quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIII)


 

Por Germano Xavier


Uma espécie de Pequod


o Mar do Norte ainda me acompanhava em pensamento

desde que deixei Volendam para trás.

havia naquele momento uma espécie de chamamento acontecendo.


aí abri a tarde em Marken.

frio, muito verde nas casas de madeira

com janelas abertas e com seus donos nus

andando de um lado para outro em seus cômodos

sem nenhum tipo de preocupação ou pudor, 

como a habitarem um pequeno Éden.


no centro do pequeno condado,

avistei um Pequod ancorado na pequena orla.

fitei a embarcação por um bom tempo.

o frio me aquecia a alma.

recordei viagens que fiz em livros.

foi um instante simples e bonito, e eu precisava

contar isso a você.


(Marken, tarde de 16 de junho de 2017).




quinta-feira, 14 de outubro de 2021

NICK CAVE E OS LIVROS, por Cristina Seixas + A CIRCULAÇÃO DO LIVRO EM ANGOLA, por João F. André


 

A professora e artista visual angolana Cristina Seixas nos traz um relato sobre a relação do músico Nick Cave, seus fãs e a literatura. O escritor angolano João Fernando André fala sobre a produção e circulação do livro em Angola, na África. Neste vídeo, você ainda confere as palavras de abraçar almas da psicóloga Angélica Nunes.

#nickcave #cristinaseixas #olivroemangola #joãofernandoandré #angélicanunes #canaloequadordascoisas

domingo, 3 de outubro de 2021

Ainda assim


 

Por Germano Xavier


se não houvesse mais nada
entre o Éden e o Caos
se o Jardim das Delícias fosse apenas 
uma imagem sem foco na direção do sol
sem bordas nem beiras
sem eiras nem destinação
ainda assim

haveria a Penumbra
a desafiar rotas de espera
caminhos sem futuro
dilemas e dissoluções
ainda assim

uma estrada e a memória
de um lugar sem Tempo
nem resolução



* Imagem: https://www.deviantart.com/poromaa/art/Urban-Objects-183429838

OS PRÊMIOS LITERÁRIOS EM ANGOLA, por João Fernando André


 

Neste vídeo, o escritor angolano João Fernando André fala sobre a problemática envolvendo os prêmios literários em Angola, na África. Você ainda confere as palavras de abraçar almas de minha conterrânea e psicóloga Angélica Nunes e, por fim, também fica sabendo quem foi o ganhador do livro referente ao 22º SORTEIO DE LIVROS aqui do canal.

#prêmiosliterários #angola #joãofernandoandré #sorteiodelivros #angélicanunes #canaloequadordascoisas

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Pelos mares da retranca



Por Germano Xavier


Quando conhecemos um poeta/escritor por indicação de um outro bucaneiro camarada ligado às artes, é lógico que a tendência é a boa surpresa, o contentamento, a boniteza do descobrimento. É quase uma regra isto, raríssimo dar errado. Quando o escritor Rômulo César Melo me falou sobre o Newton Messias, já fiquei naquele aguardo esperançoso. Aí com pouco tempo recebi em casa o livro EM MAR ALBERTO - 101 RETRANCAS (Mondrongo, 2019), e foi como eu ter colocado a bola na marca do pênalti. Estava tudo pronto. 

O livro do Newton é um evento completo. Palco, torcida, árbitros, jogadores (os versos), traves... Newton é o treinador, e por sê-lo escolheu a "retranca", forma poética invencionada e difundida em primeiras doses por Alberto da Cunha Melo, uma espécie de Telê Santana neste estilo de jogo poético. Mesmo eu, meio avesso às formas fixas na literatura em geral, não tive como esconder o engraçamento instantâneo para com as letras que estavam diante dos meus olhos quando da leitura do EM MAR ALBERTO... foi num zás e pronto, já havia lido o rebento do Newton. 

Primeiro: gostei deveras por estar ali aprendendo sobre uma forma de poesia ainda desconhecida para mim. Segundo: o Newton me provou que é um poeta que, apesar de escolher a "retranca", gosta mesmo é de jogar no ataque. E em time que está ganhando, meus nobres, não se pode mexer nem ousar falar mal. Encantado com aquele time de poemas logo de cara, coloquei-me como um torcedor na arquibancada. Fui torcendo, torcendo, torcendo, a cada novo poema, a cada novo terceto, a cada novo quarteto, a cada novo dístico, a cada nova composição. Resultado: o time de poemas que o técnico Newton Messias colocou em campo não só ganhou o jogo, como também se classificou para as finalíssimas do campeonato, universo em que só os bons ou muito aguerridos conseguem chegar. 

O livro está dividido em quase uma dezena de partes: espelho dágua (um poeta mais voltado para si, com toques narcísico-filosóficos bastante proeminentes); água no joelho (um poeta que prefere falar sobre táticas de guerra "literária" e adendos; arrecifes (um poeta livre em seus cotidianos de fé e de voragem); água nos ombros - retrancas de Peroba (um poeta dentro-e-fora do mar, perscrutando a sinfonia de Poseidon; água nos ombros - retrancas de Aldeia (um poeta ainda mais dentro dos chãos e mais perto das luas engaivotadas); sereias: mar aberto (um poeta com os seus, domando a Poesia - leoa marinha); água sobre a cabeça (um poeta ferido, salvo pela dor salina do viver). Ao todo, um bom e grosso apanhado sobre um pouco de todas as coisas do mundo embebido em uma forma estável, porém apta à causa das instabilidades gerais dos instantes.

O livro EM MAR ALBERTO - 101 RETRANCAS nos leva diretamente para os oceanos albertinos das primevas inovações, mas também possui a capacidade de nos revelar maduros traços senso-musicais e semântico-discursivos de um Newton Messias gaio, sabedor das errâncias, obra com águas de lastro suficientes para pousar em cabeceiras insones de leitores ávidos por uma voz de poesia realmente nova e firme. 



entrevista com Newton Messias


Germano Xavier – Newton, por que a Retranca?

Newton Messias – Porque tenho simpatia pelas formas fixas. Logo que conheci as retrancas do Alberto da Cunha Melo, comecei a escrever nessa forma muito interessante e mais na medida para a linguagem contemporânea do que o soneto.


Germano Xavier – Quem é Alberto da Cunha Melo para você e como anda o cenário poético ligado à produção de “Retranca” na poesia nacional? Há algum poeta que usa esta forma em outro país?

Newton Messias – Alberto da Cunha Melo foi um poeta pernambucano de Jaboatão dos Guararapes, falecido em 2007. Sua obra completa foi publicada pela Record em 2017, contendo seus livros lançados e uma grande quantidade de poemas não publicados em vida. Sua obra mais conhecida é o narrativo Yacala, de 1999, todo escrito em retrancas. Em 2018, a editora Mondrongo lançou a Antologia Brasileira da Retranca, com a participação de 35 poetas de todo país, mostrando que o poeta e sua forma não são tão desconhecidos quanto alguns, inclusive eu, achavam.


Germano Xavier – Por gentileza, Newton, fale-nos um pouco mais acerca do seu EM MAR ALBERTO - 101 RETRANCAS (Mondrongo, 2019)? Como foi o processo criativo da obra?

Newton Messias – Em Mar Alberto é o meu segundo livro de poesia, o primeiro, Passagem, foi uma edição pessoal. Comecei a trabalhar com as Retrancas no início de 2017. Estimulado pela Cláudia Cordeiro, grande divulgadora da obra do Alberto, seu companheiro, cheguei ao número de 101 poemas no final de 2018. O Gustavo Felicíssimo, dono da Mondrongo, que tem um livro só de Retrancas, e que conheci pela internet em 2017, topou publicar a coletânea. No livro, passeio por diversos temas: poesia, política, sociedade, religião, amor, etc. A influência da dicção albertina é bem evidente, mas procurei imprimir um estilo pessoal, o que espero ter alcançado. Foi assim.


Germano Xavier – Vou repetir a mesma pergunta que fiz recentemente para o escritor Rômulo César Melo: parafraseando e ampliando o pensamento de David Lodge, para o qual todo texto implica em uma constante troca, envolvendo estruturas formais e todas as aberturas que a vida nos possibilita, o que você pensa sobre a relação Forma fixa (Retranca) x Poesia x Contemporaneidade?

Newton Messias – nenhum poeta cria a partir do nada, apesar de alguns imaginarem poderem fazer algo bom sem partir de alguma tradição. Ilusão. Tenho muito respeito pelos poetas que me precederam, e reconheço no que faço a forte influência de vários deles e delas. Não acho que a forma fixa e o verso rimado morreram. Também não acho que faz sentido escrever sonetos como os parnasianos escreviam. Os temas e o estilo devem refletir as preocupações do complexo mundo contemporâneo, com sua fragmentação, angústias e crises. Valorizo igualmente tanto a tradição quanto a inovação, o passado e o futuro, o verso medido e o livre. As formas estão a serviço da poesia e do poeta, nunca o contrário.


Germano Xavier – Newton, você possui formação em Música. De que forma seus conhecimentos musicais perpassam o seu fazer literário? Há simbiose? Fale-nos um pouco sobre a importância da Geração de 65 para o cenário nacional, suas maiores referências e, se possível, fale-nos também sobre seus planos literários futuros.

Newton Messias - A música me deu um bom ouvido para o som e para o ritmo do verso, sem dúvida, vários leitores já me disseram isso. No mais, não sei como minha formação afeta minha poesia. Espero que você me diga.

A geração de 65 é milagrosa: além do Alberto, gosto e leio Paulo Gustavo, Ângelo Monteiro e José Mário Rodrigues. Também Marcus Accoly, José Luiz, Frederico Spencer, Terezinha, etc. É um grupo que todo poeta pernambucano que valoriza a tradição deve conhecer pela qualidade de seus trabalhos.
Minha influência mais óbvia é o Alberto da Cunha Melo, mais, e o João Cabral de Melo Neto, menos. Também não dá pra escapar do Drummond e da Bíblia.

O próximo livro deve conter mais poemas em versos livres, mas também retrancas, sonetos, redondilhas, haicais, etc. Eu gosto dessa versatilidade em poesia. Minha musa é multiversátil.






* Imagens: http://www.mallarmargens.com/2019/02/12-poemas-de-em-mar-alberto-101.html
http://www.albertocmelo.com.br/2019/03/10/epifania-prefacio-do-livro-em-mar-alberto-de-newton-messias/

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

TRANS, de Age de Carvalho


 

Você conhece a poesia do paraense Age de Carvalho? Já dá para colocá-lo ao lado de Max Martins e de Benedito Nunes no panteão da poesia paraense? Neste vídeo, você confere o meu primeiro contato com a poesia de Age. Você ainda confere as palavras de abraçar almas de minha conterrânea e psicóloga Angélica Nunes.

#trans #agedecarvalho #cosacnaify #7letras #germanoxavier #angélicanunes #canaloequadordascoisas

sábado, 25 de setembro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XII)


 

Por Germano Xavier


Odin e o Mar do Norte


a expectativa era bonita.

depois de muitos quilômetros, estaria eu

diante da possibilidade de tocar as águas

do Mar do Norte.


Amsterdam foi vista pelo retrovisor logo cedo.

a estrada era o meu caminho.


ao chegar em Volendam, após degustar queijos típicos,

o frio tomou conta da pele. era um primeiro sinal.

dobrei algumas vielas e corredores estreitos da pequena vila

e lá estava, o grande mar nórdico, o templo vivo dos vikings!


quando estou no centro de cosmos históricos,

consigo vislumbrar partidas e chegadas, gentes,

batalhas, alegrias e tristezas. não foi diferente ali.

o Mar do Norte me pareceu carregado de dores, 

suas espumas eram contidas, havia uma lamúria

na cor do que era líquido.


foi olhando para o Mar do Norte que descobri

que nem toda onda dança em festa de corais.


(Volendam, manhã de 16 de junho de 2017)




ALICE E OS DIAS, de Daniela Delias


 

Impressões sobre o terceiro livro de poemas de Daniela Delias, publicado pela Concha Editora. Ainda neste vídeo: as palavras de abraçar almas de minha conterrânea e psicóloga Angélica Nunes.

#aliceeosdias #danieladelias #conchaeditora #germanoxavier #angélicanunes #canaloequadordascoisas

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Sobre Opusfabula, de Jonatas Onofre



Por Germano Xavier



(Cepe, 2015)



Portugueses em Igarassu. 

O Construtor constrói. A vida. A Boniteza. O Tudo. O Nada. No princípio, era o Vazio. Havia o silêncio. Havia o instante. O princípio mesmo. Uma árvore que estaria ali para ser frutificada, imersa no matagal das Coisas. Aí inventaram, de cara, a espada e a besta. Exalou-se uma amplidão perigosa por todos os muitos cantos. Foi preciso bússula. Começaram a andar de forma torta, os mistérios deixaram de ser resolvidos. Ninguém mais soube em que porta entrar. Todos os nomes se expandiram em místicos sinais. 

Andou-se no escuro.

Vestidos de sono, adentraram matas. Quem não acompanhou, ficou para trás, apagado na escuridão do caminho. Usaram a lâmina sangrenta como lume. Vestiram o futuro de dor, de lágrima, de choro, de lamentação. Índio dormiu quase-nada, quase-nunca. Aceso que nem fogueira, vigiou. Difícil lida. A grande Ausência vagueou. Vagabundos. Geraram amarras e gritos. Geraram prisões. A Linha do Equador não suportou o peso dos corpos. 

Rompeu-se. 

O oceano despenteou um mar de fomes, misérias. A Construção não cessava. Não cessaria, jamais. Era foice eterna. Cabeça nativa era a sede das guilhotinas. Ave Maria, cheia de Graça! O Senhor é convosco? Pernambuco penetrado. Dupla penetração. Gozo. Sagrado profanado. Portos singrados. A língua era a do mal. O entendimento era via única. Manipularam resultados. O exame deu um só: Corpo Morto. 

Embaraçoso. 

Emaranhou-se. Nau. Captura. Surpresa. Virgindades. Virilidades. Atrocidades. Mulher e cria em fuga. Tormento. A palavra, de que vale? De que vale um resto de linguagem? 

Máquina de escombros nascendo. Manjedoura.


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

OS MITOS DE CTHULHU, de Esteban Maroto (H.P. Lovecraft)


 

O quadrinhista espanhol Esteban Maroto adaptou três contos do escritor norte-americano H.P. Lovecraft para os quadrinhos. Lovecraft é considerado um dos maiores escritores do horror/terror e criador de toda uma mitologia cósmica de dar calafrios aos mais corajosos leitores. Todavia, muito cuidado, Cthulhu pode estar vivo!

#osmitosdecthulhu #estebanmaroto #hplovecraft #germanoxavier #canaloequadordascoisas

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Palavras paridas


 

Por Germano Xavier e Leilane Paixão


as palavras estão cansadas

de comunicar. as palavras querem férias,

farão uma greve, reivindicarão

a presença do silêncio.


as palavras estão cansadas,

muito fatigadas de informar. as palavras querem

se esvaziar. as palavras odeiam repetição, 

estão fartas de bocas sujas

que profanam os seus sentidos.


as palavras querem silenciar, 

para se mostrarem quando necessário for, 

em suas esplendorosas

vocações de ser.


que se cancele a greve das palavras

apenas quando elas estiverem grávidas

de sentido!


| as palavras querem parir |


as palavras querem homens e mulheres

gestantes, homens e mulheres poetas,

capazes de enxergar a beleza das coisas.

as palavras querem servir ao Belo.

as palavras são divinas!


está feito. e que se decrete a greve das palavras!

registre-se. cumpra-se!



* Imagem: https://www.deviantart.com/slipperykarst/art/palavras-perdidas-87508000

sábado, 11 de setembro de 2021

RECOMENDAÇÕES PARA UM ANO IMPOSSÍVEL, de Germano Xavier


 

Leitura do poema "Recomendações para um ano impossível", presente na antologia SÓ A POESIA SALVA, da Editora Primata. Ainda neste vídeo, o colaborador James Wilker revela mais uma excelente dica de leitura.

#antologiasóapoesiasalva #editoraprimata #germanoxavier #canaloequadordascoisas

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Deriva perversa


 

Por Germano Xavier


o poema é o Grande Objeto

sobre o qual invisto,

obsessivamente,

minhas vias de afeto.


a palavra, imersa em poesia,

acentua o gozo e segmenta o prazer

numa trajetória sólida de sentidos

ou numa deriva perversa.


Imagem: https://www.deviantart.com/patrickleborgne/art/Eolienne-650708934

CRISE E PANDEMIA, de Alysson Leandro Mascaro + DICAS DE JAMES WILKER


 

Neste livro, o professor Alysson Leandro Mascaro, entoa sua voz sobre a crise global do novo coronavírus (COVID-19) e esboça possíveis caminhos para um final feliz (ou menos triste) em toda esta história. E ainda neste vídeo: nosso colaborador James Wilker revela mais uma excelente dica de leitura.

#criseepandemia #alyssonleandromascaro #germanoxavier #jameswilker #canaloequadordascoisas

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sete de Setembro


 

Por Germano Xavier


o genocida

sobrevoa o golpe

as imagens em giro

sufocam o verde e o amarelo

da bandeira


formigas tontas formigam

na grande avenida

o conselho teme

o inconsciente investiga a tristeza


que país se manifesta

quando até mesmo a morte

vive com fome?


Imagem: https://pcdob.org.br/noticias/investimento-no-pais-retrocede-20-anos-com-golpe-bolsonaro-e-pandemia-2/

O PARATEXTO (AS ILUSTRAÇÕES NA LITERATURA), por Luísa Fresta


 

"No mês de junho apetece falar sobre literatura infantil, porque embora as crianças estejam sempre no centro das nossas preocupações, temos duas datas, o primeiro de junho e o 16 de junho, Dia Internacional da Criança e Dia da Criança Africana, que não passarão nunca em brancas nuvens...", assim nos recorda Luísa Fresta em seu texto "Livro Infantil - Texto e Paratexto". Neste vídeo, Luísa dá destaque em sua fala a um dos principais elementos paratextuais ligados à produção de textos infantis e infantojuvenis: a ilustração. Estejam todos atentos!

#paratexto #ailustração #literaturainfantojuvenil #luísafresta #canaloequadordascoisas

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Sobre Miragem, de Socorro Nunes



Por Germano Xavier


(Cepe, 2015)


Quem é daqui sabe que o terreno é áspero, é rugoso, aberto em fendas. Quem é daqui sabe que planta morta, na verdade, é planta viva. Vivíssima. Sabe que o sertão é uma espécie de Deus, onipresente. Uma grande autoridade no meio do Tempo. Que o que se empurra para o passado é apenas um esboço do futuro, de um futuro que às vezes demora em chegar. Mais distantes dos olhos ficam os homens dos acolás, que nem suspeitam da beleza virginal das caatingas. Os homens dos acolás rodeiam o mundo de cá com seus olhos secos de amor e enxergam apenas o que esperam. E suas esperas são tão curtas que nem.

Sertão-nós.

Ser tão só e somente ser o verdume dos xiquexiques, extremo rompimento e sabedoria de convivência com tudo aquilo que há de mais amargo nas andanças nossas de cada dia. Senhor, imperai  por nós destinos mais azuis cor de céu chuvoso em cinzas líquidos! Somos criaturas pós-solares sem inverno de alma. Somos as alquimias torrenciais dos abraços calorosos. Caudalosa é a nossa matéria em humanidades. Miragem é só a revivente vontade de que se viceje o que não for de ordem efêmera e que seja, sim, perene, o ir: rio que desanda.

Titã desassombrado é o sertanejo. 

Cria resistente de uma Canudos que nunca se abandona, que nunca se retira, que jamais dá para trás. Conselheiro é Hércules do Sertão. Não morre a vida quando a morte é injusta, quando o abalo é sem sentido, quando a paisagem se desnuda em brotos de sangue nem quando o carcará plana sobre os cadáveres sem luta a mais, abatidos em chão silvestre. Quem é daqui sabe que umbuzeiro vivo é esperto a ponto de se permitir várias mortes, pra adoçar depois as fomes dos meninos e das meninas que correm léguas de brincar. Canudos não se rendeu nem vai.

Canudos resiste e ainda é o último sonho possível. 

Nada aqui neste regaço esturricado é noite vulgar. Guardamos a esperança em baús de enfrentamentos. Franzinos são os corpos, adamastores são as almas. Sertão é tormento só na cabeça dos homens de lá, dos de acolás, dos homens que não. Morre quem não se cansou de lutar, vive quem soube sobreviver. Por isso o gigantismo, a força descomunal, a saúde de cacto, todo um manual de como escapar. Por isso nossa severina sanha de querer lugar. Deus está aqui, conosco. Impávido. Colosso. Quem é daqui, sabe. Quem é daqui, sabe.


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Os estranhos cavalinhos de J. J. Veiga


Por Germano Xavier

O nome do livro já provoca um meio-espanto: Os Cavalinhos de Platiplanto. O curioso, pergunta-se: mas que diabos é Platiplanto? Doze contos e pouco mais de 120 páginas. O apressado diz: livro bom é livro grosso. Um tal goiano de nome José J. Veiga assina o livro. O outro vai e retruca: nunca ouvi falar. Estamos falando do livro que há exatos 62 anos – a primeira edição foi publicada em 1959, com o autor já com 44 anos de idade – inaugurava o gênero Realismo Fantástico na literatura brasileira. 

Aproximadamente 12 anos antes, em 1947, Murilo Rubião invadira o cenário de nossa literatura com contos também fantásticos, o que ainda hoje é motivo para embates acerca de quem realmente é o precursor desse tipo de escrita em solo nacional. E, como se não bastasse, chega um por detrás e sussurra: o que significa Realismo Fantástico? Para melhorar as coisas, se eu disser que o colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor do clássico Cem anos de Solidão, o belga-argentino Julio Cortázar, cuja obra-prima é Rayuela (O jogo da amarelinha), Vargas Llosa e Jorge Luis Borges são expoentes natos deste subgênero literário, marco literário da segunda metade do século XX em toda a América Latina, é bem provável que a penumbra comece a esvair-se, e terminemos adentrando um pouco menos leigos neste mundo “real-fantástico”, de estro kafkiano.

Também há dez anos – o escritor, nascido em 1915, morreu aos 84 anos - J. J. Veiga nos deixava, o que fez surgir, sem sombra de dúvidas, uma imensa lacuna em nossas letras. Tratado como inovador e extremamente maduro pela crítica, seu primeiro livro foi logo abocanhando os principais lauréis literários existentes no Brasil naqueles idos, a citar o Prêmio Fábio Prado, um dos mais concorridos até então. 

Narrados em primeira pessoa, os contos presentes em Os Cavalinhos de Platiplanto são marcados por uma forte aura de “brasilidades”, ambientações e expressões regionalistas, retratando reminiscências, estas com características aventureiras ou não, vividas tanto por personagens infantes quanto por adultos. Num tom quase que avesso à denominação fantástica dada à sua obra, o autor preferia dizer que seus textos geravam não um “realismo fantástico”, mas sim um “mundo fantástico real”.

E justamente nesse contraponto, ao qual se insere o real e o irreal, o que é e o que não é, o verídico e o fabuloso, é que destoa a pena mágica veigueana. Os contos são fabricados de tal maneira que, em dado momento, perguntamo-nos: “mas o que há de interessante nisso?”, como por exemplo, no relato de uma fábrica que é instalada atrás de um morro, fato que causa mudanças rápidas e impensadas no cotidiano das pessoas (conto A usina atrás do morro), ou na história de um pacato professor interiorano que diz saber o roteiro para um antigo tesouro, que sofre com a desconfiança oriunda da população do lugarejo e que um dia resolve fazer um protesto contra todo o descaso vivido por ele (conto Professor Pulquério). 

Até aqui, nada de tão intrigante. Mas é bem no trato substancial do que aparenta normalidade que Veiga urde com maestria o seu absurdo temático, quase sempre pegando o leitor desprevenido e atirando-o num universo perturbador, extremamente estranho, apesar de parecer simplório ou sem bifurcações quando ao sentido. Um exercício surreal é pincelado em tons amenos, porém firmes, talvez para não afugentar o leitor menos atento, que como queria Cortázar, percebe-se diante de um tipo de conto que prestigia a unificação de mais de uma “narrativa” dentro de uma única história. Segundo Candido, os contos de Veiga são “marcados por uma tranquilidade catastrófica” (CANDIDO, 1987, p. 211).

Fruto de uma reformulação literária, presenciada principalmente a partir da instauração do regime militar no Brasil em 1964, a literatura dita fantástica iria romper com as insinuações exacerbadamente realistas, por conseguinte quebrando também com os modelos advindos de um naturalismo já em “irreversível” desgaste. Em seus contos, Veiga busca o insólito, e no uso da ficção faz germinar de suas mãos uma realidade alegórica, distante do que possa simplesmente parecer. 

A tensão entre o cotidiano e o insólito vai sendo criada ao passo que invadimos as páginas e os pormenores do livro, num movimento de ascensão gradativa – nunca acontecendo o sentido inverso -, para no final terminar por eclodir alguma coisa, revelar algum segredo que ficara perdido no meio da trama ou desmascarar um mistério que estava à vista de todos, todavia imperceptível. O final é quase sempre apoteótico, mesmo sem exageros. 

É como se Veiga não estivesse, em nenhum momento da obra, disposto a correr o risco, inclusive extremamente natural aos escritores fantásticos, de ter suas narrativas muito distanciadas da “provável” realidade, o que poderia dificultar a compreensão dos textos, mas soubesse muito bem lidar com as dimensões limítrofes tanto do real quanto do irreal. No fundo sabia que, “para assumir significação, o fantástico necessita criar uma curva que o reconecte com o mundo” (LIMA, 1983, p. 207). Nesse jogo, Veiga superestima a linguagem informal, sem banalizá-la, aproximando-se da literatura produzida por seus escritores prediletos, a citar J. D. Salinger, autor do best-seller O apanhador no campo de centeio, e Graciliano Ramos, romancista brasileiro da geração de 30.

Outro ponto a ser ressaltado é a sua ligação com o momento político brasileiro. Veiga desmente muito da crítica produzida sobre tal relação, mas muitos estudiosos de sua literatura insistem em fazer tais ponderações. Em Os cavalinhos de Platiplanto, talvez o conto mais discutido a partir desse pressuposto seja A usina atrás do morro, cujo teor seria condicionado diretamente ao governo do presidente Juscelino Kubitschek e ao impacto da entrada do capital estrangeiro em nosso país. 

Wilson Martins, na orelha da décima oitava edição escreve: “liberto das escolas e das modas... deu à literatura brasileira um daqueles livros pessoais e verdadeiramente novos que assinalam a história dos gêneros: na contribuição quantitativa do conto, ele trouxe, com o sr. Dalton Trevisan, a contribuição qualitativa, a do conto mergulhado num mundo próprio, preso a contingências específicas e criando, pela magia do estilo, novos planos da sensibilidade literária”. 

J. J. Veiga, que nasceu José Pereira Veiga, ganhou esse nome artístico do mineiro João Guimarães Rosa, depois de alguns estudos numerológicos. O J. do centro significaria Jacinto, oriundo do sobrenome da mãe, fator que – acreditavam - lhe traria sorte. Estudou Direito, trabalhou em rádio e no meio jornalístico, inclusive traduzindo e comentando programas na rede BBC de Londres. Quer saber no que deu o protesto do Professor Pulquério, a chegada da misteriosa usina, as peripécias de Cedil e Tenisão, por onde anda o cavalo Balão ou mesmo a espingarda de Seu Juventino? Quer saber onde fica Platiplanto? Então, o que está esperando?!

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CANDIDO, Antonio. “A nova narrativa” in A educação pela noite e outro ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

LIMA, Luiz. Costa. “O conto na modernidade brasileira” in PROENÇA FILHO, Domício (org) O livro do seminário. São Paulo: L. R. Editores, 1983.

VEIGA, José Jacinto. Os cavalinhos de Platiplanto. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

sábado, 28 de agosto de 2021

ASA DE LAGARTA, de Vanessa Reis + ISABEL ALLENDE (Parte II)


 

Para que serve um livro de poesia? Talvez o livro ASA DE LAGARTA, de Vanessa Reis, possa ajudar você a responder tal questionamento. Ainda neste vídeo, Cristina Seixas nos apresenta a segunda parte de suas impressões sobre a obra da escritora chilena Isabel Allende.

#asadelagarta #vanessareis #isabelallende #germanoxavier #cristinaseixas #canaloequadordascoisas

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XI)




 Por Germano Xavier


Diamantes, canais e o Distrito da Luz Vermelha


chegando em Amsterdam, fui ver

uns diamantes. falei para a moça que apresentava as

pedras "sou da Chapada dos Diamantes" e quem 

me garante que esse aí reluzente não veio de lá?

ela deu risada, mas em minha fala havia revolta.

minha vingança foi maligna. aliás, eu sempre arranjo

um jeito de me vingar.


meia volta na fabriqueta e eu estava no centro da capital

holandesa. uma cidade belíssima. bicicletas.

muitas bicicletas. por todos os lados. de todas as

cores. bicicletas afundadas nos canais. um festival de 

histórias sobre bicicletas e seus donos. tomei um vinho 


e a embarçação abriu a noite.

dobrei umas ruas estreitas e me encontrei 

no Distrito da Luz Vermelha. observei atentamente

tudo ao meu redor. uma maneira particular de ganhar dinheiro, 

de vender o corpo, de exploração, de tanta coisa... muitos jovens

e muita fumaça e muito álcool e muitas drogas, eu sei.

até hoje relembro os olhos fugidios daquelas moças nas 

vitrines. seminuas e tão nuas de tanta coisa. observei. mas nem tanto.

não quis constranger ninguém. a Holanda é um lugar que 

merece uma atenção especial. muita coisa lá já é uma espécie de futuro.

ou não. um dia iremos saber.


foi quando pensei em Anne Frank. 

fechei os olhos logo em seguida, 

e meu pensamento me distraiu dores.


(Tarde e noite de 15 de junho de 2017)




sexta-feira, 20 de agosto de 2021

BUBUIA, de Jéssica Martins Costa + DICAS DE JAMES WILKER


 

Bubuia significa "borbulhar, boiar". A poesia pode se servir disso e a isso. Para mergulhos, para equilíbrios. Ou para buscas. Sejam bem-vindos ao mar de palavras de Jéssica Martins Costa. Ainda neste vídeo, James Wilker nos oferta mais uma dica de leitura imperdível.

#bubuia #jéssicamartinscosta #germanoxavier #jameswilker #canaloequadordascoisas

Poesia em nome dos raios




Por Germano Xavier


Uma mulher-deusa de uma mística nada passiva dança um fogo branco-brando e a capa instaura um ar de sagrado sobre o papel feito de negrumes. Assim começa o livro de poemas intitulado EM NOME DOS RAIOS, do poeta baiano João de Moraes Filho, livro este coadunado a outro, CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves. Dividido em cinco partes, a poesia presente na obra deste cachoeirense compõe um rosto aparentemente simples para quem o sente diante de uma primeira leitura. Porém, é com a paciência da decifração que a poesia demanda que uma face mais ígnea e áspera aponta no chão das páginas amareladas. O livro é feito de um silêncio calculado que não chega a dar ao livro um aspecto de som morto, mas pelo contrário, dele brota um argumento capaz de invadir com tenacidade a ópera de nossas almas. O uso de epígrafes no topo de muitos dos escritos alimenta os poemas com um mel de significado que gera marcas de força, o que auxilia a melhor incorporação do poema por parte do leitor. O tempo é recriado e ele mesmo elabora um espaço sem temporalidade, haja vista que ele, o tempo, “sobrevive ao fogo, corre/nos quintais e nada espera”, como diz o poeta em Portuário. O gesto do olhar, enquanto um dos sentidos-mor do ser humano, também obtém destaque nos versos, posto que são eles os responsáveis maiores por resgatar “ardências reais” onde algo pode estar na condição básica do abstrato. “Pássaros estalam rezas” e o que se instala na configuração do todo poético de EM NOME DOS RAIOS é a sensação de se estar lendo um tempo que realmente existe ou existiu num contexto exato de perdição. O futuro é apenas um pano de fundo recoberto de mistérios, apesar dos questionamentos inerentes, ele não aparece na obra: “... amanhã é depois./e depois de amanhã não será futuro/nem presente. Apenas um brinde”. O poeta segue o risco que há num sorriso e enobrece a humanidade no homem, já que “pouco importa/o canto,/descobre-se/a lágrima”. Os raios cantados por João de Moraes Filho caem também sobre a figura de sua terra natal, como podemos ler nos versos do poema Procissão: “Paraguaçu adentro./Nos Portos ancorados/se resumem histórias/margeadas de Áfricas/em estado de aves/cantando nos jardins”. É como se ecoasse em nós uma oração pela natureza humana, regada sempre por arcanos insubstituíveis e fundamentais. Por fim, as mãos do poeta tecem com uma candura aberta em dúvidas um universo drástico e obscuro sobre a incerteza da serventia de toda palavra. Falando de si, pergunta em Pátria Amada como se fosse nós: “Nossa vida, nossos amores:/o que somos?/Um sorriso escancarado de alguma boca?” E então?


Já CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves, é um livro de poemas sobre distanciamentos, medos, sobre uma condição de marginalidade perante o mundo que devassa a ordem do existido, do existível. O que há pode entrar em ruína a qualquer momento. A poesia aqui serve como um aviso sobre nossas fraquezas e nossa desfaçatez concernente ao todo do mundo. A atmosfera espaço-temporal gerada em suas páginas maquina um tumor que beira a malignidade nos sentidos de quem lê. A alma se adoenta quando a pureza da vista sofre maculações necessárias no decorrer da leitura. Tudo é um sofrimento conjunto, do autor com o leitor e vice-versa. A consequência é a produção de uma consciência em atividade inquiridora e ininterrupta. O autor nos coloca diante de um lugar que é nosso e que está demasiado distante de nossas mãos, mesmo estando perto demais, o que nos causa um certo desespero por não poder tocá-lo em sua inteireza. Faz isso nos dizendo: “O nosso paradeiro é um lar distante”. O mapa que nos guia revela uma poesia referente ao nosso próprio descobrimento, e nos olvida do que não nos são préstimos e essências. “Esqueça tudo que não for amor”, versifica, reforçando tal idéia. Por detrás das forças que operam o contrário do bem, o amor surge impetuoso, feito um deus duro e capaz de maldades benévolas. Num cenário regado a desesperanças, onde “Não há nada/ Desta pedra não se tira leite”, somente o amor pode burlar o fel da vida. O homem rompe o silêncio para se transformar numa “Máquina de procriar escuros e afogar naufrágios que insistem”. A prosa poética se mistura ao verso livre, que bebe constantemente em repetições, para fortificar o sentimento de uma cotidianidade feita de realidades. O poeta lembra dos amigos e constrói uma cidade quase inabitável em mirante do morro de santa terezinha. Deseja a morte em versos como “tragam os pregos para minha crucificação”, terminando por nos alertar sobre as desventuras da vida em seu estado purgatorial. Talvez só valha a pena a vida na desforra e no desbunde, ou na quietude dos nirvanas existenciais. Canta “os senhores da terra e das sementes”, gente que arde na brasa das folhas de fumo da Cachoeira baiana de tantos santos tragados por históricas batalhas pela identidade e pela resistência de um povo. Aprender com tristezas, saber lidar com toda sorte de infortúnios, alimentarmo-nos de sementes, operar germinações íntimas, lições que a poesia de Nuno Gonçalves nos coloca em seu livro CARTAS DE NAVEGAÇÃO. Porque a base de tudo é somente o que somos. Será mesmo?


Imagem: Google.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO, de Ailton Krenak


 

O que seremos se continuarmos a ver o mundo e a nossa humanidade como meros objetos ou mercadorias? Esta e outras perguntas à luz do pensamento de Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro.

#ideiasparaadiarofimdomundo #ailtonkrenak #germanoxavier #canaloequadordascoisas

domingo, 1 de agosto de 2021

Raimundo Carrero e o corpo em mutação

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Por Germano Xavier


ou Quando a vida ficará tarde demais para nós?

Pernambuco, hoje, não é só cinema. Pernambuco, hoje, é também literatura da melhor qualidade. Aliás, sempre foi assim. Só o nome de um Osman Lins já pesaria em afirmação por todos os meus julgamentos... junte-se a ele um Marcelino Freire, um Miró de Muribeca, uma Luzilá Gonçalves, um Alexandre Furtado, verdadeiros guerreiros da arte da palavra, entre tantos outros poetas e prosadores vivos (e outras centenas de falecidos).

E o que dizer de um Raimundo Carrero? Monstro das letras, simplesmente. Pouco lido, é certo. Por falar nele, no Carrero, convenhamos: é dos grandes prosadores de nosso país. O escritor nascido na cidade de Salgueiro-PE lançou em 2015 o livro O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO, cujas tentativas de escrita datam de 2010, quando sofreu um acidente vascular cerebral. É justamente acerca de tal questão que o livro versa, ou seja, sobre a nova moldura corporal que o escritor passa a carregar após o AVC.

Carrero demarca a obra supracitada sob o signo do corpo, espaçando seu roteiro dentro de uma mistura dos significados de corpo com as metáforas do crime, das sombras, das fezes, das aranhas, do Cristo, da arte, dos miseráveis, da política, da luz e de la nave (leia o livro, caso queira compreender tudo aqui exposto). Ao final, presenciamos um escritor em processo de dissecação de si para si, mesmo que o sangue escorra para bem longe dos ralos visíveis, mesmo que não hajam cortes ou interceptações mais invasoras na pele. O que dói, na verdade, é a dor na alma.

O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO lembra-nos logo de cara do Gregor Samsa kafkiano, que se vê desconfigurado, em forma de inseto, e totalmente atordoado por isso. O livro de Carrero é sobre um tipo de metamorfose a que estamos sujeitos, todos nós estamos. Nada muito esdrúxulo e inacontecível. Como bem sabemos, animais mudam de pele. Não somos animais?

Ao passo que detém os leitores dentro de tais detalhamentos corpo-físicos, num esmiuçar bastante protuberante, Carrero burila seu passado com uma pá invisível que escava de maneira profunda suas memórias pernambucano-recifenses. Passeamos, pois, pela história de sua ligação com o movimento Armorial até momentos de extrema intimidade poética, onde o autor nos brinda com referências lítero-artísticas marcantes para a fundação de toda a sua obra.

Indubitavelmente, o livro é um pequeno diamante de nossa literatura contemporânea. Simples, porém inegavelmente aterrador. Um relato sincero de como as coisas podem ficar após um desarranjo de nossa máquina corpórea. Talvez até, um pequeno postulado poético de como se safar de tais agruras, ou mesmo de como dirimir a dor de conversões desta natureza. Dirimir no sentido de amenizar, eu disse. Até porque só conhece a dor quem a possui.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/corpo-I-171824679