sexta-feira, 20 de maio de 2016

O velho lobo do mar

*

Por Germano Xavier


"Mas o que pode valer a vida, 
se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?"
(Milan Kundera, em A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)


algumas vezes me encostei ao mar
e por medo do desconhecido, do vão devorador
escondido nas fendas ondulantes das marés,
construí em mim o som dos medos reais.

parte em consciência, soube ocultar
a fera indestrutível das águas nas espumas.
parte em truques, abortei roteiros inglórios
de bravura à direção das imprudências.

fato é que as histórias em que navego
minhas máximas campanhas de homem
foram sempre trilhas lançadas aos atiçamentos
e às estreias da alma.

tudo se resume, pois,
até aqui (e só assim me pus a salvo),
a uma vitoriosa carreira de impermanências.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/THE-SHADOW-SEA-435832778

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Gêneros e Tipos de Discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In:____. DOLZ, Joaquim. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas – SP: Mercado de Letras, 2004, p.19-34.


“A moda das tipologias cedeu lugar à dos gêneros. Entretanto, permanece a necessidade fundamental de toda atividade de pesquisa sobre textos e discursos (e, sem dúvida, de toda prática científica): a de classificar.” (p.19)


O GÊNERO É UM INSTRUMENTO

“[...] “o gênero é um instrumento.” (p.23)

“Os instrumentos encontram-se entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação n qual ele é levado a agir.” (p.23)

“Um instrumento media uma atividade, dá-lhe uma certa forma, mas esse mesmo instrumento representa também essa atividade, materializa-a.” (p.24)

“O instrumento, para se tornar mediador, para se tornar transformador da atividade, precisa ser apropriado pelo sujeito.” (p.24)

“[...] a tripolaridade da atividade tem como corolário necessário a bipolaridade do instrumento.” (p.25)

“A escolha do gênero se faz em função da definição dos parâmetros da situação que guiam a ação. Há, pois, aqui uma relação entre meio-fim, que é a estrutura de base da atividade mediada. Portanto, nossa tese inicial – o gênero é um instrumento enquadra-se bem na concepção bakhtiniana.” (p.27)

“A ação discursiva é, portanto, ao menos parcialmente, prefigurada pelos meios. O conhecimento e a concepção da realidade estão parcialmente contidos nos meios para agir sobre ela. Tínhamos dito que o instrumento é um meio de conhecimento: eis a concretização dessa tese.” (p.28)


GÊNEROS E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

“Os gêneros e, mais particularmente, os gêneros primários são o nível real com o qual a criança é confrontada nas múltiplas práticas de linguagem.” (p.30)

“Os gêneros se complexificam e tornam-se instrumentos de construções novas, mais complexas”. (p.30)

“[...] os gêneros secundários não são espontâneos. Seu desenvolvimento e sua apropriação implicam um outro tipo de intervenção nos processos de desenvolvimento, diferente do necessário para o desenvolvimento dos gêneros primários.” (p. 32)

“Essa ideia de construir a partir do que já existe e de transformá-lo radicalmente pode ser precisada da seguinte maneira: a construção de um gênero secundário implica dispor de instrumentos já complexos.” (p.34)

“Os gêneros primários são os instrumentos de criação dos gêneros secundários.” (p.35)

“Pode-se mesmo dizer que a introdução do novo sistema, a aparição dos gêneros secundários na criança, não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um longo processo de reestruturação que, a seu fim, vai produzir uma revolução nas operações de linguagem.” (p.36)


TIPOS E GÊNEROS

“[...] psicologicamente, um tipo de texto é o resultado de uma ou de várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção.” (p.36)

“Os tipos de textos – ou, psicologicamente falando, as escolhas discursivas que se operam em níveis diversos do funcionamento psicológico de produção – seriam, portanto, construções ontogenéticas necessárias à autonomização dos diversos tipos de funcionamento.” (p.37)


* Imagem: https://prezi.com/zley3ka5jfpn/night-quotes/

A perspectiva INTERACIONISTA SOCIODISCURSIVA DE BRONCKART (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


MACHADO, Anna Rachel. A perspectiva sociointeracionista de Bronckart. In: MEURER, J.L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p.237-259.


1. INTRODUÇÃO

“[…] defenderei a tese de que, na verdade, não há um conceito de gênero que possamos atribuir de forma isolada a Bronckart”. (p.237)

“[...] defenderei a posição de que o ISD não toma os gêneros de textos como sua unidade de análise privilegiada nem considera que sua análise seja seu objetivo maior.” (p.238)

“Mesmo com diferenças visíveis, esses pesquisadores brasileiros guardam um traço comum: a perspectiva de intervenção na educação, imediata ou prospectivamente.” (p.238)


2. DA DIFICULDADE DE INTERPRETAÇÃO

“A tarefa de interpretação da teoria do ISD é difícil, pois dois tipos de problemas podem levar a interpretações equivocadas: uns que derivam de sua própria especificidade e dos textos de seus autores nucleares e outros que derivam de textos de seus intérpretes.” (p.240)


3. GIROS EM BUSCA DO CONCEITO DE GÊNERO DE TEXTO NO ISD

“[...] buscarei circunscrever o conceito construído pelo ISD, identificando, primeiramente, o que os gêneros de textos não são nessa perspectiva teórica, para, a seguir, buscar caracterizar o que são.” (p.240)

3.1 “GÊNERO DE TEXTO NÃO SE DEFINE: É O QUE EXISTE”

“[...] podemos afirmar que esses trabalhos têm tomado os textos como sua unidade de análise, mas, como veremos posteriormente, essa análise, em si mesma, não era – e não é – seu objetivo maior.” (p.241)

“[...] a definição de gênero de texto subjacente era a de que gênero de texto é aquilo que sabemos que existe nas práticas de linguagem de uma sociedade ou aquilo que seus membros usuais consideram como objetos de suas práticas de linguagem.” (p.242)

3.2 GÊNERO DE TEXTO NÃO É TIPO DE DISCURSO

[...] os tipos de discurso são segmentos de texto ou até mesmo um texto inteiro, que apresentam características próprias em diferentes níveis.” (p.242)

“Atualmente, considera-se que há quatro tipos de discurso básicos: interativo, teórico, relato interativo e narração.” (p.243)

“Devemos observar ainda que os tipos de discurso podem se mesclar, dando lugar a segmentos de texto com características discursivas de dois tipos.” (p.245)

“O máximo que temos é um critério – não exclusivo – para uma classificação de grandes famílias de gêneros de textos, levando em conta o tipo de discurso principal que os caracteriza.” (p.245)

3.3 GÊNERO DE TEXTO NÃO É TIPO DE SEQUÊNCIA

“[...] as sequências se distribuem em seis tipos – dialogal, descritiva, narrativa, explicativa, argumentativa e injuntiva.” (p.246)

“[...] não há possibilidade de definir ou classificar todos os gêneros existentes pelo critério de sequência, dada a constatação de que existem textos vários em que elas não ocorrem, o que nos leva à hipótese de que também há gêneros de textos que não as representam.” (p.248)

3.4 DA UTILIDADE DOS CONCEITOS DE TIPOS DE DISCURSO E TIPOS DE SEQUÊNCIA PARA A CARACTERIZAÇÃO DE GÊNEROS

[...] os gêneros de texto nunca podem ser identificados e definidos apenas com base em suas propriedades linguísticas.” (p.248)

3.5 OS GÊNEROS DE TEXTOS COMO REGULADORES E COMO PRODUTOS DAS ATIVIDADES (SOCIAIS) DE LINGUAGEM

“A primeira distinção conceitual importante para compreender o quadro teórico mais geral do ISD é a que diferencia atividade de ação.” (p.249)

“[...] os gêneros de textos, por serem produtos sócio-históricos, são elementos explicativos da ação da linguagem e que não seriam unidades de estudo próprias da psicologia.” (p.250)

3.6 O GÊNERO COMO FERRAMENTA DA AÇÃO DE LINGUAGEM E A AÇÃO DE LINGUAGEM COMO REFORMULADORA DO GÊNERO

“[...] é pelo acúmulo desses processos individuais que os gêneros se modificam continuamente e assumem um estatuto fundamentalmente dinâmico e histórico.” (p. 251)


4. O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS E SUA UTILIZAÇÃO

“[...] o modelo que é proposto pelo ISD não é um modelo de análise de gêneros, mas de textos.” (p.252)

4.1 O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS E AS OPERAÇÕES DE LINGUAGEM

“[...] as operações não se sucedem uma às outras na ordem em que serão apresentadas, mas estão, sim, em interação contínua.” (p.252)

“[...] não podem ser vistos como meras cópias das representações sociais, dada a influência das histórias de vida particulares na sua construção ontogenética.” (p.253)

4.2 EXEMPLO DE APLICAÇÃO DO MODELO DE ANÁLISE

“[...] retomamos a seguir um trabalho por nós desenvolvido sobre o gênero resenha crítica.” (p.255)


5. CONCLUSÕES

“[...] temos tomado como hipótese que textos socialmente considerados como pertencentes a determinado gênero apresentarão algumas características semelhantes, que podem ser atribuídas às restrições genéricas.” (p.258)

“[...] “ensinar gêneros”, na verdade, não significa tomá-los como o objeto real de ensino e aprendizagem, mas como quadros da atividade social em que as ações de linguagem se realizam. O objeto real de ensino e aprendizagem seriam as operações de linguagem necessárias para essas ações, operações essas que, dominadas, constituem as capacidades de linguagem.” (p. 258)



* Imagem: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/redacao/a-redacao-requer-uma-boa-revisao.htm

TEMER não é preciso

*

Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
um parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil


lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é 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* Imagem: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/20/golpe-do-pato-a-face-absurda-da-cena-politica-brasileira/

domingo, 15 de maio de 2016

Paraíso-quadro

*

Por Germano Xavier

para Adriano Ricardo, professor de espantos


"O paraíso é, antes de tudo, um quadro."
(Bachelard)


o que vi, vivo está.

vi o improvável 
no que de fato abandonei,
o invisível das figuras, dos motivos,
os mares em frente ao mar além-horizonte.

vi melhor quando sofri
outras maneiras de ver, de viver.
quando a palavra comum me tingiu
de amor, de angústia, de sonho.

com o instrumento dos meus olhos, 
vi o místico do visível. e nada disso 
teria valor se a solidão não me abarcasse,
irmã de mergulhos.

fui a hora literária, poeta 
de meus /des/encontros.

pois vi a fantasia, vi 
melhor o assombro na gana de ser,
de estar, ao sentir a minha música me acusar
solar.

optei pelo desvio das estradas por onde correm os meninos eternos,
os meninos que ainda saberão brincar,
poder e oração e voz tamanha.

experimentei o sagrado nos lábios avulsos da mulher,
máxima intenção íntima dos universos.

vi, portanto,
o que ignorei simplesmente,
o que jamais imaginei,
o mundo, o nada, o afã, o órgão último
de minhas forças,

a podridão de mim,
a melodia inolvidável,
o que a Graça tornou sangue, pulso.

vi, enfim, o que passou, o que é,
o que será e, juro, vi tudo pela primeira vez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/quadro-283482411

sábado, 14 de maio de 2016

Nada muito sobre filmes (Parte XXV)

*

Por Germano Xavier


OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), de Pedro Almodóvar, pousa sua narrativa no interior de uma aeronave da companhia aérea Península, que por motivos esdrúxulos, corre sério risco quando da aterrissagem. Enquanto nada se resolve com o serviço de apoio, o comandante fica voando em círculos. Nesse ínterim, três tripulantes dopam todos os passageiros da classe social, assim como as aeromoças, com a finalidade de estancar o pânico. Os que continuam sóbrios, pelo fato da morte próxima, revelam-se de todas as maneiras. Um filme diferente, com todas as cores de um Almodóvar, e que em muitos momentos me fez recordar o cult AIRPLANE! (Apertem os cintos... O piloto sumiu!) Comédia inteligente. Vale uma espiadela!


LITTLE BOY – ALÉM DO IMPOSSÍVEL

LITTLE BOY - ALÉM DO IMPOSSÍVEL (2016), de Alejandro Monteverde, é um daqueles dramas que nos emocionam facilmente. Na trama, que tem a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, o garotinho Pepper mantém uma relação de muita aproximação e amor pelo seu pai, com quem vive aventuras e fantasias inenarráveis. Quando seu pai resolve ir para a guerra no lugar do seu irmão mais velho, Pepper fica profundamente triste. Apelidado de Little Boy pelos "garotos da rua", por seu tamanho reduzido para a idade, Pepper investe em sua fé, segue uma "lista mágica" cedida pelo padre da pequena cidade de O'Hare, Califórnia, onde mora, na esperança de reencontrar seu pai. Daí em diante, muita coisa acontece. Até o inacreditável acontece. Para os desavisados, LITTLE BOY foi o nome dado à bomba nuclear lançada em Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Recomendo a todos os mortais!


O ABRIGO

Não se deve confiar em tudo que se lê, ouve etc. O ABRIGO, de Jeff Nichols, provou isso para mim. Esperava ver algo meio hitchcockiano. Achei-o penoso. Mas, como disse, não é bom confiar em tudo que se lê, ouve etc. Boa sorte!


E.T. – O EXTRATERRESTRE

Até poucos dias atrás, eu ainda não tinha visto o longa-metragem E.T. - O EXTRATERRESTRE (1982), de Steven Spielberg, um dos grandes clássicos hollywoodianos do gênero ficção científica. Para a época, deve mesmo ter sido uma produção bem chamativa. Olhando-o no agora, confesso que não me causou grandes ou bons "espantos". Talvez eu devesse pegar uma máquina do tempo e regressar até o ano de seu lançamento para que minha ideia sobre o filme mudasse. Aliás, a infância é o ponto crucial da trama. Lendo sobre o filme, descobri que o rosto de E.T. foi elaborado tendo como molde as faces do poeta Carl Sandburg e do cientista Albert Einstein. Loucuras à parte, ei-lo! Sigamos!


CHATÔ – O REI DO BRASIL

Eu tinha cerca de 20 anos quando toquei pela primeira vez o calhamaço biográfico intitulado de Chatô - O Rei do Brasil, escrito por Fernando Morais, ali pelas prateleiras da biblioteca do Departamento de Ciências Humanas III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). O livro me chamava a atenção, por seu autor, pelo tamanho e pelo conteúdo. Chatô é matéria interessantíssima para qualquer estudante de jornalismo, hei de pensar. É história da imprensa nacional, do mundo. Faz parte, apesar de tudo. Magnata insólito das comunicações. Dono de quase tudo em seu tempo. Fez e desfez. Insano, taxado de mil coisas. O filme homônimo, CHATÔ - O REI DO BRASIL (2015), dirigido por Guilherme Fontes, depois de 20 conturbados anos de produção, conseguiu vir à tona. Apesar de um tanto confuso, a película passa uma noção básica deste Assis Chateaubriand, para quem anúncio era dinheiro e notícia era perfumaria. Recomendo a todos os mortais!


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU

Mais um antigão do Steven Spielberg que pude ver recentemente. CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (1978) tem até o diretor François Truffaut no elenco, para minha grata surpresa. O filme tem como mote a obsessão de um homem, Roy Neary (Richard Dreyfuss), morador de uma pacata cidade norte-americana, ao pressentir a chegada de seres extraterrenos. Depois de muita investigação e enfrentamento, parte em debandada para um local em específico, onde acredita ser estratégico para um possível contato humano-alienígena. O filme tem status de grande obra cinematográfica de teor sci-fi. Ao fim, não me arrependi de tê-lo visto. Vale a experiência, bucaneiros. Sigamos!


HOWL

A dita Geração Beat (Beat Generation) estará sempre atrelada ao marco da contracultura em todos os cantos do mundo, em todos os tempos. Para tanto, a literatura foi berço de expressão para nomes explosivos, a citar os de Kerouac, Burroughs, Ginsberg etc, que "pregavam" a "desobediência civil" e a criatividade espontânea, instantânea. O filme HOWL (2010), dirigido por Jeffrey Friedman e Rob Epstein, retrata com autoridade um pouco do que foi o impacto da publicação do livro UIVO, de Allen Ginsberg, em meados de 1956. Acusado de obsceno, o livro foi levado a julgamento nos Estados Unidos. HOWL é discretamente profundo, a ponto de ferir corações poetas com golpes contundentes de mais-amor pela palavra. Mais um belíssimo filme que traz a arte literária como protagonista. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um olhar sobre os Estudos Retóricos de Gênero

*

Por Germano Xavier


O capítulo 6 do livro Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino, que versa sobre os Estudos Retóricos de Gênero (ERG) delineia com precisão conceitual os meandros dos estudos elaborados principalmente pelos autores Charles Bazermam e Carolyn Miller, sendo os dois devidamente analisados e esmiuçados por Anis Bawarshi e Mary Jo Reiff, autores do supracitado livro publicado no Brasil em 2013, traduzido pelo professor Dr. Benedito Gomes Bezerra, docente da Universidade de Pernambuco (UPE).

É justamente no referido capítulo onde ocorrem as distinções referentes ao ideário do gênero compreendido como sendo uma ação social, assim como objetos culturais de base demasiado complexa. Dentre todo o conteúdo abordado nas cerca de 30 páginas do excerto, destacam-se as ideias em ERG de “sistemas de gêneros”, “conjuntos de gêneros”, “apreensão”, “metagêneros”, “sistemas de atividades” e “cronotopos de gêneros”.

Diante de tais lances conceituais, alguns autores pontuam, a partir de Bazerman (1998), sobre a existência de uma relação dialógica entre as formulações do gênero aliadas à formação do conhecimento em si e, também, por parte de sua condição sócio-histórica. Para tais autores, a citar Berkenkotter e Huckin (1993), gêneros são arcabouços estruturais de base retórica e por demais dinâmicos. Assim se postulam, já que podem sofrer variações caso ajam para isso forças acerca de condicionantes e interesses de uso, além de outros mecanismos de influência.

Em ERG, gêneros são também entidades retóricas sensíveis, dinâmicas, que estabilizam práticas e legitimam sentidos. Para esta corrente dos estudos de gênero, o papel e a importância dada ao usuário da língua é fator preponderante, pois é o usuário da língua quem também induz o gênero ao conhecimento e usufruto de mecanismos linguísticos coletivos.

O fundo, o contexto, o conteúdo, o momento (Kairós), os pressupostos, combinados com as devidas e referenciadas oportunidades retóricas, passam a se estabelecer como pontos de alicerce do gênero enquanto matéria de estudo. Assim posto, ao promoverem o fenômeno da integral comunicação, os usuários da língua tornam-se membros de uma dada comunidade linguística. Esta, por sua vez, serviria a uma multidimensionalidade que exerceria uma aproximação do gênero para com os conceitos de processo social.

De tal modo, a sistematização de gêneros liga-se aprioristicamente e basilarmente ao poder do indivíduo no tocante às ações de interação num campo aberto de interferências contextuais. Promove-se daí o brotar de expressões do tipo “ecologia de gêneros”, “conjunto de gêneros”, “repertório de gêneros” e, até, “constelação de gêneros” que, juntos, preconizam uma espécie de união conceitual e de atuação determinantes a grupos parelhos de gênero, possuidores de características e funcionalidades semelhantes.

Amy Devitt, Clay Spinuzi, Aviva Freedman, Graham Smart, Janet Giltrow, Engestrom, Cole e Davi Russel são alguns dos nomes importantes que ajudaram e ajudam a interpretar boa parte das nuances dos estudos centrados em gênero na vertente em ERG. Alguns dos pesquisadores supracitados instauraram análise sobre a relação da cognição e do gênero. Os laços encontrados, mesmo alguns no âmbito da comum abstração, colaboram para a conduta dos gêneros junto às demandas da esfera social.

Objetivos e bem dimensiondos, os gêneros seriam produtos de contundente interação, extremamente ativos, socialmente mediados, estruturalmente conflitantes e fortemente motivados, portanto vivos, coordenados e complexos. Destarte, o front de embate, porventura natural ao conceito de gênero, dar-se-ia devido à possibilidade de diálogo entre frentes de ações inerentes ao todo do complexo da engenharia dos gêneros.


Referência

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Estudos retóricos de gênero. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 103-133.

sábado, 7 de maio de 2016

O amor em número de dez

*

Por Germano Xavier



I – Alguma hora da tarde

Eu queria ser sensata, prudente, objetiva e compreensível. Você me faz ser metáforas e absurdos. Você exige de mim a fluidez de um ser humano e a liberdade de um coração em quarentena. Não quero ser carne crua nesse mundo. Ou quero. Só não sei o que quero agora porque você se interpõe entre mim e a minha falta de sensibilidade para com a vida. Você me obriga a reconhecer que nem tudo se resolve na mente e em ignorar a própria dor, os sentimentos alheios e as coisas más da vida. Você me obriga a ser humana e isso me desnorteia. Preciso esquecer você ou mudar o que sou. E agora essas duas coisas são impossíveis.


II - Ontem

Não gosto de dar a você e sentir por você coisas que não quero mais que existam em mim para o mundo, para ninguém. Não quero perdoar, me sentir presa e nem me sentir necessitada de algo ou alguém. Quero me bastar e não sofrer por isso e não sentir falta de nada e de ninguém. Mas sinto falta de você e me dói (e só me dói com você) quando não me corresponde nessa sandice ridícula - por que falar a verdade me faz sentir tão estranha, tão desumana e tão diferente dos outros? Algumas coisas nem digo em voz alta, por medo de me jogarem na fogueira. O mundo não aceita os divergentes. Você me aceita?


III - Agora

Veja você: O dia acabou e não se passaram dois minutos seguidos sem que eu lembrasse de você. Não como uma ocupação, mas como uma sombra na alma. Hoje, nessa noção de sua presença em outro espaço, havia culpa e constrangimento - pelo que te falei ontem. Uma tristeza sem nome como as coisas imperativas da vida. Aquelas que não conseguimos evitar. Você estava presente não como um pensamento constante, fixo, mas apenas como um reflexo da memória, um não-esquecimento. Uma lembrança fluida, não um pensamento costurado objetivamente.


IV – Você

Você (presença-ausência) é o espaço onde transitam todos os meus monstros, os meus fantasmas conhecidos, negados ou ainda não suspeitados por mim. Você (minha relação desesperadamente irracional com você) é onde me confronto. Onde questiono a minha ética, minhas crenças, meus valores, minha força, minha sanidade, meu futuro, meus sonhos... Você é o lugar onde vocifero e me despedaço, mas é também o lugar onde me abandono. Um descanso reconstrutor, lúdico e poético. O amor.


V – Ainda você

Minha fúria, minhas dores, minhas convicções (que são dúvidas em revezamento) passam por você todos os dias. Você me descobre e me desfaço e me refaço. Em você.


VI – Uma dor distante

Eu ainda não conhecia. Há tanto escrito seu que eu ainda não conheço! Ainda bem... Nem todos me fazem bem. Alguns me fazem sair da leitura com a sensação de que morri em algum tempo passado e que só uma espécie de sombra e uma remota memória restaram de mim. É uma dor distante, eloquente, difusa. Uma espécie de remorso de algum crime esquecido ou uma perda de algo que eu nem sei o que é, mas que está ali, em algum lugar escondido em suas palavras... algo que eu perdi em outra vida está lá e eu apenas lembro, mas não reconheço e nem posso nominar. Eu odeio a palavra escrita. Eu amo a palavra escrita. A única arma capaz de me ferir nesta vida é a palavra... e a falta de amor em mim.


VII – Por que não?

Depois de percorrer mais algumas linhas do passado dele, decidiu que não. Nunca mais o seguiria onde quer que tenha ido. Nunca mais o leria onde quer que tenha escrito ou para quem que tivesse escrito. Ela odiava o que ele escrevia para elas, especialmente para ela - aquela que, por sinal, parecia a coisa mais transparente, frágil, delicada e insossa que já existiu. Bonita, sim. Tão feminina que deve ter dois úteros e meia dúzia de ovários. Voz de passarinho cansado, olhar de derreter pedra. Não se sabe onde começa o teatro e onde termina a pessoa. Uma pluma perdida no mundo. Pousou no lugar errado, a criaturinha feliz. Talvez tivesse sido planejada para ser fada, o serzinho doce, inocente e gentil, que olha as nuvens, o céu e o amor e suspira como se o mundo fosse perfeito, mas, por um erro de cálculo nasceu humana. Depois de pensar se escreveria isso que ele nunca vai entender, decide: Sim. Por que não?


VIII – Teoria crítica

Há anos não deixo de falar pra ele tudo o que penso e sinto sobre ele e sobre as pessoas que o cercam. Sobre ela, ele nem sabe de quem falo... talvez saiba... Aquela com ar de superior disfarçado de espontânea humildade. Talvez pela influência da região de nascimento... Eu desprezo esses seres que nunca olharam para a miséria ao seu redor e concebem o mundo como o seu playground. Ela flutua em nuvens e desenha (ou escreve?) florzinhas. Uma porcelana bem acabada, porém tão fina que quebraria no primeiro esbarrão com a realidade. Pelo menos - e temos aqui apenas ficção, pretensa dedução e uma alta dose de despeita -, é o que aparenta. Perdoem-me os críticos, mas não tenho compromisso com a realidade dos fatos neste texto, apenas com o meu passional - e justo! - julgamento.


IX – Conquista

Da outra sim, eu gosto. Repito: odeio o que ele escreve para elas, mas desta - e somente desta) - eu gosto. Gosto de um jeito quase doloroso, pois foi inevitável. Tanta grandeza de alma, tanta verdade crua, tanta beleza triste, tanta acidez perfeita, tanta graça na dor que ela sabe... Impossível não amar a coisa amável quando ela é verdadeiramente poesia. Até dói admitir, mas o faço por justiça e por ter sido conquistada... Ela parece mais verdadeira, mais real, mais poética, mais humana, mais falha. É de carne e osso e de absurdos. Incoerente, incongruente. Uma linha curva, como o amor. Como toda pessoa de valor deve ser. Ela parece ser feita de erros e de quedas, de superação e de resistência. Ela é aguda. Ela sofre, agoniza, erra, ama, pragueja, ironiza, radicaliza, morre e ressuscita. Ela pisa em brasas e escreve em sangue. Mais parecida comigo. Ela - aquela de quem nunca ouvirei - é alguém que aprendi a admirar lendo-a apenas nas entrelinhas dele. Nas entrelinhas das linhas que ele sempre escreveu sabendo ou não, querendo ou não. Ele escreve pessoas. Todas as que conheceu e amou ou não, todas deixaram histórias e rastros em sua literatura. Ele é muitos. E eu o amo todos.


X – Post scriptum

Não me censure. Nada é sério. Apenas divagações sem importância. Falo de personagens. Tu sabes. Te amo.

domingo, 1 de maio de 2016

BR 104

*

Por Germano Xavier


"Violência é ele ficar assustado porque a gente é
 negro ou porque a gente chega assim nervoso a
 ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a
 carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam
 desesperadas."

(Marcelino Freire, em Contos Negreiros)


é hollywood?
é bollywood?
é perseguição e sem dublê.
reta larga pela frente, o destino.
mas qual o destino da manhã?

qual o destino do medo?
esperança tem destino?

acelerador no topo, a mão rodada.
cabo enrolado. vulto no retrovisor. 
uma perna toca a minha 
perna. 

calor humano, frio metal.

cano curto. gelidez larga. no pescoço.
acostamento, freio, mente em transe.

desço. o motor apaga.
penso em tanta coisa.
não penso nada.

revista. olhos perdidos. 
cadê o fogo do motor?
cadê o fogo da vida?

a BR não desliga.

o frio é traidor. a porra que não liga.
a merda de estar sozinho.
a merda de estar ali.
a merda.

LIGA A MOTO, PORRA! LIGA A MOTO!
TEM ALARME? TEM SEGREDO?
LIGA A PORRA DA MOTO, CARÁI!
PASSA A MOCHILA! CELULAR, PORRA!
QUER MORRER, PORRA? QUER MORRER?
VAZA, VAZA! CORRE PRO MATO, CARÁI!

seixos saltados. capim no calçado.
a respiração é um tormento.
o blusão cor do chão.

eles vrummmmmm

eu caminho. acostado.
sem caminho. atordoado. 
eu penso 
em tanta coisa. 

eu caminho. 
eu, caminho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Road-To-125276471

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ao ocaso, ao acaso

*

Por Germano Xavier


na soleira de nossos dias
o inadiável convite

aguardando nossas ordens,
impotente, o destino

rumamos incertos

ao ocaso
ao acaso


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Winter-Tales-95795613

Aguda resistência

*

Por Germano Xavier

"Liga a moto, porra! Liga a moto!
Tem alarme? Tem segredo? 
Liga a porra da moto, carái!
Passa a mochila! Celular, porra!
Quer morrer, porra?! Quer morrer?!
Vaza, vaza! Corre pro mato, carái!"

sobre uma terça insana, e real...



sejam feitos de esquecimento
os meus passos

máquina de fazer passado
o trato diário

na desforra do que se foi

minha paz
minha ferocíssima calma


Imagem: http://www.deviantart.com/art/005-75937355

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Ardidas memórias

*

Por Germano Xavier


Uma vez eu me perdi com minha prima no sítio do meu avô. Eu tinha uns dez anos de idade. Ela, uns doze. Tínhamos ido buscar mangas e nos perdemos. O sítio ficava a bons quilômetros do centro da pequena cidade onde morávamos. Interior daqueles bem frondosos. Fomos aparecer no sítio vizinho, entre o cair da tarde e o raiar da noite. Andamos em mata fechada e nos arranhamos muito. Minha mãe já existia desde então. Remedinho nas mãos. O ardido nos ajudou. Evitou infecção. Quem sabe, até a morte.

Glorioso.

Viva como nunca. A memória é assim, inesperável. Quando menos se, lá ela em nós, em recordações a nos fazer parar.

Estanquei.

Naquele dia, sem cadeira de balanço, ali mesmo à mesa da lanchonete no centro da cidade feroz, um eu, um de mim, homem já formado, trinta e poucos anos, lembrei que a minha infância representou o tempo das feridas abertas. Dos arranhões. Dos cortes. Das sangrias. Não o tempo das dores indefinidas, das dores sem nome, as mais perigosas. Mas o tempo das quedas das altas árvores porque almejei olhar a menina que perambulava no outro quintal, dos joelhos lacerados, dos dedões dos pés topados depois das partidas de futebol no meio da rua.

Quantas saudades das peladinhas a la modalidade “travinha”, onde nossos chinelos serviam de barra!

Agora, no saboreio insosso desta pequena xícara de café impiedosamente frio e adoçado, a contragosto observo que as feridas da infância eram lúdicas, poéticas, não doloridas. Na caixa de medicamentos, que minha mãe guardava por detrás do espelho do banheiro, havia o Merthiolate. Um frasquinho, sempre à espera. Aquela ardência ajudava a imprimir as memórias. Depois, a dor se perdia na beleza e na pureza das lembranças.

O remedinho ardido ajudava a sarar. E ficavam somente as boas recordações do acidente de brincadeira.

Agora ele não arde mais.

Apurei as vistas, como quem busca um resquício de luz no meio do breu. Minha prima nem deve se lembrar.

- Por que a pressa?

- Não estou com pressa, Jó.

- Para onde estamos indo, então?

- Manga verde com sal e pimenta do reino, já comeu?

- Minha mãe me disse que faz mal.

- Crer nisso é que faz mal, Jó. Venha!

Jó era estabanada. Empolgou-se. Saiu abrindo picada para todos os lados com seu corpo, que era maior que o meu. Nem ligava. Eu ria dela, adorando o seu fervor. Coitadinha, foi quem mais sofreu com as arranhaduras naquele dia de exploração.

Difícil mesmo seria imaginar o Merthiolate assim.

Sem a ardência, que me fez armazenar tão bem aqueles machucados, como ficaria a memória real da minha vida? Seria tão viva como é hoje? Saberia eu quantas vezes lacerei o dedão do pé não fosse pelo ritual. De correr para a mãe, que corria com o remedinho ardido. Minha mãe fazia isso. Podia até não fazer. Para os jurados, todas faziam isso. Está no imaginário popular. A ardência está ligada às aventuras da infância. Às descobertas, às pequenas infrações, aos mais íntimos desmandos. Aos projetos mirabolantes que não deram certo. Aos nossos primeiros desgovernos.

Não era uma dor. Era uma ardência. Qualidade ou estado do que arde, do que fica em fogo, do que queima. O que é aceso, cintilante, iluminado. O que possui vivacidade, veemência. Calor. Ânimo. Entusiasmo. Picância. Aí acabaram com. Trocaram o Timerosal, a Acetona e o Álcool pelo Digluconato de Clorexidina. Alegaram um milhão de coisas. Deve ser verdade. Coisas ruins para a saúde. Tóxico. Deu nos jornais, na televisão, nas rádios. O povo foi alertado sobre a mudança na fórmula. Dali em diante, o velho remedinho deixaria de existir, e a infância dos homens seria impressa com tons menos garridos de vermelho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/child-voices-168828904

Linguagem em (dis)curso

*

Por Germano Xavier


Hoje, no amplo campo do saber linguístico, percebe-se facilmente, em se tratando dos estudos apurados e de base analítica no tocante aos gêneros textuais, que a ideia que se tem de propósito comunicativo consegue, em si, admitir um sem número de olhares sobre as práticas de um determinado gênero dentro de uma respectiva comunidade de usuários interligados.

Por observar a maleabilidade com que tal instrumento, o propósito comunicativo, subverte inadvertidamente a “ordem natural das coisas”, é que Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012) enumeram questionamentos efusivos no interior de tal imbróglio, a procura de estruturar uma arqueologia de saberes acerca do senso/status do gênero ao final das análises, sem com isso perder o interesse para com a conceituação do propósito comunicativo enquanto critério nato de/para análise de gêneros.

Partindo dos pressupostos de base teórica atrelada ao estudo de gêneros consagrada pela denominada Escola Britânica, também conhecida como Abordagem Sociorretórica, BIASI-RODRIGUES e BEZERRA (2012) tratam no artigo intitulado de Propósito Comunicativo em Análise de Gêneros do debate em torno do próprio conceito de propósito comunicativo, atualmente percebido como sendo um dos pontos nevrálgicos do estudo linguístico mais específico dos gêneros em todo o mundo.

Para tanto, os pesquisadores supracitados centraram esforços em abordagens e perspectivas acerca das conceituações atreladas ao propósito comunicativo que foram exaustivamente investigados e aprimorados por estudiosos do porte de Swales (1990, 2001, 2004), e também de Askehave (2001), este em comunhão com Swales.

Tais estudos, proposições e perspectivas, imiscuídas à ideia de que gêneros realizam propósitos e/ou funcionam como “repropósitos”, como observado na própria reavaliação do tema feita por Askehave e Swales (2001), entre tantos outros fatores, terminaram por permitir que fossem elaboradas diversas discussões acerca do uso do todo processual do propósito comunicativo dentro do espectro funcional de uma dada análise de gêneros fundamentada aprioristicamente no que é de ambição social, o que o configura de tal modo a ser matéria basal das engrenagens analíticas, indo de encontro, portanto, à ideia que o taxa meramente como um critério direto e imediato no que concerne à identificação dos gêneros.

Com base nestas nuances e prismas de elaborativos, os autores partem da conceituação do termo propósito comunicativo, passeiam pela relação dele com a estrutura esquemática do gênero e pela visão que se tem de critério para identificação, provando sua inquestionável complexidade objetivo-funcional.

Os articulistas defendem, por fim, a relevante participação do propósito comunicativo como elemento para se estudar os gêneros em si e suas particularidades, sem fechar aí a sua largueza como utensílio da língua, ao que cabe a nós, estudantes e interessados na referida questão, cuidar para não rotulá-los, os gêneros, apenas com base em definições e conceitos parcos, a citar o de propósito ou até mesmo o de intenção autoral, que não abarcam tudo quando o assunto é a relação entre propósito comunicativo e a análise de gêneros.


REFERÊNCIA

BIASI-RODRIGUES, BERNADETE; BEZERRA, Benedito Gomes. Propósito comunicativo em análise de gênero. Linguagem em (dis)curso, Tubarão, SC, V.12, n.1, p.231-249, jan/abr. 2012.

Imagem: Google

Bhatia, gêneros e sequências textuais

*

Por Germano Xavier


No texto intitulado de ANÁLISE DE GÊNEROS HOJE, presente no livro Gêneros e Sequências Textuais, de 2009, Vijay K. Bhatia esclarece, logo na introdução de seu trabalho, a discussão acerca do que atualmente se discute sobre a ampliação do interesse e das investigações de cunho científico acerca da análise de gênero, evidenciando o relevante alavancar da área sobre diversos nichos do saber em questão durante os últimos anos, processo que fez com que o gênero começasse a deixar restrições ultrapassadas de abordagem e ganhasse novos olhares, mais amplos e bem mais avançados.

Para tal, ainda de acordo com o supracitado autor do excerto, contribuíram o momento oportuno, a própria natureza multidisciplinar dos gêneros e sua facilidade expansiva enquanto bloco de conhecimento da língua. E é no desejo de revelar como se dá o processo teórico da análise de gêneros, dotando-nos dos encontros comuns existentes em suas configurações várias, que Bhatia desenvolve questionamentos importantes dentro da literatura atual, visando a aplicações e a contornos cotidianos.

Bhatia primeiramente conceitua o procedimento de análise de gêneros, identificando as ramificações prismáticas já praticantes e existentes, a citar as em termos de tipologias de ações retóricas, as norteadas por regularidades de processos sociais de vários níveis e orientadas para uma meta e as de abordagem de consistência de propósitos comunicativos.

Para fins de elucidação, o respectivo autor volta seu olhar para o prisma do gênero enquanto artigo intimamente ligado aos contextos comunicativos convencionados, o que, para ele, aprimora tendências de especialização, de restrição e de estabilização dos gêneros, reforçando novamente a conjectura conceitual dos fatores de recorrência de situações retóricas, de propósitos comunicativos compartilhados e de regularizações de organização estrutural.

Bhatia destaca em seu texto as características de versatilidade inerentes aos gêneros, operada em vários níveis, assim como, também, seu caráter de integridade genérica e de tendência à inovação. Para tal identificação, Bhatia salienta o papel do profissional experiente neste campo do saber linguístico, a fim de que se possa melhor observar, e com maior nitidez, todos os mecanismos de construção e de atuação/funcionalidade dos gêneros em quantidade expressiva.

Em outro ponto de questionamento, Bhatia indica como ponto de destaque no contexto atual de análise desempenhada hoje a mistura e a imbricação de gêneros. Para ele, há um constante embate nas fronteiras da ordem dos discursos e das práticas discursivas que ajudam a aglutinar conglomerados de gêneros com caracterizações um tanto quanto semelhantes, cuja denominação dada como de gêneros híbridos vem bem a calhar.

Tal exploração dos valores genéricos, em algumas situações, denunciam dadas evoluções dos gêneros. O que corrobora a ideia de que criatividade nunca foi artigo distante ao conceito de gênero. Por possuírem mais de um valor genérico, a maior parte dos gêneros possui uma tendência a uma imbricação e a uma posterior e consequente mistura. Sob a suspeita de que, em se tratando de gênero, a ideia de autoridade esteja atrelada ao social e não ao individual, Bhatia meio que promulga uma institucionalização das práticas discursivas seguindo esta corrente de contingenciamento.

Assim posto, os gêneros são socialmente autorizados diante de convenções, inserindo-se nas práticas discursivas de culturas disciplinares específicas. Ocorre que, para que a integridade genérica seja mantida, intervenções editoriais e revisão em pares podem se dar em alguns casos, o que fortalece ainda mais a ideia de que a comunidade discursiva que está atrelada ao gênero em questão tem papel fundamental na proposição de sua manutenção funcional e de uso.

O conhecimento compartilhado do gênero em uma determinada comunidade discursiva, para Bhatia, proporciona averiguar também o papel de relevância que o leitor tem no processo de análise dos gêneros. É a partir deles que o poder de um gênero pode ser computado em sua essência. As comunidades discursivas, assim como agem como molas propulsoras para a proliferação de gêneros mais adaptáveis às demandas sociais, também podem influenciar no cerceamento destes agentes, funcionando como censores, controlando e manipulando atitudes hegemônicas, fazendo com que várias particularidades ligadas à questão fiquem nubladas diante de tamanhas dominâncias. E, por fim, Bhatia recorda a figura essencial do professor de língua, a quem a aplicação de todas estas implicâncias deve ser tema contínuo em sala de aula.


REFERÊNCIA

BHATIA, V.K. Análise de gêneros hoje. Trad. Benedito Bezerra. In: BEZERRA, B. G.; CAVALCANTI, M. M.; BIASI-RODRIGUES, B. (orgs.) Gêneros e Sequências textuais. Recife: Edupe, 2009, p. 159-195.

Imagem: Google

domingo, 24 de abril de 2016

Água viva

*

Por Germano Xavier


"Quero apossar-me do é da coisa."
Clarice Lispector


imagem tua
como uma pintura
de incontornáveis traços
que criei cedendo

pura figura sem figura
como as águas sujas
do canal de nossos dias

pura como o sangue sagrado
dos poetas mortos evocados
dos poetas vivos existidos

poetas sujos de sangue//
poetas sujos de letras//
poetas limpos de coração//
poetas doentes de alma//
poetas morrendo de dor//

imagem tua que criei sendo livre
reflexo da perfeição que se perdeu na luta
da inocência que se perdeu no vão
da inspiração que se ganhou no sonho
da delicadeza que se instalou na lança do olhar
da resistência que se estabeleceu no andar

no onde

imagem tua sem mito
que criei amando
incerta como o vento certo
que traz nuvem alguma
que traz chuva e história
que provoca a vida


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-absentia-embryo-67570002

sábado, 23 de abril de 2016

Minha lágrima de prazer

*

Por Germano Xavier


A imagem é uma criação pura do espírito.
Ela não pode nascer da comparação, mas da aproximação de duas realidade mais ou menos remotas.
Quanto mais longínquas e justas forem as afinidades de duas realidades próximas, tanto mais forte será a imagem – mais poder emotivo e realidade poética ela possuirá...

Pierre Reverdy



Será fogo essa comichão indefinida em meu coração? Será fé esse incômodo remoer de algo querendo ser? Será sorte? Será infortúnio? Estou, finalmente (digam-me!) vislumbrando uma luz no final do cano de esgoto onde escorrega a minha vida? Será túnel? Será que estou caindo para cima? Para o plano onde a dor é bela e produtora de alguma recompensa desconhecida numa outra dimensão? Num plano espiritual? Será a mosca azul da fé? Será um elefante orelhudo isso que me tocou? A fada do dente de ouro? O meu anjo da guarda? O meu anjo desguarda? Será o fantasma da paz? Esse espectro brincando em meus olhos, esse brilho querendo encher a minha escuridão... Será a paz? Será o cio? O pio? Esse cheiro de flor que quer vir? Será sonho? A coisa vai crescendo aqui dentro... e fora. Em realidade? Será delírio? Será eterno? Será doce? Será que fica? Tenho medo de saber que era apenas sonho. Será isso esperança? Será amor? Será Deus? E se aquelas fossem as minhas últimas palavras para ti? As últimas! Se precisassem, por força maior do que minha vontade, ser as minhas últimas letras para os teus olhos? Para os teus sorrisos... Elas (minhas letras) teriam de ser, resumidamente, para dizer o mínimo da imensidão do que te amo, as seguintes: Você é minha. És o meu membro fantasma que, mesmo amputado do meu corpo, ainda sinto doer e faltar, em presença dolorosa e ausente. Você é bela. Bela de um jeito misterioso e incompleto. Belas são as tuas cicatrizes na alma, tuas histórias sem finais, tuas doces tortuosidades. Tuas histórias de silêncios são belas como todas as palavras bonitas e antigas que resgataste do dicionário, esquecidas pelos tolos e preguiçosos demais para senti-las, para amá-las. Você resgata palavras e inventa sentidos para as coisas, para os mundos sem nome. Você é mágica. Como as águas paradas dos açudes velhos. Águas profundas e calmas. Misteriosas, encantadoras e perigosas. Águas que abrigam em suas profundezas tanto peixes deliciosos quanto cobras venenosas. Você é magia em verde-musgo e em voz de lento trovão. Você é o sentido. Eu poderia criar um sistema filosófico sistematicamente organizado a partir de teus olhares para a vida. Teu olhar para tudo é total e certeiro. E mesmo não o sendo, torna-se. Sensível e extraordinário. Não há nada no mundo que você ainda não tenha tocado, duvidado, admirado, refutado ou classificado. Em sentença ou em dúvida. Você é amor, menina. Não importa, no fim das contas, que conceito venha a ter o amor, nem que facetas ou significados. Talvez seja apenas quatro letras aleatoriamente organizadas para representar tudo aquilo de sentir que não se encaixou em nenhuma outra palavra. Nem mesmo se, no fim, descobrirem que ele nunca passou, afinal, de um delírio coletivo na história da humanidade. Ainda assim, você será amor. Você é amor em diversas matérias, invólucros e cores. Em diversos conceitos e caras. O amor achou você e entrou. Ficou para sempre em teu corpo, alma e palavras. Você é amor vivendo na história do mundo. Você é amor sobre pernas, sobre rodas, sobre carne. Minha lágrima de prazer.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Androids-145739480

Rasgo

*

Por Germano Xavier



do rasgo violento
feito pelo tempo

restaram duas partes
inúteis de mim

a parte que ama sem nada ter
e a parte que tem o que não ama

enxugando torrentes
com toalhas de papel
digo ao tempo

ainda estou inteiro


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/2-FORMS-51785364

sábado, 16 de abril de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XII)

*


Viana, olá!

Tenho vontade de escrever-te só com símbolos, por medo de repetir-me e tornar-me demasiado previsível. Ou revelar o diálogo que nunca tivemos, como uma mera transcrição desse instante único de cumplicidade que podem ter duas pessoas numa conversa informal. Conversar é tão bom, Viana, e é cada vez mais difícil encontrar uma pessoa que goste de falar.

Tentemos essa partilha, queres? Somos nós dois num dancing lisboeta à beira-rio tomando um copo numa mesa perto do palco. Os músicos ainda estão a preparar os instrumentos, o dj põe no ar uma música bem ritmada, incendiária.

C- Viana…? Viste aquele casal na pista, o rapaz pequenino agarrado a uma mulher alta e vistosa?

V- Na verdade nem reparei, Clara. Mas porquê? Estava atento à música, tentando perceber a letra.

(Risos)

C- Letra? Que letra? Não vás por aí… deixa-te só contagiar pelo ritmo. A música com letra vem depois. Digo, o rapaz pequenino, a quarentona bonita… tenho uma teoria sobre o assunto, que pode dar uma história.

(Franzes o sobrolho e eu sinto-me constrangida).

V- Clara, não sejas mázinha... nem pareces tu. A gente não sabe nada da vida das pessoas. Neste momento alguém pode estar a olhar-nos com a mesma curiosidade… malsã.

C- Não é preconceito, é pós-conceito. Só acho que é um engate com fins, digamos, lucrativos. O rapazinho quer “se dar bem” e procura uma mulher que o possa “peitar”, como diz uma amiga minha muito atenta. Isto funciona nos dois sentidos; há aqui mulheres à procura do mesmo, junto de respeitáveis senhores… ingénuos, claro está.

V- Achas que é isso, Clara? Mas, e se for… que direito temos nós de julgar as escolhas de pessoas adultas, escolhas consensuais…? Não entro nesse jogo, por mais curiosidade que o assunto me suscite.

C- Pois, Viana, talvez tenhas razão. Se for o que penso trata-se de um negócio em que todos lucram: um consegue sustento temporário e o outro um sucedâneo de amor, uma coisa parecida com uma relação na qual a componente sexual é o motor da coisa. Mas a nossa indiferença é sempre conivente. Não pensar, não opinar, já é agir. Mas sei que são opções tacitamente aceites… embora sejam ambos pressionados pelas circunstâncias.

V- Sim, percebo o teu ângulo. Ninguém é totalmente inocente nem culpado. E se fosse, quem os julgaria? Um é vulnerável por ser pobre, ou malandro, outra tem um estatuto social superior e alguma liquidez, para além de uma falta de autoestima notória, falta de tempo ou de interesse para cultivar relacionamentos duradouros… um desfecho previsível no qual existe no entanto um momento, volátil que seja, em que o NÃO é uma opção real. Um não redondo e definitivo.

Neste momento da conversa os artistas entram em palco e nossa atenção deixa-se absorver pela voz possante da Lucibela.


Viana, desculpa-me este despiste, mas não resisti a ensaiar esta troca de impressões improvável entre nós dois diante de uma bebida de cores primaveris. Ou uma simples cerveja gelada, ou um café expresso.

É uma forma de te dizer que gosto que me interrompas quando falo, a isso chama-se conversar. A palavra, quando escrita, já é dona de si mesma, quando se forma na boca e ainda não nasceu, pode ser calada com um beijo.

Há um momento em que é possível mudar tudo e desenhar uma curva numa estrada reta. Fazer uma inversão de marcha. É preciso estar atento para não deixar escapar esse fragmento do tempo.

Na tua última carta noto um tom mais passional e intolerante sobre a superficialidade das coisas, as aparências, as futilidades. Também sou assim. Gosto de procurar a essência. De escavar. Escavacar é uma palavra feia, bruta, mas que exprime melhor o que quero dizer. Essas pessoas de que tu falas (excecionais, marginalizadas, divergentes) são pessoas reais e que resistem, como dizes. Por isso não me admira nem um pouco a tua reação na nossa conversa acima (risos).

Fiquei muito impressionada com o relato que fazes desse senhor que conheceste, que vive na rua e tem o coração no mundo. Certamente um ser único que nos faz ver que nós, os outros, andamos permanentemente em contramão. Mas o idealismo paga-se caro e existe um compromisso mínimo entre o ser humano e a sociedade em que se move, senão dá-se a rutura: social, afetiva, psicológica… é um caminho sem retorno. Para todos nós: os que partimos e os que ficamos.

Eu não quero falar de mim, não hoje, porque tu me intuis e me constróis por dentro. Falando dos outros, do que os meus olhos veem, tu vês para dentro dos meus olhos também.

Temos tido ultimamente a imprensa portuguesa dominada pelos escândalos da política brasileira e tentamos todos, brasileiros ou não, encontrar um tom justo para a indignação, para o protesto, para a reivindicação. Um equilíbrio precário em que é muito fácil cair na manipulação e tornarmo-nos meras marionetas da imprensa e do padrão cultural dominante. Mesmo para os mais esclarecidos.

E continuaremos, tu, eu, a Cris, a Sant’Ana e quantos se quiserem juntar a esta festa das palavras, dos sons e das imagens, a conversar sobre tudo o que nos toca.

Um grande beijo desta tua amiga embarcada numa viagem de desfecho imprevisível.

Clara

Lisboa, 3 de Abril de 2016


*******





Clara,

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Passei boa parte do dia assistindo à sessão da Câmara dos Deputados na TV Câmara. 31 horas já. De depoimentos ininterruptos. Não pensei que isso iria longe assim. O drama é forte. 

Alguns depoimentos são risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontrei figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Sou contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso.

No Rio de Janeiro, o carnaval pela democracia. Com direito a pão e mortadela. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil. Pão e circo e o povo indo atrás. Que povo é esse? Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”. Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. De um lado o time dos Coxinhas, do outro a equipe dos Petralhas. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo.

Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. E tudo pode começar a ter um desfecho no dia de amanhã, domingo, dia 17 de abril de 2016. O dia da votação no plenário da Câmara dos Deputados, uma de nossas “casas do povo” e onde o verdadeiro povo quase nunca tem vez e voz. O dia do “Fica Dilma!” ou do “Fora Dilma!”. 

Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torço eu para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. O Brasil ainda precisar crescer muito, em muitos setores da sociedade, e não é com esta cambada de meliantes engravatados que lideram o processo de impeachment contra um partido, o PT, que isso irá acontecer. Torcer. Torcer muito.

Deixando um pouco a política de lado, dizer a ti que gostei por demais de tua criação. Uma conversa possível, eu diria. Você e sua altíssima qualidade criativa, Clara. Não é para menos, não é? Mas, de toda forma, foi uma surpresa boa para mim. Bom demais ler a fantástica introdução em sua produção textual. Uma conversa que versa sobre humanidades. Humanidades e “engenharias humanas” misteriosas. Dizer que quero sim, esta partilha! E que sempre quererei.

Aqui o sábado foi de frio. Caruaru com cara de São Petersburgo. Dia branco. Minh’alma também, branca. Há um vazio. Uma expectativa. Quando tudo se cala dentro, mesmo me sabendo forte o suficiente para seguir. Quando a poesia dentro da gente se cala. Cálice. Tortura. Algo que oprime. Algo que atordoa. Algo que atravanca. Por isso a escolha por pausar aqui. Pausar e esperar. O pulso. A lâmina. Eis a vida.

Até logo mais, Clara querida.

Caruaru-PE, 16 de abril de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.