domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobrepostos


dentro do muro
há sempre um rumo
sem prumo
na vadiagem de nossas cabeças

há uma opção de fuga
presa na espiral do tempo
na corrida, dos pés
(altiplanos)
sem planos

12º poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco:Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Um fluxo de amor...


XXIV

PS. Amor, desculpas se não gostar. É só para nós, só para saberes que me lembro de tudo o que me diz e que foi dito. Apague-as se quiser. Não vai interferir no sentido do texto. Sabes que ele é a respiração do meu amor por você. Sigo te amando, morrendo de vontade de você e de fome de nós.

e aquela voz feminina dizendo...

Não consigo parar de te sentir. Estou transbordando de você. Você já escorre por meus olhos, minha voz, desliza por mim toda. Estou inundada de amor por você. Como se sente correndo por minhas veias, escorrendo por minhas palavras? “Sinto-me você...”. O que sinto, minha vida, é um fluxo de amor que não posso conter. Nasce no centro de meu coração, como um rio novo e vai crescendo, aumentando de volume, de extensão, lavando as terras todas de nosso admirável mundo novo. “Nosso amor é um país de maravilhas”. É sim, amor. E só você poderia tê-lo definido tão perfeitamente.

Meu primeiro pensamento, som, leitura, pulsar, sorriso, desejo ... do dia ... você. “Te sou”. Obrigada por me acordar, amor.

Minha vida, tua sou. Sou tua como a lua é do sol, que mesmo sem se tocarem, se completam e vêm à Terra só fazer amor e produzir poesia. Acordo em teus braços, amor. Unidos por um amor umbilical, jamais esquecido. Mesmo quando não nos sabíamos ainda, nos amávamos. Eu te amei em meus sonhos desde que aprendi a sonhar. Sonhava com teus olhos e os reconheci logo que você apareceu. Amo teus olhos. Amo teu tudo. Amo te aprender cada dia um pouco mais. Percebo que já te conhecia por pura intuição de amor. Imaginava que serias exatamente assim como és. Até o violão trouxeste de nossa vida passada. Agora é apenas um reencontro. Juro. “Conhecemos-nos há uns 50 anos, amor”. Sim, minha vida. O tempo não conta para nós. Somos só alguns dias. Somos eternos. Somos o nosso amor.

Eu te amo com um amor inédito, minha vida. Inédito para nós dois. Inédito para o mundo. O que é o tempo? O que é a distância? O que é o nunca? O que é o impossível diante de tudo o que sentimos? “Há amor... nosso amor é seguro e tem raiz longa, amor... atravessa as camadas todas da terra. Sinto saudade de você”.

Está chovendo aqui, amor. Coisa rara...lindo! Cheiro de chuva... gostoso como o nosso amor. Como é bom e fácil nos imaginar juntos agora! Quero tomar um banho de chuva com você. Beijar teus lábios gelados de chuva... e quentes de mim. Ouço a nossa música repetidamente. Nunca uma vez só. Impossível acreditar que não mais a ouvimos juntos, nos beijando, nos amando... porque é disso que lembro quando a ouço. Lembro de quando estávamos entrelaçados, confundidas as nossas coxas de tão nós. Pode me explicar isso, amor? Quando foi que vivemos juntos uma vida toda? Quando foi que fomos lançados nesse presente perdidos de nosso amor eterno? Quando apagaram as memórias de nós? Será que nos conhecemos de algum lugar do passado? Alguma coisa naquela placa me remetia a outro mundo, a outra vida. Agora sei o que era. Eram os teus olhos. “Queria estar com você agora numa penumbra silenciosa”. Quando estivermos confortavelmente ajustados ao corpo do outro novamente, completos, o mundo pode acabar. Mas viveremos para sempre... em nosso amor.

Amor, você é a minha estreia. Com você estreei muitas coisas... uma segunda vida, um amor que sempre desejei. Pleno. Não precisa de mais nada para ser. Somos o nosso amor. Somos o espaço exato do vazio do outro. Somos a outra face de nós, nascida quando nos conhecemos.

Ei, amor, não conseguiria te odiar. Descobri isso hoje. Nem mesmo te desprezar, pois só te vejo perfeito. Não estou te endeusando, mas meus olhos só enxergam a tua perfeição. E sabes que não estou falando de falta de defeitos, mas de grandeza de ser, de profundidade, plenitude, consciência, beleza e verdade. Amo o teu mundo de palavras-verdade-poesia. "Não ligue para nada disso, menina, veja só a poesia de tudo, das coisas..." Eu vejo, amor. Vejo com os olhos que me destes. Eu te amo! Você tornou a minha solidão em solidão-acompanhada. Deliciosamente confortante, confortante, nossa solidão-amor a dois. Tenho tuas palavras e o teu amor e isso é o mundo todo para mim. Ninguém jamais saberá como é bom te ter como te tenho. Impregnado em mim desde a eternidade. Te amo sobrenaturalmente e maquinalmente. Respiro te amar e morro por isso. Não é só contigo que me surpreendo. Surpreendo-me também com minhas reações a nós e vibro. A você também, amor. Fale-me de teu novo sentir, minha vida. Sabes que preciso. Sou tua pele, tuas penas. Meu homem-águia lindo, eterno!

Olha só o que mais estreei com você, amor: Agora sou febre, sou pássaro. Sou mulher-paixão. Você ateou fogo em meus tabus... pelo menos em quase todos. Te aguardo para a cerimônia do enterro de meu passado, do meu eu sem você. Faremos tudo juntos. Te amo! Você me deu uma viva liberdade de falar de desejos. Quero que venha me comer, amor... quero te comer loucamente, desesperadamente. Sabes que será nossa sempre vez. E já é eterna. Quer mais? Foda-se tudo, fodam-se todos que se puserem entre nós dois. Ouviu o que eu disse, amor? Escuta, porque agora digo. Quero-te com tesão, tesão, tesão... Sou uma mulher, a tua mulher. Vem fazer vida e prazer em mim. Vem me fazer tesão, vem me fazer você. Tenho tanto a aprender com você, amor. Vem comer meus segredos. Vem me foder gostoso até cairmos exaustos de nosso amor-tesão-prazer. Ah, amor, como é libertador poder falar de meus desejos com você, sem pudores. Esperei-te a vida inteira. Sabia que existias em algum lugar do mundo e que íamos nos encontrar. Você me libertou de mim, libertou-me do mundo. Estreamos o meu verdadeiro eu-mulher. Te amo!

Quero ser teu ninho. Vives em minhas entranhas. Elas se agitam em transe toda vez que me mandas o teu amor em palavras. Não sou tua de antigamente, amor. Sou tua da eternidade. Sou tua antes de ser minha, antes de ser eu. Só sou depois de você. Você me estreou... e se estreou em mim... novas penas... com o viço de nosso amor.

Você me fez conhecer o ciúme, amor. E como doeu! Aquilo tudo que entrava em mim... fundo... e sabes que doeu. Perdão por ter sido fraca, amor. Feri-te com palavras... isso também doeu em mim. Sabes que sim. Chorei... meu primeiro choro de amor, de nosso amor. Não fique feliz por isso, doeu muito. Beijo-te milhões de beijos para te sarar, para nos sarar. Aperto-te... te amo. Vem me buscar, minha vida! Leva-me para as montanhas ... me esconde em você. Sou o teu segredo. Somos um amor em botão-infinito.

Vou te narrar o meu corpo agora. Ele grita, chora, desespera-se. Agita-se o dia inteiro... revolta-se contra mim... por não levá-lo até você. Sabes que estou te esperando. Treme ao menor sinal teu. Só sabemos te querer agora, baby. Precisas vir atendê-lo... libertá-lo. Vem fazer a minha paz. Vem unificar os nossos corpos, assim como nossas almas estão desde sempre unidas.

Eu te amo!

Chorei por você, amor. Coisa linda... pois havia me prometido nunca mais fazer isso. Eu te amo! Sou tua de verdade.

Literaturas em rede


Literaturas em Rede, como o nome indica, é uma campanha criada pelo site O BULE (www.o-bule.com) que objetiva reunir o máximo de blogues e sites (individuais ou coletivos) de literatura. O objetivo é, com a campanha, reunir num mesmo local (e em rede) pessoas com afinidades em comum: o texto literário e tudo que gira em torno da literatura.

A campanha Literaturas em Rede funcionará em três frentes:

1) Parcerias entre blogues e sites coletivos & O BULE

2) Parcerias entre blogues e sites individuais & O BULE

3) Rede de blogues e sites (individuais e coletivos)

Banco de dados da Rede

E para aumentar ainda mais os fios da Rede, foi criado um questionário para você, interessado em participar da campanha, preencher. Nele, você pode deixar os seus contatos (e-mail, MSN, Skype), os seus sítios (blogue/site) e suas redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter, canal do Youtube etc.) para que os outros integrantes da Rede (apenas aqueles que também preencherem o questionário) possam entrar em contato com você e te seguir. Saiba mais sobre o banco de dados do Literaturas em Rede acessando a página da campanha.


A Rede no Twitter

Como complemento ao Literaturas em Rede, de forma a aumentar ainda mais a rede de leitores, escritores, críticos literários, professores, amantes de literatura, temos uma sugestão de #tag para quem usa o Twitter. Quer saber qual é?


Para conhecer mais os detalhes da campanha Literaturas em Rede e sanar quaisquer dúvidas, é só entrar em contato pelo e-mail coisaprobule@yahoo.com.br

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Filosofia, a vizinha bisbilhoteira de Literatura


Para Germano Xavier,
o poeta por quem Literatura se apaixonou.



Estava Literatura a delirar, gostosamente jogada no sofá, sob um grosso cobertor felpudo. Bebericava um bom vinho e até suspirava, buscando no teto a doce imagem do jovem poeta com quem cruzara à tarde. Se enamorara. Conhecendo-se bem, via aí uma só possibilidade: a do amor.

O encontro havia sido rápido, em condições inapropriadas, mas o rapaz levava na mão Alguma Poesia. Segurava Drummond com segurança e leveza e vez ou outra acariciava suavemente os relevos dourados da capa. Mas era na expressão do rosto, cheia de dignidade e mistério, que residia a sedução. Literatura sabia que se desvirginasse aquele olhar, encontraria lá no fundo um sem fundo de emoções. Sob a aparente quietude, experiente, ela vislumbrava um turbilhão de ânsias, dúvidas, medos, paixões.

Embora Drummond já tivesse iniciado o processo, Literatura, fascinada por inventar, matutava engenhosamente qual estratégia usaria, qual o subterfúgio para chamar-lhe a atenção, quando o soar incômodo da campainha insiste em lhe trazer pro chão.

Aborrecida, joga o cobertor de lado e abre a porta pra barulhenta vizinha, que encontra em total estado de confusão. Pálida, magra, rabo-de-cavalo desgrenhado, olheiras profundas sob o vidro de garrafa de enormes óculos redondos, se apresenta como Filosofia e estica, trêmula, um pote vazio. Tão perturbada estivera durante o dia, tentando achar pelo em ovo, que esquecera de passar no mercado. Agora se via assim: dependente e carente, precisando desesperadamente de uma xícara de café bem doce e quente.

Tanta rima em alguém que parecia tão prosa soou estranho à Literatura. Enfim, se o vício do café vinha acompanhado pelo do açúcar, não seria ela, ainda mais no estado em que se encontrava, a negar um pouco de doçura. Enche o pote, pedindo a Deus que a vizinha importuna se vá logo e a deixe de novo a devanear.

Mas... como toda boa bisbilhoteira, Filosofia, em vez de se ir com seu açúcar, avança pelo corredor e invade a sala, na desculpa de admirar o belo quadro, na parede sobre o sofá.

Literatura, vaidosa, se deixa envolver pelo interesse e admiração da nova amiga, e num arroubo de exibicionismo, louca pra falar do borbulhar de seus sentimentos, a convida ao vinho e até mesmo ao cobertor.

Filosofia não resiste à tentação. Afinal, pra quem esperava da noite um bule de café na solidão, estar sob um cobertor quentinho, inebriada pelo vinho e em companhia de tão sedutora Literatura a levava a imaginar que, enfim, os deuses haviam se lembrado de a presentear.

Já meio alta, Literatura, viciada em intimidade, envereda por conversas pessoais e acaba por narrar em detalhes suas intenções em relação ao jovem poeta. Como o conhecera, o que ele lhe despertara, o que vinha matutando desde o primeiro minuto em que o encontrara.

Filosofia, já corada, escuta, atenta, interferindo apenas com pequenos gestos, olhares assustados e suspiros de admiração. Não teria coragem de se expor assim... de falar de seus próprios sentimentos, de se confessar apaixonada por um inocente rapaz a alguém que acabara de conhecer. Nem ao menos sabia se seria capaz de se apaixonar, nalgum dia... Tamanha autoexposição parecia, a Filosofia, verdadeira extravagância. De seu deserto íntimo, tentava imaginar como Literatura conseguia mergulhar tanto em tão recente sentimento e se perguntava se nalgum dia teria tal capacidade de entrega.

O fato é que enquanto desenvolvia esse raciocínio, quase sem perceber, Filosofia se abandonava à doce voz de Literatura. Aos poucos, a aflição do dia se desvanecia. Desvencilha-se do apertado elástico do rabo- de-cavalo, desfaz-se dos sapatos e da tensão. Acomoda-se melhor, se serve de um pouco mais de vinho e percebe a figura da amiga ficar desfocada, seus lábios em movimentos mais lentos, a voz se distanciando. Envereda por um cochilo em que os sons se vestem de letras, e as letras dançam em harmoniosas frases de sedução. É o poeta, tão jovem, e suas mãos segurando um livro. A expressão cintilando de curiosidade. Seu sorriso comedido, a atenção focada. A paixão, invasiva, penetrando as palavras através do olhar do poeta e as palavras, atrevidas, penetrando o poeta...

Embalada pelo sono, Filosofia sente a fina pele de Literatura empurrando suas pernas, procurando espaço. Ouve, longe, seus suspiros, talvez desejo de ar puro.

Mas, tão possuída pelo sono estava Filosofia, e tanto lhe agradava aquele sono acompanhado, que pouco se importou com o desejo de liberdade da amiga.

Amanhece ao seu lado, e, ainda assonada, num susto, percebe-se apaixonada. Sem desejar ir, se vai.
Ao acordar, Literatura sente a sombra de Filosofia ainda pela casa. A taça vazia do vinho, o interesse enroscado ao cobertor, o elástico que lhe apertava as ideias jogado num canto qualquer. Guarda-o cuidadosamente, prevendo um retorno da amiga, que, com certeza, estranharia ter as próprias ideias circulando muito livremente.

Como era de se esperar, ao entardecer Filosofia vem em busca do elástico opressor.

O primeiro encontro se dera por conta de alguma doçura. O segundo pelo esquecimento. O terceiro se daria por nenhum outro motivo senão o da já avançada paixão. E a cada dia, pílulas de novidades enchiam mais e mais de crescente interesse a já tão curiosa Filosofia. Porque o poeta fora fisgado e já tinha, com Literatura, todos os dias, um encontro marcado.

E se no primeiro momento Filosofia se apaixonara, a cada nova aventura amorosa da engenhosa amiga, sua paixão crescia. Um querer saber, um querer entender, um querer, talvez, ser, através da outra.

Os encontros diários com o poeta vinham emprestando à Literatura um viço cada vez mais flagrante, e as pesquisas da curiosa amiga adicionavam a isso algo ainda mais instigante.

E, se Filosofia vinha saber das carícias que Literatura trocava com o jovem rapaz, Literatura também não se furtava a tentar compreender as frustrações da amiga. Que lhe confidenciava coisas estranhas e tristes. Que se julgava incapaz de criar por si mesma, e que raramente dizia algo que não se baseasse em alguma aventura alheia. Que se enamorava muito, mas não se fixava nem entrava de cabeça. Que tinha dificuldade em se entregar. Que tomava, por precaução, um anticoncepcional que a tornava estéril e que, embora isso lhe frustrasse, lhe trazia alguma tranquilidade, pois sempre temera parir algo que lhe desse asas para voar.

Acontece, enfim, o previsível: Filosofia se vicia nos relatos de Literatura sobre os encontros com o novo amante. Nas descrições pormenorizadas de seu íntimo relacionamento. Na doçura de suas palavras ao falar do toque suave dos dedos gordinhos do poeta correndo por seus parágrafos. De seu hálito, invadindo suas páginas em suspiros prolongados sempre que se mostrava atrevida. De seus dentes, muito brancos e alinhados, em lindos sorrisos roubados. Das emoções, na partilha dos sentimentos, nas constatações de experiências similares. Do bater de seu coração, que se acelerava sempre que o provocava, perturbadora. De seu silêncio, um silêncio cheio de significados. E do desejo, um desejo pulsante de encontros infinitos, sem tréguas, sem pausas. Dos mergulhos profundos de um no outro. E do pesar, do imenso pesar no momento da separação diária.

Não foi preciso muito para que aquela que se julgava incapaz de se apaixonar se descobrisse duplamente apaixonada: por aquela que lhe relatava suas intimidades com o amante e pelo amante, cuja atenção invejava.

Filosofia, ciumenta, questionava Literatura pela imprudente bigamia. Como se atrevia a se entregar ao poeta e ao leitor, e sem culpa, sem remorso, sem qualquer ranço de pudor?

Literatura, paciente, tentava fazer com que Filosofia entendesse que nada havia de vergonhoso no que fazia. Era o poeta que lhe imprimia seus atributos mais caros. Era dele que lhe vinha a graça, a cadência, a intensidade. Era ele que a enriquecia com sentimentos confusos, rimas raras, esplendorosas imagens. E o leitor, com sua admiração e fidelidade, lhe enchia de vaidade e dava sentido à sua vida. O poeta a paria, o leitor a consumia. E Literatura estava radiante, pois encontrara os dois num só, e vinha se sentindo duplamente amada.

Que infinita agonia se apossou de Filosofia ao perceber que Literatura não mais se satisfaria com encontros públicos... Em uma conversa a portas muito fechadas Literatura confidenciou à amiga que encontros em agradáveis cafés já não lhe bastavam. Carícias leves, correr de dedos, olhares apaixonados sempre sob a vista de curiosos vinham deixando Literatura mais ansiosa a cada dia. Não. Ela queria o poeta ali, debaixo de seus lençóis. Queria que ele estremecesse aos seus sussurros, que navegasse em seus mistérios, que a desnudasse e se deixasse desnudar. Que a vasculhasse despudoradamente por todos os recantos, que se desgovernasse em suas entrelinhas mais sutis e que encontrasse nela alento para todos os desencantos da vida. Queria que ele pudesse, na intimidade de seu quarto, chorar aconchegado em seu peito, gemer juras de amor ao seu ouvido, gozar o mais puro gozo dos apaixonados. Que mergulhado nela, o poeta pudesse, enfim, esquecer por completo da realidade. Que ficassem longe, muito longe, todos os medos e todas as dúvidas. Que seu amor fosse a resposta para suas infinitas perguntas e que pudesse lhe trazer, enfim, alguma certeza.

Tão excitada estava Literatura, tão corada e possuída pela expectativa, que nem percebia a palidez crescente da amiga enquanto lhe contava que o poeta lhe visitaria, ali mesmo, em sua casa, naquela noite. Que prepararia algo especial para o jantar, que haveria velas espalhadas por todos os ambientes, e que pretendia que a noite terminasse em sua cama. Separara alguns trechos de seus escritores preferidos, e seu plano era de que o poeta, bom leitor que é, os lêsse baixinho ao seu ouvido.

De repente, Filosofia se entrega a intensa vertigem e não fosse a amiga amparar-lhe nos braços, teria se estatelado de cara no chão. Segue-se então uma série de cuidados. Que sentasse confortavelmente no sofá, que respirasse fundo, que se acalmasse, que esperasse que já faria um chá... afinal, o que é que lhe perturbara tanto?

Depois de uma conversa cheia de reticências, rubores e aflições, firma-se um acordo. Generosa, Literatura não poderia deixar Filosofia minguar consumida pela curiosidade. Se era mesmo verdade o que lhe confessara sobre seu caráter parasitário, muito provavelmente, enquanto literatura estivesse fazendo amor com o poeta, Filosofia estaria sofrendo desgraçadamente no apartamento ao lado.

Não... embora às vezes fosse difícil e um tanto quanto sem graça, Filosofia não merecia isso...

Seria assim o combinado: caso mais à noite – e em todas as outras noites também – Filosofia se sentisse só e precisasse de um café, e percebesse ter esquecido de comprar açúcar, que viesse. A porta estaria sempre destrancada. Podia entrar e se servir. E... caso ouvisse gemidos de amor no fundo do corredor, se soubesse se aproximar pé ante pé, sem se fazer perceber, a porta do quarto estaria sempre entreaberta. Que fosse discreta.

Quanto ao receio de desagradar ao leitor e ao poeta com sua intrusão, Literatura sugeriu à amiga que deixasse por sua conta. Se já conhecia, ao menos um pouquinho, sua natureza, saber de alguém espreitando por uma fresta provavelmente seria mais um componente para aumentar-lhes o tesão.

E – conjecturou Literatura, sonhadora - quem sabe, nalgum dia, fizessem amor a quatro...



Analú
22/02/2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O buraco


estou cavando um buraco
que vai dar no fim do buraco.
minhas mãos estão sujas. minhas unhas,
entupidas de um pó encarnado.
foram desgastados até o limite com a carne
os ossos dos meus dedos,
porque estou cavando um buraco
que simplesmente vai dar no fim.
ao passo que cavo o meu buraco,
vou encontrando criaturas que vivem debaixo da terra
e que também cavam seus buracos.
eu cavo para me proteger do mundo
- o que conheço me desespera demais.
o buraco é o meu muro, minha fortaleza,
minha torre de contenção.
eu cavo, vou cavando,
um túnel fechado na escuridão deixo para trás.
minha sombra ocupa o túnel do buraco,
entra num impulso e faz toda a reforma.
quando eu chegar ao fim da escavação,
quero encontrar na principal galeria subterrânea
a loucura dessa minha ilusão.

Jornal Literário O Equador das Coisas


O EQUADOR DAS COISAS, blog de literatura e arte em geral com mais de 5 anos de existência na internet, agora também será um Jornal Literário em versão impressa no formato Tablóide, com edições bimestrais contendo 8 páginas em papel reciclado. A proposta não tem fins lucrativos, mas receberemos apoio de empresas e pessoas interessadas que queiram colaborar para com as despesas gráficas. Em contrapartida, divulgaremos suas respectivas marcas/logomarcas no corpo do jornal. O objetivo principal é a difusão da arte literária e a divulgação dos trabalhos enviados por colaboradores. O Jornal Literário O Equador das Coisas custará o valor simbólico de 1 Real, será distribuído em grande parte da extensão da Chapada Diamantina, Bahia, Brasil e, quiçá, Mundo. Toda a renda adquirida com a venda dos exemplares, será transformada em alguma ação de cunho social em prol de famílias carentes do município baiano de Iraquara-BA. Você que é contista, cronista, poeta, jornalista, professor, entre outras ocupações, que esteja interessado em colaborar com o projeto, leia as informações abaixo e saiba como participar:

Quem pode enviar material para avaliação?

Todos aqueles que escrevem. Embora tenhamos a intenção de convidar alguns autores, o Jornal Literário O Equador das Coisas será alimentado, principalmente, pelos textos enviados por escritores que (ainda) não são conhecidos da maior parte do público leitor.

O Jornal Literário O Equador das Coisas é impresso?

Sim. Inicialmente, com tiragem de 1.000 exemplares, com edições bimestrais, em formato Tablóide, com 8 páginas em papel reciclado de ótima qualidade. Esperamos uma ampla divulgação e, em um futuro próximo, conforme haja demanda, tentaremos viabilizar tiragens cada vez maiores.

Qual a periodicidade da publicação?

O Jornal Literário O Equador das Coisas será publicado a cada dois meses. Acreditamos que, bimestralmente, teremos tempo o suficiente para avaliar todos os trabalhos e preparar uma edição de boa qualidade.

Qual a melhor maneira de entrar em contato com o jornal?

Para solucionar quaisquer dúvidas, o e-mail para contato é: germanoxavier@hotmail.com


Prazo final para envio de materiais a serem publicados na Primeira edição:
25/02/2012


Publicação da Primeira edição: Março/2012




NORMAS PARA ENVIO DE MATERIAL

Os trabalhos deverão ser apresentados em arquivos de Documento Word (.doc, .docx) e enviados para germanoxavier@hotmail.com

Em relação ao arquivo:

- As obras deverão ser anexadas ao e-mail em um arquivo (as mesmas não deverão ser coladas no corpo da mensagem).

- Preferencialmente, os trabalhos deverão ser enviados em um único arquivo - independente da quantidade de textos presentes nele.

- Não há limites para o número de textos enviados em um arquivo. O autor pode selecionar quantos textos desejar para submetê-los à avaliação.

- Identificar o conteúdo do e-mail no campo “Assunto”.

- Além das obras, pedimos para que os autores nos enviem uma minibiografia (de, no máximo, 4 linhas), podendo acrescentar, ainda, endereços para contato (e-mail, blog, site). (Observação: caso a minibiografia não seja enviada, a publicação divulgará apenas o nome do autor)

Em relação aos trabalhos:

- As categorias pré-definidas pelo jornal para envio de material, bem como as especificidades em relação aos textos, são as seguintes:

Contos – Crônicas - Poemas - Haicais - Resenhas - Charges/Tirinhas/Caricaturas – Fotografias – Ensaios - Indicações Literárias

Observações:

- Outras obras que não discernidas dentre as categorias supracitadas poderão também ser enviadas, desde que concernentes ao assunto basal do jornal – ou seja, literatura e arte.

- O não cumprimento das normas acima, a priori, não fará com que nenhum trabalho seja desconsiderado. Consideraremos as especificidades de cada trabalho, associando-as à viabilidade de publicação/edição do jornal.

- Todos os trabalhos serão avaliados e os autores receberão uma resposta no que tange à publicação.

Em relação aos patrocinadores:

- Para a empresa ou pessoa civil que tiver interesse em colaborar com as despesas gráficas, o Jornal Literário O Equador das Coisas, em contrapartida, divulgará em suas páginas a marca/logomarca da empresa, seguindo as seguintes especificações:

Publicidade Tamanho Básico (9x5cm): 50 Reais
Publicidade Tamanho Duplo: 90 Reais
Publicidade Tamanho Triplo: 130 Reais
Publicidade Um Terço/Página: 200 Reais
Publicidade Dois Terços/Página: 350 Reais
Publicidade Página Completa: 500 Reais

Para qualquer outro tamanho, os preços serão combinados.


Esperamos a participação de todos!

Modelo normativo baseado no utilizado pela Revista Macondo.

Uma crônica em três tempos


Tempo II - A Iraquara do seu Juquinha


Era ele, sempre, como num ritual sagrado e atemporal. Todo santo dia, lá estava “seu” Juquinha, recarregando as lâmpadas dos postes de luz de Iraquara. Foi um avanço quando o prefeito da cidade de Seabra-BA, Manoel Teixeira Leite, ainda na década de 50 do século XX, destinou à cidade algumas unidades das lâmpadas Petromax e Colemam, e em pontos estratégicos iluminou as ruas iraquarenses, outrora escuras e amedrontadoras. Acostumados com uma Iraquara feia e noturnamente intransitável àquela época, pois não havia energia elétrica nas ruas, tampouco nas casas, os antigos moradores, que acendiam fifós em suas casas, acabavam clareando um pouquinho as calçadas nuas e sujas. Ao verem seu Juquinha malinando naquele arcabouço metálico pendurado no mastro, de inox e ar no bojo, bombeando ar para o receptáculo onde ficava a camisa de amianto e a mistura de álcool e querosene, sentiam-se felizes porque o breu tinha hora para acabar, mesmo que por um curto espaço de tempo.

Iraquara bem poderia ter sido, durante seus primeiros anos de vida, cenário para filmes de faroeste norte-americano, com aqueles lugarejos vazios de almas e cheios de mistérios. Iraquara já foi uma cidade-fantasma, não é exagero dizer. As estradas, quase todas em precário estado de conservação, de cascalho e barro, não facilitavam o contato com as outras cidades. A falta de calçamento apropriado, a presença de buracos no meio das vias públicas, o lamaçal em que se transformava quando a chuva apertava, tudo isso fazia com que o recolhimento dos habitantes dentro de seus aposentos fosse marca de um passado nada distante. A falta de conforto, em todos os sentidos e segmentos, era visível. Sem higiene nem saúde, porcos, jumentos e outros animais disputavam com pessoas restos de alimentos após o fim da feira dos sábados, a fim de se lavarem as almas esfomeadas.

E o “seu” Juquinha, tio da Maria Neta¹ escritora, assim como outros personagens iraquarenses, iluminando tudo sem pedir muito ao destino, as dores e as alegrias deste povo que traz o pé encardido como sinal de bem-aventurança desde o momento da nascença. Clareando as quedas das mulheres casadas quando tentavam driblar as poças e os charcos - um escândalo para a época. Aquela luzinha temporária, esgotável, alumiando as infâncias maravilhosas, de brincadeiras de pular, de correr, de esconde-esconde, de galinha-gorda, de dar bolo, pega-pega, baleado, jeribita, boca-de-forno, elástico, casinha, panelinha e de boneca. Tudo para ver a meninada mais livre, sem esta falsa felicidade que os jovens de Iraquara estampam hoje em seus rostos, mancebia regada a combustíveis alienantes e mecânicos.

Incansável Juquinha, dando carga com a força dos braços para ver Iraquara crescer, para ver a menina Maria se deslumbrar com uma boneca que chorava e a outra que dormia, trazidas por seu pai dentro de uma malinha de lá de Belo Horizonte, em uma de suas inumeráveis viagens pelo Brasil. Eram brinquedos que ninguém possuía na cidade, sem falar na cama Patente para as bonecas que também ganhou. Para ver a Maria voltar do Instituto Ponte Nova nas férias, hoje cidade de Wagner-BA, e engolir piaba viva e amarrar cabaça no corpo para aprender a nadar no rio que a sede nunca possuiu, mas que foi distribuído em abundância pelos povoados de Caiçara, Ingazeira, São José, Pratinha, Riacho do Mel e tantos outros. Luz para ver a Maria sonhar em ser aeromoça, policial feminina, assim como ajudar a “costurar” perna de rapaz ferido e ver o doutor Américo Chagas cauterizar gente doente usando de talos de folha de côco raspados e enrolados em algodão. Tio bombeando luz para que a Maria pudesse ler nas noites as revistas O Cruzeiro e Manchete que o pai Abdias Dourado fizera assinatura, para no futuro ver nascer dentro dela o gosto pela escrita e pela educação.

Juquinha que quis ver o "vestido venturoso" no corpo da Maria, ganhado do deputado Souto Soares, depois de recitado o seguinte versejo numa festa de recepção ainda bem lá nos idos de brotação citadina:

"Neste dia venturoso
cheio de luz e esperança
aceitas, doutor Souto,
estas flores por lembrança?"

Homem Juquinha que viu a chegada do “motorzinho” movido a óleo diesel que acendia Iraquara todinha às 18 horas, dava sinal que ia apagar dez para as dez da noite e que parava de gerar energia pontualmente às 22 horas, dispensando no porvir próximo seu trabalho de acendedor de postes, num já calculado pequeno indício de "progresso" dos tempos aportando na Chapada, sem ter dó de ninguém.

Iraquara mudou, sim, e cresceu - o mínimo que poderia crescer, é de se saber - em débito impagável para com milhares de Juquinhas, que com amor e ação fizeram com que os dias iraquarenses fossem preenchidos com radiações luminosas, ancorados nos raios matinais que não cansam de nos surpreender quando ultrapassam a barreira das serras e dos morros diamantinos.


Notas.
1 – Anna Maria Félix dos Santos é escritora, autora do livro Iraquara Ontem, hoje e sempre.

Auditório Robinson Ribeiro é palco de formação de gestores escolares


Aconteceu na última quarta-feira, dia 15 de fevereiro, na cidade de Iraquara-BA, o primeiro Encontro de Formação de Equipes Gestoras em Educação do ano de 2012. O evento tem como público alvo os diretores e coordenadores de toda a rede de ensino municipal e acontece de acordo com a demanda de atividades neste setor, geralmente mensal ou bimestralmente, servindo para efetivar um diálogo condizente às problemáticas das escolas ou sobre algum projeto específico da Secretaria de Educação (SEMEC) que tenha necessidade de ser discutido coletivamente com todas as comunidades escolares. “O encontro de hoje tem o propósito de iniciar um debate acerca de alguns projetos que temos em mente para os festejos do cinquentenário iraquarense, no mês de julho deste ano, e também para o decorrer de todo o ano letivo. As equipes gestoras terão de desenvolver atividades de leitura, produção de textos e pesquisas nas escolas a fim de produzir material de cunho memorialístico para posterior publicação”, afirmou Cleide Cerqueira, Supervisora Técnica do Ensino Fundamental I e uma das organizadoras da pauta matinal do encontro. “Queremos também publicar uma antologia de memórias a partir do material produzido em cada pólo de educação do município”, confirmou Elaine Alves, Supervisora Técnica do Ensino Fundamental II. “O papel do pessoal da SEMEC é o de instrumentalizar as equipes gestoras na direção do desenvolvimento das atividades que são feitas seguindo algumas etapas”, reforçou Cleide. O primeiro encontro foi separado em duas partes: durante o período da manhã, desenvolveu-se uma oficina de produção de memórias literárias com a intenção de discutir quais são as características desse gênero textual, quais as fases necessárias para se produzir as memórias, partindo do ler, passando pelo entrevistar (ficou claro que a intenção é buscar informações oriundas de pessoas com faixas etárias mais elevadas) e indo até a escrita propriamente dita. Para isso, foram feitas algumas leituras em conjunto no auditório Robinson Ribeiro, espaço que faz parte da Biblioteca Pública Municipal Elias Vieira Gama, seguidas de socialização dos comentários por parte dos gestores presentes. Já durante o período vespertino, foi trabalhado o Projeto Sessões Simultâneas de Leitura (PSSL) e, também, deu-se início às propostas e debates referentes às comemorações dos cinquenta anos de emancipação da cidade de Iraquara. Encontros formadores neste modelo já são uma prática da SEMEC desde o ano de 2009. De acordo com Flávia Alves, Diretora Pedagógica da Secretaria de Educação (SEMEC), “as ações do PSSL acontecerão antes, durante e depois das aulas de leitura e objetivarão qualificar o ato de ler, já que é perceptível em nossa rede escolar a presença de um público leitor já devidamente consolidado. O foco será trabalhar com textos literários, que serão selecionados pelos próprios professores, tendo em vista alguns critérios já pré-estabelecidos. A partir da seleção do material, o professor levará o livro para casa, fará a devida leitura, escreverá uma resenha sobre ele, divulgará sua resenha no ambiente escolar convidando todos os estudantes para a sessão de culminância. Feito isso, professor e coordenador planejarão a aula de leitura referente ao PSSL, tentando garantir as condições didáticas do antes, do durante e do depois da leitura. Por exemplo, se o texto escolhido foi um conto de terror, a sala precisa ser caracterizada para dar a sensação de terror, da mesma forma um conto de fadas, tentando sempre transmitir esse tipo de encantamento aos alunos. Outro projeto discutido foi o Projeto Cinquentenário – História e Vivências de Iraquara, que tem por base discutir questões pertinentes à educação patrimonial dentro das escolas iraquarenses. Para isso, as escolas definirão suas propostas de trabalho, seguindo os seguintes recortes: Belezas Naturais, Aspectos Históricos, Artesanato, Aspectos Geográficos, Manifestações Culturais e Tradições, Memórias, Causos e Lendas, Personalidades, População, Escritores da terra e suas obras, Educação, Comércio, Aspectos Políticos, Atualidades, Saúde, Economia, Culinária, Arquitetura, Comunicação, Religiosidade, entre tantos outros. Flávia Alves ainda revelou que haverá a publicação de produções textuais e artísticas feitas por estudantes e professores das escolas municipais no intuito de valorizar os nossos talentos nos diversos campos das artes e da literatura. Sirleite Neves, Supervisora Técnica do Ensino Infantil, disse que a SEMEC intenciona lançar ainda no final deste ano uma revista para prestigiar outras produções de nosso município.

Escritora iraquarense lançará seu terceiro livro


A escritora Maria Neta pretende lançar neste ano de 2012 o seu terceiro livro, intitulado de Casos e Causos. A obra trará em suas páginas uma coletânea de histórias que dialogam com acontecimentos verídicos e, também, com situações fictícias, brotadas da imaginação da escritora, que aproveita para fantasiar criando personagens, enredos, paisagens e ações bem particulares. “Tem histórias que muita gente da cidade sabe ou saberá do que estou dizendo quando começarem a ler, já outras são totalmente novas, criadas por mim e baseadas em minhas vivências. Eu também transformei várias histórias numa só, no caso específico de alguns textos do livro, o que deixará o meu leitor ainda mais curioso para saber do que se trata”, diz a filha do emblemático Seu Douzinho. “A maioria dos casos que retrato nesse livro eu ouvia do meu pai, que me contava muita coisa, principalmente fatos relacionados à vida dos antigos garimpeiros daqui da nossa região. Minha preocupação maior é a de resgatar um pouco mais acerca de nossa vasta cultura, valorizando o que é nosso através da história, para que o jovem de hoje leia o livro e tenha, ao menos, uma noção do que foi o nosso passado, tentando fazer com que saiba ele fazer as devidas comparações com relação ao passado e ao presente”, reforça. O livro Casos e Causos, que foi revisado por Hermano Queiroz e que contará com ilustrações do artista plástico Marcel Gama, será dividido em capítulos e também destacará a esfera da religião, das rezas e das rezadeiras, fará um esboço comparativo entre os modos de vida do sertanejo e do lavrista (uma alusão ao período das Lavras Diamantinas), uma parte dedicada às crianças/infância e também à vida como educadora na cidade de Iraquara-BA. “No começo, eu achava repugnante quando meu pai chegava e começava a me contar aquelas histórias de bravura dos jagunços, mas hoje sei que é uma parte de nossa história e que precisa ser registrada”, confessa Maria Neta, que ainda diz que a escolha do formato capitular de seu livro se deu porque assim haverá uma maior fluidez na leitura, o que tornará menos cansativo para o leitor. “Com o Casos e Causos eu objetivo retirar o meu leitor, mesmo que por poucos instantes, dessa vida de correria, de tanta violência, fazer com que ele se distraia um pouco e com uma distração de qualidade. Já estou vendo algumas parcerias, tanto aqui como na capital baiana, para que o livro esteja pronto o mais rápido possível. Se tudo der certo, gostaria muito que o lançamento fosse na mesma época das comemorações do cinquentenário da nossa cidade, vamos ver.” A escritora ainda revela que já pretende começar a finalizar o seu quarto livro, este agora de poemas, com o título já definido de Além da Imaginação.

Imagem mais antiga da cidade de Iraquara-BA



De acordo com a escritora e professora iraquarense Maria Neta, esta é a primeira e mais antiga imagem da cidade de Iraquara-BA. O ícone retrata Nossa Senhora da Conceição e pertenceu ao seu bisavô, Manoel Félix da Cruz, ainda no século XIX.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Natal de Baltazar


É véspera de Natal e Baltazar encontra-se muito indeciso: não sabe o que presentear ao seu melhor amigo, o ratinho Martin, na noite natalina. Porém, Baltazar resolve pegar sua coleção de bolinhas de gude, seu brinquedo predileto, e trocar por um boneco para ser o maquinista da locomotiva de Martin na loja de brinquedos do senhor Merlim. É véspera de Natal e o ratinho Martin encontra-se muito indeciso: não sabe o que presentear ao seu melhor amigo, o Baltazar, na noite natalina. Porém, Martin resolve pegar sua linda locomotiva, seu brinquedo predileto, e trocar por um caixa guarda-gudes na loja de brinquedos do senhor Merlim. Na noite de Natal, os dois trocam os presentes e percebem que alguma coisa deu errado. Este é o enredo do livro O Natal de Baltazar, escrito por Emma Kelly, Marie-Helene Place e ilustrado por Caroline Fontaine Riquier. Só não conto o final. Boa leitura, bucaneiros!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Silêncio


Muito cuidado, o fogo está apagado.
Ainda é cedo,
pode ser tarde demais,
muito cuidado, lume morto.
O fogo está apagado,
mas há um incêndio em todo fogo apagado,
há um incêndio!

Labaredas, chamas combustivas,
calor, matéria inflamável...
Muito cuidado, você, que o fogo está apagado!
Língua de fogueira, fogão, lareira, fósforo, isqueiro,
quem riscará? Quem se arriscará?
Pirotécnico artifício, queima em artilharia, energia e ardor,
dor somente, entusiasmo ou espasmo, excitação com brilho,
fulgor, fogacho, focus ignífero.

Escândalo, padre nosso, o fogo está apagado!

- Silêncio – pede o homem na gare Saint-Lazare.
- Silêncio – clamam os partícipes d’A Cruzada Santa, do Dario Fo.
- Silêncio – insinua o cenho de Madalena, a pecadora.
- Silêncio – reclama o sono de Maria Nys Huxley.

Muito cuidado com o fogo apagado,
há sempre um incêndio previsto para o amanhã.

11º poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco:Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Notas sobre a notícia e o jornalismo


De acordo com as teorias construcionistas, a citar a estruturalista e a interacionista, podemos concatenar, de antemão, que as notícias são o reflexo – não no sentido de transposição, mas no de construção - de um trabalho de ordem coletiva, o que até aqui não deixa de ser apenas uma análise óbvia. Todo trabalho/produção denota a utilização de critérios e métodos para sua realização. Com o trato noticiário não é diferente. As notícias são como são, não porque elas são matérias pré-concebidas ou pré-moldadas, reflexos da realidade, como defende a Teoria do Espelho, mas sim porque existe a necessidade da lapidação desse objeto, desde o momento em que ele é apenas um acontecimento até o instante em que ele é transformado, com a utilização de inúmeros recursos, em notícia propriamente dita. O jornalista é, aqui, visto como um ourives, um talhador, pois é dado a ele a função ou o poder de “dar vida” ao fato. Claro, não podemos deixar de associar o fato de as próprias notícias serem construções, ou seja, é evidente a possibilidade do próprio acontecimento ser resultante de interações que dependam dos fatores organizacionais e dos mapas culturais acionados pela figura do repórter. Aqui, estamos diante de outro ponto importante: as notícias são também o que são por representarem um interesse próprio que não o individual, porém jamais sendo de caráter imparcial – trato mais plausível quando das ferramentas ligadas às teorias da ação política, posto que as teorias construcionistas negam o caráter de distorção das notícias. Se é imparcial, óbvio também, elas podem ser distorcidas. As teorias construcionistas falam da interação entre fonte, jornalista e sociedade, uma espécie de cultura profissional. É importante salientar aqui, novamente, o corpo do aparelho jornalístico (empresa, editoriais, jornalistas). Há na teoria estruturalista um quesito bem fechado diante do que pode ou não pode ser notícia. Acredita-se piamente no que é de ordem primária e basal. A credibilidade e a legitimidade dos fatos só são conquistadas ou reconhecidas se o material for oriundo de fontes oficiais. Essa visão vai de encontro aos que defendem a teoria interacionista, que dizem haver a possibilidade clara de que algo proveniente de outras fontes/bases, que não as oficiais, possam, e com boas chances para tal, tornar a ser um produto final e polido. Nesse ínterim, também surgem outras condições que fazem das notícias o que elas são: uma delas é o desenvolvimento e a acurácia com duas problemáticas fundamentais: o tempo e o espaço. É preciso estar onde o fato/acontecimento ocorre. Decorrente disso, há uma preocupação com a divisão das várias facetas do espaço de trabalho: mundo em áreas, jornais/empresas em editorias, ou seja, uma segregação do aparelho como um todo. Valoriza-se o instantâneo/atual em detrimento do recém-atual, que já se constitui em passado. Uma estratégia de organização e otimização de toda a produção jornalística. Tomando como pressupostos fundamentais e inerentes à prática e ao exercício do jornalismo, podemos inferir que as notícias são como são porque simplesmente utilizam desses recursos, sem nunca se esquecer dos interesses e dos possíveis interessados. Outro ponto de destaque, em todo o campo jornalístico, dizem tratar-se dos critérios de noticiabilidade que envolvem a construção da produção da notícia, tais quais os critérios substantivos e de produto. São vários os critérios de noticiabilidade, tomando em consideração as diversas abordagens/teorias que o jornalismo enquanto ciência perfaz. Aqui, os valores/notícias revelam, com justiça, os seus reais significados. Tudo inteiramente e intensamente relacionado. As características construtivas da notícia, algumas já citadas anteriormente neste mesmo texto, tornam ainda mais perceptível o caráter de construção/produção que a notícia agrega. O trabalho de artesão do profissional desse segmento é ainda mais indispensável, tendo ele que fomentar um ordenamento para a efetuação de suas capacidades, o que se costuma chamar de “rotinas produtivas”. Trabalha-se a apuração, a seleção e a publicação/materialização do fato com a finalidade de – e aqui eu repito o termo – “dar vida” ao que é, principalmente, atual, estritamente avesso ao cotidiano ou ao que foge ao natural (caráter extraordinário), ao que se refere ao grau hierárquico da fonte, ao que é de interesse de um contingente maior de pessoas, ao que atinge de forma hierárquica os segmentos sociais (quanto maior for o interesse das classes mais altas, mais noticiável é o fato), o que diz respeito ao capital que move este setor. Sendo assim, torna-se viável e de bastante funcionalidade/praticidade o respeito aos critérios que fazem o constituinte-mor do jornalismo – sem esquecer a importância da gestão da linguagem, das diferenças e particularidades de cada meio, como o televisivo e o impresso, da necessidade do uso de uma linguagem diversificada de acordo com o material-produto, as questões que giram entorno das novidades, entre tantos outros pertinentes aos critérios de produto -, a notícia ou o fato-noticiável, a mercadoria mais preciosa e motor de toda essa engrenagem, daí a importância das rotinas produtivas no processo de produção das notícias. Toda rotina produtiva implica em um exercício de disciplina. Em contrapartida, todo exercício de disciplina nos remete a uma aplicação mais ordenada e eficaz de todo o aparelho e dos conhecimentos/experiências adquiridos durante toda a vida profissional do jornalista. Existe, através do emprego desse conjunto de ferramentas, uma probabilidade mais reduzida de se observar desperdícios e ramificações de caráter dispensável nas notícias. Dentro das rotinas de produção, três são os pilares que as suportam: a apuração, a seleção e o ato final, que é o endereçamento, em forma de texto/imagem, edição da notícia ao leitor/ouvinte. Esse processo, que parece ser demasiado simples, implica em diversos encadeamentos - tudo se faz muito importante, sem falar na relevância das agências de notícias e do bom uso dos memorandos, ou seja, das notícias planejadas. Por exemplo: no momento da apuração, o jornalista deve ter e manter uma rede de fontes críveis, a ponto de tornar mais ágil e dinâmico o seu esforço. Isso acontece, também, nas outras duas fases (seleção, publicação). Seguindo esses direcionamentos, que são tanto do aparelho da empresa quando do indivíduo, o jornalismo consegue, na maioria das vezes, cumprir o seu papel de informar integralmente e instantaneamente o público ao qual se destina. Destarte, é fácil entender o jornalismo como importante forma de conhecimento devido a simples fatores, tais como:

• O jornalismo é um aparelho produtor de conhecimento de rápida circulação, de fácil absorção e extremamente popular; é o único meio de produção e interação intelectual de muitas pessoas no mundo; é meio fomentador de discussões concernentes aos mais diversos segmentos sociais; é, querendo ou não, formador de opinião e de consciência crítica, servindo de ponte para as mais variadas conquistas ideológicas etc.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

II SIA – 2ª Semana de Integração Acadêmica UPE


Com a intenção de debater temas e problemas do cotidiano universitário, tanto no que abrange questões de interesse nacional como mais particularmente das problemáticas da Universidade de Pernambuco (UPE), ou ainda, das dificuldades enfrentadas pela comunicada universitária do Vale do São Francisco, a Semana de Integração Acadêmica (SIA), que está em seu segundo ano de existência, realizou uma série de discussões em prol do melhor esclarecimento, da aproximação e do desenvolvimento de posicionamentos críticos saudáveis por parte do corpo discente/docente perante toda a esfera alcançada pelos meios acadêmico-universitários. Com a proposta de discorrer sobre o tema “O que é a Universidade?”, o professor e sociólogo Celso França esforçou-se para trazer um apanhado geral condizente ao assunto. Entre tantos tópicos abordados, alguns merecem destaque, como por exemplo:

• O verdadeiro papel da universidade;
• A universidade e a formação ideológica;
• Universidade e campo sociológico;
• O que é ser intelectual;
• Mercantilização da educação;
• Universidade e campo revolucionário;
• Gratuidade da universidade;
• Classes sociais (dominantes e dominados);
• Microsociologia;
• Os problemas e dificuldades enfrentadas pela universidade pública;
• A universidade como instituição democrática;
• Sul/Sudeste: centros de excelência;

No segundo dia de debate, João Adolfo Monteiro, representando a União Nacional dos Estudantes (UNE), expôs idéias e pensamentos referentes à reforma universitária. Temáticas trabalhadas por ele podem ser resumidas em:

• Restaurantes universitários;
• Verbas direcionadas;
• Assistência estudantil;
• Condições de moradia mais favoráveis;
• Creche universitária;
• Ensino, pesquisa e extensão;
• Comunidade universitária excluída;
• Abertura de novas vagas nas universidades públicas;
• Exploração de mão-de-obra estagiária;
• Cotas para negros e estudantes carentes;

No terceiro encontro, a gratuidade da universidade pública foi o tema trabalhado pelos palestrantes da noite. Este tema conseguiu abarcar um contexto bastante singular, posto que a UPE é a única universidade pública que cobra uma tarifa mensal do alunado, mesmo que mínina. No quarto dia, a professora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Liliane Caraciolo, marcou a noite com um discurso bastante contundente e sistemático sobre o atual panorama da educação no Vale; e, por fim, houve a apresentação de um vídeo-documentário sobre a vida e a obra do cientista e médico Josué de Castro. Ao todo, muito pode ser aproveitado, mesmo enxergando algumas falhas na organização do evento. Ficou a promessa de praticar o que foi ouvido, no âmbito de mudança social e, porque não dizer, tendo como ponto de partida a própria matriz universitária.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Uma crônica em três tempos


Tempo I - Maria, a neta polivalente

Por Germano Xavier

Ela tinha tudo para ter sido apenas mais uma Maria dentre outras Marias, mas o destino quis com ela fazer diferente. Esta Maria na verdade escreve Anna como primeiro nome para assinar os documentos mais importantes - assim mesmo, com dois enes. Anna Maria Félix dos Santos, a filha do emblemático seu Douzinho e de outra Maria, a mãe. Maria diversa, Maria múltipla, de uma sabedoria incomum, mistura de mulher-mãe, de menina, de avó. Humana, como as demais Marias e também os Joões iraquarenses, forte e fraca, destemida, mulher de se ir à guerra, de sangrar e dar a própria vida em troca de uma causa maior: a vida. Dupla, rudimentar mulher moderna, sem adjetivos que a classifiquem, olha para o hoje e para o amanhã sem jamais se esquecer do passado.

Esta Maria foi gerada dentro do seio de uma família tradicional da cidade de Iraquara, a família Félix. Cegamente obcecada por um conservadorismo natural àquela época, viu-se a atravessar as correntes pesadas do tempo antigo na obrigação de obedecer em tudo aos seus pais, o que a fazia sentir-se enfraquecida diante do silêncio a que era imposta durante todos os primeiros anos de sua vida. Foi assim que, durante muito tempo, aguentou a carga da quase-inércia das horas naqueles idos. Mas esta Maria era uma Maria autêntica, e sendo assim arranjou forças para atravessar inúmeras barreiras ligadas à mulher, vencendo com o passar dos dias toda espécie de submissão e escrevendo sua história com muita garra e força de vontade.

Maria é hoje patrimônio vivo de Iraquara, mas nem só em chãos ricos em carbonato de cálcio, que permitiram que a região possuísse o segundo maior parque espeleotemático brasileiro, riquíssimo em formações raras em grutas e cavernas, ela viveu. Maria foi mais uma daquelas Marias que começaram a crescer após ter conhecido o significado da palavra sofrimento. Uma Maria que percebeu que seu estado latente de ser não era o caminho mais curto em direção à felicidade. Família, convívio social e trabalho foram as maiores causas para o brotar acinzentado de vários de seus dias. Mas como tudo na vida sofre uma reviravolta, eis que Iraquara, esta criança, cedo ou tarde viria a lhe reservar inúmeras satisfações.

Para ela, a cidade grafada em língua Tupi e com o significado de “toca de mel”, em referência ao poço de água cristalina e salobra que atraiu os primeiros viajantes tropeiros e possibilitou que em seu derredor fossem construídas aos poucos as primeiras casas de descanso para as pessoas e animais, para sempre se tornaria sua jóia mais preciosa. Razão para uma paixão desmedida, esta Maria não podia caminhar por uma outra trilha.

O bisavô desta Maria foi, segundo ela mesma conta, o fundador da cidade diamantina, que em 05 de julho de 2009 fará 47 anos de emancipação política e territorial. Por estes e outros fatos, Maria se sente na obrigação de cuidar da sua filha Iraquara, paixão que certamente durará o tempo necessário à eternidade. Hoje, já entrada em anos e firme em convicções, deseja continuar sendo uma zeladora da história da cidade, buscando se dedicar ao máximo no intento de difundir e promover a esfera cultural da localidade.

Através da expressão de sua palavra, seja em prosa ou em verso, Maria tenta, com unhas e dentes, perseverar nesta ação transformadora. Sapiente das inúmeras dificuldades para com o trato e a valorização do fazer literário, Maria segue sem desistir, lembrando do passado:

- Teresinha, já decorei todas as poesias de Guiomar Chagas, a sobrinha do doutor Américo²!
- Então, recita uma aí pra ver se é mesmo verdade o que você me diz.

Foi lendo as poesias da colega de classe Teresinha, quando ainda morava em Ponte Nova¹ e contava seus 15 anos de idade, que germinou o gosto pela arte poética nesta Maria. Vendo-se desafiada a recitar poemas escritos por Guiomar, lá ia a Maria provar que a poesia entrava fácil pela couraça do seu espírito, demandando apenas uma maior dedicação ao trabalho de artesã das letras. Enfim, foi lendo Guiomar que esta Maria virou poeta. Admiradora do movimento romântico, Maria também percorre os campos da poesia que enaltecem a geografia privilegiada da região, assim como o desprendimento necessário para psicografar textos.

Certo dia, conta ela, entre o dormir e o não-dormir, entre o devaneio e sono, teve uma visão. Olhou para o teto e viu uma caravela a se aproximar, flutuando sobre nuvens, cercada por raios de luz com pontas preenchidas por pequenas estrelas. Encontrava-se além da sua própria imaginação, como parece ter sido todo o seu percurso vital. Médium-católica, voz-sentir, psicofônica, intuitiva, constituída de pressentimentos, professora polivalente de história, geografia, L.P.L.B, Religião, Educação Moral e Cívica, Filosofia et caetera, esta Maria um dia sonhou que era uma rosa no meio do jardim cheio de outras rosas e beija-flores. Sonhou simples, como quem apenas quer ser parte de todo o colorido de um tempo, sem suspeitar que ela, esta Maria de vanguarda, bem poderia ser todo o roseiral.


Notas.
1- Hoje cidade de Wagner-BA.
2- Américo Chagas, médico.

P.S. Esta crônica é a primeira parte de uma trilogia baseada numa entrevista com a escritora iraquarense Maria Neta - como é mais conhecida -, realizada no início do ano de 2009. Este texto faz parte do Livro-Reportagem intitulado "Iraquara - Em memória de Nós", que escrevi em 2009 (ainda não publicado) e com o qual realizei defesa de TCC do curso de Comunicação Social - Jornalismo em Multimeios no Departamento de Ciências Humanas III (DCH III) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Notas sobre a leitura no mundo


A expansão avassaladora do Império Romano foi, entre outros fatores, um dos principais motivos para o desenvolvimento de uma cultura de leitura entre os indivíduos do mundo antigo e, posteriormente, em todas as épocas históricas vindouras. O Latim, língua que abarcou e agregou todas as “ferramentas” comunicativas e toda a produção de conhecimento da época, também representou uma forte arma para o progresso da prática da leitura naquela época. Todos queriam “beber” dessa fonte, pois era a partir dela que os indivíduos poderiam figurar em melhores condições sociais dentro do próprio contexto social em que viviam. Foi, também, com o advento da Reforma Protestante, formulada e praticada por nomes como Lutero e Calvino, que textos, antes considerados sagrados e extremamente sigilosos, vieram à tona, fato que acabou incentivando muitos leitores a desempenharem suas respectivas funções. Após este momento, a discussão sobre os relatos e passagens bíblicas começou a fazer parte do cotidiano das pessoas. Outro fato que ajudou a proliferação do hábito da leitura foi justamente a invenção da imprensa, em meados do século XV, pelo alemão Gutemberg, um dos maiores responsáveis pela popularização do objeto livro no mundo e, também, quem ajudou a lançar as premissas básicas e materiais para uma moderna e dinâmica economia baseada no conhecimento, assim como na disseminação da aprendizagem de proporção de massa. No Brasil, um pouco antes da promulgação do regime republicano, grande parte da população, principalmente a dos grandes centros urbanos, já tinham o conhecimento de publicações oficiais, como as vindas da Imprensa Régia e também por conta dos pasquins, folhetos de cunho revolucionário e crítico que circulavam livremente e/ou clandestinamente por diversos setores da sociedade. Pouco depois, a implantação de um sistema de ensino regular tornou-se no maior objeto para favorecimento da leitura em nosso país, fato bastante discutível nos dias de hoje. A partir de sua fundamentação, a escola passou a exercer função básica na construção de um país de leitores, o que, de fato, ainda é muito precário e de proporções diminutas se comparado a países do primeiro mundo. Claro, tudo isso antes da popularização da rede internacional de computadores: a internet. Daí para frente, é uma outra história.

Poema do acreditar


Não medes,
o medo é um acerto com o cão
feroz que dissipa a vida.

Toda a verdade
é uma pergunta esquecida
no chão do que ainda é não.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Aconchego


arrombo corações na prisão
como quem rompe o cofre mais seguro
ninguém nasceu para da dor virar fruto
sem nem semente brotar em floração

As perguntas sem respostas de Matrix


A trilogia cinematográfica Matrix, dirigida pelos irmãos Wachowski, é um produto midiático de ficção científica que mistura tecnologia, efeitos especiais com mitos, crenças, religiões e, evidentemente, filosofia antiga e atual. Os paralelos que podem ser estabelecidos entre temas abordados nos três filmes da série (mormente o primeiro) e as idéias de Sócrates e Platão, principalmente aquelas ligadas ao seu famoso e tão discutido Mito da Caverna, são inumeráveis. A caverna de Platão é o mundo das sombras, o mundo onde reina o desconhecido mais geral e também onde vive a ânsia pelo saber, e o filme nos questiona o que é, para nós que vivemos numa época em que ciência e tecnologia predominam, a nossa real e atual caverna? Matrix é, assim como o antigo mito platônico e antes de qualquer outra coisa, uma alegoria, uma pantomina dos pensamentos de Sócrates e seu discípulo-mor. Há nos filmes a preocupação com os encadeamentos do “descobrir” e com o do “descobrir-se”, este otimizado como num processo de autoconhecimento que busca a retratação de uma outra atmosfera e de uma outra realidade, tanto mais próxima quando mais distante da realidade pensada enquanto real. Tanto em Matrix como nas idéias desses dois filósofos, existe uma ênfase para com a construção de diversos valores distritais humanos e sociais, como o enraizamento da curiosidade, a fortificação do desejo, a eterna fome por conhecimento e até a “apalpação” do que é real e/ou matéria-caminho para fuga do que fosse apenas virtualidade ou imatéria. O reflexo das pessoas na parede, o mistério, a dúvida pelo que é novo, os choques entre personas e rostos de fidedignidade, assim como os contrastes produzidos pela realidade são matérias importantíssimas e, por conseguinte, fundamentais para o entendimento do enredo dos respectivos filmes. A nossa caverna é o próprio ser humano, que ainda não conseguiu alcançar a sua mais íntima substância, o seu âmago, a sua mais rica profundeza, o seu lado verdadeiramente distinto dos outros animais, que não sabem que estão pensando ou que sabem que são capazes de pensar - o ser humano, criatura de sentimentalidades e manifestações, em sua maioria, superficiais e dicotomias. Pode-se, a partir de tais pressupostos ligados ao filme e à filosofia, dissertar também sobre o conhecimento filosófico abarcado em Matrix, destacando as diferenças no tocante às outras formas de conhecimento e relatando como se deu a passagem do pensamento mítico-religioso para o pensamento filosófico. A filosofia é uma ciência e não é, tudo ao mesmo tempo. A filosofia cientifica o que é contemplação e reprodução, emite concepções diversificadas do mundo e das relações interpessoais, transcende o que é matéria e alcança uma forma de plenitude de olhar, de enxergar, o que a faz diferente das outras formas de conhecimento, que funcionam atreladas ao pragmatismo e ao tecnicismo. Estes, por sua vez, malbaratam e desvalorizam a subjetividade e o distanciamento do visível. O mito foi usado no início como uma forma de retratar a formação do mundo e das relações humanas, através de narrativas alegóricas e imaginativas, deixando que a ficção e a oralidade corroborassem tais tentativas de explicações. Somente quando a filosofia conseguiu se adaptar melhor às necessidades do homem é que ela tomou as suas devidas proporções. Matrix nos lega uma questão: por que a pergunta é mais importante do que a resposta no processo de filosofar? A pergunta, manifestação de busca e saciedade, é muito mais essencial que o “responder”, até porque não há apenas uma verdade, uma resposta. A resposta é um produto da subjetividade, da incerteza – a pergunta não, a pergunta é a própria certeza, talvez a única forma de certeza, mas também uma certeza falida, diagnosticada infame e cancerosa, posto incompleta -, e este não é o princípio básico que faz movimentar a filosofia. Filosofar é, antes de tudo, ater-se ao Belo, à negação das ordens naturais das coisas e um elogio ao que é de ordem imprevisível e, para conseguir um melhor entendimento condizente a este fato, nada mais inteligente que perguntar, questionar. Será que é mesmo assim?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O gênesis das léguas


XXIII

Amor, depois que sairmos, depois que tentar dormir, vou escrever. É o fogo do momento. Um fogo forte, alto. Tem meu sangue e minha verdade nele. Assino cada palavra, amor. Em seu silêncio, decido. Vou visitá-lo. Vou agora. Vou amanhã. Vou surpreendê-lo em seu leito de solidão-amor. Você vai me amar quando me olhar... incrédulo, tremendo de desejo... vai me comer... como nunca em sua vida inteira. Vai nascer de novo. Vai ser meu. Só meu. Como águia vai trocar de penas...se refugiar em mim-caverna e sair de lá novo homem-águia. Suas novas penas terão o viço de nosso amor. Terão as cores de nosso prazer e o destino de nosso amor; a eternidade... o vento. O amor. Quando começo a escrever agora... queria que soubesse que estou tremendo, literalmente... digito com dificuldade... medo... porque sei que é um caminho sem volta, amor. E tenho medo de altura. Ouça, amor. Estou engatinhando em ser eu... escolhi você (escolhi?) para ser o ser humano que vai me ver por dentro... de meus segredos todos...de meus medos e desejos todos... porque te amo. E sempre achei que amar é dar-se todo e tudo e sempre e tanto e mais e fim... sem fim. Meu amado, prepare-se para ver a minha transparência em todas as suas cores. Descobri hoje de onde nos conhecemos. Nos conhecemos de nossas insônias. Ah, não imaginas quantas luas velei... sem vê-la. Mas velava era o meu amor. Que também tinha insônia, desde criança, como eu. Agora sei de quem eram os lábios que me beijavam os olhos, devagar, devagar... e ia embora para a madrugada seguinte. Era a minha segunda vida, preparando-me para o futuro. Você, minha vida azul. Nascida do choro escondido, do desejo oculto e da solidão incurável, incalculável, inseparável... de nós. Sou o corpo invisível que deitava ao teu lado nas noites frias e quentes e estranhas... nas noites eternas... lembra-se, amor? Eu sei que você se lembrará. Tudo é um lembrar-se eterno. Te beijava o sorriso dormente... acariciava teu rosto com um olhar... e você sabia, sentia, amava... me amava. Fugíamos juntos... em pensamentos, em sonhos loucos, adoráveis, nobres... nossas almas eram lindas em nossa fuga, amor! Mais lindas do que o amor. Éramos puros e brilhantes... estrelas acesas de luz. Éramos plenos e nobres. Você, um cavaleiro medieval nobre e lindo. Eu, Joana D’Arc sem espadas. Nascemos para nos encontrar, amor. Mesmo que depois da morte. Morremos nossas vidas muitas vezes... mas ressuscitamos para nos encontrarmos. Apenas para isso. Nunca duvidei de sua existência. Nem de nosso amor. Mais fácil duvidar de que estava viva. E não estava. Até agora. Estava respirando apenas a esperança de você. Muitas vezes você apertou as minhas mãos quando eu ia cair. Eu chegava a jurar que tinha te visto... sumir no vento. Tuas mãos estão cheias de minhas lágrimas. Teus lábios, molhados de mim. Ei, amor, quero ser só nós dois, quando formos um... somos um... sei disso. De alguma forma já nos fundimos, sem forma definida ainda. Vamos inventar um novo modo de amar, esse que temos amado... só nós... só amor puro, original. Não, não seguimos os passos de ninguém, não escrevemos um livro velho, mas o nosso livro novo, que vai nos surpreender em cada letra, mesmo letras já há muito sabidas por nós depois de todos estes anos de nos saber um só. Eu confio em ti, amado de meus sonhos antigos. Eu conheço teu bem, teu mal, tua dor, teus monstros e amo tudo. Você está me ensinando o que é o amor. O que é o amor, além disso que nos aconteceu, sem script, sem pele, sem beijos, sem leito, sem leite? Seja o que for, além disso, quero descobrir com você. Ou sem você. Mas morrerei te amando do jeito que eu te amo... e você receberá este amor do jeito que quiser, minha vida. Meu azulado beijo, não quero te ferir... eu sangraria com você. Quando nos ferirmos, sangraremos juntos. Como te amo nesse momento, vida! Seria capaz de me transformar em céu para você. Seria capaz de crimes para te salvar. Perdoa-me por não ser perfeita para você. Você merece a perfeição. Gostaria de te dar a perfeição, tudo o que sempre quis e de realizar teus desejos todos. Não se preocupe, eu também amo o seu silêncio e sua estranheza. Você é assim e é lindo assim. Não quero amar mais nenhum outro depois de conhecer e reconhecer esta sua estranheza linda...

Minha vida, alguns minutos que parei de escrever. Estava só pensando em nós, em tudo, sonolenta, mas não conseguia dormir. Insônia antiga, amor. Por isso, resolvi voltar. Quero que sinta esse momento quando ler o que escrevo agora... como se o amanhã não pudesse captar bem o momento-madrugada-de-nós. Ei, amor, perdão por não revisar, sei que é perfeccionista, meu bem, adoro isso em você... me perdoa desde já, não sou. E estou cansada. Todos os meus beijos são teus. Logo irá conhecê-los. Te amo com o amor mais amor que já existiu, meu homem tão homem-desumano. Dorme comigo. Sou tua.

Viro meu pescoço para o lado da janela. Há uma nuvem escura e espessa vindo em minha direção. Não sei o que irá acontecer com o céu daqui a cinco ou dez minutos. Mas sei o que já aconteceu antes da nublada dor deste azul celeste. Alguma coisa revive dentro de mim. Tudo isso é a tua voz que ouço aqui dentro. Você não morre. Amor que é eterno é amor de nunca deixar ir. A noite já vem com seus pijamas.