domingo, 1 de março de 2015

Felicidade pueril

*
Por Germano Xavier

eu tive uma coleção de embalagens vazias de xampu
eu tive um cheiro de suor que exalava aventura
eu tive uma coca de dois litros cheia de bolinhas de gude
eu tive uma bolinha de gude que era de metal
eu tive um short branco que ficou da cor da cera líquida que usavam para encerar o chão
eu tive um passarinho que voou de minhas mãos
eu tive uma coragem insólita para superar alturas
eu tive um reino particular no quintal
eu tive uma rede rodoviária inteira para se gastar joelhos empurrando carrinhos de plástico
eu tive uma bola nova que murchou após o primeiro baba
eu tive uma unha que caiu de tanto jogar descalço na rua
eu tive uma bicicleta para fugir de casa
eu tive uma pipa de grandes centímetros de rabiola
eu tive uma amiga para brincar brincadeiras de menino
eu tive um amigo para brincar brincadeiras de menino
eu tive um céu que me presenteava estrelas
eu tive uma noite sem dor no coração
eu tive uma tarde repleta de gibis
eu tive uma manhã que atravessei em sonhos
eu tive um irmão para brigar pelo resultado da última rodada
eu tive uma mãe para reduzir horários
eu tive um pai para me chamar do portão
eu tive um tempo sem tempo para o tempo
eu tive uma paixão ingênua pelo meu Daimon
eu tive um universo divino ativado com o abrir dos olhos
eu tive um medo danado de fechar os olhos


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Fragile-steps-304666928

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte VIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


quarta-feira, 04/02/15
As árvores amorosas (parte XI)

Les arbres amoureux (partie XI)

Poème dédié à la femme de l’île de l’Amour

Je veux juste garder le souvenir
de ce ciel violet
que nous avons vu arriver
dans un étrange état
le premier jour du voyage

Je veux garder notre intimité
avec les diamants et les draps
la promenade par les rivières et les monts

Je veux juste être proche
du moment des retrouvailles
sans vouloir analyser le vent ni le temps
avec mes faims et mes soifs insatiables

Je veux juste oublier
ce qui nous a éloignés l’un de l’autre
au fil des après-midis grisâtres
sans départ ni destin
en regardant des navires qui chavirent

Je veux juste effacer
tes étreintes matinales, je ne veux plus les voir
dans le futur
je ne veux plus de tes baisers cruels
qui dessinent des poignés
et inondent les toiles illimitées


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Meeting-the-spring-morning-sun-425807366

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ler para ser

*
Por Germano Xavier

“A dialética é, enfim, a lei fundamental do ser.”
(Maurice Merleau-Ponty)

Em seu livro O ATO DE LER (FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS PARA UMA NOVA PEDAGOGIA DA LEITURA), Ezequiel Theodoro da Silva esboça uma severa crítica ao método usado na formação atual do aluno-leitor e reforça a ideia de que o ensino da leitura não está restrito apenas ao momento da alfabetização. Para o pesquisador, ler não pode ser apenas a decifração do código linguístico e os aspectos teóricos e práticos da leitura deveriam ser tratados, pois, em quaisquer cursos de preparação de professores, de forma indistinta. 

Ler é, também, um ágil modo para refletir e transformar. Partindo de tal premissa, Ezequiel critica a política do “deixa como está para ver como é que fica”, que povoa o ambiente educacional de vários territórios do mundo. Para ele, a leitura encontra-se demasiado prejudicada, também, pelo advento das tecnologias de massa. E tal cenário é ainda mais desanimador quando se possui uma tradição de leitura elitista, como é o caso do Brasil.

Para reverter o preocupante panorama, a boa educação deveria apontar para o significado e para a referência. A expressão escrita, para Ezequiel, apresenta-se como a maneira mais prática para a promoção e circulação do conhecimento. O leitor lê aquilo que quer, é livre. As vantagens da informação escrita, pois, são ilimitadas. Ler não é mera deglutição. Ler é realmente participar mais crítica e ativamente da comunicação humana. 

O livro sempre reflete o humano. Comunicação não é apenas falar e escrever (emissão), mas também ouvir e ler (recepção). Para o caso brasileiro, as “lições” da leitura são: 

1) Leitura é essencial à vida e a qualquer área do conhecimento; 

2) Leitura é igual a sucesso acadêmico e diferente de evasão escolar; 

3) Leitura é o principal instrumento para a prática; 

4) Aprender a ler é reduzir a alienação e a massificação; 

5) A leitura parece ser o único meio de desenvolver a originalidade e autenticidade dos seres que aprendem. 

Ler é, antes de tudo, compreender. Compreender é ser. Os três propósitos fundamentais da leitura são: Compreender a mensagem; Compreender-se na mensagem e Compreender-se mensagem. Ezequiel abre espaço em seu livro para criticar a escassez de projetos de pesquisa desenvolvidos no Brasil acerca dessa temática. A leitura é essencialmente humana. Para tal, uma abordagem fenomenológica seria o melhor caminho. O fenômeno é logos, uso da intuição. A linguagem manifesta o ser relacional do homem. A evolução da fala. O código escrito transforma a estrutura da existência – o homem passa de ouvinte a leitor. Ek-sistere: abertura ao outro. Compreender e simbolizar: existir. Ao ler, estamos descontextualizando e recontextualizando. 

Estamos existindo, ao máximo.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Reading-59875697

Do ensinar à ensinagem

**
PIMENTA, S.G. & ANASTASIOU, L.G.C. Do ensinar à ensinagem. In: Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.

Por Germano Xavier*

O texto em discussão traz em sua introdução uma perspectiva histórica sobre a didática comeniana e a predominância do ensinar sobre o aprender. Em tempos mais recentes, esta predominância e centralidade foi transferida ao ser que aprende, perspectiva fortemente influenciada pelo pensamento de Rousseau e desenvolvida pela Escola Nova. Nessa abordagem, leva-se em consideração a criança como sujeito que aprende, valorizando desta forma os interesses e motivações da mesma.

A partir desse contexto, a autora apresenta-nos a importância de adquirirmos o entendimento da natureza do ensinar, para a superação do falso dilema que se estabelece entre ensinar ou aprender. Portanto, apresenta-nos a ensinagem que, para a mesma, comporta em si a superação dessa falsa dicotomia. Ao discutirmos a docência universitária, a autora coloca como ponto importante "a necessidade de compreender o funcionamento do ensino, fenômeno complexo e em situação, suas funções sociais, suas implicações estruturais, e do ensinar como prática social". (PIMENTA, 2002, p. 204)

No contexto da prática social, centraliza-se o olhar sobre o ensino e a aprendizagem, sobretudo, nos processos de ensino em cursos universitários, onde não passam de reproduções, aulas expositivas onde apenas o professor fala. Neste sentido, o conceito de ensinar desconsidera todos os elementos essenciais do processo de aprendizagem em questão.

A docência não pode ser compreendida como sendo apenas um ato de ministrar aulas, visto que tal conceito vai além. A docência no ensino superior requer uma atenção especial às necessidades dos discentes, para nortear a sua "prática" no processo de ensino-aprendizagem, pois o papel do docente é fundamental e não pode ser descartado como elemento facilitador, orientador e incentivador da aprendizagem. Deste modo, na ensinagem, a ação de ensinar é defendida na relação com a ação de aprender, pois, para além da meta que revela a intencionalidade, o ensino desencadeia necessariamente a ação de aprender. 

O processo de ensinagem parte do pressuposto de que é, ele, antes de qualquer conceituação, um exercício de compartilhamento, de convívio e de diálogo entre as partes que compõem o jogo educativo, a citar primordialmente o professor e o aluno. Neste entrelaçado, o conhecimento se acerca de buscas em torno de mobilizações, construções e elaborações sintéticas.

Quanto ao que concerne acerca do tópico "mobilização para o conhecimento", como assim se referiu Vasconcellos (1995), cabe ao professor procurar formas de atrair o seu aluno até a mais próxima face do saber que porventura esteja em destaque. Para que isso ocorra, há de existir vontade e interesse de ambos os lados. A promoção da relação do aluno para com o objeto de estudo é o desafio maior desta etapa.

No que tange à "construção do conheciemento", a prática analítica do aluno em relação ao objeto de estudo faz-se aqui de alvo máximo. Aqui, o aluno, com apoio total de seu orientador, debruça-se no corpo do saber e alicerça seus tijolos de síntese e de visões de futuro. É o momento do aluno ativo e do professor operante. Para tal relação acontecer de forma harmônica, cumpre observar os passos da Significação, Problematização, da Práxis, da Criticidade, da Continuidade, da Historicidade e da Totalidade, cada qual com suas prerrogativas e dinâmicas.

Sobre a "elaboração da síntese do conhecimento", último tópico que compõe o processo de ensinagem de acordo com Pimenta (2002), o aluno caminha ao lado do professor e já esboça o que podemos chamar de consolidação de conceitos, sabedor de que tais conceitos devem ser vistos como entidades mutáveis, pelo simples fato de que nunca deixamos de aprender coisas novas e que, por conseguinte, a qualquer momento podemos adentrar por novas mutações de base ideária.

O processo de ensinagem é uma busca mútua, professor e aluno na direção de um só objetivo, as duas figuras marcando territórios e superando obstáculos que podem, com certa facilidade, impedir o livre curso das formações de saber. Ensinagem, pois, é compromisso com o que vai além do necessário dentro dos universos do conhecimento. Destarte, ensinagem é também uma espécie de amor, ou de amar, na acepção mais justa e bonita possível.


* Texto escrito em parceria com Dayse, Denise, Débora, Edjane, Elizabeth, Hugo e Noêmia, colegas de pós-graduação em Ensino de Lingua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru - FAFICA.

** Imagem: https://whatsonmyblackboard.wordpress.com/

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Pescoço

*
Por Germano Xavier

o pescoço preso para frente
ave do depois e do orgulho
que teme o passado professor

o pescoço parado no corpo
que não leu o desejo de girar
para o lado planeta da paixão

o pescoço mudo como antena de som
morno o passo sob a dor do apego
a distância dos longes no passo curto

o pescoço da mulher sem homem
em despedir-se a não pedir perdão
avestruz alvoroçada sem sair do chão

o pescoço do homem sem mulher
a colher a marca da língua presa
em postes sem luz e valas fétidas

(o pescoço poda a produção se sai
do ventre da mente do coração
da magia dos cavalos silvestres?)

o pescoço a parir maus-tratos
os pratos à pia na espera-lixo
da noite sozinha com café

o pescoço que não disse palavra
na hora triste na hora melancólica
do crasso erro que separa amor

o pescoço que só quis saber de si
que só viu umbigo com calendário
de dor de choro de lágrima de arrebol


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/To-Jump-Or-Not-To-Jump-435446357

As árvores amorosas (Parte XIII)

*
poema para a mulher do bairro da escola

Por Germano Xavier


quando eu sentar (sem o corpo)
na varanda da casa pequena,
no plano do baixio terreno
de minha morte,

e quando eu fingir que ainda posso
lembrar de nossos instantes de televisão
adornados pela tripla pilha de livros
sobre a mesa ao lado da cama,

com a face farei
um trejeito medonho, típico
dos homens que se perderam em vida 


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/M-M-love-VI-tree-70029289

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ele ouviu Mozart para morrer

*

Por Germano Xavier

para Aurora Bernárdez e Julio Cortázar

libertas linhas vozeadas ao caminho
da dor que é perto,
da bruta dor que é longe
daqui e Aurora com ouvidos
para o pedido do menino que a amava.

“o Concerto para Clarinete em Lá Maior”
meu amor - segundo movimento -,
era um Mozart para a hora implacável.

imaginar que no quarto haveria,
a conduzi-lo em chegadas, um retrato dos dois
numa avenida parisiense em manhã outonal.

o som insano do verso musical
sem palavra para um homem de gatos pretos:

- Maga, você chegou?


* Imagem:  http://adligmary.blogspot.com.br/2014_08_01_archive.html

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A mão do irmão

*
Por Germano Xavier

para Gustavo Xavier, meu irmão

quando eu tiver
de nomear as coisas do céu,
as coisas do mar e quando eu tiver
de dominar com a alma em fúria
o timão incerto do tempo

e tiver de rememorar
as lutas de menino que lutamos
na plasticidade autoritária da vida
a conduzir correntes e grilhões,
terei sabido a verdade sobre os montes
de nossa escola de andar a partir da mão

na mão do outro.


* Eu e meu irmão Gustavo, em Palmeiras-BA. Meados dos anos 80.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XIII)

*
Por Germano Xavier


CINQUENTA TONS DE CINZA

O livro CINQUENTA TONS DE CINZA tem uma legião de fãs/leitores pelo mundo afora e não demorou muito para virar filme - óbvio. Sinceramente, fico muito feliz quando vejo o povo lendo. Ler é sempre bom e importante. Não li os "polêmicos" livros de E. L. James, talvez os devesse ler antes de falar mal do filme. Mas, como imagino que não vou ter paciência para chegar ao final da trilogia, então fico com este meu olhar apenas aparente. O que vi no filme CINQUENTA TONS DE CINZA (2015), dirigido por Sam Taylor-Johnson? Vi um lenga-lenga interminável entre um "príncipe" adepto do BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e uma "plebeia" apaixonada, costurado num enredo desprezível e sem força que o legitime a tamanho deslumbre. Na literatura universal, há tantas estórias mais relevantes e profundas e de teor erótico, pessoal! Investiguem Safo, Anais Nin, Bataille, Sade, Drummond, Patrick Suskind, Gregório de Matos, Bocage, Hilda Hilst, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues... De todo modo, que façam do supracitado livro o princípio-motor para continuar exercitando a leitura e para que, aos poucos, adentrem sem pena pelo fantástico e mais sublime da literatura. Sigamos, bucaneiros!


O EXPRESSO POLAR

Eu particularmente gosto de filmes assim, com ares mágicos e que dialogam com a fantasia de uma maneira um tanto que ingênua. O EXPRESSO POLAR (2004), dirigido por Robert Zemeckis, é um filme bonito que mescla aventura e animação digital. Com Tom Hanks em formas computadorizadas e no papel de condutor do trem que leva alguns garotos crentes e descrentes acerca da existência de Papai Noel até o Polo Norte. O filme é um marco em termos tecnológicos e foi baseado num conto de natal escrito por Chris Van Allsburg. Vale a pena conferir, bucaneiros!
 

A HORA DO PESADELO

Fica tudo muito estranho quando você, após longos anos, resolve rever um clássico do terror que foi produzido bem no ano de seu nascimento. A HORA DO PESADELO (1984), dirigido por Wes Craven, parece ter falhas absurdas quando observado hoje, mas ainda assusta em algumas passagens. E cá para nós, Freddy Krueger é um ícone do gênero, não há como não reconhecer isso. Para quem não tem ojeriza por sangue em jorros, vale a pena ver de novo.


ENTREVISTA COM O VAMPIRO

Se eu gosto dos livros de Anne Rice? Não são a minha praia, eu lhe digo. Nada contra quem goste. Se eu gosto de histórias cujas personagens são vampiros? Depende, eu lhe digo. A expressão máxima vampiresca no cinema que conheço é Nosferatu. Todavia, o filme ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994), dirigido por Neil Jordan, coloca-nos diante da história de Louis de Pointe du Lac, uma espécie de vampiro de "alma boa", nem tão cruel e sanguinário como imaginamos. O filme é bem costurado e acaba prendendo nossa atenção. O ponto de destaque da obra, para mim, fica para a atuação da infante Kirsten Dunst. Recomendo a todos os mortais!


BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR

Entretenimento, nada muito além disso. Eis o filme BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (2012), dirigido por Rupert Sanders. Nova roupagem para o conto clássico dos irmãos Grimm, com boa apresentação nos aspectos mais gerais. Não gostei da escolha da atriz para o papel da protagonista, acredito que existiam melhores possibilidades. Essa onda de remodelar narrativas clássicas da literatura virou febre em Hollywood. Vez ou outra sai alguma coisa interessante. O filme em questão é apenas razoável. Há produções bem piores na mesma linhagem. Vai encarar?


AMOR, SUBLIME AMOR

Sinceramente, eu não gosto de musicais. Deve haver alguém que goste. Todavia, o filme AMOR, SUBLIME AMOR (1961), dirigido por Robert Wise, fez-me relevar as cantorias chatas muito facilmente e acabou se revelando demasiado apetitoso ao olhar. Um clássico, super premiado e que não pode deixar de ser visto. Na trama, um amor proibido e a discussão eterna envolvendo xenofobia em solos norte-americanos. Um belíssimo filme. Eu diria até que foi o melhor musical que já assisti até o presente momento em minha vida. Recomendo a todos os mortais!


O DIÁRIO DE ANNE FRANK

São raros os filmes que se equiparam em qualidade aos livros que os servem de inspiração. O cinema, penso eu, nem tem nem deve ter a função de repassar as mesmas informações presentes num livro-base, por exemplo, mas antes ser ponte para ressignificações e avanços de perspectiva. Dentro deste espectro, o filme O DIÁRIO DE ANNE FRANK (1959), dirigido por George Stevens, supera todas as expectativas. A obra cinematográfica consegue ser fiel ao livro e, ao mesmo tempo, revela-se ao espectador como que possuidora de uma carga simbólica demasiado sólida, tanto em termos narrativos quanto estéticos. 15 Oscars e 5 Globos de Ouro. Leiam o livro, assistam ao filme. Recomendo a todos os mortais!


SICKO S.O.S SAÚDE

O documentário SICKO S.O.S SAÚDE (2007), dirigido por Michael Moore, é de causar revolta em quem o assiste. O filme revela um pouco do deficiente e corrupto sistema de saúde norte-americano, infelizmente copiado em terras tupiniquins. Um sistema que maltrata a maioria dos cidadãos comuns, negando o direito à saúde de qualidade e humanizada, impondo uma conduta de assistência à pessoa doente que engana, segrega e que, no fim das contas, só beneficia a indústria dos planos de saúde e aos donos do poder - de novo, alguma semelhança com o Brasil?. Moore exemplifica o seu discurso fazendo comparações com as relações de saúde praticadas em países como o Canadá, Inglaterra, França e Cuba, que não medem esforços para cuidar de seu povo quando o assunto é direito à vida, e de forma gratuita. O documentário também aborda, em segundo plano, o papel massacrante da mídia, construtora de um imaginário negativo para o que podemos chamar de "medicina social". Recomendo a todos os mortais!


O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA

Eu gosto de histórias em quadrinhos desde muito pequeno, gosto desta coisa toda de super-heróis lutando contra o caos e ajudando a derrotar o mal (ou o inverso), apesar de não ser nem desejar ser um especialista neste delicado universo onde a paixão reina soberana. Dentre os mais famosos representantes desta categoria, Spider-Man talvez seja o que menos me apetece até então. Já vi alguns filmes mais antigos da série e este reconto da história, intitulado de O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA (2012), dirigido por Marc Webb, continuou muito sem graça para mim. Andrew Garfield colou como Peter Parker? Pode ser ranço, não sei. Quem importa com isso, afinal? Sigamos, bucaneiros!


SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III

SEXTA-FEIRA 13 - Parte III (1982), dirigido por Steve Miner, quando visto em uma noite de sexta-feira de um dia 13 fica ainda mais interessante. Não que o filme seja um espetáculo do gênero, longe disso. O filme é apenas mais um ícone do terror dentre muitos, vamos dizer assim, e o terceiro da famosa série é o primeiro em que Jason aparece com a famosa máscara. Os diálogos são banais, o roteiro é o mais do mesmo, mas Jason inaugurando a persona de Jason é sem igual. Vai encarar?


O CAMINHO 

Em O CAMINHO (2010), dirigido por Emilio Estevez, o veterano Martin Sheen encara o famoso Caminho de Santiago de Compostela depois de saber que seu filho morreu tentando fazer a travessia. Como num esforço de recompensação espiritual, o protagonista vê seu coração abrandar ao passo que vai encontrando pessoas que o auxiliam na jornada. O filme traz imagens reais do milenar trajeto e serve de inspiração para quem um dia deseja encontrar seu "verdadeiro eu" nas plagas históricas. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A poesia do ascensorista

*
Por Germano Xavier

Literatura é um engajar-se, Sartre vociferava. Convenhamos: há algo de verdadeiro nisso. Mas até quando seria possível manter o punho da voz firme ao sentir que “o fracasso é que a língua perde/ritmo”, como escreve o Gabriel Resende Santos, nascido num Rio de Janeiro em maio de 1994. E se o ritmo está alquebrado, a vida inteira se desmonta. Destarte, acreditar em Rimbaud e Whitman pode ser mesmo uma solução. O menino que questiona “quantos minutos tem a pétala”, é o mesmo que não conta segredos para nenhuma fúria e que sabe que todo “entendimento é um jogo de morte”.

A poesia presente em ELEVADOR tem o corpo sem acomodação, a alma sem afetações e gasta seu tempo e seu espaço tentando gritar alguma coisa no meio deste mundo de inaudíveis - habitado por um gentio estranho, muito estranho. Por tentar tal feito, já deixa a simplicidade de ser mera anotação em papel barato e ganha o status daquelas decididas palavras que nos emocionam por ou em determinado momento de nossas vidas. A poesia do garoto sobe e desce, eleva-se e se revela, releva e desvela a pessoa entrada no cubículo dos sentidos.

O efeito poético que se vê na respectiva obra brota de um ritmo aparentemente sólido e por demais amarrado. O autor trabalha o poema, não parece ser um amontoado de versos sem passado. Há sim um dito com elementos simples e modificações de forma um tanto já corriqueiras neste universo, mas talhada como escultura por mãos de quem realmente emprestou sofrimento à palavra. Como pregavam os gregos, o texto poético é aquele que cria alguma coisa, indefinida, mas alguma coisa. Eis a mais simplória definição da poiesis, conceito ao qual Gabriel se enamora em ELEVADOR.

Como não existe uma definição perfeita para a boa ou para a má poesia, os aspectos essenciais de uma obra ficam mesmo nas garras dos olhos-tempo do leitor, ser quase sempre ensimesmado que irá confrontar as estrofes lidas enquanto complementa o vago possível dos eixos em verbo com a ideia mais precisa do instante. A poesia de ELEVADOR acredita na grande beleza plástica que a palavra pode exprimir, mas não se deixa morrer neste detalhe.

Fala-se muito em mistério quando o ser enunciado é a poesia. Dá-se margem a rios de águas que correm por este mundo. Emoção demais, dizem, pode nublar a vista real das notáveis importâncias. Todavia, escrever é um passo para se sair dos labirintos – ou para se adentrar ainda mais por eles. E escrever poesia num mundo tão surdo-mudo quanto este em que vivemos soa como uma necessidade digna de aplausos. Portanto, uma salva de palmas para o ascensorista.


* Imagem:  http://www.evento.br.com/eventos-arquivo/382263/lancamento-do-livro-elevador-poemas-de-gabriel-resende-santos

As árvores amorosas (Parte XII)

*
poema para a mulher húngara

Por Germano Xavier

em teu reino não fui rei
rainha de si sem o meigo termômetro
do tempo

tornei-me
ao segurar tuas mãos na orla do rio
o mais abominável dos homens

sem poesia
meus passos de abril
chegavam já em março
adiantando um peso travesso

(o solo das águas repintavam o breu
na claridade ideal)

sem coroa fui ser paladino
de corações mais apressados


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/across-the-downhill-101319600

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A vida na berlinda

*
Por Germano Xavier

“Se viver é sentir-se perdido, a lucidez é saber-se perdido.”
(Frédéric Schiffter)


Para se viver, não há uma receita única. “A vida é a de cada um”, já dizia José Ortega Y Gasset. E cada qual é um vazio à espera de alguma água. Durante toda a nossa vida, fugimos de quem já fomos um dia, mesmo que por pouco tempo - sinal de aprendizados? Por vezes, conseguimos escapar, outras não. A todo instante, parece que entramos em contato com a existência da essência das coisas, chegamos a entendê-la como real, mas logo somos afetados por sua falta. Sim, cavalheiros, o essencial existe e falta. E como falta, some.

E como às vezes o único bem é o nosso ser, requeremos o bem que mais nos aporta, que mais nos incendeia, que menos nos castiga. Por isso, buscamos em meio a nossas mortes diárias o amor nas qualidades de alguém, o abrigo nas aparências que nos são generosas e o estilo naquilo que tende a se perder de vista. Traímo-nos compassadamente em busca de mil caminhos que não nos levarão a absolutamente nada, mas caminhos. Seguir ou se deixar abater pela desordem do mundo, eis uma questão difícil. 

Qual o limite de nosso próprio charlatanismo enquanto ser humano? Onde dará o impostor de nós? A traição é mesmo a maior característica do homem? Sacrificamos verdades históricas em prol de verdades ideais, assim sem mais nem menos? Quão vago se encontra nosso ideário ontológico? A vida e suas questões perturbadoras, fazendo-nos duvidar de movimentos antes tidos como pétreos, inquebrantáveis, mas de composições bem tênues. 

A ideia da realidade a la Platão, alimento de cárcere do homem por longos séculos da civilização ocidental, pode a qualquer momento dar lugar à crença na verdade do reflexo. Para isso acontecer, basta acreditarmos na refundação do homem e na possibilidade de reformulação do caos instalado, porque antes da essência vem a existência. E existir, como sabemos, custa muito.

Viver, cavalheiros, é saber onde enfiar a cara no resoluto espaço necessário de aparição, mas também saber desaparecer na hora certa. Burrice é esquecer-se de si mesmo e procurar no outro a base para uma ideologia. O ser ideológico, que é artefato mais da massa do que de si próprio, pode ser encarado como uma aberração. Por que mesmo deixamos de cuidar de nós e passamos a transferir cuidados aos outros, se a preocupação maior é manter-se vivo diante das possibilidades diuturnas de morte?

Viver é deixar de disse-me-disse. E doar-se, é morrer? Onde fica a fonte de todo o prazer possível? Quais as puras aspirações a sentir nossos pulsos em sangue? Emprestar um pouco de nossas vidas a quem? Por que acreditar que ser grande é conseguir trocar de pele facilmente? E esse palavrório todo, de que servirá ao final de tudo? Um conselho soaria impróprio? Se possível, deixemos de concluir os pensamentos, a vida requer reticências. Muitas reticências...


Este texto foi escrito após a leitura do livro SOBRE O BLABLABÁ E O MAS-MAS DOS FILÓSOFOS, de Frédéric Schiffter.


Imagem do topo: http://www.deviantart.com/art/sea-ghost-03-62561352

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A perder de vista

*
Por Germano Xavier

te perder de vista
te perder à vista
sem moeda de amor contar

e te perder em vista
da força depositada nas mãos
que te puxam e repuxam para dentro
do medo de te perder

de vista à vista
- nós em revista - opaco horizonte
olhar de luneta a fuçar concretos
inexatos

a perder de vista inauguro
o velho sentimento de quando
o coração batia sem música
a traduzir solidão



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Missing-90406743

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A aquarela do instante

*
Por Germano Xavier

esta tua ausência
que escavo enquanto me descubro
que acho enquanto me afugento
é tão vermelha

e estas tuas vindas nem bem aparições
que só fazem aumentar a névoa lá fora
são tão cinzas

se quiseres me matar
já terias os segredos de degola
tão insinuados nas vestes do frio de agora

cá dentro um sol arde enfiado na masmorra do peito
tudo em branco & preto

se bem quiseres trocar esta dor filósofa
abrigada em mim com a piedade possível
sob teu sorriso minguante

em cores na rebarba deste breu que em vão me atenho
tu me farias o favor de estar
na inabordável aquarela deste instante


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/a-rainy-day-99138305

A Nova York de E.B. White

*
Por Germano Xavier

"A prosperidade, assim como a depressão, também cria as suas filas de pão."
(E. B. White)

Elwyn Brooks White, ou simplesmente E.B. White, foi um escritor norte-americano que trabalhou em diversos jornais e revistas, autor das aventuras do ratinho Stuart Little (mais difundidas por conta de sua versão cinematográfica) e do célebre ensaio intitulado AQUI ESTÁ NOVA YORK (Here Is New York), publicado no ano de 1949 e motivo-mor destas rápidas impressões.

O escritor, misturando veios jornalísticos com uma delicada apuração sensorial da atmosfera da cidade, entrega ao leitor logo nas primeiras páginas uma Nova York de meados do século XX repleta de flagelos e encantos. De antemão, forjamos a ideia de que a cidade que possibilita a dádiva da solidão é a mesma que empresta a todos a dádiva da privacidade, seja você um nativo, um mero gafanhoto que vai-e-vem ou um desbravador que escolheu a Grande Maçã como refúgio. 

O relato, curto e com traços impiedosamente poéticos, beira a perfeição textual, bem aos moldes de um New Journalism. Saímos de sua leitura com vontade de conhecer a cidade que White retrata, curiosos por saber se ainda hoje, em pleno século XXI, Nova York mantém as mesmas características explicitadas no ensaio, dura, rude, luminosa e autêntica em seu cosmopolitismo. Ficamos, nós leitores, meio que atordoados por saber se a “lei” dos 45cm ainda representa a medida exata entre o elo que aproxima e a distância que dissipa o anonimato da fama.

A Nova York de White é a cidade em que podemos contatar Oz em toda a sua misteriosa magia, um lugar de homens que nunca mudam e que também podem ter suas almas reformadas a cada novo quarteirão, uma terra que tem tudo para parar de funcionar a qualquer momento e que, teimosamente, dá certo quase todos os dias, um mundo do mundo que é abandonada nos fins de semana de verão e que se abarrota em outras estações. 

E já no fim do ensaio, num tom profético, como quem suspeitava de alguma anormalidade diante de tamanho e aligeirado avanço da cidade, White escreve: “A mudança mais sutil em Nova York refere-se a algo de que as pessoas não falam mas que está na cabeça de todo mundo. A cidade, pela primeira vez em sua história, ficou destrutível. Uma simples revoada de aviões pouco maiores do que gansos pode rapidamente acabar com essa ilha da fantasia, queimar suas torres, desmoronar as pontes, transformar as galerias do metrô em câmaras letais, cremar milhões. A suspeita da mortalidade faz parte agora de Nova York: no som dos jatos sobre nossas cabeças, nas manchetes pretas da última edição.” Enfim, alguma semelhança com a realidade pode não ser mera coincidência.


Imagem:  http://www.brainpickings.org/2014/07/09/e-b-white-here-is-new-york/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sobre berços e memória: o testemunho de Selbor

*
Por Germano Xavier

Demora muito para a gente nascer de verdade – se é que nascemos de mentirinha algum dia. Eis o lugar ao qual chegamos quando se termina de ler SATOLEP, de Vitor Ramil: o berço. O Barão de Satolep, travestindo-se de Selbor, fotógrafo que resolve voltar a respirar seus natalícios caminhos após 20 anos de sumiço pelo mundo, envereda-se por um álbum de memórias congelado, repleto de mornas dores e clandestinos espantos, com os quais objetiva uma sangria baseada no retrato das perdições de um simples ser humano, sensível por natureza.

Em determinado momento, Selbor refresca-se com uma frase do seu amigo Cubano (alusão ao escritor Alejo Carpentier), que diz: “Se tivéssemos viajado puramente através da intensidade da luz e do rigor da paisagem, estaríamos agora penetrando em seu detalhe. Desembarcamos na estação das coisas essenciais”. Percorrendo o que chamou de “grande círculo”, Ramil nos faz embarcar em nossas respectivas reminiscências, impactando novos descobrimentos aos olhos leitores e fazendo brotar flores em meio à náusea cotidiana de nossas existências. Chega uma hora que temos de aprender a ver, como requer seu irmão em determinada passagem do livro. Ver para ver além, ver para ver aquém, ver para simplesmente ver. Obrigatório aprendizado.

É realmente difícil conseguir chegar onde nunca se esteve antes e mais difícil ainda é chegar onde se imaginou ter estado outrora. Existem cidades construídas no solo das ilusões. Existem pessoas que viveram/vivem em cidades que nunca existiram na realidade. Talvez seja o meu caso com a pacata e chapadeira Iraquara, no interior baiano, com a qual mantenho uma relação dual que vai do amor ao repúdio em questão de dois ou três pensamentos. Satolep é um amargo doce para o fotógrafo do livro, que tenta captar uma existência incapaz de se materializar sob a luz vermelha de seu laboratório. “Às vezes, o lugar onde queremos chegar fica exatamente onde estamos, mas precisamos dar uma longa volta para encontrá-lo. O senhor foi na direção do mundo, eu vim para Satolep”, relata Selbor.

Sem se esquivar das trevas nem das luzes diárias, Selbor encara o tempo de frente numa escaramuça duradoura imprópria para corações imaturos. Tendo como sibila a figura do escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, Selbor aponta a lente de sua câmera para as janelas de nossas almas e para as paredes de nossos corpos. O que se revela sob a luz vermelha de seu laboratório é antes a imagem branca do mundo, preenchida de nossos vazios tão sedentos, ancestrais e imorredouros. “De repente, sobreviver era insistir na busca de um lugar para pôr os seus restos”. Todavia, é em Satolep que Selbor irá encontrar as formas, cheiros e cores de que tanto precisa para seguir vivendo, mesmo sendo, por vezes, formas sem cantos, cheiros sem encanto e cores sem carinho. Não havia o que fazer, a não ser entrar naquele trem cujo destino era o calor geométrico das coisas.

Este texto foi escrito após a leitura do livro SATOLEP, de Vitor Ramil.


* Imagens: Google.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

As árvores amorosas (Parte XI)

*
poema para a mulher da ilha do amor

Por Germano Xavier



quero lembrar daquele céu roxo
que vimos ao entrar no estranho estado
ainda no primeiro dia de viagem


guardar apenas nossa proximidade
com os diamantes e com os lençóis
o passeio pelos rios e morros


estar próximo ao momento do encontro
sem tantas análises de tempo e vento
com muitas sedes e fomes


esquecer o que nos fez distantes
nas tardes escuras sem eira
nem beira a ver navios naufragando


apagar do futuro seus abraços
de manha e seus beijos de sanha
pintores de pulsos e obras sem tamanho


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/An-old-tree-199354467

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte VII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


sábado 31/01/15
A sangria

Saigner

Quand l’homme au Café Brasileirinho
m’a vu en train de lire mon livre
la couverture rosâtre, imprimé en Chamois Fine Dunas
il a dit tout de suite sans réserve
qu’il n’en avait lu qu’un seul dans sa vie
et que celui-ci l’avait fait pleurer

je l’ai écouté attentivement
j’ai vu les mots qui naissaient dans sa bouche

ils avaient des formes mémorables
des tons changeants de désespoir
une humeur blessée en taches
c’étaient des mots de vieux

Il a saigné dans mon corps pendant l’après-midi
et malgré les froids insipides
j’ai avalé les symboles des ruines
on a pris congé
je lui ai filé du fric
en traversant la rue

la nuit allait bientôt tomber
et le Printemps
pourrait finalement être touché


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/A-Bar-85296784

sábado, 31 de janeiro de 2015

A sangria

*
Por Germano Xavier

o homem do café Brasileirinho
quando me viu com o livro na mão
capa rosada e miolo em Chamois Fine Dunas
foi logo dizendo sem anteparos
que somente um de todos que havia lido
durante a vida o fez chorar

escutei aquilo olhando fixamente
para as palavras saindo de sua boca

tinham formas memoriais
tons de tempo e desespero
um humor magoado em nódoas
as palavras do velho

sangrou em meu copo toda uma tarde
e a despeito dos frios insossos
ingeri os símbolos das ruínas

despedi-me
destaquei uma nota de dez
atravessei a rua

anoiteceria e amanhã a primavera
poderia ser tocada


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Vague-Memories-of-Togetherness-486514118

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Receita curta para fazer poesia

*
Por Germano Xavier

para Rubem Braga, cronista poético

acredite em coisas obscuras
ache que trabalho é bom
faça canoas com versos de madeira
respeite as árvores e seus debruços

lembre-se: o pequeno emociona
aprenda a consolar saudades com metáforas
aborreça tédios e escolha a coisa vã

pense no ritmo do infinito
alimente a língua banal
honre a bobagem

e ao final
continue acreditando


* Imagem: http://techgnotic.deviantart.com/art/november-497089561

Nada muito sobre filmes (Parte XII)

*
Por Germano Xavier


ALEMÃO

Coloquei para gravar no aparelho. Apertei o play como quem não quer nada. Fui vendo, fui vendo, fui vendo, fui vendo, fui vendo... o filme era o nacional ALEMÃO (2013), dirigido por José Eduardo Belmonte. Policiais infiltrados no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, passam um sufoco danado depois que documentos que versavam sobre suas respectivas investigações vazam e caem nas mãos de traficantes do local. É mais ou menos isso e tem muita coisa batida, já vista em filmes da mesma linha. Está bem longe de ser um filmaço, mas também não é de todo ruim. Gosto muito do Caio Blat na telona. Espiem aí e depois me digam o que vocês acharam, bucaneiros!


PETER PAN

Já conhecia o livro, não o filme. Só fui conseguir assistir agora nas férias, no Cine Vila Rica, em Ouro Preto-MG. Estou falando de PETER PAN (1953), animação da Disney dirigida por Hamilton Luske, Clyde Geronimi, Wilfred Jackson. Confesso que fiquei com bastante sono vendo a película acerca da história do garoto que não quer crescer. Talvez não fosse o momento mais apropriado para adentramentos à trama ou talvez eu tenha percebido ali que havia me contaminado, por demais, com a droga da adultice severa, que seca nossas porções de espanto mais profundas e sensíveis. Resumindo: um clássico do gênero com muitas cenas imperdíveis para um dia impróprio. Vale uma espiadela!


JOBS

JOBS (2013), filme dirigido por Joshua Michael Stern, narra um pouco dos primórdios da empresa APPLE e, também, de seu principal fundador: Steve Jobs. Para mim, foi relevante saber que este idolatrado homem das ciências computacionais fez parte da equipe de criação de jogos (que joguei!) dos saudosos consoles ATARI, ali no fim dos anos 70 e início dos anos 80. Chamou-me a atenção, também, a cena em que ele liga para Bill Gates, acusando-o de copiar descaradamente seu recém-criado software. Verdades ou mentiras, exageros ou não, o filme segue a linha biográfica e serve para elucidar um pouco dos mistérios que envolvem este gênio ultramoderno, idealizador de aparelhos que fazem parte do cotidiano de muita gente espalhada pelo mundo. Como produção/obra, muito fraco. Todavia, merece uma conferida. Sigamos, bucaneiros!


TATUAGEM

TATUAGEM (2013), filme dirigido por Hilton Lacerda, é mais um filme brasileiro que tem como pano de fundo o período da Ditadura Militar, abordando principalmente questões relacionadas à censura cultural. Um grupo de teatro, o Chão de Estrelas, torna-se alvo de agentes da repressão e, após alguns embates, vê-se na fronteira que limita a perseverança do fim. O filme se passa em Recife-PE e é composto de muitos elementos poéticos, que ao mesmo tempo remetem a um estado de rebeldia latente por parte das gentes envolvidas e, também, a uma ingenuidade de cores e gestos que imprimem uma vontade de fazer mudança a todo instante. Com o bom Irandhir Santos no elenco. Recomendo a todos os mortais!


O BEM AMADO

O BEM AMADO (2010), filme dirigido por Guel Arraes e baseado na obra homônima de Dias Gomes, é engraçado, faz caricatura do modus operandi do político populista nacional e, ainda por cima, traz um elenco "deverasmente" interessante, em se tratando de cinema brasileiro - apesar de toda a engrenagem Globo de ser. As peripécias do prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, que envolvem principalmente a construção do cemitério da cidade, chegam a ser hilárias. Se você procura entretenimento, é uma boa pedida. Sigamos, bucaneiros!


LAURA

O curta-metragem LAURA (2013), dirigido por Thiago Valente, narra a história de uma mulher no auge de seus 43 anos, que se vê desamparada e infeliz depois que uma série de infortúnios lhe acometem. Sem conseguir dar seguimento ao seu trabalho como atriz e tendo de aceitar o término de seu casamento, Laura se joga numa nuvem depressiva que a definha aos poucos. O curta foi bastante premiado. Vale a pena conferir.


A CAVERNA

Ô, filmezinho ruim este A CAVERNA (2004), dirigido por Bruce Hunt!


EU SOU A LENDA

Caos, humanidade por um fio e um roteiro por demais verossímil fazem de EU SOU A LENDA (2007), filme dirigido por Francis Lawrence, um exemplar cinematográfico digno de boas loas. Depois de um vírus ter dizimado boa parte da população da Terra, um homem tenta de todas as formas encontrar sobreviventes e, também, a solução para desfazer todo o desastre. No meio do percurso, luta diariamente consigo mesmo e contra mutações notívagas estranhíssimas. O final poderia ser mais bem acabado, mas está valendo. Não obstante, ainda fazem uma espécie de tributo ao Rei do Reggae, Bob Marley. Recomendo a todos os mortais!


PETER PAN – DE VOLTA À TERRA DO NUNCA

PETER PAN - DE VOLTA À TERRA DO NUNCA (2001), filme da Disney dirigido por Robin Budd, coloca o menino que não quer crescer de novo nas garras do Capitão Gancho. Na tentativa de atrair Pan, Gancho sequestra a filha de Wendy por acaso e a partir daí a confusão se instala. Jane, de 12 anos, que não acreditava mais em histórias fantásticas, termina por viver uma, o que a faz mudar de ideia. Dessa vez, os Meninos Perdidos ganham mais ênfase. Dá até vontade de ir morar para sempre na Terra do Nunca. Continuação de um clássico de 1953 que deve ser revisitado sempre que possível. Recomendo a todos os mortais. E que sejamos Meninos Perdidos durante toda a vida!


12 HOMENS E UMA SENTENÇA

Dirigido por Sidney Lumet, o clássico 12 HOMENS E UMA SENTENÇA (1957) marca seu território de sucesso ao revelar em detalhes a reviravolta fantástica que se deu num julgamento tido como de resultado óbvio. Doze homens decidem pela vida ou pela morte de um jovem porto-riquenho, acusado de ter matado o próprio pai. Apenas uma divergência torna-se motivo para toda uma perspectiva ser alterada e para que novos olhares sobre o crime e o criminoso sejam observados e resignificados. Um filme que é uma aula de argumentação. Rende muita discussão, ainda hoje. Recomendo a todos os mortais!


Imagem: Google.