sábado, 18 de fevereiro de 2017

Salvos e íntimos como se nunca



por Germano Xavier



A porta já tinha sido fechada há uns quinze minutos. Eles, ainda em silêncio, olhavam-se sem saber o que fazer e sem saber o que queriam fazer. Na verdade, só queriam ficar ali na presença uníssona do outro, sabendo o outro, buscando o que já sabiam, procurando os velhos traços, os mesmos gestos, as repetidas manias e alguma dissonância do que sabiam desde sempre.

E saber era tudo o que tinham.

Sabiam mais do que deviam. Sabiam mais do que queriam. Sabiam tudo, mesmo quando não ouviam nada. Pensavam, ambos, na importância das decisões dos próximos minutos, no efeito do silêncio e da fala, do olhar e do tocar. Mas não agiam. Estavam paralisados e dominados pelo sufocamento do tempo. Não haviam previsto o imprevisto. O quarto onde se encontravam afastava-os do mundo e lançava-os num terreno delicado, completamente incerto, onde tudo poderia acontecer. Inclusive nada.

A voz presa dos dois contrastava com a torrente de pensamentos e sentimentos desconcertantes que a custo controlavam. Não sabiam se se fugiam, se se falavam ou se se agrediam em seus corpos como furiosos amantes. Um não sabia o que o outro queria, por isso mesmo não sabiam o que queriam. Estavam ambos presos ao incalculável da vontade alheia e isso os desprovia de suas próprias vontades.

Lutavam para desvencilharem-se do constrangimento insuportável do silêncio cavernoso e de seus medos infantis. Estavam lá por vontade própria, disso não duvidavam. Então, por que pareciam encurralados em seus corpos e incapacitados em suas faculdades mentais? Estavam inteiramente perdidos, mais uma vez entregues ao acaso das vontades imprevisíveis, do absoluto desconforto da intimidade forçada, do ridículo e do medo.

Mas havia livros. Sim, os dois haviam levado livros. Talvez prevendo uma pequena catástrofe como aquela. E os livros, ambos sabiam, sempre os salvaria de qualquer situação difícil. Os livros são os heróis improváveis, mas sempre infalíveis. Livro é salvação. Fato em que os dois acreditavam piamente.

Sem dizer palavra, ele pegou um livro e abriu numa página previamente marcada. Leram em silêncio. De repente, a mágica do reconhecimento se fez e eram os mesmos de muitos anos atrás. Tão simples, tão livres e autênticos quanto aquele livro que os resgatava. Estavam salvos e íntimos como se nunca tivessem se afastado por um dia ou uma década. Sentiam-se confortáveis e acolhidos na história do outro, na eternidade de seus saberes, dores e dúvidas. Sabiam o que eram e o que sempre seriam juntos.

Poetas.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/drinking-alone-20576515

A morte soprada



por Germano Xavier



você se posta longe, impenetrável
em tua indecifrável perfeição.

como uma deusa que se esconde
impassível, ferindo esperas.

em confissão, indefeso,
te entrego meus delírios,
te imponho as minhas preces,
talvez amor, talvez esperança.

e tu, como as divindades,
soberana,
executas o direito de me soprar
(mais uma vez)

para a existência no pó.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Walk-664313229

Compensações para pequenas mortes naturais



Por Germano Xavier



lograr a cada hora regurgitar a memória.
lograr a cada hora defecar a primazia do encantamento.
lograr a cada hora gozar a distância.
lograr a cada hora catarrear símbolos.
lograr a cada hora ejacular sorrisos.
lograr a cada hora expelir reminiscências.
lograr a cada hora digerir os fins.
lograr a cada hora deglutir lacunas.
lograr a cada hora pisotear palavras.
lograr a cada hora olvidar uma hora.
lograr a cada hora cunhar ulteriores sons.
lograr a cada hora peregrinar alacridades.
lograr a cada hora escarnecer dejetos.
lograr a cada hora registrar o pé na bunda que você me deu.
lograr a cada hora jamais cometer a audácia do mesmo flagelo.
lograr a cada hora urinar seus autores.
lograr a cada hora dominar a bela arte de viver sem você.
lograr a cada hora afogar teus ares.
lograr a cada hora a liberdade de te escarniar.
lograr a cada hora o laço com o feminismo que me falta.
lograr a cada hora desconchavar imagens perfeitas de você.
lograr a cada hora sussurrar panegíricos em voz passiva.
lograr a cada hora o desatino de deixar doer.
lograr a cada hora retirar os pedacinhos de você de dentro da minha cabeça.
lograr a cada hora a leveza de não te saber.
lograr a cada hora não ter sede de tuas novas.
lograr a cada hora permitir que os pequenos fragmentos de ti se despeçam.
lograr a cada hora serenar a ideia de que um dia eu te amei.
lograr a cada hora silenciar teus ruídos.
lograr a cada hora picotar o desejo de realidade.
lograr a cada hora a inércia de tua não existência.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/--664051708

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre brutos monstros e pequenos corpos



Por Germano Xavier


será possível uma solidão maior do que eu?



aqui nesta prisão
(alguns a chamam de Vida),
onde os ventos esbarram à porta
impedidos de trazer sementes,
haveria uma fresta
por onde passe a resposta?
haverá uma abertura esquecida
por onde escorregue a paz?

aqui nesta prisão alarmante
cheia de monstros brutais,
há pequenos corpos interrompidos
condenados a lembrar.

aqui (onde) sou invadido de catástrofes silenciosas,
acorrentadas aos meus dedos em alianças eternas,
sou alvo claríssimo de investidas sórdidas,
de insuspeitas recusas que
não me deixam ser.

então, (in)existo e engasgo.

meus pés reduzidos à marcha
não alcançam o querer
e só um ser que rasteja
sobrevive em mim.

aqui, nesta prisão
(alguns a chamam de Lar),
medo, dor e repulsa
povoam largas memórias
(apenas o entorpecimento liberta).

/esquecer é desviver/



aqui, onde
respirar é ofensivo e vergonhoso,
meu corpo todo é nudez
e espasmo e espanto
a implorar pelo fim.

(a minha paz é descuido
e vazio)

aqui, sim, bem aqui, lembro bem
minhas carnes rasgadas num silêncio criminoso
onde o grito
não ultrapassa o muro.

na prisão,
não há ouvidos
nem socorro:

só ironia.

contra a parede fria,
meu corpo, vencido, suplica:

“fuja, alma minha!,
esconda-se entre as nuvens,
para não me ver desistir..."

aqui nesta prisão
(algumas a chamam de Vida),
onde imploro por respostas,
onde escavo sentidos,
a divindade me assiste -
sádica ou impotente?

então...
fico quieto e resisto
ou esbravejo e (in)existo
além da minha dor?

aqui nesta prisão,
ainda há vida (?)
há(,) amor?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Interior-com-corpo-2-131209598

As revelações dos remos



Por Germano Xavier

/após O velho e o Mar, de Hemingway/



finquei-me na esperança de não ter esperança
(além da necessária em alto-mar).
obriguei-me apenas a aprumar o leme,
singrar as águas, matar as feras,
manter o rumo, salvar a vida.

(erigi em meu lastro roto, um monumento único,
Eternizado em marés contínuas; a dúvida)

finquei-me na espera de ver a luz
cortar a noite, fisgar a alma,
anunciando um razoável fim.

finquei-me no solo movediço de minha fé,
enquanto perdia as carnes de minha crenças,
pedaço a pedaço devoradas ferozmente
pela natural envergadura da vida:
a luta.

finquei-me na memória inexata
de meus sonhos inúteis e já agora
derrotados

pelas bocarras dentuças da realidade.

e eu que fui tão longe,
e tão alto,
e tão só
no mar alto
a me perseguir,
nunca me achei e nem fui.

já agora em fase terminal de sangrenta investida,
perdi o sentido, os sentidos.
perdi o arpão
(meu fiel definidor de identidade, de força,
de vontade, meu pulso, coração!),
perdi os remos, o orgulho e a ilusão.

restaram-me, apenas,
mãos feridas e incrédulas,
um corpo quase-meu

e uma carcaça estupenda como prova,
como prova de que vivi.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Caminhos-111610952

Nada muito sobre filmes (Parte XXIX)

*

Por Germano Xavier,
com extrema preguiça de escrever


Versos de um crime

1944. Allen Ginsberg e Lucien Carr. Poesia, literatura, contracultura e atração. Vai lá, dê uma espiadinha!


A casa dos pequenos cubinhos

Delicado. Quase sublime.


Bonnie & Clyde

Gosto da história dos dois, mas da versão cinematográfica de 2013, não.


Guardiões da Galáxia

Sei lá.


O último capítulo

Frustrante.


Black Mirror

A primeira temporada tem um conteúdo bem legal.


Demônio

Nem lembro mais de tanto que é desprezível. O terror/horror precisa se reinventar. Tá difícil!


A viagem de Chihiro

É deveras interessantíssimo. Todavia, é preciso entender bem o que há por detrás de tanta simbologia. O mundo oriental é fascinante. Para ver e rever, várias vezes.


La La Land – Cantando Estações

Valeu a meia-entrada que paguei.


* Imagem: http://www.blog.365filmes.com.br/2015/04/Estudante-reune-120-anos-de-Cinema-em-video-de-7-minutos.html

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 15/06/2016
O amor aqui


L’amour ici

l’amour ici
EST SI PLASTIQUE
si élastique
modulé
encadré
et classé
comme fragile
et envoyé
à l’expéditeur
sélectionné
au préalable
par un concours
irréprochable

l’amour ici
échappe à l’ironie naturelle
d’être imprévisible

il se doit d’être
capté
remboursé
conventionné
mesuré
(le rapport qualité-prix payera-t-il l’investissement ?)

l’amour ici
accessoire principal
pour la trame
de la vie sociale
doit être assorti
aux autres accessoires
le statut
la marche
l’escalier
la couche
la façade

la vitrine complète
fait craquer
l’entrée de l’estomac

L’AMOUR ICI
c’est un gadget qui compose
la vie sociale
matérielle
matrimoniale
maternelle
paternelle
bestiale/ religieuse
n’importe quoi

il faut évaluer

les bretelles
le salaire
l’obituaire
la table à langer
tout doit être en harmonie
avec la réelle fantaisie
de la mise en scène de la vie
faite par des marionnettes humaines
à piles


P.S. à São Paulo on manque d’amour,
on manque d’amour à Natal, à Minas,
et aussi aux quatre coins de Pernambuco
cet amour gratuit et silencieux
lugubre et poétique
n’existe pas
l’amour comme un chat
un cactus
un oiseau
de l’eau

léger comme les nouveaux nuages
libre comme les vents du Sud
fort comme le mot
amour
écrit dans le temps


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Pflanzmich-627086924

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confesso que li

*

Por Germano Xavier


A aventura da leitura começou cedo em minha vida. Muito, mas muito cedo, também não. Melhor seria se eu começasse este texto da seguinte forma: a aventura da leitura começou na hora certa em minha vida. Desta forma, até que soa mais verdadeiro. Mas há uma “hora certa” para se começar a ler? Sete ou oito anos de idade, com alguma margem de erro ou de acerto para mais ou para menos. É quando começo a recordar de alguns momentos... Guardo memórias ainda infantes de quando chegavam até mim alguns exemplares de gibis e alguns velhos e surrados almanaques. Foi assim por boa parte da minha infância no interior baiano. E, como sempre, tomado por um bom espanto, eu me agarrava àqueles materiais impressos e lia, lia e lia.

Com o tempo, revistas sobre automóveis e motocicletas foram me chamando a atenção. Meu pai, vendo meu gosto crescer com o passar dos dias, logo se prontificou a fazer uma assinatura da revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Tamanha era a fome demonstrada pelo conteúdo, que eu me prontifiquei a guardar todas as edições estrategicamente organizadas por anos e edições, além, é claro, de dificultar ao máximo as cada vez mais frequentes “mãos bobas” do meu irmão, que também começava a se interessar pelo assunto. Emprestar, para quem é aficionado e mesmo para um irmão, era sempre um suplício. Minha coleção de revistas sobre os mais diversos assuntos rapidamente entupiu uma estante e outra e depois mais outra, e assim sucessivamente. Perdi a conta de quantas tive, de quantas li. Até hoje, guardo comigo “notório saber” sobre automóveis e motocicletas em geral. Curioso, não?

No começo, literatura era mais difícil de se encontrar. Chegavam-me livros em porções parcas. Lia tudo. Quase tudo. Sem distinção. De Paulo Coelho a Dalton Trevisan e Borges. De Hilda Hilst a George Orwell, passando por Drummond e Melville. No início, bem lá no início, acreditei na ideia de que existia uma “Grande Literatura”, e mais ainda, que era bonito e elegante ler e expor conhecimentos sobre os “cânones” da literatura universal. Hoje sei o quão bobo era, o quão ingênuo fui. Os livros que outrora apontava como sendo magnânimos e quase solenes, hoje são apenas bons livros em sua maioria. Entendi, a bom custo, que não há melhor literatura que outra, que não há literatura ruim nem literatura boa. Entendi, senão, que existem literaturas e, principalmente, que existem circunstâncias de leitura literária.

A escola não me ajudou muito no processo de gostar de ler. Todavia, alguns momentos foram cruciais para que a chama da leitura fosse acesa dentro de mim. Um deles foi quando a professora de português cobrou a leitura de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e de Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos. Como aluno, não entendia bem o porquê de se cobrar a leitura de um livro para dar conta, depois, de algumas tarefas quase sempre banais. Hoje, do outro lado, como professor, entendo a importância de se levar livros ao encontro dos estudantes. E livros de todas as espécies, é bom frisar.

A escola, com todas as suas falhas e perrengues já ancestrais, ainda é um espaço em que se pode ensinar a gostar de ler, e de ler literatura! A maioria do alunado aprenderá a falar, mesmo que raramente, de alguns exemplares ou de algumas leituras. Outros alunos, mesmo que sendo poucos no meio de um enorme contingente, farão a mesma viagem que fiz. Uma viagem sem volta, diga-se de passagem, porque quem aprende a gostar de ler textos de cunho literário alcança o infernal paraíso insuspeito das coisas e do homem, e é muito raro alguém deixar este espaço para trás sem mais nem menos. São esses meus alunos os tesouros de minha profissão.

Jamais reprimi um aluno meu pelo fato de ele estar lendo um best-seller atual, dos que figuram nas mais reles listas dos mais vendidos, quase sempre sobre romances vampirescos ou distopias de cunho adolescente. Ao contrário, incentivo. Nem tudo o que parece ser, é. Nem tudo que é, é. O que é mesmo que garante a um texto ser taxado de literatura? Quais são os fatores de literariedade que ajudam a potencializar um texto? O que é mesmo essa tal de literatura de qualidade? Alguém aí tem a resposta? Eu prefiro acreditar, hoje, que a qualidade de um texto literário começa pelo olhar de cada ser-leitor e que um uso “afetadamente artístico” da linguagem não garante que o texto seja considerado literário. 

Por ser, ela, a literatura, um fenômeno cultural e histórico ao mesmo tempo, diferentes grupos sociais em diferentes épocas podem classificá-la de diferentes maneiras. Sendo assim, faz-se necessário crer na ideia de que a literatura não é um seixo inamovível. A literatura está mais para fluido, e mesmo as mais rígidas “instâncias de legitimação” atreladas à Grande Literatura não podem agregar valores incorrigíveis ao que denominamos de texto literário. Até mesmo as nossas expectativas podem mudar o conceito do que seja a literatura. Ou não?

Outro grande desafio que sempre tive e tenho em sala de aula é o de introjetar mais o “popular” no espaço do saber literário, de discuti-lo mais amplamente com meus alunos, especialmente em esferas de maior carência de recursos educacionais ou, também, em seus opostos. É preciso “impor” variedade. O professor está lá para isso, para ofertar. Como diz Márcia Abreu (2006, p.80), em seu livro intitulado de Cultura letrada: literatura e leitura, “a apreciação estética não é universal: ela depende da inserção cultural dos sujeitos. Uma mesma obra é lida, avaliada e investida de significações variadas por diferentes grupos culturais”. 

Assaz assim, como diz a autora supracitada, será inteligente de nossa parte entendermos que “não há obras boas e ruins em definitivo. O que há são escolhas – e o poder daqueles que as fazem. Literatura não é apenas uma questão de gosto: é uma questão de política” (2006, p.112). As razões para o surgimento de um leitor contumaz de literatura são as mais díspares, sabemos. Todavia, se observarmos tais indícios, a tendência é que outros muitos obstinados aventureiros da leitura sigam aparecendo mundo afora, talvez até com mais facilidade, sabedores de suas escolhas e capazes de discernir o que é melhor para si mesmos enquanto leitores. As literaturas, pois, agradecem!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/leituras-148596519

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Resistir pela água: por uma literatura viva



Por Germano Xavier


O homem é um ser literário, acreditem ou não. A literatura, por sua vez, é como a água do tempo, da vida. A água que alimenta a alma humana, e também o corpo humano, que nos preenche de cor, dor, força, medo e esperança. A água, no interior da literatura, pode ser também o território, o habitat, o próprio espaço dos fenômenos que nos constroem. “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante” (CANDIDO, 2011, p.182). A literatura, pois, pode representar o caos. O caos pode significar tudo. E a água, como parte integrante do todo do imaginário literário, é este deserto das coisas e também o oásis dos movimentos. A literatura, enfim, pode esboçar a paz. A literatura é o próprio mundo. A literatura é, enfim, o homem. O verso. O inverso. O reverso. De tudo. De todos.

A literatura é, antes de tudo, linguagem munida de significado, como requer Pound (2006). E tudo elevado à décima potência. Sem a presença da linguagem, nada pode funcionar com plenitude, o ser humano total não é construído muito menos reconstruído, o mundo não alcança seus refinamentos racionais de existência. Sem linguagem e sem literatura, a renovação da vida não é garantida. A água, por sua vez, é também uma linguagem. Linguagem dos que ribeiram os rios da vida e da morte, colo dos amargores e fonte das saciedades mais intensas. Literatura é, também, imagem, repertório de imagens.

No livro de Luís Alberto Brandão, intitulado Chuva de Letras, e que é, juntamente com o livro Cartas do São Francisco, de Nilma Gonçalves Lacerda, matéria central do presente texto, a imagem é explorada com demasiada intensidade, tanto é que a chuva de letras na tela da televisão, que acompanha todo o desenrolar da trama e que marcam as ações e os pensamentos do protagonista, provoca fortemente o imaginário do personagem, criando inúmeras possibilidades de ideias e suposições plausíveis, fato que evidencia o poder que a imagem televisiva exerce na capacidade criadora das crianças e dos adolescentes.

Há momentos, no livro Chuva de Letras, em que o receio de interagir com algum fantasma preocupa o personagem, de modo que tais imagens interferem no seu cotidiano, e ele passa a refletir sobre o que vê, tenta interpretar e procura compreender o significado de tudo que é retratado na chuva de letras reverberada na imagem televisiva propriamente dita. É possível perceber que, após essa preocupação inicial, ele se encanta com o que as imagens provocam no seu imaginário e passa a viver melhor, mais feliz, isso porque, como afirma Fittipaldi (2004, p. 103), “toda imagem tem alguma história para contar. Essa é a natureza narrativa da imagem. Suas figurações e até mesmo formas abstratas abrem espaço para o pensamento elaborar, fabular e fantasiar”.

O mero fato de o protagonista se abrir ao novo o faz se sentir melhor. Sendo assim, percebe-se que tudo que o personagem contempla gera um oceano de significados, possibilitando novas maneiras de explorar a realidade e capacidade para perceber o mundo ao seu redor, a partir da fantasia e do imaginário da chuva (água) a percepção se amplia e se consolidada a construção de novos saberes. Em retorno ao inventário temático que abriu este texto, Candido (2011, p.176) retoma o conceito de literatura e o traduz relacionando-o a “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura”. Em consonância com este refletir, há suspeitas naturais de que um mundo sem produção de significados em cadeia seria um cabal desastre, do mesmo modo que um homem que vive sem ter o devido contato com a literatura, ou com os textos de natureza literária, tornar-se-ia um impostor corpo disforme, pálido em termos de representatividade e de expressividade.

Não há homem sem água. Não há humanidade sem literatura. A água que é derramada em dias de chuva é o alento para o sertanejo, o fator de judiação para o favelado da grande cidade. A água esmaga o coração sofredor, assim como retira o amargo das secas. O povo é a água da literatura. A maior história de todos os mundos e tempos. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 2011, p.176). A literatura, pois, assim como a água, “é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente” (CANDIDO, 2011, p.177).

A humanização pelo fator literatura, para Candido (2011), deve ser entendida como todo processo que incute no ser humano rotas de reflexão, aquisição de saber, desenvolvimento do senso de alteridade, refinamento dos sentimentos e habilidade para enfrentamento das problemáticas do viver. Mas, por que a literatura seria tão importante para o homem? Qual o seu segredo? A literatura seria mesmo uma espécie de água, de líquido vital para a existência? No livro Cartas do São Francisco, escrito por Nilma Gonçalves Lacerda, a água figura no livro como o mote-mor da trama. A autora, fazendo um paralelo com a famosa obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, faz arvorar algumas unidades de cartas expressas direcionadas a um aspirante a escritor de histórias infantis e juvenis. Com sede por transmitir saberes, a autora faz um pequeno, porém apurado, apanhado do fazer literário relacionado à literatura infantil e juvenil, elencando informações tanto precisas quanto preciosas sobre tal atividade.

A literatura tem desses movimentos particulares. A água já foi território para várias importantes obras universais, desde as epopeias homéricas até Moby Dick, de Herman Melville, passando por Joseph Conrad, João Guimarães Rosa e tantos outros. Em Cartas do São Francisco, o Velho Chico é a matéria que gera a fluidez do conhecimento compartilhado, tal qual um espelho d’água que reproduz as faces de todo um organismo vivo, neste caso a literatura dita infantil e juvenil. Ao mesmo tempo em que a desloca do comum convívio frente a outras disciplinas relacionadas ao saber humano, como já citado anteriormente, Barthes (2001) faz da literatura, aqui em todas as suas acepções, uma caixa de guardados, um baú capaz de zelar atemporalmente por incomensuráveis saberes. Este, para ele, é justamente o aspecto que faz da literatura um fenômeno exclusivo quando comparado às demais áreas do saber. Para o referido autor, a literatura é a própria realidade, bastião da vida em si, o que a impulsiona a estar continuamente em vantagem perante as outras formas de conhecimento.

“Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles” (CANDIDO, 2011, p. 177). Para a literatura, um dos principais ingredientes a ser colocado em análise quando entrada, ela, em julgamentos por sua real e definida relevância é, de longe, o potencial conjunto de ferramentas de que possui para que o irreal seja desbastado, volatilizado e até expulso do que é caracterizado como sendo propriamente humano. A literatura, portanto, ao ser o real ou parte do real, ou até mesmo a força motora e gestora de tudo que é real, termina por ser o local onde tudo se alimenta do todo, em prol do todo e semelhante ao todo.

Tendo como ponto de apoio a citação acima, há de se considerar a inestimável importância da literatura para que seja fomentada, no seio das sociedades, uma espécie de cultura letrada sobre a qual a palavra é sempre apresentada nos centros das significações e das virtudes mundanas. Por ser uma expressão artística milenar, a literatura atravessou várias fases de contemplação reflexivo-existencial e hoje é um território de proporções inestimáveis onde bailam os ventos do fator resistência. E um dos seus efeitos cruciais é a linguagem, com suas mil e uma potencialidades. Língua e literatura, portanto, não sobrevivem separadas.

A Literatura, por sua vez, acaba por refletir no conjunto de suas verdades e de sua natureza universal toda a plasticidade de expressão que se vincula à linguagem. Também utilizada como ferramenta de comunicação, a literatura, embora circunscrita num contexto histórico mais recente que o da língua em si, consegue manter suas interconexões comunicativas demasiado objetivas e sem maiores afetações. Como é de se suspeitar, sem grande esforço, uma sociedade sem a presença da arte literária certamente exprimir-se-á com menor correção, nitidez e criticidade. A palavra, escrita ou lida, decerto desfruta de um poder único, largo, fator que não a limita, já que não sendo simples figurante, beira a fomentação do que é real, isto é, a natureza existencial acerca do que é realidade.

A literatura não está parada, assim como a água de um córrego não é um corpo-objeto que possui uma forma única. Pelo contrário, ela está constantemente em trânsito, a passear por várias paragens do conhecimento humano e a pegar carona em diversos veículos de mídia num efeito dinâmico que surpreende até os mais céticos estudiosos do ramo. Em uma sociedade acostumada a reprimir seus viventes por conta de inúmeros fatores geradores de desigualdade, e que, em pleno século XXI, ainda teima em conviver com máscaras flutuantes de segregação social, de intimidação e de terror, a literatura passa a se cobrar mais, como a exigir-se de si mesma em direção ao posto ocupado pelo outro, o leitor, baseando-se para isso num complexo argumento de alteridade, fomentadora de identidades e valores impagáveis.



REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, s/d.

BRANDÃO, Luis Alberto. Chuva de letras. São Paulo: Scipione, 2008.

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.

______________. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.

FRANTZ, Maria Helena Zancan. A literatura nas séries iniciais. Petrópolis: Vozes, 2011.

JOUVE, Vincent. A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

_____________. Por que estudar literatura? São Paulo: Parábola, 2012.

LACERDA, Nilma Gonçalves. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo. Cultrix, 2006.

WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é ficção. São Paulo: Brasiliense, 1986.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VIII)


Por Germano Xavier

"o amor não é um problema"


havia começado seu discurso absoluto:
"matei o amor, matei o amor, matei o amor!"

estava só.

sua voz era uma linha própria, liberta, independente.
o tom, azul, de adeus, invadia a turva curva nua
das mais ou das menos críticas teorias sentimentais.

deixaria encoberto o céu com uma dada acusação interna:
"matei o amor!"

estava só.

a jovem seguiu sua verdade, crendo nas objetivas
funções das palavras, tão inacessíveis!
em seu coração, ela havia matado o amor.
havia, como a requerer algum engenho da sorte.

no fundo, sabia ela que o amor é uma edificação
trabalhada no acaso, sem normas, sem enunciados,
realizada na história das humanidades e dos nascimentos.
e que transpor o arco das exceções da dor e da mágoa,
da amargura, da agrura e da rispidez,
seria apenas uma fórmula barata de mentir a si mesma.

estava só.
e naquela sua solidão sem código, a dinâmica
dos pensamentos lhe cortava o pulso.
distanciou-se da antiga fala, repensou:
"matarei o amor, matarei o amor, matarei o amor!"

estava só.
e continuava.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Turkey-166524025

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada

*

Por Germano Xavier



De tu ojo soy la pupila


eu não sei, exatamente,
em que converto
estes olhares imaginativos
que por ti deponho.

incrível é toda a poesia que temos
para descrever um olhar que nunca se cruzou,
que apenas se sonha.

penso eu no olhar de Janus à baleia,
no olhar da baleia a Janus,
como num filme de Bela Tarr.

algo assim é só o que consigo
e, como sempre,
minha memória me apunhala.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Solo-luz-en-la-mirada-152462929

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Circulares

*

Por Germano Xavier


#1

Era um microconto, no máximo, a história de amor dos dois. Nunca passou de alguns encontros muito desencontrados em constantes reencontros para novos desafios de voar. De tentar ser. De viver o ser. De. Nos primeiros dias eram leves e afoitos, atrevidamente livres. Insurgentes. Mais pela própria insurgência do que pelo que quer que fosse que sentiam um pelo outro. E não sentiam a mesma coisa. Nem de longe. Para cada um a experiência tinha cor, sabor, valor e significado distintos. Tudo era vivido em dimensões tão distintas e distantes quanto o inverno e o verão. Ele vivia o momento, ela vivia ele.


#2

E sobre aquela tua eterna pergunta, "porque você insiste tanto em...", nós dois sabemos que você sabe a resposta tanto quanto eu. Tudo tem menos a ver com nós dois do que com toda a minha história, minhas experiências traumáticas e com tudo o mais aquilo que sabemos. Então, apenas ignore as farpas, as agressões verbais sem sentido, as provocações e afins. Atribua tudo a isso. Àquela teia tão extensa e confusa quanto a minha complexidade. Quanto filtrar tudo, você sabe o que ficará. Aquilo que sabemos bem. Ou sabemos nada. Por isso mesmo, nosso. Só mistério. Acima do bem e do mal. Poesia.


#3

E quanto aos arranhões, é a minha natureza, em suma. Sou cacto. Tu sabes. Não sou cacto de nascença, mas de transmutação, de assimilação de. E tu já viste cacto espalhar doçura por aí? Cacto é solidão, é agressivo, é áspero. Cacto é um insulto ambulante. Sem carisma e sem delicadeza. Não é enfeite para olhos entediados, nem é chamariz de afabilidades. Cacto é resistência em ação contínua. Ele só tem uma missão; sobreviver. Impor-se sobre tudo, sobre todos. E para isso, não importa o quanto tenha de se afastar das flores (ele geralmente nasce longe delas. Num lugar tão inóspito que nenhuma delas duraria um dia sequer). Ser cacto é destino e herança. Porque ele sabe (em sua natureza solitária, defensiva e beligerante) que não será escolhido para embelezar o jardim de ninguém. Ele sabe que será, a priori, rejeitado por sua falta de beleza e atrativos, ou por sua reputação de antissocial (o que é um equívoco, ele apenas defende-se). O cacto é um guerreiro solitário, em suma. Ele sabe que quando o procuram, quase sempre é por algum motivo egoísta. Quando o assediam é porque querem eliminá-lo ou usá-lo para alimentar o gado (alimentar o gado, entenda bem. O gado!). Então, não é à toa que ele desenvolve espinhos e os usa, quando preciso, para defender-se das mãos perversas que o perseguem. Cacto não é flor que se cheire. Cacto é flor (e o cheira apenas quem ele queira e deixe e só alguém capaz de sentir o seu cheiro. Raros seres entendedores de cactos).


#4

Os outros, os "normais", não entendem porque existem cactos e nem a função deles no mundo. Eles não compreendem, coitados, que o valor do cacto está nele mesmo, em sua alta capacidade de ser cacto, de ser forte, de ser. A sua função está no símbolo de resistência, de sobrevivência, apesar de tudo e de todos. Apesar de seu deserto particular, de sua aparência assustadora, de sua aspereza defensiva, de sua ausência de graça (a sua única graça é ser mesmo ele), tem o seu brilho. Ele é um ser único. O cacto é, antes de tudo, cacto. E não precisa ser nada além disso.


#5

PS. E o mais triste de tudo, meu bem, o mais triste das tristezas, é que num inferno particular não cabem dois.


#6

no primeiro dia do ano fez calor.
fiz silêncio para ouvir a voz de Deus,
só ouvi o silêncio me ouvir.
deduzi que há algo errado com meus ouvidos
ou com a voz de Deus.

saí para correr
(correr é cortar o tempo com o corpo
e ficar inteiro no final) e havia pipas no céu
e meninos no final delas.
li um livro assustador da mulher que extrapola a humanidade
(Clarice não clareia. dinamita a calma).
recebi um afago na alma com toque familiar.
ouvi que ela estava bem e senti algo que voa.
escrevi um poema e guardei para o passado.
li um estonteante "poema-de-vida-inteira" e gostei de estar vivo.
desejei que o ano passe depressa
e me leve para mais perto... de mim.
do caminho que me leva mesmo quando não caminho.
fechei os olhos. e vi o sempre.


#7

Saudade de você. Está tudo bem, responda quando puder, preciso de você. Tu ainda precisas de mim em tua vida?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Filastrocca-158456473

sábado, 7 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VII)


Por Germano Xavier


"a matéria do acaso é a memória do futuro"


Caminhos para o Roncador


uma coisa lhe digo:
o futuro é uma época ancestral.
por isso, chamemos o acaso pelo nome!

no interior vulgar dos infernos,
na memória vaga dos absurdos,
no concerto máximo sem música,
quando atingida a palavra comum das sortes,
o amor restará feito abstração,
nas cantinelas e nos raciocínios.

só amor só,

à esquerda das tempestuosas febres dos ocasos...
a bombordo, a lâmina de madeira do velho marujo
esticará o horizonte de sua juventude tomada.

enxergará, então, o velho bucaneiro,
que o amor é a besta do mar, o monstro rotundo
que explode nas águas após rasos voos.

sentirá, pois, o marinheiro,
que as águas de lastro de sua embarcação
estão contaminadas pelo amor que se entrincheirou
pelas sendas de todas as retóricas oceânicas.

o azul, no agora,
terá o requinte da seleta minoria
que teimará em singrar a estrada espumosa
e branca.

chamemos pelo nome a direção dos portos!
chamemos pelo nome a atenção das paixões!
chamemos pelo nome a glória dos quereres!
chamemos pelo nome o medo das obras!
chamemos pelo nome o monumento aos náufragos,
o campo esquálido dos temores, a desordem dos desejos
e os ninhos dos desafetos.

chamemos pelo nome, ó insuspeito progresso,
toda a fama de nossas mortes acidentais!


* Imagem; http://tab.uol.com.br/roubo-arte/

domingo, 1 de janeiro de 2017

A terceira perna

*

Germano Xavier


"Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui."
(Clarice Lispector, em A Paixão segundo GH)


a perna
que perdi,
quando conquistei a dor,
fez-me depressa viver o engasgo
do mesmo, do nada, do susto.

sem coragem,
tive de me erguer e sequer pensei
na organização de todo o esforço.
a liberdade era aterradora.

arrumei o passo, fiz-me estável
e na marra me fui somente. ausente,
silente, voltei para onde me perdi.

cães ladravam na rua vazia - estrangeiros
seríamos. um viver da carne, do muco, da seiva.
o corpo enquanto ideia.

rumei remos.
fui. pastei. ovelhas inúteis me mentiram.
achei saídas. nunca antes me soube.

prisioneiro, o vão. a perna que perdi.
meu maior medo de medo maior.
a perna que me insistia ano após ano
na brutal desorganização.
a perna-sem-caminho.

foi uma criação a perna que ganhei
depois que a perdi, ainda sendo igual a dor,
o tempo e idêntico o mal do que veloz me fez acaso.

a perna
que ganhei
foi minha garantia de ilusão.


* Imagem: http://tajemniceziemi.blogspot.com.br/search/label/Niezwykli%20Ludzie

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Nós que não temos


Nous qui n’avons rien du tout


écoutez ce non, scandaleux
[personne ne peut nous rédimer]

nous qui n’arrivons à aucun port
nous qui ne sommes pas mis à part
nous qui ne sommes pas sur scène
nous qui n’utilisons pas le talc
nous qui n’avons aucun dollar
nous qui n’avons pas de dol
nous qui ne sommes pas de l’herbe
nous qui ne sommes pas célèbres
nous qui n’avons rien du tout
nous qui ne sommes pas maîtres de nous-mêmes

(nous possédons le néant, comme un tout)

pourquoi a-t-on encore l’illusion de l’appartenance?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Do-every-thing-with-love-440086021

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quinquilharias



Por Germano Xavier



te atravesso em vagos mantos
e me adianto no tempo. prevejo
a marcha do infinito
em pequenos toques de solidão.

te inverto em dúvidas profícuas
e antevejo fatos na lâmpada mágica
da escuridão.

escuto vozes em cascatas,
no discurso que escondes
em teu régio coração.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/we-are-all-left-alone-249703287

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Marguerite Duras e a memória amante

*

Por Germano Xavier


Amigos, leitores de literatura ou não, é já sabido, pois: a palavra é um ser vivo, como a parafrasear o grande Victor Hugo. “Tão vivo que se transforma, se ajusta, se articula, se combina, de acordo com os humores do seu manipulador ou ante as exigências do texto (oral ou escrito)”, como diria Maria Teresa Gonçalves Pereira em seu texto A Língua Portuguesa e a leitura: Convergências no ensino e na vida. A palavra é também o tempo. E foi, sim, o tempo de Marguerite Duras. “Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci” (DURAS, 1985, p. 7).

Assim, assaz, muito é o tempo e muito é a palavra. Demasiado é o tempo para Marguerite Duras, que confessa a nós um tanto-imenso de sua adolescência em O Amante, livro dos mais-mais saídos de sua verve. O tempo que revela o próprio tempo das coisas, das coisas que também são as palavras. Palavras. Como acontecimentos. O tempo que elabora e desvela a vida. O tempo que ilumina. A palavra que abarrota. Mas quem terá sido a menina amada pelo amante do livro? Seria ela mesma, a autora? A narradora duvida de seu próprio tempo enquanto ser vivo: “Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído” (DURAS, 1985, p.8).

A face destruída da menina é o retrato do tempo. Um portfólio de suas palavras. Mas que rosto é esse que tanto viu e viveu? Quem é a dona da palavra vida? “Não, aconteceu alguma coisa quando fiz dezoito anos que moldou este rosto que tenho agora. Devia acontecer durante a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus” (DURAS, 1985, p.11). O medo fala? O que fala a treva de nós mesmos? O que cala? “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha” (DURAS, 1985, p.12). Só pelo centro da vida é que contamos nossa vida? O que está no centro? Duras fala o que quer falar, quer o que vive: enredo, história, o modo como se narra a memória, a escolha das palavras que tecem o texto, sem limite, limpo, rígido, sem constrangimento, doce.

Cuidado. Pode não ser o que você pensa. “Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Hoje, muitas vezes escrever pode parecer não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso” (DURAS, 1985, p.12). Mais dúvida: escrever é nada? Quem lê não enxerga além? A leitura é uma prática que faz pensar, falar, comunicar, sentir. Quando lemos, muito além do conteúdo, estamos a observar a forma das coisas, as palavras do tempo, as disposições das frases, dos parágrafos, os demais elementos, todos, unidos, constituídos e constituintes. Para Marguerite, escrever não era nada. Escrever era tudo. Por isso, escreveu. Por isso, principalmente, viveu, amou. Suponho.

A menina do livro não responde nada. Ela antevê. Ela é prisma. Assim como a palavra de Duras, que deflagra todos os processos, que explora todas as possibilidades. “A palavra age quando encontra (quem) outra que a provoque, obrigando-a a livrar-se do conformismo, se (re)descobrindo em novos sentidos. Não há vida onde não há luta”, regozija Maria Teresa Gonçalves Pereira. Estará certa? A menina no livro luta. Ferve. O amor é um lutar, quando não um luto. Descreve. “A pele é de uma doçura suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser o corpo de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sua única virilidade é a do sexo, é muito fraco, parece estar à mercê de um insulto, parece sofrer. Ela não olha para o rosto. Não olha. Só o toca. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a novidade desconhecida. Ele geme, chora. Dominado por um amor abominável” (DURAS, 1985, p.44). Eis o amante. Eis o amor?

“Juro por minha vida que nada aconteceu, nem mesmo um beijo. Como é possível, eu digo, com um chinês, como quer que eu faça alguma coisa com um chinês, tão feio, tão raquítico?” (DURAS, 1985, p.66). Seria o amor possível assim pensado, possível? Seria o amor capaz de ir além-muros? Que tipo de amor é o ilustrado por Marguerite Duras em O Amante? Quem, afinal, ama? “O amante de Cholen perdia-se no prazer da adolescência da menina branca. Esse prazer que desfrutava todas as noites tomava todo o seu tempo, toda a sua vida” (DURAS, 1985, p.108). O que é, deveras, o amor? Explica-se? Mede-se? “Ele a abraça como abraçaria sua filha. Abraçaria a filha do mesmo modo. Brinca com o corpo da filha, faz com que se vire, cobre-lhe de beijos o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a se abandonar, seguindo a direção exata determinada por ele no começo do jogo” (DURAS, 1985, p.110).

Sentir não é uma decisão. Sentir é uma ordem. Uma ordem do instante. Se não for assim, simples, não é sentir. Necessário, faz-se, jogar-se. Banhar-se. Afundar-se. “Penso que minha vida começou a desvendar-se para mim. Penso que já começo a me conhecer, tenho já o vago desejo de morrer” (DURAS, 1985, p.113). O amor é um espanto. Rota. Amores. Sempre díspares. Quem ama? O que ama quem ama? Quantos tipos de amor existem? “O corpo do meu irmão havia morrido. A imortalidade morrera com ele. E assim caminhava o mundo agora, privado desse corpo visitado, e dessa visitante. Todos tinham errado completamente. O erro percorreu todo o universo, o escândalo” (DURAS, 1985, p.114).

Quantos tipos de amor são possíveis? “Seria preciso avisar as pessoas dessas coisas. Ensinar que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que acontece ainda. Que ela não se anuncia por si mesma, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no detalhe, mas somente no princípio. Que certas pessoas podem contê-la em si, desde que ignorem o fato. Assim também outras pessoas podem descobrir sua presença nos outros, com a condição de ignorarem seu poder. Que é enquanto se vive que a vida é imortal, enquanto ela está viva. Que a imortalidade não passa de uma questão de mais ou menos tempo, que não se trata de imortalidade, mas de outra coisa ignorada” (DURAS, 1985, p.115).

Em O Amante, livro vencedor do Prêmio Goncourt de 1984, Duras esclarece parte de uma memória extremamente particular invadida pela própria vida, que teima em violar os laços aparentemente inquebrantáveis do ser que tecem o novelo de todas as criações humanas, feitas de passos, fugas e revelações. Um livro singelo, rude, com gosto de vinho e cheiro de mar. Mar-alto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marguerite-Duras-412423150

sábado, 10 de dezembro de 2016

A História não nos escreve

*

Por Germano Xavier



eram verdes
as paisagens onde você aparecia.
não um verde brilhante
cinematográfico qualquer
(não caberíamos nesse. Somos cinza...).
Era mais um verde-cacto,
um verde-sertão, agreste,
cor de teu absurdo
- verde-musgo - olhar.

e diz a lenda
(não é a História que nos escreve)
que, em noites de luas soberbas,
quando a luz se derrama
nos olhos saudosos dos perdidos,
minha suposta outra-almalivre
escorrega suavemente
para o teu inequívoco olhar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/No-wait-Beauty-and-the-Beast-s-Belle-649773046

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Onde melhor existo


Là où j’existe le mieux

est-ce des minutes, des heures ou des secondes,
ponctuellement, le temps que j’occupe
tes pensées ?
s’agit-il de foudres ou d’éclipses,
presque imperceptibles,
incapables de changer ton orbite ?

Qu’importe si tu penses à moi de manière distraite
pendant que tu froisses une page,
alors que tu lis déjà la suivante
et qu’un nuage se dessine quelque part. qu’importe si tu
ne me comprends que lorsque tu vois une silhouette extrêmement triste
dans les rues et sur l’écran (ou mon reflet dans le miroir) ?

Qu’importe si je n’existe que quand il pleut
ou lorsque la pénombre envahit les cieux
ou quand la vie réelle te tait et termine tes journées ?
[ou quand on se pose des questions
sur l’inconsistance de tout
et la persistance du mal
dans le monde].

Qu’importe ?

tu sais, ces éclairs, ceux qui me conduisent au regard de ton âme
c’est là où je vis et j’existe le mieux.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sanur-Beach-Bali-650352130

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A não-menina de cabelo azul

*

Por Germano Xavier



Não dizia muito sobre ela aquele cabelo azul. Sentada encolhidamente nos fundos do ônibus, parecia destoar de tudo, até dela mesma. Sua mochila surrada de estudante itinerante supunha uma imigrante de perto ou de longe, chegada de uma cidade qualquer grande ou pequena de seu mundo Brasil. Tinha um rosto delicado, porém sério, quase hostil e sem qualquer maquiagem aparente. Não exibia tatuagens, enfeites nem bijuterias em parte alguma de seu corpo jovem e pequeno. Distraída, parecia exausta em seu abandono proposital e relaxado na cadeira, definitivamente perdida em conflitos ou indecisões. Concentrada mais na aparência que teria por dentro do que por fora, observa tudo descobrindo sentidos dentro, alheia ao que sua apatia possa aparentar. Pouco vaidosa ou adepta consciente da simplicidade extrema, nada em sua aparência queria destacar-se, exceto, num contraste inexplicável, o seu cabelo azul. Seu corpo levava apenas uma despretensiosa calça jeans e uma camiseta cinza folgados em seu corpo magro de discretas formas. Gritante nela somente o seu cabelo azul, raivoso, ofensivo, caricato, alheio. Mas, olhando de perto e demoradamente, com olhos lentos e não óbvios, era evidente que aquela não era uma menina-de-cabelo-azul. Era antes, uma menina que, por um acidente emocional qualquer, exibia um cabelo azul que dizia ao mesmo tempo: Olhe para mim e não olhe para mim. Sou esse cabelo azul e não sou esse cabelo azul. Aquela menina e seu cabelo eram uma contradição. Seus olhos salientes e inquietos gritavam ansiedade, temor... ou acusação? Olhava furtivamente tudo, sem fixar-se em nada. Seus olhos pulavam de um desfoco a outro sem descanso. Como navalhas que ameaçam cortar e se afastam, deixando o susto na pele. Sim. Aqueles eram olhos cortantes-sem-cortar de nascença. Incendiavam de fúria contida, insuspeita. Em seus pés incrivelmente pequenos, um par de tênis muitíssimo gasto e mais inquietude. Aquela menina, que não poderia ter menos de dezoito ou mais de vinte e dois anos, em sua indecifrável figura poderia ser qualquer coisa, exceto uma menina comum. Nem com muito esforço e pouca imaginação seria possível classificá-la em um rótulo básico. Ali estava uma menina-além-das-tribos. De suas mãos pequenas com unhas curtíssimas e sem esmalte (pouco cuidadas para o que se espera de uma mocinha, pensariam...), escorregava um livro de título esclarecedor: "Cem anos de solidão". E estava explicada a menina. Era Poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-garota-de-cabelo-azul-e-sua-rosa-334152476