domingo, 9 de dezembro de 2018

O homem encurralado (Parte XIX - em francês)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 1 de novembro de 2018
O homem encurralado (Parte XIX)


L’homme acculé (Partie XIX)

L’homme acculé,
lit de moins en moins, ne voit rien et n’entend rien,
plus il arrête de penser
plus il se fout du Temps,

sans savoir que pour bien gérer son Temps
il faut du temps.

beaucoup de temps.


* Imagem: https://www.deviantart.com/vermontster/art/Men-In-Black-391151522

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte II)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Rilke, desequilíbrio, autossabotagem e reconhecimento


Há um vício constante no mundo moderno: o de se autossabotar – termo usado para definir a criação de obstáculos os mais diversos, e que, tendo como alvos o consciente e/ou o inconsciente, busca atrapalhar a realização dos nossos maiores sonhos, de nossas metas e objetivos. Desejos estes que, por motivos vários, as pessoas sentem ou têm insegurança em vivê-los. A procrastinação é um dos piores comportamentos de autossabotagem. Transferir um projeto para um futuro próximo, sem qualquer data definida, é quase sempre o resultado de não se efetivar nada.

Não é sempre que a consciência está crente do nosso comportamento autossabotador, das nossas atitudes, tampouco de nossas frustações. Faz-se necessário ou se requer reconhecimento, de moldagem múltipla, para que seja perceptível o nosso desenvolvimento pessoal e humano. Configura-se, portanto, tal qual uma batalha constante, diária, recorrente, combatida por meio de uma enorme coragem, um enorme condicionamento mental e, sobretudo, humildade para se reconhecer as falhas.

Todos estão aptos a se declararem incapazes. É comum. Infelizmente esta decisão é exigida pelo nosso ambiente social, já que todo indivíduo é testado e cobrado excessivamente, e tão logo acaba decidindo não tentar para assim evitar frustações de um possível fracasso. Com isso, tal prática torna-se um vício, com vários dilemas em mente, do tipo “eu não posso”, “eu não consigo” ou “amanhã eu tento”.

O poeta alemão Rainer Maria Rilke, quando respondeu a Franz Xaver Kappus (as 10 cartas de Rilke ao jovem podem ser lidas no clássico Cartas a um jovem poeta), não viu nas cartas enviadas a ele os porquês literários de um aspirante a poeta/escritor, mas percebeu que, antes de mais nada, seria necessário erguer a alma daquele jovem para que ele se sentisse forte e apto o suficiente para ir adiante em seus sonhos. Fugindo aos questionamentos quase óbvios do garoto, Rilke se desvia da mera crítica e acaba fomentando um pequeno postulado sobre a vida, sobre a coragem, sobre o autoconhecimento e, por conseguinte, um curto tratado contra todas as formas de autossabotagem.

Vale enfatizar que cada um tem o seu devido valor e, assim sendo, pode acrescentar muito para si e também para os outros. Nossas diferenças são nossas riquezas. Cada ser humano pode ser totalmente suficiente para si mesmo. No entanto, leitura e/ou escuta de apenas uma frase de autoajuda não basta. E não é besteira não admitir o quão difícil é, sentir-se inábil e querer se isolar. Com ajuda e acolhimento é possível superar. Acredite.


* Imagem: https://www.deviantart.com/carmineflame/art/Portrait-288558015

domingo, 2 de dezembro de 2018

O homem encurralado (Parte XVII - em francês)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



L’homme acculé (Partie XVII)


L’homme acculé

a le droit de voter, mais il a faim
a le droit de voter, mais il a soif
a le droit de voter, mais il est sans toit
a le droit de voter, mais il est sans voix
a le droit de voter… mais il ne connait pas la paix

Sans liberté
cet homme marche alors qu’il n’attends rien du tout

Le malaise de la civilisation
l’avale de manière brutale

Les illusions sont immenses
Celles de cet homme-nous, il

a le droit de voter, mais il a faim
a le droit de voter, mais il a soif
a le droit de voter, mais il est sans toit
a le droit de voter, mais il est sans voix
a le droit de voter, mais il ne connait pas la paix

Il décide alors de suivre son chemin
| Quoique paralysé |
Il part à la rencontre du plaisir éphémère

Celui-ci étant la seule chose qui lui reste.


* Imagem: https://www.deviantart.com/mariadesconhecida/art/morreu-108901153

sábado, 1 de dezembro de 2018

O homem encurralado (Parte XVIII - em francês)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 18 de outubro de 2018
O homem encurralado (Parte XVIII)


L’homme acculé (Partie XVIII)


L’homme acculé ne sait pas comment il parle,
et à cause de cela, ne sait pas qui est-il ; (pas encore)
l’homme acculé n’a toujours pas trouvé son intonation,
sa syntaxe particulière

voilà pourquoi son destin est incertain.

il ne fait que reprendre une droite redoutable,
l’anachronisme des choses inévitables,
la strophe citée, le secret déjà dévoilé.

Sa route à lui est terminée,
comme un soldat sans guerre,
un courage sans fleur
ou une nouvelle décolorée.


* Imagem: https://www.deviantart.com/nunocanha/art/160420151-800-366409650

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Pró Irlan



Por Germano Xavier



Poeminha escrito especialmente para que os pequeninos da Professora Iudes Ferreira recitassem 
em homenagem à minha mãe, Irlan Xavier.

Evento realizado pelo Colégio Francisco de Assis (Iraquara-BA/2018).



Pró Irlan, mulher destemida,
Fez da educação a sua vida.

Casada com Carlos, mãe de Gustavo e Germano,
Uma grande mulher, um belo ser humano.

Com muito empenho e suor,
Cuidou do outro e mostrou seu valor.

Pró Irlan, professora de uma geração,
Com graça e doçura entregou seu coração.

Do José de Arimatéia ao Francisco de Assis,
Seu caminho foi ensinar o bem ao aprendiz.

Eu, tu, ele, ela, nós, todo mundo não lhe esquece.
Pró Irlan, Iraquara inteira hoje lhe agradece!

São muitos anos alimentando sonhos com amor,
Peço a todos uma salva de palmas para ela, por favor!


* Imagens: Colégio Francisco de Assis

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Aqui deveria haver rosas



Por Germano Xavier


aqui
neste interiorano coração
vivem ressonâncias infinitas

uma solidão crítica
um temor errado
um vir-de-dentro apressado
um tempo inalcançável

um dia de nada vale
se contarmos, se cotarmos, se pesarmos

aqui
neste interiorano coração
também vivem confiantes
as tempestades sem hora

principalmente o possa-vir-depois

a eternidade exige paciência
mas quão indigno é o coração?


* Imagem: https://www.deviantart.com/fakerainbow/art/Forever-young-73937376

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O claro mundo literário de Thiago Medeiros



Por Germano Xavier



“Sem medo do medíocre, do ridículo, do grotesco. Nada é medíocre,
nada é ridículo, nada é grotesco no instante inicial da criação. 
Na gênese. Sem policiamento, sem censuras”.

(Raimundo Carrero, in Os segredos da ficção - CEPE, 2017)



Antes de começar a escrever estas linhas, ponho pra tocar o CD 4 da coleção The World’s Greatest Symphonies (The Intense Media). I Adagio. Allegro non tropo. Peter I. Tchaikovsky (1840 – 1893). Não estranhe, caro leitor, foi necessário. Foi preciso para refazer os ânimos depois de ler e reler o livro CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA (Patuá, 2018), do pernambucano Thiago Medeiros. O livro de contos em questão não permite que o leitor tenha qualquer rompante barato de engraçamento ou que se cogite a possibilidade de imaginar-se capacitado a viver as coisas da vida simplesmente pela metade. O discurso das personagens não é partido. A força do texto é em bloco maciço, é um inteiro.

A linguagem, por ser universal, assim como a poesia, é inelutável. A linguagem no livro de Thiago Medeiros avisa: ATENÇÃO, NÃO VAI SER LEVE! A linguagem, quando assim ela se dá, não se pode apagar. A vida, também não. A vida, tal qual a linguagem, é inelutável. Senão, óbvio!, não seria vida, não seria experiência, não seria travessia. Seria morte. E morte é o oposto. Pense comigo: não é perfeitamente compreensível que vivamos pela metade. É um golpe duro na existência de cada um que, dessa maneira, assim resolva transitar pelo mundo. São tantas as possibilidades a usufruir, os caminhos a picar, os destinos a seguir. O fenômeno da linguagem, por refletir a multiplicidade do viver, e das nossas vidas, compartilhadas ou não, sempre se expande quando em contato com outros extratos fundamentais do arcabouço semântico-discursivo das artes ou das práticas sociais. CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA consegue tal feito. O livro é um conjunto de perspectivas que se desdobra aos olhos de quem lê, que se afirma vário, que planta outras sementes de interpretação ao menor senso. E aí já se deu a amplidão. A literatura.

E literatura é linguagem fornida, bem temperada. Roman Jakobson, no seu O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, texto deflagrado em uma conferência ocorrida na cidade de Lisboa no ano de 1972, já atentava para tais movimentos da linguagem. Mas, por que razão endereço esta resenha a falar de linguagem sob este ponto de vista? Respondo, de pronto: é porque em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, estreia do escritor caruaruense e idealizador do Letras em Barro, circuito de eventos literários que movimenta a região do agreste meridional pernambucano, estamos diante de um livro que revolve, burilando, as funções semióticas que maquinam o fenômeno linguístico de grave e potencial perturbação.

Os contos do livro, que parecem seguir um agudo fluxo único, até em termos de personagens e sucessão dos fatos, trabalham com temáticas bastante variadas, porém muito complexas, vastas e/ou insólitas. É possível perceber o trato para com a profanação do sagrado, as ressonâncias da velhice, os impedimentos e os impérios da doença, a consagração e a conflagração da infância, as descobertas de envolvimento e de cunho sexual, o riso e a ironia vistos como respostas ao mal, o mal do medo, o medo do medo, desembocando, enfim, e completamente, no desvelamento de uma linguagem feita de quase-acertos - a não completude, aqui, a falta de algo que encerre um outro algo, pode ou deve ser vista como um ponto positivo.

Sobre esta incompletude e sobre a busca incessante do autor por um assunto que lhe erga do solo e que lhe retire o conforto da mente, Raimundo Carrero vai dizer que “escrever é preencher furos, criando armadilhas e seduzindo o leitor, assim como quem borda um tapete. Na talagarça limpa, os furos vão sendo fechados pela agulha e pela linha que completam o desenho. Ou seja, o escritor precisa revelar – ou não – situações que ainda não estão objetivadas no texto”. Thiago Medeiros, filho de uma terra de bons costureiros, deu provas mais do que cabais, já neste seu primeiro rebento, de que é um talentoso alfaiate das palavras em prosa.


ENTREVISTA COM O AUTOR


Germano Xavier - O que há para ser desvelado em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, Thiago?

Thiago Medeiros - Essa é a pergunta que gostaria que meus leitores respondessem. Confesso que não sei ao certo, mas o que move meu trabalho são meus questionamentos ao longo da vida, principalmente a questão da memória e a forma que certas lembranças e vivências podem nos influenciar. Raimundo Carrero costuma dizer que toda obra literária é um pedido de socorro lançado numa garrafa ao mar, e eu concordo plenamente com essa opinião, embora não seja exatamente um pedido de socorro por parte do autor/narrador em si. A verdadeira matéria-prima de qualquer obra de arte é a miséria humana, sendo ela trabalhada através de qualquer meio - ironia, tragédia, humor, o belo, o feio - sempre será a miséria humana o fato gerador. Logo, partindo desta premissa, na garrafa não vai um pedido de socorro de um indivíduo, mas de toda a humanidade, e as dificuldades em relacionar todo um mundo próprio com diversos mundos alheios. Os personagens de "Claro é o mundo à minha volta" estão diante de grandes descobertas - a própria identidade, o luto, a sexualidade, a certeza de finitude -, e estas descobertas, por tantas vezes, encontram uma barreira difícil de vencer, que são os outros. E, sim, sou muito influenciado pela filosofia existencialista, que surgiu num momento bem peculiar da minha vida, e até hoje molda minha maneira de encarar o mundo. Então, o que se desvela neste livro é essa busca por certezas que talvez sejam inexistentes.

Germano Xavier – Você busca. Todo autor busca algo. Seus personagens buscam. Alguns poetas, por exemplo, buscam o poema perfeito ou simplesmente uma obra que ajude a completar o que Elias Canetti chamou de “Poesia Una da vida”. De acordo com Roman Jakobson, em O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, a poesia é o domínio mais criador da linguagem. Tendo a palavra “verso” a mesma raiz da palavra “prosa” (provorsa/proversa), eu lhe pergunto: você já sente a sua prosa criar uma linguagem própria a partir de CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA ou será preciso um pouco mais de tempo para que esta percepção lhe seja mais óbvia? E sobre o processo criativo do livro, fale-nos um pouco a respeito, por favor.

Thiago Medeiros - Espero não encontrar nunca uma linguagem própria, creio que me levaria ao conformismo. Quem tem estilo é personagem, não o autor. Este deve se preocupar com a pulsação narrativa compatível com cada texto escrito. Claro que há textos que você identifica logo o escritor, mas há nuances em cada trabalho que vão para além do próprio enredo, então não dá para afirmar que exista uma espécie de molde. Arte é o grande espaço da anarquia humana. Não há poderes constituídos que possam limitá-la, bem como cada nova tentativa de criação deve ser movida pelo caos, sem saber aonde vamos parar. Ainda que arte seja um ofício como outro qualquer, envolvendo disciplina para mantê-la, é o caos que nos move.

Boa parte deste livro foi escrita entre fevereiro e setembro deste ano, apenas dois contos são anteriores - "Sal. Tangos, boleros e outras despedidas" e "A Paz na bandeja de Ágata" -, que foi justamente o período depois do meu pedido de demissão do Banco do Brasil - trabalhei lá por catorze anos e aderi a um plano de demissão voluntária para me dedicar integralmente à literatura. A origem de todos os contos vem do meu dia-a-dia, das histórias que ouço nas ruas. Gosto de boemia, o ambiente dos bares, feiras livres, são lugares que tudo pode acontecer. Então, por exemplo, as histórias que se entrelaçam de "Amargo xilofone para suicidas" e "Os teus retalhos eu guardei" foram de casos que ouvi, realmente conheci um senhor que foi tirar fotos da exumação dos ossos do filho aguardando ver os insetos. Há uma espécie de possibilidade de imortalidade do indivíduo através da arte, é tanto que um dos meus livros preferidos é "Memórias de um Caçador", de Turgueniev. A narrativa é quase sempre a mesma, o autor sai para caçar, encontra alguém com quem começa uma conversa, e esses estranhos passam a narrar detalhes das suas vidas. É universal demais. Poderia acontecer num ponto de ônibus qualquer. E todos aqueles indivíduos tiveram um detalhe incrível de suas vidas imortalizado. É isso que compõe minha forma de trabalhar.

Germano Xavier – Rainer Maria Rilke, em seu clássico CARTAS A UM JOVEM POETA, escreveu: “Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados”. Decerto, é sabível que a crítica literária passou por diversas “revoluções” nos últimos séculos. Para você, Thiago, qual o papel da crítica literária para a literatura contemporânea brasileira? O que você pensa sobre o fenômeno atrelado aos YouTubers?

Thiago Medeiros - Minha experiência com a crítica é muito pouca. Numa visão, até romanceada da coisa, imagino que o papel da crítica, ao menos deveria ser, apontar caminhos para a melhora da produção nacional, e não buscar erigir novos cânones, muito menos delinear tendências, o que corre o risco da padronização da escrita. Ninguém deve se preocupar tanto com o papel da crítica - embora seja difícil, é verdade. Sem acreditar no próprio trabalho ninguém vai a lugar nenhum, de bancários a pedreiros, garis e escritores.

O YouTube é uma ferramenta revolucionária, pode ser utilizada para muita coisa boa. Sim, é verdade que vai ter muita bobagem no meio, mas o problema de certos tipos de materiais serem oferecidos, e bem recebidos pela população, não é culpa de quem o faz, estaria num plano muito mais macro. Então cabe a quem realmente deseja produzir arte, cultura de qualidade, se apropriar também desses espaços de fala. Não podemos viver isolados, cultivando a nostalgia cult de coisas do passado - e isso afirmo na condição de colecionador de vinis e livros. As redes sociais estão aí, isso é um fato consumado, então temos que nos adaptar e produzir bom material. Tenho tentado fazer isso com o Letras em Barro, mas sou uma verdadeira negação com tecnologias, logo isso me deixa dependente demais em formar equipes, buscar pessoas que queiram participar das minhas megalomanias. Mas, planos eu tenho, e logo começarão a se concretizar.

Germano Xavier – Thiago, você participou por 3 anos de uma oficina literária ministrada por Raimundo Carrero na capital Recife. Qual a relevância deste momento para o seu amadurecimento enquanto escritor? Em Pernambuco, a Fundarpe e a Editora Cepe realizam anualmente algumas premiações de cunho regional e nacional em se tratando de arte literária. Você vê os prêmios literários com bons olhos para a legitimação do fazer literário? E qual a sua perspectiva para o futuro com relação à cena literária pernambucana, mais especificadamente a do interior do Estado?

Thiago Medeiros - Morria de medo de oficinas literárias. Pensava que ia entrar numa espécie de linha de produção fordista para escritores. Até que uma amiga me sugeriu o óbvio. Vá, se não gostar, não vá mais. Já conhecia o trabalho de Carrero, então também fui atraído pela chance de conhecer um ídolo. No final a oficina foi uma grande surpresa. É um espaço muito democrático, Carrero respeita demais o trabalho de cada um. É um lugar que você descobre que não está sozinho no mundo, há outros na mesma peleja que você. Sem contar que você vai mostrar seu trabalho a uma plateia de, geralmente, leitores experimentados, então já é uma boa prova de fogo. Logo, costumo dizer que uma boa oficina é uma boa pedida para quem puder - não chegaria a dizer essencial, mas ajuda bastante.

Prêmios literários são uma maravilha para a divulgação de novos nomes. Não chegaria a dizer que legitima o fazer, porque há uma limitação de premiados. Imagine um concurso tipo o SESC, que apenas um nome entre quinhentos ou mais é premiado. E os outros, não eram bons? Com certeza tinha muita gente com um bom trabalho ali. É um grande incentivo ganhar um prêmio, mas o prêmio também, por si só, já estimula a escrita. É um formato que deve ser cada vez mais incentivado.

Creio que há uma cena em efervescência forte no Agreste. A começar por Caruaru, com nomes que em breve despontarão nacionalmente - com a barba nesse tamanho me permito ao dom das profecias. Nay Harrison, por exemplo, tem apenas vinte e dois anos, escreve feito uma orixá entronada, digo sempre que o futuro da poesia pernambucana passa obrigatoriamente por ela. A força de Joana Figueredo, Aferrera Maria, Urbano Leafa, Iram Bradock, Germano Xavier, Birigui - poeta de Belo Jardim -, a iniciativa da Candeeiro Cartonera, o próprio Letras Em Barro, tudo isso mostra que há uma cena coesa em formação no interior de Pernambuco. Com um pouco mais de organização, isso será alavancado nacionalmente. Quem viver, verá. Um exemplo a ser seguido é Garanhuns. A partir de um grupo pequeno a cidade cresceu literariamente, começando com conversas entre Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório, Helder Herik. Hoje a cidade recebe uma Bienal e tem um espaço exclusivo para literatura no Festival de Inverno, e tudo começou aos poucos.

Germano Xavier – Há pouco mais de 3 anos, perdíamos o ator, diretor de teatro e apresentador Antônio Abujamra, uma de nossas mentes mais provocativas de todos os tempos. Em sua homenagem, repasso a você a pergunta que ele sempre gostava de fazer aos seus entrevistados: Thiago Medeiros, o que é a vida? Não satisfeito, provoco-lhe um tantinho mais: Thiago Medeiros, e o que é a literatura?

Thiago Medeiros - A vida não pode ser definida, sob o risco de perder seu único sentido, que é justamente não fazer sentido algum. Embora não faça sentido, não quer dizer que não seja interessante e bela em sua fragilidade.

Já a literatura é apenas um monte de garranchos e uma tremedeira infinita nas mãos. E, assim como a vida, também não deixa de ser bela, frágil e imprescindível. Digo que frágil pois está sempre sob risco, que o diga a atual situação política do Brasil, esta onda conservadora, que na realidade sempre existiu, é uma ameaça à literatura, mas também seu maior combustível.




Claro é o mundo à minha volta (Patuá, 2018)

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* Imagens: Acervo do autor

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Os cadernos de coisas



Por Germano Xavier


dos caminhos tomados
| em minha poesia | elegi o inefável
como primeira ordem.

depois, muito depois,
atentei para a precisão em pequenas doses.

(árduo labor)

acabei condensando o que gravita
entre um olho de pantera e uma voz de anjo.

e no fim deste meu último verso,
já não sou a riqueza do meu primeiro sonho.

sou antes a densa língua
de minhas curvas
e indefinições.


* Imagem: https://www.deviantart.com/nunocanha/art/Move-338660927

domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre a grávida gravidade da vida (Parte I)



Por Daniela Correia e Germano Xavier


Episódio de hoje: Saramago, loucura e lucidez



Desde os primórdios da civilização que o povo vive em constante e, até, em desenfreada deliberação. Mutação. Porque somos assim. Porque somos isso, simplesmente. Uma espécie animal resolvida em transformações, sejam elas fisiológicas, psíquicas ou atitudinais. Cada indivíduo infere, deduz, reflete, analisa e elabora uma forma de mundo diferente, à qual sempre incidirá um tipo de dependência frente ao momento, à situação, aos privilégios e ao lugar que o indivíduo vive.

Com o decorrer do tempo e, também, diante de seu natural transcorrer, o olhar da população diante do que a cerca pode sofrer fortes mudanças de trajetória, já que reflete nos acontecimentos vivenciados durante o decurso da vida e de sentimentos porventura surgidos em meio à jornada a qual estamos dispostos a percorrer. José Saramago, por exemplo, grande referência literária em Língua Portuguesa e antena sensitiva do mundo, afirmou que estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A sensação é a de que a única coisa que importa é o triunfo do agora. A isto, Saramago chama de “A cegueira da razão”.

Muitas pessoas têm a oportunidade de sonhar, planejar e consumar seus grandes objetivos, realizar metas, reformar e refundar desejos. Outros não têm tempo para seus sonhos, tampouco oportunidades para encará-los de frente, e nesta balada desanimadora logo acabam se tornando parasitas do hábito, numa simbiose por vezes quase incurável; muitos terminam por viver sem questionar o futuro, mais precisamente sobre os seus estilos ideais de vida e as suas preferências por determinadas áreas de trabalho. Tudo acontece numa implacável mecânica, tal qual uma corrente a qual se está preso e que leva boa parte dos cidadãos para uma dimensão escura e de inoperância, onde reina o acaso e a sorte. Há muita dúvida e incerteza para com todos aqueles que almejam por um espaço próprio de identificação no mundo. Como também há pouca esperança diante daqueles que estão longe de alcançar uma felicidade maior e segura.

Entretanto, quando ainda se é criança, é relativamente comum se ensinar a ser e viver de acordo com a sua respectiva realidade. Seria este um dos motivos da crise humanitária na atual sociedade? Uma criança da periferia não pode ter o mesmo acesso às melhores escolas e universidades que uma da zona sul? É obrigação do Estado exercer o seu papel sobre a Nação, bem como, também, é papel das pessoas burlar todos os padrões impostos pela sociedade, quando tais padrões não atendem aos seus desejos mais íntimos e férteis. Mudar o pensamento e a forma de existir quando necessário fosse deveria ser regra. Com estas mudanças, o indivíduo que via um muro em sua frente pode muito bem começar a repensar e criar suas metas para a vida.

Com a luta e a união de todos, qualquer forma de desilusão tende a desaparecer do mapa, e o ato de querer mudança por todos aqueles que não têm voz também passa a ser mais presente na alma do povo. Esta revolução, tão fundamental, ocorre simplesmente com um reflexo diante de um espelho, um instante de força maior, e em seguida abre uma janela de reflexão que revela que a existência humana não é unicamente posta à prática no intuito do bem individual, mas, acima de tudo, para um bem maior e múltiplo, para a inclusão de todas as classes excluídas.

Evidente que se torna indispensável o desenvolvimento da autoconsciência, do que podemos e do que não precisamos fazer. E saber que a aparência é um aspecto meramente referendado em padronizações. E saber que muito do que ensinaram ou ensinam, na realidade, é o oposto do que toda pessoa é capaz de conseguir. Saber, principalmente, que hierarquia dos povos existe sim (o Tempo soldou-a em vis moldes), mas que a educação também existe para que ela seja quebrada, desvelada, reformulada, reorientada. Para um bem maior e múltiplo, sempre.


* Imagem: https://www.deviantart.com/vermontster/art/Hand-500722555

sábado, 17 de novembro de 2018

O homem encurralado (Parte XVI - em francês)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Sexta-feira, 17 de agosto de 2018
O homem encurralado (Parte XVI)


L’homme acculé (Partie XVI)


L’homme acculé
se jette dans les abîmes du destin
le nœud de cravate double

l’homme acculé
se donne à fond
et oublie

que tout ne tient pas dans le paysage

| surtout pas lui |
l’homme acculé
si attaché à sa courte histoire
ne voit que très peu devant lui

l’horizon s’habille en montagne magique

l’homme acculé
disparu à l’intérieur de lui-même
respire uniquement sa nullité.


* Imagem: https://www.deviantart.com/cedrus/art/Crossing-279329241

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Ars Poetica em linguagem mista



Por Germano Xavier



Eu me pego a pensar, meio que jubiloso, desde o momento que o li pela primeira vez, em como se deu todo o processo — ou apenas os seus meandros, os mais melindrosos, que sejam! — de confecção do livro Contexturas – Quadros de Armanda Alves “ilustrados” pelos contos de Luísa Fresta, lançado em Portugal no dia 13 de maio de 2017 e fruto de uma experiência arrojada de duas artistas (Armanda na pintura e Luísa na literatura).

Antes de ler o prefácio e o texto de apresentação, como costumo fazer com toda e qualquer leitura de âmbito literário, imaginei uma história de amizade muito forte e bonita entre as duas, com passagens de apego maior e de fortalezas mútuas. Confesso que quase logrei 100 % de êxito ao pensar assim. Em conversa rápida com Luísa Fresta, “ilustradora” responsável por “contar” os quadros da Armanda no respectivo livro, a autora terminou por me revelar, resumidamente: “Decidi extrair histórias de alguns dos quadros dela (Armanda), que selecionei previamente”.

Armanda Alves é uma artista luso-angolana que adotou Portugal como morada há bastante tempo. No começo, tinha a pintura como uma espécie de passatempo, produzindo peças primeiramente para o seu deleite pessoal. Como autodidata que é na arte da pintura, vive por maquinar diariamente novas técnicas e soluções para os seus quadros, entre as quais a mera aplicação dos dedos para a realização das telas, dispensando terminantemente qualquer espécie de pincel. Já a engenheira civil formada na França, Luísa Fresta, nasceu em Portugal, porém viveu boa parte da infância e da adolescência em Angola. No ano de 2014 publicou a obra 49 Passos - Entre os Limites e o Infinito (poesia), pela Chiado Editora.

O livro é um pequeno tratado de “Ars Poetica”, ao melhor e mais útil parafraseio-molde horaciano. Uma aguda dose de poesia e magia por todos os lados e por todas as páginas e por todas as imagens. Sendo ele uma fabricação de base retórica ficcional, a junção tela-texto convence-nos a partilhar uma dada visão de mundo dual/duplicada, de “realidade” amplificada, que pode a qualquer momento ser desviada para outros espaços interpretativos, afinal de contas se trata de duas linguagens artísticas bastante diferentes. Uma revelando a outra, nas 20 unidades de imagem-conto, num intenso e eterno entrelaçar-se.


* Imagem: https://artesecontextos.com/2017/05/contexturas-luisa-fresta-armanda-alves/

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Psicotrópico, de Mateus Dourado




Mateus Dourado é um dos caras mais inteligentes com quem já tive a oportunidade de estar/conhecer em vida. Hoje é professor no município de Irecê-BA, onde morei durante três anos com meu irmão mais velho e duas primas na época do Ensino Médio. Natural desta cidade, que já foi conhecida como “A capital do Feijão”, devido ao seu forte pendor agrícola, é formado em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor do e-book “Palavrar” (2014). Penso que, para Mateus, um livro de poemas tem de benzer o gesto pagão, beber a escória das verdades, vomitar purezas. Mateus Dourado, em seu compêndio digital PSICOTRÓPICO, ensina a ser impuro. Impuro, de tão cru e desnudo. Um poeta feliz em se lançar perante o mundo, diante do outro. Sem medo, sem frescura, um poeta com seus quimbas escancarados ao vento, destemida voz em amplidão. Para Mateus, um livro de poemas deve cheirar ao gosto das roceiras infâncias, ao grude dos espermas adormecidos, despejados como tiros de misericórdia nas paredes dos banheiros de solidão. A voz de Mateus Dourado é uma inteira filosofia própria. Discípulo dele mesmo e de tantos outros grandes nomes das artes, músicos, literatos, pintores e teóricos. O livro é divido em setores, com assim resolvo chamar: NO TEMPO QUE ERA SEU & OUTROS VENTRES, MARMÓREO e O OVO DO NOVO. Cada parte é uma pancada de sinceridades. Poemas escritos para serem musicados ou pintados por chicos, linikers, picassos, jimmy pages, magrittes, zecas baleiros, van goghs. Um livro de poemas deve viver. E este vive. E como vive!

Obrigado por me permitir prefaciar teu livro, mestre Mateus. 
Honra. 

Sigamos!


* Imagem:https://twitter.com/mbdourado

Bolsonaro não é preciso



Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
outro parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil



lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso bolsonaro não é preciso democracia é preciso bolsonaro não é preciso tolerância é preciso bolsonaro não é preciso respeito é preciso fascismo não é preciso lutar é preciso 


* Imagem: http://centrovictormeyer.org.br/voto-critico-voto-nulo/

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Sobre o peso de nossos pássaros mortos



Por Germano Xavier


"A cura não existe."



Quanto custa para uma pessoa ter de conviver com as suas negações de vida, os seus infortúnios, as suas farsas, as suas danças mirabolantes em prol do Nada, suas angústias e destemperanças, suas aflições e suas impossibilidades? É possível sair ileso de uma perda significante? E de duas? E de três? E de infinitas perdas? Até onde se pode ir com tamanho peso nas costas? E que tipo de lacuna se configura na alma de um ser humano quando ele não mais enxerga em si força suficiente para sonhar, ou simplesmente para continuar? Quanto custa para desentalar de dentro de nosso corpo (que vai morrendo) o caroço dos trágicos fins cotidianos que nos afetam sem pena? É possível estancar a dor que dói lá no fundo de nós?

São perguntas ríspidas demais, sabemos. Mas são perguntas muito reais, e necessárias. Reais porque vivas e presentes. Porque elas simplesmente perambulam por aí, no centro da vida de muitos de nós. E é manipulando a narrativa de dores e perdas de uma mulher (sem nome), dos seus oito aos 52 anos de idade, que a escritora paulista Aline Bei se apresenta para a literatura em seu livro de estreia O PESO DO PÁSSARO MORTO (um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura 2018) de modo muito sutil e certeiro.

O livro (Editora Nós, 2017) tem 168 páginas de uma prosa bastante diferenciada, recortada incontáveis vezes como fatias de expressão que muito se assemelham à estilística voltada para textos poéticos. Tal estratégia faz com que a leitura flua com uma velocidade deslizante. Ponto positivo também para as marcas de oralidade bem definidas e bastante evidentes como centros de todo o discurso das personagens.

(Cuidado, contém spoilers) Numa análise rápida, a sequência que condensa a jornada da protagonista pode ser explicada da seguinte forma: Logo na infância, perde sua melhor amiga, com quem mantinha uma relação de afeto incomensurável. Aos 17, é estuprada pelo próprio namorado. O pai da criança some de sua vida. O filho não corresponde, a mãe não corresponde, ninguém corresponde. Bete, que ajudou na criação de seu filho desde sempre, é a única que mantém um contato mais verdadeiro com o garoto até então. Bete morre. O filho vai para uma cidade mineira para cursar uma faculdade. Filho e mãe não se entendem. Ela se encanta por um cão durante uma viagem. Leva Vento (nome que deu ao cão) para sua casa. Vento parece entendê-la mais que seu próprio filho. Há acolhimento entre os dois. Fica sabendo que seu filho vai ter um bebê. Torna-se avó. Seu filho vai morar no estrangeiro. Ela regressa para a antiga casa. Memórias são revisitadas. A solidão segue assombrando-a. Vento morre atropelado na frente da velha casa. Triste e desamparada, morre por conta de um forte engasgo (?). Sabedor da morte da mãe, o filho demonstra indiferença. Por conta de negócios, o filho retorna ao Brasil e decide ir ao cemitério onde sua mãe está enterrada. Algo inusitado acontece neste exato instante.

É desta maneira, com um enredo aparentemente muito simples, que Aline Bei esmiúça o interior da alma humana, não só da personagem sem nome, mas a minha e a de quem quer que seja. Interessante mesmo foi perceber que, por diversos momentos, fui transportado para a figura ímpar de Macabéa, de Clarice Lispector, força-mor da obra A HORA DA ESTRELA e, também, de cenho-alma-expressão das dores incuráveis do viver (não me pergunte o porquê disto, mas assim se deu). Destarte, que fique claro que o livro pode pesar uma tonelada nas mãos dos leitores mais desavisados. Assim sendo, bucaneiros e bucaneiras, venham preparados para O PESO DO PÁSSARO MORTO!


um registro ao lado da autora no II Letras em Barro (Caruaru-Pernambuco)


* Primeira imagem: https://livreopiniao.com/2017/09/12/aline-bei-lanca-o-romance-o-peso-do-passaro-morto-em-sao-paulo/

domingo, 4 de novembro de 2018

O homem encurralado (Parte XV - em francês)



Eis o texto de número 2.000 (dois mil) aqui n'O Equador das Coisas.
Haverá comemoração. Sigamos, bucaneiros!

Por Germano Xavier


"tradução livre"






Domingo, 22 de julho de 2018
O homem encurralado (Parte XV)


L’homme acculé (Partie XV)


L’homme acculé
hésite entre partir et rester
et la route est le visage de son doute

S’il décide de rester
il se fait avaler
(permanemment en quête)
S’il part, il étouffe
sous la platitude des jours

D’ailleurs, mourir est tout à fait son genre
vu qu’il lui reste de la trempe et quelques atouts

L’homme acculé
est un vainqueur
qui s’est vu décerner le prix des horreurs
Il se confond avec les feux rouges
et les voies de la route
il erre au lieu de marcher

Son dos sauvage s’incline
sur le poids des fardeaux.


* Imagem: https://www.deviantart.com/shaysapir/art/Stares-171521895