sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Essas coisas de dentro

*
Por Germano Xavier

"y que el placer que juntos inventamos
sea otro signo de la libertad."
(em Una carta de amor, de Julio Cortázar) 

contido,
o amor embrutece o ar,
vai à desforra em desvãos
e à solapa torna gélido o tempo
que reconhece no outro
o sangue, a pele, o pulso.

no fundo dos vazios
(esta ânsia de romper os lastros)
está o coração sem socorro,
a alma cansada está,
o corpo: vivo-adormecido.

para essas coisas de dentro,
que gritam sem liberdade,
que pressionam veias e artérias,
somente a força estranha 
do deixar-se.

(no alto de um cruzeiro 
um espantalho anuncia a presença 
dos mistérios)

descomedido, o amor é outro, 
panda alquimia, faz e refaz
do humano tal ser miraculoso e dobra
poder de mãos, bocas, armaduras e membros,

assim candente põe 
a permanecer vital a altivez
das mais solutas atmosferas.


* Imagem retirada do site Deviantart.

Dialogando educação e violência

Eu e Içami Tiba.
Por Germano Xavier

Ontem, 11 de setembro de 2014, foi dia de participar do I Seminário Estadual sobre Educação como Principal Caminho de Prevenção à Violência, sediado no Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, em Recife-PE. Na ocasião, discutiu-se a participação consciente de diversos setores e instituições sociais em prol da diminuição da violência, a focar principalmente o papel da família, da escola e dos órgãos competentes. Palestraram o psiquiatra Içami Tiba, o jornalista e sociólogo Paulo Henrique Amorim, além de autoridades de diversas áreas de atuação.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eu, amador de livros

*
Por Germano Xavier


Eu não saberia precisar quando foi mesmo que passei a nutrir amor pelos livros. Não tenho esta certeza dentro de mim. Sou ruim de memória, esqueço com facilidade certas coisas. Se não sei com exatidão numérica, não me custa nada inventar uma contação para criar uma natureza real sobre tal fato ou acerca de tal ocasião. Digo que fora num dia bonito de inverno lá pelas tantas auroras de minha pré-adolescência, eu misturado aos encantos de minha Chapada Diamantina e pronto, está tudo certo. Muito justo, até, pois foi lendo que aprendi a inventar-me e, mormente, a reinventar-me.

Carpinejar escreveu, certa vez, que livros o ensinaram a abrir portas. Livros, para ele, eram como chaves douradas e potentes, capazes de nos indicar estradas a seguir e rotas a alterar. Achei bonito o fraseado do poeta. Meus livros me ensinaram a pular muros, os mais altos. Eu, que sempre fui um serzinho meio esquisito, sem muitas gritâncias de exteriorização e de pés quase sempre atados ao regolito visível, precisei conhecer as palavras para descobrir que o mundo era bem maior que aquele até então conhecido por mim. Foi justamente nesta época que aprendi que sonhar era bom. 

Lá em casa, as coisas não favoreciam muito a quem pretendesse cultivar o amor por este objeto sagrado ao qual chamamos livro. Meu pai, profissional de saúde bucal, era detentor de uma coleção razoavelmente pequena de obras referentes ao seu fazer diário e alguns títulos avulsos que me cobririam de luz tempos depois, como a citar os quatro títulos de José de Alencar de capa dura amarela que leria antes dos vinte anos. Minha mãe, católica interessada, lia livros de orações ou com assuntos semelhantes. Meu irmão mais velho esqueceu-se de percorrer o nutritivo caminho da literatura e debandou por outras paragens, mais pragmáticas e descansadas que as escolhidas pelo caçula do lar. Devia ele ter coisas mais interessantes a pensar e a fazer.

Não obstante a pouca oferta de livros nas estantes da casa onde cresci, ainda sofria com o fato de ter de morar numa cidade sem uma biblioteca propriamente dita. Entrementes, segui lendo o que podia ler. Os livros, acessados com dificuldade considerável, aos poucos foram pousando em minhas mãos, em meu colo, como se quisessem estar em minha companhia. Destarte, eu, que no auge de minhas sandices pós-infância já havia me divertido juntando embalagens de shampoo e etiquetas de roupa, dei início ao meu acervo pessoal de livros. Minha biblioteca, enfim, entraria em construção. Uma construção eterna.

A partir dali, troquei livros, comprei muitos, perdi outros, ganhei alguns e até “roubei” exemplares com a desculpa de pedi-los em empréstimo. Li muitos de meus livros, outros deixei de lado, li livros que nunca estiveram em minha casa – livros do mundo – e só por isso hoje posso contar tais figurinhas. Se não fossem eles, meus queridos e amados livros, eu não seria este que hoje sou e suspeito de que este texto também não existiria. Ser um amador de livros é como estar entre borboletas, num dia de sol elas todas se vão por entre os feixes límpidos das claridades do dia, mas deixam suas cores estampadas na pele de nossos olhos para que não haja sequer uma noite sombria.


* Germano Xavier e seus livros. Acervo pessoal.

Aquela rua

*
Por Germano Xavier

vez ou outra, amor,
recordo-me entristecido
de que estivemos separados
por uma rua apenas

para te amar,
como um louco ou como um Werther,
precisaria eu um muro saltar
para a luz da vida
implodir tudo

o coração foi frio,
a rua larga,
os impérios do nada impediram as ânsias,
a distância era um fenômeno

além e tempos depois, sorrio,
por saber que ainda estamos,
eu e a tua essência, impregnados ao muro,
na espreita, como duas sombras

adaptadas a qualquer novo alvorecer

 * Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Nada muito sobre filmes (continuação)

*
Por Germano Xavier

mais algumas palavrinhas facebookianas sobre filmes que andei assistindo...


PHILOMENA

Acabo de assistir ao filme PHILOMENA (2014), do diretor Stephen Frears. Baseado em uma história real, o filme conta parte da vida de Philomena Lee, que perdeu de vista o filho depois de engravidar e de ficar aos mandos da Igreja Católica na Irlanda. Um belo exemplo de que é possível narrar um enredo dramático com uma atmosfera leve e até descontraída. Adoção, Deus e homossexualidade são os temas principais. Recomendo a todos os mortais!

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

Ontem também assisti ao filme HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (2014), do diretor Daniel Ribeiro. Parece que o mundo inteiro gostou do filme, menos eu. Muito barulho por uma história que já considero banal nos dias de hoje. Enfim... achei muito monótono, mas tem lá sua graça. Vai encarar? Salve, salve, bucaneiros!

PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO

Acabo de assistir ao filme PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO (Dawn of the Planet of the Apes), do diretor Matt Reeves. Filmaço, bucaneiros! Do começo ao fim. Ficção científica da melhor categoria. Um clássico que faz jus à velha, boa e inteligente série. E o melhor, "o confronto" ainda nem começou. Ave, César! Recomendo a todos os mortais!

OS PÁSSAROS

Acabo de assistir ao filme OS PÁSSAROS (THE BIRDS), de 1963. Dirigido por Alfred Hitchcock, a película é um clássico do suspense e para a época de seu lançamento suponho que deva ter sido deveras impactante. Os moradores da pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, começam a sofrer inexplicáveis ataques de pássaros, o que modifica por completo o cotidiano do local. O momento final é marcante. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO

Acabo de assistir ao filme O PODEROSO CHEFÃO (THE GODFATHER), de 1972. Um dos maiores ícones da cinematografia mundial, muito aclamado pela crítica e detentor de vários prêmios. Um filme mítico, diria, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado em livro homônimo de Mario Puzo. Marlon Brando e Al Pacino em grandes performances. Máfia em primeiro lugar. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO 2

Acabo de assistir ao filme O PODEROSO CHEFÃO 2 (THE GODFATHER 2), de 1974. Um dos maiores ícones da cinematografia mundial, muito aclamado pela crítica e detentor de vários prêmios. Segunda parte de uma trilogia mítica, diria, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado em livro homônimo de Mario Puzo. Al Pacino e Robert de Niro em grandes performances. A saga da família Corleone continua. Recomendo a todos os mortais!

VINCENT

Acabo de assistir ao filme VINCENT (1982), primeiro curta-metragem do diretor Tim Burton. Todo realizado em stop-motion no preto e branco, tem narração de Vincent Price e altas doses de Edgar Allan Poe. Esboço dos traços de loucura eterna deste grande cineasta. Recomendo a todos os mortais!

THE DOORS

Acabo de assistir ao filme THE DOORS (1991), do diretor Oliver Stone. 2 horas e 20 minutos para quem gosta da mítica banda de rock liderada pelo poeta Jim Morrison e para quem ainda não conhece o universo xamânico-literário que circundava o quarteto. Apesar de focar o lado obscuro de Jimbo e apagar um pouco o brilhantismo dos outros componentes da banda, o filme agrada. Um salve para Inês Guimarães, que me apresentou ao ilustre som quando eu ainda morava no Vale do São Francisco. Recomendo a todos os mortais!

MÃOS TALENTOSAS

Acabo de assistir ao filme MÃOS TALENTOSAS - A HISTÓRIA DE BEN CARSON (2009), do diretor Thomas Carter. A película, baseada em fatos reais, narra os passos do menino Ben Carson até se tornar um renomado médico. Uma película que emociona e causa um tremendo rebuliço por dentro da gente. Para quem está precisando acreditar mais em si mesmo, indico. Um salve ao professor Ezir George Silva pela apresentação da obra. Recomendo a todos os mortais!

GRAVIDADE

Acabo de assistir ao filme GRAVIDADE (2013), do diretor Alfonso Cuarón. Imagens lindíssimas de nosso planeta, mesmo que irreais. Entretenimento ao pé da letra. História verossímil. Apreensão do começo ao fim. Filme muito bem feito, muito mesmo. Para quem gosta do gênero ficção científica, eis um belo exemplar. Tudo agrada. Recomendo a todos os mortais!

VIAGEM À LUA

Em tempos de Super Lua, nada melhor que começar a noite assistindo ao clássico e mítico filme VIAGEM À LUA (LE VOYAGE DANS LA LUNE), de Georges Méliès. Considerado o primeiro filme de ficção científica da história do cinema, é datado de 1902. Representou um avanço para a época em muitos sentidos. São 14 minutos de pura magia. Vi nos dois padrões de cores. Recomendo a todos os mortais!

OS OUTROS

Salve, bucaneiros! Ontem foi a vez de rever OS OUTROS (2001), filme dirigido por Alejandro Amenábar. Engraçado como não me causou mais grande impacto, como da primeira vez que o vi, lá pelos idos de seu lançamento. Todavia, é um filme muito interessante e muito bem feito. Questões espíritas em jogo, duais: Morte X Vida, Corpo X Alma. Para quem gosta do tema, uma boa pedida. Recomendo a todos os mortais!

O SÉTIMO SELO

Acabo de assistir ao filme O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet - 1957), do diretor Ingmar Bergman. Num duelo direto com a Morte, tendo como alegoria de escape uma partida de xadrez, o protagonista tenta adiar a chegada de seu derradeiro momento em vida. Cruzadas, Peste Negra, medievo e a fé questionada são os motes de base. Um clássico, deveras. Recomendo a todos os mortais!

TÃO FORTE E TÃO PERTO

Assisti ontem ao filme TÃO FORTE E TÃO PERTO (Extremely Loud And Incredibly Close - 2012), do diretor Stephen Daldry, o mesmo dos filmes Billy Elliot, As Horas e O Leitor. Tendo como pano de fundo o 11 de Setembro nos EUA, a película narra a história do garoto Oskar Schell e seu peculiar processamento de luto, após perceber que o pai havia morrido no atentado. Um filme consistente para se pensar as estratégias de sentido que utilizamos diante das perdas. Com o grande Tom Hanks no elenco. Recomendo a todos os mortais!

DELICATESSEN

Filmaço este tal de DELICATESSEN (1991), dos diretores Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Atmosfera caótica - bem do jeito que eu gosto -, mundo e pessoas passando por privações alimentícias, entre tantas outras. Um açougueiro carniceiro, vendedor de carne humana, que exerce o poder dentro de um edifício caindo ao pedaços, um romance no meio de tudo e está pronto um digníssimo exemplar de Surrealismo em altíssimo naipe. O resto só assistindo mesmo, pois não vou contar. Da mesma turma que fez O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN. Recomendo a todos os mortais!

O PLANETA DOS MACACOS

O PLANETA DOS MACACOS (1968), do diretor Franklin J. Schaffner, é um filme estadunidense do gênero ficção científica que inaugura a enorme série que leva o mesmo nome. Na trama, o futuro é dominado por macacos e os humanos não passam de seres subalternos a eles. Todavia, uma expedição humana oriunda de um distante passado pode mudar toda a história do mundo. Um filme a ser visto e pensado. Recomendo a todos os mortais!

MAR ADENTRO

MAR ADENTRO (2004), do diretor Alejandro Amenábar, é um drama espanhol que versa sobre o direito de decidirmos (ou não) pela nossa própria morte. Ramón Sampedro é tetraplégico por 28 anos e, depois do acidente que o deixou lesionado, jamais se sentiu confortável na situação, o que o fez lutar pelo direito de pôr fim em sua própria vida. Família, sociedade e religião entram em conflito. O filme tem uma cadência bonita e emociona sem ser piegas. Recomendo a todos os mortais!

GAROTA INTERROMPIDA

Revi agora GAROTA INTERROMPIDA (1999), do diretor James Mangold, filmezinho que mexeu muito comigo quando adolescente. Aí você faz um link direto com o livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex - e tantas outras leituras -, e se espanta ainda mais com muita coisa relacionada aos paradigmas de tratamento de afetações e/ou alterações de comportamento identificadas em seres humanos em nossos tempos, mesmo com grandes avanços percebidos nas áreas relacionadas aos estudos da psiquiatria, psicanálise e também psicologia. Recomendo a todos os mortais!

ABRIL DESPEDAÇADO

Ontem revi ABRIL DESPEDAÇADO (2001), do diretor Walter Salles. Um grande elenco ao lado de uma narrativa por demais interessante só poderia resultar num filme verdadeiramente expressivo do cinema tupiniquim. O filme é baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré e tem o sertão com suas tradições de sangue e suor como pano de fundo. Recomendo a todos os mortais!

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS

Acabo de assistir ao filme DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (1970), do diretor Ted Post. A saga continua, agora com foco no personagem Brent, astronauta que também faz a mesma viagem de Taylor, caindo no mesmo planeta desconhecido. Macacos, homens e mutantes numa incessante luta pelo poder. Alusões diretivas também acerca de questões referentes à produção das guerras. O filme não consegue ser brilhante como o seu precursor, mas alimenta ainda mais a curiosidade diante das continuações da narrativa. Para quem se interessar possa, recomendo a todos os mortais!


ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Acabo de assistir ao filme ALICE IN WONDERLAND (Alice no País das Maravilhas - 1903), filme mudo de origem britânica, dirigido por Cecil M. Hepworth e Percy Stow. É considerado a primeira adaptação para o cinema do famoso livro de Lewis Carroll. Para quem gosta deste clássico da literatura, vale a pena dar uma conferida. São pouco mais de 8 minutos. Recomendo a todos os mortais!

O GRANDE ROUBO DE TREM

Acabo de assistir ao filme O GRANDE ROUBO DE TREM (The Great Train Robbery - 1903), do diretor Edwin S. Porter. Considerado por muitos o primeiro filme de faroeste já produzido no mundo, com uma coleção de elementos simbólicos que fariam parte do imaginário do gênero a partir de então. Foi deveras interessante a experiência de vê-lo. Recomendo a todos os mortais!

ELA

O filme ELA (2013), do diretor Spike Jonze, é sensível, poético e emociona sem ser banal. Faz-nos refletir bastante sobre as relações (homemXhomem e homemXtecnologia) na contemporaneidade, num mundo onde a virtualidade é fator cada vez mais presente. No longa-metragem, o protagonista Theodore se apaixona por um sistema operacional ultramoderno, que transforma de uma hora para outra a sua vida. Insólita e bela história de amor. Recomendo a todos os mortais!

VIVER A VIDA

Relato da curta vida de uma prostituta francesa, o filme VIVER A VIDA (VIVRE SA VIE - 1962) é tido como a primeira obra madura do diretor Jean-Luc Godard, o cineasta filósofo. A película em P&B é dividida em doze quadros, que se unem e ao mesmo tempo não se integram totalmente. Sensualidade, filosofia, crítica social e um apanhado de referências a outros exemplares de cultura se relacionam durante todo o tempo de exibição do produto em questão. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO III

Salve, bucaneiros! Tardou, mas enfim consegui ver o desfecho deste clássico. O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III (1990), do diretor Francis Ford Coppola, fecha com chave de ouro a aclamada trilogia. Neste último episódio, Igreja Católica e Máfia estão no centro das atenções, num jogo de disputa de poder bastante complexo. Gostei por demais do III, bem mais envolvente que as duas partes anteriores. Sem mais delongas... Recomendo a todos os mortais!

NEBRASKA

Salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao filme NEBRASKA (2014), do diretor Alexander Payne. Beirando ao cômico e também ao drama, a película é de uma sensibilidade muito sutil e bonita. Um velho homem acredita ter ganhado 1 milhão de dólares numa campanha promocional de uma revista e sozinho começa a se mobilizar em busca do prêmio. Logo, a atitude de Woody Grant, o protagonista, mexe com todos de sua família e de sua cidade natal, mas principalmente com a vida de seu filho mais novo. A escolha pelo preto e branco empresta uma aura especial ao longa. Com certeza, vale muito a pena conhecer. Recomendo a todos os mortais!

SILENT HILL: A REVELAÇÃO

Acabo de assistir ao filme SILENT HILL: REVELAÇÃO (2012), do diretor Michael J. Bassett. Com expectativa de que a continuação me fizesse esquecer os fiascos do primeiro longa da série... É perceptível que melhoraram em alguns quesitos, mas o filme ainda é muito fraco. Para quem gosta de SILENT HILL, melhor continuar nos games mesmo. Salve, salve!

SILENT HILL

Na madrugada de ontem para hoje, assisti ao filme TERROR EM SILENT HILL (2006), do diretor Christophe Gans. Quem viveu os áureos tempos dos games, como muitos de minha geração, sabe que Silent Hill é um ícone do gênero ao qual se configura. Todavia, apesar da belíssima fotografia e da história bastante interessante, considero o filme fraco e não convincente. Os efeitos especiais não são dos mais bem acabados e a atuação de alguns do elenco não encanta. Tenho a continuação já em mãos. Vamos ver o que acontece.

LADRÕES DE BICICLETA

Acabo de assistir ao filme LADRÕES DE BICICLETA (Ladri di biciclette), de 1948. Considerado a obra-prima do diretor Vittorio De Sica, o clássico em preto e branco retrata bem a situação complicada em que se enveredava a população italiana no pós-guerra. Precisando de um emprego para sustentar a família, um trabalhador vê um jovem estranho furtar sua bicicleta, sem a qual não poderia seguir no trabalho. A partir daí, inicia-se uma verdadeira saga em busca da magrela por toda a cidade. Uma película que rende muita discussão. Recomendo a todos os mortais!

OS EXCÊNTRICOS TENEMBAUMS

Salve, salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao filme OS EXCÊNTRICOS TENEMBAUMS (THE ROYAL TENEMBAUMS), datado de 2001 e com direção de Wes Anderson. Um filme curioso, misto de drama e comédia. Diferenças de comportamento, relação pais x filhos e conflitos de todos os tipos dão o tom da película. Apesar de não ser dos melhores, o elenco é recheado e vale demasiado os minutos dedicados. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma noção de pecado

*
Por Germano Xavier

quem peca por saudadear demais
as vistas de vida que já foram
manipuladas outrora ou além
acaba por se saber homem de pedras
e de mãos construtoras de obeliscos

(monumentos do ser fechados em si)
internos mármores que nunca gelam

a saudade é pecado
quando passa dos limites
dos édens e dos erros
quando sai do afresco morto
e desespera-se
para só demonstrar

como suspeitar de que esta dor
em tons de pensamento (do esquecer-se)
sofre alívio quanto mais pulsa
cobra abrigo quando lá dentro se envereda
para morrer (viva)
num estreito beco sem saída

é por isso que as tardes se alaranjam
tonificadas pela vinda dos escuros sóis

estão elas a dizer:
violar o outro é tarefa do coração que ama
mesmo que para amar sejam
demarcadas no sangue da pele
as fugas mais dolosas


* Imagem retirada do site Deviantart.

domingo, 31 de agosto de 2014

Elo expandido

*
Por Germano Xavier

a beleza
como o tempo
amadurecido está
diante da hora fugidia

a beleza
(assim parece)
é uma antiga forma
de se aninhar caminhos

ouço-a
vejo-a

toco-a
com o silêncio do meu pensamento
e observo com mais clareza
que

o belo nasce do que dilata


* Imagem retirada do site Deviantart.

Eu campino, tu campinas

*
Por Germano Xavier

Seis imagens que guardei de minha primeira expedição à belíssima cidade de Campina Grande, no estado da Paraíba. Por várias vezes, senti-me como andando pelas ruas de João Pessoa, onde morei em 2010. Campina Grande de muita gente talentosa. Sinto que vou voltar!






terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Angical

*
Por Germano Xavier


Meu bisavô tinha um pedaço de chão perto do fim do mundo. Chão poeirento, estradinhas cor de barro limitadas por cercas de arame farpado, algumas algarobas no meio das visagens, um sol sempre ligado no máximo grau. Era um lugar bonito e misterioso ao mesmo tempo, que muito me encantava em toda aquela minha curiosidade infante, quase sempre disfarçada numa lívida timidez. A família por lá se reunia vez em quando, todos com muitos sorrisos e lembranças contadas nas rodas de papeação iniciadas logo ao anoitecer, isso lá na minha já um pouco distante infância. 

Meu bisavô se chamava Serafim. Era um homem alto, alvo, de uma elegância rústica que impunha respeito. Pai de cinco meninas e casado por longos anos com minha avó Vidinha, como era carinhosamente conhecida por toda a parentada e também pelos amigos mais próximos, Serafim tinha olhos de quem guardava segredos memoráveis. Ninguém sabia responder o porquê do nome do roçado do meu bisavô ser aquele: Angical. Também não me lembro de ter perguntado a ele em algum dia sobre tal escolha. Enfim...

Foi numa tarde sem chuva no céu que acabei parando lá no Angical, na companhia de meus pais. Eu devia ter meus dez ou onze anos. A gente pretendia passar uma noite por lá, o que não significava para mim muita coisa. Todavia, o que haveria de ser mais uma noite normal fora de casa, acabou se tornando algo sobrenatural e por demais inesquecível. 

A verdade é que eu nem sei por onde começar a minha história, que não chega a ser longa. Lembro-me do quarto. Sim, eu estava no quarto de hóspedes. No quarto havia dois tamboretes forrados com couro de boi, um espelho grande com molduras amadeiradas e uma cama de molas que rangiam quando nela eu me deitava. Era um cenário duro, seco por natureza, porém muito amável. Isto de dia, porque durante a noite tudo parecia ganhar outra roupagem. A casa do meu bisavô ficava preenchida de penumbras, as coisas ganhavam umas tonalidades amarelecidas que me causavam calafrios, as estrelas invadiam o firmamento quando das janelas. 

Do quarto, vi um primo meu chegar de viagem. Faria, com os pais, o mesmo que minha família de dispôs. Era um encontro e encontros assim são sempre numerosos. Chamei-o pelo nome.

- Pedro!

- Olá, primo!

- Bom te ver aqui.

- Saudade.

Logo depois, passa o Sílvio correndo desembestado, o filho da muda Celma. Sílvio era um menino muito sabido para a idade que tinha. Era um pouco maior que a gente, mas ainda compartilhava das mesmas brincadeiras. De relance, Sílvio nos avistou e veio falar com nós dois. 

- Ei, vamos brincar?

- Mas já está tarde – fui baixando o ânimo dele.

Sabem como é, não sabem? Do quarto para o quintal foi um pulo, rápido demais da conta. Do quintal repleto de animais que se preparavam para a rotina noturna até o outro lado da estradinha de chão batido foi mais ligeiro ainda. Fizemos todo o percurso à francesa, como que para escapar dos olhares de nossas mães protetoras. Deu certo.

Corríamos, despreocupados no meio da noite, guiados apenas pelo instinto de Sílvio. Ele havia dito pouco antes de sairmos do quarto que conhecia um lugar bom para ficar olhando algumas possíveis estrelas cadentes. Segundo ele, não era tão longe da casa onde todos estavam. De repente, sem antes ter chegado ao nosso destino, Sílvio fez uma cara de sobressalto e parou.

- Vocês ouviram?

- O quê? – retruquei de supetão, a também começar a me assustar.

- Vinha daqui, ó!

Sílvio apontou o dedo para o lado direito do mato baixo e pediu que fôssemos atrás dele. Aquilo não me cheirava muito bem. Pedro e eu em sua cola, cuidando para fazer o máximo de silêncio possível. Corajoso, vimos o menino começar a abrir picada com os pés e com as mãos no meio das árvores e dos galhos que arranhavam nossas peles. Meu coração estava acelerado. Pedro parecia estar com medo e me dizia baixinho que queria voltar para perto de seus pais. 

Sons estranhos tomavam conta do ar.

Foi quando Sílvio parou, a uns três passos adiante, em nossa frente. Olhou para mim e pediu uma aproximação lenta e sigilosa. Fui quase engatinhando até ele. Pedro veio em seguida. Escoramos numa pedra grande que dava para uma enorme cratera. Ali, ao centro, enxerguei três macas rudimentares, feitas também de pedra. Fiz menção de voltar, quando Sílvio me puxou pela manga da camisa.

- Vejam! – sussurrou Sílvio.

Para meu espanto, vi três mulheres com rostos desfigurados entrarem no buraco, vindas do lado oposto ao que estávamos agora. A posição era boa e aquilo me deixava esbaforido. As mulheres deitaram sobre as macas de pedra, todas em bruto silêncio. Totalmente nuas, logo ficaram em posições que lembravam as de parto. As três mulheres, então, começaram uma sinfonia de urros e gritos, quase estridentes. O vento havia ficado mais gelado naquele instante. Estávamos estupefatos.

Fixamos o olhar para o interior do orifício. O medo encarnava. A mulher que estava na maca do meio soltou um som cru e de suas partes íntimas começou a sair uma matéria sombria, uma espécie de fumaça totalmente negra. A sombra vagueou seu corpo, depois os arredores do local, e sumiu atirada ao escuro das horas. Poucos segundo depois, foi a vez das outras duas mulheres repetirem a ação, como se estivessem ali parindo sombras, as sombras do mundo todo.


* Imagem retirada do site Deviantart.

O tsuru azul

*
Por Germano Xavier

quando a menina do tsuru azul
voltar a ser povo em mim
e eu pouco deixar
de olhar e ver
e enxergar
na janela esperando a tarde
comemorar a morte dos passados

comemorar


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Noturnos parideiros

*
Por Germano Xavier

com colaboração de Júlia Viana


um dia
quando pequeno
ouvi dizer que no roçado 
de meu bisavô
havia um lugar 
onde só podíamos ir
no período da noite
um lugar

onde eram paridas
as sombras

estávamos na mesma história
de um mesmo livro
em capítulos diferentes
unidos pelo (re)verso da última página
separados pelo título da narrativa seguinte
em uma aproximação adormecida
geograficamente calculada
num abraço cego das folhas

éramos dois personagens
atuando em papéis reais
condenados ao encontro um do outro
no descuido do abrir daquele livro
durante uma ventania
em rebeldia das páginas
no folhear do destino
a permitir lapsos de olhares
breves, mágicos, profundos
sem tempo pra decifrar a eternidade

éramos dois prisioneiros
a presenciar um fim e um começo
tropeçando em novos viveres
sem nos importar com o desfecho do outro
desconfortáveis com o barulho das palavras
espremidos ao embaralhar das letras vazias
testemunhas das tramas alheias
que ousavam cruzar nosso desenrolar
a nos julgar pelo nosso culto "exótico"
ao silêncio...um delicioso espaço sagrado de liberdade

éramos dois em um
protagonistas de um drama maior
sem ao menos suspeitar
encontrávamos secretamente
na fuga à procura por aquele espaço
vazio de vozes, extraordinário em sentidos
era ali a fonte...renovação para continuar
estávamos nesse trecho
sentados de costas para o outro
respirando o mesmo ar
a trocar desabafos telepáticos

e no virar das páginas
um (re)encontro inesperado
deslocados para o mesmo capítulo
talvez reservado ao ápice
eu recém-chegada do Rio
você, de Macondo
diante da fúria do chamado
dançamos a passos lentos
depois...a rodopiar com a fantasia
numa libertação de essências
escolhidas pela excitação
das descobertas dos cheiros
pelo faro das almas

adiamos a hora da despedida
iludimos tempo e espaço
criamos nossos mandamentos
regidos pelo desejo do bem querer
na celebração da suspeita do amor
sem limites, sem controles
barramos pressentimentos de censura
numa condenação quase certeira
não por nós...pelos espectadores
que sabiam desde o início
do poder da atração arrebatadora
diante de uma aproximação maior

você entrou em minha história
que insistia em terminar antes da hora
remodelou meu ponto final
em exclamações de explosão da existência
estavas a todo instante ali
eu não via, não lia, não sabia, não entendia
meu rumo ganhou cores e brilhos
meu capítulo virou a história, o próprio livro
minhas ações ganharam fôlego e vidas
num desenfrear do ritmo do viver
compartilhado apenas com você

me flagrei encantada por tal figura generosa
que concebia lindos personagens em um
todos voltados para mim
com o único propósito do amar
disfarçados pelo teu olhar discreto
ao invadir prisões de segurança máxima
apenas no instante de um piscar
reflexo que me assustava
pela perspicaz silenciosa
de alguém que me desnuda
ao enxergar além da capa
segredos e mistérios já velados

inevitável não querer para sempre
viver ali naquela história, na nossa história
vislumbrada antes pelas sombras das páginas
iluminadas de repente em preto e branco
pelo prisma genial da arte do teu olhar
que aprisiona do modo mais doce
e se personifica sob todas as formas
em todos os personagens selecionados
para evitar um desfecho trágico
seja na minha loucura, sendo o divã
seja no proibido, sendo meu cúmplice
elevando alegrias a infinitas potências
num simples detalhe, fazendo a diferença
e até nas horas inflamáveis do desejo

e de repente...silenciados por tanto amor
continuamos ali: juntos, livres, firmes
aprisionados por escolha num doce vício
de eterna renovação do descobrir
"que um não vive sem o outro"
e fechamos as portas do nosso livro
para que não nos incomodem
voltamos à infinitude leve e louca
da hipnose de amar
estamos aqui, agora, ali e outrora
um voltado ao outro, sem piscar
um olhando desesperadamente
para a tentação do olhar do outro, reflexo
que abre corpos, almas e dimensões...


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A minha bola Carreiro

*
Por Germano Xavier

Eu tinha pouco mais de dez anos quando comprei a minha primeira bola de verdade. Colorida em vários tons, uma pequena couraça, bola para uma vida inteira – imaginava eu. De uma vida toda, não sei bem se conseguiria ser, mas o certo é que ela representou muito para mim, tanto que nunca a esqueci. Foi ela a bola mais importante de toda a minha infância, ao menos. A bola que carregou consigo, no ar embutido em sua diminuta câmara, todo o meu desejo de menino. Da fabricante Carreiro, comprada no antigo armazém do senhor Zé Lebeta com o dinheiro que a minha mãe me dava depois de ajudá-la a carregar o bocapiu nas feiras livres dos sábados iraquarenses, a esfera lúdica de meus sonhos havia sido feita de magia. 

Antes da minha primeira bola de couro, só conseguia ter “pingos de leite” ou “dentes de leite”, como eram chamadas as bolas feitas com borrachas ou plásticos mixurucas e que eram vendidas a preços irrisórios nos mercadinhos da minha cidade natal. Estas furavam rapidamente, ao menor toque com a superfície pontuda de um qualquer malvado espinho-matador, desperdiçando na gente toda uma carga de energia brincante dentro do coração de todos que gozavam de seus respectivos quiques. Eram bolas, mas não era aquela bola Carreiro colorida que havia conseguido comprar com meu próprio suor de menino ajudador de mãe.

Todavia, tal qual a pior das maldições, tive de presenciar a falência de minha bola couraça logo no primeiro dia de uso, no meio de uma tarde clara e de céu azul. Não sei o porquê de tamanho desastre, mas ela murchou depois de alguns contáveis chutes solitários que dei contra a parede lisa da garagem, como a testá-la antes dos possíveis jogos oficiais. Inexplicável a sensação. Eu sentia dor, sentia tristeza. Não pude fazer nada, a não ser tomá-la contra o peito e abraçar a sua matéria murcha, agora já sem vida. Minha primeira bola de verdade significou o meu inaugural contato com a morte.

Tantas situações quistas, desejadas em sua companhia, mas nada pode acontecer. O desfecho não havia sido o pensado. Um fim precoce para uma lição que duraria. A partir de então, a dor tornara-se mensurável dentro de mim, o tempo ganharia tom de instante. Fui-me recompondo paulatinamente por conta do exercício vivo da memória que tinha dela, bonita e cheia de cores, antes daquela total desordem de ânimo que me afetara. Eu precisei me reerguer. Eu precisei aprender a ser forte para aguentar – e aguentei, sendo. Olhando-a, com meus olhos de lágrimas presas, dei conta de que a perda também é repleta de beleza. Uma sublime, por vezes trágica, revelação.


* Imagem: Google.

De como cifrar a fome

*
Por Germano Xavier


"O mais profundo é a pele."
Paul Valéry

tocar para refazermos a pele
um do outro, descamada pelos dias,
tocar para não andarmos nus,
para sentirmos a coberta
natural da vida

tocar e causar um levante,
oposto ao que se fecha,
arco-íris de ponta a ponta,
pés-cabeça num espiralado vento inteiro
e interno e terno e eterno
(e eternamente)

tocar como quem toca a lava do vulcão
que queima a epiderme da Terra
com fogo e nada mais
– maior ensinamento, o magma? –,
tocar a alma por fora
e repintar primaveras inflamáveis
de prazer

tocar com poder
de repercussão: como se toca
para nunca haver morte?
como se impede o que poderá ficar
de enfeite nos longos e nos curtos caminhos
com um toque, um simples, mero e vil
toque de não-recolher?


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sobre vitrais de cautela

*
Por Germano Xavier


é por já saber que o amor
- trator que torce o roçado -
pode se transformar em espera
pelo tempo
de viagem, que devo alertar
ao homem sem noite
(ao homem sem mãe)
que se houvesse um dito
de ser ou para ser agora
que fosse o que fecundaria
no coração de nossa nudez
e como se lâmpada esplêndida
toda a memória solar


* Imagem retirada do site Deviantart.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Digestão

*
Por Germano Xavier

oferecida a mágoa
do martelo sobre a carne
e vendo sair o suco
o sumo de vermelha água

ardor

fiz-me com cara de fome
para ver o inchaço
do estômago me esvaziar


* Imagem retirada do site Deviantart.

domingo, 17 de agosto de 2014

O nome de todos os homens

*
Por Germano Xavier

para Almério, após sua música

pedir para não fazer
o que nunca nos fizeram
lamento ou soma
e continuar

ainda a ânsia por selvagear
a humanidade invernal dos dentros
acesos e nossos
a gente ama porque ama

o agouro
na asa de revoar
se você for homem do mundo
de mesmo nome que milhões
vai saber que a casa é a mesma

e que iremos juntos
apegados ao inferno
direção de música aberta
sem retalhos falsos
cantar cantar cantar

fazer do ouvido a brasa
ardente que vara o plástico
que afunda a morta vida
no poço do que não além
homem homem homem

basta a ruga olhar
no rosto em cacos do sol
rachador de abismos
de nos fazer cair e içar
o voo o voo o voo
do buscar


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A leveza dos pesos

*
Por Germano Xavier

que peso leve
tem o pensamento possível
- impossível
não se ater ao divino que criou
tuas costas nuas

quão leve é o peso
de um poema que se inicia
inesperado tomado em forma
no agora
como se estivesses comigo
deitada ante um espelho
de arte

é leve o peso
que raciona o que tem sido
muito forte
o que sempre foi e só agora
é sensível

esta força poderosa de chegar em mim
abrindo a crença dos merecimentos em vida
(sou eu lendo para você sob os auspícios de outras criações
vividas e amparadas nas mãos dos deuses)

ao toque de nos recolhermos
pernas atracadas umas nas outras
a fantasia mais real de amar morando dentro
na simplicidade do que somente se renova
quando pureza sem maldade
leve como a carne e o sensual encontro
leve e imenso como a vida
que não abafamos sobre nenhum indício de timidez

é muito leve o peso
que ameaça o que se rompe
que ameaça a prisão
ou que reluta a libertar qualquer momento
ou ainda o peso que altera o pulso
contraído de desejo

é que repartimos este leve peso
- mas que peso mais leve! -
de acordar no doce envolvimento em que adormecemos
no meio da noite que nos inicia

é terminada a hora de medrar
dos perigos de nunca ser
a porta que escancara o mundo
para fora de nossos maciços austrais


* Imagem retirada do site Deviantart.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A dimensão outra

*
Por Germano Xavier


quando ultrapassarmos a barreira
do tenebroso vácuo
de liberdade ou quando
enfim atravessarmos o vestíbulo
do fim incerto
que dá para o labirinto
- que não é nem termina inferno -
sem fim da vida que vale

quando
a vala saltarmos e o poço
fundo imundo deixarmos para trás
haverá um segundo de se olhar
(multidão em dois)

com o peso de sorrisos abertos
um para o outro trocados
os templos de íris
pela mancha branca
lâmpada nada amena
da hora mais bonita dos plurais 


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Prantos de pai

*
Por Germano Xavier

em homenagem ao meu pai Carlos Adailton Xavier


Meu pai sempre foi um homem forte, apesar de possuir uma sensibilidade muito aflorada dentro de si – e quase nunca tornada em coisa pública, já vou esclarecendo. Forte no sentido de saber a hora exata de usar as palavras e ações as mais cabíveis e necessárias. Nas situações mais difíceis do dia-a-dia, lá estava ele e sua lucidez interminável, poder especial que o ajudava - e ainda é do mesmo jeito hoje - a superar todas as intempéries e problemas com uma considerável facilidade. 

Um forte antes de qualquer coisa, como diria o Euclides da Cunha, o sertanejo de São Bento do Una, nascido Carlos Adailton Xavier no interior de Pernambuco e que escolheu o território baiano da Chapada Diamantina como lugar de pouso quando já entrado na adultice. Eu, filho caçula, puxado à sensibilidade do pai e com uma capacidade de se espantar e de se encantar com uma facilidade extremada, admirava-o todos os dias, todas as horas - e ainda é do mesmo jeito hoje, só reforçando. 

Meu pai sempre carregará o símbolo do heroísmo quando de fronte aos meus olhos se encontrar. É um sentimento inalterável dentro de mim, que ainda hoje sinto e nutro com enorme prazer. Porém, minhas memórias, insistentemente fracas e falhas, teimam em não se esquecer das duas únicas vezes em que vi aquele sertanejo herói sucumbir em lágrimas, causando desconfortos incontestes e de dimensões opostas quando chegadas ao filho atônito e inerte que porventura era eu.

De chorar por pouca coisa, meu pai nunca foi. Imagine, então, o espanto que me acometeu, menino de pouco mais de uma infante adolescência ardida em urgências, quando depois de um rápido banho, terminando de cruzar o corredor principal da casa, vislumbrei aos prantos soluçantes o meu pai, em pose cabisbaixa nunca antes observada em tais paragens do lar, ali no sofá preto lustroso, olhos pequenos e espremidos por tamanha tristeza, por sua irmã Estelita que acabava de iniciar a travessia eterna.

Eu sem saber se minha aproximação seria algo aconchegante, fiquei de longe segurando secretas lágrimas que naquele instante brotavam nas arestas de meus olhos. Tonto, cambaleei até a cozinha, quando minha mãe logo se encarregou de imprimir a notícia por completo em minhas significâncias ainda sem grande tenacidade nem maturação. Naquele dia, soube de maneira abrupta que meu pai não era um deus, mas um homem. Um homem que também chorava. 

O tempo passou e lá estava eu, após longos anos transcorridos, já crescido, formado e com um destino incerto diante das vistas, a me direcionar até a misteriosa cidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Aventureiro das causas incompletas ou desimportantes, abracei o vento dos dias sem formação e na despedida, à beira da porta que dava para a sala de embarque do aeroporto da capital de São Salvador, atraquei-me ao meu pai, que vertia lágrimas copiosas sobre meus ombros. Desta vez, não consegui segurar as cristalinas águas até então estocadas em minha represa interior. 

Era o filho mais novo vivendo um filme que o pai no passado já houvera registrado na carne e no espírito. A bem da verdade é que foram duas as únicas vezes em que vi o meu pai chorar. A última, não foi por um motivo triste, apesar do desfecho da história não ter sido dos mais comoventes. Além das imagens duais que ficaram gravadas em minhas retinas até o presente momento, guardei o gosto dos dois momentos e hoje, quando paro para escrever esta pequena crônica, fabrico em meu imaginário o terceiro choro do meu pai, que porventura poderá estar a ler o texto do filho, agora um choro de beleza, acolhedor. Um choro de sublime e pura contemplação.


* Imagem: Meu pai e eu, às margens do Rio São Francisco, em Petrolina-PE (2007).

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Partido Jimbo 3

*
Por Germano Xavier

peiote invadindo o peito
o coração do mundo
o pulmão das solidões de ser
o pulso cortado e o sangue
entrado goela abaixo num só prazer
(compartilhando os fantasmas dos outros

- nem eles nem elas entendem)

a fratura exposta na carne dos dias
daquele que anda em frente ao tempo

foi de suturar o alienante espaço
com a voz e a dança sem ritmo
similar a um xamã peioteiro

vez de mesma viagem
para dentro das portas de fora
da percepção sentida e a vida
de dimensão imprecisa
em outra esquina cobria a lua
um sol alcaloide


* Imagem retirada do Google.

sábado, 2 de agosto de 2014

Uma nossa fotografia

*
Por Germano Xavier

para Cristiane Sodré,
em sua idade de ir

esperaremos com cautela
a consciência de um barco futuro
preparado para singrar
o mar

do tempo
(interminável)

e a eidética memória
cravada no percurso
acordada no berço das passagens
fará retrato de nós mesmos
tal deslinde e remarco

nossos passos apuram
a linguagem de nossas almas
a tal da intuída verdade
que não existe
mas é


* Imagem retirada do site Deviantart.