terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A antimorte


Por Germano Xavier

para Nicanor Parra, in memoriam.



dentro do coração há um coração
sem boca, sem fosso, sem fim,
de onde nada escapa
e de onde partem embarcações de amor.

não morremos sós pelas mãos
ingênuas da vilania, morremos em reunião
por conta dos passos dados a esmo,
das ruminâncias e das indigestões.

o deus que há no homem
sabe imaginar a perfeição,
mas somos paisagem branca,
mentira e hipocrisia.

por isso, por tantas serem as direções,
resta-nos a poesia.
depois, nada fica sem nome no mundo.
nada. nem o adeus.


* Imagem: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/centenario-de-nicanor-parra-tera-exposicao-biografia-visual-livro-inedito-12750012

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



A despeito do Tempo

En dépit du Temps

Une tonne est remplie de temps, de poids crasseux
Par le métal des choses, la bigorne soumise à des va-et-vient qui m’écrasent le crâne
Des coups de marteau en forme d’agonie et de douleur.

Et cette même main qui me pince ou me réconforte,
Cette main qui m’atteint comme les poings d’un boxeur
Infiniment neutre, autant que la pluie ou le beau temps,
Est la sentence qui nous enferme tous
Sous les mêmes cieux d’un même temple,
Le temps étant le gardien de la santé!

À cause de ce sol immense et d’innombrables obstacles
Je fais semblant de respirer en dépit de l’air
Qui te harcèle ou t’avale,
Qui t’enlace, en somme, inévitablement.

J’imagine que je respire et que je suis
L’air lui-même, quoique faible,
Même étant l’air qui dérange

Raréfié, qui-sait.

(et l’inspiration ne sera plus que le calme qui nous garde sous la bonne voie) car respirer c’est (encore) le même que vivre.



* Imagem: https://pixabay.com/pt/rel%C3%B3gio-rel%C3%B3gio-de-parede-tempo-de-1274699/

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIV)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Paixão de meus ossos


La passion de mes os

Il s’est fait glisser par la vie sous les débris du temps,
Le cœur grand ouvert comme un arc démesuré,
Telle une immense usine d’années, les murs fendus.

Lors du départ il est resté un moment
Le corps ailleurs, sans penser, le sourire en avant,
Il a dit non ; et têtu, il a choisi de rester là-bas,
Et il a résisté, sans hésiter.

Continuer à vivre, conserver l’existence est tout ce qui lui reste.

Naître ainsi, libre, indestructible, si présent ici
Puisque son issue n’est prévue nulle part sur un livre.

Vivre en une quelconque pénombre, en dépit de tous les malgrés
(car il était fait de poésie)/ décider ce qu’il était et ce qu’il fût
En protestant, toujours. Car il résiste encore.

Mon amour
// écouter notre chanson aujourd’hui
Et à chaque note des milliers de minuscules morceaux de moi
Te rencontrer, entière, dans mes yeux
Ceux yeux qui glissent des secrets sur la peau//

Ce jour-là où nous sommes nés,
A déclenché un nous en moi, en toute liberté,
Un nous qui est le nôtre, rien qu’à nous.

Tes yeux dans mes yeux ont fondé une poésie nouvelle et absurdement forte,
Douloureuse et humaine.

Et nous avons été heureux pendant des heures éternelles et des instants infinis de mots et de regards.

Et dans l’ombre d’outre-mer nous avons écrit des humanités
Des rencontres et des retrouvailles dans un livre dont la couverture dénonçait discrètement l’amour.

Cette passion de mes os…ô, je voudrais tellement pouvoir
Créer des hivers et faire en sorte que toutes les eaux
Se rassemblent sous nos corps
Je construirais alors une maison vitrée pour te protéger.

Dans mon domaine,

Ainsi, en face d’une joie atroce, nous fermerions nos paupières pour ne pas mourir à deux.

// et sous nos tissus partagés,
Cette douce invention du rythme, ou l’image vertigineuse
Du vers-verbe de la vie, du blé
Qui subsiste sur nos peaux (en permanence),
Nous chanterions la mort réfléchie à chaque frottement de peau,
À chaque instant magique ou présent
Et penserions surtout à travers les désirs
Par les fruits en devenir de l’absurde sous les manches inversées du temps,
Dans l’huile qui fume l’essence de toutes les destinées, qui mènent à l’amour.



* Imagem: https://pixabay.com/pt/corda-n%C3%B3-string-for%C3%A7a-cord%C3%A9is-3052477/

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIII)


Por Germano Xavier

"tradução livre"



Estrutura para ungir orvalhos

Une structure pour oindre la rosée

Il y avait de l’or et des grottes là où nous avons creusé,
à l’aide de la poésie, du temps. On s’en est servi
pour lapider l’art de construire la nostalgie,
Quelle quantité de nostalgie pourra-t-on ranger dans un siècle ?
Et les regards ? Et les amours ? Combien de siècles
se tiendront debout dans un regard rêveur, amoureux ?
Et combien d’amours pourra-t-on garder dans un siècle
nostalgique et son regard ? Qu’en est-il de l’amour, oui, de l’amour ?

Et l’homme converti en poésie et en ombre,
L’homme devenu silence
Devenu nuage, autrefois, est devenu pénombre.
L’homme des silences absolus
c’était moi, peut-être.
(Cryptographié en chair vivante).

L’homme, il lui faut juste la mer,
Une mer à lui seul.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/mil%C3%A3o-cemit%C3%A9rio-escultura-2698731/

domingo, 10 de dezembro de 2017

Minha vida e o português brasileiro contemporâneo



Por Germano Xavier


Desde que inventei de assumir o posto de professor pela primeira vez em minha vida, ali pelos idos do ano de 2004, precisei mudar o trato para com a Língua Portuguesa. Antes, aquele jovem professor, com vinte anos incompletos, muito inexperiente e refugiado em um mundo onde a literatura representava o reino mais perfeito dentre todos os outros possíveis, facilmente confundia o que era mesmo importante a ser reforçado ou levado à discussão diante de uma plateia que, por vezes, passava dos cem alunos. O jovem professor que fui, encantado de maneira plena com a possibilidade de poder auxiliar pessoas em suas diversas escolhas profissionais ou de vida - propriamente dita -, ainda desconhecia em parte o poder dos letramentos.

Foi com o tempo - e já se passaram 13 anos até então -, que o professor que sou foi se formando e adquirindo o que outrora muito lhe custou: a plena percepção de que promover o letramento de seus aprendizes através de estudos novos e reformados da língua e seus afluentes era o caminho mais aprazível a se almejar. Assim, a gramática – dura e pura – começou a ceder espaço para atividades epilinguísticas, que percorrem um caminho de análise que parte do uso para, no fim, retornar ao uso, passando antes pelo momento da reflexão. A minha fala foi deixando de ser uma fala forte, de tom único, que se expandia pelo vão das salas tal qual uma verdade absoluta, tal qual um colosso inquebrantável. A minha fala deixou de ser a “minha fala” e se transformou na fala dos meus alunos, na fala de suas experiências de vida, na fala dos outros que somos, na fala das ruas, na fala dos acontecimentos, na fala do mundo.

Destarte, aprendi que textos autênticos, falados e/ou escritos, dotados de força vital, seriam as melhores armas para fazer com que meus aprendizes partissem diretamente para o momento de beleza máxima que é o da construção de sentidos, não estritamente ligados à língua, mas também os seus próprios sentidos percebidos enquanto seres humanos singulares um a um. Com isso, em minhas aulas, adentraram a sala de aula os mais diversificados autores, músicos, poetas, escritores e artistas em geral, de todas as categorias e nichos, com ou sem prestígio social, aclamados ou não pela crítica muitas vezes burra e parcial de nosso país. Foi quando comecei a dar aulas de base semântica utilizando um cedê da funkeira ou do pagodeiro da moda, quando fiz um debate de cunho mais pragmático relacionando o noticiário do momento e quando prestigiei a análise dos discursos assistindo aos vídeos mais descolados que tanto faz a cabeça da garotada.

Esqueci de destacar: nesses 13 anos como professor, tenho escolhido ser professor de alunos menos favorecidos socialmente, alguns muito pobres, outros residentes em localidades fincadas em zonas rurais quase que totalmente esquecidas pelo poder público do Brasil, que sofrem com carências mínimas relacionadas aos mais comuns dos direitos humanos, como falta de água, alimentação e moradia. Um Brasil profundo que muitos professores, pelos mais diferentes motivos, desconhecem ou fingem desconhecer. Esses aprendizes, ou seja, aqueles meus alunos que mais dificuldades passaram durante a vida escolar – e também não só durante a vida escolar -, foram os que mais me fizeram aprender sobre a necessidade de eu reformar métodos e planos de ensino.

A língua, num olhar geral, só é ativada a partir do momento em que se dá a produção de sentido no interior de uma força de interação social. Se não ocorrer tal fenômeno, de nada servirá aprender ou ensinar uma língua. É a partir do uso que o falante se constitui enquanto ator social, é a partir do uso que o escrevente se forma cidadão pensante, é a partir do uso que as gramáticas se fortalecem e se sedimentam como bases necessárias... Portanto, é a partir da vida que pulsa em cada novo aprendiz que o ensino-aprendizagem de uma língua se legitima. E tem sido assim comigo, desde que adotei o português brasileiro contemporâneo como idioma a ser ensinado em quaisquer das salas de aula por onde passei - zonas rurais e interior da Bahia e de Pernambuco, na capital do Maranhão e na capital da Paraíba - e que, indubitavelmente, ainda transitarei.

Partindo do pressuposto de que somente há língua em uso e de que todas as engrenagens atreladas a ela constituem atividades próprias à natureza humana, minha felicidade mais gloriosa se dá justamente em finais de ano como o de agora, mês de dezembro já adiantado, quando presencio novos e eternos aprendizes sendo encaminhados para as estradas do mundo, cada qual possuidor de uma fala e de uma escrita não mais fracas ou inoperantes, porém capazes de mover pedras imensas e de abrir picadas onde antes era só e somente só escuridão e incerteza. Tem sido assim a minha vida como professor, dura e densa como um rochedo, mas também leve e fluida como uma esperança.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-quadro-negro-blue-conselho-1869471/

A espera



Por Germano Xavier



a espera, amor.
a espera,
eu a acomodei
acima das feridas.

precisamente
entre a cavidade esquerda
do peito
e os quilômetros até o encontro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/malas-de-viagem-trem-black-branco-2525193/

domingo, 3 de dezembro de 2017

Miró, até agora e até quando



Por Germano Xavier


A poesia de Miró pega o último ônibus da cidade grande e roda a madrugada inteira, para e se opõe ao fim da linha (da vida). A poesia de Miró sempre recomeça quando o fim parece ser a última estação. Pega o rumo e quebra esquinas, dobra-se na dor de ser quem se é ou quem se foi. Duplica-se no orgulho da reviravolta, afugenta-se. A poesia de Miró é Muribeca, mas também é o espanto por São Paulo. A moça na rua vendendo seu orgasmo por poucos reais, o homem preso em sua própria solidão, o dia com pressa e a lerdeza de tantos. Miró soca mais forte que Rock Balboa, perde e ganha a luta, vence, chora, morre e renasce. É um trabalho de catador a poesia de Miró, uma palavra dotada da mais pura humanidade, severa e doce ao mesmo tempo. Urge recortar o tempo em que se vive, mas também recorta o passado. Feita de cimento e barro, a poesia de Miró insiste, grita e pede. Nunca implora. Existe. É a voz de um sem-voz-milhares. É a fala do coração ressequido, o lamento do pulso amargo e frio. Miró é lâmina com ferrugem, agulha encontrada no meio do palheiro, ou melhor, do lixão. Até agora a poesia de Miró é o seu próprio caminho, que condena outros e que condensa vários. A poesia de Miró é aquela que corre para dentro da chuva e que quer se molhar nas lágrimas das gentes inteiras, feliz ou triste, mesmo as enfermas. Miró, até agora, é uma dose extra de crença em nós mesmos e na literatura, o próprio jogo da amarelinha, céu e inferno, Rayuela, livro desmembrado em poucos quilos de carne e osso e verdades. Miró caroliniza-se, em seus-também quartos de despejos de andar por aí e além. Prova disso é seu verbo, simpático ao perigo de que muitos medram. A poesia de Miró é até agora um achado e nós, pobres mortais, precisamos conhecê-la. Água turva, manancial assoreado pela ação do tempo-homem, palavra grossa e punitiva. Miró é São Bento do Una, terra natal de meu pai, é Recife, Hellcife, é todo um Brasil que ainda faz de conta que não e que sim. Fotografia úmida de fogo, ardente e firme em sua forma de ânsia. Miró Até Agora é uma obra que reúne os livros de Miró publicados entre 1985 e 2012, e que engloba os seguintes produtos: dizCrição (2012), Quase crônico (2010), Tu tás aonde? (2007), Onde estará Norma? (2006), Pra não dizer que não falei de flúor (2004), Poemas para sentir tesão ou não (2002), Quebra a direita, segue a esquerda e vai em frente (1999), Flagrante deleito (1998), Ilusão de ética (1995), São Paulo é fogo (1987) e Quem descobriu o azul anil? (1985). Miró necessita. Miró é ontem.




* Imagem: http://www.suplementopernambuco.com.br/edicao-impressa/69-mercado-editorial/1658-os-dez-melhores-poemas-de-mir%C3%B3-da-muribeca.html

Uma palma transbordante



Por Germano Xavier



I


é apenas ilusão, amor,
o tempo, a distância
que dizem, os ignorantes,
que nos separam.

tudo, porém,
| inclusive a espera |
é só o caminho.



II


caí
ao descobrir que meu
corpo carregava o mundo
e toda a vontade se escondia
em minha pele de inocência.

caí
e logo escorreguei no desequilíbrio
perverso entre os dons e os grilhões.
E lá fora, dentro da bolha, os homens
patinam entre a impotência
e o desespero.

tropecei nas fissuras humanas,
nos golpes de (in)tolerância
e na violência dos desejos.

adoçar o céu da boca
com o paraíso dos sentidos
é incendiar infernos
para a eternidade
que (ainda) nem começou.



III


já era antiga e íntima,
perfeitamente adaptada e confortável
no pequeno alojamento onde se fixou.

não propunha nem discutia,
apenas apoiava.
sustentava e consolava.

resoluta, há anos era a única coluna
em seu eixo de existir.
aquela dor, anexa ao homem
por desastroso acaso amoroso,
já era desde o túmulo esperado
sua única e possessiva amante.



IV


ele junta as mãos
em sinal de solene
devoção
a devorar os horizontes,

e num relance de
material mistério

prende em seus dedos
e vontades
todo o mar
e o meu centro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/garota-preocupada-mulher-%C3%A0-espera-413690/

sábado, 2 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCII)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Círculos de cura em minha casca

Sur ma peau, des cercles qui guérissent


Les cœurs condamnés se hérissent,
Alors que les cris sont comblés, menus et murmurés
Imprégnés d’une joie perverse vide de zèle et d’amour.

L’ombre rachitique sur le ciment
Dévore les jeux d’enfants, à contre-courant des vents
Elle essaierait sans doute, si possible

D’interdire l’impossible.

Ma main conquise par la poésie,
Sur un terrain imprécis et pourtant ferme,
Expulse de mon corps les idées sombres, exemptées de soleil,
Et réclame un sol tout à fait inoffensif.

Ma main m’apprivoise, me griffe la peau comme personne d’autre,
C’est une raclée magistrale, un coup de poing bourré de pluie
{Si au moins elle était semence et foyer pour moi…
….en gros tout ça}

Un morceau de rêve jeté quelque part

Sur le chemin de mes ruisseaux


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-brown-c%C3%ADrculo-corte-detalhes-84678/

domingo, 26 de novembro de 2017

Com(junto)



Por Germano Xavier



é a capa
é o núcleo
a aparência
e a essência
o amor, este meu-deus
em mim é
todo o conteúdo
e o excedente.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/trem-bloqueio-idade-ferrovi%C3%A1ria-2974778/