sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mulher-rio



Por Germano Xavier

para Carol Piva, em ani-versos


estio | equador
quente de tão-quente
verão inteiro



Carolina Piva é o nome dela. Toda uma estação. Ela. Desde que a sei que sou mais. Ela tem isso. Dentro. Cria e difunde. Ama. Este espaço é mais com ela. Por ela, também. Rio que corre na noite. Sereno. Misterioso, de tão profundo. 

Feliz aniversário, C..
Sigamos!


* https://pixabay.com/pt/gotejamento-molhado-gota-de-%C3%A1gua-2806027/

domingo, 15 de outubro de 2017

Eu ainda te falarei do amor



Por Germano Xavier



aqueles mares, amor,
onde quase nos salvamos,
eram reais demais para
pássaros,
longe demais da terra,
perto demais do absurdo.

...

parei de ponderar
o imponderável.
agora, simplesmente,
paro o mundo
e mando descer
o intruso.

...

já eram verdes antes,
mas não eram musgo
(ainda).
aqueles felinos olhos
(chamas, eclipses, auroras)
viraram musgo
ao devorar
mil mundos.

...

venha aqui, amor.
sente aqui comigo,
observe aquela senhora subindo a rua.
percebe o quanto ela hesita?
talvez pense que não faz diferença
um passo a mais ou a menos.

talvez pense que o peso
em sua alma não suporte mais um metro,
não aguente mais uma casa bonita
que nunca será sua
ou mais um senhor distinto
que não a enxerga.

talvez, amor
(e não deixe de considerar as sombras),
aquela mulher que já esqueceu
de que é uma mulher
seja agora e apenas
uma pedra levada pelas marés,
ora coberta de água
ora queimada de sol.

mas é fato, ainda, amor,
que aquela mulher
é parte de nossa morte.
a cada não-passo seu
morre um pouco
de toda a humanidade.

...

você vê, amor?
jamais foi escrita
a nossa história
nos calendários
obrigatórios
dos dias contados.

a história,
nós a fizemos carne
e a comemos em horas
fatais, em dias infindos,

na geografia acidentada dos corpos.
no reino imperfeito das palavras,
perfuramos a vida
em busca da penumbra
onde o tempo é amor
e o silêncio é pacto.

amanhã, noite clara,
cheia de miúdas belezas:
o dia que mais te amei.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/praia-bancadas-bicicleta-moto-1835036/

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Tapete mágico e outros poemas



Por Germano Xavier


1 | Tapete mágico


o que nos falta, meu bem,
é um relógio quebrado,
um mundo mais simples
e um arsenal de eternidades,

ou talvez
apenas precisemos
de um tapete mágico
e um bocado de inocência.


2 | Morte


violência, silêncio,
assombro ou selvageria.

nada encobre a beleza
(e o horror)
de que tudo terá fim.


a morte
e sua inquestionável divindade,
não a desconhecemos.
por isso,
ardemos sem paz.

mas os poetas,
em algum ponto
entre a palavra
e o embevecimento,
esquecem de morrer.


3 | Resistência


mas se amamos
é porque aprendemos
a sepultar as dores

nas encostas dos dias,
nas vielas do tempo,

a deixar que o vento
reconstrua a estrada
acima dos corpos.


4 | A priori


amo você a priori
(a despeito de cada espinho de minha alma-cacto),
amo você enquanto palavra,
enquanto mulher,
enquanto líquido.

sobretudo amo você enquanto
penumbra
(matéria abstrata de nós).

você enquanto ausência é pedra e mar.


5 | Lado


se encantado seguirei,
como na música,
ao lado teu,

na poesia
seguiremos
lado a lado,

porque o lado, amor
(também),
pode ser dentro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/tapete-macro-detalhe-fio-2350549/

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVII)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



A morte soprada

Le souffle de la mort


Tu surgis loin de moi, impénétrable
Indéchiffrable perfection.

Telle une déesse qui se cache,
Intangible, celle qui déchire les attentes.

C’est alors que je te livre mes délires,
Je me confie à toi, vulnérable
Je t’impose mes prières
Comme on impose l’amour et l’espérance.

Et toi, comme les êtres célestes,
Souveraine,
Tu jouis du droit de souffler sur moi
(Encore une fois)

Vers l’existence en forme de poussière.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/shell-m%C3%A3o-natureza-morta-2546312/

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Não que o amor (não) seja eterno



Por Germano Xavier



A |

depois de tudo, amor meu,
nada se perdeu além daquilo
que nunca tivemos.

a paz a nos olhar por sobre o ombro,
a dúvida a nos fustigar a pele,
testemunhas de um partir
sem fim.

somos os animais
extintos antes do tempo,

feridos pelos dias
mortos de incertezas.



B |

nunca soubemos, amor,
o que era o monstro
por trás das palavras.

por trás do por trás,
havia apenas o papel
e um vazio esquisito.



C |

havia uma pétala de zombaria
em minha mão esquerda,
daquelas que afrontam o mundo
com a sua indiferente beleza.

e logo me dei conta...
ela era a única razão
de todo o meu desencanto.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/emo%C3%A7%C3%B5es-dor-luto-triste-2691898/

domingo, 8 de outubro de 2017

Nivaldo Tenório e as camadas do conto


Por Germano Xavier



Em seu terceiro livro de contos, intitulado de NÍNGUEM DETÉM A NOITE (Confraria do Vento, 2017), o garanhuense Nivaldo Tenório, autor do bem cotado DIAS DE FEBRE NA CABEÇA (2012), faz aquilo que em seu livro anterior já havia, diria, iniciado, como quem repercute uma marca pessoal e a expande: a fabricação ou composição do conto em camadas. Da mesma forma (ou com a mesma fórmula), as narrativas são curtas e circundam temas cotidianos, com toques enxutos de realidade fantástica, quase que imperceptíveis. A morte entra como pano de fundo central e a noite engloba boa parcela de seu simbolismo. Doenças, fragilidades de corpo e alma, fraquezas de conduta, amarguras e dissabores formam o arco-íris pintado em tons de cinza do livro do escritor pernambucano. Como em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA, tudo aparenta estar em seu lugar. Mas não se engane, leitor. Ao menor sinal, perdemo-nos nos finais sem fim dos contos de Tenório. Fragmentados, somos atraídos por um imã-maior como cacos e, só assim, seguimos adiante na leitura. Uma pequenina coletânea de abismos é o que Tenório nos oferta neste livro. Os contos, formulados em pequenas cadências, com diálogos internos ou não, formam uma geometria avulsa, completamente organizada, mas indefinida a partir de sua respectiva angulação final. O olhar de Tenório sobre o básico e sobre o essencial da vida é o de quem sonda o imprevisível com respeito e arguta paciência. O autor desvia o leitor do caminho comum à medida que nos informa sobre outros mil nadas por demais preciosos. Cada mínima camada de suas fabulações é uma nova dúvida instaurada, um novo segredo camuflado, uma nova observação momentânea que se realiza dentro das miudezas e das minúcias das narrativas. Algumas imagens podem turvar o campo de visão do leitor mais desatento, como uma tartaruga que morre durante um passeio familiar em plena ditadura. É um livro triste, denso, duro, cru, cruel, que não tem pena de seu interlocutor. Assim se formou a verve de Nivaldo Tenório, sabedor astuto de que é na vida, dentro dela propriamente dita, que nos criamos feito bichos, que nos desenvolvemos feito astros, dentro dela que aprendemos a desaprender submissões e a desatar os nossos grilhões. Em Tenório há sempre um suicídio prestes a acontecer, tão provável que quase não mais assusta, pois é ele tão próximo que tende a ser a única certa defesa com a qual suas personagens podem contar quando necessário. A mensagem é a de fim de percurso, a de que o homem (todos nós, inclusive eu e você, amigo leitor deste blog) não tem mais para onde correr. Não há mais força nas pernas nem picadas a abrir nos matagais de pedra das cidades. A luz do dia ofuscou nossa derradeira esperança e ninguém, absolutamente ninguém, parece ser ágil o suficiente para deter a noite eterna das civilizações.


* Imagem: Acervo do autor

sábado, 7 de outubro de 2017

Adiante nem é um porém



Por Germano Xavier


não tem relógio o meu tempo.
deixei para trás dois ou mais amores,
um silêncio autoral e uma dúzia de abismos.
comigo, agora, só a paz noticiada
em meu texto crítico. o tempo, sem marcas,

| sem marcos |
revelou-se, via de regra, um humano senso.
todos perdemos, no fim, o tempo-núcleo,
aquele aberto contra o rosto na invenção dos ventos.

frágil colono é meu coração sem posses,
vencido tantas e tantas vezes pela beleza do mundo.
violentado, vezes inoperante, mas atestador
do exigido pelas horas, de minha insistência,
de minha não-desistência - ocupado órgão em amar
| e amar |.

você, na penumbra, não temas a noite dos dias.
havendo esse cuidado a vida se engenha em retornos

| eternos retornos |.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/mar-navio-%C3%A0-vela-oceano-p%C3%B4r-do-sol-1101168/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os contos febris de Nivaldo Tenório



Por Germano Xavier



Secos, os contos de Nivaldo Tenório em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA. Não secos por não possuírem um osso nutritivo medular, mas secos por não revelarem nada mais que o essencial. Ou seja, nada. O cotidiano na obra, também áspero, parece o centro de todas as maldições humanas que abarcam os personagens. Sufoco, evasão, fuga, desterro e suicídio percorrem os cenários de suas narrativas curtas. A cidade aparece na trama e nela quase nada aparenta estar fora do lugar. Aparenta, eu disse. No fundo, tudo está muito deslocado, mesmo tudo estando em seu devido lugar. E o leitor, temeroso, também muda de lugar simplesmente por achar estranho o fato de ter de ficar parado, estanque. O leitor, por vezes imóvel, perde o lugar, vira personagem, anda e é chamado pelo narrador, é barrado pelo personagem de um determinado conto, fica, sai, corre, foge, perde-se. Uma violência quase delicada se instala nas páginas do livro desse escritor de Garanhuns, integrante de uma leva de narradores do interior pernambucano que até hoje marca o solo próprio de suas letras literárias. Nivaldo Tenório escreve parte da história universal do abismo, do abisso, do nada em nós. Em pouco mais de 100 páginas, detona qualquer ideia mais elaborada de valia acerca da caminhada humana sobre a Terra. Seus tipos são desenganados, desprestigiados, feitos de glórias vãs ou destituídos de brilho próprio. Têm muita amargura as personas de Tenório. Nada parece possuir um propósito, como se a qualquer movimento fosse dado um destino de ser fim, de ser término um dia, de acabar. O patético é a forma comum. O dia é trivial e é sempre e apenas um outro instante em relação ao momento anterior. Nada é novo e, por isso, o homem é ninguém. O homem é ele mesmo. O homem em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA não conseguiu se multiplicar nem se transformou em outros. O homem é ele próprio e, devido a este fato, não consegue se aceitar por completo. Em tudo há uma espécie de repulsa, de vômito, de escarro. A cabeça ferve ao ler o livro de Tenório. Os dias fervem dentro dele. A febre é deveras febril. O livro, lançado pela Confraria do Vento em 2014, tem orelha escrita por Raimundo Carrero.





* Imagem: https://pixabay.com/pt/xarope-para-a-tosse-medicina-colher-2557629/

A sutil diferença



Por Germano Xavier



não é importante o gole dos brilhos
nem a maquinaria frígida dos alumínios.
não é importante a qualidade do branco pó.
só o que basta está no que cabe em uma tala
de cheiros e cores e.

com o sabor provável
vem a febre certa da cura, fim sutil
feito de esquecimentos e acreditares

– o gosto
avança e junta nossa força
numa coragem de ânimos.

é a gota,
mínima em sua transformação, na água
a vida, o pulso, o movimento.

é o naco,
silêncio imorredouro
das terras, o real domínio das precisões,
tostão dos muitos que se querem em prova
ou que existem ou que revolvem.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/farm%C3%A1cia-farmac%C3%AAutico-2066065/

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Quando, o mar



Por Germano Xavier


#1

quando me engole em suas infinitas centelhas de água,

refaço-me das anteriores mortes,
como a renascer para o fogo.

quando me esconde em seus gigantes braços de ondas,
convenço-me do próximo passo,
do próximo mergulho e
do próximo voo.

e quando me aquece em seu leito de mistérios,
calculo que o enlace seja maior do que o espaço
entre mim e a sua falta.

quando me cobre,
quando me devora,
quando me depura
você, meu amor, o mar!



#2

você, o mar, o mar, o grande mar.
o ângulo quebrado da água nas dobras das rochas,
a força que inunda o lugar do entendimento. você, o mar, o mar,
|o grande mar|
a voz sem dinâmica, torta e cheia de empolgação,
que considera e que convida, que expressa e que anseia.
o brado que reluta na saudade do instante, a luta
que opera e chega e chama e

o mar, você, o tão vasto mar, o maior-mar,
outro-ser que desarticula a própria margem
de não ser e ser

aquilo!
aquilo exibido como alívio ou a-mar...



* Imagem:https://www.deviantart.com/art/healing-692672537