domingo, 20 de maio de 2018

As penas do pavão misterioso



Por Germano Xavier



Uma televisão ligada em baixo som. Mazelas e mais mazelas. Um mundo torto diante do nariz. Uma janela contra a cabeça. Um pequeno ventilador espantava o silêncio do quarto. Bruscamente, ela pegou minha mão e colocou-a na sua genitália. Foi um choque. Um arroubo. Porque antes disso estávamos conversando sobre qualquer assunto bobo, sem sequer nos beijarmos. Ousadia. Atitude de íntimos. Foi como se a minha mão nada tivesse a ver com o momento ou fosse externa a mim. Outro ser que se comunicasse apenas com o seu sexo. Foi como se precisássemos daquilo há bastante tempo. E isso era uma verdade. Uma mulher pequena, cheia de desejo. Desejo escorrendo. Deixei. Era natural. Mas à medida que ela ia vivendo a experiência, percebi que a minha mão poderia ser qualquer outra mão. O efeito seria o mesmo. Eu era só uma mão. Apenas menos treinada. Um curso intensivo seria preciso. Foi rápido, impessoal e objetivo. O curso deu resultados. Fui eficiente. A minha mão, para ser exata. Senti-me triunfante, extasiado. Feliz por presenciar ou proporcionar aquilo. Foi lindo. Em suma. Assim era a vida, tão animal e tão humana. Nunca a amei tanto quanto naquele momento. Ela "morrendo" em minhas mãos. Era uma espécie de glória. Era o prenúncio de alguma coisa ainda mais intensa, pensei. O meu corpo era todo quereres. Eu só queria que ela me tocasse, me abraçasse, me olhasse... Qualquer coisa que me fizesse sentir ser algo além de uma mão. Ela se vestiu. Em silêncio. Afastou-se. - Você vai ficar chateado se não fizermos? - Claro que não. Tudo bem. Por que alguém ficaria chateado por ser uma mão? Por não ser desejado pela mulher que ama mesmo quando os dois estão nus num quarto de hotel? Por que um homem ficaria magoado, extremamente humilhado por ser rejeitado (na cama) pela mulher que ele passou os últimos anos desejando e para quem viajou metade do país? Não faz sentido. Havia muitas coisas no ar. Mas nenhuma era desejo. E quem pode culpá-la? Não controlamos os sentimentos. Nem os nossos desejos. Nem culpa, coragem, medo, dúvidas, ressentimento, traumas, etc. Tudo pode ser fuga. Tudo pode matar a vida. Da vida. Tudo pode ferir a Poesia. Tudo pode cortar, mutilar e torturar o amor. Tudo é tão frágil. Especialmente o tudo.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/penas-de-pav%C3%A3o-plumagem-iridescente-3013486/

Menos



Por Germano Xavier



depois de tempos longe,
sinto-me vagueante,
entre a fraqueza
e a dormência.

sinto-me menos gente
menos alma, menos palavra,

como se a Poesia tivesse se escondido
ou fugido de mim,
ressentida.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/p%C3%B4r-do-sol-drag%C3%B5es-gaivota-3399793/

O feminino hoje



Por Germano Xavier



Há duas coisas que os homens não perdoam na mulher. A inteligência e a liberdade. A mulher pode ser feia, burra, bonita, o que for. Desde que não seja inteligente e livre. Estudos diversos mostram que as mulheres mais inteligentes ou que ocupam lugares de poder tendem a ser mais solitárias e/ou desintegradas social e familiarmente. Primeiro por destoarem do "papel" pré-definido da mulher na sociedade. Segundo (minha opinião, apenas), pelo desconforto que elas causam nos homens que cresceram acreditando que devem sempre ser "os cabeças" e os músculos do mundo.

Pesquisas mostram também que os homens (mesmo que fiquem atraídos, inicialmente, pela inteligência e/ou poder da mulher), num segundo olhar, não optariam por ter uma companheira que ele considerasse "superior" a ele em qualquer aspecto. (Isso é tão óbvio que nem precisaria de pesquisa. É só olhar ao redor. Enfim, os homens (comuns) pois ainda quero crer que os homens-além, os especiais, consigam se libertar de tais delírios) pensam que são os legítimos atores do mundo, do tempo, da vida. O que sobraria para a mulher (além do dever de procriar e cuidar da família, em silêncio, claro) era ser a liga que mantém tudo unido e confortável. Para o homem. O velho e conhecido patriarcalismo, em suma. Pois, se as religiões tivessem sido criadas por mulheres, Deus (e seu respectivo livro "sagrado") seria feminista e não machista.

Séculos se passaram e uma suposta evolução da humanidade colocou (ao menos na teoria), homens e mulheres no mesmo patamar e no mesmo lugar. O humano. No entanto, a sociedade não evoluiu tanto assim e o machismo está impregnado em tudo. Em todos os homens e mulheres, em maior ou menor grau. No menor grau, temos como o exemplo dos intelectuais, supostos guardiões da liberdade, da igualdade e fraternidade, da ciência, do futuro, das mudanças. Isso não impede de vermos o descarado machismo no meio acadêmico e nas relações pessoais de tais indivíduos. (Como se a teoria valesse para a teoria e não para a vida real).

A mulher, mesmo quando independente, pensante, inteligente, etc, é sempre olhada e julgada pelo seu corpo. Pelo seu "tipo" e sempre rotulada. Os rótulos (apesar da aparente variação), reduz-se a apenas dois. Ou a mulher é decente, a santa (mãe ou esposa exemplar, submissa, alegre e disponível) ou a puta, libertina, safada, gostosa, indecente, má. (aqui entram, forçosamente, todas as que não se encaixam (por qualquer motivo e maneira) no primeiro modelo.

O mais triste é que (mesmo inconscientemente), os homens (com raríssimas exceções) fazem essa distinção, classificação, rotulação e (des)valor(ação) (não importa o quanto sejam sensíveis, informados, graduados ou atualizados) em suas mentes, em suas atitudes e escolhas.

Vemos esses homens se casarem com as tais "boas moças de família" que serão, obviamente, boas donas de casa, boas esposas e boas mães) e manterem relações "espúrias" com as "mulheres livres' (não questionando, claro, o valor que essas relações possam ter. Tão legítimas (ou até mais, por não serem uma imposição) quanto qualquer relação humana. Apenas simbolicamente e socialmente mal vistas). O fato em si não é relevante. O relevante é: por que eles fazem isso? Por que "precisam" fazer isso para serem "aceitos" pela família, pela sociedade. O mesmo se aplica a mulheres que fazem o mesmo pelo mesmo motivo. Em pleno século XXI.

É a vida. Ou a (des)vida. E viva a liberdade. De escolha. Inclusive a de ser idiota.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/m%C3%A3os-dedo-o-feminismo-2582589/

O homem encurralado (um poema)



Por Germano Xavier



todas as religiões
(com muito ou pouco seguidores)
estão cheias de lacunas
contradições
e rasgos (históricos)
(de banhos de sangue
a venda de milagres)

essas tais religiões
(de tão mesquinhas)
condenam no ser humano
exatamente
o que o faz humano

como a torturá-los
antes da morte
para depois condená-los
ao segundo inferno

esse (suposto) deus
que mata inocentes
exige sangue,
sofrimento
e obediência

só pode ser mais humano
do que toda a Humanidade


* Imagem: https://pixabay.com/pt/globo-mapa-pa%C3%ADs-fronteiras-idade-3383088/

sábado, 19 de maio de 2018

O homem encurralado



Por Germano Xavier



Já faz alguns dias desde que... A dor já começou a deixar o corpo. Lentamente. Como num processo de adormecimento. De cicatrização. Eu sabia que ela iria se acomodar, com o tempo. Transformar-se-ia em experiência, lucidez e maior consciência da vida. Quando você pensa que já viu tudo, que já chegou lá, que nada mais vai te derrubar ou te "pegar de surpresa", então a Vida dá um jeito de mostrar-se mesquinhamente mais esperta do que você. Então você sente "na pele", novamente, como tudo pode ser imprevisível e brutalmente doloroso.

Cada dia eu me convenço mais de que a ignorância (daquilo que nos traria sofrimento) é uma bênção. Não é à toa que os idiotas, os superficiais, os fanáticos, os obtusos, são mais felizes. É realmente uma praga, uma maldição o sentir demais, enxergar demais, pensar demais, fazer associações, analisar, observar, comparar, dissecar, deduzir e concluir (o tempo todo). É o caminho mais curto para a solidão, para a perplexidade, para a descrença ou cinismo. É uma angústia que beira a tortura. O pior é não conseguir "deixar passar” nada. Até a falta de atenção de alguém quando você está revelando algo muito importante ou o maior segredo de sua vida. Nu.

Feito algo assim: ela via a história dos dois como algo além (e diferente) de paixão, amor romântico ou amizade colorida. (Nem melhor nem pior. Apenas diferente). Era uma amizade espiritual, uma ligação de almas que incluía sexo. Mas o sexo seria apenas um aditivo, um detalhe, não a chave, nem a mola central da relação. Mas para que esse tipo de relação (tão rara e frágil) ser mantida e durar é preciso cuidado e muita reciprocidade. É preciso cumplicidade, confiança e um bocado de sinceridade. Ás vezes doída. Muitos conflitos surgem (como em todas as relações), mas nesta, a diferença é a certeza (de ambos) de que nada ficará entre eles. De que sempre existirão no outro. A despeito de tempo, espaço, silêncio, mágoas, rompimentos. Nada disso soa como definitivo. E talvez essa certeza traga uma espécie de acomodação. Ou descuido.

Eles eram incompatíveis. Inclusive por serem muito "espelhos' do outro. Ela mostrava a ele as suas limitações, inclusive de liberdade. (O que doía nele profundamente). Ele mostrava a ela as suas fraquezas e traumas profundos. (O que para ela era insuportável). Pois gostava de crer que tudo "aquilo" tinha passado e ela era forte, livre, autossuficiente emocionalmente) e invulnerável. (Por mais desumana que essa descrição de ser humano seja, era a que ela queria ser). Ou a que precisava. E ele, ele era a sua única "fraqueza”, a única que mostrava que ela não era assim.

O que nos manipula secretamente? E qual o tamanho de nossa liberdade além dessas múltiplas grades?

Ele é só um homem encurralado pela Vida, ela podia pensar assim. Como todos os outros. Como eu. Ele fala como encurralado, pensa como encurralado e até (pasmem!) caminha como um encurralado. Lenta e solenemente. Quase numa simbólica marcha fúnebre. Como se sentisse dor em cada passo. Como se carregasse todo o peso da História. Desde a primeira gota de sangue derramada até a menor ofensa feita embaixo do Sol.

Considerava-se, em parte, culpado. De alguma forma responsável. Envolvido. Cúmplice, vilão ou vítima. Não se sabe exatamente por que ou de que forma isso o poderia afetar. Mas sabemos que sentia o peso. A dor do mundo. A dor de ter nascido e existir. Sentia. Carregava e exibia. Nas costas. Nos olhos. No corpo todo. Na alma toda.

Quando o vejo, fico pensando em quanto ele se considera livre (não obstante, sua natural vocação para a liberdade). O quanto sentia-se "encontrado' no mundo. Sobretudo, se era livre na alma. No coração, onde as verdadeiras e importantes batalhas da vida são travadas. É fácil ser livre. Exceto na alma. Assim, ela pensa.

Mas ela o via. E ele sabe que eu estava e estou sempre do lado dele. Embora ele nem sempre estivesse. Com ela. E nem estou falando de "fisicamente". Essa é uma das ilusões que nunca me permiti ter. Nunca ousei sonhar. O que se queria era algo bem mais modesto. Apenas um interesse real, uma certa cumplicidade de alma, um compartilhar sincero, uma amizade recíproca, espiritual e que incluísse sexo, de preferência. Nada demais. Apenas uma Penumbra.

Para quem sofre desse mal de "estar vivo" porque sobreviveu, as coisas ficam mais ampliadas, amplificadas e a pessoa fica muito seletiva. Poucas coisas passam a ser muito importantes e muitas coisas a ter importância nenhuma. Porque a vida passa a ser A Vida. E você é só você. Perdido no tempo entre o céu e o chão. Sem saber nada além da própria irrelevância, vulnerabilidade e que o futuro é incerto. E altamente improvável. Para essas pessoas, nada pode feri-las, exceto aquelas a quem amam. (porque amar é dar poder sobre nós). Não é uma escolha. É um imperativo do próprio amor. Porque o Amor precede a vida.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/escultura-est%C3%A1tua-arte-antiguidade-3357150/

As plantas que latem de Helder Herik



Por Germano Xavier



O título chama a atenção: AS PLANTAS CRESCEM LATINDO. Não teve outro jeito. Precisei levá-lo para casa. Não é novidade para ninguém meu muito gostar de sebos e/ou alfarrábios. Foi num destes estabelecimentos que encontrei o segundo livro do poeta Helder Herik. Um pequeno guarda-poemas dividido em nove gavetas, com conexões perceptíveis (ou quase). Partes que são pétalas de uma flor maior chamada Vida. Vida, louca vida, vida breve. Ah, Cazuza! Como manejá-la? Sem poesia no olhar as coisas, mais difícil ainda, não acha? Em sua grande maioria, poemas que conversam, que tratam de dialogar, que compartilham algo com quem lê. Como nossas mães ou nossos pais ou avós ou tios ou vizinhos que travam altos diálogos com as rosas de seus respectivos vergéis. Um aparato para tratos diversos. No fim das contas, resta dentro de nós, uma vontade. Um desejo pela partilha, por uma espécie de consagração do encontro. Um querer ser-no-outro-ou-para-o-outro. A poesia também é alento. Sim, é. Como certos momentos das nossas vidas. Felicidade é o nome que se dá a isso? Um livro que nos ensina um pouco mais a ouvir, que nos ensina um pouco mais a ser. E se consegue isso, já se legitima, já se põe à prova, ao degustar das almas. Um passeio que vai das redes sociais até os sapos que engolimos todos os dias em nosso cotidiano, passando pela filosofia e pelas poeiras estelares de nossos chãos diários, tão íntimos e infernais. Aliás, filosofia é o que não falta ao livro do poeta nascido em Garanhuns, agreste pernambucano. Helder, com simplicidade e enxutas palavras, coloca-nos de sobreaviso acerca da incerteza dos agoras, destampa a válvula dos passados e nos aclara um futuro cheio de quebras, interregnos e aptidões. Ficamos, ao final da leitura, com uma prece instantânea e espontânea nas beiradas de nossa língua sobre a beleza das pequenas coisas e dos decididos gestos. As plantas que crescem latindo nada mais são que raízes internas de sol conectadas a nós mesmos nos dizendo: vá, caminhe, siga, imbrique, faça, corra, salte, seja, viva... antes que seja tarde demais. Antes que seja mais tarde do que pensamos ser, feito a revelação do relógio da Casa do Sol, morada de Hilda Hilst. Antes que seja e antes que acabe não sendo!


* Imagem: https://www.estantevirtual.com.br/livros/helder-herik

domingo, 6 de maio de 2018

Quando ela se cansar do mar



Por Germano Xavier



A menina está escorada no barco que eu vou pegar em poucos minutos. Parece triste. Parece sozinha. Certamente não era dali. Camamu era uma cidade com duas camadas. Feito a capital baiana. Havia a parte superior e a inferior. Ricos, clericais e coronéis em cima e a ralé na parte de baixo, dando o duro dos dias. Tudo muito estratégico. Dava para ver a longa esteira de mangue e o rio Acaraí deitado no horizonte azulado. Como em algumas cidades por onde já passei, Camamu só me serviria de trampolim aquele dia para eu conhecer outra paragem: a Península de Maraú.

Descalcei-me antes de entrar no barco. Gosto de sentir a madeira úmida dessas pequenas embarcações com nomes femininos. Uma espécie diferente de frio, quase quente. Estou no Danúbia II. O dono é o Seu Jeremias, um nativo de pele cor-de-sol. De esguelha, vi a menina debruçar-se na proteção de ferro do barquinho. Seu Jeremias aperta o botão. Em um instante o motor soltou um tufo de fumaça preta pelo escape, rente à água marinha espumosa. Ela está quase deitada no parapeito, a menina. Fico olhando-a de longe.

O velho e barulhento motor rema. Eu também remo. E me faço presente, por um instante. Encosto o olhar no rosto dela. Ela me olha com um riso terreno. Demasiado terreno. Não me oferece nenhuma palavra. Acendo um sol em mim e pergunto:

- Você também vai para Barra Grande?

A menina não sorri. Vou junto, como se eu tivesse ficado triste também por algum motivo. Engraçado como me permito acompanhar a dor dos outros. Aí sofro junto. Pode ser um desses males atrelados ao meu signo. A embarcação bamboleia. Tudo é uma dança. De repente, todos os que embarcaram veem a camisa de Seu Jeremias se enroscar na polia central do propulsor. O motor apaga, num rompante. As pessoas cochicham entre si. Outras se exasperam, gritam, pedem por socorro. Seu Jeremias, coitado, agora sem camisa, tenta acalmar todo mundo enquanto inicia a retirada dos panos embaralhados.

Apesar da tarde solar, a menina rema. Para mais perto de mim. Também remarei. Em sua direção. Não é assim a vida? Remarei. Remei. Talvez eu lhe ensinasse meu sentimento. Talvez eu lhe falasse sobre o silêncio. Ou simplesmente conversasse sobre alguma coisa desimportante. Mansa era a água. O movimento, dormente. Estivéssemos em terra e nada seria igual, tão incerto e ao mesmo tempo  tão maravilhoso. Por isso respeito tanto o mar, as águas de uma forma geral. A água nos põe em equilíbrio. Estávamos à deriva. Eu era o oceano.

- Você parece cansada. Não quer dizer algo?

O motor logo irá zunir novamente. Novas ondinhas serão geradas pelas pás. O mar está muito calmo. O Seu Jeremias levanta as mãos. Diz que conseguiu, enfim. Continua sem camisa, agora muito suado. Meia hora depois o motor acorda novamente. Brum-brum-brum. Já vejo o pôr-do-sol. Barra Grande se aproxima. O lugar é lindo. Para trás, a cidade passageira, com suas duas elevações. Igrejas pomposas apontam para o céu de Camamu. A menina sorri. Parece até menos triste. Parece menos só. Curvo meu corpo e olho para baixo. Tenho pés de madeira. Integrei-me. Sou o meu próprio barco. Estou remando. Remando. E ela vai comigo.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Spirit-of-the-Sea-743618862

sábado, 5 de maio de 2018

As lápides musguentas de Helder Herik



Por Germano Xavier


Estava eu ali andando por Garanhuns, Pernambuco, quando desço a antiga Rua dos Cajueiros (creio que é assim que se fala) a pé, em busca de um sebo que me indicaram. Avistado o local, fui buquinando desde já. 10 reais a peça, em geral. Literatura estrangeira, contos, literatura brasileira, poesia... Bati os olhos num livrinho vermelho: sobre a lápide: o musgo, de Helder Herik, professor e poeta ligado à turma da confraria u-Carbureto, da qual descendem também os escritores Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório e outros. Fininho, poucas páginas, maior parte de poemas esguios, feito poema-faca, de se enfiar mesmo. Terceiro livro do sujeito, lançado em 2010. Aí fui lendo. Pancadinhas. Livro ferino, sim. Dose certa. O Helder é um bom poeta. (O que é um bom poeta?) O cabra começa burilando a infância, dita-cuja-de-nós-quase-todos-artesãos-das-palavras. Burila. Infância grudenta, imunda, lesmenta, farpante, cortadeira, ossuda, curvada, úmida, embutida em multiplicações, chuviscada nas poeiras pueris do Homem. A gente meio que se recolhe, depois de tanto a gente se encontrar nos versos do poeta. Depois o Helder reforma as coisas da casa dele com o verniz do novo olhar. Destapeta tudo, tempera, conserva, arma, põe fogo, cobre mesa, assenta, mija e caga, ara e dorme. Aí na terceira parte do livro, o poeta vira parteiro e faz brotar um broto, um novelo de luz. Na quarta e última fagulha, Helder lapida um músculo novo batedor dentro do corpo, salga o mar, aquenta o sangue, desenterra, semeia, coça, fratura, parte, mina, até tudo virar alma, ou melhor, musgo. Porque o musgo permanece, mesmo depois dos finais. Feito o sol. Essa coisa tão.


* Imagem: http://www.helderherik.com.br/2011/01/lapide-e-musgo-ou-poesia-escatologica_21.html

O Nordeste



Por Germano Xavier


Que o Nordeste está num nível de desenvolvimento muito aquém do Sul e Sudeste, todos sabemos. Mas ainda assim, é doloroso constatar, "na pele", o tamanho do abismo. Mesmo considerando as questões históricas, políticas, dentre tantas outras, essa discrepância não se justifica mais. Não hoje. Não no século XXI de um mundo globalizado.

Se o plano (dos sucessivos governos, políticos coronéis, donos do poder, tomadores de decisões políticas, órgãos de desenvolvimento e afins) era transformar o Nordeste num eterno reduto de miséria, subdesenvolvimento e "vergonha nacional", eles foram plenamente bem sucedidos. Objetivo alcançado com louvor.

Como o Nordeste é de uma grandeza continental (em vários aspectos), é impossível dimensionar esse atraso em relação ao resto do País sem mergulhar em suas entranhas. Pois eu mergulhei e estou mergulhado. (As estatísticas falam, mas só a pele sente). Só é possível compreender as complexidades do Nordeste quando se vive aqui no dia a dia. Quando seu passado, presente ou futuro está enraizado nessas terras sofridas.

No entanto, (o que parece um pouco contraditório), só é possível ter uma visão mais abrangente (ou uma noção menos pessoal) do quanto o Nordeste foi (e ainda está sendo) roubado de seu futuro quando o olhamos de fora. À luz de outras terras, com olhos de estrangeiros. Olhos imparciais (tanto quanto qualquer imparcialidade seja possível).

Apenas como exemplo, vamos citar a cidade de Recife. (Suposto coração do Nordeste). Logo na entrada da "Veneza Brasileira" já é possível enxergar o descaso pela "coisa pública". A desastrosa infraestrutura da cidade leva a obstáculos (já considerados rotina), como alagamentos, trânsito caótico, falta de sinalização básica, excesso de lixo nas ruas, etc. Uma desordem generalizada que só se explicaria em uma cidade sem qualquer tipo de gestão. (Mas dizem que ela é feita. E com dinheiro público. Nosso). 

No fim da chuva, tudo desce pelo ralo. Ou não desce. O que é pior. E isso tudo numa cidade que é feita "para turista ver". Morei em São Luís (Maranhão), João Pessoa (Paraíba), Salvador (Bahia), conheço Natal (Rio Grande do Norte), Teresina (Piauí), Aracaju (Sergipe), Maceió (Alagoas) e os cenários são idênticos, com raras e tênues diferenças.

Se excluirmos o Carnaval, as praias e alguns pontos turísticos melhor localizados, a cidade de Recife estaria morta. Ao menos turisticamente. Primeiro porque a cidade é espantosamente desplanejada para quem vem de fora. E totalmente abandonada para os moradores locais. Os serviços públicos, inclusive transporte, são precários. Os serviços privados, despreparados e pouco (ou quase nada) profissionais. O improviso, a falta de padrão, a falta de rigor, a "desinformação", e, principalmente, o atraso tecnológico, são de assustar. Inacreditável. Parece outro País. Ainda mais atrasado do que o Brasil.

Nem preciso mencionar que quando se avança para o interior, o abismo vai se expandindo com os quilômetros. Da corrupção e falta de boa gestão, típicas, sistemáticas e já consideradas "normais" ou inevitáveis, resultam o esgoto a céu aberto, a falta de infraestrutura básica, a falta de educação (genérica mesmo, ampla e diversificada), serviços públicos (e privados) precários e/ou inexistentes, e a lista é infinita.

O que sobra é resiliência e desânimo. É descrença em possíveis mudanças ou melhorias. Para a vida. O mal cheiro do esgoto (de tão familiar) já nem incomoda mais. Impregnou as almas. E as consciências. A revolta se transformou em resignação. E muitos só esperam (agora) continuar sobrevivendo. Com pão e circo garantidos, se possível. A televisão ajuda. O São João garante. E as mudanças? - Ah, as mudanças... ? Só "quando deus quiser!


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Nordeste-692611008

terça-feira, 1 de maio de 2018

Letras em Barro apresenta: “A Cobrança”, de Mário Rodrigues e “Quebranto”, de André Balaio

Divulgação


André Balaio e Mário Rodrigues autografam seus livros, “Quebranto” e “A Cobrança”, no sábado (05), no Alameda Caruaru, após conversa com Thiago Medeiros e público. O evento começa às 17h e é gratuito.

Os escritores pernambucanos André Balaio e Mário Rodrigues lançam simultaneamente “Quebranto” (Editora Patuá) e “A Cobrança” (Editora Record), suas obras mais recentes, neste sábado (05), às 17h, no Alameda Caruaru. Os autores também vão debater sobre suas vivências na literatura sob mediação de Thiago Medeiros, idealizador do Encontro Literário Letras em Barro. O evento é gratuito e funciona como uma antecipação da programação completa prevista para outubro.

“A iniciativa é um esforço para afirmar Caruaru na condição de cidade produtora e divulgadora da cultura em geral, mais especificamente da literatura produzida por artistas pernambucanos”, aponta Medeiros que também é escritor, poeta e produtor cultural. Embora a cidade já comporte eventos como a Fenagreste, a Feira de Livros do Agreste, há falta de atividades que aproximem o público dos escritores. “A ideia do evento é humanizar os autores, mostrar que é possível exercer o ofício da literatura e incentivar a formação de novos leitores, mas principalmente incentivo a novos escritores e escritoras”, desenreda o produtor.

As trajetórias e pontos de vista de André Balaio e Mário Rodrigues prometem trazer insights interessantes aos leitores e àqueles que pretendem trilhar um caminho próprio na escrita. Pernambucanos, vencedores de prêmios importantes no cenário nacional, os autores trazem pontos de vista mais complementares que semelhantes.

“O lançamento de um escritor pernambucano que já possui certo renome em âmbito nacional, e do primeiro livro de um escritor promissor e inventivo como Balaio, lançado por uma editora que tem estimulado tanto novos nomes, que é a Patuá, em Caruaru, é uma inovação na cena cultural da cidade”, sublinha Medeiros.

Nascido e criado em Garanhuns, Mário Rodrigues já foi indicado ao Prêmio Jabuti, na categoria de Contos e Crônicas, e venceu o prêmio Sesc de Literatura em 2016. A premiação resultou no lançamento de “Receitas para se fazer um monstro” pela editora Record, o mesmo local por onde “A Cobrança” está sendo lançado agora.

“No Brasil, como o público leitor é mínimo, esses prêmios acabam sendo a verdadeira chancela do escritor. O número de convites para eventos e antologias, por exemplo, aumenta muito depois de certas premiações”, pontua. Seu novo romance traz uma reflexão que visa desconstruir a máxima brasileira de que “futebol, política e religião não se discutem”, especialmente pertinente neste ano que, mais uma vez, casa eleição e copa.

Concursos e premiações também ajudaram André Balaio a se firmar em sua trajetória. Vencedor do prêmio Off-Flip com o conto “O Lado de Lá”, Balaio também foi finalista do Prêmio Nacional SESC 2017 de Literatura e do Concurso Literário Nacional CEPE 2017. Ao contrário de Rodrigues, Balaio, também roteirista de quadrinhos e editor do site O Recife Assombrado (orecifeassombrado.com), envereda pelo insólito para falar de desajustes na vida de pessoas comuns. “Na literatura fantástica, o sobrenatural pode aparecer como metáfora para culpa, desejo e outros sentimentos”, descreve. “O fantástico é uma maneira original e instigante de falar dos problemas cotidianos”.

Serviço:

Lançamento simultâneo “A Cobrança”, Mário Rodrigues, e “Quebranto”, André Balaio.

Quando: sábado, 05 de maio

Horário: 17h

Onde: Alamenda Caruaru - R. Arlindo Pôrto, 127 - Maurício de Nassau, Caruaru

Informações: (81) 99839-1312

Entrada franca


* Imagem: Letícia Santiago

* Imagem: Divulgação/Mário Rodrigues

O gigantesco monumento da saudade



Por Germano Xavier



O primeiro dia foi naturalmente feliz. Leve como a poesia das coisas. Simples. No segundo dia, uma silenciosa penumbra pairou sobre o quarto. E me comoveu. Chorei de amor olhando o seu rosto no meio da penumbra. Estávamos em casa.


Dia 1


Não era mais ansiedade. Era outra espécie de dor. Já tinha se transformado em dormência. Outra espécie de espera. Não sentia mais o meu corpo e todos os meus sentidos formavam um completo ecossistema de expectativas. O mundo a cada braçada-passo, até ali, uma longa lâmina cortante de história.

Logo ele entraria pela porta. Logo ela. Ele. Ela. A eletricidade que me movera até ali. Choques nada domesticados. A alma de minha alma. A minha alma da outra alma. Na outra alma. Sendo.

Esperávamos por isso há tanto tempo que agora não parecia real. Parecia a língua ferina das horas. Ao longo de anos tínhamos construído um gigantesco monumento de saudade. Um obelisco cariado do querer. E agora iríamos demolir uma pequena parte dele. (Embora soubéssemos que não era o fim...) Mas tudo já não é ruína?

Eu sabia que quando ele chegasse eu me sentiria embaraçada. Cortada até o osso. Como sempre. Como nunca. Seu olhar iria me queimar... Talho cortado de nós. E eu não consigo suportar por muito tempo. Se bem que eu não consigo suportar quase nada mais. Era preciso uma penumbra. Afiá-la dentro da noite com a pedra-lua. Sempre. Ou quase.

Quando ele me olha, sinto-me (sempre) inadequada e insuficiente. Esmeril em cego corte. Como se eu fosse a imagem errada para os seus olhos. (Não o que ele queria ver...) Podia ser que não. Ou sim. Quem vai saber? Por isso, sinto-me mais à vontade quando apenas eu o olho. Olhares mútuos me confundem. Porque ele é tudo o que meus olhos sempre querem ver. O escuro do abismo-todo. Ou o clarão. Em todas as cores, tons, subtons, nuances, tudo. Um tenso nada.


Dia 2


Tocá-lo nunca foi como tocar o real. (Por mais concreto que fosse o seu corpo em minhas mãos) Ele. Ela. Nós. Era como tocar a saudade, o inatingível, o ausente, o Amor...

Quando o vi, um colosso de serenidade, como sempre, senti-me derreter... e, entre incontroláveis sorrisos de felicidade, inibição e fingimento de naturalidade, foi-se todo o meu controle. Derrubei até minha emoção. Derrubei a casa toda que não era a minha.

De repente, todo o peso da nossa história baixou sobre o quarto. Era tudo um abafamento, sufocando-nos. Arestas do Tempo. Espessas camadas no ar se sobrepondo umas às outras, tornando difícil a nossa respiração. Língua cortada de dizer a causa dos mundos. A saudade, as dúvidas, as certezas, as dores, apertavam o nosso corpo contra a cama. Nossa lápide ou nossa manjedoura. Contra o mundo.
Fomos tomados por um angustiante e significativo silêncio. Nada calmo.

E tudo, o de repente, começou quando ele viu, registrou e aumentou a Penumbra. A Nossa. A Antiga. O nosso velho e único lar. (até hoje).

(Confesso que vê-lo "morrer" em minhas mãos foi uma experiência incrível. Indescritível. Algo como ganhar uma medalha ou coisa assim). Um troféu para a estante da Vida. Inteira). Com amor também se mata. Eis uma das únicas verdades da vida.

Sua voz cortava a penumbra como o som de um trem antigo corta o ar. Como quem corta a vida. Como quem é da natureza das facas, punhais, sabres, adagas.

Juntando passado e presente numa só fumaça. Num só momento. Num som. Ele. Ela.

Ali era o nosso lugar no mundo. No silêncio comovente da Penumbra. O mal se fazendo em bem entortado de prazer. Onde as coisas não são claras nem escuras. As coisas nuas. Quando as coisas nem precisam ter um nome. Pois que terão o nome, as cores, o valor que lhe dermos. É assim. Precisa ser assim. Na Penumbra, a Poesia pode estar no riso, no silêncio, na piada, no livro, no inusitado do ato, no toque, no olhar... ou apenas no "estar". A Poesia simplesmente Pode. Tudo. E não deve nada. Nada.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/saudade-485062277

sábado, 28 de abril de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte C)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Domingo, 26 de novembro de 2017
Com(junto)


Ensemble

la couverture
le noyau
l’allure
l’essence
l’amour, ce dieu à moi seul
au centre de moi…
Tout le contenu est un peu de ça
et le surplus, en plus.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/madeira-madeiras-r%C3%BAstico-idade-3040859/

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira 16 de novembro de 2017
Visagem


Illusion

Accrochée à la mer
comme la crête d’une vague,
si fluide et si sérieuse
si blanche, tu es revenue.

La violence et la souffrance m’ont ramené à la vie.
Où sont donc tes morts?
Qui sont-ils?
Hier je rêvais d’une énorme tête tournée vers le vent
dont le visage était la solitude.
Pas aujourd’hui.

Aujourd’hui tu es venue.
Et ici le sable est chaud.

Ici même.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/%C3%B3culos-retro-vintage-floresta-3301674/

domingo, 22 de abril de 2018

Descarrilada, a voz, régua para o tino



Por Germano Xavier


juízo não me deram para o Amor.
amei na planta a mulher-semente,
amei a santa, a mulher demente,
amei sem manta e a espécie impura,
a ralé que andou comigo a toda pressa,
o nome frequente em meus silêncios.

apoio típico não recebi no andar só
| o Amor nem sempre está |, e suei
e cobrei do mundo as pedras usadas
pelas quais passei - sentidas infecções
(amorosas).

dizer que não sinto saudade
| a descarrilada, a da tua voz, a antiga
como um zepelim | é dor

oceânica.

haverá no cassino desse mar
algum jogo cúmplice | do amar |,
algum fator | de Amor | de atraque ou de fico,
numa tal medida náutica de insistos

longe dos trilhos.
haverá?



* Imagem: https://pixabay.com/pt/ferrovia-transporte-ferrovi%C3%A1rio-3129847/

A coisa toda é irônica



Por Germano Xavier



Se o PT é um partido "morto", a prisão do ex-presidente Lula, com certeza, foi o seu funeral. O profético "banho de sangue" a que se referiu a presidente do PT, Gleisi Hoffman, caso a Polícia Federal insistisse na prisão do Lula, NÃO aconteceu. E não aconteceu por interferência dela ou do próprio Lula, mas porque a maior ou grande parte da sociedade brasileira estava do outro lado do discurso. E também porque a parcela de militantes que estava disposta a resistir à prisão de Lula era, visualmente, irrisória. (Sem mencionar que a Polícia Federal estava, naturalmente, preparada para reprimir qualquer tentativa de resistência violenta. Mas (sábia e/ou convenientemente), evitou qualquer tipo de confronto. Afinal, um "banho de sangue", mesmo fictício, só interessaria ao "discurso" do PT).

Após todo o previsível teatro do ex-presidente no seu "bunker do ABC", e de o PT tentar (até o esgotamento da paciência da audiência) aproveitar a cobertura sensacionalista das mídias sobre o fato histórico - simulando até uma missa (leia-se comício) em homenagem à falecida ex-primeira dama (contando, claro, com o fato de que os brasileiros não se lembrariam de que a esquerda é histórica e ideologicamente ateísta e contra (todas) as religiões. O lema original da esquerda era "enforcar o último rei nas tripas do último padre". Mas o tiro saiu pela culatra. Até o mais inocente dos brasileiros notou que aquilo foi tudo, menos "missa".

A presença da Igreja Católica encabeçando a farsa não é surpresa (não é segredo que ela sempre foi oportunista e facínora) A essa altura da História, ninguém esperaria mais que ela tivesse um pingo de bom senso ou consciência. Os "evangélicos" e outros figurantes que apareceram no palaque, queriam apenas os seus 15 minutos de fama.

No fim, ficou muito bem ilustrado, claro como o sol ao meio dia (se é que ainda restava dúvida) o tamanho da capacidade de manipulação do PT, do seu desrespeito por qualquer "sagrado" e o quanto ele subestima a inteligência nacional. Após tudo isso na eternidade de algumas horas tensas e angustiantes, a prisão de Lula foi assistida pelo mundo. E, entre perplexos e extasiados, salvarem-se todos. (Exceto o PT).

Enquanto isso, o Brasil, entre esperançoso e traumatizado, tenta assimilar os fatos. E as ideias. Mas, como já disse o presidiário mais ilustre do País, "não importa o que dizemos a eles (o povo), mas o que eles pensam que estamos dizendo a eles". E após todos os movimentos "friamente calculados" do PT, na tentativa hilária de subverter os fatos e emplacar o discurso de vítima e perseguido político, finalmente, as grades se fecharam sobre Lula e, simbolicamente, sobre um partido.

Como era esperado, o PT esperneou o quanto pôde, enfiou recursos em todos os buracos, apelou às Cortes e organizações do mundo inteiro, mas, no final, teve de se curvar às leis e à (nova?) ordem do País; a (pelo menos) expectativa de que a Lei seja para todos.

Após a controversa prisão, ao contrário do que o PT queria, o Brasil continuou tal e qual. E, (afinal estamos falando de Brasil), depois de se afastaram as famigeradas câmeras da televisão, o assunto tende a perder o interesse para outras questões...


Que venham Aécio, Temer e CIA à "República de Curitiba"


Tarde. Mas antes tarde do que nunca. Temer, Aécio e tantos outros (O Sarney, impressionantemente vai passando ileso, blindado até o pescoço, das investigações, por falar nisso) serão (pelo menos) julgados, submetidos a um processo judicial sério, com alguma esperança de serem punidos.

Vergonhosamente "salvos" por seus pares políticos e/ou comparsas, de serem confrontados por seus atos flagrantemente ilegais/criminosos - mesmo sem considerar as provas que serão levantadas nos processos, só o que já se sabe (de domínio público) já é suficiente para os dois serem banidos da vida política do País. (Sem prejuízo do cumprimento das respectivas e devidas penas na "República de Curitiba") - esses políticos, finalmente, estão na mira do julgamento da opinião pública e de um judiciário (até agora corajoso o suficiente) e aparentemente disposto a seguir no rumo da moralidade, da vontade do País que exige punição para a corrupção e de uma isenção que se espera do STF e de todos que devem fazer cumprir as leis com isonomia.

Espera-se que sejam tratados com o mesmo rigor que seus antecessores que foram condenados (o que nem sempre significa prisão. Nem mesmo punição neste País) Mas a esperança, veja só, ela ainda está viva em alguns recantos. Esperemos que sobreviva aos próximos capítulos.

Porque "nunca na História desse País" ela foi tão necessária.


#aesquerdavalealuta


* Imagem: http://www.giromarilia.com.br/colunas/walkiria-martinez-heinrich-ferrer/o-tunel-do-tempo-da-politica-brasileira/9281