segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Palavras paridas


 

Por Germano Xavier e Leilane Paixão


as palavras estão cansadas

de comunicar. as palavras querem férias,

farão uma greve, reivindicarão

a presença do silêncio.


as palavras estão cansadas,

muito fatigadas de informar. as palavras querem

se esvaziar. as palavras odeiam repetição, 

estão fartas de bocas sujas

que profanam os seus sentidos.


as palavras querem silenciar, 

para se mostrarem quando necessário for, 

em suas esplendorosas

vocações de ser.


que se cancele a greve das palavras

apenas quando elas estiverem grávidas

de sentido!


| as palavras querem parir |


as palavras querem homens e mulheres

gestantes, homens e mulheres poetas,

capazes de enxergar a beleza das coisas.

as palavras querem servir ao Belo.

as palavras são divinas!


está feito. e que se decrete a greve das palavras!

registre-se. cumpra-se!



* Imagem: https://www.deviantart.com/slipperykarst/art/palavras-perdidas-87508000

sábado, 11 de setembro de 2021

RECOMENDAÇÕES PARA UM ANO IMPOSSÍVEL, de Germano Xavier


 

Leitura do poema "Recomendações para um ano impossível", presente na antologia SÓ A POESIA SALVA, da Editora Primata. Ainda neste vídeo, o colaborador James Wilker revela mais uma excelente dica de leitura.

#antologiasóapoesiasalva #editoraprimata #germanoxavier #canaloequadordascoisas

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Deriva perversa


 

Por Germano Xavier


o poema é o Grande Objeto

sobre o qual invisto,

obsessivamente,

minhas vias de afeto.


a palavra, imersa em poesia,

acentua o gozo e segmenta o prazer

numa trajetória sólida de sentidos

ou numa deriva perversa.


Imagem: https://www.deviantart.com/patrickleborgne/art/Eolienne-650708934

CRISE E PANDEMIA, de Alysson Leandro Mascaro + DICAS DE JAMES WILKER


 

Neste livro, o professor Alysson Leandro Mascaro, entoa sua voz sobre a crise global do novo coronavírus (COVID-19) e esboça possíveis caminhos para um final feliz (ou menos triste) em toda esta história. E ainda neste vídeo: nosso colaborador James Wilker revela mais uma excelente dica de leitura.

#criseepandemia #alyssonleandromascaro #germanoxavier #jameswilker #canaloequadordascoisas

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sete de Setembro


 

Por Germano Xavier


o genocida

sobrevoa o golpe

as imagens em giro

sufocam o verde e o amarelo

da bandeira


formigas tontas formigam

na grande avenida

o conselho teme

o inconsciente investiga a tristeza


que país se manifesta

quando até mesmo a morte

vive com fome?


Imagem: https://pcdob.org.br/noticias/investimento-no-pais-retrocede-20-anos-com-golpe-bolsonaro-e-pandemia-2/

O PARATEXTO (AS ILUSTRAÇÕES NA LITERATURA), por Luísa Fresta


 

"No mês de junho apetece falar sobre literatura infantil, porque embora as crianças estejam sempre no centro das nossas preocupações, temos duas datas, o primeiro de junho e o 16 de junho, Dia Internacional da Criança e Dia da Criança Africana, que não passarão nunca em brancas nuvens...", assim nos recorda Luísa Fresta em seu texto "Livro Infantil - Texto e Paratexto". Neste vídeo, Luísa dá destaque em sua fala a um dos principais elementos paratextuais ligados à produção de textos infantis e infantojuvenis: a ilustração. Estejam todos atentos!

#paratexto #ailustração #literaturainfantojuvenil #luísafresta #canaloequadordascoisas

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Sobre Miragem, de Socorro Nunes



Por Germano Xavier


(Cepe, 2015)


Quem é daqui sabe que o terreno é áspero, é rugoso, aberto em fendas. Quem é daqui sabe que planta morta, na verdade, é planta viva. Vivíssima. Sabe que o sertão é uma espécie de Deus, onipresente. Uma grande autoridade no meio do Tempo. Que o que se empurra para o passado é apenas um esboço do futuro, de um futuro que às vezes demora em chegar. Mais distantes dos olhos ficam os homens dos acolás, que nem suspeitam da beleza virginal das caatingas. Os homens dos acolás rodeiam o mundo de cá com seus olhos secos de amor e enxergam apenas o que esperam. E suas esperas são tão curtas que nem.

Sertão-nós.

Ser tão só e somente ser o verdume dos xiquexiques, extremo rompimento e sabedoria de convivência com tudo aquilo que há de mais amargo nas andanças nossas de cada dia. Senhor, imperai  por nós destinos mais azuis cor de céu chuvoso em cinzas líquidos! Somos criaturas pós-solares sem inverno de alma. Somos as alquimias torrenciais dos abraços calorosos. Caudalosa é a nossa matéria em humanidades. Miragem é só a revivente vontade de que se viceje o que não for de ordem efêmera e que seja, sim, perene, o ir: rio que desanda.

Titã desassombrado é o sertanejo. 

Cria resistente de uma Canudos que nunca se abandona, que nunca se retira, que jamais dá para trás. Conselheiro é Hércules do Sertão. Não morre a vida quando a morte é injusta, quando o abalo é sem sentido, quando a paisagem se desnuda em brotos de sangue nem quando o carcará plana sobre os cadáveres sem luta a mais, abatidos em chão silvestre. Quem é daqui sabe que umbuzeiro vivo é esperto a ponto de se permitir várias mortes, pra adoçar depois as fomes dos meninos e das meninas que correm léguas de brincar. Canudos não se rendeu nem vai.

Canudos resiste e ainda é o último sonho possível. 

Nada aqui neste regaço esturricado é noite vulgar. Guardamos a esperança em baús de enfrentamentos. Franzinos são os corpos, adamastores são as almas. Sertão é tormento só na cabeça dos homens de lá, dos de acolás, dos homens que não. Morre quem não se cansou de lutar, vive quem soube sobreviver. Por isso o gigantismo, a força descomunal, a saúde de cacto, todo um manual de como escapar. Por isso nossa severina sanha de querer lugar. Deus está aqui, conosco. Impávido. Colosso. Quem é daqui, sabe. Quem é daqui, sabe.


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Os estranhos cavalinhos de J. J. Veiga


Por Germano Xavier

O nome do livro já provoca um meio-espanto: Os Cavalinhos de Platiplanto. O curioso, pergunta-se: mas que diabos é Platiplanto? Doze contos e pouco mais de 120 páginas. O apressado diz: livro bom é livro grosso. Um tal goiano de nome José J. Veiga assina o livro. O outro vai e retruca: nunca ouvi falar. Estamos falando do livro que há exatos 62 anos – a primeira edição foi publicada em 1959, com o autor já com 44 anos de idade – inaugurava o gênero Realismo Fantástico na literatura brasileira. 

Aproximadamente 12 anos antes, em 1947, Murilo Rubião invadira o cenário de nossa literatura com contos também fantásticos, o que ainda hoje é motivo para embates acerca de quem realmente é o precursor desse tipo de escrita em solo nacional. E, como se não bastasse, chega um por detrás e sussurra: o que significa Realismo Fantástico? Para melhorar as coisas, se eu disser que o colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor do clássico Cem anos de Solidão, o belga-argentino Julio Cortázar, cuja obra-prima é Rayuela (O jogo da amarelinha), Vargas Llosa e Jorge Luis Borges são expoentes natos deste subgênero literário, marco literário da segunda metade do século XX em toda a América Latina, é bem provável que a penumbra comece a esvair-se, e terminemos adentrando um pouco menos leigos neste mundo “real-fantástico”, de estro kafkiano.

Também há dez anos – o escritor, nascido em 1915, morreu aos 84 anos - J. J. Veiga nos deixava, o que fez surgir, sem sombra de dúvidas, uma imensa lacuna em nossas letras. Tratado como inovador e extremamente maduro pela crítica, seu primeiro livro foi logo abocanhando os principais lauréis literários existentes no Brasil naqueles idos, a citar o Prêmio Fábio Prado, um dos mais concorridos até então. 

Narrados em primeira pessoa, os contos presentes em Os Cavalinhos de Platiplanto são marcados por uma forte aura de “brasilidades”, ambientações e expressões regionalistas, retratando reminiscências, estas com características aventureiras ou não, vividas tanto por personagens infantes quanto por adultos. Num tom quase que avesso à denominação fantástica dada à sua obra, o autor preferia dizer que seus textos geravam não um “realismo fantástico”, mas sim um “mundo fantástico real”.

E justamente nesse contraponto, ao qual se insere o real e o irreal, o que é e o que não é, o verídico e o fabuloso, é que destoa a pena mágica veigueana. Os contos são fabricados de tal maneira que, em dado momento, perguntamo-nos: “mas o que há de interessante nisso?”, como por exemplo, no relato de uma fábrica que é instalada atrás de um morro, fato que causa mudanças rápidas e impensadas no cotidiano das pessoas (conto A usina atrás do morro), ou na história de um pacato professor interiorano que diz saber o roteiro para um antigo tesouro, que sofre com a desconfiança oriunda da população do lugarejo e que um dia resolve fazer um protesto contra todo o descaso vivido por ele (conto Professor Pulquério). 

Até aqui, nada de tão intrigante. Mas é bem no trato substancial do que aparenta normalidade que Veiga urde com maestria o seu absurdo temático, quase sempre pegando o leitor desprevenido e atirando-o num universo perturbador, extremamente estranho, apesar de parecer simplório ou sem bifurcações quando ao sentido. Um exercício surreal é pincelado em tons amenos, porém firmes, talvez para não afugentar o leitor menos atento, que como queria Cortázar, percebe-se diante de um tipo de conto que prestigia a unificação de mais de uma “narrativa” dentro de uma única história. Segundo Candido, os contos de Veiga são “marcados por uma tranquilidade catastrófica” (CANDIDO, 1987, p. 211).

Fruto de uma reformulação literária, presenciada principalmente a partir da instauração do regime militar no Brasil em 1964, a literatura dita fantástica iria romper com as insinuações exacerbadamente realistas, por conseguinte quebrando também com os modelos advindos de um naturalismo já em “irreversível” desgaste. Em seus contos, Veiga busca o insólito, e no uso da ficção faz germinar de suas mãos uma realidade alegórica, distante do que possa simplesmente parecer. 

A tensão entre o cotidiano e o insólito vai sendo criada ao passo que invadimos as páginas e os pormenores do livro, num movimento de ascensão gradativa – nunca acontecendo o sentido inverso -, para no final terminar por eclodir alguma coisa, revelar algum segredo que ficara perdido no meio da trama ou desmascarar um mistério que estava à vista de todos, todavia imperceptível. O final é quase sempre apoteótico, mesmo sem exageros. 

É como se Veiga não estivesse, em nenhum momento da obra, disposto a correr o risco, inclusive extremamente natural aos escritores fantásticos, de ter suas narrativas muito distanciadas da “provável” realidade, o que poderia dificultar a compreensão dos textos, mas soubesse muito bem lidar com as dimensões limítrofes tanto do real quanto do irreal. No fundo sabia que, “para assumir significação, o fantástico necessita criar uma curva que o reconecte com o mundo” (LIMA, 1983, p. 207). Nesse jogo, Veiga superestima a linguagem informal, sem banalizá-la, aproximando-se da literatura produzida por seus escritores prediletos, a citar J. D. Salinger, autor do best-seller O apanhador no campo de centeio, e Graciliano Ramos, romancista brasileiro da geração de 30.

Outro ponto a ser ressaltado é a sua ligação com o momento político brasileiro. Veiga desmente muito da crítica produzida sobre tal relação, mas muitos estudiosos de sua literatura insistem em fazer tais ponderações. Em Os cavalinhos de Platiplanto, talvez o conto mais discutido a partir desse pressuposto seja A usina atrás do morro, cujo teor seria condicionado diretamente ao governo do presidente Juscelino Kubitschek e ao impacto da entrada do capital estrangeiro em nosso país. 

Wilson Martins, na orelha da décima oitava edição escreve: “liberto das escolas e das modas... deu à literatura brasileira um daqueles livros pessoais e verdadeiramente novos que assinalam a história dos gêneros: na contribuição quantitativa do conto, ele trouxe, com o sr. Dalton Trevisan, a contribuição qualitativa, a do conto mergulhado num mundo próprio, preso a contingências específicas e criando, pela magia do estilo, novos planos da sensibilidade literária”. 

J. J. Veiga, que nasceu José Pereira Veiga, ganhou esse nome artístico do mineiro João Guimarães Rosa, depois de alguns estudos numerológicos. O J. do centro significaria Jacinto, oriundo do sobrenome da mãe, fator que – acreditavam - lhe traria sorte. Estudou Direito, trabalhou em rádio e no meio jornalístico, inclusive traduzindo e comentando programas na rede BBC de Londres. Quer saber no que deu o protesto do Professor Pulquério, a chegada da misteriosa usina, as peripécias de Cedil e Tenisão, por onde anda o cavalo Balão ou mesmo a espingarda de Seu Juventino? Quer saber onde fica Platiplanto? Então, o que está esperando?!

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CANDIDO, Antonio. “A nova narrativa” in A educação pela noite e outro ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

LIMA, Luiz. Costa. “O conto na modernidade brasileira” in PROENÇA FILHO, Domício (org) O livro do seminário. São Paulo: L. R. Editores, 1983.

VEIGA, José Jacinto. Os cavalinhos de Platiplanto. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

sábado, 28 de agosto de 2021

ASA DE LAGARTA, de Vanessa Reis + ISABEL ALLENDE (Parte II)


 

Para que serve um livro de poesia? Talvez o livro ASA DE LAGARTA, de Vanessa Reis, possa ajudar você a responder tal questionamento. Ainda neste vídeo, Cristina Seixas nos apresenta a segunda parte de suas impressões sobre a obra da escritora chilena Isabel Allende.

#asadelagarta #vanessareis #isabelallende #germanoxavier #cristinaseixas #canaloequadordascoisas

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XI)




 Por Germano Xavier


Diamantes, canais e o Distrito da Luz Vermelha


chegando em Amsterdam, fui ver

uns diamantes. falei para a moça que apresentava as

pedras "sou da Chapada dos Diamantes" e quem 

me garante que esse aí reluzente não veio de lá?

ela deu risada, mas em minha fala havia revolta.

minha vingança foi maligna. aliás, eu sempre arranjo

um jeito de me vingar.


meia volta na fabriqueta e eu estava no centro da capital

holandesa. uma cidade belíssima. bicicletas.

muitas bicicletas. por todos os lados. de todas as

cores. bicicletas afundadas nos canais. um festival de 

histórias sobre bicicletas e seus donos. tomei um vinho 


e a embarçação abriu a noite.

dobrei umas ruas estreitas e me encontrei 

no Distrito da Luz Vermelha. observei atentamente

tudo ao meu redor. uma maneira particular de ganhar dinheiro, 

de vender o corpo, de exploração, de tanta coisa... muitos jovens

e muita fumaça e muito álcool e muitas drogas, eu sei.

até hoje relembro os olhos fugidios daquelas moças nas 

vitrines. seminuas e tão nuas de tanta coisa. observei. mas nem tanto.

não quis constranger ninguém. a Holanda é um lugar que 

merece uma atenção especial. muita coisa lá já é uma espécie de futuro.

ou não. um dia iremos saber.


foi quando pensei em Anne Frank. 

fechei os olhos logo em seguida, 

e meu pensamento me distraiu dores.


(Tarde e noite de 15 de junho de 2017)




sexta-feira, 20 de agosto de 2021

BUBUIA, de Jéssica Martins Costa + DICAS DE JAMES WILKER


 

Bubuia significa "borbulhar, boiar". A poesia pode se servir disso e a isso. Para mergulhos, para equilíbrios. Ou para buscas. Sejam bem-vindos ao mar de palavras de Jéssica Martins Costa. Ainda neste vídeo, James Wilker nos oferta mais uma dica de leitura imperdível.

#bubuia #jéssicamartinscosta #germanoxavier #jameswilker #canaloequadordascoisas

Poesia em nome dos raios




Por Germano Xavier


Uma mulher-deusa de uma mística nada passiva dança um fogo branco-brando e a capa instaura um ar de sagrado sobre o papel feito de negrumes. Assim começa o livro de poemas intitulado EM NOME DOS RAIOS, do poeta baiano João de Moraes Filho, livro este coadunado a outro, CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves. Dividido em cinco partes, a poesia presente na obra deste cachoeirense compõe um rosto aparentemente simples para quem o sente diante de uma primeira leitura. Porém, é com a paciência da decifração que a poesia demanda que uma face mais ígnea e áspera aponta no chão das páginas amareladas. O livro é feito de um silêncio calculado que não chega a dar ao livro um aspecto de som morto, mas pelo contrário, dele brota um argumento capaz de invadir com tenacidade a ópera de nossas almas. O uso de epígrafes no topo de muitos dos escritos alimenta os poemas com um mel de significado que gera marcas de força, o que auxilia a melhor incorporação do poema por parte do leitor. O tempo é recriado e ele mesmo elabora um espaço sem temporalidade, haja vista que ele, o tempo, “sobrevive ao fogo, corre/nos quintais e nada espera”, como diz o poeta em Portuário. O gesto do olhar, enquanto um dos sentidos-mor do ser humano, também obtém destaque nos versos, posto que são eles os responsáveis maiores por resgatar “ardências reais” onde algo pode estar na condição básica do abstrato. “Pássaros estalam rezas” e o que se instala na configuração do todo poético de EM NOME DOS RAIOS é a sensação de se estar lendo um tempo que realmente existe ou existiu num contexto exato de perdição. O futuro é apenas um pano de fundo recoberto de mistérios, apesar dos questionamentos inerentes, ele não aparece na obra: “... amanhã é depois./e depois de amanhã não será futuro/nem presente. Apenas um brinde”. O poeta segue o risco que há num sorriso e enobrece a humanidade no homem, já que “pouco importa/o canto,/descobre-se/a lágrima”. Os raios cantados por João de Moraes Filho caem também sobre a figura de sua terra natal, como podemos ler nos versos do poema Procissão: “Paraguaçu adentro./Nos Portos ancorados/se resumem histórias/margeadas de Áfricas/em estado de aves/cantando nos jardins”. É como se ecoasse em nós uma oração pela natureza humana, regada sempre por arcanos insubstituíveis e fundamentais. Por fim, as mãos do poeta tecem com uma candura aberta em dúvidas um universo drástico e obscuro sobre a incerteza da serventia de toda palavra. Falando de si, pergunta em Pátria Amada como se fosse nós: “Nossa vida, nossos amores:/o que somos?/Um sorriso escancarado de alguma boca?” E então?


Já CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves, é um livro de poemas sobre distanciamentos, medos, sobre uma condição de marginalidade perante o mundo que devassa a ordem do existido, do existível. O que há pode entrar em ruína a qualquer momento. A poesia aqui serve como um aviso sobre nossas fraquezas e nossa desfaçatez concernente ao todo do mundo. A atmosfera espaço-temporal gerada em suas páginas maquina um tumor que beira a malignidade nos sentidos de quem lê. A alma se adoenta quando a pureza da vista sofre maculações necessárias no decorrer da leitura. Tudo é um sofrimento conjunto, do autor com o leitor e vice-versa. A consequência é a produção de uma consciência em atividade inquiridora e ininterrupta. O autor nos coloca diante de um lugar que é nosso e que está demasiado distante de nossas mãos, mesmo estando perto demais, o que nos causa um certo desespero por não poder tocá-lo em sua inteireza. Faz isso nos dizendo: “O nosso paradeiro é um lar distante”. O mapa que nos guia revela uma poesia referente ao nosso próprio descobrimento, e nos olvida do que não nos são préstimos e essências. “Esqueça tudo que não for amor”, versifica, reforçando tal idéia. Por detrás das forças que operam o contrário do bem, o amor surge impetuoso, feito um deus duro e capaz de maldades benévolas. Num cenário regado a desesperanças, onde “Não há nada/ Desta pedra não se tira leite”, somente o amor pode burlar o fel da vida. O homem rompe o silêncio para se transformar numa “Máquina de procriar escuros e afogar naufrágios que insistem”. A prosa poética se mistura ao verso livre, que bebe constantemente em repetições, para fortificar o sentimento de uma cotidianidade feita de realidades. O poeta lembra dos amigos e constrói uma cidade quase inabitável em mirante do morro de santa terezinha. Deseja a morte em versos como “tragam os pregos para minha crucificação”, terminando por nos alertar sobre as desventuras da vida em seu estado purgatorial. Talvez só valha a pena a vida na desforra e no desbunde, ou na quietude dos nirvanas existenciais. Canta “os senhores da terra e das sementes”, gente que arde na brasa das folhas de fumo da Cachoeira baiana de tantos santos tragados por históricas batalhas pela identidade e pela resistência de um povo. Aprender com tristezas, saber lidar com toda sorte de infortúnios, alimentarmo-nos de sementes, operar germinações íntimas, lições que a poesia de Nuno Gonçalves nos coloca em seu livro CARTAS DE NAVEGAÇÃO. Porque a base de tudo é somente o que somos. Será mesmo?


Imagem: Google.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO, de Ailton Krenak


 

O que seremos se continuarmos a ver o mundo e a nossa humanidade como meros objetos ou mercadorias? Esta e outras perguntas à luz do pensamento de Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro.

#ideiasparaadiarofimdomundo #ailtonkrenak #germanoxavier #canaloequadordascoisas

domingo, 1 de agosto de 2021

Raimundo Carrero e o corpo em mutação

*
Por Germano Xavier


ou Quando a vida ficará tarde demais para nós?

Pernambuco, hoje, não é só cinema. Pernambuco, hoje, é também literatura da melhor qualidade. Aliás, sempre foi assim. Só o nome de um Osman Lins já pesaria em afirmação por todos os meus julgamentos... junte-se a ele um Marcelino Freire, um Miró de Muribeca, uma Luzilá Gonçalves, um Alexandre Furtado, verdadeiros guerreiros da arte da palavra, entre tantos outros poetas e prosadores vivos (e outras centenas de falecidos).

E o que dizer de um Raimundo Carrero? Monstro das letras, simplesmente. Pouco lido, é certo. Por falar nele, no Carrero, convenhamos: é dos grandes prosadores de nosso país. O escritor nascido na cidade de Salgueiro-PE lançou em 2015 o livro O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO, cujas tentativas de escrita datam de 2010, quando sofreu um acidente vascular cerebral. É justamente acerca de tal questão que o livro versa, ou seja, sobre a nova moldura corporal que o escritor passa a carregar após o AVC.

Carrero demarca a obra supracitada sob o signo do corpo, espaçando seu roteiro dentro de uma mistura dos significados de corpo com as metáforas do crime, das sombras, das fezes, das aranhas, do Cristo, da arte, dos miseráveis, da política, da luz e de la nave (leia o livro, caso queira compreender tudo aqui exposto). Ao final, presenciamos um escritor em processo de dissecação de si para si, mesmo que o sangue escorra para bem longe dos ralos visíveis, mesmo que não hajam cortes ou interceptações mais invasoras na pele. O que dói, na verdade, é a dor na alma.

O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO lembra-nos logo de cara do Gregor Samsa kafkiano, que se vê desconfigurado, em forma de inseto, e totalmente atordoado por isso. O livro de Carrero é sobre um tipo de metamorfose a que estamos sujeitos, todos nós estamos. Nada muito esdrúxulo e inacontecível. Como bem sabemos, animais mudam de pele. Não somos animais?

Ao passo que detém os leitores dentro de tais detalhamentos corpo-físicos, num esmiuçar bastante protuberante, Carrero burila seu passado com uma pá invisível que escava de maneira profunda suas memórias pernambucano-recifenses. Passeamos, pois, pela história de sua ligação com o movimento Armorial até momentos de extrema intimidade poética, onde o autor nos brinda com referências lítero-artísticas marcantes para a fundação de toda a sua obra.

Indubitavelmente, o livro é um pequeno diamante de nossa literatura contemporânea. Simples, porém inegavelmente aterrador. Um relato sincero de como as coisas podem ficar após um desarranjo de nossa máquina corpórea. Talvez até, um pequeno postulado poético de como se safar de tais agruras, ou mesmo de como dirimir a dor de conversões desta natureza. Dirimir no sentido de amenizar, eu disse. Até porque só conhece a dor quem a possui.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/corpo-I-171824679

quarta-feira, 30 de junho de 2021

SEJAMOS TODOS FEMINISTAS, de Chimamanda Ngozi Adichie + ISABEL ALLENDE


 

Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora e ativista feminista de fundamental importância na atualidade. E o que dizer de Isabel Allende? A Cristina Seixas inaugura sua participação neste canal falando sobre a escritora chilena.

Georges Bataille e a história de nossos olhos



Por Germano Xavier


Quando você termina de ler A história do Olho, de Georges Bataille (1897-1962), você tem, não a impressão, mas a certeza de que o livro, a narrativa, não acabou no último ponto final colocado pelo autor. Isso é um fato que sempre acontece quando uma narrativa literária é realmente marcante. O livro é de tamanha visceralidade que facilmente toma conta de todos os cantos de nosso espírito, até aqueles mais recônditos e aparentemente intransponíveis, o que faz com que se abra diante dele e de nós mesmos um mundo imaginário de proporções antes inimagináveis. Fico imaginando o quanto ele pode representar um conteúdo intragável para leitores não preparados ou ainda fechados em concepções porventura ortodoxas. A obra-prima de Bataille configura-se justamente no seu livro de estreia, hoje tido como um dos maiores clássicos da literatura erótica de todo o planeta.

A narrativa, densa e plástica sem ser cansativa, que é deglutida de um supetão, tamanha a sua força sobre nós, leitores, inclina-se sobre as aventuras e desventuras no mínimo “diferenciadas”, para não dizer escatológicas, fesceninas e altamente libertinas, de Simone e o narrador, este sem nome, mas com muita identidade na voz que opera todos os fatos e não-fatos, e que, porém, possui uma identidade fragmentada e somente esclarecida por completo quando na presença de outra pessoa, no caso Simone ou Marcela, a quem podemos caracterizar como espectros da maioria de seus fetiches, assim como ele, o narrador, também o é observado como um fenômeno de êxtase para as demais, porém em menor sintonia.

O reflexo da alteridade e da empatia é vislumbrado no decorrer de todo o livro, posto que todos os acontecimentos não poderiam se dar na solidão plena de seus praticantes, na alvura solitária do ser, e se assim acontecessem não teriam a potência máxima expressa no tempo dos acontecimentos. É perceptivelmente constante o pedido de Simone àquele que conta a estória para ele não permitir que ela goze sozinha, o que prova mais do que nunca a nuance de importância que a união humana tem no ideário do escrito. Simone necessita do outro para o arroubo fatal do prazer, tanto necessita que dificilmente se entrega a si mesmo sem o outro por perto para lhe satisfazer totalmente. O prazer n’A história do olho é um prazer instintivamente coletivo, mesmo que este “coletivo” queira designar o eu e o imaginário, o eu e o pensamento, o eu e o próprio desejo de ser o eu.

Uma série de encontros e desencontros se sucede a todo vapor e alguns pontos do livro se tornam cruciais para o desenvelopamento do entendimento e do sentido da obra, a citar:

• Logo na primeira página, o leitor é convidado a conhecer um mundo nada dogmático, pleno de sexo e delírio, libertário ao extremo, e a imagem do cu de Simone é logo ovacionada e conclamada pelo narrador como sendo um apetrecho do corpo classificado como mítico e sagrado para os atos praticados nas mais variadas orgias narradas no livro. O cu é o espelho do prazer, local onde tudo entra em ebulição, onde tudo explode, onde tudo acontece, e também onde a paz interna sem domador pode vir a reinar, para depois sobrepujar um novo caos operante. A urina também aparece como elemento importante para a simbologia provocada no livro;

• Os dois, Simone e o narrador, só conseguiam se olhar com mais atenção quando nos momentos de maior envolvimento físico-animalesco-sexual. Longe de seus próprios olhares, os dois se digladiavam com rupturas feitas tão-somente de desejo. Mas mesmo assim ainda eram rixas que os aproximavam de alguma maneira. Há uma falta de estranhamento dos dois quando realizavam o bruto sexo, ou quando tematizavam juntos a ordem da liberdade de ambos a ser executada no próximo ato, ou seja, toda e qualquer forma de delírio e gozo aproximava os dois de si mesmos;

• A chegada de Marcela, terceira personagem da obra, recoloca Simone e o narrador em diferentes postos. Marcela impede que continuem sendo os mesmos de antes porque a partir de seu aparecimento na praia o prazer não pode mais ser vivido em sua completude apenas em par, mas agora em trio. Marcela é o símbolo do desgarre e também do aprisionamento dos sentimentos, mesmo que estes sejam pálidos em profundidade ou pureza. Marcela é quem faz os dois transcenderem, incapazes que são para tal empreendimento;

• A mãe sem autoridade, no caso a de Simone, compartilha com medo o desastre de comportamento que vê, e já nada faz para combater a suposta insanidade da filha, a não ser ficar muda. A mãe de Simone é a porta que dá para a estrada da perdição, ou do encontro, mesmo ela nunca representando muita coisa para Simone;

• O pânico de Marcela quando é levada por si mesma para dentro de um armário e lá efetua seu gozo solitário recoloca a questão da alteridade e da empatia em voga novamente na narração. O gozo solitário é signo de sofrimento, de dor, de desgraça. Enquanto acontece um bacanal em seu quarto, com a participação de Simone, o narrador e alguns amigos, Marcela tenta se encontrar num lampejo desesperado e caótico, desejo este mal sucedido. Marcela, por sofrer, não consegue despistar o sentido de erro e logo é tomada pelos pais como ser débil e doente;

• A orgia na casa de Marcela com todas aquelas pessoas faz evidenciar a atração causada por ela aos demais, principalmente ao narrador e em menor grau em Simone. Marcela torna-se o elo-mor entre o ato e o gozo anímico-corporal. Sem Marcela, o prazer é pouco, fraco, alquebrado. Sua ausência começa a ser sentida em todos os momentos a partir dali;

• A masturbação à distância de Simone e Marcela na casa de saúde, esta levada até o local à força depois de os pais terem presenciado a orgia feita em seu quarto, pode configurar-se como metáfora para a inoperância de psicologismos vários ou na verdadeira eficácia de centros de reabilitação, não relativizando a falha geral desse tipo de sistema operacional nas sociedades de todo o globo terrestre;

• A volta para casa e a queda de Simone da bicicleta não representam apenas um retorno e uma queda normais, mas também o começo de uma derrocada sentimental-do-agir, que parece entrar em desgaste ao longo das páginas, mas que logo sofre um revertério;

• A brincadeira com ovos no hospital enquanto Simone se recuperava da queda e o resgate de Marcela da casa de saúde corrobora a ideia de que para o narrador, ainda sem entender nada sobre a atração que ela lhe causava, a vida é simples e não prescinde de esforço de entendimento. A impressão que se tem é a de que nada pode ser mais banal e supérfluo do que perder tempo pensando nas raízes quem fundem as coisas da vida. Em nenhum momento os personagens refletem sobre suas atitudes, nem se ressentem de nada. Tudo é feito no calor da hora, na sobrevida do instante, e por isso mesmo tudo eclode em fronteiras sem limites;

• O enforcamento de Marcela promove a indiferença dos dois para com o fato, o que soa contraditório, já que tanto Simone quanto o narrador eram aficionados por ela. Os colhões do touro, crus, tão desejados por Simone, simbolizam também a figura do olho, que perdura por toda a obra. A ida ao confessionário e o sexo com o padre dentro da igreja até sua morte é símbolo iconoclasta, de desprendimento e fervura vital. Por fim, o olho de Marcela imaginado numa espécie de miragem dentro da boceta de Simone, resgata a façanha e o fascínio da visão, tal como manda o figurino do voyeurismo.

É importante salientar que a essência dos comportamentos adquiridos pelas personagens é intrínseca a cada um deles, sendo mais um descomportar-se que um comportar-se propriamente dito. Tal fato é o motor para as fugas de quaisquer amarras ideológicas ou gaiolas sentimentais. Os personagens de A história do Olho são como pássaros silvestres, viajando em bando, mas piamente sabedores de serem proprietários de uma unicidade plástica que vivifica as passagens e portais para o outro passar a existir também, mesmo que essa existência dure as frações de segundos de um gozo físico e mecanicamente temporal.

Ao final do livro, convidado desde o início ao contato com o excêntrico ao extremo, o leitor vê-se preso numa orgia múltipla e única de si mesmo, feita com ingredientes que remetem ao saber e à consciência. Aliás, a consciência pode muito bem ser a palavra que mistifica o sentido do “olho” dentro do enredo de Bataille, assim como o significa. O saber consciente da visão e sua operação de tradução do mundo e dos acontecimentos são o que torna o livro tão impactante, a ponto de nos produzir desgovernos internos. Ou vai dizer que a visão, vez ou outra em nossas vidas, também não nos presenteia uma abrupta e inconfessável cegueira?

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O MÉDICO E O MONSTRO (Dr. JEKYLL and Mr. HYDE), de Robert Louis Stevenson


 

O projeto Pandêmicos é uma série de vídeos que tem por finalidade auxiliar a garotada a manter alguma espécie de disciplina de estudos em meio ao isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus (COVID-19). A conversa hoje é sobre o livro O MÉDICO E O MONSTRO (Dr. Jekyll and Mr.Hyde), do escritor escocês Robert Louis Stevenson.

domingo, 27 de junho de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte X)


 

Por Germano Xavier


Aromas do Norte


Haia, a terceira via holandesa,

apareceu como quem não queria nada. Foi apenas

um pouso, verdade seja dita. Fluido. 


Sede governamental sem ser, ela, 

a capital. Aqui é onde mora o Rei. E ele não está nu.


Admirei o Binnenhof, um dos prédios da Corte.

Mas, por um instante, senti um estranho cansaço. 


A Europa, por vezes, e em determinadas partes 

de seu território, parece ser um grande bloco-uno, 

em diversos aspectos, e este fato 

também pode ser percebido na arquitetura,

no paisagismo, sem grandes dificuldades.


Driblei turistas e tomei o rumo de um mercado

que havia avistado do outro lado da rua. 

Ali, dentro do estabelecimento,

tomei o suco de laranja mais laranja da minha vida,

observei um Canta LX e pensei em toda uma problemática urbanóide.


todavia, não foram os minicarros nem os vistosos prédios

dos diferentes tribunais mundiais espalhados pela cidade

que mais me chamaram a atenção. havia algo

que tomava conta daquele dia.


um cheiro se aprofundava em meu organismo.


era o Mar do Norte, vivo no horizonte oeste.

bucaneiros sabem quando as abissais águas do mundo

dançam sob os astros.


(Manhã de 15 de junho de 2017)


quinta-feira, 24 de junho de 2021

A CRUEL PEDAGOGIA DO VÍRUS, de Boaventura de Sousa Santos


 

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra, esboça toda uma pedagogia epistemológica acerca da crise mundial envolvendo a pandemia do novo coronavírus, além de apontar possíveis alternativas para uma reviravolta global.

#acruelpedagogiadovírus #boaventuradesousasantos #pandemia #germanoxavier #canaloequadordascoisas

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quarta-feira, 23 de junho de 2021

Das tripas, o coração de Ezter Liu




Por Germano Xavier



De pai pernambucano e já com oito anos morando na Caruaru agrestina, tenho me preocupado em ler e escrever um pouco acerca da produção atual da literatura em Pernambuco. Em uma edição da Feneagreste, em conversa por lá entre-stands com o amigo das letras Thiago Medeiros, promotor do Coletivo Letras em Barro, que agita o cenário cultural caruaruense, fui instado a levar para casa alguns livros da Editora Cepe, entre eles o DAS TRIPAS CORAÇÃO, livro de contos de Ezter Liu, vencedor do V Prêmio Pernambuco de Literatura em 2017 na categoria. 

Talvez o ponto mais proeminente da referida obra seja mesmo o da unificação da paisagem narrativa interna e externa à temática feminina, mesmo que essa unificação não signifique restrições a quaisquer outros assuntos. Aliás, a diversidade de eventos é palco para as dezoito narrativas curtas da autora. 

DAS TRIPAS CORAÇÃO é um livro sobre mulheres, para mulheres e para homens, contra e a favor de tantas coisas que nos interessam na atualidade. Em suas páginas, a mulher é reiteradamente posicionada como entidade, como humana, como iluminadora de escuros, como inquisidora, como requerente, como matéria explosiva... 

A mulher em Ezter Liu é aquela que sempre está a desafiar a ordem. Mas não somente a mulher que verbaliza isto, mas a que pratica, a que age, a que interfere no que porventura esteja estabelecido, tamanha a sua conscientização e a sua sanha. A costura é simples. O tecido também. O resultado é, no mínimo, um livro justo.


Imagem: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2018/04/24/a-literatura-sem-virgulas-e-sem-amenidades-de-ezter-liu-336578.php

terça-feira, 22 de junho de 2021

LIVROS NOVOS NA ESTANTE + DICAS DE JAMES WILKER


 

O vídeo de hoje é uma apresentação dos livros mais recentes que adquiri e que possivelmente poderão vir à tona aqui no canal, mas antes tem um projeto muito lindo da conterrânea chapadeira Angélica Nunes e, ao final, dicas preciosas do amigo James Wilker.

#livrosnovosnocanal #germanoxavier #jameswilker #angélicanunes #canaloequadordascoisas

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segunda-feira, 21 de junho de 2021

Os 109 aforismos de Kafka


 

Aforismo lembra limitação, definição rápida e simples, sentença breve e enxuta, pensamento conciso que resume algo puro, bruto e com natureza nuclear. O aforismo esteve presente na vida de Franz Kafka em praticamente toda a sua carreira de escritor. Kafka tinha o hábito de escrever e guardar em diários inúmeras anotações preciosas sobre tudo e todos. Quando a tuberculose pulmonar o atingiu com veemência, Kafka se utilizou ainda mais do potencial do aforismo. O escritor de Praga protocolou, assim, e com muita maestria, uma de suas marcas textuais mais fortes. Em 109 Aforismos reunidos, Kafka passa a limpo a vida como a tomar decisões em forma de curtas vastidões. E, para a nossa sorte, seu amigo Max Brod não destruiu tão importante tesouro literário.


CARTA SOBRE A FELICIDADE, de Epicuro + LUÍS SEPÚLVEDA


 

Epicuro de Samos foi um filósofo grego do período helenístico. Sua "Carta sobre a Felicidade", direcionada ao seu discípulo Meneceu, é um documento muito importante para a história do pensamento ocidental. Ainda neste vídeo, Luísa Fresta continua sua explanação sobre a obra do escritor chileno Luís Sepúlveda.

#epicurismo #filosofia #luíssepúlveda #canaloequadordascoisas

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Sobre Gris, de Cida Pedrosa




Por Germano Xavier


(CEPE, 2018)


A cidade cinza de Cida Pedrosa, em seu livro Gris, é a Recife que todos conhecem, não pelo nome, mas pelo seu rosto dúbio, tal qual as duas faces-lâminas do mar (ou do rio - ou dos rios | Capibaribe e Beberibe). Por falar nisso, eis aí uma particularidade da capital pernambucana por demais singular: revelar-se, de pronto, ao menor dos contatos. Recife é uma metrópole sem frescuras, sem firulas, que se abre logo de imediato ao passante e ao seu morador, demonstrando logo de cara quem é ou o que é. Cida Pedrosa, poeta de alma plural e em atitude célebre, coloca Recife em seus devidos lugares. 

Gris tem a delicadeza triste do menino que se perde no meio de um sinal de trânsito, numa atitude circense qualquer, e também a força opressora de uma felicidade de mangue, de quando o caranguejo rende mais que todo um sacrificante dia de trabalho. Gris tem a melancolia de um gozo interrompido por conta de uma batida policial na calada da noite. Surdina metodologia do caos é a poesia-Gris. Amarra, borra de café preto em copo descartável, em mãos perenes de mudar geografias. Gris é Caboclinho de Lança dançando Frevo no Shopping Center Boa Vista.

Gris é cinza de poesia metropolitana, com cheiro de esgoto a céu aberto. Ranço sem cura. Poesia comprometida com as forças menos homogêneas do poder, com as cores diversificadas das misérias humanas, com a ancestralidade da desigualdade de classes, com os lampejos de Amor que deambulam por entre os becos e as vielas da Veneza brasileira. Gris é ponte. Gris é também punhal: fere quem não crê que neste pequeno inferno chamado Recife não há espaço para o sonho. Não se enganem: em Gris há. Mesmo que o sonho capturado de dentro do Muribeca.

No meio do mundo de Recife um Grande-Olho orienta estados de paraíso. Um parco paraíso que atravessa o verde do canavial maldito das Matas, dribla as pedras do Agreste e tece um amparo sob o sol dos sertões do norte e sertões do sul. Recife é todo um Pernambuco. Gris, também. O jeito de olhar de um povo. Povo de mãos trabalhadeiras, que se recusam a desistir, que teimam em sorrir. Poesia imersa em jererês. Vida-toda-Vida. Privilégio.

Plenaberta é a obra que conforta o coração elucidando mazelas, esclarecendo podridões, fazendo remar a vela das barcas da Morte. Gris é o remo. Trata-se de um livro sobre dores severinas, sobre fomes cabralinas, sobre rumores osmanianos e ditos sol(a)nos. Pra abrir e pra fechar os poros. E bem que a gente sua lendo tanta cinzura, o olho esgarça. Cinzeiro é Gris. Recolhe as cinzas do homem daqui e dos de lá também. Foice afiada. Metal introduzido na carne viva. Josué de Castro redescoberto. Uma placa de "proibido  não viver neste local".