sábado, 10 de dezembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Onde melhor existo


Là où j’existe le mieux

est-ce des minutes, des heures ou des secondes,
ponctuellement, le temps que j’occupe
tes pensées ?
s’agit-il de foudres ou d’éclipses,
presque imperceptibles,
incapables de changer ton orbite ?

Qu’importe si tu penses à moi de manière distraite
pendant que tu froisses une page,
alors que tu lis déjà la suivante
et qu’un nuage se dessine quelque part. qu’importe si tu
ne me comprends que lorsque tu vois une silhouette extrêmement triste
dans les rues et sur l’écran (ou mon reflet dans le miroir) ?

Qu’importe si je n’existe que quand il pleut
ou lorsque la pénombre envahit les cieux
ou quand la vie réelle te tait et termine tes journées ?
[ou quand on se pose des questions
sur l’inconsistance de tout
et la persistance du mal
dans le monde].

Qu’importe ?

tu sais, ces éclairs, ceux qui me conduisent au regard de ton âme
c’est là où je vis et j’existe le mieux.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sanur-Beach-Bali-650352130

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A não-menina de cabelo azul

*

Por Germano Xavier



Não dizia muito sobre ela aquele cabelo azul. Sentada encolhidamente nos fundos do ônibus, parecia destoar de tudo, até dela mesma. Sua mochila surrada de estudante itinerante supunha uma imigrante de perto ou de longe, chegada de uma cidade qualquer grande ou pequena de seu mundo Brasil. Tinha um rosto delicado, porém sério, quase hostil e sem qualquer maquiagem aparente. Não exibia tatuagens, enfeites nem bijuterias em parte alguma de seu corpo jovem e pequeno. Distraída, parecia exausta em seu abandono proposital e relaxado na cadeira, definitivamente perdida em conflitos ou indecisões. Concentrada mais na aparência que teria por dentro do que por fora, observa tudo descobrindo sentidos dentro, alheia ao que sua apatia possa aparentar. Pouco vaidosa ou adepta consciente da simplicidade extrema, nada em sua aparência queria destacar-se, exceto, num contraste inexplicável, o seu cabelo azul. Seu corpo levava apenas uma despretensiosa calça jeans e uma camiseta cinza folgados em seu corpo magro de discretas formas. Gritante nela somente o seu cabelo azul, raivoso, ofensivo, caricato, alheio. Mas, olhando de perto e demoradamente, com olhos lentos e não óbvios, era evidente que aquela não era uma menina-de-cabelo-azul. Era antes, uma menina que, por um acidente emocional qualquer, exibia um cabelo azul que dizia ao mesmo tempo: Olhe para mim e não olhe para mim. Sou esse cabelo azul e não sou esse cabelo azul. Aquela menina e seu cabelo eram uma contradição. Seus olhos salientes e inquietos gritavam ansiedade, temor... ou acusação? Olhava furtivamente tudo, sem fixar-se em nada. Seus olhos pulavam de um desfoco a outro sem descanso. Como navalhas que ameaçam cortar e se afastam, deixando o susto na pele. Sim. Aqueles eram olhos cortantes-sem-cortar de nascença. Incendiavam de fúria contida, insuspeita. Em seus pés incrivelmente pequenos, um par de tênis muitíssimo gasto e mais inquietude. Aquela menina, que não poderia ter menos de dezoito ou mais de vinte e dois anos, em sua indecifrável figura poderia ser qualquer coisa, exceto uma menina comum. Nem com muito esforço e pouca imaginação seria possível classificá-la em um rótulo básico. Ali estava uma menina-além-das-tribos. De suas mãos pequenas com unhas curtíssimas e sem esmalte (pouco cuidadas para o que se espera de uma mocinha, pensariam...), escorregava um livro de título esclarecedor: "Cem anos de solidão". E estava explicada a menina. Era Poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-garota-de-cabelo-azul-e-sua-rosa-334152476

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um poço no centro

*

Por Germano Xavier


Ofegante e com o corpo embalado por uma, já íntima, dor pulsante, puxa mais um balde de amor à superfície. "Trabalho inútil", pensou. Há quanto tempo fazia aquele trabalho? Nem lembra mais. Desde que ele... Sim. Havia muito tempo. Tempo demais para nominar. O corpo, esse sim, sabia tudo. O corpo sempre sabe o que a palavra ainda não descobriu. Secar aquele poço era uma tarefa de tempo integral. Baldes e mais baldes retirados daquele poço de amor que parecia - será mesmo? - inesgotável. Aquele líquido pegajoso, quente, fluido, parecia zombar de seu esforço, brotando incessantemente quanto mais ela tentava secar a sua fonte.

Mas precisava continuar. Há anos aquele poço de amor estava ali no centro da sua vida, no fundo de seus olhos, no âmago do seu respirar e ali também, no meio do seu quarto. Ela sabia que se não o detivesse, em pouco tempo ele transbordaria além de todas as suas margens, inundando tudo, arrastando em suas correntezas toda a sua estrada, os seus sonhos, os seus contrastes, o seu futuro e suas certezas, e transformando todo o seu mundo em um caos molhado. Era preciso, portanto, continuar a secar o poço, encher os baldes, curvar o corpo, deter a fala, surrar a alma naquele extenuante trabalho de deter o amor. Aquele líquido sagrado, fatal, vital... Aquele líquido que, a essa altura da relação, já era a sua própria vida. Sem ele em suas mãos, abarcando o seu corpo, ensopando suas roupas, já não sabia o que seria, quem seria e o que fazer para preencher os seus dias. Aquele poço era, afinal, a sua essência em luta, a sua alma em arte, a sua resistência.

Sorri, consolada.

Percebe em grata constatação que aquele poço será, afinal, a única companhia que sempre terá. Chega a desejar, apesar do corpo em exaustão, que ele, aquele seu poço de amor em teimosia, nunca seque.
Ter esperança é o caminho mais curto para a decepção?

Não se sabe.


Não é verdade. Nós dois sabemos que nada daquilo que falei sobre você é verdade. Nós dois sabemos que foi apenas um grito violento pela dor de tua ausência, de teu silêncio. "Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu!" E, embora eu saiba que nada justifica aquelas acusações absurdas e infundadas, preciso te pedir desculpas por ter falado... Acredito que você tenha levado a sério, e me consola saber que não se magoou, pois seria terrivelmente angustiante imaginar que te feri. Não tenho o direito de te julgar em nada, nem de te cobrar nada... Aprendi que o único valor é o que temos de bom... Só sinto coisas boas por você. Não quero agir como se nada tivesse acontecido - de ambas as partes. Só preciso que saiba que estou bem, que nunca te quis mal, que nunca te esqueci um minuto sequer, sempre em bons sentimentos e que, tudo de bom que chega a mim me lembra você.

A Poesia insiste em me trazer você o tempo todo. E é a única doçura que consegue atravessar a minha couraça de pessoa racional, desconfiada, cética, ácida e infeliz. Não quero nada de você. Há algo em mim que só vive com você. É essa parte que preciso que viva. Ou serei apenas um vegetal. Compreende? Parte daquela decisão é válida, pois preciso de serenidade, como falou. O resto todo é vazio. Inverídico e espero que considere nulo. Peço perdão, mas vou entender se não me perdoar. Não precisa fazer/falar/sentir nada. Apenas leia o que te escrevo, por favor, pois vivo melhor em teus olhos. Vivo Poesia em teus olhos. Não sou suficientemente equilibrada para ter você muito perto. Sou intensa demais e não sei como agir com o que é mais forte do que eu. Compreende? Apenas fique, por favor. Saberei que estás. Eu sentirei. Eu sei. Eu sei que você sabe.


O fato é que te escrever é uma tarefa doce e gentil. Quando delicada e pacificamente, sem estar sob o controle de paixão e ciúme, é um momento poético e feliz. Acredito que seja o caso agora. Até as paixões arrefecem e se transformam em amor ou costume ou conforto ou quentura, ou devoção. Devoção é o caso. O meu. Amor eterno, amigo. Amor incondicional. Não vou cair naquele clichê de tentar descrever o indescritível e nem de incomodar com pieguices comuns. Percebi que os sentimentos nobres, dignos de nós pela vida toda, não se justificam ou se explicam com palavras. Elas passam, se apagam ou se perdem no esquecimento. Eles se justificam apenas no tempo. Na passagem do tempo, na resistência em si, na existência paralela a tudo. Na constância. Na sobrevivência às tempestades, às decepções, às mágoas, às distâncias, aos silêncios, às fugas, às faltas... Quando depois de tudo isso, olharmos do lado e ele - o amor -, ainda estiver lá, como uma sombra por dentro, então saberemos que é aquele, aquilo.

Então, se eu tenho de ter uma fraqueza na vida, uma humilhação que seja, uma derrota, uma grave vulnerabilidade, um calcanhar de Aquiles, uma fragilidade, que seja isso. Ao menos sei que é algo digno de mim. Um amor além de minha maldade. Uma Poesia que me aquece, me amolece, me torna humana, por vezes, doce. E nesses momentos em que sou só ternura, sinto que sou grata pela vida, pelas raras sensações de vida plena, como hoje, quando o vento me fez quase voar e te encontrar em algum lugar meu. Nas nuvens desconhecidas. Então sorri e não tive vergonha. Era a vida dando graças e me fazendo saltar por dentro. De pura noção de estar no amor certo. O meu.


P.S. Gostaria de saber: já viu o suficiente para se convencer de que eu estava certa (em questionar) e você errado ao repetir irresponsavelmente que me ama? Será que agora a autoridade dos fatos te persuadiu da clara realidade de que você é inconsequente com as palavras (especialmente com a palavra amor)? Você tem, repetidamente, agido com leviandade com os sentimentos alheios. Você trata as pessoas como se elas fossem experimentos. Olha as mulheres como se elas fossem "espetáculos" e não seres humanos vulneráveis, crédulos, carentes e facilmente feridos por pessoas frívolas como você.

Eu já tinha ouvido (direta e indiretamente) que você era um homem perigoso, malicioso, mentiroso, "canalha", "cafajeste", cheio de artimanhas e galanteios, mas que, depois, deixava as mulheres que convenceu de que eram especiais para você extremamente feridas e decepcionadas. Não acreditei.

Com relutância, constatei que você é realmente cínico, sonso, dissimulado, escorregadio e, pior de tudo, sem remorsos. Tenho dúvidas se você alguma vez já refletiu sobre o resultado de seus atos/palavras sobre a vida das pessoas e se realmente se questionou sobre a verdade íntima do que diz. Lembre que não existe uma verdade para você e outra para o resto do mundo. Há a verdade dos fatos. A única que pode ser comprovada, mensurada e é irrefutável. Talvez seja assim na Literatura. Mas na vida real as pessoas sangram sangue real. Não de mentirinha. Não de palavra. Duvido que tenha noção de que suas palavras/atos são interpretados literalmente e – naturalmente - aceitos por quem ouve como verdade. Assim, sendo tão contraditório, como espera que seja levado a sério? Ou ainda, sendo tão inconsequente no que fala, como espera não ser levado a sério?

Crenças, sentimentos e preferências são relativos e direitos de cada um. Não se pode questionar ou julgar. Mas há uma ética que é universal e todos, por mais torpes e endurecidos que sejam, em algum momento se darão conta de que aquela atitude é ou pode ser prejudicial para alguém. Mas você, mesmo questionado diante da realidade, continua afirmando coisas incoerentes e inconsequentes, sendo leviano com o coração alheio. Amar alguém ou compartilhar momentos é escolha de cada um. Nunca deve ser julgado ou questionado. Nunca te julguei por não me amar. Questiono exatamente o contrário; o dizer que sim. Quando – claramente - não.

Não tenho a intenção de te ofender gratuitamente - isso doeria mais em mim do que em você -, apenas de te alertar para as tuas atitudes/falas/promessas. O mundo está cheio de pessoas feridas, descrentes ou esperançosas de amor, de cumplicidade. Acreditar em alguém não é fácil e acreditar e depois ver que não é sincero e nem recíproco o afeto, o cuidado e o valor à amizade/amor é extremamente desanimador, em alguns casos, pode ser a gota d’água para a completa incapacidade de acreditar novamente em qualquer verdade dos sentimentos humanos. Algo tão sério não deveria ser tratado tão levianamente, especialmente por pessoas que consideramos mais evoluídas/conscientes/verdadeiras.

Talvez - no fim de tudo -, seja isso o que você esperava... que, finalmente, eu enxergasse a verdade e te colocasse no cesto das pessoas comuns. Fez um bom trabalho em me deixar ainda mais incrédula na humanidade e em todo e qualquer sentimento nobre além dos obrigatórios e/ou convencionais. Você me fez ver a fragilidade dos afetos gratuitos e o potencial engano das palavras. Mas não há culpa. Há apenas fatos. Há negligência e falta de princípios de nobreza e consideração. Há leviandade e falsidade, mas não creio que tenha sido intencional. Foi leviano, covarde e cruel, mas não proposital. Mas isso não muda os fatos e nem diminui os danos.

Sim, finalmente te coloquei no cesto das pessoas que me feriram muito, por isso as descartei de minha vida, por isso as apaguei de minha memória afetiva e espero mantê-las longe de mim. É uma questão de sobrevivência, de prevenção e de bom senso. É autopreservação. É lógica. Não faz sentido continuar colocando-se no lugar de sofrimento ou dedicar-se a quem não quer e não valoriza o seu afeto. É insanidade e é inoportuno.

Finalmente, estou sim te deixando em paz. E esta não é uma despedida, nem uma tentativa de te ferir por nada. Tenho plena consciência de que nada do que eu te falo sequer arranha a tua consciência ou motiva a menor ação/pensamento teu. Sei que és imune a qualquer palavra/apelo/confissão minha. Falar-te é falar ao vento. Mesmo assim precisava te falar como me sinto (por mim). Mas sei que será tão inútil quanto toda a nossa vida/história juntos. Mas sim, há algo positivo em tudo isso. Aprendi um pouco mais sobre a natureza traiçoeira/egoísta/frívola da humanidade. E aprendi a nunca subestimar os homens. Seu poder de destruição ainda é muito obscuro e imprevisível. Melhor ficar longe e fechar os ouvidos. Você é uma pessoa boa, mas um homem não muito bom. Na verdade, um homem bem homem. Um humano muito humano. Por isso mesmo, perigoso.

No mais, cuide-se e prometo-te - caso haja, apesar dos gritantes fatos contrários, alguma genuína preocupação comigo - que me cuidarei e tentarei aproximar-me mais do equilíbrio do viver simples. Sem grandes sonhos, sem largas esperanças e sem aberturas para ilusões.

Até um dia qualquer. Na Poesia ou no Desconhecido.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/wish-you-were-here-36799648

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

As babéis de Ses (Parte VI)

*

Por Germano Xavier


"você é aquela que toca um instrumento acima das nuvens"


Toques de retorno (ou A mulher tola)

fiz estes versos de madeira
pois sei dos silêncios operados
da essência que cala
da música imortal da vida

dessa opaca substância
/o amor/ translúcida e pura
nada sei

dei-lhe a discrição do tempo
a humildade do meu sentir
o som de minha ópera amante e fiel
na liberdade das imensas ondas

você, uma das mais altas dúvidas,
uma das mais líricas línguas - e este coração,
aberto em fosso, emocionado com o teu retorno -,
é a geração e a sede dos fogos e poderios

há de crepitar a chama se empregares fuga
na aventura que resiste
como os lençóis, as plumas, a claridade
tudo em expansão e esta palavra
um planeta de violinos

nesse instante abortaremos o que for inválido
o amor é a única leitura do mundo sem divisas

favor, acerquemo-nos das maçãs


* Imagem: http://vidaculturayarte.blogspot.com.br/2014_01_01_archive.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As coisas cegas e inteligentes de Matheus Rocha (uma entrevista)

*

Por Germano Xavier


"Quem diria que naquele espaço estéril, encardido e pálido do apartamento aquilo ia acontecer – não sei o que aconteceu, e se aconteceu. Tudo isso podia ser só invenção, mera especulação descarnada do plano físico. Mas sabia, desde já, que aquela coisa ia virar referência: ia ser tatuagem, cicatriz, mancha, massa sem fermento ou qualquer coisa que o valha. Eram os olhos abertos, a boca pronunciando e provocando, os lábios se chocando maciamente, e tudo isso se avolumando, se encorpando – condição humana. Não era amor, não é e não será. Amor desumaniza. Era o que tinha que ser. E o que podia ser?”

Impossível não citar o excerto supracitado. A autoria é do Matheus Rocha, um “caba” novo lá de Garanhuns, Pernambuco, e seu livro de estreia na literatura é o INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS (u-Carbureto, 2015). Novo de idade, o sujeito parece bem mais velho na escrita. Velho, sim, mas velho de se dizer experiente. A obra é um pequeno compêndio de “onze contos e uma narrativa mais longa”, como o próprio autor definiu na apresentação.

O retalhe posto em evidência é apenas uma demonstração da escrita madura do autor, caminhante-camarada de dois outros grandes nomes da literatura garanhuense, Mário Rodrigues, que recentemente ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2016 com o livro de contos RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO, e Hélder Herik, que levou o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014 com o livro A ARTE DE RUMINAR PALAVRAS. Tais nomes ainda se juntam ao de Dominguinhos e ao de Luís Jardim, dois fenômenos artísticos da cidade.

No trato do conteúdo do livro, o autor parece revisitar um conjunto de memórias dolorosas da vida, de uma vida, real ou não, e não se importa em nos revelar tudo com detalhes. O tom geral dos contos é de angústia. Algo parece não estar bem com as personagens e, por consequência, com o todo das narrativas. O leitor embarca, assim, numa viagem por dentro de brumas nada epifânicas. Como se Matheus não quisesse ensaios ou, como ele mesmo escreve na décima quinta página, “como se eu quisesse viabilizar uma estranheza permanente em cada linha...”.

Muito gentilmente, Matheus concedeu uma pequena entrevista a este que vos fala. Segue...


ENTREVISTA COM O AUTOR

Germano Xavier - O canal Redemunhando, do Youtube, listou uma sequência de temas ligados ao INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS, seu primeiro livro, a citar “solidão, insegurança, incerteza, morte, amor, desejo, desamor”. Do que trata o seu livro, Matheus?

Matheus Rocha – Inteligência das Coisas Cegas é um livro angustiado, sim. Pesado, inclusive. A Natasha acertou demais quando usou Back to Black, da Amy, como um eco do livro. É muito de como ele aconteceu. Foram três anos escrevendo, reescrevendo, mexendo nos contos. Eu diria que é um livro sobre dar adeus apenas com palavras – usando uma frase da própria música. É tudo isso em latência. Tá ali, às vezes explícito, às vezes implícito.

Germano Xavier - Helder Herik, escritor garanhuense, diz num vídeo-resenha no Youtube que a sua literatura provoca um “buscar”. Afinal, o que sua literatura busca?

Matheus Rocha – Não sei bem, ainda. Meus contos são muito pessoais – obviamente, a única experiência que posso ter é a minha própria e isso acaba sendo indissociável da literatura que produzo. E, geralmente, eles me tomam completamente e não dão espaço pra outras coisas. Passo semanas cozinhando histórias, convivendo com personagens até que eles se escrevam. Não paro muito pra saber ou perguntar o que busco, ou o que os contos buscam. É um processo muito vasto. Acho que essa busca é uma ressonância em quem lê. Talvez os leitores saibam mais disso do que eu.

Germano Xavier - Fale-nos de seu blog, o NA SOLIDÃO DAS VEIAS...

Matheus Rocha – O Na solidão das veias é um blog (parado, no momento) que criei pra colocar algumas impressões de leitura. Leio sempre e bastante, colocando metas de leituras mensais e anuais. Tenho pais professores, cresci rodeado de livros. Então, nada mais certo do que continuar com esse movimento. Geralmente, escrevo sobre livros que me afetam e me movem. Isso de elaborar literatura sobre literatura é um exercício interessante e importante. Hoje não tenho feito muito isso – acabo tragando todas as referências para os contos do próximo livro, e não numa coisa mais resenhista, mesmo.

Germano Xavier - No conto intitulado DUAS EPÍSTOLAS, você escreve: “Enquanto a distância for maior que o alcance das mãos, sim vou escrever”. A literatura tem alguma serventia, Matheus?

Matheus Rocha – A rigor, não. Nenhuma. E acho que isso é o mais importante, mesmo. Ela não é uma coisa que precise ter serventia. Ela é um caminho possível – que não tenho ideia da onde vai levar, isso só se sabe caminhando, mesmo.

Germano Xavier - Alberto Moravia, certa feita, disse que toda literatura é antissocial. Concorda com essa afirmação?

Matheus Rocha – Penso que sim. Escrever é algo muito solitário. Leitura também. Você tá sozinho, de cabeça baixa, lendo. Ou escrevendo. A forma como te afeta, como te move, já é outra coisa. É outro momento, já. Então, enquanto prática social, é sim terrivelmente antissocial.

Germano Xavier - Por que escreve?

Matheus Rocha – Por pura necessidade. Uma hora, é como se a literatura aprisionasse, segregasse e obrigasse à ter uma espécie bem dark e herege de vida. Pra ter o que produzir. Necessariamente, não é doloroso e nem precisa ser. Mas não é legal, não é feliz escrever e precisar disso. Eu escrevo, inclusive, por excesso. Tiro todas as referências da minha vida, mesmo. Claro, existem as homenagens que vou deixando nos textos. Apesar de transportar a sensibilidade pros contos – impregno tudo com afetos -, o texto é pensado. É possível viver o caos e escrevê-lo ao lada dessa organização estranha que chamam de razão. No fim das contas, tudo acaba sendo artifício – a própria vida, inclusive.

Germano Xavier - Como avalia as obras de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu, que parecem figurar como grandes inspirações para o seu INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS?

Matheus Rocha – O Caio F. é o meu grande amor literário. Conheci sua literatura quando tinha 15 anos. A biblioteca da escola tinha uma grande quantidade de exemplares dos Morangos Mofados. Um dia, tentando pegar um livro do Pedro Bandeira, acabou que um dos exemplares do Caio caiu na minha cabeça – literalmente. E levei pra ler. Era tão cru, tão doloroso, era tão sensível – no sentido de sentir, mesmo – que me senti completamente sugado nos contos. Ele não escreve amenidades nem essas pílulas de auto-ajuda que a gente vê nos status do Facebook ou nas fotos do Instagram. É uma literatura de desespero, de contestação, de resistência mesmo. Sempre que o leio, e leio sempre, me emociono. E escrevo. A Clarice eu conheci por conta dele. Ela era sua grande paixão literária. E acabou que aconteceu o mesmo comigo. A obra dos dois dialoga muito, embora o Caio seja muito mais apocalíptico e urbano. A bruxa Lispector tem uma obra epifânica, súbita e inexplicavelmente simples. Isso me encantou. Tudo isso tento trazer pros meus textos. E nunca escondi essas referências nos contos. São homenagens diretas e abertas aos dois. E à outros mais.

Germano Xavier - A literatura é mesmo uma forma de insurreição, como preconiza Mario Vargas Llosa?

Matheus Rocha – A partir do momento em que a gente se dá conta de que a gente vive imerso numa cultura imagética (e não necessariamente narrativa), é possível pensar na literatura como insurreição. Isso porque o que tá em jogo é ser visto. Nas redes sociais, nos eventos, e assim vai. Existem ecos disso na própria cultura literária, claro. Ainda mais num país como o Brasil, com leitores dispersos e onde prêmios formam clubinhos autorais e chancelam qualquer tipo de qualidade. Então, ler e escrever acaba sendo um ato ambíguo de resistência. Justamente por essas questões.

Germano Xavier - Fale-nos sobre o trabalho das Edições u-Carbureto e a cena lítero-cultural da cidade de Garanhuns-PE.

Matheus Rocha – A u-Carbureto começou como um jornal literário. O trio de ferro aqui da cidade - Helder Herik, Mário Rodrigues e Nivaldo Tenório – inventaram o jornal pra ter um espaço literário por aqui. Acabou que virou um pequeno selo editorial independente, onde começaram a publicar suas obras. Ganhou notoriedade no estado, pela qualidade da edição e, obviamente, da literatura produzida por aqui. Logo que me lancei nessa desventura literária, os três abriram as portas do selo e lancei por ele. O próximo, que sai ano que vem, também leva o selo em negrito. A insistência e iniciativa dos três foi um impulso importante pra quem produz literatura por aqui. Pra além, claro, da herança de Luís Jardim – indispensável leitura. Em termos de literatura, Garanhuns já mostrou o peso que tem. Helder e Paulo Gervais, recentemente, levaram o Prêmio Pernambuco de Literatura. Mário trouxe o Prêmio Sesc, um prêmio nacional – do qual ele já tinha a menção honrosa. Outro que figurou nas menções honrosas foi Wagner Marques e seu isso que escorre, uma coletânea brutal de contos. E você, Germano. Tem Fernanda Limão, uma poeta maravilhosa. Uma poesia de toque, mesmo. Alexandre Revoredo, idem. Além de poeta de mão cheia, um músico e tanto. Leo Noronha e sua Neander, um espetáculo à parte. Andrea Amorim, claro. Outra explosão maravilhosa daqui. E Marcelo Francisco, que tem uma adaptação teatral de um dos contos que mais gosto do Caio F., dama da noite. Vale demais ver. O que me incomoda profundamente, nesse cenário todo, é a cidade não dar a mínima pra todo mundo. Com todo esse peso literário, Garanhuns não tem UM festival de literatura. Apesar da cena ser bem clara e ativa, ainda existem algumas ilhas – inclusive entre quem produz arte aqui. Talvez seja ingenuidade pensar numa unificação e fortalecimento – no fundo, tá todo mundo muito só, mesmo.

Germano Xavier - Michel Temer, Donald Trump, Jair Bolsonaro... o que nos reserva o futuro, Matheus?

Matheus Rocha – Acho que não precisa ir muito pra frente pra sentir o que nos reserva. Tá tudo muito escancarado. As neuroses todas transbordando. Preparem seus punhais, amigos.



* Imagens: Google.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sigamos, bucaneiros!

*

Por Germano Xavier


Veredito final para a manhã do dia 24 de novembro de 2016: 

Mestre em Letras pela Universidade de Pernambuco, minha querida UPE. Um salve ao meu orientador Dr. Elcy Luiz da Cruz, à coorientadora Dra. Amara Cristina de Barros e Silva Botelho e aos examinadores Dr. Kleyton Ricardo e Dra. Jaciara Gomes. Agradecer aos colegas de mestrado pela intensa partilha, ao coordenador do programa, professor Dr. Benedito Bezerra, a todos que fazem a UPE/Campus Garanhuns e a todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para este momento. Foram 2 anos de muitas batalhas enfrentadas e vencidas. Em mim, a certeza de que tudo vem no tempo certo, no tempo certo de cada um. Agora é olhar para frente e, com calma, trilhar caminhos para se chegar aos próximos passos dessa jornada acadêmica. Deus é grande. A literatura é a minha arma para melhorar o mundo. Sim, melhorar o mundo é possível. Sigamos, bucaneiros!



















* Imagens: Vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXVIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 10/06/2016
Não estamos


Nous ne sommes pas là

as-tu compris, mon amour ?
nous ne sommes pas sur les cartes,
nous sommes sur le limbe.

nous sommes les pages enlevées du roman
de cet excentrique et génial écrivain,
qui était déjà trop fatigué
pour nos accueillir dans le sujet de l’histoire.

as-tu compris qu’il n’y a plus de place pour nous?

nous avons parcouru les routes perdues des monstres gentils,
qui ont marqué le désert avec des découvertes hallucinantes.
//à la fin, j’avais mal et je suis devenu têtu. et nous sommes toujours en quête
d’autres issues, infiniment, qui commencent jusqu’au bout//

alors, voilà ce que nous devenons :
des incendies d’absences surgelées.
le froid qui arrive et nous compare à la distance.
la catastrophe devient une amie et l’arrière de nos paradis.
nous mourrons en célébrant le fait d’être capable.

de mourir ensemble.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Alone-319240032

Das travessias

*


Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: Germano Xavier

domingo, 13 de novembro de 2016

O cone de Bergson

*

Por Germano Xavier

para Jorge Luis Borges, com amor.



no espaço universal da memória, a certeza
de que todo o mundo é o cone, toda a humanidade
é o cone. no início de tudo, todo o amor
contido no cone. na boca feroz do abismo,
ou do vulcão, a memória do hoje. o ontem excelso,
perdido e esgarçado.

nunca encontraremos nossa própria voz?
quem é o que é se as primeiras coisas não são as primeiras coisas?
a palavra, Pierre Menard, a autoria do não-maciço: a bolha de sabão.

todas as ideias, todos os rumores, todas as plantas mentais,
todas as dúvidas, todas as dores, todas as espontaneidades,
todos os medos, todos os silêncios e os gritos e os mitos e os gemidos todos
num lugar sem autoria: o cone.

numa emboscada interna, nossas lendas vãs: as línguas,
as cores e de novo os abissos.

tomar o cone, fazê-lo rodopiar.
espalhar a memória do mundo
e escolher o rumo.

introduzir inaugurações. reger.
ser o profundo, não o raso do cone.
chacoalhar, chacoalhar, chacoalhar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cone-203836295

sábado, 12 de novembro de 2016

Sobre a Escola de Frankfurt

*

Por Germano Xavier e Luís Osete Ribeiro Carvalho

Texto escrito em novembro de 2005.



Certamente, falar em Escola de Frankfurt requer certa abstração e um olhar mais crítico sobre a importância dessa que foi, não só um agrupamento de pessoas pensando semelhante e com objetivos também muito parecidos, mas um movimento de contestação e de revolta. A Escola de Frankfurt desempenhou um papel fundamental tanto na discussão dos processos sociais quando na elaboração de novas ordens práticas e teóricas para as futuras gerações. É preciso enveredar-se pelos campos que enraizaram e frutificaram o nascimento da Escola de Frankfurt, assim como se apoiar em todo o seu legado. Ao mesmo tempo, deve-se aprofundar em seus maiores pensadores e suas respectivas ideologias, objetivando com isso uma análise mais sistemática acerca do assunto.

A Escola de Frankfurt recebeu esse nome porque seus principais representantes faziam parte do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt nos idos dos anos 30 do século XX. O objetivo desse instituto era confeccionar um exame crítico da sociedade, em uma abordagem geral, como também investigar seus aspectos econômicos, culturais e de produção de conhecimento, tendo como ponto de apoio um marxismo renovado, sem conjugar fortemente os ideais historicistas e materialistas.

O grupo de estudiosos da Escola de Frankfurt exerceu uma colossal influência sobre os movimentos de contestação da segunda metade do século XX, devido à análise crítica que fez das sociedades desenvolvidas. Tal instituição foi fundada numa época bastante tumultuada e permaneceu vinculada à Universidade de Frankfurt por um bom tempo. Sua maior influência pode ser notada durante as manifestações estudantis de maio de 1968 na França. Pode-se dizer que o organizador-mor desse grupo, que se formaria tendo como base o Instituto de Pesquisas Sociais (entidade dedicada à pesquisa interdisciplinar entre filósofos, sociólogos, estetas, economistas e psicólogos), foi o filósofo alemão Max Horkheimer.

O Instituto de Pesquisas Sociais, que tempos depois passaria a ser conhecido como Escola de Frankfurt, lançou os fundamentos da Teoria Crítica, ordem de expressão e de pensamentos que designa um conjunto de ideias acerca da cultura contemporânea, onde se tomavam como fortes bases os ideias do marxismo e da psicanálise, porém deixando aberturas para as influências que o pensamento (em constante movimento) exerce sobre as premissas teóricas.

O Instituto de Pesquisas Sociais (Escola de Frankfurt), constituiu-se como sendo o núcleo de uma linha original de pensamento filosófico-político desenvolvido por Walter Benjamim, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Jurgen Habermas e Theodor Adorno. A teoria crítica proposta por esses pensadores se opõe à teoria tradicional, que se pretende neutra quanto às relações sociais. Ela, por sua vez, toma a própria sociedade como objeto e rejeita a ideia de uma produção cultural independente da ordem social em vigor.

O pensamento desenvolvido pela Escola de Frankfurt pode ser divido em estágios ou fases. Em sua primeira fase, que contou com a presença marcante da figura de Max Horkheimer, houve a exposição de um pensamento multidisciplinar, que em filosofia era antimetafísico e antipositivista e, sob o aspecto social, anticapitalista. Partilhavam, aqui, da ideia que o progresso econômico tinha como contrapartida a massificação e a perda da individualidade. Propunham a transformação da sociedade capitalista num socialismo fundado na razão e na liberdade, e que assegurasse o bem-estar de todos.

A segunda fase da Escola de Frankfurt teve um caráter mais pessimista, e ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial. Quando falamos em pessimismo, devemos levar em conta que essa foi (senão) a única forma de agir, posto que houve a instalação de uma guerra e de um terror stalinista que deixou profundas marcas no pensamento marxista. Fora justamente nessa época, também, que o sistema capitalista de produção demonstrou uma gigantesca capacidade para assumir suas próprias contradições e para anular todo o pensamento crítico e todo o movimento de transformação do regime.

O principal expoente da terceira fase de construção de pensamentos foi o filósofo e crítico musical Theodor W. Adorno que, passando por diversas vertentes do marxismo, fogiu a toda e qualquer afirmação positiva. Para os pensadores dessa etapa, toda expectativa de solução ficava em aberto, inconclusa diante da realidade, e o progresso trazia em seu bojo uma regressão, pois conduzia o homem a um “mundo administrado”. A alternativa para a atual situação era a defesa do indivíduo e do particular, que escapam à violência da dominação, e a arte que, em seu não-hermetismo, permite escapar à uniformização e aos convencionalismos sociais.

Apesar de ser uma instituição de objetivos únicos, por vezes a Escola de Frankfurt se mostrou descentralizada. Nos outros estágios de desenvolvimento científico, buscou-se renovar o pensamento da “escola” à luz da epistemologia contemporânea e consideraram necessária uma revolução do marxismo. Jurgen Habermas e Hebert Marcuse foram os maiores representantes dessa fase que, entre outros ideais, denunciou o caráter repressivo da sociedade industrial e pregou transformações revolucionárias tanto nas instituições sociais como nas atitudes do homem. Foi aqui, também, que se acusou a sociedade capitalista de criar necessidades de consumo artificiais e incessantemente renovadas, mediante a manipulação das consciências pelos meios de comunicação de massa, fonte do conformismo.

Inúmeros pensadores influenciaram e foram influenciados pela Escola de Frankfurt, entre eles filósofos, psicólogos e artistas os mais diversos. Porém, vale ressaltar a maior importância de quatro pensadores, que são, a saber: Walter Benjamim, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer e Jurgen Habermas. Sabe-se que muitos desses estudiosos deram a vida pelas causas propostas e debatidas pela Escola de Frankfurt, todavia é no intento de tentar esclarecer alguns pontos fundamentais das teorias elaboradas por estes pensadores que se dá ênfase aos nomes aqui citados.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Industrial-air-conditioner-160296567

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Poema-Trump

*

Por Germano Xavier



ogivas em marcha, homens
à prancha: a flor com náusea
está para (re)nascer!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Trump-Nightmare-601518563

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Os engenhos da máquina do mundo

*

Por Germano Xavier


"Atravesso a noite
lírico:
sou poêmio."

(Trecho de POEMIA, de Wilson Pereira)



Marcelo Mourão, poeta carioca, publicou em 2016 o livro de poemas MÁQUINA MUNDI. O livro é dividido em cinco partes, intituladas na seguinte sequência: A máquina do mundo ou O mundo da máquina, As engrenagens de Eros, Os mecanismos poéticos, Os engenhos de dentro e A máquina de interrogações. Todos os capítulos, por assim dizer, juntos, elaboram uma visão sobre a atualidade, sobre a realidade das relações humanas que vigoram no hoje e terminam por esboçar uma visão de mundo autêntica acerca do que se passa com o agora da humanidade.

Mourão é feliz ao escolher as palavras com que narra suas angústias e medos, pois sentidos vivos por demais expressivos podem ser visualizados desde as primeiras páginas. Beijando a face de filósofos e escritores de rara estirpe, num jogo de alusões e de referencialidades bem direcionadas, o poeta, que também é um dos idealizadores do Sarau POLEM (Poesia no Leme), retrata a doença da modernidade com olhos sinceros e ao mesmo tempo simples. O resultado é um corpo poético onde cabem várias forças orgânicas de imaginação e de existência.

MÁQUINA MUNDI é um pequeno tratado poético que intenta, ao fundo, a promoção de um senso de resistência. Resistir, convenhamos, é tão essencial hoje em dia quanto respirar. Num mundo onde a informação desinforma, onde amor desanda e agride, onde o homem decide desumanizar-se para chegar ao topo (dos nadas), onde o maior peso é o de não-ter, a poesia de Mourão escancara a certeza de que a dúvida está muito presente no ser (humano) do homem contemporâneo. O mundo, sabemos, espera já cansado um ressurgimento, um rebrotamento. A arte, esmagada pelas catástrofes diárias, inclina-se, doente, para o horizonte dos quandos.

Assaz assim, há quem comporte a absoluta resolução dentro de si acerca da função inutilitária conferida à poesia, não raras as vezes colocando-a num rol onde se despejam sandices e alumbramentos vãos. Todavia, é sendo esse acessório aparentemente “inútil” que a boa poesia revela-se tal qual um grande artefato de luta e de rebeldia. A poesia contida nos engenhos de dentro de MÁQUINA MUNDI não instaura um manual para bons comportamentos nem está a serviço da ordem da informação seca, antes se pronuncia enquanto conjunto de mensagens sobre o desconforto da vida moderna.

Inusitado, MÁQUINA MUNDI explica o inexplicável, o mundo que perdeu o rumo, o homem que naufragou nas águas do tempo, o tempo que está sem receber a corda necessária. Mourão nos faz recordar aqui as palavras de Louis Guillaume, que dizia crer “que numa sociedade a poesia não serve para nada, e nisso é que está seu valor”. Sim, a poesia, de quem quer que seja, não serve para nada nem jamais servirá. Mas é somente ela, a boa poesia - este deus-ser ilógico e sublime -, que tem a potência e a sagacidade de nos prestar para tudo.

(Oficina Editores, 2016)

* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Black-Light-81834879

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXVII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 08/06/2016
Por um café a mais


Encore un café, s’il vous plaît…

nous sommes une manade
et à la fin du discours
célébrerons-nous la tradition
d’être des mules
en prenant juste un suffocant et habituel café ?

serons-nous des copies, des caricatures
de rêves que nous n’osons plus rêver
les yeux grands ouverts ?

suivrons-nous le rituel selon le manuel
de la bestialité ?

remplirons-nous nos mémoires
de faux souvenirs vendus dans le coin
au hasard ?

où creuserons-nous des reliques, lorsque nous refusons de reprendre nos habitudes?



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Morning-Chill-103370730

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Tínhamos uma tarde entre as beiras

*

Por Germano Xavier


eu fui ontem
e a aventura da linguagem
não se resume à procura do ritmo,
é antes a penetração
e a tensão do instante
contra sua própria opulência.

eu fui ontem
e a palavra que formo
desestrutura a forma, que é
incessante e impossível.

eu sou ontem
e meu poema é polissêmico,
já que mil bocas me ancoram
sem me saber nem suspeitar
de que há algo maior que já existe
(e no que já existe)

e sei que meu verbo
é apenas um processo de sentir
dentre tantos.

eu sou ontem
e afronto a vida
me afastando dos impasses,
aprofundando-me no tempo
quanto mais desconfio
das solenes extremidades,

ao passo em que me torno grotesco
quando me alinho
ao que sou não sendo,
pois ora sou signo ora sou coisa,
sou coisa-signo,
signo-coisa - ultrapassagem,
escassez, amplidão.

quem fui eu em mim?/
o que sou eu de mim?/
o que em mim me continua?//

eu fui ontem
e o desespero do coração
que me impulsa, inglorioso narrador
de meus avessos, é o pleno herói
de minhas crises.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Challenge-5-Zillion-Wish-of-Sand-643801016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 03/06/2016
Empossado de passados


Intronisé de passés


le sol qui m’a accouché, adulte, est fustigé

tout en vacillant, sordide, j’ai voulu le blesser,
le haïr par ces moments où il ne m’a pas tué.

il a fait des promesses et volé des avenirs
/ j’en ai pleuré/…ai-je avorté des destinées?

comme un étranger dans ma vie,
j’ai douté du passé, du présent et de l’avenir.
j’ai crié, j’ai regardé le ciel

qui m’a avalé.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Monochrome-November-643449847

sábado, 29 de outubro de 2016

TANGLED UP IN BLUE (ou Um bocado de pressa para fugir da fossa)

*

Por Germano Xavier

conto escrito para a Antologia Bob Dylan, 
organizada por Roberto Menezes, Bruno Ribeiro e Luciano Portela.


pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o céu, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais perto de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da velha casa do interior, meus pais com olhos marejados, você ao meu lado me dizendo “o sol vai brilhar para nós dois”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, e aquela sua opulência corporal, aquela bunda que tanto amei, a imagem do seu sono ao meu lado, você dormindo enquanto eu ultrapassava o milésimo caminhão como quem vencia o gigante, alguma coisa me forçando a ir, o brilho de sua maquiagem, seus cabelos que esvoaçavam, a janela aberta, o vento em tufos, sua família nos esperando, travessia-nordeste, pegar o mundo com as mãos, nossa vida juntos, certamente que seria difícil no começo, mas a gente iria vencer tudo, você tirou férias comigo, dormiu em minha cama sem nem me conhecer direito, pensando bem, amor... não seria tão difícil assim no início, eu era um sonhador, você era uma bandida, sem coração algum, mulher mais voraz que tive na vida, eu estaria de pé ao seu lado, sempre, mesmo se o motor falhasse no meio da viagem, a chuva molharia os meus sapatos mas os seus pés ficariam protegidos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você era um mistério, suas roupas coladas ao corpo, lembro aquele dia na noite daquela cidadezinha, você estava toda de preto, com todo o amor, toda a palavra, toda a umidade, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para ser inteira minha em definitivo, em plena resolução de mulher, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, toda a carne, nossa vida no norte, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, você me olhando, me chupando, me amando, me fazendo acreditar no melhor, na aurora, no embora, você por sobre os meus ombros me gritando “venha”, a avenida por topar, eu dando adeus à minha fossa, jamais nela emaranhado, eu largando meus empregos para me empregar em você, para trabalhar não sei onde nem como, não me importava nada, era só você, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até que chegamos e o tempo nos fez entrar numa barca doida, você era um peixe, com escamas, eu sem conseguir lhe fisgar, o passado logo atrás pelo retrovisor de meu carro triste, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei aí e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando longe do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência pesando, a dose extra, o infortúnio, a vontade de passar a perna em mim e dar adeus, o público me vaiando, e tudo embotando, a cerveja com cara de fel, a mesma decadência de outrora, a incerteza na certeza escancarada, aquela sua voz insistindo em me construir velhos pesadelos, a visão da fossa, o fogo do inferno, o desconforto em estar ali na sua terra e não na minha, minha ânsia, a despedida na frente daquele posto de gasolina, sua cara de desdém, seu corpaço colado ao vestido, as curvas daquela sua bunda maravilhosa, minha nossa!, eu fui feliz!, a minha encardida memória sendo reavivada, eu: um tipo calado, você: do mundo, um livro de poemas antes de adormecer, carvão aceso, fogueira mental, a fossa aberta em minha frente, a enorme fossa da vida, aquela chuva ácida da Ilha do Amor, o mesmo torrão sob Teresina, a longa estrada de quem retorna, eu vivi você como aquela música que ficou no ar, eu desci ao porão, menina, negociei com o Dito, e alguém em mim morreu naquele instante, alguém bem dentro de mim virou gelo, fui ao fundo e me tornei distante, mas agora vou, adiante, pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o firmamento, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais longe de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da casa estranha, seus pais nem aí, você me dizendo “o sol vai brilhar para você”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você não veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você foi um mistério, aquelas suas roupas coladas ao corpo, lembro bem aquele dia na noite daquela cidadezinha, você todinha de preto, todo o amor do mundo, toda a palavra verbalizada, toda a umidade sentida, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para não ser de novo o que fui em definitivo, em plena resolução, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, nossa vida no sul, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, era só você, você que era perdão, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até entrar numa barca doida, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando perto do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência, a dose extra, toda a fortuna de viver, a vontade de passar a perna em mim, recomeçar...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-only-road-217192829

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Raduan Nassar, que amava tanto a literatura

*

Por Germano Xavier


Sempre que leio um texto escrito por Raduan Nassar me vem uma pergunta à cabeça: “O que terá feito esse homem das letras se “afastar” tanto assim da literatura?” Como é já sabido por todos, Nassar, que é descendente de libaneses e natural de Pindorama, cidade que fica no interior do estado de São Paulo, após escrever os livros LAVOURA ARCAICA, em 1975, e UM COPO DE CÓLERA, em 1978, decidiu “abandonar” a literatura para viver no campo, perto de suas raízes, ali por volta do ano de 1984. Além destes dois livros, conta-se dele apenas mais uma coletânea de contos, intitulada de MENINA A CAMINHO, criada em meados dos anos 60 do século passado e somente publicada no Brasil em meados dos anos 90 do mesmo século.

Junto com a pergunta supracitada, vem sempre uma outra, que pego emprestada de um ensaio escrito por Ivan Ângelo, intitulado de NÓS, QUE AMÁVAMOS TANTO A LITERATURA, parte integrante do livro BRASIL: O TRÂNSITO DA MEMÓRIA, organizado por Jorge Schwartz e Saul Sosnowski: “Sobre quê um escritor deve escrever?” ou “Sobre quê circunstâncias um escritor deve escrever?” Se repararmos bem, Nassar publicou suas duas principais obras no interregno temporal em que se deu a Ditadura Militar no Brasil. Ponto. Mas ele não escreveu sobre o que quis e no momento em que quis que fossem escritos os seus livros? Não foi feliz por isso? Teria Nassar deixado de escrever e de publicar pelo simples fato de lhe faltar um por que para isso? Nassar só escrevia porque sentia que, assim, estaria desobedecendo ao regime autoritário em vigência naqueles idos? Mas por que se distanciar, se um escritor escreve sobre o que quiser e quando quiser? Questionamentos, apenas questionamentos...

De acordo com Ângelo (1994, p.69), “alguns regimes autoritários procuram dizer aos escritores sobre o que eles devem escrever; outros preferem dizer aos escritores sobre o que eles não devem escrever”. Para o autor de A FESTA, no Brasil os militares optaram por dizer aos escritores o que eles não deveriam escrever. Então, isso quer dizer que tanto LAVOURA ARCAICA quanto UM COPO DE CÓLERA são obras que saíram a contragosto de seu autor? Duvido muito. Recentemente, Raduan Nassar discursou contra o até então iminente processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff num evento do governo, em uma de suas raras aparições públicas. Sinal claro que Nassar não é desses que se calam diante de movimentos opressivos e/ou de fenômenos repressivos contra quaisquer formas de liberdade de expressão.

Teria Nassar preferido o exílio em 1984 justo porque o Brasil se livrara da Ditadura Militar de uma vez por todas? Aquele momento de plena esperança no futuro do país seria a melhor hora de um escritor descansar? Ao contrapor os postulados da teoria da literatura induzida, que prega que “alguns livros são escritos conjuntamente pelo escritor e pelo leitor, isto é, pelo público, pela sociedade (ÂNGELO, 1994, p.69)” e, principalmente, por uma dada necessidade social, Nassar teria apontado para o desprezo total para com o texto literário? Duvido muito. Raduan Nassar, que tanto amava a literatura, simplesmente escolheu se recolher. E se alguém precisava tomar uma atitude, Nassar talvez tenha entendido, e já muito antes, que esse alguém não era ele, que sua literatura não carecia ser ou existir para meramente suprir a fome de alguns ou para ser contra algo ou a favor de. A literatura, pois, muitas vezes, é também a palavra que não se escreve, o verbo que não se oraliza, o sentimento que não se compartilha.

Sabedor dos regimentos que a patrulha ideológica imposta pela Ditadura Militar imprimia aos escritores e artistas em geral, Nassar haveria de escolher, calando-se, não ajudar a determinar o que os escritores deveriam escrever, quando os próprios escritores passaram a selecionar, num exacerbado jogo de cautela, o que deveria vir a público ou não, para que não sucumbissem nos instantes do “ao vivo” diante do “Big Brother” tupiniquim daquela época. Nassar certamente sabe que escrever sob indução é sempre muito perigoso. Porém, é possível fazer literatura sem ter um por que ou um para quê?

Decerto que o tempo e as circunstâncias em que se vive são perfeitamente e inteiramente capazes de interferir na produção de uma obra literária, mas afirmar veementemente que só há literatura se há indução para tal é melar tudo. O próprio período ditatorial nacional envergou a produção do livro mais famoso de Ivan Ângelo, assim como tantos outros que tomaram rumos total ou parcialmente diferentes do que previamente foram pensados por seus respectivos autores a partir da inclusão da obra em um dado contexto social e político de caráter caótico-transformador, seja para o bem ou para o mal.

Sobre A FESTA, Ângelo (1994, p.71) conta que

Foi um livro induzido, cobrado, pautado, porque a sociedade não tinha como se expressar e os livros eram um dos poucos espaços onde alguma coisa podia ser dita. Tudo o mais era fortemente censurado. Mas eu achei que isso poderia ser feito com domínio rigoroso do material, com controle absoluto do discurso político, com apoio único da eficiência na literatura mesma.

Como visto acima, a partir de muito esforço alguns autores conseguiam driblar a patrulha imposta pela censura, usando para isso de artimanhas as mais diversas. Todavia, isso não significava que o engajamento fosse símbolo máximo ou que fosse o caminho certeiro para a boa qualidade de uma obra ou para o estabelecimento do valor de um autor. A tomar o exemplo de Raduan Nassar, bem poderia ser dito que ele não quis se dar ao trabalho de se adaptar ao meio e que, por isso, preferiu enclausurar-se. Falácias e especulações postas de lado, mais lógico seria se se pensássemos que cada autor tem o seu tempo, que cada autor sofre suas mutações e que, em decorrência disso, também a sua palavra se modifica. E como para tudo há novos encaminhamentos...

No cenário da Ditadura Militar, ainda por falar dos escritores que vivenciaram o período,

O que resultou de bom foi que perdemos a inocência, a ingenuidade. Deixamos de ser política e artisticamente naifs e desenvolvemos um design mais contemporâneo. Não naquela época do “corre que lá vem os home”, mas já em torno dos anos 60, em plena abertura. Alguns autores de ficção compreenderam que o momento da abertura não deveria ser usado para tirar a camisa e exibir as feridas. O que eles fizeram foi apurar sua arte para se desvencilhar do passado, dos estilos, linguagens e temas do tipo pecezão, ou do tipo formalista. Buscaram uma estética não oprimida, não terceiro-mundista, para falar da opressão (ÂNGELO, 1994, p.72).

Em sua obra, Raduan Nassar, mesmo distante dos olhos dos leitores, como o próprio Ângelo (1994, p.73) cita, escolheu eliminar “as contradições entre os papéis políticos que as pessoas representam e sua verdade mais profunda”. Está aí o aprendizado, está aí o ensinamento. Ser escritor é fazer as lições que precisam ser feitas, custem elas o que custarem. E se for para sumir do mapa por um baita tempo, que seja para reforçar a todos o amor que se tem pela literatura mais viva e pulsante. Raduan Nassar, como muitos escritores e artistas em geral cujas trajetórias de fuga são por demais semelhantes, será para sempre um escritor a caminho, esteja onde e quando estiver.


*

* Imagens: Google.
Referência

ANGELO, Ivan. Nós, que amávamos tanto a literatura. In: SOSNOWSKI, Saúl; SCHWARTZ, Jorge. (Org.). Brasil: o trânsito da memória. São Paulo: EDUSP, 1994.

A palo seco (ou O melhor baile que não dancei)

*

Por Germano Xavier

Para Belchior, selvagem homem de corações.



A casa da minha melhor infância era grande, de vários cômodos, duas salas imensas, uma dedicada somente às esporádicas visitas. Esta, a maior, vivia sempre arrumada e com um ar solene misto de silêncio e inacessibilidade. Lembro muito bem. Meados dos anos 90, eu já entendedor das coisas, um gosto musical amadurecendo por dentro. No centro da sala, encostado à parede branca, ao lado da porta principal da casa, um imponente Gradiente 3 em 1. Entrei na sala descalço. Piso gelado de um dia bom na minha Chapada Diamantina. Toquei o botão Power. Pequenas luzes por toda a face do aparelho beliscaram com brilho o mofo do tempo. Naquele dia, minha professora de português, de nome Dalva, havia me emprestado um disco que tinha um homem bigodudo na capa. “Você vai gostar”, disse ela ao me passar o objeto.

Nessa época eu começava a esboçar, dentro e fora do ambiente escolar, um certo gosto pela leitura e pela escrita. Gosto é só um modo de falar, pois para mim era mesmo uma grande obsessão. Claro que fiquei surpreso. Do nada, a professora me emprestara um disco pessoal. Logo após o almoço, fui ter com todo aquele mistério. Mistura de curiosidade e apreensão. Levantei a tampa, posicionei o LP na pista plástica circular, ajustei a agulha, xiiii... Som! “Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos, lhe direi:/Amigo, eu me desesperava/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português”...

A música entrando na alma e meus olhos vidrados na capa, fitando a letra da canção, os detalhes, as cores, os melindres, os alcances dos sentidos que me formavam e que borbulhavam como um grande astro em fervura, arrastando-me dali em questão de segundos. “Belchior”, eu li. “Belchior”. “A palo seco”. “Que será que significa?” A música tocando. “A palo seco”. “Tenho vinte e cinco anos/De sonho e de sangue/E de América do Sul/Por força deste destino/Um tango argentino/Me vai bem melhor que um blues/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”...

Aquele canto torto, feito faca, cortando na pele, a pele que é deveras a parte mais profunda da gente, aquela voz desesperada a me revelar uma tonalidade de mundo bem mais forte da que eu suspeitava até então... “Belchior”, eu lia. “Belchior”, eu repetia aquele nome desordenadamente. A sala, naquele instante, havia sido preenchida por uma espécie de espuma invisível, que tomava conta dos quatro cantos a formar uma câmara acústica de tal modo perfeita que todos os sons imprestáveis do mundo haviam dado lugar à mensagem que aquela voz me trazia. Mensagem de rebeldia, de pertencimento, de chão, de poesia, de humanidade, de sensibilidade, de veracidade, de engrandecimento, de simplicidade. Dessa forma, e durante todo o disco, como um encontro às avessas, marcado pelo espanto alegre, escutei Belchior pela primeira vez em minha vida. E aquilo me soou como uma voz ancestral, meio mágica, meio mítica.

Dali em diante, Belchior faria parte de minhas andanças pelo mundo tal qual um oráculo sempre presente e prestes a aconselhar-me sobre minhas próprias forças individuais, sobre minha identidade, sobre meus passos. Já homem, crescido em meus pra-lá de 20 anos, estudante em terras estrangeiras, fiquei sabendo por telefone que aquele músico fantástico e tão amado por mim iria se apresentar no tradicional festejo de São João da cidade baiana de Iraquara, minha terra natal. Impossibilitado de ir vê-lo se apresentar, por inúmeros fatores, acabei escutando-o à distância, num compasso que transcendeu uma vontade irrefreável. 

Tempos depois, vi algumas fotos do Belchior no pequeno palco montado no meio da praça Péricles Gama, empunhando seu violão selvagem e sua voz forte nordestina erguida numa jaqueta jeans de grosso pano. Vi, também, que ele até posou com moradores conhecidos do lugar que me viu nascer após o show. Certo é que jamais esqueci aquelas imagens. Era Belchior sob o céu estrelado da minha Iraquara. Era uma rota aberta no meio do meu espanto. Uma trilha salpicada de dores e amores a partir de um coração rebelde fincado na história de minha própria vida. Uma estrela que não vi passar, mas que senti, a palo seco, feito fúria engolida às vésperas de toda uma particular criação, como a iluminar o canto úmido de vida que há em minhas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Belchior-251954440

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Menina a caminho

*


Por Germano Xavier

em diálogo com o conto Menina a caminho, de Raduan Nassar.



menina a caminho
sem caminho
menina sem carinho
menina sem arzinho
de menina a menina
a caminho do ventre seco
da vida, da madrugada alheia
a caminho da tarde sem seda
menina-descaminho
menina sem menina dentro
nem fora, menina com fome
de ser menina
a menina, ser, quer ser
caminho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aldeia-da-Roupa-Branca-156185887

Nada muito sobre filmes (Parte XXVIII)

*

Por Germano Xavier



THINNER

Um advogado tem muita dificuldade para emagrecer. Certo dia, é vítima de uma maldição “fatal” após atropelar uma velha cigana. A maldição? Emagrecer até a morte! Aí começa uma corrida contra o tempo. É preciso reverter a maldição. Mas, como fazer isso? THINNER é um terror dirigido por Tom Holland em 1996. O filme é baseado num conto de Stephen King, que está presente em uma das cenas do longa. Não me surpreendeu.


A VOLTA DOS MORTOS VIVOS

De 1986, dirigido por Dan O'Bannon. Um vazamento de gás, de procedência muito esquisita e causado por dois funcionários de um armazém de produtos médicos, misteriosamente faz com que os mortos de um cemitério próximo retornem à vida. O filme é muito trash. À época, deve ter sido legal de ver. Hoje, dói de tão bizarro.


OS OITO ODIADOS

Em 2016, Quentin Tarantino lançou OITO ODIADOS. Para quem viu CÃES DE ALUGUEL, vai identificar traços típicos do diretor desde as primeiras cenas. Durante uma nevasca, um carrasco, uma prisioneira, um caçador de recompensas e um xerife se confinam em um velho armazém. No local, encontram mais quatro desconhecidos que também fogem das péssimas condições climáticas do momento. Com o passar do tempo, estas oito pessoas começam a travar uma guerra particular uns com os outros, a partir da descoberta dos segredos de cada um. O resultado é um confronto que parece não ter fim. O espectador, de camarote, assiste tudo sem saber quem está certo ou quem está errado. Mais um filmaço com a marca de Tarantino. Para quem não gosta de sangue e cenas de violência, melhor nem tentar. Recomendo a todos os mortais!


STRANGER THINGS

Série criada por Matt Duffer e Ross Duffer em 2016. Nostalgia pura, anos 80, fantasia, monstros, crianças, bicicletas, aventuras, trilha sonora belíssima, mundos paralelos, referências a The Goonies (meu filme preferido da infância), Winona Ryder... enfim, podem me chamar de infantil ou de qualquer outra coisa, mas eu gostei. Gostei muito. Recomendo a todos os mortais!


BRUNA SURFISTINHA

De Marcus Baldini (2011), o drama brasileiro sobre a mocinha de família que resolve largar tudo e virar uma garota de programa consegue ser melhor que o livro em que se baseia: O doce veneno do escorpião. Sim, eu li este livro! No fim, quando você junta tudo, não sobra nada de serventia. Se ela foi feliz com tudo isso, sorte a dela. Mas o livro e o filme são dois zeros à esquerda. Bláh!


NARCOS

A segunda temporada me causou um profundo desencanto. Da primeira temporada gostei. Aprecio as narrativas, muita das quais exageradas, que envolvem o traficante colombiano Pablo Escobar. Histórias que fazem parte do ser latino-americano diante do mundo. A história de Pablo Escobar tem muito a nos ensinar, em muitos sentidos. Agora é aguardar a próxima temporada...


A BUSCA

De 2013, filme de Luciano Moura. Um casal de médicos, que não está numa relação relativamente saudável, depara-se com o fato de o único filho ter fugido de casa quando de seu aniversário de 15 anos. O pai, prestes a se separar da mãe, resolve cair no mundo em busca do filho. Ao passo em que tenta descobrir pistas sobre o menino, vai aos poucos descobrindo mais acerca de si mesmo. Um filmezinho bom.


SEVEN - OS SETE PECADOS CAPITAIS

De David Fincher (1995). Dois detetives encarregam-se de investigar um serial killer que mata as pessoas de acordo com a ordem dos sete pecados capitais. Precisando lutar contra seus próprios egos, os dois travam um embate conjugal muito perigoso até as vias de fato. Confesso que esperava mais. Sigamos, bucaneiros!



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