto, peguei uma mala pequena de rodinhas que possuo para tentar consertá-la. A última viagem que fiz acabou rachando uma de suas laterais plásticas. De quatro dedos era o tamanho da fenda. Fui à geladeira e peguei a cola Super Bonder que deixo lá para quaisquer eventualidades desta natureza. Depois de já uns dez minutos tentando grudar um lado no outro, fui meio que desistindo. Os plásticos não se juntavam. Comecei a pensar em alguma maneira mais grosseira, com arames finos ou outro material que fosse possível retorcer ou grampear as partes. Enfim, não queria perder a mala. Eu estava sentado no sofá da sala de estar quando o meu telefone celular começou a tocar. Era minha mãe, chorando. Nem precisei perguntar, no fundo eu já temia, eu já sabia. Mainha foi de pronto me dizendo, entre soluços: "Jânio morreu, Geu". 

Não falei nada, quase nada. Não há muito o que se dizer numa hora dessas. Deixei minha mãe falar e respirar. A dor é grande. Perder um ente querido é sufocante, sabemos. Depois de um certo tempo, pedi para falar com meu pai. Meu pai ainda não estava muito por dentro do assunto. Desliguei o celular. Comecei a pensar. Passa um redemoinho de lembranças na mente da gente. Imagino o quanto deve ser dolorido perder o pai, o esposo, o filho, o irmão. Para cada parente ou familiar, a dor tem um tom, uma cor diferente, uma intensidade. Mas, como disse antes, não há muito o que se fazer numa hora dessas. Penso que o melhor a se fazer é devolver o corpo ao pó dos tempos da maneira mais digna possível, com as simbologias e as homenagens necessárias. A alma do meu tio, acredito piamente nisto, já foi endereçada para o melhor dos caminhos além-olhos. 

Tio Jânio foi o tio mais próximo que tive, já que ele viveu grande parte de sua vida na mesma cidade em que nasci: Iraquara, Chapada Diamantina. Natural de Canarana, cidade a 68 km de Iraquara, era comum vê-lo pelos corredores lá de casa, principalmente aos sábados após a feira livre da cidade e durante a semana na hora do café da tarde. Ele mesmo se prontificava a tomar as rédeas da cafeteira e pelas bandas da cozinha da casa dos meus pais deixava sempre preparado um delicioso e cheiroso café vespertino. Tio Jânio teve uma vida simples, sem grandes movimentos, casou-se, teve dois filhos e terminou seus últimos dias trabalhando como motorista do município de Iraquara. Com sua destreza ao volante, ajudou muitas pessoas enfermas encaminhando-as com segurança aos hospitais da capital baiana a fim de iniciar seus respectivos tratamentos. 

Num dia como o de hoje, escolho relembrar de momentos alegres que vivi com meu tio. Lembro dele sempre a me fazer perguntas bastante engraçadas e inteligentes. Dizia ele que havia "pegado" as charadas via programas de rádio que costumava ouvir horas adentro pela madrugada. A imagem dele a sintonizar aparelhos de rádio ficará comigo para sempre. Onde houvesse um rádio, lá estava Tio Jânio a tentar sintonizá-lo. O noticiário radiofônico o deixava a par de todos os principais acontecimentos mundanos, e isso bem antes da internet ganhar as casas brasileiras. Tio Jânio era uma espécie de porta-voz de tudo lá em casa. Era chegar por lá e sempre um novo acontecimento vinha à tona. O rádio também o fez acompanhar com enorme entusiamo o seu time de futebol do coração: a Sociedade Esportiva Palmeiras, de São Paulo. Tio Jânio foi a pessoa mais apaixonada pelo esporte bretão que conheci nesta vida. Neste quesito, foi um grande influenciador para toda a família. 

Tio Jânio tinha a alma dos teimosos, dos arredios, dos que faziam por vezes aquilo que lhes dessem na telha, sem pensar muito nas consequências. Talvez, para mim, esta foi a grande mensagem deixada por meu tio em vida: viver intensamente, mesmo quando a vida não parecer boa o suficiente. Bebeu e fumou desde muito novo. Quando eu era pequeno não entendia bem o porquê de tudo isso. Mas agora, nos anos de mais madureza, entendo com mais clareza os prazeres e as fugas buscadas por meu tio. A vida nem sempre é tão simples de se entender. Não podemos fazer nenhuma espécie de julgamento a quem se atira de tal forma a vícios e/ou fetiches. Só ele saberia dizer onde a dor da vida doía mais. A gente se afoga em tantos outros vícios... cada dia mais, cada qual à sua maneira. O certo é que eu sei que meu tio viveu as delícias desses prazeres que matam como um profissional, não como um amador. Isso se traduziu, para mim, como rebeldia e coragem: outro ponto que destaco na personalidade do meu tio. Tio Jânio foi um pequeno grande rebelde destemido e vejo isso hoje como um ponto muito positivo. 

Chega uma hora que a vida desgruda de nós, feito uma mala quebrada durante uma viagem que teima em não juntar mais as suas partes, mesmo usando para isso a cola mais forte do mercado. Chega uma hora que aquela mala reforçada e aparentemente eterna desmancha-se em ilusão e verdade. E pensar que ao comprar a mala e pagar um valor alto por ela em sete prestações, imaginei que ela fosse inquebrantável e que estaria em minha companhia para sempre. Todavia, fui muito ingênuo. Para sempre, nem sempre a vida será. Muito menos uma mala de plástico Caterpillar (CAT) onde no adesivo de sua propaganda um homem imenso aparecia pulando em cima de seu arcabouço para demonstrar toda a resistência de sua engenharia voltada para viagens. 


Aos parentes e familiares, meus sentimentos.



Siga em paz, "Canarana"!


Meu pai e Tio Jânio.

Vovó Isaura e Tio Jânio.




* Imagem: Acervo Germano Xavier

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Calçadas




Por Germano Xavier



Poema escrito durante a Oficina Literária "Memória, Poesia e Cidade",
produzida e ministrada por Thiago Medeiros.




no rumor das ruas, as calçadas
cheias são os primeiros sinais
de que perdemos o passo