segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

BR (Brazil)



Por Germano Xavier


este poema não ajudou o índio
morto em chamas não ajudou
a baixar o preço da carne não
ajudou a elevar a bolsa
não ajudou a derrubar o golpe
não ajudou a
combater os muros não ajudou
a livrar a criança negra da bala perdida

| tão branca quanto negra |

a despetalar a vida este poema
não ajudou a vencer o câncer não
ajudou a rodar a faca no intestino
do Cão

este poema escancarou o ódio
a decepção este poema
morreu tão vivo
na voz dos que são secos

este
poema estampou a cara de uma guerra
civil e se viu inútil
no Brazil

este poema embaralhou tudo
ainda mais


domingo, 5 de janeiro de 2020

O homem encurralado (Parte XLII))




Por Germano Xavier


enterram seu corpo
por detrás do gradil
sob o casaco e sob o frio
sob o cimento
sob a memória morta
de um outro morto
qualquer

enterram e lá está
encurralado
sem poder ser nem estar

vivo mesmo
só o que restou
solto

no chão


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A indiferente grandeza



Por Germano Xavier


à Rua Tito Luna Freire
vive um menino que sou
da cor da cal da velha pedreira
sem reino conquistado
com uma parede inteira de livros

a infeliz invasão veio
quando inventaram de trazer o inquilino

repartiram a casa ao meio
levantaram alvenaria onde uma porta existia

meus velhos escritores mortos
da estante me gritavam:

- Para onde vamos nós, agora,
sem as perspectivas do corredor?


sábado, 28 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XL - em francês)




Por Germano Xavier


"tradução livre"



O homem encurralado (Parte XL)


L’homme acculé (Partie XL)


l’extrême vitalité acculée
de ce qui n’a jamais avancé
vers la scène
vers les fenêtres
ou vers la surface

les verts sans rêves naissent comme des claques
et meurent comme des puits secs et des faims effacées

ébahi
en face de lui-même
l’homme qui balance rayonne
comme la poussière d’une route essoufflée
par les imprécations du vent

l’homme passe, affligé
comme une abeille sans dard

son étincelle
tremblante et recueillie
est la douceur de terminer tout seul


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XLI)


Por Germano Xavier



santificado seja o homem
que mesmo encurralado
consegue descansar


Calçadas




Por Germano Xavier


Poema escrito durante a Oficina Literária "Memória, Poesia e Cidade",
produzida e ministrada por Thiago Medeiros.




no rumor das ruas, as calçadas
cheias são os primeiros sinais
de que perdemos o passo


A cor


Por Germano Xavier


Poema escrito durante a Oficina Literária "Memória, Poesia e Cidade",
produzida e ministrada por Thiago Medeiros.



o engenho de Cinésio
me alertava sobre
os poros

ali
no alto
o vermelho-ocre
do solo de minha Iraquara

pintava-me
a envergadura do Tempo
largos braços
abertos e sem fim

sem mim


sábado, 21 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXXIX - em francês)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



O homem encurralado (Parte XXXIX)


L’homme acculé (Partie XXXIX)


si accoucher était le summum
de la création, la vérité
serait la première pédagogie.

ce serait une vertu de se révéler divin
et profane | dans le chaos |

une éducation utile pour les jours, pour vivre
découvre des routes dans les rendez-vous manqués,
et se régit par les normes libres

c’est l’état de nos pas
une orientation déréglée, le vol
(in)satisfait parmi les ciels ailleurs
qui ont eu lieu ici même à l’intérieur

| l’homme acculé survit |

| perfectionné par les aléas non conclusifs |


sábado, 14 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXXVIII - em francês)




Por Germano Xavier


"tradução livre"



O homem encurralado (Parte XXXVIII)


L’homme acculé (Partie XXXVIII)

en sortant de chez lui
l’homme acculé claqua
la porte derrière soi.
on entendit le bruit.

il s’est laissé glisser
jusqu’au sol, en roulant par
l’escalier. il était si froid (le sol)

aussi glacial que ses mains
et son cœur quand il comprit
qu’il avait laissé son âme
dans le hall
de la pièce.


domingo, 8 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXXVII - em francês)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



O homem encurralado (Parte XXXVII)


L’homme acculé (Partie XXXVII)


la pochette était vide.
la sacoche en plastique
était aussi morte que ses pas.

l’homme acculé,
devant la rafle policière, est reconnu
comme Personne.

il avait déjà fouillé (sa pochette)
mille fois, auparavant. Mais il n’y avait
aucune identité. Pas de bonheur non plus.

Juste un paquet de faims.


sábado, 7 de dezembro de 2019

Sobre "Roseiral", de José Inácio Vieira de Melo




Por Germano Xavier


(Escrituras, 2010)


Roseiral: O mundo encarnado pela seiva das rosas escarlates. Livro vermelho de memórias. Livro vermelho de saudades. Livro vermelho de raízes. Livro vermelho de pareceres. Livro vermelho e augusto sobre a Vida. Vermelho aqui é cor e é além. E é aquém. Vermelho-sentido. Vermelho de céu grávido de chuva num sertão que é tão meu quanto nosso. Vermelho-sertão, aquele que aprofunda o horizonte, dobrando-o na vista dos olhos nus. Uma rosa é uma rosa é uma rosa é outra rosa é outra alguma é toda é sempre é nunca. Uma rosa é um roseiral.

José de Alagoas e baiano, calculador etário das pedras sozinhas. Voz que se safou do Nada e se transmutou. Virou amuleto de si mesmo, rosário que se conta no dedos de cada vitória. Voz-incêndio. Um homem rosa. Um homem rosa de tão vermelho: um poeta. Poeta é uma rosa é uma rosa é uma rosa é um vermelho é um soluço é um sonho é uma fuga. José das roças, José das Rosas. José do Vermelho. José Roseiral, seu sobrenome? Odisseu. O que anda e está por, aos quinze anos ou mesmo na casa dos quarenta anos. José que inventa.

Vai de soneto, vai de relato, vai de coisa pequena, de linha curva ou reta, vai. Canibaliza as experiências de Amor. José Vampiro. Sangue é alimento. Sangue é vermelho. Ele queria ser Elizeu Moreira Paranaguá, mas acabou sendo ele mesmo. Um rosa no meio do vermelho. Um diferente. Um matutador de coisas agrestes. Um virgem de tantos espantos. Deslumbrador. Inventador de canções e aboios. Um José vermelho no meio de tantos josés minúsculos. Um José maiúsculo, entre a cor e a couraça, entre o boi e a pega, filho do espinho do mato e da boneca dos milharais.


A pedra




Por Germano Xavier


certa pedra
para se cantar
é a pedra certa


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

As rosas do meu delírio




Por Germano Xavier



ameaço o vigoroso perfil neoglobal
das identidades mundanas:

pedra e fogo servem para matar
menino nordestino celebra raízes
mantenho intimidade com o que agarra | ou mastiga |
exponho erotismos sem subterfúgios
massacro indivíduos desadotando hipocrisias
furo buchos com certeiros versos

não reanimo
vingo mudanças
estigmatizo o que transborda

faço palpitar a natureza das coisas imediatas
incorporo uma herança de odisseia
crio a interpretação própria

religiosamente
caio em conotações

daí o pesado e denso e latente tom
do meu já esgarçado lirismo


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O homem encurralado (Parte XL)




Por Germano Xavier


a extrema vitalidade encurralada
no que nunca andou para a frente
para o front
para o que se abre
ou para o que emerge

nascem como açoites os versos sem sonho
morrem como cacimbas secas as fomes desinventadas

assombrado
diante de si mesmo
reluz o homem que balança
como a poeira de uma estrada afogueada
pelos esconjuros do vento

o homem passa aflito
como uma abelha sem ferrão

sua faísca
trêmula e recolhida
é doçura em se findar sozinho


Eu ensino para os outros




Por Germano Xavier



É comum, confesso. Alguém chega e diz: "Professor, por que você não trabalha em uma faculdade?" Ou assim: "Professor, não sei como o senhor aguenta ser professor desses meninos. O senhor nunca pensou em fazer outra coisa, não?" Vez outra isso assim, desta forma dita, chega até os meus ouvidos. Posso até fazer que entendo o porquê das pessoas me questionarem, mas por dentro eu rio delas e sinto um pouco de tantos sentimentos... Não sabem elas que tenho plena consciência de onde estou e o que quero para mim. Sou feliz. Sou rico. O que é a riqueza para você? É verdade que ser professor "desses meninos" por vezes é deveras cansativo, a gente fica esgotado, sem forças, enfim. Mas eu repito: estou no melhor dos lugares para uma pessoa como eu estar. Ao lado de, comandando um certo grupo de peregrinos, sedentos (ou quase sedentos) pelo desconhecido, pelo que pode vir a ser.

Penso a educação para a Vida, e o ambiente escolar tem muito a ver com isso. Há quem duvide, mas teimo que sim. O componente curricular ao qual me dedico, a Língua Portuguesa/Literatura, é também sinônimo de Cidadania, Fruição e Autoria. É muita responsabilidade, camarada. Muita mesmo. Precisamos dar conta de um bocado de coisas: interdisciplinaridade e concepção de linguagem, texto, leitura do texto escrito, leitura do texto falado, produção de textos escritos e orais, questões envolvendo identidades, ambientes, gêneros e discursos, formulamos planos de trabalho, mexemos em acervos textuais para serem pontos de partida na hora do jogo ensino-aprendizagem, só para citar alguns. E depois ainda temos de pensar num modo de avaliar todo este pessoal e todo um potencial.

Aí a gente começa o ano e pá! Construção. Levantamos paredes. União. Se não tiver união, não vai para lugar algum. É barra! Tem hora que a coisa parece não querer andar, fluir, mas de repente algo acontece. Nem sempre irá acontecer. Mas com esforço acontece. Kabum! Aproximações se dão. Preparamos a meninada para as mais diversas leituras e compreensões de mundo, estudamos textos, focamos em outras referências, escrevemos individual e coletivamente, reescrevemos mais e mais. Efetuamos a reflexão linguística. Tentamos formar leitores literários e, depois de uma longa caminhada, fechamos um ciclo. Eu sei, pode não ser tão lindo assim o caminho. Mas para mim, sempre há de ser.

Entre nós, alunos e professores "desses meninos", deve haver sempre uma vontade de integração. Para que possamos criar. A criação é o que, no fundo de tudo, ainda vale a vida. Para que serve a escola hoje? Para aninhar. Para agrupar. Para que sintamos que ainda temos forças suficientes para alterar o estado "confortável" das coisas, apesar de tantos males que nos rodeiam. Como fazer? Querendo. Nós formamos o cidadão intervindo, sensibilizando, compreendendo, responsabilizando. A escola pode ainda mais. O professor pode ainda mais. O aluno pode ainda mais. Muita coisa ainda pode mais. Eu estou nessa de acreditar e me iludir, e nessa de acreditar de novo, há 15 anos. Eu ensino para os outros. E você?