sábado, 20 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte II - em Francês)



por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta


Terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte II)

 

Des poèmes étranges et étrangers (Partie II)

 

En quête de la Seine

 

j’ai déposé mes bagages à l’hôtel Mercure Paris La Défense

juste après le check-in. le temps des voyageurs est restreint, on ne peut pas

le perdre en dehors de motivations majeures.il faisait déjà nuit en France

et le ciel avait la couleur bleu typique d’un après-midi brésilien.

 

j’ai descendu la Rue Baudin et j’ai pris la duplication

du coté opposé à la Place Charras.

 

j’étais en état d’alerte, je faisais attention à tout, car j’avais besoin de vivres.

une bouteille d’eau et quelque chose à manger. c’était dimanche, un jour de solitude.

les supermarchés fermés et le vide

dans les rues m’ont fait oublier ce dont j’avais besoin.

 

j’ai regardé les bâtiments miroités du plus grand centre financier parisien.

 

là-bas, entre les sièges des sociétés immobilières, les agences de crédit agricole et les multinationales, j’ai aperçu pour la première fois le vert opaque de La Seine.

vas-y, jusqu’à la rive, vas-y! , c’était en ordre. c’est ce que j’ai pensé à ce moment-là.

 

la Seine, la Seine! j’ai alors hurlé internement en la regardant de si près.

 

les eaux du nord qui se mélangent, au bout de tant de distances franchies, au Vieux Chico.

un pont, à notre droite, convoquait d’autres destinations.

 

en juin l’Europe trompe les montres du Sud.

il était temps de retourner à l’entrée circulaire de l’hôtel, de monter dans la chambre et de penser au lendemain.

 

au lendemain-aujourd’hui-maintenant.

 

pourtant, avant, et au plus haut endroit que l’on pouvait visiter,

il me fallait regarder Paris illuminée jusqu’où le regard pouvait l’atteindre.

 

(Paris, dans la soirée du 11 juin 2017) 

sexta-feira, 19 de março de 2021

MAL DE AMOR, de Marco Lucchesi


 

Em tempos de censura e fascismo, precisamos falar de amor. Por isso, um papo sobre o livro MAL DE AMOR, de Marco Lucchesi. YOUTUBE: http://youtube.com/oequadordascoisas BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier INSTA: https://www.instagram.com/germanovianaxavier ISSUU: https://issuu.com/art_brazil LATTES: http://lattes.cnpq.br/8697294516715015

quinta-feira, 18 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte IV)


 

por Germano Xavier


A batalha de Rivoli

 

estando eu à Rue de Rivoli, ali quase à beira do Sena,

lembrei-me novamente de Napoleão.

porém, agora (e novamente), ele pouco me importava.

eu estava literalmente ao lado do Musée du Louvre, simplesmente

o maior museu de arte do mundo.

 

este fato diz alguma coisa a qualquer pessoa que, de uma ou outra forma,

ama a Arte. cruzei a rua,

conheci subsolos centrais parisienses e busquei por um ticket.

15 euros para a entrada em um dos paraísos na Terra.

 

o movimento estava até tranquilo.

dava para parar várias vezes e observar

a fundo variadas peças, entre antiguidades egípcias, gregas,

romanas, etruscas, islâmicas,

artes decorativas, esculturas, impressões, desenhos

e pinturas.

 

passa-se, facilmente, um dia inteiro a andar pelas galerias do Louvre.

a Monalisa me fez recordar uma crônica do Affonso Romano de Sant’Anna

e, com base nela, eu reafirmo: "Não deixem de viver o Louvre por ela".

 

busquei Michelangelo Merisi desde o primeiro passo, confesso.

depois de duas paradas para descanso, quando as pernas já ardiam

em passos incontáveis, deu-se o grande encontro.

deu também vontade de chorar, de ficar ali para sempre.

 

depois, já sentado à margem da pirâmide exterior do Louvre,

e observando os contornos do Arc de Triomphe du Carrousel, peguei-me a pensar:

“Que me perdoem Gustave Eiffel, Napoleão, tantos outros...

mas vejo o verde em minha frente...”

 

os tons terrosos de Caravaggio

(ainda em mente) me aclararam, naquele instante,

impiedosas luzes.


(Paris, tarde de 12 de junho de 2017)

segunda-feira, 15 de março de 2021

VOZ E AROMA, de Almeida Garrett


 

Junto à foz do Rio Douro, entoei o poema "Voz e Aroma", de Almeida Garrett, e todas as deidades aquáticas me abriram um sorriso de eternidade e de beleza (Janeiro de 2020).
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sábado, 13 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte I - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta


Sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021.

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte I)

Des poèmes étranges et étrangers (Partie I)

 

 

Paris-Orly

 

Ramón était un bolivien qui habitait à Paris

depuis environ sept ans. Il m’a très bien accueilli à mon arrivé.

 

| l’autre couple tardait à venir |

 

il était plutôt petit, et avait une mine traditionnelle d’indigène,

du coup il grandit sous nos yeux et s’exclama allez, ce n’est pas ma faute !

 

nous sommes entrés dans le van et la France s’est dévoilée en viaducs et avenues. 

Voilà, c’est Courbevoie ! a-t-il dit.

 

lorsque nous étions en route, j’ai admiré le goût des motos, le style des bâtiments,

les arbres oubliés entre les grilles et les portails, l’allure de quelque chose figée dans le Temps

et en même temps en mouvement.

 

puis c’était l’île de France.

J’ai tout de suite pensé à la fameuse région industrielle,

et je suis sorti du fourgon. Ramón a été cordial et serviable, il nous a donné quelques renseignements

pendant le trajet.

 

en région parisienne, j’ai pensé à nouveau à ce couple

que je n’ai jamais connu.

 

en effet, Paris engourdit les moins prévoyants.

 

(Paris, le 11 juin 2017)

 

 

*Je commence aujourd’hui une série de poèmes que j’ai écrits pendant mes voyages à l’étranger, entre 2010 et 2020. En tout, les poèmes démarquent un territoire d’expériences vécues en 14 pays, y compris le Brésil. Bonne lecture à tous et à toutes. Allons-y, bucaneiros [1]!


[1] N.T.: aventurier, explorateur, voyageur téméraire, dans le contexte.


domingo, 7 de março de 2021

PONTO DE PARTILHA, de Fábio Brazil


 

Impressões sobre o livro PONTO DE PARTILHA, da Editora Patuá (2019), escrito por Fábio Brazil.
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sexta-feira, 5 de março de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte III)


 

por Germano Xavier


Para além dos Inválidos


havia um café bem na frente do túmulo de Napoleão.

a França tem o estrategista e homem de guerras como um consenso 

e na Église du Dôme colocou-o a descansar sob o Tempo.


eu não estava ali para vê-lo numa urna.

virei o rosto e continuei observando o café abarrotado de pessoas 

em uma manhã de sol com fiapos de frio por entre as nuvens.

eu tentava captar Paris de todas as maneiras.


Rue de Grenelle, Esplanada dos Inválidos, Bonaparte....

Oh, França, teus heróis de guerra são menores ou possuem

a mesma estatura de Jean Valjean!, sussurrei.


algum tremor de terra deve ter acontecido naquele momento, 

mas eu estava interessado nos caminhos: 


Rodin, o café onde Sartre e Simone pensavam

nossas existências, Saint-Germain, o bairro latino, Sorbonne.

tantas referências literárias, os cemitérios, as avenidas, jardins, praças,

as cenas dos Nouvelle Vague que assisti.


foi quando olhei o relógio após longas descobertas. era o fim 

daquela manhã. 


no meio da rua, estiquei o olhar um pouco acima de meus ombros

e vi a alta treliça de ferro nas imediações do Campo de Marte.


Napoleão vai ter de esperar, balbuciei.


(Paris, manhã de 12 de junho de 2017)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A DAKIMAKURA FLUTUANTE, de Camillo José


 

Impressões sobre o livro A DAKIMAKURA FLUTUANTE, da CEPE EDITORA (2018), escrito por Camillo José.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte II)


 

por Germano Xavier


Em busca do Sena


deixei as malas no Hotel Mercure Paris La Défense

logo após o check-in. o tempo do viajante é escasso, não se pode 

perdê-lo sem maiores motivações. já era noite na França

e o céu tinha a cor azul de uma típica tarde brasileira.


quebrei a Rue Baudin e desci a duplicação

do lado oposto à Place Charras.


atento, alerta, precisava de mantimentos. 

uma água e algo para comer. era domingo e era sozinho.

supermercados fechados e o vazio 

das ruas me fizeram esquecer necessidades.


olhei para os prédios espelhados do maior centro financeiro parisiense.


ali, entre sedes de empresas do ramo imobiliário, agências de crédito agrícola

e multinacionais, vislumbrei pela primeira vez o verde opaco do Rio Sena.

até a orla, até a orla!, aquilo era uma ordem, pensei.


la Seine, la Seine!, vociferei internamente ao vê-lo tão de perto.


águas do norte que se misturam, após tantas distâncias, ao Velho Chico.

uma ponte, em nossa direita, convocava destinos. 


em junho a Europa engana os relógios do sul. 

era hora de voltar ao redondel do hotel, subir 

até o quarto e pensar no amanhã.

no amanhã-hoje.


porém, antes, e no topo do último posto visitável, 

olhar a Paris Iluminada até onde os olhos pudessem alcançar.


(Paris, noite de 11 de junho de 2017)

O AZUL TAMBÉM SE REVOLTA , de Paulo Gustavo


 

Impressões sobre o livro O AZUL TAMBÉM SE REVOLTA, da CEPE EDITORA (2018), escrito por Paulo Gustavo.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte I)


 

Por Germano Xavier



Paris-Orly


Ramón era um boliviano morando em Paris

há bem uns sete anos. Recebeu-me a caráter no desembarque.


| o outro casal demorava a aparecer |


baixinho, com seus traços indígenas tradicionais, 

agigantou-se e disse vamos, não tenho culpa!


entramos na van e a França se abriu em viadutos e avenidas.

Isto mesmo, Courbevoie!, disse.


pelo caminho, admirei o gosto pelas motos, o padrão dos prédios,

as árvores esquecidas entre grades e portões, o ar de algo parado no Tempo

e ao mesmo tempo em movimento.


e logo a Ilha de França. 

a famosa zona industrial, pensei com meus botões,

e desci. Ramón foi cordial e ajudou com algumas informações

durante o percurso.


em solo parisiense, pensei mais uma vez no casal

que não cheguei a conhecer.


realmente, Paris entorpece os desavisados.


(Paris, tarde de 11 de junho de 2017)


* Inicio hoje a publicação de uma série de poemas que escrevi durante viagens que fiz ao exterior, entre os períodos de 2010 e 2020. Ao todo, os poemas demarcarão um território de experiências vivencidas em 14 países, incluindo o Brasil. Boa leitura a todos e todas. Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: https://www.aeroportosdomundo.com/aeroporto-ORY-hoteis/

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Zine AS FLORES DO MAL (C.L.A.E.)


 

Retrospectiva sobre as 7 primeiras edições do fanzine AS FLORES DO MAL, publicação organizada pelo C.L.A.E. (Círculo Literário Analítico Experimental/Juazeiro-Petrolina).

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Sobre a Escola de Frankfurt

*

Por Germano Xavier e Luís Osete Ribeiro Carvalho

Texto escrito em novembro de 2005.



Certamente, falar em Escola de Frankfurt requer certa abstração e um olhar mais crítico sobre a importância dessa que foi, não só um agrupamento de pessoas pensando semelhante e com objetivos também muito parecidos, mas um movimento de contestação e de revolta. A Escola de Frankfurt desempenhou um papel fundamental tanto na discussão dos processos sociais quando na elaboração de novas ordens práticas e teóricas para as futuras gerações. É preciso enveredar-se pelos campos que enraizaram e frutificaram o nascimento da Escola de Frankfurt, assim como se apoiar em todo o seu legado. Ao mesmo tempo, deve-se aprofundar em seus maiores pensadores e suas respectivas ideologias, objetivando com isso uma análise mais sistemática acerca do assunto.

A Escola de Frankfurt recebeu esse nome porque seus principais representantes faziam parte do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt nos idos dos anos 30 do século XX. O objetivo desse instituto era confeccionar um exame crítico da sociedade, em uma abordagem geral, como também investigar seus aspectos econômicos, culturais e de produção de conhecimento, tendo como ponto de apoio um marxismo renovado, sem conjugar fortemente os ideais historicistas e materialistas.

O grupo de estudiosos da Escola de Frankfurt exerceu uma colossal influência sobre os movimentos de contestação da segunda metade do século XX, devido à análise crítica que fez das sociedades desenvolvidas. Tal instituição foi fundada numa época bastante tumultuada e permaneceu vinculada à Universidade de Frankfurt por um bom tempo. Sua maior influência pode ser notada durante as manifestações estudantis de maio de 1968 na França. Pode-se dizer que o organizador-mor desse grupo, que se formaria tendo como base o Instituto de Pesquisas Sociais (entidade dedicada à pesquisa interdisciplinar entre filósofos, sociólogos, estetas, economistas e psicólogos), foi o filósofo alemão Max Horkheimer.

O Instituto de Pesquisas Sociais, que tempos depois passaria a ser conhecido como Escola de Frankfurt, lançou os fundamentos da Teoria Crítica, ordem de expressão e de pensamentos que designa um conjunto de ideias acerca da cultura contemporânea, onde se tomavam como fortes bases os ideias do marxismo e da psicanálise, porém deixando aberturas para as influências que o pensamento (em constante movimento) exerce sobre as premissas teóricas.

O Instituto de Pesquisas Sociais (Escola de Frankfurt), constituiu-se como sendo o núcleo de uma linha original de pensamento filosófico-político desenvolvido por Walter Benjamim, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Jurgen Habermas e Theodor Adorno. A teoria crítica proposta por esses pensadores se opõe à teoria tradicional, que se pretende neutra quanto às relações sociais. Ela, por sua vez, toma a própria sociedade como objeto e rejeita a ideia de uma produção cultural independente da ordem social em vigor.

O pensamento desenvolvido pela Escola de Frankfurt pode ser divido em estágios ou fases. Em sua primeira fase, que contou com a presença marcante da figura de Max Horkheimer, houve a exposição de um pensamento multidisciplinar, que em filosofia era antimetafísico e antipositivista e, sob o aspecto social, anticapitalista. Partilhavam, aqui, da ideia que o progresso econômico tinha como contrapartida a massificação e a perda da individualidade. Propunham a transformação da sociedade capitalista num socialismo fundado na razão e na liberdade, e que assegurasse o bem-estar de todos.

A segunda fase da Escola de Frankfurt teve um caráter mais pessimista, e ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial. Quando falamos em pessimismo, devemos levar em conta que essa foi (senão) a única forma de agir, posto que houve a instalação de uma guerra e de um terror stalinista que deixou profundas marcas no pensamento marxista. Fora justamente nessa época, também, que o sistema capitalista de produção demonstrou uma gigantesca capacidade para assumir suas próprias contradições e para anular todo o pensamento crítico e todo o movimento de transformação do regime.

O principal expoente da terceira fase de construção de pensamentos foi o filósofo e crítico musical Theodor W. Adorno que, passando por diversas vertentes do marxismo, fogiu a toda e qualquer afirmação positiva. Para os pensadores dessa etapa, toda expectativa de solução ficava em aberto, inconclusa diante da realidade, e o progresso trazia em seu bojo uma regressão, pois conduzia o homem a um “mundo administrado”. A alternativa para a atual situação era a defesa do indivíduo e do particular, que escapam à violência da dominação, e a arte que, em seu não-hermetismo, permite escapar à uniformização e aos convencionalismos sociais.

Apesar de ser uma instituição de objetivos únicos, por vezes a Escola de Frankfurt se mostrou descentralizada. Nos outros estágios de desenvolvimento científico, buscou-se renovar o pensamento da “escola” à luz da epistemologia contemporânea e consideraram necessária uma revolução do marxismo. Jurgen Habermas e Hebert Marcuse foram os maiores representantes dessa fase que, entre outros ideais, denunciou o caráter repressivo da sociedade industrial e pregou transformações revolucionárias tanto nas instituições sociais como nas atitudes do homem. Foi aqui, também, que se acusou a sociedade capitalista de criar necessidades de consumo artificiais e incessantemente renovadas, mediante a manipulação das consciências pelos meios de comunicação de massa, fonte do conformismo.

Inúmeros pensadores influenciaram e foram influenciados pela Escola de Frankfurt, entre eles filósofos, psicólogos e artistas os mais diversos. Porém, vale ressaltar a maior importância de quatro pensadores, que são, a saber: Walter Benjamim, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer e Jurgen Habermas. Sabe-se que muitos desses estudiosos deram a vida pelas causas propostas e debatidas pela Escola de Frankfurt, todavia é no intento de tentar esclarecer alguns pontos fundamentais das teorias elaboradas por estes pensadores que se dá ênfase aos nomes aqui citados.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Industrial-air-conditioner-160296567

A FABULOSA GALINHA DE ANGOLA, de Luísa Fresta


 

Impressões sobre o livro A FABULOSA GALINHA DE ANGOLA (Editorial Novembro, 2020), da escritora luso-angolana Luísa Fresta. O livro foi lançado em Portugal no mês de fevereiro de 2020. BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier INSTA: https://www.instagram.com/germanovianaxavier ISSUU: https://issuu.com/art_brazil LATTES: http://lattes.cnpq.br/8697294516715015

Língua e gêneros textuais: conceitos fundamentais


Por Germano Xavier


De acordo com o filósofo e pensador russo Bakhtin (1981), a língua é um objeto de estudo concreto, resultante de uma interação social entre pessoas que se encontram em uma situação de comunicação. Segundo o autor:

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN,1981,p.123)

Sendo assim, a reflexão desse autor acerca do objeto de estudo língua nos direciona a perceber que a língua não é algo sem forma, pelo contrário, ela deve ser vista como algo palpável que se consagra na palavra pronunciada por alguém (locutor) em direção à outra pessoa, neste caso, o ouvinte. Toda essa relação estabelecida entre o falante e o ouvinte resulta consequentemente numa situação de interação entre as partes envolvidas no processo de comunicação, levando sempre em conta o contexto social, histórico e cultural em que os membros estão envolvidos.

Ao lançarmos um olhar para as práticas escolares de acordo com a visão sociointeracionista da linguagem, elegemos o ensino da língua indiferente ao tradicional, que se restringia a estudá-la como representação do pensamento. A respeito dessa visão, Bakhtin (2002) explica que, para seus adeptos, a expressão linguística é formada de alguma maneira no psiquismo humano e é exteriorizada objetivamente com a ajuda de um código de signos exteriores, como se fosse uma tradução: “O exterior constitui apenas a material passivo do que está no interior” (p. 112). Portanto, as pessoas que não conseguiam se expressar eram rotuladas como seres não-pensantes.

Uma outra concepção de língua é a do estruturalista Ferdinand de Saussure (1977), para o qual a linguística deveria se ocupar dos elementos que são “internos” à língua e deixar de lado tudo o que lhe fosse “externo”. “Nossa definição da língua supõe que eliminemos dela tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema, numa palavra: tudo quanto se designa pelo termo ‘Linguística externa’” (p. 29). Dessa maneira, a língua era vista como um sistema independente de fatores exteriores, sendo que eles não influenciam em nada o seu sistema interno, aonde os signos linguísticos mantinham uma relação de ser o que o outro não era e assim o que se levava em conta era apenas o que estava presente na estrutura, língua enquanto estrutura.

Em meados do ano de 1960 surge um outro ponto de vista acerca do objeto de investigação Língua: o paradigma funcionalista, cujo maior defensor foi o respeitável teórico Roman Jakobson (1982), para o qual a língua é compreendida como um código, utilizado para transmitir uma mensagem de um emissor para um receptor. Esse código, por sua vez, deve ser usado de maneira semelhante, preestabelecida e convencionada por todos os falantes envolvidos na comunicação para que esta realmente se efetive com sucesso. Com o avanço em seus estudos este teórico acrescentou mais dois elementos ao processo comunicativo, neste caso, o contexto (ou referente) e o contato (ou canal). Assim, a comunicação aconteceria através do seguinte esquema tático: a existência de um emissor trazendo em mente uma mensagem com o intuito de transmiti-la a um possível receptor, como forma de concretizar seu desejo ele a transforma em código e a remete para o receptor utilizando um canal (meio físico dotado de ondas sonoras), e por meio do código cabe ao outro interpretar a mensagem recebida.

Inspirando-se no modelo tradicional sobre a linguagem de Karl Buhler (1990), onde a comunicação servia apenas a três funções: a expressiva, a informativa e a estética, Roman Jakobson (1982) faz algumas alterações referentes à mudança na nomenclatura das três funções já pré-existentes, as quais passariam a ser chamadas de referencial, emotiva e conativa. Ele também acrescentou outras três funções, neste caso, a fática, a metalinguística e a poética.

Os textos com função referencial (também conhecida como informativa, representativa, denotativa ou cognitiva) são aqueles que colocam em evidência o referente (ou contexto) e transmite uma informação objetiva sobre a realidade. Já a função emotiva ou expressiva refere-se à manifestação do ponto de vista do remetente, seus sentimentos, suas emoções a respeito dos fatos expostos no texto. Segundo Barros (2004), são vários os indicadores usados para chegar a essa função, dentre eles estão: o uso de interjeições, exclamações, reticências etc, uso de verbos na 1ª pessoa, com o objetivo de enfatizar uma subjetividade e consequentemente criar uma relação de proximidade entre os sujeitos envolvidos na comunicação.

De acordo com Jakobson (1982, p.125), a função conativa ou apelativa “encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo”. Essa é uma linguagem bastante utilizada nos discursos, sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor procurando persuadi-lo e, por isso, ocorre a interação entre remetente e destinatário.

A função fática tem como palavra chave o canal ou contato. Segundo Jakobson (1982), essa função tem por finalidade estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação com a intenção de verificar se o canal está funcionando corretamente. De acordo com Barros (2004), existem algumas expressões linguísticas que fazemos o uso para que possamos chegar aos objetivos citados acima, os quais são: unh e hã (elementos prosódicos de pontuação da fala usados para manter o contato entre os participantes da comunicação), olá! tudo bem? como vai? tchau, até logo, bom dia (fórmulas prontas usadas para começar ou encerrar a comunicação) e você está escutando? (para garantir que haja realmente o contato).

A função metalinguística, por sua vez, tem como foco o código. As pessoas envolvidas em uma situação de comunicação desejam saber se estão utilizando o mesmo código. Para exemplificar esse determinado tipo de função, Jakobson (1982, p.27) afirma que “ela ocorre quando o receptor pergunta ao emissor “não o estou compreendendo – que quer dizer?”. ou quando, ao contrário, aquele que fala, antecipando perguntas como essa, pergunta a quem ouve “entende o que eu quero dizer ?”. Para finalizar, temos a função poética, que coloca em evidência a forma da mensagem, sendo assim, há cuidado mais com o que dizer do que como dizer. De acordo com o linguista Roman Jakobson (1982, p.128):

Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão somente a função dominante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais, ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.

Portanto, é importante destacar que embora a função poética seja própria da obra literária, não é pertinente e nem aceitável postulá-la como algo exclusivo da poesia ou tão pouco da literatura em geral, já que podemos encontrá-la também em outras atividades verbais.

Através de suas obras intituladas Marxismo e filosofia da linguagem (2002) e Estética da criação verbal (1997), Bakhtin edifica sua teoria de língua como interação, posicionando-se teoricamente avesso as ideias concebidas pelas correntes anteriormente citadas, localizando e também raciocinando a respeito das lacunas encontradas naquelas teorias. Sendo assim, ele buscou mostrar que o conceito de língua adotado pelo mesmo era indubitavelmente o mais apropriado para tratar dos fenômenos linguísticos.

Dessa forma, o ensino da língua deve ser entendido e ensinado como uma forma de interação, o professor tem o dever de elaborar estratégias que contemplem os mais variados textos-contextos em que se faz necessário o uso da linguagem, com o intuito de que seu aluno desenvolva a capacidade de adequá-la a heterogeneidade de situações presentes no seu cotidiano, sejam elas de caráter formais e informais, orais e escritas. Em relação ao trabalho do sociointeracionismo para com a linguagem, Costa-Hübes (2008) explica:

Na realidade, o que estas correntes têm em comum é o fator histórico e o fato de terem se estabelecido como disciplinas dentro de uma ciência específica, a Linguística, e de se sustentarem na filosofia da linguagem, elevando a interação à condição de princípio explicativo dos fatos da língua. Amparadas neste pressuposto, não mais trataram do estudo de palavras ou de frases isoladas, mas relacionadas ao texto,ao contexto sócio-histórico, ao(s) usuário(s) que as produziu/produziram, aos gêneros discursivos/textuais. Estamos nos referindo a uma nova concepção de linguagem: a concepção interacionista ou sociointeracionista que passa a tratar a língua como elemento histórico.(COSTA-HÜBES, 2008, p. 109-110 – grifos da autora.)

A concepção interacionista ou sociointeracionista ocupa o lugar de notável relevância para a maior parte dos teóricos que se dedicam a estudar os fenômenos da língua, no que diz respeito ao ensino, partindo do pressuposto de que o ensino da língua deve ter como principal objetivo formar cidadãos aptos a agir nas mais variados situações de atos de comunicação. Segundo Bronckart (1999, p.103), “a apropriação do gênero é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Para a construção desta pesquisa, buscamos ter como base uma perspectiva de ensino engajada na noção de gêneros textuais, sendo assim, pretendemos através dela defender que é fundamental apresentar aos alunos situações que carreguem em si traços semelhantes àqueles que vivenciamos fora do âmbito escolar, reais, variadas, que tenham sentido para eles e que ocorrem em diferentes esferas de interação social.

Com o intuito de compreendermos de que maneira isso ocorre, recorremos às ideias de Miller (1984, apud BAZERMAN, 2006) que concebe o gênero textual como uma ação retórica tipificada, que funciona como uma resposta a situações recorrentes e socialmente estabelecidas. Essa teoria explica que, quando precisamos agir discursivamente em uma nova situação, tomamos como base situações semelhantes, nas quais buscamos alguma forma textual que nos permita atingir os objetivos pretendidos. Ao fazermos isso, acabamos criando um modelo textual que passa a fazer parte de nosso conhecimento e que será aplicado a outras situações semelhantes que possam surgir.

Sendo assim, os indivíduos que utilizam a língua notam que uma determinada forma de emitirem enunciados se faz eficaz em certas circunstâncias, e assim, quando presenciam circunstâncias que tragam algo em comum com as já vivenciadas anteriormente, sofrem uma grande influência de usar um tipo de enunciado semelhante. Através do tempo e das repetições, originam-se padrões e expectativas que englobam os envolvidos e os auxiliam na interpretação de circunstâncias e também na produção de enunciados. Como defende Bazerman (2006, p.23), os “gêneros são os lugares familiares para onde nos dirigimos para criar ações comunicativas inteligíveis uns com os outros.

Schneuwly (2004), relembrando as ideias de Bakhtin (1997), explica que, no momento da produção textual, o sujeito locutor/produtor escolhe um gênero em função de uma situação definida por uma série de parâmetros: finalidade (a vontade enunciativa ou o intuito discursivo do locutor), destinatários (o conjunto constituído dos parceiros), conteúdo (as necessidades da temática do objeto de sentido). Sendo assim, o gênero textual constrói uma base que serve como uma espécie de guia para uma ação discursiva. Bakthin (2007) fala que para ter sua estabilidade os gêneros textuais buscam subsídio a três elementos que os caracterizam, os quais são: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo.

Referente ao conteúdo temático, Schneuwly (2004) explica que o gênero define os conteúdos e os conhecimentos dizíveis por meio dele (por exemplo, é comum o gênero crônica tratar de assuntos do dia-a-dia, envolventes e de interesse de muitas pessoas; esse é o tipo de conteúdo específico para esse gênero); concomitantemente, o que precisa ser falado define a escolha de um gênero (se eu necessito escrever minha opinião a respeito de alguma matéria jornalística, eu consequentemente vou optar por escrever um artigo de opinião.

Em relação à construção composicional, refere-se a um tipo de estruturação e acabamento do todo. Ela é composta por certas organizações textuais partilhadas por manifestações de natureza linguísticas reconhecidas como integrantes de um gênero. Finalmente, o estilo que segundo Bakthin (1997, p.279) diz respeito à “seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais”. É importante enfatizar o fato de que o estilo não carece ser acatado como um efeito de individualidade de um falante/escritor, na verdade ele precisa ser considerado como um elemento próprio do gênero.

A junção dos três elementos citados acima constituem o gênero. Sendo assim, eles foram explanados separadamente apenas por uma questão de didática, pois todos os gêneros possuem esses três elementos não existindo possibilidade de enunciado com apenas um ou dois deles. Em concordância com isso, Bakhtin (1997, p.279) afirma que o conteúdo, a construção composicional e o estilo “fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado”.

Em relação à produção textual, Dolz e Schneuwly (2004) afirmam que o gênero se impõe como uma forma evidente que o enunciado a ser produzido deve tomar. Os gêneros textuais são entidades de grande poder e de acordo com Bronckart (1999), condicionam-nos a escolhas (do ponto de vista do léxico, do grau de formalidade ou da natureza dos temas) que não são aleatórias. Logo, os gêneros acabam por limitar nossa escrita. Bazerman (2005) complementa versando que o formato padrão do gênero nos dá um rumo em dois sentidos, sendo um em relação a qual informação apresentar e o outro de como apresentá-la.

Da mesma maneira, Antunes (2002) explana que na leitura os gêneros possibilitam a projeção e também o enquadramento das interpretações que o sujeito ouvinte/leitor do texto realiza, ao mesmo tempo em que atuam como uma orientação capaz de fazê-lo enxergar o suficiente para se construir uma compreensão global do texto. No âmbito desse assunto, Bakhtin (1997) assegura que todos nós exercemos domínio sobre um rico repertório de gêneros do discurso (orais e escritos) e consequentemente nos sentimos a vontade para utilizarmos com segurança e desenvoltura.

Ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas diferenciações (p. 302).

Ou ainda:

É de acordo com nosso domínio dos gêneros que usamos com desembaraço (...) que realizamos, com o máximo de perfeição, o intuito discursivo que livremente concebemos (p. 304).

Entendemos que nosso conhecimento construído a respeito do gênero nos dá sustentação para que possamos distinguir no primórdio de um ato de comunicação de caráter (oral ou escrita), o gênero a ser usado, seu tema, sua estrutura composicional e, conforme notamos isso a troca verbal ganhará forma, ou seja, se concretizará. Os usuários da língua possuem um saber intuitivo acerca de que as formas textuais necessitam encaixar-se à situação de interação. Antunes (2002) afirma que as pessoas possuem um saber intuitivo a respeito dos gêneros e que a capacidade de identificação e uso dos gêneros é parte do conhecimento de mundo. Nesse sentido, o domínio dos gêneros possui uma dimensão cognitiva. Bazerman (1994, p.134) salienta que o fato de as pessoas dominarem os gêneros é uma condição fundamental para a própria existência do gênero, ou seja, “uma forma textual que não é reconhecida como sendo de um tipo, tendo determinada força, não teria status nem valor social como gênero. Um gênero existe apenas à medida que seus usuários o reconhecem e o distinguem”.

De acordo com Bakhtin (1997), a respeito da padronização dos gêneros textuais existe uma distinção entre os gêneros primários e os gêneros secundários. É importante enfatizar que, segundo Rodrigues (2005), o critério usado por Bakhtin para diferenciá-los não é funcional, e sim histórico, baseado na concepção socioideológica da linguagem, mais especificamente na diferenciação entre ideologias do cotidiano e as ideologias estabilizadas e formalizadas.

Nos gêneros secundários encontramos uma complexidade. Derivados de uma situação discursiva mais complexa, organizada e relativamente mais evoluída, em um ambiente de crenças mais formais e especializadas, tidas como mediadoras diante das interações sociais nas esferas artística, científica, religiosa, jornalística, escolar etc. Contrariamente, os gêneros primários são mais simples, ao ponto que os mesmos são constituídos em condições de comunicação verbal imediata e espontânea, no âmbito da ideologia do dia-a-dia (ideologias que fogem da formalidade e sistematicidade).

A respeito do empenho de alguns estudiosos em identificar e classificar os gêneros, concordamos com Bazerman (1984, apud MARCUSCHI, 2008) quando ele enfatiza que não é possível estabelecer taxonomias ou até mesmo classificações duradouras. Nossas identificações de formas genéricas terão sempre curta duração, pois os “gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros a cada momento do tempo.” (p. 16). Marcuschi (2008) apoia essa ideia e afirma que os gêneros não são classificáveis como formas puras nem podem ser catalogados de maneira rígida.

Relativo ao aspecto citado acima, o teórico Bronckart (1999) alega que os gêneros textuais são entidades que em sua profundidade encontram-se vagas. Fala ainda que as classificações existentes são divergentes e parciais, e que nenhuma delas pode ser considerada um modelo de referência estabilizado e dotado de coerência. Ele atribui essa dificuldade de classificação a pelo menos dois motivos. O primeiro motivo é em relação à variedade de critérios para definir um gênero. Segundo Bronckart (1999, p. 73),

Critérios referentes ao tipo de atividade humana implicada (gênero literário, científico, jornalístico etc.); critérios centrados no efeito comunicativo visado (gênero épico, poético, lírico, mimético etc.); critérios referentes ao tamanho e/ou natureza do suporte utilizado (romance, novela, artigo de jornal, reportagem etc.); critérios referentes ao conteúdo temático abordado (ficção científica, romance policial, receita de cozinha etc.).

Marcuschi (2008, p. 164) do mesmo modo em seus estudos indica os critérios que, segundo ele, usamos para dar nomes aos gêneros textuais e enfatiza a possibilidade de muitos deles atuarem em conjunto.

1. forma estrutural (gráfico; rodapé; debate; poema);
2. propósito comunicativo (errata; endereço);
3. conteúdo (nota de compra; resumo de novela);
4. meio de transmissão (telefonema; telegrama; e-mail);
5. papéis dos interlocutores (exame oral; autorização);
6. contexto situacional (conversação espontânea; carta pessoal).

Bronckart (1999) relata que o critério mais objetivo que poderia ser utilizado para identificar e classificar os gêneros seria tomar como base as unidades e as regras linguísticas específicas que eles mobilizam. No entanto, ele adianta que a aplicação desse critério não é plausível, visto que um gênero pode ser composto por vários segmentos distintos.

Reavendo a discussão a respeito da dificuldade de classificação do gênero devido à diversidade de critérios utilizados, apontada por Bronckart (1999), podemos concluir que, dentre os vários aspectos que envolvem os gêneros e que podem ser usados para defini-lo, há um consenso entre vários autores de que a funcionalidade é o elemento primordial nesse processo.

Essa dificuldade de classificação, segundo Bronckart (1999), decorre ainda de um segundo motivo: o caráter fundamentalmente histórico e adaptativo dos gêneros. Devido a eles se multiplicam e se modificam à medida que a esfera de circulação onde eles atuam se desenvolve e se complexifica. Marcuschi (2008) explica que o gênero é flexível e variável, da mesma forma que seu principal componente – a língua. Isso porque, através da variação da língua, os gêneros também mudam. Portanto, eles desenvolvem-se de maneira dinâmica: eles variam, fundem-se, misturam-se, adaptam-se, modificam-se e renovam-se para manter sua identidade funcional com inovação organizacional. Cada novo gênero aumenta e influencia os gêneros da esfera social onde atua, multiplicando-se. Alguns gêneros tendem a desaparecer devido à ausência das condições sociocomunicativas que os geraram, assim como gêneros já desaparecidos podem reaparecer sob formas parcialmente diferentes.

Concomitantemente, como aponta Bronckart (1999), a emergência de novos gêneros pode estar relacionada ao surgimento de novas motivações sociais, ao aparecimento de novas circunstâncias comunicativas ou ao aparecimento de novos suportes de comunicação. Porém, Marcuschi (2008) salienta que nem sempre temos um gênero essencialmente novo. Devido ao fato de que gêneros novos também surgem a partir de outros, de acordo com as novas necessidades, atividades ou tecnologias que vão emergindo. Os gêneros se imbricam e se interpenetram para construírem novos gêneros e, assim, solidificam-se novas formas com novas funções.

Para concluir a reflexão sobre os gêneros textuais, é importante ainda citarmos sobre sua relação com a realidade social. Marcuschi (2008) salienta que não podemos manuseá-los independentemente de sua ligação com as atividades humanas em todas as esferas. Eles são parte integrante da estrutura comunicativa de toda sociedade, na medida em que ajudam a estruturar as ações de uma comunidade e a intermediar as práticas sociais. Permitem, assim, lidar de maneira mais estável com as relações humanas em que a linguagem é utilizada. É justamente nesse sentido que Miller (1994, apud CARVALHO, 2005) aponta os gêneros como categorias operativas e instrumentos globais de ação social. Ainda segundo essa estudiosa, o gênero é um mecanismo de estruturação e interação que regula as ações comunicativas individuais e o sistema social, sendo o elo e o mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.

Portanto, o estudo dos gêneros textuais consente enfatizar a língua em funcionamento nas mais variadas atividades de cunhos sociais e culturais. Para concluir este tópico, vamos adotar as palavras de Marcuschi (2008) e fazer um breve apanhado das principais características definidoras dos gêneros.

Resumidamente, poderia dizer que os gêneros são entidades: a) dinâmicas; b) históricas; c) sociais; d) situadas; e) comunicativas; f) orientadas para fins específicos; g) ligadas a determinadas comunidades discursivas; h) ligadas a domínios discursivos; i) recorrentes; j) estabilizadas em formatos mais ou menos claros. (p. 159).


REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 2 ed. São Paulo: HUCIT,1981.
COSTA-HÜBES, T. C. O processo de formação continuada dos professores do Oeste do Paraná: um resgate histórico-reflexivo da formação em língua portuguesa. Londrina, PR: UEL,2008 (Tese de doutoramento.
______. A interação verbal. In: Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 10. ed. São Paulo: Ammablume, 2002, p. 110-136.
SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1977.
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 21. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
BARROS, D. P. de. A comunicação humana. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 25-53.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
______. Gênero, agência e escrita. Trad. Judith Chambliss Hoffnagel e Angela Paiva Dionísio. São Paulo: Cortez, 2006.
SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 21-40.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. O enunciado, unidade da comunicação verbal. In: Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 289-326
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Os gêneros escolares – das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 71-94.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
ANTUNES, I. C. Língua, gêneros textuais e ensino: considerações teóricas e implicações pedagógicas. Perspectiva. Florianópolis, v.20, n.01, p. 65-76, jan./jun. 2002 a.
CARVALHO, G. de. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma sugestão e um exemplo. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p. 130-149.
RODRIGUES, R. R. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: A abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005, p. 152-183.
______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.) Gêneros textuais – reflexões e ensino. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 15-2.


* Imagem: http://portalinho.com/1028/7-editores-de-texto-online-focados-para-aquilo-que-proventura-mais-gosta-de-fazer-escrever/

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

UNBOXING BLACK FRIDAY 2019 EDITORA PATUÁ


 

Com a licença de Pandora, abro minha primeira caixa de livros aqui no canal. Os livros foram comprados durante o período da Black Friday através do site da Editora Patuá, gerida por Eduardo Lacerda.
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Sobre ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato

*
Por Germano Xavier

Este texto pretende traçar um pequeno panorama acerca das relações existentes entre o cotexto e o contexto em excertos constituídos por marcas visíveis de oralidade presentes na obra literária ELES ERAM MUITOS CAVALOS, do escritor mineiro Luiz Ruffato – no original, o título do livro aparece grafado em letras minúsculas.


É bastante amplo o panorama atual sobre a percepção histórica do “senso de contexto” em voga a partir e, também, durante o florescimento de diversas esferas do saber humano. É isto o que o estudioso holandês da língua Teun A. van Djik (2012) vai propor aos seus leitores logo na introdução de seu livro intitulado de DISCURSO E CONTEXTO: UMA ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA.

A literatura, como campo de produção e sedimentação de discursos – e aqui, a saber, estamos a falar de contextualizações e cotextualizações -, invade, pois, tal discussão e se promove dentro da atmosfera por vezes caótica das ressignificações hodiernas em vista de tudo e de todos, em demandas diversas de ordens também essencialmente plurais. 

Parte inconteste dos textos que são produzidos em nossos mais recentes dias e que são rotulados como sendo textos de literatura ou, ainda, textos literários não podem nem deviam ser taxados a uma caracterização literária apenas e simplesmente, fator que pode prejudicar o olhar sobre o referido objeto, impossibilitando abordagens mais nítidas e eficazes. 

Textos repletos de intertextos, com apetrechos e inserções multimodais, cujas referências extrapolam o senso comum, são cada vez mais visíveis nas estantes das livrarias e, para muitos pesquisadores, representam um verdadeiro jardim de delícias pela potencialidade de imersão e pelas possibilidades de estudo, que são inesgotáveis. 

A obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS é dotada de um constructo narrativo repartido, fragmentado em 70 petardo-retalhos textuais, em tributo à cidade de São Paulo, megalópole por vezes inapreensível que acolhe e também expulsa. Quem o lê, logo percebe que se trata de um livro com estrutura singular, diferenciada, organizada num espaço de e para a fomentação de desordens estilístico-semânticas. 

O livro em questão, por natureza dinâmico e múltiplo, faz do leitor mais um personagem da possível trama, como se a inscrevê-lo automaticamente num retalho extra: o de número 71. Para a sua composição, o autor se vale de registros literários e não-literários, por assim dizer, sendo possível entrar em contato com textos ao melhor estilo publicitário, cinematográfico, musical, descritivos, narrativos, poéticos entre outros moldes.

Incontáveis são os teóricos e pesquisadores que se aninham ou se aninharam pelo mundo afora na tentativa de desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, do modelo textual detentor de múltiplos sentidos, dotado de ramificações, conexões extras e possuidor de competências e aberturas próprias e várias, tanto ao que meramente tange o suporte quanto aos processos de significação utilizados em sua produção.

Na profusão e difusão de novas modalidades e de modos de produção textuais, híbridos e transversais, cada vez mais vivos dentro das sociedades, a escrita de Luiz Ruffato em ELES ERAM MUITOS CAVALOS termina por fazer, também, com que o leitor enverede por uma nova experiência de leitura, pronunciada nas ideias dos multiletramentos e dos intertextos – assim como da polifonia e da polissemia-, visto aqui não apenas no âmbito do hipertexto, mas do texto impresso – será possível? – também.

Como bem aponta Dijk (2012), entender o discurso é antes realizar a compreensão texto/conversação-em-contexto. Com base nesta premissa, vejamos os excertos abaixo, retirados do livro de Ruffato:

“- Num falei?” (p. 17)

“- Dá dinheiro, né?” (p.17)

“E gente inda consegue dormir; meu Deus, a bocona jacaroa, até ronca!, até baba!, comé que?” (p.18)

“indignação ah ah ah” (p.26)

“Estraga o teclado... Esse farelinho aqui ó, trava tudo, uma bosta! E se cai Coca-Cola então, puta!, aí fodeu!” (p.43)

“Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor!, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor!” (p.74)

“A gente vinha lá dos lados dos Perus, da casa de um mano nosso, aí a gente veio andando, porque já num tinha mais busão, a gente veio andando e papeando, tá ligado?, aí a gente viu aquela montoeira de caixote empilhado, desacreditamos, aí o Esqueleto falou, vamos derrubar?, aí o Ziquinha falou, vamos nada, vai dar merda (...)” (p.116)

Tomando como ponto de apoio os excertos supracitados do livro de Luiz Ruffato, logo corroboramos da ideia de Djik (2012), que defende que a natureza do contexto é múltipla. O pesquisador em destaque salienta que não há uma maneira eficaz para elucidar e identificar um conjunto cotexto-contextual de único nascedouro. 

As bases da criação de Ruffato são diversas, baseadas em vivência única e momentos particulares de observação. Portanto, um movimento essencialmente de interação social e, ao mesmo tempo, profundamente individual.

Em defesa de questões ligadas ao fator interação social dentro das ambientações de gênero e de escrita, BAZERMAN (2007, p.119) vai dizer:

Todo momento insere e revigora momentos prévios. Isso é verdade também sobre este momento em que eu escrevo e você lê, e a tênue conexão entre eles. Definir um momento é perceber uma estrutura para o antes e o agora e agir sobre essa percepção, compreendendo-a, assim, como um ato social que influencia o futuro. O ato momentâneo implica intencionalidade dentro das construções pessoais de uma situação histórica em evolução. O escritor ou falante apresenta um universo dinâmico para o leitor ou ouvinte reconstruir ativamente dentro do universo dinâmico do receptor.

Por ser um elemento que tanto pode atender às demandas subjetivas de cada indivíduo que se sujeite estar diante de um dado fenômeno de uso da língua quanto a qualquer formação de elaboração linguística de construção sociointeracional de base coletiva, a concepção de contexto aqui envolvida – leia-se, na obra de Ruffato - tende a arrecadar condições de atuação não simplórias. A natureza do contexto, nesse ínterim, pode ser facilmente considerada como mutacional.

Os excertos da obra de Ruffato, escolhidos e supracitados neste ensaio, reafirmam que os fenômenos de uso da língua que relacionam os cotextos aos contextos dentro da relação oralidade-escrita são, como na visão de Dijk (2012), realçados no que dizem respeito aos seguintes modelos de entendimento: Os contextos que podem/poderiam ser identificados para estudo mais detalhado são construtos subjetivos dos participantes - neste caso, produzidos pela participação ativa do autor frente ao mundo que o cerca. 

Os contextos, vistos assim, sob o prisma da relação autor-leitor, podem ser entendidos como sendo experiências únicas. Os contextos, pelo caráter experimental que abarcam, são também modelos mentais de desenvolvimento progressivo. 

Sobre o momento individualmente percebido que ajuda na construção de todos os principais elementos da relação cotexto-contexto, BAZERMAN (2007, p. 128) afirma:

Para cada indivíduo, a vida desdobra-se em uma série idiossincrática de momentos dos quais se participa da melhor forma possível e de onde se parte com percepções sobre o mundo, eventos e consequências das ações. A partir da sequência de momentos, desenvolvem-se hábitos, práticas e concepções que dão forma a comportamentos futuros e constrói-se a um senso do self, uma autobiografia e uma visão do lifeworld.

Lifeworld, para constar, é um conceito de Husserl que significa o mundo “como vivido” antes de alguma representação ou análise reflexiva. 

Os contextos em diálogos com seus enunciados escritos (cotextos) com marcas de oralidade na obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato, devem ser percebidos como um tipo específico de modelo da experiência do autor. São também, por conseguinte, esquemáticos, pelo fato de obedecerem a um regimento elaborativo, de nuances múltiplas, variadas e variantes, controlam as suas próprias produções, suas respectivas compreensões do discurso e ainda apresentam bases sociais de conflito. 

Os contextos possíveis para estudo a partir da obra acima citada são dinâmicos, amplamente planejados, o que contorna qualquer indício de obviedade na construção discursiva da narrativa, fator que a coloca em patamar avançado em termos de caracterização literária. O presente ensaio, dessa forma, lança um tanto de luz para futuros e prováveis estudos sobre as problemáticas aqui debatidas.



REFERÊNCIAS

BAZERMAN, C. Escrita, Gênero e Interação Social. São Paulo: Cortez, 2007.

CAVALCANTE, M.M. Os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2014.

DIJK, Teun A. van. Discurso e Contexto: uma abordagem sociocognitiva. São Paulo: Contexto, 2012

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

CONTOS AFRICANOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA


 

Impressões sobre o livro CONTOS AFRICANOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA, da Editora Ática (2009), com toques sobre Realismo Mágico, Estética da Recepção e outras dicas.
Organização: Rita Chaves Ilustrações: Apo Fousek BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier
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O imortal Nélson Barbalho e o país de Caruaru

Imagem: Google
Por Germano Xavier


"(...) Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo (...)"

Trecho de A MORTE DO VAQUEIRO,
de Nélson Barbalho e Luiz Gonzaga.

Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, assim badala o canto dos chocalhos pendurados nos pescoços dos gados sofridos de seca nos grotões de nossos sertões e agrestes nordestinos. Com fome e sede, os animais mugem perambulando pelas paisagens repletas de dor e desgosto, mas que com uma só chuvarada vê brotar um oásis de inigualável imensidão. Decerto que há também boniteza na dureza das vistas que configuram tais paragens, mas é tudo feito de uma beleza sofrida e castigada pelo tempo. Sertões e agrestes de homens imortais, afeitos a lutas monumentais pela sobrevivência, que se estreita a cada nova estação sem sinal de chuva no firmamento. Sertões e agrestes de homens fortes, como foi o caruaruense Nélson Barbalho, que veio ao mundo num 02 de junho lá pelos idos de 1918. 

"Cabra" sem estudo orientado por academicismos, viveu sempre de trabalhar, pesquisar e escrever. E escreveu, ele, senão a maior, uma das mais importantes visões acerca do povo nordestino, do povo pernambucano e, principalmente, do povo da cidade que é tida hoje como a Capital do Agreste do estado cuja capital é Recife. Por conta de seu ofício, foi conhecedor de grande parcela dos municípios pernambucanos, tirando das viagens que fazia importantes oportunidades para se contar ao mundo aquilo que seus olhos clínicos e críticos viam e sentiam. Transformou-se logo em jornalista e historiador, atuando também como lexicógrafo e compositor, neste tendo como parceiro de várias ocasiões nada mais nada menos que o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

Na casa da centena está o legado do homem que lançou Caruaru aos olhos do mundo, este é o número aproximado de obras deixadas, publicadas ou não, dentre as quais se destacam "Cronologia Pernambucana", "Meu povinho de Caruaru", "Major Sinval", "Caruaru do meu tempo", "Dicionário da Cachaça", "Dicionário do Açúcar", entre tantos outros registros que contam e recontam as principais facetas desta tão singular região brasileira. Todavia, nem toda esta dedicação e produção autoral latente foi capaz de fazer de seu nome uma referência devidamente reconhecida enquanto viveu, o que é já bem comum aos grandes de nossa cultura.

Falecido na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993, Nélson Barbalho construiu em vida uma constelação de amigos, a citar Onildo Almeida, parceiro no baião clássico intitulado de "Capital do Agreste", o maestro Joaquim Augusto, Luiz Gonzaga, Carlos Diniz... abriu picadas no matagal da história de Pernambuco e repousa hoje no panteão de autores mais significativos do estado. Cá entre nós, passei a admirá-lo ainda mais muito devido ao conhecimento do documentário de Wilson Freire, de título Nélson Barbalho, o imortal no país de Caruaru, exibido em sua terra natal como forma de homenagem aos 20 anos de sua morte.

Pensando cá com meus botões, a maior homenagem que Nélson Barbalho poderia ganhar nos dias de hoje seria a reedição de sua obra e, consequentemente, a distribuição de seus livros em todas as bibliotecas do município e das cidades do entorno, e para ficar perfeito, que os professores caruaruenses fossem capacitados através de uma ação formadora direcionada especificamente ao trabalho da obra do ilustre historiador em suas respectivas escolas e salas de aula, para que a memória de Nélson Barbalho fosse incansavelmente salvaguardada na mente das futuras gerações. Dessa forma, todos nós, caruaruenses ou não, e sem nenhuma exceção, sentir-se-iam imensamente homenageados.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

4 POEMAS DE GERMANO XAVIER, por Luísa Fresta


 

Luísa Fresta lê quatro poemas de Germano Xavier. Os poemas podem ser encontrados no Blog O EQUADOR DAS COISAS.

* Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.

Publicou em 2012/13 uma série de crónicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras com o qual colaborou regularmente até 2015 e publicou também pontualmente em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).

Escreve regularmente desde 2013 no portal O Gazzeta, coordenado por Germano Xavier e desde 2014 publica prosa e poesia no portal Entrementes - Revista Digital de Cultura. Desde 2016 escreve também no jornal digital Artes&Contextos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Outra leitura para MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta


 

Olímpio Neves lê uma resenha de minha autoria durante o lançamento de MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta (Lisboa, 2019).
* Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.
Publicou em 2012/13 uma série de crónicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras com o qual colaborou regularmente até 2015 e publicou também pontualmente em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).
Escreve regularmente desde 2013 no portal O Gazzeta, coordenado por Germano Xavier e desde 2014 publica prosa e poesia no portal Entrementes - Revista Digital de Cultura. Desde 2016 escreve também no jornal digital Artes&Contextos. BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/
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