sexta-feira, 17 de junho de 2016

Onde o mar bate e canta

*

Por Germano Xavier



Possibilidades

após a porta
fechadura em giros
ser é o que mais dói


Ao poeta

o poeta há de convir
que quando tudo lhe convier
nada há de convir


Signos

espere!
pode ser que o mar
esteja para peixes


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/ocean-17242406

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nós, professores de espantos

*

Por Germano Xavier


em especial, para os professores Dr. Elcy Luiz da Cruz e Dra. Graça Graúna

Somos professores porque tememos esta grande abertura para o nada que nos assola cotidianamente. Somos professores porque o conhecimento é uma arma letal contra todos os desmandos da humanidade. Somos professores porque há pobreza, há fome, há desamor, há desigualdade. Somos professores porque existe intolerância e porque existe preconceito. Somos professores porque a palavra é alimento. Somos professores porque quase ninguém fará nada por nós. Somos professores porque a poesia de um olhar ou de um sorriso explica tudo. Somos professores porque pretendemos transformar pessoas e aproximar sonhos. Somos professores porque não desistimos do amanhã. Somos professores porque a educação é a água viva. Somos professores porque esperamos ver chegar a primavera do saber para todos. Somos professores porque há um esquema venenoso e fraudulento que dificulta nossas ações. Somos professores porque somos menos se não formos. Somos professores porque é preciso causar espantos. Somos professores porque o mundo é um moinho e suas pás nos cortam. Somos professores porque as horas passam e o trem pode sempre descarrilar. Somos professores porque toda estrada é bifurcada. Somos professores porque somos a contramão da engrenagem do mal. Somos professores porque possuímos coragem. Somos professores porque panfletamos a justiça dentro e fora de nossas salas de aula. Somos professores porque manifestamos insatisfação pelo que nos oprime. Somos professores porque o livro é o livre-arbítrio. Somos professores porque a arte amolece corações petrificados. Somos professores porque a história não é a que sempre nos contam. Somos professores porque estamos abandonados às margens de nós mesmos. Somos professores porque um dia todas as máscaras cairão. Somos professores porque o ódio não vencerá. Somos professores porque há muita coisa por criar. Somos professores porque dentro de nós uma alma pulsa. Somos professores porque ser livre é um bem universal. Somos professores porque lutamos contra qualquer forma de repressão. Somos professores porque precisamos ser professores. Somos professores porque não gostamos de nos calar. Somos professores porque a vida é uma escola. Somos professores porque não desejamos a escuridão a ninguém. Somos professores porque preferimos o clarão!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Velvet-Crime-519138024

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O amor aqui

*

Por Germano Xavier


o amor aqui
É TÃO PLÁSTICO
tão elástico
modulado
emoldurado
e classificado
como frágil
e enviado
ao remetente
previamente
selecionado
em concurso
irrepreensível

o amor aqui
escapa à natural ironia
de ser imprevisível

tem de ser
captado
quitado
convencionado
medido
(custo-benefício paga o investimento?)

o amor aqui
acessório principal
para o enredo
da vida social
precisa combinar
com os demais acessórios
o status
o degrau
a escada
a camada
a fachada

a vitrine completíssima
faz estalar
a boca do estômago

O AMOR AQUI
artigo para compor
a vida social
material
matrimonial
maternal
paternal
bestial/religiosa
o escambau
de quatro

é preciso avaliar

o suspensório
o salário
o obituário
o fraldário
tudo tem que combinar
com a real fantasia
da vida real encenada
por bonecos de pilha
humanos



PS. falta amor em São Paulo,
falta amor em Natal, falta amor nas Minas,
falta amor nos quatro cantos dos Pernambucos
aquele gratuito e silencioso
soturno e poético
como gato
como cacto
como pássaro
como água

leve como nuvens novas
livre como o vento sul
forte como a palavra
amor
escrita no tempo


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Oracle-589547015

Onde melhor existo

*

Por Germano Xavier


se são minutos, horas ou segundos
esporádicos, o tempo que ocupo
teus pensamentos,
não importa, se relâmpagos ou eclipses.
se relances quase imperceptíveis,
incapazes de alterar tua órbita.

não importa se me pensas distraidamente
no espaço entre o farfalhar de uma página,
mudando para a outra e a visão de uma
nuvem se formando. não importa se me percebes somente
quando vês uma figura extremamente triste
nas ruas ou nas telas (ou no espelho).

não importa se existo apenas quando chove
ou quando se faz penumbra ou quando a vida real
silencia e encerra o teu dia.
ou quando se questiona
sobre a inconsistência de tudo
e a persistência do mal
no mundo.

não importa,

nesses clarões, em que me conduzes ao teu olhar de alma,
é onde mais estou vivo e onde melhor existo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/One-by-one-602636830

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Não estamos

*

Por Germano Xavier



você percebeu, amor?
não estamos nos mapas,
estamos no limbo.

somos as páginas subtraídas do romance
do excêntrico e genial escritor,
que já estava cansado demais
para nos acomodar no enredo.

percebeu que não temos
lugar?

percorremos as estradas perdidas dos monstros de bom coração,
que assinalaram o deserto com descobertas alucinantes.
//no final, tinha dor e teimosia avulsa. e ainda andamos em busca
de outros finais, infinitamente, começando até chegar//

então, ficamos assim:

ardemos em congelantes faltas.
o frio vem e nos assimila a distância.
a catástrofe faz-se amiga e retaguarda de nossos paraísos.
morremos em comemoração por sermos capazes.

de morrer juntos.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Through-these-eyes-597966807

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Por um café a mais

*

Por Germano Xavier


somos manada e
no fim do discurso
celebraremos a tradição
de sermos mulas
com um sufocante e costumeiro café?

somos cópias, caricaturas
dos sonhos que não sonhamos mais
de olhos abertos?

faremos o ritual segundo o manual
da bestialidade?

abarrotaremos nossas memórias
de souvenirs falsos vendidos na esquina
do acaso?

ou escavaremos relíquias na recusa do fazer-o-de-sempre?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cafe-Martini-64509583

domingo, 5 de junho de 2016

A impávida vespa dançante

*

Por Germano Xavier

para Muhammad Ali, in memoriam



no ringue,
Cassius Clay 
tornou a dança possível.


* Imagem: Google

Sobre modelos de análise do discurso (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


SOBRE MODELOS DE ANÁLISE DO DISCURSO

SWALES, J. M. Sobre modelos de análise do discurso. In: BIASI-RODRIGUES, B.; ARAÚJO, J. C.; SOUSA, S. C. T. (orgs.). Gêneros textuais e comunidades discursivas: um diálogo com John Swales. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 33-47.


REFLEXÕES SOBRE MODELOS ESTRUTURAIS

“Apesar da potencial importância de modelos estruturais como demonstrações do que a análise do discurso pode produzir e elucidar em um nível acima da sentença e do enunciado, a reflexão meta-analítica séria sobre seus usos e papéis é rara na literatura de linguística aplicada ou de inglês como segunda língua (ISL) (p.35).”

“Os modelos também tendem a ficar desconfortáveis entre aqueles que adotam abordagens processuais à escrita, entre os que privilegiam a expressão individual e a criatividade e entre os que acreditam que modelos são inerentemente conservadores e restritivos, diminuindo, portanto, as oportunidades que alunos e professores têm de desconstruir os sistemas hierárquicos de que fazem parte (PENNYCOOK, 1997) (p.36).”

“É como se a simplicidade tornasse os modelos memoráveis, e isso por sua vez tornasse possível seu uso, sua citação e seu ensino (em algum sentido a ser discutido) (p.37).”

“Talvez da mesma forma que os compositores aparentemente só conseguem escrever um único concerto para violino, os analistas do discurso só possam produzir um modelo de sucesso (p.38).”


UM CASO-TESTE

“Agora parece que, afinal, a qualidade de ser bom como adequação aos dados globais pode não ser um critério de definição necessário nem suficiente para modelos estruturais úteis do ponto de vista pedagógico ou prático em nosso campo (p.41).”


REVISITANDO AS INTRODUÇÕES DE ARTIGOS DE PESQUISA

“O modelo CARS (create-a-research-space), de 1990, tem sido comparativamente bem-sucedido, em termos tanto descritivos quanto pedagógicos (ou pelo menos é aquilo em que ingenuamente acredito), por ser relativamente simples, funcional, apoiado em corpora, sui generis para o gênero a que se aplica e por, pelo menos no estágio inicial, oferecer um esquema que até o momento não estava amplamente disponível (p.41).”

“Suponho que poderíamos agora construir um modelo alternativo para dar conta desse novo tipo de dados, um modelo que poderia se chamar OARO, ou Open a Research Option [abrir uma opção de pesquisa] (p.42).”

“Esse modelo alternativo capta um mundo da pesquisa mais gentil e suave, em que há pouca competição por espaços de pesquisa, mas onde pode haver competição por leitores (...) (p.42).”

“Seriam elas (as disparidades entre os quatro modelos apontados no texto) determinadas por uma tradição cultural hereditária, pelo ethos sociopolítico, pela formação acadêmica, tamanho da comunidade discursiva ou maturidade do campo nacional, e em que proporção e combinação? (p.44).”


OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS

“Neste trabalho, apresentei alguns argumentos para que se vejam os modelos retóricos e estruturais como metáforas potencialmente reveladoras dos arranjos discursivos que operam como hipóteses testáveis e rejeitáveis para o planejamento comunicativo por parte de escritores, leitores, ouvintes e falantes (p.44).”

“Uma óbvia razão para se fazer isso é uma apreensão como os assim chamados “formulaicos” e uma preocupação com o modo pelo qual a análise descritiva pode se tornar um controle normativo, como quando meus alunos de pós-graduação em linguística me dizem que escrevem seus resumos “de acordo como o manual” (p.44-45).”

“Se, como parte do despertamento de sua consciência retórica e metalinguística, todos os participantes de nossas classes hoje são analistas do discurso, então, para esses estudantes de tempo parcial, é melhor criticar e modificar modelos mais simples do que aprender e aplicar modelos sofisticados (p. 46).”


Imagem: http://www.revistabula.com/1236-etica-livro-13-mandamentos/

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Empossado de passados

*

Por Germano Xavier


repisado está o chão que me pariu adulto

e em vacilos e em sordidez desejei feri-lo,
odiá-lo pelas vezes em que não me matou.

prometeu, roubador de futuros
/veio o choro/... abortei destinos?

estrangeiro em minha vida,
duvidei do passado, presente e do futuro.
gritei, olhei o céu

que me engoliu.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/all-that-we-need-602381209

Nada muito sobre filmes (Parte XXVI)

*

Por Germano Xavier


TUBARÃO

Ando vendo e/ou revendo os filmes dirigidos por Steven Spielberg, sujeito acostumado a críticas as mais díspares possíveis dentro do ramo cinematográfico. TUBARÃO (1975) foi o seu primeiro grande sucesso. Eu tinha parcas recordações sobre o filme até então, por isso a (re)visão. Decerto que a mecânica do tempo é impiedosa para com a fomentação e dissipação de espantos relacionados ao olhares que apresentamos diante de determinadas matérias, mas é bem fácil entender o motivo de tanto alvoroço à época de seu lançamento. Muita publicidade e, sem dúvida, uma produção muito bem definida. Gravado em alto-mar, o filme tem seu espaço. Há quem veja relações com Moby Dick e com o estilo de filmagem de Hitchcock. Vale aquela teimosa espiadela. Sigamos!


UM CORPO QUE CAI

Alfred HItchcock: sinônimo de filmaço. Puro, certeiro, na veia. Vertigo, vertigem. Doses cavalares de bom cinema. Eis UM CORPO QUE CAI (1958), misturança de suspense, drama, romance e surrealismo acompanhada por uma trilha sonora saborosíssima que não permite que o filme desça do salto em nenhum instante. Um clássico em Technicolor, perturbador e frio. Assim mesmo, um filme adjetivoso. Cinema para amadores de cinema. Filosófico, repugnante, assombrosamente lindo. Havia tempo que não tinha uma experiência cinematográfica tão contundente. Recomendo a todos os mortais!


PARIS, TEXAS

PARIS, TEXAS (1984), de Wim Wenders, acaba de entrar para a minha lista dos melhores de todos os tempos (esta coisa de lista é muito complicada, não é mesmo?). Cabem várias interpretações sobre a belíssima e quase que hipnótica produção. Enxerguei até Kaspar Hauser no protagonista Travis, personagem outsider que ao voltar de uma longa diáspora pessoal, tenta uma nova entrada e inserção na sociedade (lar/convívio com os mais próximos). Iconoclasta, de narrativas ao mesmo tempo abertas e fechadas, a película é um bloco integral de convencimentos. Valeria a pena só pela guitarra plangente do polêmico Ry Cooder em diversas cenas. Um filme para mais de um olhar, bucaneiros. Recomendo a todos os mortais!


SINDICATO DE LADRÕES

Em tempos de massivas delações "premiadas", traições dantescas e falcatruas homéricas que atordoam a todos, nada melhor que poder assistir a um filme que trata com assombrosa maestria da perfídia. SINDICATO DE LADRÕES (1954), dirigido por Elia Kazan, é uma película que não pode deixar de ser vista. Num jogo de empurra-empurra criminoso, o protagonista Terry Malloy resolve se vingar de um influente mafioso das docas de sua cidade utilizando-se da palavra-verdade em um julgamento. A coragem de Malloy faz eclodir uma voz-viva no interior dos silêncios e dos medos dos trabalhadores locais, acostumados aos mandos e desmandos de um esquema corrupto e injusto de trabalho liderado pelo supracitado gângster. Mais um com o Marlon Brando para a minha contabilidade. Simplesmente imperdível. Recomendo a todos os mortais!


TRANSPATAGÔNIA

O documentário TRANSPATAGÔNIA (2014) é o registro de uma fantástica aventura vivida pelo brasileiro Guilherme Cavallari, que pedalou por cerca de seis meses completamente imerso na região da Patagônia, ali entre o Chile e a Argentina. No auge de completar seus cinquenta anos de idade, Cavallari decidiu explorar mais a si mesmo e partiu para uma viagem incrível. Desses filmes que podem mudar algumas nossas velhas e enferrujadas concepções sobre a vida. Bastou uma bicicleta e alguns equipamentos... O relato imagético de Cavallari nos presenteia com lindas paisagens e reflexões pontuais sobre o essencial vital. O filme acaba renovando fôlegos. Quiçá, quiçá, uma guinada dessas. Um dia. Quiçá. O documentário também virou livro, intitulado de TRANSPATAGÔNIA - PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: http://www.thasos.hu/blog/409-a-mozi

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Um segundo no passado

*

Por Germano Xavier


#1

aquela pálida sofisticação em seu rosto
aquele viço opaco em seus olhos
a fria penetração do olhar
um tudo gritando a falta de sons

o toque curto da mão
a fuga lenta da língua
um nada salivando o amargo agora

uma anunciação:
angústias de encher infernos


#2

Já era noite. No inverno as noites naquela parte sudeste do país chegam antes de serem desejadas. Estava frio, mas ele, naquele momento, estava entorpecido demais para perceber isso. Resignado, recostou-se à cadeira com o rosto retorcido de preocupação. Estava sozinho e precisava pensar em um plano possível e que fosse capaz de minimizar os danos inevitáveis. Era uma questão de tempo, ele sabia. Agora, de horas, talvez, minutos. Debruçou-se sobre a mesa para tentar ordenar os pensamentos. Fechou os olhos com força, tentando enxergar a situação o mais claramente possível. Apertou a cabeça com as mãos num esforço de ajudar a controlar os seus rompantes mentais. Não conseguia nominar o que sentia. Culpa? Com certeza. Mas não apenas. Era medo. Mais do que isso. Era pavor. Pavor misturado com um pressentimento doloroso, pesado, terrivelmente sádico, que fazia todo o seu corpo desabar na cadeira como um saco de batatas podres. Estava perdido, não havia dúvidas. Talvez fosse melhor apenas esperar o momento fatal e abandonar-se às consequências. Tinha, a essa altura, muita dificuldade para respirar e o cérebro recusava-se a focar numa improvável solução emergencial para salvar a sua vida. Por que esperou que a situação chegasse a este ponto? Há quantos anos vem evitando o confronto? Nem se lembra mais. Só sabe que agora, nada mais parece importar além da contagem regressiva até o momento final onde, finalmente, ele será confrontado com sua inadiável tragédia: o verdadeiro amor.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Looking-561400933

Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros (um fichamento)

*

Por Germano Xavier



DEVITT, Amy; BASTIAN, Heather. Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros. In: DIONISIO, Angela Paiva; CAVALCANTI, Larissa de Pinho (orgs.). Gêneros na linguística e na literatura. Recife – PE: Editora Universitária UFPE e Pipa Comunicação, 2015, p.97-123.


“Com o crescente número de pesquisas, se torna claro que professores podem melhorar o desenvolvimento do conhecimento de gêneros dos alunos se melhor entenderem como os estudantes usam seu conhecimento prévio sobre gêneros (p.98).”


TEORIA E PESQUISA SOBRE CONHECIMENTOS PRÉVIOS DE GÊNEROS

“Devitt (2004) argumenta em seu livro Writing Genres que a aula de escrita no primeiro período deveria ser vista como um lugar onde os estudantes adquirem consciência de gêneros – uma compreensão consciente de como tipos de escrita modelam as respostas do escritor a situações retóricas (p.100).”

“Devitt também argumenta que, no processo de ensinar a consciência de gêneros, também devemos ensinar gêneros específicos que sirvam como fundação para aprender novos gêneros (p.100)”.

“Esses gêneros, Devitt alega, se tornam os tipos de escrita que os alunos têm em seus repertórios posteriormente, gêneros antecedentes potenciais para futuras situações de escrita (p.101)”.

“Quando escrevem novos gêneros, os indivíduos o fazem em um contexto de rica intergenericidade, um contexto de gêneros que existe cultural, comunitária e individualmente (p.101)”.

“Uma forma de o conhecimento prévio afetar nosso aprendizado são os traços daqueles gêneros conhecidos aparecerem em novos textos, uma vez que os escritores partem de gêneros conhecidos para escrever os novos (p.102)”.

“Outros estudos também têm reportado que características de gêneros já conhecidos aparecem em textos que tentam novos gêneros, talvez revelando andaimes necessários, mas impactando potencialmente o aprendizado bem-sucedido (p.103)”.

“O conhecimento prévio sobre gêneros pode, claramente, interferir com o desenvolvimento de novas práticas de gênero pelos estudantes. Melanie Kill (2004, p.12) argumenta que estudantes “sabem que podem se fazer legíveis em certos gêneros, e então arriscam discordância ao incorporar aqueles gêneros, mesmo quando não são, de outro modo, necessários (p.104)”.

“De outro modo, o que os aprendizes trazem [sic] para um novo gênero – em termos de experiência, exposição, prática ou conhecimento prévio – é importante, embora não possamos predizer se essas experiências anteriores serão positivas ou negativas (p.105)”.

“Talvez alguns dos usos menos bem sucedidos de conhecimento prévio, descrito nos estudos acima, derivem das dificuldades de transferências entre domínios. As pesquisas sobre conhecimento prévio sugerem, todavia, que os estudantes irão tentar usar o conhecimento prévio em novas situações (p.106)”.


MÉTODOS

“Como parte desse estudo, procuramos descobrir o conhecimento prévio dos estudantes de três formas primárias: perguntando quais gêneros já conheciam, pedindo que descrevessem o que sabiam sobre os gêneros mais familiares e examinando seus textos para traços de conhecimento sobre gêneros (p.107)”.


QUAIS GÊNEROS OS ESTUDANTES RELATARAM SE LEMBRAR DO ENSINO MÉDIO

“Os estudantes relataram um total de quarenta e dois tipos de escrita aprendidos no Ensino Médio nas aulas de língua inglesa. A Figura 1 expõe as respostas mais comuns a essa pergunta. Outras respostas (aquelas mencionadas apenas uma vez) incluem trabalhos dissertativos, análise literária, escrita temporizada, contos, estórias, memórias especiais, artigos, cartas, vinhetas, ensaios detalhistas, ensaios, haiku, bilhetes, portfólio de desempenho acadêmico, resumos, textos argumentativos, redações, sumários, ensaios analíticos, trabalhos narrativos, trabalhos descritivos, currículos e instruções (p.110)”.

“Ter experiência com um gênero não significa saber tudo sobre ele, ou mesmo ser fluente no gênero. Aprender é sempre parcial, fragmentado, individualizado e mutável (p.113)”.


COMO OS ALUNOS DESCREVERAM OS GÊNEROS QUE CONHECIAM

“O que os estudantes relataram ter lembrado sobre os gêneros que escreveram no Ensino Médio, na primeira pesquisa é, de fato, parcial, concentrado no conteúdo e no formato em detrimento do propósito retórico e da audiência. A maioria dos estudantes, com poucas as exceções, não relatou a compreensão de seus gêneros acadêmicos em termos de situações retóricas (p.113)”.


O QUE FAZER COM ESSA INFORMAÇÃO EM SALA DE AULA

“Se quisermos fazer uso do conhecimento prévio dos alunos em nosso ensino, precisamos fazer uso do conhecimento que os alunos podem facilmente ter, não o conhecimento que eles fingem ter para nosso benefício (p.117)”.

“Podemos estar aptos a ensinar a percepção da influência do conhecimento prévio para que os alunos comecem a perceber quando estão recorrendo a estratégias ou gêneros já conhecidos. Podemos estar aptos a ensinar algumas estratégias de transferência, as quais poderão ser usadas independentemente do conhecimento prévio que tentem transferir: por exemplo, notar a situação retórica subjacente ao novo gênero e salientar o que é similar e o que é diferente do que já se encontrou antes (p.120)”.

“Na melhor das hipóteses, poderíamos adicionar ao nosso currículo de gêneros a compreensão consciente do conhecimento prévio para acrescentar à compreensão consciente de gêneros. Consciência não é tudo, mas pode ser tudo que temos (p.120)”.


* Imagem: http://www.editoraforum.com.br/ef/index.php/category/noticias/page/3/

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Da pesquisa ao ensino: múltiplas abordagens pedagógicas para o ensino de gêneros (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Da pesquisa ao ensino: múltiplas abordagens pedagógicas para o ensino de gêneros. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 213-227.


INTRODUÇÃO

“A pesquisa sobre a aprendizagem e aquisição de gêneros tem disponibilizado aos professores metodologias úteis para a aprendizagem situada e para a promoção da metacognição que conecta o conhecimento novo ao já adquirido (p.213).”


2. MÚLTIPLAS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS DE GÊNERO

“Amy Devitt (2009) defende que, embora as pedagogias de gênero “partilhem uma compreensão dos gêneros como social, cultural e linguisticamente encaixados (...) diferentes pedagogias de gêneros resultam (...) da ênfase em diferentes preocupações teóricas (p.214).”

“Ann Johns (2002) identifica três diferentes abordagens pedagógicas de gêneros, baseando-se nas tradições teóricas anteriormente identificadas por Sunny Hyon (p.214).”

“1) A abordagem da Escola de Sidney, que é um currículo sequencial cuidadosamente desenvolvido a partir da linguística sistêmico-funcional (p.215).”

“2) O inglês para fins específicos (ESP), que embasa uma abordagem para o ensino de gêneros específicos (frequentemente, gêneros disciplinares) e para o treinamento nas características formais e funcionais desses textos (p.215).”

“3) A nova retórica (p.215).”

“A essa taxonomia poderíamos acrescentar uma quarta abordagem – o modelo educacional ou a abordagem didática brasileira (p.215).”

“Enquanto as abordagens da Escola de Sidney e do ESP se movem do contexto para o texto, e a nova retórica, da análise textual para o contexto, o modelo brasileiro começa com uma produção inicial do gênero baseada no conhecimento prévio e na experiência dos escritores, depois passa para a análise do gênero nos contextos retórico e social, culminando com a (re)produção do gênero, tendo assim como foco a consciência do gênero, a análise das convenções e a atenção ao contexto social (p.216)”.


3. PEDAGOGIAS IMPLÍCITAS DE GÊNEROS

“Os estudantes escritores partem de um amplo esquema sobre o discurso acadêmico, baseado em seus escritos e tarefas escolares anteriores, e esse esquema é modificado quando se deparam com uma nova tarefa de escrita ou com um gênero específico de uma disciplina (p.217).”

“Freedman defende o ensino de gêneros através da imersão dos estudantes na escrita de gêneros (p.218).”


4. PEDAGOGIAS EXPLÍCITAS DE GÊNERO

“Mary Macken-Horarik (2002) descreve a abordagem da LSF como uma “pedagogia explícita” na qual “o professor introduz os estudantes às demandas linguísticas dos gêneros que são importantes para a participação na aprendizagem escolar e na comunidade maior (p.218).”

“[...] Désirée Motta-Roth (2009) aplica uma abordagem da LSF a contextos educacionais brasileiros, propondo uma pedagogia que enfatize a relação recíproca entre texto e contexto (p.219).”

“A abordagem de gêneros de Swales teve um significativo impacto sobre o ensino em EAP e ESP (p.222).”


5. PEDAGOGIAS INTERATIVAS DE GÊNEROS

“Embora se refiram a abordagens de gêneros para diferentes públicos (estudantes da educação básica versus estudantes universitários), o modelo dos ERG e o modelo brasileiro promovem métodos múltiplos e sobrepostos que desenvolvem habilidades cognitivas relacionadas com a consciência de gênero, ensinam a aquisição de estratégias linguísticas ou textuais e mostram como o conhecimento cognitivo e textual de gêneros é moldado pelo contexto sociocultural (p.227).”


Imagem: http://www.unoeste.br/facopp/noticias_visualizar.php?id=1109

domingo, 29 de maio de 2016

Um rio correr

*

Por Germano Xavier

um rio correr
pode entre escuras pedras
esconder insustentáveis tristezas d'alma
como se sobre as águas um grande saponáceo
levasse embora particulares encardidos?

um rio correr
num engendrar se estende à dionisíaca música
concebida como êxtase em pleno quadro
de nos restar apenas a grande e ligeira vez
dos mais abertos silêncios?

um rio correr
qual romance sem quem nem ninguém
opera clausuras em divórcio irreparável
por cada uma reação perdida
na irresistível confusão dos sentidos?

um rio correr
convencido de que é dentro que se vive
em nós a ondulante catástrofe da beleza
abrigará em ondas lentas toda declaração
de que passamos depressa e de que ficamos
a aplaudir angústias ao fim da linha?


* Imagem: Germano Xavier/Arquivo pessoal

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O velho lobo do mar

*

Por Germano Xavier


"Mas o que pode valer a vida, 
se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?"
(Milan Kundera, em A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)


algumas vezes me encostei ao mar
e por medo do desconhecido, do vão devorador
escondido nas fendas ondulantes das marés,
construí em mim o som dos medos reais.

parte em consciência, soube ocultar
a fera indestrutível das águas nas espumas.
parte em truques, abortei roteiros inglórios
de bravura à direção das imprudências.

fato é que as histórias em que navego
minhas máximas campanhas de homem
foram sempre trilhas lançadas aos atiçamentos
e às estreias da alma.

tudo se resume, pois,
até aqui (e só assim me pus a salvo),
a uma vitoriosa carreira de impermanências.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/THE-SHADOW-SEA-435832778

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Gêneros e Tipos de Discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In:____. DOLZ, Joaquim. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas – SP: Mercado de Letras, 2004, p.19-34.


“A moda das tipologias cedeu lugar à dos gêneros. Entretanto, permanece a necessidade fundamental de toda atividade de pesquisa sobre textos e discursos (e, sem dúvida, de toda prática científica): a de classificar.” (p.19)


O GÊNERO É UM INSTRUMENTO

“[...] “o gênero é um instrumento.” (p.23)

“Os instrumentos encontram-se entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação n qual ele é levado a agir.” (p.23)

“Um instrumento media uma atividade, dá-lhe uma certa forma, mas esse mesmo instrumento representa também essa atividade, materializa-a.” (p.24)

“O instrumento, para se tornar mediador, para se tornar transformador da atividade, precisa ser apropriado pelo sujeito.” (p.24)

“[...] a tripolaridade da atividade tem como corolário necessário a bipolaridade do instrumento.” (p.25)

“A escolha do gênero se faz em função da definição dos parâmetros da situação que guiam a ação. Há, pois, aqui uma relação entre meio-fim, que é a estrutura de base da atividade mediada. Portanto, nossa tese inicial – o gênero é um instrumento enquadra-se bem na concepção bakhtiniana.” (p.27)

“A ação discursiva é, portanto, ao menos parcialmente, prefigurada pelos meios. O conhecimento e a concepção da realidade estão parcialmente contidos nos meios para agir sobre ela. Tínhamos dito que o instrumento é um meio de conhecimento: eis a concretização dessa tese.” (p.28)


GÊNEROS E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

“Os gêneros e, mais particularmente, os gêneros primários são o nível real com o qual a criança é confrontada nas múltiplas práticas de linguagem.” (p.30)

“Os gêneros se complexificam e tornam-se instrumentos de construções novas, mais complexas”. (p.30)

“[...] os gêneros secundários não são espontâneos. Seu desenvolvimento e sua apropriação implicam um outro tipo de intervenção nos processos de desenvolvimento, diferente do necessário para o desenvolvimento dos gêneros primários.” (p. 32)

“Essa ideia de construir a partir do que já existe e de transformá-lo radicalmente pode ser precisada da seguinte maneira: a construção de um gênero secundário implica dispor de instrumentos já complexos.” (p.34)

“Os gêneros primários são os instrumentos de criação dos gêneros secundários.” (p.35)

“Pode-se mesmo dizer que a introdução do novo sistema, a aparição dos gêneros secundários na criança, não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um longo processo de reestruturação que, a seu fim, vai produzir uma revolução nas operações de linguagem.” (p.36)


TIPOS E GÊNEROS

“[...] psicologicamente, um tipo de texto é o resultado de uma ou de várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção.” (p.36)

“Os tipos de textos – ou, psicologicamente falando, as escolhas discursivas que se operam em níveis diversos do funcionamento psicológico de produção – seriam, portanto, construções ontogenéticas necessárias à autonomização dos diversos tipos de funcionamento.” (p.37)


* Imagem: https://prezi.com/zley3ka5jfpn/night-quotes/

A perspectiva INTERACIONISTA SOCIODISCURSIVA DE BRONCKART (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


MACHADO, Anna Rachel. A perspectiva sociointeracionista de Bronckart. In: MEURER, J.L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p.237-259.


1. INTRODUÇÃO

“[…] defenderei a tese de que, na verdade, não há um conceito de gênero que possamos atribuir de forma isolada a Bronckart”. (p.237)

“[...] defenderei a posição de que o ISD não toma os gêneros de textos como sua unidade de análise privilegiada nem considera que sua análise seja seu objetivo maior.” (p.238)

“Mesmo com diferenças visíveis, esses pesquisadores brasileiros guardam um traço comum: a perspectiva de intervenção na educação, imediata ou prospectivamente.” (p.238)


2. DA DIFICULDADE DE INTERPRETAÇÃO

“A tarefa de interpretação da teoria do ISD é difícil, pois dois tipos de problemas podem levar a interpretações equivocadas: uns que derivam de sua própria especificidade e dos textos de seus autores nucleares e outros que derivam de textos de seus intérpretes.” (p.240)


3. GIROS EM BUSCA DO CONCEITO DE GÊNERO DE TEXTO NO ISD

“[...] buscarei circunscrever o conceito construído pelo ISD, identificando, primeiramente, o que os gêneros de textos não são nessa perspectiva teórica, para, a seguir, buscar caracterizar o que são.” (p.240)

3.1 “GÊNERO DE TEXTO NÃO SE DEFINE: É O QUE EXISTE”

“[...] podemos afirmar que esses trabalhos têm tomado os textos como sua unidade de análise, mas, como veremos posteriormente, essa análise, em si mesma, não era – e não é – seu objetivo maior.” (p.241)

“[...] a definição de gênero de texto subjacente era a de que gênero de texto é aquilo que sabemos que existe nas práticas de linguagem de uma sociedade ou aquilo que seus membros usuais consideram como objetos de suas práticas de linguagem.” (p.242)

3.2 GÊNERO DE TEXTO NÃO É TIPO DE DISCURSO

[...] os tipos de discurso são segmentos de texto ou até mesmo um texto inteiro, que apresentam características próprias em diferentes níveis.” (p.242)

“Atualmente, considera-se que há quatro tipos de discurso básicos: interativo, teórico, relato interativo e narração.” (p.243)

“Devemos observar ainda que os tipos de discurso podem se mesclar, dando lugar a segmentos de texto com características discursivas de dois tipos.” (p.245)

“O máximo que temos é um critério – não exclusivo – para uma classificação de grandes famílias de gêneros de textos, levando em conta o tipo de discurso principal que os caracteriza.” (p.245)

3.3 GÊNERO DE TEXTO NÃO É TIPO DE SEQUÊNCIA

“[...] as sequências se distribuem em seis tipos – dialogal, descritiva, narrativa, explicativa, argumentativa e injuntiva.” (p.246)

“[...] não há possibilidade de definir ou classificar todos os gêneros existentes pelo critério de sequência, dada a constatação de que existem textos vários em que elas não ocorrem, o que nos leva à hipótese de que também há gêneros de textos que não as representam.” (p.248)

3.4 DA UTILIDADE DOS CONCEITOS DE TIPOS DE DISCURSO E TIPOS DE SEQUÊNCIA PARA A CARACTERIZAÇÃO DE GÊNEROS

[...] os gêneros de texto nunca podem ser identificados e definidos apenas com base em suas propriedades linguísticas.” (p.248)

3.5 OS GÊNEROS DE TEXTOS COMO REGULADORES E COMO PRODUTOS DAS ATIVIDADES (SOCIAIS) DE LINGUAGEM

“A primeira distinção conceitual importante para compreender o quadro teórico mais geral do ISD é a que diferencia atividade de ação.” (p.249)

“[...] os gêneros de textos, por serem produtos sócio-históricos, são elementos explicativos da ação da linguagem e que não seriam unidades de estudo próprias da psicologia.” (p.250)

3.6 O GÊNERO COMO FERRAMENTA DA AÇÃO DE LINGUAGEM E A AÇÃO DE LINGUAGEM COMO REFORMULADORA DO GÊNERO

“[...] é pelo acúmulo desses processos individuais que os gêneros se modificam continuamente e assumem um estatuto fundamentalmente dinâmico e histórico.” (p. 251)


4. O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS E SUA UTILIZAÇÃO

“[...] o modelo que é proposto pelo ISD não é um modelo de análise de gêneros, mas de textos.” (p.252)

4.1 O MODELO DE ANÁLISE DE TEXTOS E AS OPERAÇÕES DE LINGUAGEM

“[...] as operações não se sucedem uma às outras na ordem em que serão apresentadas, mas estão, sim, em interação contínua.” (p.252)

“[...] não podem ser vistos como meras cópias das representações sociais, dada a influência das histórias de vida particulares na sua construção ontogenética.” (p.253)

4.2 EXEMPLO DE APLICAÇÃO DO MODELO DE ANÁLISE

“[...] retomamos a seguir um trabalho por nós desenvolvido sobre o gênero resenha crítica.” (p.255)


5. CONCLUSÕES

“[...] temos tomado como hipótese que textos socialmente considerados como pertencentes a determinado gênero apresentarão algumas características semelhantes, que podem ser atribuídas às restrições genéricas.” (p.258)

“[...] “ensinar gêneros”, na verdade, não significa tomá-los como o objeto real de ensino e aprendizagem, mas como quadros da atividade social em que as ações de linguagem se realizam. O objeto real de ensino e aprendizagem seriam as operações de linguagem necessárias para essas ações, operações essas que, dominadas, constituem as capacidades de linguagem.” (p. 258)



* Imagem: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/redacao/a-redacao-requer-uma-boa-revisao.htm

TEMER não é preciso

*

Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
um parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil


lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso


* Imagem: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/20/golpe-do-pato-a-face-absurda-da-cena-politica-brasileira/

domingo, 15 de maio de 2016

Paraíso-quadro

*

Por Germano Xavier

para Adriano Ricardo, professor de espantos


"O paraíso é, antes de tudo, um quadro."
(Bachelard)


o que vi, vivo está.

vi o improvável 
no que de fato abandonei,
o invisível das figuras, dos motivos,
os mares em frente ao mar além-horizonte.

vi melhor quando sofri
outras maneiras de ver, de viver.
quando a palavra comum me tingiu
de amor, de angústia, de sonho.

com o instrumento dos meus olhos, 
vi o místico do visível. e nada disso 
teria valor se a solidão não me abarcasse,
irmã de mergulhos.

fui a hora literária, poeta 
de meus /des/encontros.

pois vi a fantasia, vi 
melhor o assombro na gana de ser,
de estar, ao sentir a minha música me acusar
solar.

optei pelo desvio das estradas por onde correm os meninos eternos,
os meninos que ainda saberão brincar,
poder e oração e voz tamanha.

experimentei o sagrado nos lábios avulsos da mulher,
máxima intenção íntima dos universos.

vi, portanto,
o que ignorei simplesmente,
o que jamais imaginei,
o mundo, o nada, o afã, o órgão último
de minhas forças,

a podridão de mim,
a melodia inolvidável,
o que a Graça tornou sangue, pulso.

vi, enfim, o que passou, o que é,
o que será e, juro, vi tudo pela primeira vez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/quadro-283482411

sábado, 14 de maio de 2016

Nada muito sobre filmes (Parte XXV)

*

Por Germano Xavier


OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), de Pedro Almodóvar, pousa sua narrativa no interior de uma aeronave da companhia aérea Península, que por motivos esdrúxulos, corre sério risco quando da aterrissagem. Enquanto nada se resolve com o serviço de apoio, o comandante fica voando em círculos. Nesse ínterim, três tripulantes dopam todos os passageiros da classe social, assim como as aeromoças, com a finalidade de estancar o pânico. Os que continuam sóbrios, pelo fato da morte próxima, revelam-se de todas as maneiras. Um filme diferente, com todas as cores de um Almodóvar, e que em muitos momentos me fez recordar o cult AIRPLANE! (Apertem os cintos... O piloto sumiu!) Comédia inteligente. Vale uma espiadela!


LITTLE BOY – ALÉM DO IMPOSSÍVEL

LITTLE BOY - ALÉM DO IMPOSSÍVEL (2016), de Alejandro Monteverde, é um daqueles dramas que nos emocionam facilmente. Na trama, que tem a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, o garotinho Pepper mantém uma relação de muita aproximação e amor pelo seu pai, com quem vive aventuras e fantasias inenarráveis. Quando seu pai resolve ir para a guerra no lugar do seu irmão mais velho, Pepper fica profundamente triste. Apelidado de Little Boy pelos "garotos da rua", por seu tamanho reduzido para a idade, Pepper investe em sua fé, segue uma "lista mágica" cedida pelo padre da pequena cidade de O'Hare, Califórnia, onde mora, na esperança de reencontrar seu pai. Daí em diante, muita coisa acontece. Até o inacreditável acontece. Para os desavisados, LITTLE BOY foi o nome dado à bomba nuclear lançada em Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Recomendo a todos os mortais!


O ABRIGO

Não se deve confiar em tudo que se lê, ouve etc. O ABRIGO, de Jeff Nichols, provou isso para mim. Esperava ver algo meio hitchcockiano. Achei-o penoso. Mas, como disse, não é bom confiar em tudo que se lê, ouve etc. Boa sorte!


E.T. – O EXTRATERRESTRE

Até poucos dias atrás, eu ainda não tinha visto o longa-metragem E.T. - O EXTRATERRESTRE (1982), de Steven Spielberg, um dos grandes clássicos hollywoodianos do gênero ficção científica. Para a época, deve mesmo ter sido uma produção bem chamativa. Olhando-o no agora, confesso que não me causou grandes ou bons "espantos". Talvez eu devesse pegar uma máquina do tempo e regressar até o ano de seu lançamento para que minha ideia sobre o filme mudasse. Aliás, a infância é o ponto crucial da trama. Lendo sobre o filme, descobri que o rosto de E.T. foi elaborado tendo como molde as faces do poeta Carl Sandburg e do cientista Albert Einstein. Loucuras à parte, ei-lo! Sigamos!


CHATÔ – O REI DO BRASIL

Eu tinha cerca de 20 anos quando toquei pela primeira vez o calhamaço biográfico intitulado de Chatô - O Rei do Brasil, escrito por Fernando Morais, ali pelas prateleiras da biblioteca do Departamento de Ciências Humanas III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). O livro me chamava a atenção, por seu autor, pelo tamanho e pelo conteúdo. Chatô é matéria interessantíssima para qualquer estudante de jornalismo, hei de pensar. É história da imprensa nacional, do mundo. Faz parte, apesar de tudo. Magnata insólito das comunicações. Dono de quase tudo em seu tempo. Fez e desfez. Insano, taxado de mil coisas. O filme homônimo, CHATÔ - O REI DO BRASIL (2015), dirigido por Guilherme Fontes, depois de 20 conturbados anos de produção, conseguiu vir à tona. Apesar de um tanto confuso, a película passa uma noção básica deste Assis Chateaubriand, para quem anúncio era dinheiro e notícia era perfumaria. Recomendo a todos os mortais!


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU

Mais um antigão do Steven Spielberg que pude ver recentemente. CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (1978) tem até o diretor François Truffaut no elenco, para minha grata surpresa. O filme tem como mote a obsessão de um homem, Roy Neary (Richard Dreyfuss), morador de uma pacata cidade norte-americana, ao pressentir a chegada de seres extraterrenos. Depois de muita investigação e enfrentamento, parte em debandada para um local em específico, onde acredita ser estratégico para um possível contato humano-alienígena. O filme tem status de grande obra cinematográfica de teor sci-fi. Ao fim, não me arrependi de tê-lo visto. Vale a experiência, bucaneiros. Sigamos!


HOWL

A dita Geração Beat (Beat Generation) estará sempre atrelada ao marco da contracultura em todos os cantos do mundo, em todos os tempos. Para tanto, a literatura foi berço de expressão para nomes explosivos, a citar os de Kerouac, Burroughs, Ginsberg etc, que "pregavam" a "desobediência civil" e a criatividade espontânea, instantânea. O filme HOWL (2010), dirigido por Jeffrey Friedman e Rob Epstein, retrata com autoridade um pouco do que foi o impacto da publicação do livro UIVO, de Allen Ginsberg, em meados de 1956. Acusado de obsceno, o livro foi levado a julgamento nos Estados Unidos. HOWL é discretamente profundo, a ponto de ferir corações poetas com golpes contundentes de mais-amor pela palavra. Mais um belíssimo filme que traz a arte literária como protagonista. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um olhar sobre os Estudos Retóricos de Gênero

*

Por Germano Xavier


O capítulo 6 do livro Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino, que versa sobre os Estudos Retóricos de Gênero (ERG) delineia com precisão conceitual os meandros dos estudos elaborados principalmente pelos autores Charles Bazermam e Carolyn Miller, sendo os dois devidamente analisados e esmiuçados por Anis Bawarshi e Mary Jo Reiff, autores do supracitado livro publicado no Brasil em 2013, traduzido pelo professor Dr. Benedito Gomes Bezerra, docente da Universidade de Pernambuco (UPE).

É justamente no referido capítulo onde ocorrem as distinções referentes ao ideário do gênero compreendido como sendo uma ação social, assim como objetos culturais de base demasiado complexa. Dentre todo o conteúdo abordado nas cerca de 30 páginas do excerto, destacam-se as ideias em ERG de “sistemas de gêneros”, “conjuntos de gêneros”, “apreensão”, “metagêneros”, “sistemas de atividades” e “cronotopos de gêneros”.

Diante de tais lances conceituais, alguns autores pontuam, a partir de Bazerman (1998), sobre a existência de uma relação dialógica entre as formulações do gênero aliadas à formação do conhecimento em si e, também, por parte de sua condição sócio-histórica. Para tais autores, a citar Berkenkotter e Huckin (1993), gêneros são arcabouços estruturais de base retórica e por demais dinâmicos. Assim se postulam, já que podem sofrer variações caso ajam para isso forças acerca de condicionantes e interesses de uso, além de outros mecanismos de influência.

Em ERG, gêneros são também entidades retóricas sensíveis, dinâmicas, que estabilizam práticas e legitimam sentidos. Para esta corrente dos estudos de gênero, o papel e a importância dada ao usuário da língua é fator preponderante, pois é o usuário da língua quem também induz o gênero ao conhecimento e usufruto de mecanismos linguísticos coletivos.

O fundo, o contexto, o conteúdo, o momento (Kairós), os pressupostos, combinados com as devidas e referenciadas oportunidades retóricas, passam a se estabelecer como pontos de alicerce do gênero enquanto matéria de estudo. Assim posto, ao promoverem o fenômeno da integral comunicação, os usuários da língua tornam-se membros de uma dada comunidade linguística. Esta, por sua vez, serviria a uma multidimensionalidade que exerceria uma aproximação do gênero para com os conceitos de processo social.

De tal modo, a sistematização de gêneros liga-se aprioristicamente e basilarmente ao poder do indivíduo no tocante às ações de interação num campo aberto de interferências contextuais. Promove-se daí o brotar de expressões do tipo “ecologia de gêneros”, “conjunto de gêneros”, “repertório de gêneros” e, até, “constelação de gêneros” que, juntos, preconizam uma espécie de união conceitual e de atuação determinantes a grupos parelhos de gênero, possuidores de características e funcionalidades semelhantes.

Amy Devitt, Clay Spinuzi, Aviva Freedman, Graham Smart, Janet Giltrow, Engestrom, Cole e Davi Russel são alguns dos nomes importantes que ajudaram e ajudam a interpretar boa parte das nuances dos estudos centrados em gênero na vertente em ERG. Alguns dos pesquisadores supracitados instauraram análise sobre a relação da cognição e do gênero. Os laços encontrados, mesmo alguns no âmbito da comum abstração, colaboram para a conduta dos gêneros junto às demandas da esfera social.

Objetivos e bem dimensiondos, os gêneros seriam produtos de contundente interação, extremamente ativos, socialmente mediados, estruturalmente conflitantes e fortemente motivados, portanto vivos, coordenados e complexos. Destarte, o front de embate, porventura natural ao conceito de gênero, dar-se-ia devido à possibilidade de diálogo entre frentes de ações inerentes ao todo do complexo da engenharia dos gêneros.


Referência

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Estudos retóricos de gênero. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 103-133.

sábado, 7 de maio de 2016

O amor em número de dez

*

Por Germano Xavier



I – Alguma hora da tarde

Eu queria ser sensata, prudente, objetiva e compreensível. Você me faz ser metáforas e absurdos. Você exige de mim a fluidez de um ser humano e a liberdade de um coração em quarentena. Não quero ser carne crua nesse mundo. Ou quero. Só não sei o que quero agora porque você se interpõe entre mim e a minha falta de sensibilidade para com a vida. Você me obriga a reconhecer que nem tudo se resolve na mente e em ignorar a própria dor, os sentimentos alheios e as coisas más da vida. Você me obriga a ser humana e isso me desnorteia. Preciso esquecer você ou mudar o que sou. E agora essas duas coisas são impossíveis.


II - Ontem

Não gosto de dar a você e sentir por você coisas que não quero mais que existam em mim para o mundo, para ninguém. Não quero perdoar, me sentir presa e nem me sentir necessitada de algo ou alguém. Quero me bastar e não sofrer por isso e não sentir falta de nada e de ninguém. Mas sinto falta de você e me dói (e só me dói com você) quando não me corresponde nessa sandice ridícula - por que falar a verdade me faz sentir tão estranha, tão desumana e tão diferente dos outros? Algumas coisas nem digo em voz alta, por medo de me jogarem na fogueira. O mundo não aceita os divergentes. Você me aceita?


III - Agora

Veja você: O dia acabou e não se passaram dois minutos seguidos sem que eu lembrasse de você. Não como uma ocupação, mas como uma sombra na alma. Hoje, nessa noção de sua presença em outro espaço, havia culpa e constrangimento - pelo que te falei ontem. Uma tristeza sem nome como as coisas imperativas da vida. Aquelas que não conseguimos evitar. Você estava presente não como um pensamento constante, fixo, mas apenas como um reflexo da memória, um não-esquecimento. Uma lembrança fluida, não um pensamento costurado objetivamente.


IV – Você

Você (presença-ausência) é o espaço onde transitam todos os meus monstros, os meus fantasmas conhecidos, negados ou ainda não suspeitados por mim. Você (minha relação desesperadamente irracional com você) é onde me confronto. Onde questiono a minha ética, minhas crenças, meus valores, minha força, minha sanidade, meu futuro, meus sonhos... Você é o lugar onde vocifero e me despedaço, mas é também o lugar onde me abandono. Um descanso reconstrutor, lúdico e poético. O amor.


V – Ainda você

Minha fúria, minhas dores, minhas convicções (que são dúvidas em revezamento) passam por você todos os dias. Você me descobre e me desfaço e me refaço. Em você.


VI – Uma dor distante

Eu ainda não conhecia. Há tanto escrito seu que eu ainda não conheço! Ainda bem... Nem todos me fazem bem. Alguns me fazem sair da leitura com a sensação de que morri em algum tempo passado e que só uma espécie de sombra e uma remota memória restaram de mim. É uma dor distante, eloquente, difusa. Uma espécie de remorso de algum crime esquecido ou uma perda de algo que eu nem sei o que é, mas que está ali, em algum lugar escondido em suas palavras... algo que eu perdi em outra vida está lá e eu apenas lembro, mas não reconheço e nem posso nominar. Eu odeio a palavra escrita. Eu amo a palavra escrita. A única arma capaz de me ferir nesta vida é a palavra... e a falta de amor em mim.


VII – Por que não?

Depois de percorrer mais algumas linhas do passado dele, decidiu que não. Nunca mais o seguiria onde quer que tenha ido. Nunca mais o leria onde quer que tenha escrito ou para quem que tivesse escrito. Ela odiava o que ele escrevia para elas, especialmente para ela - aquela que, por sinal, parecia a coisa mais transparente, frágil, delicada e insossa que já existiu. Bonita, sim. Tão feminina que deve ter dois úteros e meia dúzia de ovários. Voz de passarinho cansado, olhar de derreter pedra. Não se sabe onde começa o teatro e onde termina a pessoa. Uma pluma perdida no mundo. Pousou no lugar errado, a criaturinha feliz. Talvez tivesse sido planejada para ser fada, o serzinho doce, inocente e gentil, que olha as nuvens, o céu e o amor e suspira como se o mundo fosse perfeito, mas, por um erro de cálculo nasceu humana. Depois de pensar se escreveria isso que ele nunca vai entender, decide: Sim. Por que não?


VIII – Teoria crítica

Há anos não deixo de falar pra ele tudo o que penso e sinto sobre ele e sobre as pessoas que o cercam. Sobre ela, ele nem sabe de quem falo... talvez saiba... Aquela com ar de superior disfarçado de espontânea humildade. Talvez pela influência da região de nascimento... Eu desprezo esses seres que nunca olharam para a miséria ao seu redor e concebem o mundo como o seu playground. Ela flutua em nuvens e desenha (ou escreve?) florzinhas. Uma porcelana bem acabada, porém tão fina que quebraria no primeiro esbarrão com a realidade. Pelo menos - e temos aqui apenas ficção, pretensa dedução e uma alta dose de despeita -, é o que aparenta. Perdoem-me os críticos, mas não tenho compromisso com a realidade dos fatos neste texto, apenas com o meu passional - e justo! - julgamento.


IX – Conquista

Da outra sim, eu gosto. Repito: odeio o que ele escreve para elas, mas desta - e somente desta) - eu gosto. Gosto de um jeito quase doloroso, pois foi inevitável. Tanta grandeza de alma, tanta verdade crua, tanta beleza triste, tanta acidez perfeita, tanta graça na dor que ela sabe... Impossível não amar a coisa amável quando ela é verdadeiramente poesia. Até dói admitir, mas o faço por justiça e por ter sido conquistada... Ela parece mais verdadeira, mais real, mais poética, mais humana, mais falha. É de carne e osso e de absurdos. Incoerente, incongruente. Uma linha curva, como o amor. Como toda pessoa de valor deve ser. Ela parece ser feita de erros e de quedas, de superação e de resistência. Ela é aguda. Ela sofre, agoniza, erra, ama, pragueja, ironiza, radicaliza, morre e ressuscita. Ela pisa em brasas e escreve em sangue. Mais parecida comigo. Ela - aquela de quem nunca ouvirei - é alguém que aprendi a admirar lendo-a apenas nas entrelinhas dele. Nas entrelinhas das linhas que ele sempre escreveu sabendo ou não, querendo ou não. Ele escreve pessoas. Todas as que conheceu e amou ou não, todas deixaram histórias e rastros em sua literatura. Ele é muitos. E eu o amo todos.


X – Post scriptum

Não me censure. Nada é sério. Apenas divagações sem importância. Falo de personagens. Tu sabes. Te amo.