quinta-feira, 26 de março de 2015

O infausto poema

*
Por Germano Xavier

essas estradas aziagas
de azar os passos lassos pés
de pegada a ir do meu rosto
ao céu-rememorado num firmamento
sem firmamento

a morte num lento carro-de-boi
a morte num rápido móvel transmoderno
a morte no sent(ir) de paradeiro
na estagnação viva

imprimo à opereta todo o deleite:
quanto mais dor, mais amor?

(Oh, incorrigível lei dos imbecis!)

dentro do meu rumo a figura dos seus lábios está imersa
como uma água de barro em breve ARTE
você: a imperatriz dos sonhos amargos!

e agora o recheio:
ERA UMA VEZ UMA FADA MUITO BONITA QUE AMALDIÇOOU UM CAÇADOR...
E PARA SEMPRE O CAÇADOR A AMOU.

embalaram a novidade imagético-sensorial numa caixa de bombons
o doce artificial dos dias entrado garganta adentro
paranoia com glúten é o amor

infeliz menina tão inteligentemente linda
eu-atirador de facas sem acertar o alvo
sem construir feridas com você
sem fazer cortes para nunca-suturas

faltou o umectante? o estabilizante?
o regulador de acidez? o aromatizante? o emulsificante?
diz-me, amor, o que faltou desta vez?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-caminho-113386786

segunda-feira, 23 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XVII)

*
poema para a mulher da valsa lunática

Por Germano Xavier

em litros bêbado
resolvido na homenagem:
ao amor que não pode ser!

fui chorar na casa da amiga (tarde)
percurso de bicicleta

(noite) aceitei convite de amigo judeu
por detrás do Centro de Convenções

A FESTA

logo duas moças aparecem distorcidas
amigas do meu amigo em bandeirolas
ficaram ali esperando ação

tocaram a valsa lunática
curvei pescoço em pescoço alheio
- gingado de perdição

fizemos sequências de paixão
até o coração adormecer

dois estranhos ampliando estômagos


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Roads-134676803

domingo, 22 de março de 2015

A via dos vãos

*
Por Germano Xavier

o propósito do hoje
é levar o ciclo funcional dos comos
para o querer sentido e feito

fazer envolve recurso lexical
carece de suor de pele real
contraria falácias de alma
e equivale ao apesar de não
parecer poder

ao dizer que se aplicará pressão
na panturilha-músculo do andar
o encontro vira prática manuscrita
ganha cor de tinta e sagra-se modelo

a história confirma
o amanhã não tem propósito algum
a não ser o de iludir chamados
para novas ambições


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Fade-493486615

sexta-feira, 20 de março de 2015

A gordura do dia

*
Por Germano Xavier

a gordura do dia em amanhecer
a fibra da hora em vozear-nos
a nobre semente do corpo
em bêbada clausura

(validações)

o saguão que acorda pontualmente
o homem que irá reduzir o valor da vida
até o homem que irá lançar mão das cores
- alimentícias

rumores pelo corredor invocam o pensamento
e é tão simples o mecanismo de criar você
- ingrediente integral 

para além da elaboração e da conserva
o método de nutrir o coração com seus sais
me garante uma manhã saudável na distância

o exercício de controle da dor traça o sabor
proibições geográficas aceleram meus passos


* Imagem: "Poema de hotel", de Germano Xavier. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte X)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


quarta-feira, 11/02/15
A perder de vista

Perdre de vue

te perdre de vue
perdre la vue
ignorer la monnaie de l’Amour

perdre la trace
de la force déposée dans les mains
qui te tirent et te forcent à rentrer
de peur de se perdre à jamais

perdre du temps
nous deux, en revue, l’horizon opaque
un regard de lunette qui perce le béton
inexact

à perdre la raison
j’inaugure
le vieux sentiment
de quand le cœur résonnait sans musique
et qu’il ne traduisait que solitude


*  Imagem: http://www.deviantart.com/art/olhar-102545420.

segunda-feira, 16 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XVI)

*
poema para a mulher que nunca existiu

Por Germano Xavier

havia a medição
a diferença o valor a pagar
a data a taxa o processo
a conversão o cálculo
o metro e a dúvida

de resto
faltava você


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Holga-Blossoms-Bromoil-52489772

domingo, 15 de março de 2015

O gradil

*
Por Germano Xavier

partir da imagem de limite e ser
ilimitável âncora pesada a burlar
a semântica do ferro na costura
dos cercados

imitar a forma pontiaguda
do aramado (impedimento) e impedir
a renascença dos alambrados

devolver ao muro
o som do pulo em sanha
a roupa do rosto feliz
a proteção pelas insânias

ser a amarração do vento
fabricado pelos braços:
a propriedade do voo


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Net-496968229

sábado, 14 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XV)

*
poema para a mulher da noite perigosa

Por Germano Xavier

foram 475 quilômetros
numa four stroke até chegar
em sua boca de latitude grossa
em sua mão aquática e desconhecida
em sua rudeza infame e saborosa
a clamar pelo combate

cantava sob o capacete
a canção de um outro amor
para diminuir a vastidão das retas
cheias de sol

pelo retrovisor eu via
o verde se emparelhar como uma mancha
ao torpor de todas as solidões

e ao cruzar a curva do fim
certo de ter vindo buscar em ti
o mapa do lugar que ainda irei



* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Chasing-Clouds-376920242

sexta-feira, 13 de março de 2015

A palavra dentro

*
"Mas o trem de casas-vagões
passa ou é passado por?
como poder distinguir
do passado o passador?"

João Cabral de Melo Neto, no livro Quaderna.

Por Germano Xavier


por dentro de você
a que habita a madrugada fria
por dentro de seus dentros
tremor ao calor das horas mornas
por dentro daquele corpo que se esquiva
a imensa estrada sem desvio
por dentro da imagem no espelho
o riso o choro a chama a pele em fogo
por dentro do subterrâneo coração
as imprevistas vistas de horror
por dentro das partes que invadem
o sexo das memórias sem volta
por dentro da jugular que estanca
o sangue dos dias esquecíveis
por dentro dessas vagas na alma
a mentira diária no silêncio
por dentro desse passado arredio
o futuro sem nódoas
por dentro de seus olhos
a pessoa aberta em obra falível
por dentro de suas bocas
a recomendação das manhas
por dentro do moinho da mente
a vontade de elevar e subtrair
por dentro dessa saudade louca
a rua por detrás da sua


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Reflection-512586924

quinta-feira, 12 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XIV)

*
Por Germano Xavier

poema para a mulher das saias coloridas

havia o velho navio
ancorado sobre o asfalto

atrás de nós dois
um rio cheio de sol

naquele tempo presente
o desejo mais latente
esbarraria na amurada dos olhos

e foi assim que essa lenda
- a do amor apenas quisto -
dobrou os órgãos do sertão
e metaforizou-se em castigo


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/icy-151827048

quarta-feira, 11 de março de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte IX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


sexta-feira, 06/02/15
A aquarela do instante

L’aquarelle de l’instant

ton absence
que je creuse en me dévoilant
que je retrouve alors que je me renvoie moi-même
est tellement rouge, tu sais ?

tes arrivées, presque des apparitions
ne font qu’accentuer le brouillard dehors
tellement elles sont grises…

si tu voudrais me tuer
tu maîtrises tous les secrets pour m’égorger
insinués dans les habits gelés du froid

dans mon corps, un soleil brûle
emprisonné dans une geôle, mon coeur
tout en noir & blanc

si tu voudrais échanger cette douleur philosophique
abritée en moi par peur et par pitié
sous ton sourire fuyant

en couleurs dans la bavure de cette noirceur
qui me retient en vain
tu serais la, par gentillesse, par envie
tu serais dans l’inabordable aquarelle
de cet instant


* Imagem:  http://chuchy5.deviantart.com/art/Digital-Painting-Endangered-Passions-513441216

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XIV)

*
Por Germano Xavier


SER TÃO AVOADOR

SER TÃO AVOADOR (2013), curta do diretor e colega de jornalismo da UNEB Wllyssys Wolfgang, reelabora o mitológico sonho de Ícaro dentro de uma realidade sertaneja, tendo como pano de fundo o árido/semiárido do nordeste brasileiro. Em tons dramáticos, a personagem Mariinha rompe o silêncio desatado numa morte-em-vida aparentemente consolidada pelas circunstâncias e faz de tudo para conhecer de perto seu maior sonho: voar. Mariinha é, por sua vez, a voz feminina esganada pela doença dos homens sem-alma. Temas como machismo, autoritarismo e pobreza também encaminham a narrativa para um resultado artístico bastante seguro. Recomendo a todos os mortais!


A CASA DOS SONHOS

O filme A CASA DOS SONHOS (2011) dirigido por Jim Sheridan, é uma produção um tanto que esquisita, o filme parece que ficou sem alguma parte. Portanto, incompleto. A conclusão é também esquisita. O filme termina ali por volta dos 80 minutos de duração. Tinha tudo para ser interessante, mas é confuso e indefinido. Poucas coisas se salvam. Os velhos clichês presentes nos filmes de suspense estão vivos. Há quem tenha gostado. Eu não gostei. Sigamos, bucaneiros!


HANCOCK

Eu bem que tentei, mas não consegui chegar ao final de HANCOCK (2008), dirigido por Peter Berg. Oxalá numa próxima tentativa!


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU! (PARTE II)

Um filme que já virou cult, uma comédia sem parentesco. Nonsense puro. É para rir de verdade, de tudo e a todo instante. Tudo até que ia bem dentro do primeiro ônibus espacial de passageiros a tentar chegar ao solo lunar, até que eles descobrem que estão sem café. Vale uma espiadela no filme APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU - PARTE II (1982), de Ken Finkleman, bucaneiros!


O ORFANATO

O ORFANATO (2007), dirigido por Juan Antonio Bayona, cumpre bem sua missão. Um típico filme com os toques fantásticos de Guillermo del Toro, de trama bem acertada e com nuances de suspense na medida ideal. Representou a Espanha no Oscar 2008 para melhor filme estrangeiro. Com Edgar Vivar no elenco - sim, ele mesmo, o Sr. Barriga do seriado Chaves. Recomendo a todos os mortais!


O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

Eu não vou dizer que O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (2014), de Wes Anderson, é um filme incrível, mas não vou dizer, também, que é um filme sem seus vários méritos. A história é fantástica, a fotografia belíssima e o ritmo da narrativa chega a ser alucinante. Todavia, pareceu-me um tanto confuso e necessitado de alguma pausa compreensiva. Há de se convir que eu estava super cansado quando fui assisti-lo, sem tanta paciência. O filme conta a história sem igual da amizade entre um gerente de um grande hotel europeu e um empregado. Mas não é só isso. Há muita coisa por detrás da aparente e até ingênua comédia, além de um vasto elenco de renomados do cinema norte-americano. Eu esperava mais do filme, confesso. Um dia pretendo revê-lo. Mesmo assim, recomendo a todos os mortais!


12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (2013), dirigido por Steve McQueen, foca as câmeras em Solomon Northup, escravo liberto que, sequestrado quando em outra cidade, revive as dores e amarguras impostas pelo então regime escravagista vigente em solo norte-americano. Tal personagem, ao contrário de muitos filmes de mesma temática, é dotado de uma brutal humanidade - longe daqueles personagens de tons exageradamente heroicos -, fator que o faz atravessar constantes dilemas no interior das circunstâncias de vida a ele impostas, assim como para os outros escravos com os quais convive. A película impacta e faz jus a todas as condecorações que recebeu da crítica especializada. Ao fim, ainda nos oferece um nó bem dado na garganta. Recomendo a todos os mortais!


O VELHO E O MAR

O VELHO E O MAR (1958), dirigido por John Sturges, é um filme baseado no clássico homônimo da literatura escrito por Ernest Hemingway, um dos ícones da Geração Perdida. O filme, assim como o livro, conta a saga do velho Santiago, um pescador em fim de carreira, mas de "olhos indomáveis", que não desiste de ir pescar, mesmo tendo passado meses sem conseguir fisgar um peixe sequer. Neste emaranhado, é relatada a história de amor entre o velho e um menino que o ajuda na lida do mar, assim como interessantes reflexões do velho quando, enfim, consegue capturar um enorme peixe que precisa ser levado para a praia onde mora. É uma história simples e belíssima. Merece ser vista e lida várias vezes, por todos nós, mortais bucaneiros. Recomendo!


A CHAVE MESTRA

A CHAVE MESTRA (2005), de Iain Softley, é um filmezinho meia-boca de suspense. Só isso. Vai encarar?


AMARCORD

Só agora pude ver AMARCORD (1973), do diretor Federico Fellini, uma película emblemática e por demais autêntica. Fellini, no filme, faz um esforço de rememoração frente ao seu próprio passado e, também, ao passado da Itália. Para isso, suas câmeras exercitam uma "análise" acerca de diversas figuras de um pequeno lugarejo, assim como de suas condutas, um tanto quanto insólitas e até caricaturais. Um clássico da cinematografia mundial que trata a passagem do tempo com suas potencialidades de alegria e tristeza, num giro que atravessa a vida humana como uma flecha a penetrar as quatro estações. Com cores de crítica ao momento político de guerra retratado na obra, e aí entra toda a questão do Fascismo de Mussolini e a incapacidade da população de entender o real momento de seu país, fato tratado com sagaz ironia no longa-metragem, Fellini mostra-se, novamente, grande e genial. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem:  http://veja.abril.com.br/blog/cenas-urbanas/tag/cinema/

O tempo regulamentar

*
Por Germano Xavier

Perto do fim, como quem sabe que o tempo regulamentar da primeira etapa da partida irá acabar, o homem que ama seguirá amando, mesmo sabendo que o árbitro do jogo da vida poderá soprar o apito a qualquer momento e fazer com que todos adentrem o austero silêncio dos mornos intervalos. Próximo ao fim, como quem espera a hora certa de atacar, o homem que ama persistirá no amor, mesmo suspeitando de todas as dificuldades, de todas as barreiras e de todos os lances desleais que o jogo da vida poderá impor aos jogadores.

Muito perto do fim, como quem sabe que o contra-ataque pode ser o segredo para a vitória, o homem que ama partirá em disparada para lugar qualquer onde exista, dentro dos quatro cantos da sagrada arena, a possibilidade do gol de placa, aquele mais belo tento já feito por uma pessoa, inesquecível, imorredouro. Perto, muito perto do tempo limite se esgotar, como quem planeja o gol do título para os derradeiros minutos da segunda etapa do dérbi, o homem que ama abraçará sua fé e teimará a imprimir força em seus pés-coração, suspenderá a dor de estar já sem fôlego e forçará sua última jogada.

Quase finalizado o tempo, como quem conhece a largura das traves, o homem que ama chutará para longe o raciocínio lógico que lhe escreve palavras de triste final que nublam sua alma e recomeçará os planos de defesa. Longe do início do mais importante dos clássicos, como quem infere as artimanhas do adversário, o homem que ama alicerçará táticas indestrutíveis e convocará a voz imperiosa da torcida a inflamar o gramado em holofotes. Quase lá, como a querer um momento de descanso após luta intensa no estádio, o homem que ama respirará a vontade do outro e se espelhará no amanhã que nunca morre.

Vislumbrando a travessia temporal, após o apagão que deixara as arquibancadas no breu do desconhecimento e do distanciamento, o homem que ama erguerá suas pálpebras morgadas pelos dias sem brilho e fustigará a visão dos noturnos instantes abertos nos clarões. A esperar o desfecho, antes de o árbitro decidir pela pequena paralisação, o homem que ama empoderar-se-á, armar-se-á e irá ao encontro do amor de sua vida: o gol que ainda não aconteceu, unido à sensação de glória ao ver a pelota couraça estufar as brancas redes do arqueiro rival.

Sob os auspícios dos letais ponteiros, como a prever as agruras de uma impiedosa derrota, o homem que ama abominará o pensamento que fraqueja e criará uma redoma protetora para o sentimento que carrega dentro do peito, um amor de tanto amor e amor e amor e tanto. E vendo o juiz a içar suas mãos ao centro do gramado, sereno em ser o que se é sem aceitar direito o transcorrer das jogadas mais circunstanciais, o homem que ama não permitirá dar-se tal ente vencido pois, para ele em sempres, aquela partida jamais haveria de terminar um dia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Soccer-Ball-115201854

quarta-feira, 4 de março de 2015

Flor embalsamada

*
Por Germano Xavier

para embalsamar uma flor
e não correr o risco de perder
a memória de suas pétalas - ou risos -,
deixemos que o silêncio a espere
(ser de novo olor sempre-nascente)
em tempo inteiro e eterno

amanheçamos de corpo fechado
para as desaromatizadas horas
num exercício de exalar-se

(labirinto e compreensão)

amanhã,
quando ela perder água e enfraquecer-se
em cheiro, ao sol ou dentro de um livro,
que um beijo em sua seda natural
imortalize o que é essência

(o perfume da cor a mente conserva)


* Imagem:  http://anurbs12.blogspot.com.br/2012/04/mulher-no-romantismo.html

domingo, 1 de março de 2015

Felicidade pueril

*
Por Germano Xavier

eu tive uma coleção de embalagens vazias de xampu
eu tive um cheiro de suor que exalava aventura
eu tive uma coca de dois litros cheia de bolinhas de gude
eu tive uma bolinha de gude que era de metal
eu tive um short branco que ficou da cor da cera líquida que usavam para encerar o chão
eu tive um passarinho que voou de minhas mãos
eu tive uma coragem insólita para superar alturas
eu tive um reino particular no quintal
eu tive uma rede rodoviária inteira para se gastar joelhos empurrando carrinhos de plástico
eu tive uma bola nova que murchou após o primeiro baba
eu tive uma unha que caiu de tanto jogar descalço na rua
eu tive uma bicicleta para fugir de casa
eu tive uma pipa de grandes centímetros de rabiola
eu tive uma amiga para brincar brincadeiras de menino
eu tive um amigo para brincar brincadeiras de menino
eu tive um céu que me presenteava estrelas
eu tive uma noite sem dor no coração
eu tive uma tarde repleta de gibis
eu tive uma manhã que atravessei em sonhos
eu tive um irmão para brigar pelo resultado da última rodada
eu tive uma mãe para reduzir horários
eu tive um pai para me chamar do portão
eu tive um tempo sem tempo para o tempo
eu tive uma paixão ingênua pelo meu Daimon
eu tive um universo divino ativado com o abrir dos olhos
eu tive um medo danado de fechar os olhos


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Fragile-steps-304666928

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte VIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


quarta-feira, 04/02/15
As árvores amorosas (parte XI)

Les arbres amoureux (partie XI)

Poème dédié à la femme de l’île de l’Amour

Je veux juste garder le souvenir
de ce ciel violet
que nous avons vu arriver
dans un étrange état
le premier jour du voyage

Je veux garder notre intimité
avec les diamants et les draps
la promenade par les rivières et les monts

Je veux juste être proche
du moment des retrouvailles
sans vouloir analyser le vent ni le temps
avec mes faims et mes soifs insatiables

Je veux juste oublier
ce qui nous a éloignés l’un de l’autre
au fil des après-midis grisâtres
sans départ ni destin
en regardant des navires qui chavirent

Je veux juste effacer
tes étreintes matinales, je ne veux plus les voir
dans le futur
je ne veux plus de tes baisers cruels
qui dessinent des poignés
et inondent les toiles illimitées


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Meeting-the-spring-morning-sun-425807366

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ler para ser

*
Por Germano Xavier

“A dialética é, enfim, a lei fundamental do ser.”
(Maurice Merleau-Ponty)

Em seu livro O ATO DE LER (FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS PARA UMA NOVA PEDAGOGIA DA LEITURA), Ezequiel Theodoro da Silva esboça uma severa crítica ao método usado na formação atual do aluno-leitor e reforça a ideia de que o ensino da leitura não está restrito apenas ao momento da alfabetização. Para o pesquisador, ler não pode ser apenas a decifração do código linguístico e os aspectos teóricos e práticos da leitura deveriam ser tratados, pois, em quaisquer cursos de preparação de professores, de forma indistinta. 

Ler é, também, um ágil modo para refletir e transformar. Partindo de tal premissa, Ezequiel critica a política do “deixa como está para ver como é que fica”, que povoa o ambiente educacional de vários territórios do mundo. Para ele, a leitura encontra-se demasiado prejudicada, também, pelo advento das tecnologias de massa. E tal cenário é ainda mais desanimador quando se possui uma tradição de leitura elitista, como é o caso do Brasil.

Para reverter o preocupante panorama, a boa educação deveria apontar para o significado e para a referência. A expressão escrita, para Ezequiel, apresenta-se como a maneira mais prática para a promoção e circulação do conhecimento. O leitor lê aquilo que quer, é livre. As vantagens da informação escrita, pois, são ilimitadas. Ler não é mera deglutição. Ler é realmente participar mais crítica e ativamente da comunicação humana. 

O livro sempre reflete o humano. Comunicação não é apenas falar e escrever (emissão), mas também ouvir e ler (recepção). Para o caso brasileiro, as “lições” da leitura são: 

1) Leitura é essencial à vida e a qualquer área do conhecimento; 

2) Leitura é igual a sucesso acadêmico e diferente de evasão escolar; 

3) Leitura é o principal instrumento para a prática; 

4) Aprender a ler é reduzir a alienação e a massificação; 

5) A leitura parece ser o único meio de desenvolver a originalidade e autenticidade dos seres que aprendem. 

Ler é, antes de tudo, compreender. Compreender é ser. Os três propósitos fundamentais da leitura são: Compreender a mensagem; Compreender-se na mensagem e Compreender-se mensagem. Ezequiel abre espaço em seu livro para criticar a escassez de projetos de pesquisa desenvolvidos no Brasil acerca dessa temática. A leitura é essencialmente humana. Para tal, uma abordagem fenomenológica seria o melhor caminho. O fenômeno é logos, uso da intuição. A linguagem manifesta o ser relacional do homem. A evolução da fala. O código escrito transforma a estrutura da existência – o homem passa de ouvinte a leitor. Ek-sistere: abertura ao outro. Compreender e simbolizar: existir. Ao ler, estamos descontextualizando e recontextualizando. 

Estamos existindo, ao máximo.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Reading-59875697

Do ensinar à ensinagem

**
PIMENTA, S.G. & ANASTASIOU, L.G.C. Do ensinar à ensinagem. In: Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.

Por Germano Xavier*

O texto em discussão traz em sua introdução uma perspectiva histórica sobre a didática comeniana e a predominância do ensinar sobre o aprender. Em tempos mais recentes, esta predominância e centralidade foi transferida ao ser que aprende, perspectiva fortemente influenciada pelo pensamento de Rousseau e desenvolvida pela Escola Nova. Nessa abordagem, leva-se em consideração a criança como sujeito que aprende, valorizando desta forma os interesses e motivações da mesma.

A partir desse contexto, a autora apresenta-nos a importância de adquirirmos o entendimento da natureza do ensinar, para a superação do falso dilema que se estabelece entre ensinar ou aprender. Portanto, apresenta-nos a ensinagem que, para a mesma, comporta em si a superação dessa falsa dicotomia. Ao discutirmos a docência universitária, a autora coloca como ponto importante "a necessidade de compreender o funcionamento do ensino, fenômeno complexo e em situação, suas funções sociais, suas implicações estruturais, e do ensinar como prática social". (PIMENTA, 2002, p. 204)

No contexto da prática social, centraliza-se o olhar sobre o ensino e a aprendizagem, sobretudo, nos processos de ensino em cursos universitários, onde não passam de reproduções, aulas expositivas onde apenas o professor fala. Neste sentido, o conceito de ensinar desconsidera todos os elementos essenciais do processo de aprendizagem em questão.

A docência não pode ser compreendida como sendo apenas um ato de ministrar aulas, visto que tal conceito vai além. A docência no ensino superior requer uma atenção especial às necessidades dos discentes, para nortear a sua "prática" no processo de ensino-aprendizagem, pois o papel do docente é fundamental e não pode ser descartado como elemento facilitador, orientador e incentivador da aprendizagem. Deste modo, na ensinagem, a ação de ensinar é defendida na relação com a ação de aprender, pois, para além da meta que revela a intencionalidade, o ensino desencadeia necessariamente a ação de aprender. 

O processo de ensinagem parte do pressuposto de que é, ele, antes de qualquer conceituação, um exercício de compartilhamento, de convívio e de diálogo entre as partes que compõem o jogo educativo, a citar primordialmente o professor e o aluno. Neste entrelaçado, o conhecimento se acerca de buscas em torno de mobilizações, construções e elaborações sintéticas.

Quanto ao que concerne acerca do tópico "mobilização para o conhecimento", como assim se referiu Vasconcellos (1995), cabe ao professor procurar formas de atrair o seu aluno até a mais próxima face do saber que porventura esteja em destaque. Para que isso ocorra, há de existir vontade e interesse de ambos os lados. A promoção da relação do aluno para com o objeto de estudo é o desafio maior desta etapa.

No que tange à "construção do conheciemento", a prática analítica do aluno em relação ao objeto de estudo faz-se aqui de alvo máximo. Aqui, o aluno, com apoio total de seu orientador, debruça-se no corpo do saber e alicerça seus tijolos de síntese e de visões de futuro. É o momento do aluno ativo e do professor operante. Para tal relação acontecer de forma harmônica, cumpre observar os passos da Significação, Problematização, da Práxis, da Criticidade, da Continuidade, da Historicidade e da Totalidade, cada qual com suas prerrogativas e dinâmicas.

Sobre a "elaboração da síntese do conhecimento", último tópico que compõe o processo de ensinagem de acordo com Pimenta (2002), o aluno caminha ao lado do professor e já esboça o que podemos chamar de consolidação de conceitos, sabedor de que tais conceitos devem ser vistos como entidades mutáveis, pelo simples fato de que nunca deixamos de aprender coisas novas e que, por conseguinte, a qualquer momento podemos adentrar por novas mutações de base ideária.

O processo de ensinagem é uma busca mútua, professor e aluno na direção de um só objetivo, as duas figuras marcando territórios e superando obstáculos que podem, com certa facilidade, impedir o livre curso das formações de saber. Ensinagem, pois, é compromisso com o que vai além do necessário dentro dos universos do conhecimento. Destarte, ensinagem é também uma espécie de amor, ou de amar, na acepção mais justa e bonita possível.


* Texto escrito em parceria com Dayse, Denise, Débora, Edjane, Elizabeth, Hugo e Noêmia, colegas de pós-graduação em Ensino de Lingua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru - FAFICA.

** Imagem: https://whatsonmyblackboard.wordpress.com/

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Pescoço

*
Por Germano Xavier

o pescoço preso para frente
ave do depois e do orgulho
que teme o passado professor

o pescoço parado no corpo
que não leu o desejo de girar
para o lado planeta da paixão

o pescoço mudo como antena de som
morno o passo sob a dor do apego
a distância dos longes no passo curto

o pescoço da mulher sem homem
em despedir-se a não pedir perdão
avestruz alvoroçada sem sair do chão

o pescoço do homem sem mulher
a colher a marca da língua presa
em postes sem luz e valas fétidas

(o pescoço poda a produção se sai
do ventre da mente do coração
da magia dos cavalos silvestres?)

o pescoço a parir maus-tratos
os pratos à pia na espera-lixo
da noite sozinha com café

o pescoço que não disse palavra
na hora triste na hora melancólica
do crasso erro que separa amor

o pescoço que só quis saber de si
que só viu umbigo com calendário
de dor de choro de lágrima de arrebol


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/To-Jump-Or-Not-To-Jump-435446357

As árvores amorosas (Parte XIII)

*
poema para a mulher do bairro da escola

Por Germano Xavier


quando eu sentar (sem o corpo)
na varanda da casa pequena,
no plano do baixio terreno
de minha morte,

e quando eu fingir que ainda posso
lembrar de nossos instantes de televisão
adornados pela tripla pilha de livros
sobre a mesa ao lado da cama,

com a face farei
um trejeito medonho, típico
dos homens que se perderam em vida 


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/M-M-love-VI-tree-70029289

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ele ouviu Mozart para morrer

*

Por Germano Xavier

para Aurora Bernárdez e Julio Cortázar

libertas linhas vozeadas ao caminho
da dor que é perto,
da bruta dor que é longe
daqui e Aurora com ouvidos
para o pedido do menino que a amava.

“o Concerto para Clarinete em Lá Maior”
meu amor - segundo movimento -,
era um Mozart para a hora implacável.

imaginar que no quarto haveria,
a conduzi-lo em chegadas, um retrato dos dois
numa avenida parisiense em manhã outonal.

o som insano do verso musical
sem palavra para um homem de gatos pretos:

- Maga, você chegou?


* Imagem:  http://adligmary.blogspot.com.br/2014_08_01_archive.html