sábado, 19 de outubro de 2019

O homem encurralado (Parte XXXVI)




Por Germano Xavier


o silêncio da superfície,
a paz das ondas comuns,
a parede sem pigmentos,

um desenho na retina:
o pó de tudo.

falta a tinta índigo,
o tóxico inescusável
no neon da alma.

falta
ao homem encurralado
o acúmulo das dores
e a percepção

| de seus amplos desertos |.


Prelúdio




Por Germano Xavier



ir ao mundo
com a paz necessária
para saber

a hora certa
de brigar


O homem encurralado (Parte XXX - em francês)




Por Germano Xavier


"tradução livre"



Terça-feira, 30 de julho de 2019
O homem encurralado (Parte XXX)


L’homme acculé (Partie XXX)


la vie passe, pour ainsi dire
et se suffit, la vie
s’épuise dans la catastrophe
prémonitoire

dans les parait-il, dans les ont dit que
dans les je pense
je crois sans vraiment y croire
je sais sans le voir

l’homme acculé se rétrécit
tous ces présages s’étanchent
et la goute d’eau est la forme informe
de tout son lever du jour



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Sobre Arquiteturas de Vento Frio, de Walther Moreira Santos




Por Germano Xavier


(Cepe, 2017)



Frio é o vento-nascente de dentro, aquele que aflora e deflora. Corta, afia, amola: lâmina invisível. Cultivo de bala é vento que mata sem dó de quem nestes pernambucos tão brasis. Fogo de dentro e também de fora. Chama acesa, labareda-de-meu-deus. Vem varrendo tudo! Vem que vem. Cada ser é uma correria humana. Ponta aguda contra o peito nosso de cada dia. Quão complexa é a vida! E quão simples ela é? Dá para se ter uma mínima noção do tamanho do estandarte que carregamos? Nossas alegrias parecem poemas cobertos com querosene. Podem servir para fogaréus.

Primeiro carro abre-alas: precisamos fugir para amar com amor o silêncio mais bruto. Segundo & rubro carro abre-alas: a cidade não para, a cidade só cresce, em nome de todas as mutilações possíveis e inimagináveis. Ela cresce. Cresce a mente de quem faz a cidade crescer? Andar é morte. Respirar é morte. Bocejar é morte. Sair é morte. Feriado é morte. Sumir é morte. O que é mesmo a vida, meu amigo? Por isso, a palavra? Ainda uma regra de três sem mote esgotado, a Palavra. Engenharia de quem é a caminhada para os ondes? Lugar bom é o peito de quem nos acolhe?

O "se" torna-se eterna ponte: arquitetura de vento frio. Dúvida X Pedagogia. Tão cedo tem sido a marca da imaturidade nas gentes. Pessoas cada vez mais sem. Faltando escolher o que abandonar, o que vale a pena carregar nas costas, os pesos tantos, o peso destes corpos desabitados e secos. Quem à margem insistirá em ir? Murmuremos, pois. Prolongados são os dias à espera do que nos convém. Rogar a quem quando teu é o reino funesto que encampas? Santíssimo, tende piedade de nós! Misericórdia, senhores da guerra! E que nos ensine o caminho onde o que mais nutre é palavra posta em papel nu, Senhor dos Universos!

Coragem não basta, nunca. Fazer manso não basta, sempre. Louvado seja aquele que renova suas manhãs no café bebido logo cedo. Punidos sejam os homens de igual tarde todo dia. Reinventar é preciso quando o buraco esconde o fosso-mor de nossas almas. Prolongar-se, tentar ser e ir mais adiante. Remanescer dentro de nossas gargantas gélidas como o branco do Ártico. Sobreviver aos ensaios de antropologia brasiliana dos agoras em agonia. Retesar a corda já rija. Fazer chover. Chuva de água morna. Sobre nossos pés. E viver, apesar.


Contos passionais



Por Germano Xavier



I

coragem não basta
e o manual do mundo se acerca
de mais páginas
por isso

não basta a música estrangeira
tocar onde ninguém mais te adentrou
a fome persiste no hospício
os pombos devoram as praças
teu sertão é maldição

dos deveres, o mais rude: Amar.



II

quem me impediu de ser
aquele que derrubava muros
para tocar teus ombros?



III

amanhã fará alguns anos
que nossas vergonhas
se beijaram



domingo, 13 de outubro de 2019

Sobre Miragem, de Socorro Nunes



Por Germano Xavier


(Cepe, 2015)


Quem é daqui sabe que o terreno é áspero, é rugoso, aberto em fendas. Quem é daqui sabe que planta morta, na verdade, é planta viva. Vivíssima. Sabe que o sertão é uma espécie de Deus, onipresente. Uma grande autoridade no meio do Tempo. Que o que se empurra para o passado é apenas um esboço do futuro, de um futuro que às vezes demora em chegar. Mais distantes dos olhos ficam os homens dos acolás, que nem suspeitam da beleza virginal das caatingas. Os homens dos acolás rodeiam o mundo de cá com seus olhos secos de amor e enxergam apenas o que esperam. E suas esperas são tão curtas que nem.

Sertão-nós.

Ser tão só e somente ser o verdume dos xiquexiques, extremo rompimento e sabedoria de convivência com tudo aquilo que há de mais amargo nas andanças nossas de cada dia. Senhor, imperai  por nós destinos mais azuis cor de céu chuvoso em cinzas líquidos! Somos criaturas pós-solares sem inverno de alma. Somos as alquimias torrenciais dos abraços calorosos. Caudalosa é a nossa matéria em humanidades. Miragem é só a revivente vontade de que se viceje o que não for de ordem efêmera e que seja, sim, perene, o ir: rio que desanda.

Titã desassombrado é o sertanejo. 

Cria resistente de uma Canudos que nunca se abandona, que nunca se retira, que jamais dá para trás. Conselheiro é Hércules do Sertão. Não morre a vida quando a morte é injusta, quando o abalo é sem sentido, quando a paisagem se desnuda em brotos de sangue nem quando o carcará plana sobre os cadáveres sem luta a mais, abatidos em chão silvestre. Quem é daqui sabe que umbuzeiro vivo é esperto a ponto de se permitir várias mortes, pra adoçar depois as fomes dos meninos e das meninas que correm léguas de brincar. Canudos não se rendeu nem vai.

Canudos resiste e ainda é o último sonho possível. 

Nada aqui neste regaço esturricado é noite vulgar. Guardamos a esperança em baús de enfrentamentos. Franzinos são os corpos, adamastores são as almas. Sertão é tormento só na cabeça dos homens de lá, dos de acolás, dos homens que não. Morre quem não se cansou de lutar, vive quem soube sobreviver. Por isso o gigantismo, a força descomunal, a saúde de cacto, todo um manual de como escapar. Por isso nossa severina sanha de querer lugar. Deus está aqui, conosco. Impávido. Colosso. Quem é daqui, sabe. Quem é daqui, sabe.


sábado, 12 de outubro de 2019

O homem encurralado (Parte XXIX - em francês)




Por Germano Xavier


(tradução livre)



Segunda-feira, 15 de julho de 2019
O homem encurralado (Parte XXIX)


L’homme acculé (Partie XXIX)


l’artiste à l’art impur
se voit limité,
il méprise la parole et marche uniquement
vers le profit.

il se vide d’humanité connaissant
son caractère primaire dont il ne doute point.

l’homme acculé est gratuit
et devient plastique.

il n’imagine même pas que l’essence de sa vie
est incompatible avec le statut de statue.

vu qu’il ne résiste pas
son corps prends la forme d’un non-corps-monde.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Sobre Corpo Púlpito, de Clarissa Figueirêdo



Por Germano Xavier


(Cepe, 2015)


Nossos corpos são púlpitos.

Nossos corpos são altares sobre toda uma iconoclastia de símbolos, maquinaria clandestina por onde suores se dissipam, corpo-ancestralidade. Corpo-representação do óbvio. Estantes para amparar estrelas. Voz-arcabouço de embates mil. Astro-rei. Corpo-espectro onde a luta é Sempre. Nossos corpos são teares, rodas que investem nos caminhos do prazer, novelos de espelhos que embotam a alma e outros elos. Nossos corpos cuidam girassóis e avenidas, e o instante é o vácuo aberto para aquilo que nos prendem.

Os corpos aprendem.

Corpo-púlpito, pólen de gentes. Néctar dos deuses. Todo um mar de sensações. O cômodo aquático. A cama perfeita para as vãs morfologias. Corpo-obra, talhado para cada beijo e cada amasso e cada esfregão e cada dorso em coito. Corpo-rio, cidade própria vultuosa, ilha amarga para fogos circunspectos. Nosso corpo é margem alegre para sonhos de mangue. Corpo-Recife, mar que arrebenta. Corpo-beat. Corpo-Pernambuco. 

Corpo é onde se nasce e se cria e se desenvolve e se cresce e onde se morre. Mãos, pernas, folhas, árvores, miragens. Miragens-dedos. Miragem. Corpo remanescente. Aurora boreal no sertão nordestino. Metrópole dos silêncios mais graves. Os sertões. 

A cartografia. 

Nossos corpos são carpintaria de ofício, vício-objeto. Navalha irascível. A deixa para o deixar-se. O poeta é quem abre o corpo, os corpos. O poeta é a víbora, que dilacera a pele ferida. Nosso corpo, nosso mundo, por onde vagamos. Mundo-nós. Cheios de nós, amarras, corpos de hormônio. Corpos com agrotóxico, conservados em água, vinagre e sal. Corp'orgânico.


domingo, 6 de outubro de 2019

Sobre Opusfabula, de Jonatas Onofre



Por Germano Xavier



(Cepe, 2015)



Portugueses em Igarassu. 

O Construtor constrói. A vida. A Boniteza. O Tudo. O Nada. No princípio, era o Vazio. Havia o silêncio. Havia o instante. O princípio mesmo. Uma árvore que estaria ali para ser frutificada, imersa no matagal das Coisas. Aí inventaram, de cara, a espada e a besta. Exalou-se uma amplidão perigosa por todos os muitos cantos. Foi preciso bússula. Começaram a andar de forma torta, os mistérios deixaram de ser resolvidos. Ninguém mais soube em que porta entrar. Todos os nomes se expandiram em místicos sinais. 

Andou-se no escuro.

Vestidos de sono, adentraram matas. Quem não acompanhou, ficou para trás, apagado na escuridão do caminho. Usaram a lâmina sangrenta como lume. Vestiram o futuro de dor, de lágrima, de choro, de lamentação. Índio dormiu quase-nada, quase-nunca. Aceso que nem fogueira, vigiou. Difícil lida. A grande Ausência vagueou. Vagabundos. Geraram amarras e gritos. Geraram prisões. A Linha do Equador não suportou o peso dos corpos. 

Rompeu-se. 

O oceano despenteou um mar de fomes, misérias. A Construção não cessava. Não cessaria, jamais. Era foice eterna. Cabeça nativa era a sede das guilhotinas. Ave Maria, cheia de Graça! O Senhor é convosco? Pernambuco penetrado. Dupla penetração. Gozo. Sagrado profanado. Portos singrados. A língua era a do mal. O entendimento era via única. Manipularam resultados. O exame deu um só: Corpo Morto. 

Embaraçoso. 

Emaranhou-se. Nau. Captura. Surpresa. Virgindades. Virilidades. Atrocidades. Mulher e cria em fuga. Tormento. A palavra, de que vale? De que vale um resto de linguagem? 

Máquina de escombros nascendo. Manjedoura.


O homem encurralado (Parte XXVIII - em francês)




Por Germano Xavier


"tradução livre"



Domingo, 7 de julho de 2019
O homem encurralado (Parte XXVIII)


L’homme acculé (Partie XXVIII)


la liberté est l’attente du néant,
mais l’homme acculé attend
tout ce qui empêche des fins innées
il attend, amer, la poitrine percée
soumis à la vile attente

| c’est son modèle de besoins définis |.

où ira-t-il, si emprisonné et pourtant libre,
quel sera son destin ?

(CONSEIL)

ne cherchez point,
n’attendez pas, ne souhaitez pas
et surtout n’adoptez pas le temps des choses

| la meilleure méthode |.

vivre est un jeu, une danse sans aucun but,
des gains fortuits, de la tautologie.

il ne faut surtout pas énumérer.
il s’agit juste de savoir compter (avec les doigts)
les rares journées vécues en dehors de soi-même.



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sobre Gris, de Cida Pedrosa




Por Germano Xavier


(CEPE, 2018)


A cidade cinza de Cida Pedrosa, em seu livro Gris, é a Recife que todos conhecem, não pelo nome, mas pelo seu rosto dúbio, tal qual as duas faces-lâminas do mar (ou do rio - ou dos rios | Capibaribe e Beberibe). Por falar nisso, eis aí uma particularidade da capital pernambucana por demais singular: revelar-se, de pronto, ao menor dos contatos. Recife é uma metrópole sem frescuras, sem firulas, que se abre logo de imediato ao passante e ao seu morador, demonstrando logo de cara quem é ou o que é. Cida Pedrosa, poeta de alma plural e em atitude célebre, coloca Recife em seus devidos lugares. 

Gris tem a delicadeza triste do menino que se perde no meio de um sinal de trânsito, numa atitude circense qualquer, e também a força opressora de uma felicidade de mangue, de quando o caranguejo rende mais que todo um sacrificante dia de trabalho. Gris tem a melancolia de um gozo interrompido por conta de uma batida policial na calada da noite. Surdina metodologia do caos é a poesia-Gris. Amarra, borra de café preto em copo descartável, em mãos perenes de mudar geografias. Gris é Caboclinho de Lança dançando Frevo no Shopping Center Boa Vista.

Gris é cinza de poesia metropolitana, com cheiro de esgoto a céu aberto. Ranço sem cura. Poesia comprometida com as forças menos homogêneas do poder, com as cores diversificadas das misérias humanas, com a ancestralidade da desigualdade de classes, com os lampejos de Amor que deambulam por entre os becos e as vielas da Veneza brasileira. Gris é ponte. Gris é também punhal: fere quem não crê que neste pequeno inferno chamado Recife não há espaço para o sonho. Não se enganem: em Gris há. Mesmo que o sonho capturado de dentro do Muribeca.

No meio do mundo de Recife um Grande-Olho orienta estados de paraíso. Um parco paraíso que atravessa o verde do canavial maldito das Matas, dribla as pedras do Agreste e tece um amparo sob o sol dos sertões do norte e sertões do sul. Recife é todo um Pernambuco. Gris, também. O jeito de olhar de um povo. Povo de mãos trabalhadeiras, que se recusam a desistir, que teimam em sorrir. Poesia imersa em jererês. Vida-toda-Vida. Privilégio.

Plenaberta é a obra que conforta o coração elucidando mazelas, esclarecendo podridões, fazendo remar a vela das barcas da Morte. Gris é o remo. Trata-se de um livro sobre dores severinas, sobre fomes cabralinas, sobre rumores osmanianos e ditos sol(a)nos. Pra abrir e pra fechar os poros. E bem que a gente sua lendo tanta cinzura, o olho esgarça. Cinzeiro é Gris. Recolhe as cinzas do homem daqui e dos de lá também. Foice afiada. Metal introduzido na carne viva. Josué de Castro redescoberto. Uma placa de "proibido  não viver neste local".


sábado, 28 de setembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXVII - em francês)




Por Germano Xavier



"tradução livre"



Domingo, 30 de junho de 2019
O homem encurralado (Parte XXVII)


L’homme acculé (Partie XXVII)


pendant qu’il regarde le monde
d’un coin, quelque part dans la ville
en avalant le désespoir d’un liquide en vrac
l’homme acculé écrit une esthétique totale,
intime et superficielle.

et pourtant,
peu à peu (à chaque gorgée),
l’angoisse inonde son âme,
inexplicable, ambigüe, contradictoire.

il ressent alors le manque d’un anesthésique,
c’est fascinant : la douleur précède sa chute.

car il ne connait pas l’oubli.
car il ne s’aveugle pas.
car ses goûts deviennent raffinés.
car il prévoit l’instant.
car la mort est juste à coté.
car les idées se succèdent sans cesse.

pendant que le monde bouge, fallait-il qu’il
soit un désastre ou les périls prévus,

et pourtant il continue sa marche sans s’émouvoir (alors qu’il devrait).


sábado, 21 de setembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXVI - em francês)



Por Germano Xavier


(tradução livre)



Sexta-feira, 14 de junho de 2019
O homem encurralado (Parte XXVI)


L’homme acculé (Partie XXVI)


l’homme acculé
est toute une métropole vaincue
qui ignore la force
et les contreparties du Moi

il ne sait pas
que la prise du pouvoir
par sa propre voix

| le grand tigre noir du prolétariat|

doit coïncider avec notre victoire à Nous tous

c’est lui qui va déclencher l’anéantissement du système
les graves amertumes de l’Être
les déboires du monde
la souffrance des foules

l’acide catastrophe des concessions
la transition mitigée entre l’oppression
et le rêve


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Sobre "Onde todo tempo é breve", de Sonia Marques




Por Germano Xavier


(Cepe, 2017)


Breve é querer ir onde já estamos. Mundo pequeno demais para anseios de se ir além. Além de quê? Para onde trilhamos? Para onde apontamos nossas proas? Remada fixa em prol do Nada é a Vida? Quem sabe se? Onde todo tempo é breve: alma descoberta. Alma desnuda. Mulher que se abre feito flor, repleta de espinhos, mas doce pois Teu é o reino. Palavras de quem já viveu de verdade. Coisa rara. Palavras de se aprender. De se ensinar. De se ensaiar, também. Uma mulher que se coloca diante dos quandos, das incertezas, das brevidades. Uma mulher que se eterniza nela mesma, em sua plena condição feminina. Extremamente.

Uma mulher e sua voz. Voz embargada, por vezes. Voz dialética. Voz de rio. Voz nativa de si. Águas fundas: Sonia Marques. Que enaltece a Palavra. Que respeita a Palavra. Que se entrincheira. Que sangra desatadamente. Mulher com roteiros prontos na cabeça. Cabeça de sair. Que além de escrever, diz. De ideias simbióticas. Com dores alarmantes, que nos machucam. Que nos apresentam o fosso, ou sua possibilidade escura, gélida, esquizofrênica. Uma mulher-cuidado.

Onde todo tempo é breve: Carpe diem. A fuga para. E depois a Trégua. As tréguas. As esperas bordadas sobre a superfície das faces. As coisas que fizemos que não voltaríamos a fazer jamais. Tudo o que vira apenas carnaval. Os meses de abril em Paris, a lâmina afiada para o próximo corte. O pulso pulsando. Corpo quente em alumbramentos. O descaso de se deixar-paixão. A boniteza que há também no sofrimento. Os poetas. Os poetas. Ah, os poetas! A lua em nós todos. A velhice chegada. Recorte novo para velhas horas. A fruta estranha que brota no asfalto. A grande náusea. 

Suspeitas tantas e tantas outras crises. Medos e devaneios. Os equívocos dos emboras. A expertise. Visão horizontal. A ponta da agulha que é a ponta da escolha. Via Crucis: nascimento. queda. operância. visagem. mácula. castigo. redenção... Mulher de tantas estações em poemas compostos de circunstâncias e de exatidões terríveis. O vazio que também é virtude. O saber ser evidência, fazer barulho, manter a calma mesmo diante dos truques, dos mistérios, das palavras já ditas, das encruzilhadas do outono, da morte. Mesmo diante da vida.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

O homem encurralado (Parte XXV - em francês)




Por Germano Xavier


"tradução livre"



Sábado, 1 de junho de 2019
O homem encurralado (Parte XXV)


L’homme acculé (Partie XXV)


voilà pourquoi une force exceptionnelle
fait en sorte que les pieds fatigués identifient
des hésitations flottantes et des chagrins journaliers

moi je trouve que le vieux que l’on est
est l’image perdue des parfois
le déguisement d’étique incorruptible

celle qui défend les cependants
est l’homme lui-même
acculé dans uns scène de crime

il est physiquement fragile
et flâne par la route
et flirte avec le goût des quands :

c’est la géographie entière de plusieurs milliers