sexta-feira, 15 de abril de 2022

PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA, de Djamila Ribeiro


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o livro Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro. Nele, a filósofa e ativista santista "trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos". "(...) a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas". Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferece mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#pequenomanualantirracista #djamilaribeiro #nãoaoracismo #oequadordascoisas

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Como escreve Germano Xavier

Germano Xavier é escritor, poeta, jornalista e professor.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Nos primeiros três dias da semana é uma correria. Acordo por volta das 05:40h, pego o carro e viajo por cerca de 1 hora para uma das cidades em que trabalho. Ganho a vida como professor. Assim, reservo as noites para ler e escrever. A partir das quintas-feiras já tenho as manhãs livres. Depois do movimento inicial do despertar, sempre que posso vou ao cômodo onde ficam os meus livros e a minha escrivaninha. Ler é sempre prioridade. Reviso algumas coisas por fazer, escrevo e deixo o texto dormir. Tenho muitos textos que ainda dormem, anestesiados pelo tempo que matura. Vou soltando aos poucos alguns textos em meu blog (O Equador das Coisas), mas ultimamente a maioria vai para a “câmara do adormecimento”. O futuro serve para reativar a maioria deles. Nos finais de semana, quando não viajo, dedico-me mais ainda à escrita. Geralmente é quando escrevo textos mais longos em prosa. Poesia sempre representou um fazer literário mais espontâneo para mim, porém não menos trabalhoso.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Eu prefiro as manhãs. Já me acostumei a escrever dentro das manhãs. Estar inteiro dentro das manhãs é uma dádiva para mim. Preciso estar com a casa em profundo silêncio. Preciso escutar o som do teclado, o som da palavra saindo de dentro de mim. Uma vez ou outra coloco uma música para tocar enquanto teclo, em baixo volume. A probabilidade de encaminhar bem um texto é consideravelmente maior se se cumprida a totalidade ou boa parte desse ritual.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Já consegui escrever um pouco todos os dias. Ultimamente, por conta de diversas demandas, escrevo quando tenho tempo suficiente para escrever com calma. Tenho escrito mais em períodos mais concentrados, intercalados com tempos de leitura. Não tenho meta de escrita por dia. Não trabalho assim. Pelo menos, por ora. A pandemia atual bagunçou muita coisa nesse sentido, também.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Às vezes, o mais difícil é anotar, pontuar, detalhar caminhos para a escrita acontecer como quero. Por vezes, o texto simplesmente desliza por meus dedos e nasce. É mais difícil, mas acontece com boa frequência. Poemas não são mais difíceis de começar quanto contos, crônicas ou textos em gêneros de maior fôlego. Os poemas são os meus amigos mais próximos, mas já houve uma fase muito difícil para poemas. Eu andava lendo muito, muitos textos acadêmicos, leituras mais técnicas e os poemas simplesmente deram uma pausa de mim. Tiraram férias. Tenho muitos projetos de escrita em mente. Não sei como será num futuro próximo. Minhas rotinas podem simplesmente mudar de uma hora para outra. Eu gosto de pensar que nada é estanque, principalmente no ato de escrever, tão particular e ao mesmo tempo tão amplo.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Quando percebo que o texto não está caminhando, simplesmente paro. Deixo para continuar em outro momento, em outro dia, em outra semana. Não fico triste por conta disso. Faz parte do processo. É quando me ponho a ler outros materiais, outros livros, escrevo outros textos e, de repente, percebo-me de volta ao texto que estava parado, que fiz questão de deixar parado. Os textos nos chamam, precisamos saber respeitar o chamamento dos nossos próprios textos. Alguns são preguiçosos, morosos, gostam de ficar por muito tempo em descanso. Com relação ao medo ou à ansiedade, sempre lidei bem com tudo isso. Sou muito calmo, muito tranquilo. Sei que não há como passar à frente do tempo das coisas. Sempre chega a hora certa. A hora certa é quando acontece ou quando deixa de acontecer. Se a gente ficar forçando a barra, talvez soframos mais. E isso não é bom, sabemos.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Quando escrevo poemas, reviso uma ou duas vezes. Textos em prosa demandam um maior tempo revisando, relendo, reestruturando. Costumo enviar meus textos para outras pessoas somente quando decido publicá-los em esferas outras que não o meu blog ou outros canais de comunicação em que faço parte. A leitura do outro é altamente recomendável em diversos casos.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Escrevo em meu notebook, 95% das vezes, eu diria. Já foi diferente. Tenho quatro ou cinco cadernos com aproximadamente mil poemas escritos à mão. Era outro tempo, auge de minha adolescência até os vinte e poucos anos. Hoje quase não consigo mais escrever longe do computador. E não sei até que ponto isso é bom ou ruim, até que ponto melhora ou enfraquece o meu texto. Certo mesmo é que minhas duas máquinas de escrever hoje decoram ambientes mais que antes. De lápis, nunca gostei. Para os outros 5% restantes, utilizo canetas. Pretas, de preferência.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Uma pergunta de difícil resposta. Penso que as minhas ideias são ideias de uma vida inteira, costuradas pelas mãos invisíveis do Tempo. Não sei se há uma raiz, um local de onde elas partem de um dado princípio para assim atingir um respectivo fim. É quase um mistério. Creio que a leitura é o melhor a se fazer para se manter pensante, ativo, em processo contínuo de análise. Para um escritor, então, eu diria que é fundamental. Exercitar o olhar também é de grande relevância. Sem falar nos inúmeros benefícios da paciência, do respeito, da empatia, da revolta, do sincerizar-se… Bons hábitos nada mais são que processos de libertação.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Mudou a maneira de enxergar o texto, de ver a palavra, de escutar o ritmo e de lamber o sentido daquilo que pretendo burilar. Hoje, percebo que tenho mais paciência para lidar com as angústias do texto, com as agruras do escrever. Quando mais jovem, a palavra era explosão. Escrevia muito e quase sempre muito desordenadamente. Não que a desordem também não tenha o seu lado positivo, mas eu consigo conquistar um modelo de equilíbrio na escrita que me parece mais saudável hoje em dia, apesar das mil tarefas diárias que tenho de cumprir. Não tenho tantos espaços para falhas como tinha antes. A espada de Dâmocles hoje vive sobre minha cabeça. Finjo que ela não existe, mas sei que ela está acima de mim. Sabedoria é saber rir de tais situações.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Um romance cuja personagem principal seja a minha cidade natal (Iraquara-BA/Chapada Diamantina) ou personagens marcantes dela. Tenho uma coleção de crônicas e outra de contos sobre o assunto que funcionaram como uma espécie de treinamento. Sei que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Tenho dois livros de poesia publicados e em 2022 lançarei mais um. Todavia, um dia minha mãe veio me perguntar quando eu iria escrever um livro de verdade… fiquei matutando sobre o dizer dela. É mais ou menos assim, não? Só vale se for em prosa, um romance, um livro grosso, de preferência que se sustente em pé nas estantes (risos). É óbvio que discordo disso… O livro que eu gostaria de ler e que ainda não existe está em minha cabeça. Tenho todo ele pronto. Preciso escrevê-lo.


Entrevista concedida originalmente ao projeto www.comoeuescrevo.com

sábado, 9 de abril de 2022

SPECTRUM LITERÁRIO EM ANGOLA: O CASO DE JOÃO TALA


 

Neste vídeo, o professor e escritor angolano João Fernando André analisa o fenômeno do "spectrum literário" na obra do escritor e poeta angolano João Tala, autor de Além da Noite e Missal de Sábado. Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#joãotala #spectrumliterário #literaturaafricana #literaturaangolana

domingo, 3 de abril de 2022

Sobre as festas particulares do corpo

*
Por Germano Xavier


Quando li CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri, eu já havia dito/escrito que estava diante de um conjunto de petardo-poemas diferenciado no rol do que já havia lido até então. O livro era/é uma investigação poética sobre a maquinaria do mundo, “com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada...”

O singular livro da capa preta agora cede espaço no território-criador de Guarnieri para outro rebento-solar: seu segundo livro, intitulado de CORPO DE FESTIM. Livro da capa verde, com Houdini acorrentado, esboço-simulação de uma criação para a larga estrada da humanidade asfaltada através dos invólucros perfeitos: os corpos das coisas e até mesmo o corpo do próprio corpo: a ideia da possibilidade do banquete particular sempre disponível. 

Aqui-agora neste, Guarnieri não remedeia nada de nossos males, não escancara aflições, não mais nos previne dos cancros maiores de nossas amarguras; melhor, explica a pane da vida desde o átomo primordial das ausências até a supernova celular das vistas opacas. E explica o passo-a-passo de nossos passos sombreando, com tortuosos verbos, como tem de ser o mistério em essência. 

O revisto caos com câncer da atualidade-homem é, pré-leitura-pós, constantemente relembrado em todos – ou quase todos - os seus filtros invisíveis, já que o plasma medular da vida está agora embutido em todas as veias de palavra-vãos utilizadas pelo poeta-imagético/sensorial carioca. Assim, suspeitaremos durante todo o livro de uma porção um tanto mais espessa acerca de nossa origem animal-animalesca, sem deixar de lado a nossa porção-pensamento/sentimento. 

De tal maneira forte a substância do livro que o caminho dos sentido-significados é sufocado pelo senso de arrependimento, ou ao menos de angústia por termos nascido e sermos nascentes, também. A vida se torna um desacerto dentro da grande-poesia de CORPO DE FESTIM e o erro, um elemento elegantemente elogiado e extremamente funcional.

Aí está, novamente: o componente-marco da poética de Guarnieri, tendo em vista seus dois livros primeiros, é talvez um olhar uníssono sobre o enredo de nossos dias. O poeta parece atravessar a rua, no meio do tráfego violento, para nos dizer das coisas que existem dos outros lados, nas outras margens de nós mesmos. Do outro lado, repito, uma sempre-possibilidade. O corpo: uma casa, uma máquina, uma fonte eterna de tudo, mesmo quando alquebrado, sem vida ou morno.

Guarnieri se prostra diante do mundo doente para fazer intervenções pontuais: opera a carne humana, faz corte na carne anímica, elabora sucção da carne terrena, mete-se a reter os líquidos que extravasaram durante os noturnos tempos sem aurora, faz a cirurgia que entreabre a malha do tecido-pele, espeta a bolha e faz de conta que é o fotógrafo da explosão ao mesmo tempo em que inaugura qualquer espécie de pulso. CORPO DE FESTIM é um livro de poemas escritos com o auxílio de um estetoscópio. Guarnieri, antes de fazer o papel de um médico do coração dos corpos do mundo, diagnostica os módulo-nódulos do ócio e de nossas bruscas des-frenagens cotidianas. 

Afinal, o que poderíamos ser se tivéssemos feito tudo de outra maneira? O que ainda dá para ser se escolhermos mudar a rota? Não há um resultado definido ao final: nem a morte fica anunciada sob a maca que carregamos sem saber. Há sim, um peso. Um peso por sermos o centro dos movimentos de Nada-Tudo, um peso por pensarmos que somos. Tudo, como em CASA DAS MÁQUINAS, permanece alterado no meio do caminho, com numa experiência. Guarnieri, não obstante suas denotativas evoluções, segue a escrever não livros com poesia, mas livros que despoetizam o que é elemento-impostor, inverdade. Para ele e seu CORPO DE FESTIM, o que importa é o avesso dos lados retos, o irresolvido dos absolutismos, a eletricidade nos nervos atingidos e suas prováveis reações sinestésico-inomináveis.


* Imagem:  http://saopauloreview.com.br/2015/01/05/resenha-corpo-de-festim/

sábado, 2 de abril de 2022

SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o ensaio SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil. Sobre a estupidez, afirma o escritor austríaco do clássico O HOMEM SEM QUALIDADES,, neste ensaio, as pessoas geralmente preferem não falar, não discutir: "O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós é revelado por muitas pessoas ao demonstrarem-se surpresas de maneira amável e conspiratória quando alguém, a quem confiam, pretende evocar esse monstro pelo nome". Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#robertmusil #sobreaestupidez

sexta-feira, 25 de março de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta

 

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV)

Des poèmes étranges et étrangers (Partie XIV)

 

À la recherche des sirènes du Rhin

 

je suis parti tôt pour une dernière journée de découvertes.

au dessus d’un énorme pont, à l’ouest allemand,

j’ai traversé la Moselle en respirant un air d’adieu.

l’Allemagne était déjà un dessein conquis.

 

à Boppard, j’ai débarqué en Rhénanie après avoir parcouru une forêt.

région bellissime qui possède une délicieuse bière de blé.

tout de suite après, la proximité de la Valée du Rhin

et toutes ses créatures légendaires.

 

j’ai pris la direction de Loreley avec une vaine attente passagère.

serait-ce vraiment possible d’être avalé par ses charmes et ses recoins?

je m’interrogeais à ce sujet et pendant tout le parcours fluvial,

entre deux châteaux médiévaux en marge de ces eux froides,

je me suis mis à l’écoute, pour vivre, qui-sait, un moment de défi attachant.

 

pourtant, je m’y attendais, Loreley tenait à se déguiser

au milieu de bruits quelque peu étranges.

 

ce qui est sûr c’est que ma dernière première vision

d’une Allemagne presque rurale et presque ancienne et presque

moins développée de ce qu’elle est réellement m’a fascinée

par le regard et par l’écoute.

 

«je suis chanceux de ne pas avoir été avalé par le Loreley» — ai-je pensé.

 

 

P.S. Après cela, je me suis arrêté à Frankfurt am Main.

La nuit tombait.

Il était l’heure de dormir puis de rentrer au Brésil…

 

(Cologne, Valée du Rhin et Frankfurt, le 17 juin 2017)


sábado, 5 de março de 2022

A VIDA NÃO É ÚTIL, de Ailton Krenak


 

"O pensador e líder indígena Ailton Krenak volta a apontar as tendências destrutivas da chamada "civilização": consumismo desenfreado, devastação ambiental e uma visão estreita e excludente do que é a humanidade". Neste vídeo, falo um pouco sobre o seu último livro: A VIDA NÃO É ÚTIL (Companhia das Letras/2020). Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#avidanãoéútil #ailtonkrenak

sexta-feira, 4 de março de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIII - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta

 

Des poèmes étranges et étrangers (Partie XIII)

 

Une sorte de Pequod

 

la Mer du Nord était toujours là dans mes pensées

depuis que j’avais quitté Volendam.

je ressentais une sorte d’appel, comme un cri.

 

mon après-midi venait de commencer à Marken.

il faisait froid, il y avait du vert partout dans les maisons en bois

des fenêtres ouvertes, des gens nus là-dedans.

ils se déplaçaient à gauche et à droite dans les pièces

insouciants, délivrés de toute sorte de pudeur,

comme s’ils habitaient un petit Éden.

 

au cœur d’un petit comté,

j’ai remarqué un Pequod ancré sur un rivage.

et j’ai fixé le bateau pendant un bon moment.

le froid me réchauffait le cœur.

des souvenirs de voyages par le biais des livres m’ont assailli.

c’était un moment simple et beau

et j’éprouvais le besoin de te le raconter.

 

 

 

(Marken, après-midi du 16 juin 2017)


quarta-feira, 2 de março de 2022

MENINA A CAMINHO, de Raduan Nassar


 

A escritora luso-angolana Luísa Fresta tece alguns comentários acerca do livro MENINA A CAMINHO, escrito no início dos anos 1960, mas que só começou a ser disponibilizado ao grande público em 1997. Seu autor, Raduan Nassar, exerceu diversas atividades antes de estrear na literatura em 1975, com Lavoura Arcaica, sua obra-prima e um dos grandes marcos da literatura brasileira contemporânea. Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta. #raduannassar #meninaacaminho

Sobre "êxodo,", de Carlos Gomes




Por Germano Xavier


(Cepe, 2016)



Sair para quem sabe, chegar para quem pode. Mas antes a PARTIDA, uma partida. De que é feita uma partida? Doze cavalos em trote, vida ainda adormecida nas vontades de cada um de nós-ali-narrativa. Correnteza de homens mundo afora e um sertão de gentes, de forças, de cantos, de juventudes, de rios. Deus-vento que monitora os passos. Eles-nós são andarilhos e a vida não tem fim. Não tem mesmo? Doze cavalos procurando pouso. Ginetes agalopados. Raça de peçonhas e de assombros. Cavalo morde? A vida morde? Para que serve o ir? E o sonho? Meu Deus, o sonho, para quê serve o sonho? 

Crer que seríamos os onze cavalos apenas, em menos-um andante. Música menor é o passo dado a esmo. Corredor mais vago. A vaga de cada ser no mundo. E a correnteza de gentes, a correria dos homens. Tudo acabará? Menos a música dos ventos? Enfim, perdemos sempre. Precisa-se aprender a perder, mesmo que sempre. Acostumar-se? O lugar algum deve existir. Pelo menos o lugar-comum existe. Triste estrada a de nós, capazes de tantas atrocidades, aptos a tantas desgraças e mortes e mais mortes. E mais.

Quando paramos com tudo isso? A ESTRADA engole os fracos. Seremos a mais real catástrofe. Já somos. Já somos? Mas os fortes também vão ficando pelo caminho, marginais, avessos, traídos. Dez cavalos e o som do vento incessante. Vento-deidade. Vento-morte. Vento-desventura. Para qual aposento levaremos a memória? Dormir é pouca-morte para tanta vida lá fora? Lá fora é onde mesmo, grilhão? Lá na beira da estrada éramos destino, enorme boca assanhada de se lamber mil léguas. 

Ah, o LUAR! Varre para longe todas as nossas reservas de esperança, que acreditar é despedaço! Cavalos morrendo aos pés dos montes. Troupe perdida. Tropa em carne viva! No desespero a fome tem outro nome, a dor tem outra cor, a sede outro cheiro. Estrela também pode ser sinônimo de treva. Mas que nem tudo pode ser visto assim, com pesar. Oito cavalos que eram nove. Nove cavalos que eram dez. Dez cavalos que eram onze. Onze cavalos que eram doze cavalos e quantos mais poderiam ser?

Quando a AURORA aparecer, pensariam todos, o mundo seria outro. ROSA-DOS-VENTOS e cinco cavalos. Umas lágrimas velhas, novas e insuportáveis. Etéreas palavras como feridas. Labirinto-cantiga. Orquestra de contrários. Salivaremos até não podermos mais com a voz-mais-mentirosa. Salivaremos sangue se for preciso. Até termos as MARAVILHAS. Até sentirmos umas maravilhas de riso, de aposta, de feto novo no colo, de lado atravessado, de pele sem ranhuras, de choro vencido, até as maravilhas do eterno, caminho que temos dentro de nós, mesmo quando só nos sobram dois cavalos, ou um cavalo, quando nos tornamos os próprios equídeos, mesmo pangarés em fantásticas cavalgadas, ou quando formos simplesmente a CHEGADA.


terça-feira, 1 de março de 2022

O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway


 

O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea, em inglês) é uma novela de Ernest Hemingway, escrita em Cuba, em 1951, e publicada em 1952. Última grande obra de ficção do escritor norte-americano a ser publicada em vida. Conta a história do velho pescador Santiago, que luta com um peixe gigante no mar. Quer saber mais sobre esta história? De quebra, ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#ovelhoeomar #ernesthemingway

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Não falta açúcar (ou Ainda a penumbra)


 

Por Germano Xavier


meia-luz. vamos parar o Tempo.

parar o Tempo pode ser voltar no Tempo.

entre a luz e a sombra, assombra sempre

o fantasma do que passa 

e do que nos transforma.


gradativa mudança ou brutal revolução, 

cada qual com seus caminhos. meia-luz.

vamos lembrar o Tempo. um Tempo.

para isso: quilômetros.


sim, a ampulheta está sobre a mesa.

escutar o Tempo também pode alongar

a vida dos instantes eternos. meia-luz.


em cima do que se ameniza para não ser susto,

ou surto, está a vontade de ler a página esquecida,

aquela última página que pode ser a penúltima 

página esquecida, aquela penúltima página

que pode ser a antepenúltima quimera.


meia-luz.


que não sejamos o anteparo, a umbra, a antumbra.

sejamos o Tempo, mesmo líquido, mas o Tempo, 

que é de onde todas as insurreições florescem.

sejamos, afastados das sombras das dúvidas,

o Tempo que ensina a fênix a nunca morrer.

o Tempo-Badalo, toante, que unido a outro

de mesmo ritmo, rapidamente se esquece, 

sobretudo, do quão tudo mudou. e ficou.


* Imagem: Google

O QUARTO DE GIOVANNI, de James Baldwin


 

James Baldwin (Nova Iorque, 2 de agosto de 1924 — Saint-Paul de Vence, 1 de dezembro de 1987) foi um romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social. É considerado, por muitos, como o grande crítico do "sonho americano". O Quarto de Giovanni foi publicado pela primeira vez em 1956 e conta a história de amor entre dois rapazes em Paris. De um encontro, toda uma problemática da existência. E tudo isso, através da visão da professora e artista visual angolana Cristina Seixas. Ainda neste vídeo, Angélica Carem também nos oferta mais uma preciosa dica em sua coluna Fala & Escuta.

#oquartodegiovanni #jamesbaldwin

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XII - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta


Des poèmes étranges et étrangers (Partie XII)

 

Odin et la Mer du Nord

 

l’attente était auspicieuse.

au bout d’un long trajet, j’aurais

la chance de toucher les eaux

de la Mer du Nord.

 

Amsterdam je l’ai vue dès le matin dans mon rétroviseur.

la route était mon chemin.

 

arrivé à Volendam, après avoir dégusté des fromages typiques,

le froid s’est ancré dans ma peau, et ce fut le premier signe.

j’ai traversé quelques ruelles et les étroits couloirs de la petite ville

et voilà...l’énorme  Mer nordique, le temple vivant des vikings!

 

lorsque je suis en plein centre des cosmos historiques,

j’arrive à entrevoir des départs, des arrivées, des gens,

des batailles, des joies et des tristesses. c’était le cas.

la Mer du Nord m’a semblée chargée de souffrance,

ses écumes discrètes dévoilaient une complainte

dans la couleur du liquide.

 

en regardant la Mer du Nord j’ai compris

que les vagues ne dansent pas toujours dans les fêtes de corail.

 

 

(Volendam, matin du 16 juin 2017)

domingo, 27 de fevereiro de 2022

DIA DO PROFESSOR | MEUS PRIMEIROS PASSOS NA PROFISSÃO


 

Como me tornei um professor? Até hoje ainda não entendo direito como tudo aconteceu, mas sei que aconteceu. E que bom que aconteceu! Dedico este vídeo a todos os professores e professoras do mundo, em especial para aqueles que muito me inspiraram e ainda inspiram: Noélia Ribeiro (Educandário José de Arimatéia), Dalva Menezes (Educandário José de Arimatéia), Alberto (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Erik Machado (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Darci Ribeiro (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Maita Assy (UNEB/DCHIII), Odomaria Macedo (UNEB/DCHIII), Giovanna de Marco (UNEB/DCHIII), Josemar Pinzoh (UNEB/DCHIII), Andrea Santos (UNEB/DCHIII), Francisco Panta (UPE/Petrolina), Yolanda Almeida (UPE/Petrolina), Bruno Siqueira (UPE/Petrolina) e Kleyton Wanderley (UPE/Petrolina), Elcy Cruz (UPE/Garanhuns), Jaciara Gomes (UPE/Garanhuns), Benedito Bezerra (UPE/Garanhuns), Graça Graúna (UPE/Garanhuns) e tantos outros.

E aos meus pais.
#15deoutubro #diadoprofessor

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XI - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta


 

Des poèmes étranges et étrangers (Partie XI)

 

Des diamants, des canaux el le district de Lumière Rouge

 

en arrivant à Amsterdam, je suis allé voir

des diamants. j’ai dit à la dame qui montrait

les pierres «je viens de Chapada dos Diamantes. qui

me dit que ce brillant ne provient pas de chez moi ?»

elle a rigolé, mais mes propos étaient empreints de révolte.

j’ai riposté méchamment. d’ailleurs, je trouve toujours

un moyen de me venger.

 

au bout d’un petit tour à la petite usine je me trouvais déjà

au centre de la capitale hollandaise.une ville bellissime. des vélos.

beaucoup de vélos. de tous les cotés. de toutes les couleurs. des vélos noyés dans les canaux. un festival d’histoires sur les vélos et leurs propriétaires. j’ai pris du vin.

 

et le bateau a inauguré la nuit.

j’ai contourné des rues étroites e je me suis retrouvé

au district de Lumière Rouge. j’ai donc tout observé minutieusement

autour de moi. une façon singulière de se faire de l’argent,

de vendre le corps, d’exploitation et de tant d’autres choses…beaucoup de jeunes

plein de fumée, de l’alcool et beaucoup de drogues, je sais.

jusqu’à présent je me rappelle des regards fugitifs de ces femmes dans les vitrines. à demi-nues et dénudées de tant de choses. j’ai observé, mais pas trop.

je ne voulais pas les gêner. la Hollande mérite

une attention spéciale. on peut y trouver plein de choses qui sont déjà le futur, en quelque sorte. 

ou pas. un jour, nous le saurons.

 

à ce moment-là j’ai pensé à Anne Frank.

j’ai tout de suite fermé les yeux,

et mes pensées ont éloigné la douleur.

 

 

 

(Après-midi et soir  du 15 juin 2017)


domingo, 13 de fevereiro de 2022

GRAVANDO, de Aline Rocha


 

Aline Rocha publicou em 2013 um livro de poemas repleto de referências ao cinema e à fotografia, intitulado "Gravando". Vale a pena dar uma conferida, caríssimos leitores. Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferta mais uma preciosa dica em sua coluna Fala & Escuta.

#gravando #alinerocha

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte X - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta



 

Des poèmes étranges et étrangers (Partie X)

 

Arômes du Nord

 

du coup j’ai vu surgir la Haye, la troisième ville hollandaise,

comme si de rien n’était. juste en passant, je l’admets. de manière fluide.

 

c’est un siège du gouvernement, sans l’être, une sorte d’éminence grise,

la capitale. c’est là où habite le Roi. Et il n’est pas nu.

 

j’ai admiré le Binnenhof, un des bâtiments de la Cour.

mais, par moments, j’ai éprouvé une étrange fatigue.

 

l’Europe, parfois, et à certains endroits

de son territoire, nous semble un grand bloc uni,

sous différents aspects, et ce détail

peut être repéré aisément

dans l’architecture, le paysagisme.

 

j’ai dribblé des touristes en marchant vers le marché

que j’avais aperçu de l’autre coté de la rue.

là-bas, à l’intérieur du magasin,

j’ai goûté le jus d’orange le plus orange de ma vie,

puis j’ai remarqué qu’il y avait un Canta LX et je me suis mis à réfléchir à toute une problématique urbanoïde.

 

pourtant, quelque chose d’autre attirait mon attention ce jour-là.

et ce n’étaient pas les voitures Mini ni les édifices éclatants

des différents tribunaux mondiaux

éparpillés dans la ville.

 

 un arôme s’enracinait dans mes entrailles.

 

c’était la Mer du Nord, vivant à l’horizon ouest.

les boucaniers savent que les abyssales eaux du monde

dansent sous les astres.

 

 

 

(Matin du 15 juin 2017)