domingo, 31 de janeiro de 2016

Escoltas

*

Por Germano Xavier


Ela não costuma chorar. Ao menos, não com os olhos de fora. Afora isso, chora todos os dias, por todos os poros de sua alma líquida. Ela chora o mundo inteiro. Tem o sentimento do mundo no centro de sua íris de esperança. Mas a esperança é o mais sórdido dos sentimentos, não é, Borges? Por isso, o choro não produz ouro nem perdão nem milagres. O choro só nos traz mais do mesmo, abarrotando o nosso celeiro de dores. Mas ela chora e é lindo o seu choro de nuvem. Eu beberia suas lágrimas, mataria seus inimigos com espadas de cacto em flor, pararia o sol para que a lua tivesse mais tempo para consolar seu corpo e alma. Eu choraria seu choro se isso a fizesse doer menos. Quando ela chora, também fica salgado o meu rosto.


///


e na escolta de nossas almas
o precipício
/perto o suficiente para causar vertigens/

a visão turva
o sinal de desequilíbrio

do lado de dentro
/tumulto/

do lado de fora
/catástrofe/

torceremos para que o dia acabe
enquanto o prejuízo
/contabilizado/ ainda pode ser 
contado sem lágrimas

pouco mais de horas
e nos esqueceremos dos anos

/somente o amor 
ou é teimosia?/
salva da insanidade os dias


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/reaching-an-end-to-it-all-487767024

Nada muito sobre filmes (Parte XXII)

*

Por Germano Xavier


NO CORAÇÃO DO MAR

NO CORAÇÃO DO MAR (2015), do diretor Ron Howard, está em cartaz nos cinemas. Como se trata de mais uma produção cinematográfica envolvendo o clássico da literatura MOBY DICK, uma das narrativas literárias mais especiais de toda a minha vida, não poderia deixar de assisti-lo. O filme não parte da obra em si, escrita por Herman Melville, mas da história real do navio baleeiro Essex, que saiu do porto de Nantucket em busca de óleo de baleia ali no inverno de 1820 e que serviu de inspiração para o livro do renomado escritor norte-americano. O filme consegue transmitir o imaginário do livro e pode até surpreender aos mais desavisados. Merece, sim, o ingresso. Aos apaixonados por narrativas marítimas, a la Melville, Conrad e Hugo, minha total recomendação. Aos que não estão dispostos a ler as 600 páginas do livro, o filme pode servir de caldo. "Esguicho, Capitão! É ela! A baleia! A baleia branca!"

GUERRA MUNDIAL Z

GUERRA MUNDIAL Z (2013), do diretor Marc Forster, até que começa bem e vai e vai e vai... naquela coisa-toda de zumbis, colapso total, apocalipse, patriotismo etc e tal. Mas aí, da metade para o fim da fita, o filme vem e vem e vem, num retrocesso de vagar as mais tenras expectativas... Conclusão rápida: é só mais um filme nesta perspectiva.

O ZERO NÃO É VAZIO

O documentário O ZERO NÃO É VAZIO (2005), dirigido por Andrea Menezes e Marcelo Masagão, é por demais sensorial, extremamente poético, sestrosamente silencioso. O lugar da escrita em cada um de nós pode ser considerado o tema dominante, mas a película vai além. Um documento visual sobre o escrito enquanto pele, sobre a palavra e suas potências de reforma, sobre o símbolo e a irreal realidade, sobre a física dos atritos e o carbono dos nossos traços fundadores. Dica de uma meninaCarol, num entrelaço de moça Helena, bem-que-nem poderia ser diferente... Recomendo a todos os mortais!

LOUCA OBSESSÃO

Se você é como eu, que gosta de um filme que consegue mesclar drama e suspense, não pode deixar de ver LOUCA OBSESSÃO (1992), do diretor Rob Reiner. A película é baseada no livro "Misery", de Stephen King, e oferece fortíssimas emoções a quem ousar assisti-lo. A primeira vez que entrei em contato com este filme foi numa aula da disciplina Literatura e Cinema, quando ainda cursava Letras na UPE/Petrolina, aula esta ministrada pela professora Clau G. de Lima. Alguns anos depois, pude revê-lo meses atrás. Ainda surpreende do mesmo jeito. Filme (in)tenso. Recomendo a todos os mortais!

REZA A LENDA

O filme REZA A LENDA (2016), dirigido por Homero Olivetto, tinha tudo para dar certo. Infelizmente - infelizmente mesmo! -, não deu. Fraquíssimo do início ao fim, com atuações levianas, estereótipos já batidíssimos e um roteiro sem pé nem cabeça nem cotovelo nem nada. A alcunha de "MAD MAX Tupiniquim" não serve nem aqui nem na china. De 0 a 10? Um 2,5, só pelo fato de fugir do gênero comédia, praga-mor de nosso cinema.

O CUBO

Eu devo ter levado umas três semanas para terminar de assistir ao filme CUBO (1997), do diretor Vincenzo Natali. Assisti aos retalhos pelo simples fato de o filme ser muito ruim - tudo não é uma questão de gosto? Como faço de tudo para terminar o que começo, foi o jeito ir até o final. Dizem as más línguas que este filme serviu de inspiração para a série JOGOS MORTAIS. Algumas discussões podem até brotar diante da trama... Porém, enquanto filme, não vale o tempo empenhado.

GABRIELA

O filme GABRIELA (1983), de Bruno Barreto, baseado em livro homônimo de Jorge Amado, remonta-nos ao sul da Bahia, ali pelos idos de 1925. Gabriela (Sônia Braga), retirante de beleza e sensualidade estonteantes, causa um verdadeiro furor nos redutos por onde transitam os coronéis do cacau. O filme distorce bastante o livro, explora o "erotismo" presente nas personagens e pode facilmente não encantar os olhos mais exigentes. Todavia, não é de perfeição extrema que se fazem os clássicos. A película, com todas as suas falhas e sangrias e clichês, não deixa de ser uma boa pedida para quem deseja adentrar na filmografia nacional. Recomendo a todos os mortais!

400 CONTRA 1

400 CONTRA 1, dirigido por Caco Souza, narra a história da fundação do Comando Vermelho, uma das organizações criminosas mais emblemáticas do Brasil. O filme se passa entre as décadas de 70 e 80 e foca a trajetória dos primeiros líderes de um movimento que criaria todo um conjunto de normas de conduta entre presidiários, invocando a solidariedade e a união por parte dos presos. O cenário principal é o presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. O filme é baseado em livro escrito por William da Silva Lima, um dos mentores do CV. Um filme simples, mas que cumpre o que promete. Vale a pena dar uma conferida, bucaneiros. Recomendo a todos os mortais!

O CAMINHO DE SANTIAGO

O documentário O CAMINHO DE SANTIAGO (2010), dirigido por Paulo Coelho, mostra o escritor em uma espécie de revisitação, anos depois, ao famoso trajeto de Santiago de Compostela que, segundo reza a lenda, serviu de base para todo o seu desabrochar espiritual, inspirando-lhe livros e mais livros. Sem querer entrar em detalhes sobre o autor de O ALQUIMISTA e parceiro musical do ilustre Raul Seixas, a película vale uma olhadela por nos revelar algumas facetas interessantes acerca da tão estimada trilha dos peregrinos do mundo-todo. Também, não passa muito disso.


* Imagem: http://www.bing.com/images/search?q=cinema&view=detailv2&&id=2EE53894EE40F2D1741AF4A409D70F08173A36B6&selectedIndex=88&ccid=3P1gcyfO&simid=608044035711436927&thid=OIP.Mdcfd607327ce2a4cc0c86942a8109fe8o0&ajaxhist=0

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
Morador

L’habitant

dans toutes les maisons
demeure une demeure égarée
une maison oubliée, une maison
inhabitée, vidée, expropriée d’elle-même
délaissée
dans toutes les maisons subsiste un habitant.

chez elle un cri s’endort
c’est une vielle enfant de l’âge anthologique
des anges, elle s’ennuie et trouble
la paix des fantômes,
le hurlement des brèches,
la quintessence de la brousse.

La maison n’oublie pas le silence,
n’efface pas les orgies du temps.
elle avoue, consentante et muette,
comme un cœur florissant, le sang qui glisse
des lits, le désir balayé sous
le paillasson.
La maison n’oublie pas, non plus
l’heure magique de l’amour.

toutes les maisons abritent un abîme,
elles sont toutes des âmes pensantes,
des blessures
auto régénérables
toutes les maisons sont le chaos
murées de mystères
habitées par la douleur.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mondrian-esqueness-274809439

sábado, 23 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 12 de Janeiro de 2014
Recado a Gullar

Message pour Gullar

le poète se meurt, Gullar,
à 23 ans. il est conscient
de son départ
et il sait jusqu’où il tombera,
lourd, un jour férié,
la veille de quelque chose.

il mourra aujourd’hui,
car c’est loin encore, demain
il est têtu mais la fatigue l’a emporté.
donc, il se donne.

aujourd’hui nous serons témoins
de la mort d’un enfant.

quelques semaines après, les balais de poils naturels
les rideaux improvisés,
le ventilateur blanc rangé à gauche du lit
les serrures, les verres, les serviettes
et les livres empilés sur la bibliothèque, la machine
le caoutchouc et les lampes sangloteront,
vidés de leurs sens,
devant la frayeur et la certitude,
du néant.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Daily-Sketch-21-586008060

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Amina Shah e a Literatura Árabe

*

Por Germano Xavier


“Nunca fuja de um leão”. Esta foi a frase que o príncipe Ádil inscreveu no chão de seu gabinete após conseguir vencer o medo e se casar com sua amada, a princesa Peri-Zade. Quando mais novo, Ádil fora colocado à prova por seu próprio pai, o rei Azad. Como primeiro substituto ao trono, Ádil precisaria provar sua bravura vencendo um feroz leão que habitava uma sombria caverna em seu reino.

A história intitulada “Príncipe Ádil e os leões” é apenas uma dentre as incontáveis narrativas populares que vagueiam milenarmente pelo mundo árabe através de suas sucessivas gerações de habitantes. A riqueza desses contos, míticos por natureza e fundadores de toda uma aura contingencial, é inconteste e, até hoje, séculos e séculos depois de seus afloramentos, ainda cativa leitores civilizações afora.

Desde os tempos mais antigos, os árabes estiveram interessados na arte de contar histórias. Alguns de seus contos têm um tom moral, outros são puramente voltados para o entretenimento. Alguns deles tiveram sua origem nos acampamentos dos povos nômades, à volta de fogueiras no deserto, antes que os árabes passassem a viver em cidades (SHAH, 1997, p.11).

A tradição de contar histórias definitivamente não é uma prática recente para os povos da Arábia, designação que, à altura do surgimento de tais narrativas, denominava o território que compreendia a totalidade dos locais onde se usava o árabe como língua padrão. A maior parte dessas lendárias contações surgiu no interior dos seios familiares e através de seus membros foram se perpetuando ad infinitum. Assim, tais narrativas acabaram por se tornar parte da vida de todos, logo ganhando ares de sagrado.

Na sexta-feira, que equivale para o muçulmano àquilo que é o domingo para os ocidentais, as pessoas frequentemente tem poucos afazeres depois de terem rezado nas mesquitas ou visitado a área comercial, transbordando de cores, de seus próprios bairros. Ocorre também que elas estejam, possivelmente, muito longe de casa, viajando por regiões desérticas, onde têm de criar o seu próprio entretenimento (SHAH, 1997, p.12).

A mitologia árabe é, desde a mais tenra ancestralidade, construída com base na força da voz das pessoas mais simples e guardada como uma de suas maiores heranças. Legado do mundo, as narrativas repletas de causos envolvendo príncipes e princesas, jins, reis e rainhas, tesouros escondidos e muitas referências religiosas, consagram no imaginário coletivo uma cor própria de se pintar palavras e, ao mesmo tempo, convidam ao encantamento e à beleza.

A literatura clássica árabe possui das melhores histórias que os homens conhecem, mas os contos narrados à luz do fogo, ou à luz das estrelas, ou à luz das modernas lâmpadas elétricas nos cafés de hoje, do Cairo a Cartum, da Andaluzia a Najd, todos eles mostram a marca do pensamento construtivo de muitas gerações. Esse costume de narrar histórias é uma arte viva, transmitida initerruptamente dos avôs a seus netos, que chega diretamente até os nossos próprios dias; desde o tempo de Saladin e de Harun Al Raschid, de Bagdá, até o momento em que você está lendo estas palavras (SHAH, 1997, p.14-15).


Referência: 
SHAH, Amina. Contos da Arábia: O camponês, o Rei e o Sheik. São Paulo: Kadyc Editorial, 1997.

* Imagem: http://natalialehmann.blogspot.com.br/2013/05/literatura-arabe.html

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte L)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014
O Rei derrubado

Le Roi déchu

au contraire et à l’envers, au temps tordu
à l’heure morte, sur un feu triste,
dans la gloire isolée, dans le rêve noirci
habite, apeuré, l’homme vague et absorbé…

dans l’allure et son contraire, dans l’ignorance
dans la pensée – et son absence -,
habite le siècle obscur, le tonnerre pâle,
sans visage, informe

ni les foudres, ni des armées perfides,
ni les peaux citrines du coton
arrivent à cacher le mal humain
sous les lumières tamisées ou les infectes satellites

ni les foudres nous laissent en héritage
la nourriture dessalée
de l’autre coté,
complaisant, le cheval ment
on devine chez lui le mal de mer
au trot de ses pattes de devant…


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Um-vento-que-me-segue-37196588

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Dedirrósea aurora (rhododáktylos)

*

Por Germano Xavier

são seus dedos róseos
como prolongamentos do céu
que me despontam odisseias


Imagem: http://www.deviantart.com/art/aurore-boreale-341772600

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 23 de maio de 2013
Robert Frost e a Estrada

Robert Frost et La Route

La route ne mène pas à la certitude,
ce n’est qu’un coin effacé, des heures mortes.
Elle mène plutôt à un reptile châtié
écailleux, fait de prières :
le venin de se meurtrir
le retour vers soi-même.

La route est sinueuse et allongée
c’est un tapis noir, un chemin de passage
du néant et des rondeurs du monde.
Celui qui le traverse est un battant, un guerrier osé
il y inscrit des marches de possibilités.
La face devient humide. Est-ce l’humus ?
La sueur est-elle si chaste ?
L’humain est-il si pur ?

Après la courbe on le voit
[il est vert ou gris ce bois]
Le bosquet nous émerveille : c’est le savoir même !
[Et le fait d’y penser].

Le chemin et la route se bifurquent
ce sont des destins à eux seuls.
Je suis courageux car je me lève
un matin ombreux
[c’est la démarche de ma mort…]


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/road-441589355

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 24 de setembro de 2013
Apoéticos

Apoétiques

je pleure la douleur
d’un poème
indemne
car les poèmes blessent
avec leurs armes invisibles
car les poèmes
quand ils ne sont ni bus
ni avalés
entièrement
ne sont que des abcès répugnants
et intraitables.
je pleure la douleur
d’un poème,
celui qui naît
et celui qui n’aboutit nulle part
à l’intérieur d’un homme
et qui ignore le chemin
de ses limites intangibles
je pleure la douleur
d’un poème,
et surtout
je pleure
la douleur d’un homme
sans poésie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/time-drop-57813963

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O cineasta que ouviu não

*

Por Germano Xavier


Meu nome é Matilde e dias atrás conheci um cineasta. Um escroto. O típico: meio roqueiro, meio hippie, meio Che. Hilário como as pessoas se esforçam para produzir uma aparência clichê, mostrar que são de uma tribo, que têm tal estilo, quando, na verdade, só estão copiando alguém, um grupo, um outro clichê. Artistas, socialistas, ambientalistas, e todos os “istas”. Não basta ser, tem que parecer? Um nada disfarçado de tudo. Assim era o falso Che de roupa de marca. Barba grande, bigode, ar desleixado propositalmente, tudo contrastando com suas roupas de grife, seu carro besta, seus equipamentos tecnológicos de última geração e suas ideias massificadas de pseudo-revolucionário. Cabeça cheio de ideias neo-libertárias-esquerdistas-ultrapassadas. Fingia importar-se com as minorias, com os marginais, com os ignorantes. Mas não passava de um merdinha egoísta, mimado, capitalista e machista. Ele tem uma produtora e acredita ser o melhor do melhor do ramo. Aprendeu a tratar a todos como clientes, conforme o grau de lucro potencial que cada um possa lhe dar. Um crápula. Menos escrúpulos do que o mais insensível traficante. Mas é charmoso, eloquente, bom ator, bonito, sorriso largo congelado e metido a engraçado. Mas o que ele realmente não esperava era que eu não o quisesse. Ouvir não o desnorteou a ponto de perder o rebolado. Implorou, fez chantagem emocional, material e o escambau. Não cedi. Não apenas porque conheço o seu interior podre de falso homem-evoluído, mas também porque amo alguém que é o seu oposto. Quem amo não precisa fingir ser nada do que não é. Porque o que ele é, é autenticamente original, só dele. Só ele tem a imensidão nos olhos. Até os seus defeitos são peculiares. Eu tenho pressa. Preciso ir agora. A chuva molhou meus sapatos. Na verdade, eu não tenho pressa e este texto diz apenas de uma mulher chamada Matilde, que deu de conhecer um cineasta escroto - nem todo cineasta é escroto, eu sei. Sem saber, ele, que amo um homem de dores, de extrema percepção. Um homem de altos silêncios. Reitero: de altos silêncios.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cinema-show-200100478

sábado, 16 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVII)

*

Por Germano Xavier


Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
Deus aberto

Dieu ouvert

quelque part
j’entends l’absolu
comme la pratique d’une vie
tel un contact
ou une religion ouverte
au delà du symbole
en quelque sorte
mon envie de passer de l’autre coté
définit l’homme possible
et nous ne pouvons pas être uniquement
selon toute évidence
des humains
nous sommes plutôt des mesures
les incompatibilités d’un dieu


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Grapevine-Ga-runt-knuten-383617275

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVI)

*

Por Germano Xavier


Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
A autoria da reflexão


L’auteur de la reflexion

l’autre
ne prends pas le temps
de l’expliquer

ou de le décrire

le tout
dans sa vigueur
hypothétique

hypothétique-théorique

la mesure
assumée
comme étant

peut-être


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-578709578

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 20 de junho de 2010
Bad trip

Bad trip

de nos jours une nouvelle drogue
(pourrions-nous utiliser un palindrome
et racheter le contraire de tout ?)
le monde entier s’accoude dans le passé
mais celui-ci s’en moque.

Qui osera danser dans ce voyage sans fin
qui est la vie ? ouvrir sa gueule et vomir
les prisons sans grilles
[que des bouches grand-ouvertes].

le fils tuera et mangera.
la mère tuera et mangera.
le père tuera et mangera.
c’est donc la famille carnivore qui se nourrit.
dans ma théorie sociale il n’existe rien d’autre
au delà de cette samba de tueries et de jeux de miroirs.

absence de cerveau, pas de douleurs, point d’hallucinations.
le voyage n’est que cardiaque et le cœur s’amplifie.
dieu a crée le verbe pour actionner la bombe sur scène.
et un secret pour une fuite prévisible :

prendre la blague en photo: notre essence éphémère
pour les enfant prédestinés des années à venir.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Auschwitz-Rails-442018557

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012
A pedra do núcleo

La pierre nucléaire

envahir la cellule de la pierre et vivre
la vie inexistante de l’essence morte
d’une pierre ; naître de la partie vivante
de la pierre et survivre, car la pierre n’est pas
une vie. être la vie et la mort d’une pierre,
pour qu’on devienne immortels.

percer la pierre obèse et rencontrer
l’immortel coté de la pierre, ta nature si dure :
si molle, toucher la mort dans la pierre
en touchant la vie épurée de la mort
de la partie mobile de la pierre,
sentir le froid de la pierre dans la chaleur de la peau ;

ton absence lors de l’explosion et de la ruine,
non pas par crainte de la mort ou de l’aveuglement,
mais car la pierre étant dure et immortelle
envahit la cellule d’une autre pierre vivante.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/uncertainty-of-fear-101527374

Mesmopulso

*

Por Germano Xavier


mesmopulso/
entre potes de pimenta e frascos
adornados com azeites clandestinos,
o estado das coisas agrava a vida,
cor e cheiro e chuva

mesmopulso/
saídos dos tachos que moendam o mel
da flor dos canaviais chapadeiros,
os homens absorvem o lento tempo
com a ancestral lâmina das horas

mesmopulso/
escutar os passos do pai
a bolinar a mansidão da manhã,
sentir o fogo-mãe a cometer livramentos,
a retorcer angústias marinando ausências

mesmopulso/
a voz que ouço nos corredores da velha casa
é a mesma de quando o chão era instinto,
a mesma de quando o bule chiador era alçapão
para cativar prosas mansas de tardes inteiras

mesmopulso/
os sons metálicos das pás dos pedreiros,
o levante do sol frio entre aceroleiras,
o rumo incerto de todas as pressas,
um circuito de essências nos silêncios


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/hand-25904212

domingo, 10 de janeiro de 2016

Teus silêncios

*

Por Germano Xavier


eu poderia catalogar teus silêncios
/por serem tantos/
/reconheço singularidades/
cada um tem o seu tom, a sua face
a sua solenidade própria

eu poderia ouvir teus silêncios
e abrir-me a um ritual diário
para que todos os vãos da minha voz
me calassem os teus ecos

/eu poderia/ mas
também é meu o teu silêncio
essa bruma que me envolve os dias
essa calma que o abismo incide

patrimônio de quem pousa


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/silence-81600545

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte X)

*


Olha só, Viana, a gente fala-se tanto e de tantos pequenos nadas que perco a noção do meu atraso na correspondência formal. Eu também gosto de formalidades, de etiquetas, até na amizade é bom poder contar com uma palavra amável no tempo certo.

Por isso te peço desculpa, sei que não gostas mas vai assim mesmo. Depois zanga-te se quiseres, mas eu estarei já sem essa pressão de ter falhado contigo sem sequer ter esquissado uma apressada justificação.

Então vamos falar de formalidades: dizer bom dia, uma palavra gentil ou encorajadora de vez em quando, perguntar se a tosse melhorou, falar da nuvem que passa agora na janela, convidar para tomar aquele copo onde não falaremos de nada mas viveremos tudo.

Não obriga a horários, exceto aqueles que de comum acordo definirmos, mas tem uma cadência, quase impercetível, um ritmo que nos sustem. Por isso quando eu falho um passo me sinto culpada, mesmo que tu não queiras.

Nestes quase dois meses de ausência de diálogo por esta via, privilegiámos outras formas de comunicação. Uma delas foi o respeito pelo silêncio do outro. Quando alguém começa a falar, a expressar-se, seja em que tom e de que maneira for, ninguém sabe quando vai acabar. Também ninguém sabe quando o silêncio acaba. Ele tem o seu próprio tempo e escolhe terminar quando o ar começa a faltar e as palavras voam soltas pela boca. Escorrem, saltam, explodem, às vezes.

Vou falar um pouco de tudo o que gira à minha volta: alguns vazios que vou preenchendo como posso. Uma filha que cresce depressa demais. E bem, direitinha e formosa. Uma ausência de objetivos concretos que me deixa insegura, uma obsessão pelo rigor que me deixa sozinha.

Eu adoro cumprir horários e urdir compromissos. Gosto de certezas, mesmo que sejam pequenas, a curto prazo, só no aqui e no agora. Eu lido mal com mudanças repentinas, trapalhadas, mensagens confusas, intermitentes, ambíguas, suspeitas.

Eu preciso do tal bom dia caloroso e carinhoso, mesmo que seja o começo de um hábito; o hábito é uma pele quentinha que vestimos e nos acalma a pulsação.

A minha produção tem sido escassa e irregular. Com fases em que fluem ideias e palavras, nem sempre ao mesmo tempo. E com períodos de vivências intensas, doces, amargas, surpreendentes, assustadoras, lúdicas, secretas, arriscadas, exuberantes. Viver intensamente nem sempre é viver bem. Queria morar naquela sinusoide que nos diz que está tudo bem, pelo menos a curto prazo. Mas ela não está lá e as arritmias são genes da criação mas não de bem-estar.

No meio de tudo isso tenho “as minhas pessoas”, fabulosas, que me amparam as quedas ou me retiram os espinhos do chão. Por pudor não queria dizer que tu, Viana, és um dos pilares dessa tribo, aquele que tudo faz pelos seus. Mas afinal acabo por não conseguir esconder-to.

As tuas palavras são as tais terapias que acalmam uma angina e uma forte tensão no trapézio. São um bálsamo. Nada mais temos do que a palavra, por isso tendemos a sobrevalorizá-la, pois ficam de fora os abraços e as conversas de fim de tarde, a troca de discos, os passeios ao ar livre, a ida ao cinema.

Falando em passeios tenho feito caminhadas brutais na minha cidade, uma experiência nova, não as caminhadas, mas a sua intensidade, extensão e grau de complexidade, pelo relevo do terreno e pelas vias atravessadas. Percursos de 7 a 8 quilómetros em terreno acidentado. Uma experiência vivificante. Não é milagrosa, ainda, mas lá chegaremos, é esse o objetivo. Regula o sono, permite colocar as ideias em dia e olhar a magnífica paisagem que nos rodeia há décadas e na qual não tínhamos ainda reparado com o devido respeito. Olhar com olhos de ver. É essa a finalidade, um exercício de contemplação, para dentro e para fora.

Parece simples, mas não é. Mudar pequenos hábitos, e substituir rotinas por outras mais saudáveis e prazeirosas. Ler tenho lido pouco, por incapacidade de absorver todas as palavras e todos os seus sentidos. Estou mais predisposta agora a vivê-las, às palavras, para que elas depois adquiram significados novos e sejam contadas. Por mim ou por outros.

Às vezes zango-me comigo, outras com os outros, as minhas expectativas são muito elevadas, o meu grau de exigência é imenso, incluindo comigo. Vou-me tornando intolerante em relação à maldade travestida de inocência, de incoerência, de simpatia.

A minha legendária cordialidade tem ficado submersa diante da expressão de outros sentimentos. Não quero parecer boazinha, pois na verdade nunca o fui. Talvez isso me traga alguns dissabores, talvez me ajude também a ver mais claro.

As festas de fim de ano vieram trazer muita azáfama à maior parte dos lares e cidades como a nossa, por questões logísticas, mais do que por qualquer outra coisa. Não gosto particularmente deste estado de coisas; a solidão pesa mais nestas alturas, não forçosamente para quem está só, mas sobretudo para quem se sente só.

Já passou; ouso dizer, ainda bem. Uma árvore de Natal e um presépio fazem-me perceber que esta época deveria ser algo mais íntimo, vivido com muito maior profundidade.

E tu, como tens vivido esta época tão cheia de contradições?

Da última vez falavas-me de solidão, diz-me, ela tem sido boa companheira? A minha, quando aparece, é uma persona incómoda, desagradável e espaçosa. Eu tento abreviar a sua visita mas ela é insistente e abusadora. Tenta ocupar um espaço que não lhe é destinado, interfere na conversa com os amigos, rouba tempo ao repouso e prazer aos momentos de lazer. É má conselheira e meio doida. Às vezes quer-me levar para dançar, outras faz-me ser excessiva e incorreta. Deselegante. Eu suporto-a porque ela é família; bem ou mal, é a única que fica quando os outros partem (mas entre nós, queria mandá-la para bem longe, junto com as suas manias). Se quiseres eu mando-ta para aí, para veres que não estou a exagerar.

Viana, eu quero saber tudo de ti. O que tens feito, como te sentes em relação a tudo, de que cor são os teus dias, como é o vento que bate na cara quando andas de moto. Do convívio com os pais às aulas que dás, quero saber tudo sobre ti, não em tom de interrogatório mas por interesse genuíno. Amizade.
Diz-me o que achares que eu devo saber, sem invadir o teu espaço.

Um beijo grande já esperançado numa resposta tua em breve, cheia de peripécias com cheiro e música.

Eu tenho saudades. Muitas, já.

Até breve,
Clara.

Lisboa, 3 de Janeiro de 2016.


*


Boa noite, Clara. Tão bom rever você em forma de carta, missiva esta que atravessa os infindáveis oceanos atlânticos de nós todos e termina por chegar aqui, nesta Iraquara chuvosa dos últimos dias de 2015 e dos primeiros de 2016, numa parcela da Bahia que há poucos dias estava a arder em chamas miseráveis e infernais, num incêndio que dizimou muito da natureza secular do Parque Nacional da Chapada Diamantina.

E por falar em formalidades, Clara, como vai você? Gosto-te tanto! A saudade de te escrever já estava imensa e quase sufocante. Mas que bom que. Como bem lhe falei nas linhas acima, estou a passar alguns dias em férias na casa dos meus pais, em minha pacata cidade natal, lugar de reminiscências múltiplas e de guardados imperiosos de nostalgia. E por falar em caixas e caixotes, veja que escrito lindo encontrei por cá numa dessas minhas tardes iraquarenses em vasculhamentos de biblioteca própria...

“Como Borges também descreio do fracasso e do sucesso. Sou devota de um certo poeta vivo que me faz morrer todos os dias. Mas vivo e sou dele. Ele caminha como quem sonha e sonha como quem padece. Ele acontece em Poesia. Sangra palavras e constrói florestas encantadas. As árvores o amam. Não temos intimidade. Mas somos íntimos. Vazamos verdades quando juntos. Ele não mente pra mim. Engulo suas verdades com água de amor. Só assim para continuar. Ele é meu chão de nuvens. Minha abstração da dor. Ele falta uma parte. Amo nele a parte que falta e seu desespero adormecido. Amo a sua incompletude perfeita. Ele me deixou ver um pedaço de seu inferno e eu lhe mostrei o tamanho do meu abismo. Pactuamos silêncios. Toda manhã eu me levanto para amá-lo. Porque assim a minha alma quis e não ouso contrariar essências. Se na minha lápide estiver escrito apenas "Uma mulher que amou um poeta", eu ficarei feliz. Ele, o homem dos altos silêncios.”

Não é de se embonitar toda a alma um excerto de texto perdido no meio do nada-tudo feito este, que nos acomete quando a gente se aproxima do passado, presente ou do futuro de nós mesmos? Eu, particularmente, ganho o dia quando descubro estas pequenas pérolas de humanidade entre as páginas dos meus dias. E você, Clara, gosta tanto de surpresas quanto eu? Conte-me, pois.

Clara, o silêncio é uma deidade. Saber confrontar o barulho do mundo não é tarefa meramente fácil. Há de se fazer muitas dobras de luta e acatar inaceitáveis dores. Silêncio é renúncia, por vezes. Silêncio é sabedoria, em outras. É um esforço que nos revela, também. Dias atrás, comecei a praticar o silêncio de amor. Julguei estar ferindo o direito ao silêncio de uma pessoa muito querida por mim, então a deixei sem minhas palavras em exagero. O silêncio terminou por afastar a pessoa de mim e sua falta é sentida até hoje. Não sei o que houve, por completo. Fico a imaginar coisas, e isso também é mácula silenciosa. Talvez esta pessoa esteja a querer me dizer algo que não pode ser dita com o verbo comum. Só através do silêncio. Pergunto-lhe, Clara, pois, o amor não é capaz de resistir bravamente a um silêncio escandaloso?

Diz-se que, com o passar dos anos, a gente se acanha e começa a preferir o rotineiro de paz e a tranquilidade das horas. Eu tenho lá minhas dúvidas se chegarei a admirar tanto assim o que é de ordem certeira e inviolável, Clara. Gosto por demais de tudo o que é repentino e que causa um danado espanto bom, mesmo sabendo que nem tudo pode nos aparecer como assim desejamos que. Eis uma outra forma de nos silenciarmos.

Silêncio perante o mundo nem sempre será interesse meu, todavia... e num como-instante a me recordar de silêncios que me atingiram, outrora recentemente, veja só que uma das indignações mais difíceis de aguentar foi então aquela que senti ao escutar uma conversa perversa, preconceituosa, na qual não pude interferir por imposição da básica etiqueta e da boa educação.

Confesso que não é sempre que consigo ficar calado, mas dessa vez, infelizmente, fiquei. Um pequeno grupo conversava próximo a mim, mas não o suficiente para me incluir na conversa. Falavam sobre o casamento de uma conhecida deles, médica, que tinha se casado com um rapaz, segundo eles, "simples atendente". O que realmente me chocou foi a forma revoltada com que falavam sobre o caso. "Como pode uma médica, de boa família, casar com um pobretão desses e ainda por cima, negro? Ele nem tem nível superior, um pobre coitado, não tem onde cair morto". Olhei bem para eles, o sangue quase fervendo de indignação e percebi que estavam pessoalmente ofendidos com o fato.

Por um instante, senti-me no século XV. O fato de entre os revoltados preconceituosos estarem uma assistente social, uma nutricionista e um enfermeiro, só aumentou a minha perplexidade. Surreal. Se a elite intelectual e social do país, formadora de opinião, que pressupomos mais evoluída e tolerante, age dessa forma irracional e criminosa, o que esperar dos demais? Quando pensamos que a humanidade evolui, deparamo-nos com cenas de tamanha barbárie, estupidez, mesquinhez e ignorância, que sentimos vergonha generalizada pela raça humana.

Nauseabundos. Única palavra que me veio à mente naquele exato momento. Estamos cercados de burrice crônica, pensei. Não existe palavra que abarque o sentido de tudo isso, existe? Só nos resta, Clara, resistir e avançar em direção ao centro de nós mesmos e correr (não apenas nadar) contra a correnteza. Eis mais uma faceta dos nossos silêncios cotidianos, minha querida. Um tipo de silêncio infrahumano – aprendi contigo esta palavra. O silêncio é, pois, um gigante de olhar biônico, que tudo vê e aflige e assusta. Porém, responda-me, para quê nos deram uma ensurdecedora voz?

Eu também me abri a novas experiências saudáveis, Clara, desde meados de 2015. Passei a frequentar uma academia que fica ao lado do prédio onde moro. Lá, corro, ando de bicicleta ergométrica, pratico musculação e, ainda, karatê com a turma do sensei Assis – parte esta minha preferida. As artes marciais sempre me fascinaram, desde muito pequeno. Quando no início da adolescência, pratiquei Kung fu, arte marcial de incrível beleza. Foi um tempo maravilhoso e inesquecível. As aulas aconteciam no antigo Clube Social de Iraquara, com um trio de professores de origem nipônica. Você já praticou alguma arte marcial, Clara? Quando você escreveu sobre seus passeios quilométricos, lembrei-me logo do escritor Mario Vargas Llosa, que também tem tal costume, que desempenha logo no período das manhãs - li isso numa entrevista em algum jornal.

Você tem razão, Clara. A solidão, essa secura por dentro, aquela sensação de arrasto que nos dá por longas horas e mais a fundo, parece mesmo ser mais próxima a estas datas de fim de ano. Nem as curto como a maioria das pessoas. Natal sempre significou para mim uma já batida ceia noturna com meus pais ou parentes próximos. Virada de ano, a mesma coisa. Nada de pompas em festas mirabolantes e de significados turvos. Apenas respeito. No mais, vivo estou. Com algumas tarefas a cumprir e outros sonhos a realizar. Escrevo-te da garagem de casa, com meus pais na sala a conversar e uma chuvinha fina “molhadeira” a banhar o solo de meu coração. E, faça-me o favor, não me mande a tal da solidão. Que fique longe de todos nós, apesar dela em quandos necessária.

A matar saudades verbais, um fiel Viana amigo.

Iraquara-BA, 07 de janeiro de 2016.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ler é resistir

*

Por Germano Xavier


Quem nunca se viu, de repente, diante de uma cena inusitada, poética, intrigante, lúdica e mágica numa cidade, seja ela grande, imensa ou pacata? Se olharmos bem, todos os dias somos presenteados com amostras - mesmo que em relances -, da pura beleza de ser humano, mesmo no seio de uma cruel e gigantesca selva de pedras. Comigo acontece sempre, quase todos os dias. O mundo está cheio de belezas, mas às vezes precisamos afastar a sujeira para vê-las. Dias atrás, enquanto voltava do trabalho, mesmo cansado e com dor de cabeça, observava as pessoas passando nas ruas. Sem pedir passagem, aquela figura domina a minha visão. Estava sentado sozinho num dos bancos de uma pracinha inacabada no meio da avenida. Aparentava ser um mendigo - afirmaria que sim, se não fosse pretensão, já que não perguntei. Vestido em trapos, um cobertor sobre os ombros, um saco de pano com alguns pertences ao seu lado, barbas e cabelos longos e já bastante grisalhos, mais parecia um profeta do Velho Testamento. Apesar do barulho, dos pedestres que passavam quase tocando nele, do trânsito intenso e de todo o caos de uma avenida da periferia muito movimentada, ele lia como se não houvesse mundo além do que estava em seus olhos. Era um livro médio de capa branca, foi só o que deu para ver. Estava sentado, muito ereto, concentrado, quase formal, num ritual solitário e poético. Não sei dizer o quanto fiquei impressionado com a singeleza da cena, um quadro para guardar, para consolar o dia. Para mim, que sempre adorei andar por ruas desconhecidas e conversar com gente despretensiosa - dessas vêm as histórias mais autênticas e mais humanas -, foi um desafio passar sem parar para saber dele. Dúvida nenhuma de que tem uma história mais fascinante do que a sua cena de insurgente no meio de um mundo embriagado pela banalidade de tudo. Não fui. Mas, em silêncio, admirei aquele homem. Senti orgulho dele. Amei, por instantes, aquele homem. Para todos os que passavam, um mendigo lendo, sujando a paisagem com sua presença incômoda, que lembra a todos o quanto somos medíocres e egoístas. Para mim, um momento de inviolável intimidade entre um homem e seu livro. Senti pena e tristeza pelos que passavam indiferentes, incapazes de enxergar a grandeza e a beleza daquela cena. Ali estava o poder da paixão. Ali estava uma bela forma de resistência.


* Imagem: http://blog.baratocoletivo.com.br/blog/variedades/dica-de-leitura-para-o-verao-de-2014/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2015
A nitidez das horas

La netteté des heures

nous sommes plusieurs/ les mois/
/toujours/ nous sommes
nous


un Saramago pour aimer
je voudrais être Pilar
le pilier de quelqu’un

/ou/

une Pilar pour aimer
je voudrais être Saramago
pour quelqu’un


Dimanche soir/
/je ne veux surtout pas/
de plume dans mes doigts


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-few-steps-away-582327360

Espelho das chagas

*

Por Germano Xavier

para Zé do Bode, in memoriam


morre-se, docemente,
diante das negras águas
do Rio Mucugezinho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Blossom-at-the-River-s-Edge-407950064

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Carbono


Carbone

nous n’y arriverons pas tous seuls
car nous aurons peur sur la route

nous tisserons des louanges aux chants de fiction
aux contes
la réalité nous nourrira
et les divers moyens de communication
nous donneront le ton, les lettres
acculturées, décousues

(nous semblions au départ un pari difficile :
le jour s’adoucissait dans la langue d’une femme
et dans l’abîme des allotropies de la chair)

nous étions ceux que nous sommes devenus
graduellement
suite à des pas successifs de génie
à chaque pleur
des mouvements de rames

nous avions bu la sève, le fiel et l’eau
nous avons été forts dans l’ombre
et subi les épreuves de cette dure école :

la violence des courbes de la route
[que nous avons choisies]
est toute une théorie téméraire

/un nuage sous forme de flèche
celui qui témoigne un ciel voilé
la nature elle-même qui se cache
la fleur qui naît sous le ciment/

nous n’y arriverons pas tous seuls
car la solitude n’aura jamais le dernier mot.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Un-Real-36191927

domingo, 3 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLI)

*

Por Germano Xavier


Domingo, 22 de Novembro de 2015
Um turno comigo


Monologue

je découvre le matin, le soleil déjà si haut
- je m’enfouis surtout en moi-même.
à midi je jour s’habille d’ivoire.
je me meurs lorsque je pense
que des jambes se plient
(le danger étant immense !).

Je me vois affaibli
et je me sens moins homme.

l’équinoce
(certaines choses sont sans pareil)
- et dans moi, si un conflit éclate
je suis un étranger vis-à-vis de moi-même.

si je pouvais partir, quel châtiment !
si je pouvais m’éclipser de ma route
me casserait-je en hémisphères
ceux que je porte en moi
cette partie autre et étrange,
comme un ennemi?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Vortex-582079433

sábado, 2 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XL)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 13 de Novembro de 2015
Danação

La furie

l’écrivain, lui, ne peut que très peu
[mais celui qui peut, un tant soi peu, pourra tout faire]
les mots sont en eux-mêmes une école d’univers
le texte est comme les battements de l’os
et dans l’os et ses dérivations nous écrivons de la musique
en noir & blanc

un récit est aussi puissant que l’océan
en lui nous essayons de nous placer
et d’exister (être le meilleur poème étant si peu…)
la portée du poème peut faire mal
il n’aura peut-être pas de temps
ni de place
ce qui est bon ne sera jamais que l’idéal

nous sommes un don
nous sommes celui qui travaille

ce qui est possible a une aura dorée
ce qui a été fait pourra être défait
comme dans un visage où l’on dessine plusieurs nons

le verbe, lui, il peut beaucoup
celui qui peut beaucoup peut presque tout
(rappelons-nous du monde, si vaste, si grandiose)
et moi, j’en suis sûr, je choisirais d’être le Roi.
E alors je m’incline et je note, tout simplement :
Oh, quelle furie !


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/image-581845310

No primeiro dia do ano choveu

*
Por Germano Xavier


(Ela)

no primeiro dia do ano choveu
saí para caminhar por ruas desconhecidas
li um livro de meu autor favorito
desliguei o celular para não receber mais ligações de feliz ano novo querendo xeretar o ano velho
escrevi um poema para o meu amor e depois joguei no lixo
fiquei olhando a chuva pela janela do meu quarto e ela me pareceu tão familiar quanto no ano passado
ouvi ele me dizer "quero você do meu lado, se você me esperar e tiver paciência"
respondi que nessa vida só espero pela morte (porque sei que virá mesmo) e que minha paciência está na reserva há uma década e acrescentei, delicadamente, que o amor em que acredito é aquele de quatro letras no papel
comprei um tênis pela internet porque ainda quero correr a São Silvestre um dia
escrevi uma carta para o meu amor e dessa vez não joguei no lixo
lavei roupa (mas a alma não enxágua e nem centrifuga)
depois veio mais chuva e pareceu-me que lavava a rua
mas as pessoas continuam a passar por ela


(Ele)

no primeiro dia do ano acordei cedo
antes de dormir, na virada, enviei uma flor virtual para ela
flores virtuais podem representar bem mais que apenas flores virtuais
por um momento estacionei o pensamento numa rua imaginária
amei por longos minutos o sorriso dela cristalizado numa foto
achei por bem continuar amando-a
construímos juntos uma penumbra silenciosa
então sentei para escrever textos de deserto
textos de deserto podem estar repletos de amor
ainda lembro de quando eu escrevia textos de chuva


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Crossing-in-the-Rain-398391434

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A nitidez das horas

*
Por Germano Xavier




sendo muitos /eus/
/sempre/ somos
nós



um Saramago para amar
eu queria ser de alguém
a Pilar

/ou/

uma Pilar para amar
eu queria ser de alguém
o Saramago



não ponham
/no domingo à noite/
uma pena em minha mão


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Oil-Painting-1-581312866

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pequenas crônicas obscuras

*

Por Germano Xavier


mesmo em segundos

ele não sabe (e nunca saberá) que foi ele que me fez perder quatro anos de trabalho árduo. sim, porque tentar amar (a quem você não ama) é trabalho árduo, inútil e desonesto. ele me fez perder quando apareceu. quando reapareceu e fez-se ele para mim. então, a minha vida passou a ser a esperança de tê-lo, mesmo em segundos, em minha boca.


na corrida, no tempo

naquele dia, ela correu como se fosse dois. ela o trazia tão perto de si, tão dentro, que chegava a sentir o seu cheiro, a sua respiração, a sua calma, seus pensamentos. definitivamente, ele estava ali. no correr dela. no tempo.


se ainda...

não vais me responder se ainda me...?


teus silêncios

teu silêncio, minha pessoa
engolfa-me em tenebrosa escuridão
quebra minha pena
sufoca minha garganta
em ondas de sofrer
(perco a respiração da alma)
quando tu te encobres
de mim, em silêncios de não


receitinha

receita ardida
você em mim
desperdício de mim

post scriptum. perdoe-me por não saber calar a genial estupidez do amor.


insônia

faça-me dormir
ou diga apenas que sente muito
ou fale somente a verdade


intuição indesejada

e não importa o que não me digas
te conhecer é o meu quinhão
(furtado) sei que tu sabes que eu estava certa
sobre aquilo...

post scriptum. é preciso conhecer para amar... ou amar para conhecer? só sei que te saber é o que me mantém querendo.


conclusão

não veio o sono
nem o bom senso
nem a revelação


(suponho que pensarás em me odiar pela manhã. mas desistirás por condescendência e piedade. também não acentue a indiferença e nem coloque mais tijolos no muro de gelo que criei. conceda-me (ou renove) uma ilimitada licença poética. seja bom como só sabem ser os animais e os poetas (e nem pense em me mandar para o psiquiatra. o tipo de que preciso ainda não inventaram.). mas esqueça tudo e faça o que a vontade mandar.

vieram a vergonha
o arrependimento
e os olhos vermelhos

post scriptum. isso também é ficção?


o modelo a seguir

você não me leva a sério
e isso até me deixa feliz
assim fica mais fácil te imitar


uma sentença inocente

"na verdade, só houve duas mulheres que me "tiraram do chão" na vida. uma era o meu amor da vida toda. aquele!", disse ele com cara de gato manhoso que não pode ter todo o leite que deseja. deitada, despojadamente ao seu lado, numa cama pequena de um hotel modesto, ela sente um piano caindo em sua cabeça e esmagando toda a sua existência. por um instante, seu rosto congela num retrato de humilhação eterna. "puta que pariu!, como ele pode ser tão sensível e tão insensível ao mesmo tempo!?", ela pensa. "como ele, tão experiente e evoluído, tão superior e raro, pode não saber que não se fala uma coisa dessas a uma mulher que o ame? como pode não saber que dizer a uma mulher que ela não foi a sua maior aquisição amorosa (a verdade aqui é irrelevante, nesse caso) é tão cruel quanto jogar vinagre numa ferida? (não que ela não soubesse. ela sempre soube o que não era pra ele. o que era é um conceito ainda em construção). mas ele me fala isso com a inocência de quem oferece um pote de sorvete". chocada e ainda meio catatônica, ela tenta se recompor e balbucia o mais convincentemente possível:

- eu entendo. isso acontece com todo mundo. todos temos a nossa "pessoa" na vida. a pessoa acima de todas. aquela que levaremos para o resto da vida e que pensaremos nela em todos os momentos de extrema dor ou de extremo contentamento (não obstante todos os nossos esforços contrários) e que, muito raramente, conseguimos ficar com ela na vida real. na vida real, geralmente ficamos com quem a vida nos impôs". o discurso foi bonito e era nisso que ela acreditava mesmo. piamente. ele, aquele homem-deus deitado ao seu lado naquela cama tão distante de sua casa e que é capaz de fazê-la quebrar-se com uma simples sentença, é a sua pessoa. para toda a vida. ele concorda, aparentemente indiferente ao desastre emocional que causou. e, logo em seguida, tão inocente quanto todos os inocentes, dormiu em paz.


perdoe-me

perdoe-me. a alma sangrou mais do que de costume hoje.
bom dia.

post scriptum. perdoe-me sempre. sinto-me vazando. torneira aberta. um iceberg derretendo ao calor de um sentimento inoportuno, porém vital.

e por favor, não me ache desprezível e servil. sou apenas amor por ti.


ainda aqui, em delírios sãos

começaram a chegar os e-mails, mas nenhum era você. quer mesmo que eu continue com essa torturante exposição do sentir amor perdido? temo que nem mesmo você consiga fazer parar isso. temo estar programada para chafurdar pra sempre nesse amor que me assalta a razão e me classifica no mais baixo escalão do ridículo e da estupidez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/With-the-young-i-m-not-580625577

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 27 de Outubro de 2015
A seco, o molhado

À sec, le mouillé

nous traversons [des chemins]
en collectionnant des arrivées
en déviant des départs
tout en gardant les instants présents,
cette danse des êtres


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/81-579527928

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Outubro de 2015.
Desencaixados

Les desamarrés

nous ne tenons pas dans une boite
mais si nous sommes nus
nous nous moulons
à l’intérieur de nous-mêmes


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chiaroscuro-576478486

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015
Sobre as regas

Sur les arrosages

arroser les fleurs
[même celles en plastique]
arroser les fleurs


* Imagem: http://dougnz.deviantart.com/art/Untitled-579246365

domingo, 20 de dezembro de 2015

Nas palavras

*

Por Germano Xavier


#1

Ela sabia que ele não atenderia o telefone. Não sabendo que era ela. E ele sabia. Mas a curiosidade, a vontade de tentar, a teimosia ou simplesmente o desejo insano, humilhante e quase mórbido de estar próximo... (Ao menos ouvindo o som do chamado do celular dele que ele nunca atenderia) era mais forte e dominante. Ligou. Chamou e ele não atendeu. Mas ela não chorou. Nem sofreu. Apenas revestiu-se de cacto e continuou.

#2

Naquele instante ela desejou apenas ser algo que ele amasse. Mesmo que fosse um livro. Sim, um livro. Livros são o que ele mais ama. Ou até uma palavra. Ele ama certas palavras com um amor especial. Pensa em como seria ser amada por ele como algo que lhe pertence para sempre. Gostaria de ser amada como ele ama um rio, uma rua, uma época, um lugar, uma lembrança. Gostaria de ser mesmo as letras que saem de seus dedos, adocicadas com o seu amor ou mesmo as lágrimas que caem em seu rosto, lavando a sua alma. Desejou mais do que tudo, ser Poesia e habitar seus pensamentos mais puros. Ser Literatura e conseguir transportá-lo para longe, muito longe. Para onde os mundos são criação sua e os seres são feitos de amor e nuvens.

#3

Depois de tudo, ele ficou rígido demais, formado demais, informado demais, calculado demais, ferido demais, cauteloso demais, para entender que ela apenas o amava do jeito mais primitivo e inútil. Nas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Figure-19-7-14-469209806