sábado, 28 de novembro de 2009

Palapéia, palaméia

Para o profº Hélio de Araújo,
que sabe a dor da palavra...



ao lado do livro está o acidente
da vida e a ignorância da dor

a palavra tem cem pés
para quem não tem pés
para quem não tem mãos
a palavra tem cem mãos

cem pés a palavra
centopéia
faz o homem andar

cem mãos a palavra
centoméia
mãos de voar

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Avalovara - Nas asas do pássaro mítico de Osman Lins


Notas sobre Abel, a mulher sem nome, Roos e Cecília.


Osman Lins é um exímio construtor de máscaras, pois mascarados são seus personagens no enredo mítico de sua obra-prima: o romance Avalovara. Mascarados não por não conterem em si “nenhum caráter”, como o ilustre Macunaíma, de Mário de Andrade, mas sim por serem elas (as personagens) entidades existentes primordialmente numa esfera de imaginação onírica que, por diversos momentos, sufoca a presença de uma anunciada realidade.

Osman Lins (1924-1978), pernambucano de Vitória de Santo Antão, literalmente põe as personagens sobre a palma da mão do leitor, como que almejando um fenômeno receptivo baseado em referencialidades mais espontâneas ou automáticas. Assim sendo, não basta a simples leitura, a mera decodificação dos códigos lingüísticos, o comum debruçar-se sobre a obra para a boa compreensão da trama. A atitude decisiva do leitor perante o texto é agora o que importa mais, pois o leitor tem diante das vistas um multilivro, um polilivro, cuja fabricação das compreensões vai se basear nos caminhos tomados por ele, sujeito que lê.

Com o leitor podendo compor histórias variadas e variáveis a partir de uma história central, as personagens em Avalovara também passam a agregar dentro de suas existencialidades o caráter de mutabilidade, moldando-se, sempre que requeridas, a partir das rotas desejadas pelo leitor. Essa foi uma fórmula encontrada por Osman Lins para lutar contra o fantasma do fim/esgotamento do gênero romance – idéia muito em voga nos anos 70, década em que Avalorava foi publicado, mais especificadamente em 1973.

Para ele, com a disponibilização escancarada do poder de co-agir e co-produzir a narrativa, tanto o leitor quanto o romance se fortificariam enquanto sujeito e gênero textual, respectivamente, e por conseguinte apagariam qualquer vestígio factual acerca da não-sobrevivência do romance dentro do vasto universo da literatura.

O início dessa revolução estrutural na obra do escritor pernambucano se dá com a publicação de Nove, novena, livro de narrativas curtas datado do ano de 1966. Inclusive, e para fortificar a preocupação diante do referido tema, a questão da estrutura romanesca, principalmente os elementos espaço-temporais, foi objeto de pesquisa durante toda a vida acadêmica do autor. Segundo a professora doutora Ermelinda Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “Sua insistência no estudo da estrutura, sobretudo a do espaço narrativo – tema de sua tese de doutorado – e sua exigência por um leitor participativo, presente em textos construídos como jogos verbais e visuais, vistas à luz das questões postas pelo avanço dos mais recentes meios de comunicação, adquirem aquela clareza a que ele tanto aspirava quando falava de sua obra”.

Comparável a O Jogo da Amarelinha (Rayuela), obra labiríntica máxima do argentino Júlio Cortázar, Avalovara é, por assim dizer, um romance desprovido de seqüenciamento lógico, onde o espaço (O quadrado) bifurca-se no contato com o tempo (A espiral) num movimento de contágio temático que beira o assombroso. O espaço é a própria edificação das personagens, que habitam inatamente o território da racionalidade, figurada pelo quadrado, e que sem cerimônia transitam sobre o plano simbólico-metafórico-onírico de um local que é apenas simulação, mas perfeitamente existível, a espiral.

“Avalovara é uma obra virtual, se entendemos virtual como o oposto ao atual, e não ao real. Real sem ser atual e ideal sem ser abstrata, esta obra ditava, há três décadas, os preceitos de uma nova forma para a escrita e para a leitura, elaborando-se não como um romance de ficção científica, mas como uma ficção científica do próprio romance, como uma metáfora cibernética de um futuro possível para a literatura, projeção imaginária e idealizada de um suporte que viesse somar uma riqueza de possibilidades à palavra, potencializando-a e aos seus efeitos no mundo”, reforça Ermelinda.

Sobreposta ao quadrado da razão, a espiral mágico-mitológica do enredo elabora a passos vagarosos e milimetricamente pensados os fragmentos de uma moldura única. Cada fragmento constitui uma personagem que, por sua vez, representa a necessária estrutura para que o outro passe a existir, mesmo que este outro aparentemente apareça destituído de realismo. Realismo, no caso de Avalovara, não é nem de longe um dos objetivos que norteiam o leitmotiv da obra. É como se o irreal, visto aqui como uma opção de recurso literário, funcionasse a vapores plenos em matéria de complexidade formal e conteudística.

Toda personagem surge de uma aresta, de uma esquina onde uma lacuna possibilita uma entrada, mesmo sabendo que só há uma entrada para o mundo da razão, ou seja, para o quadrado, que é pela ponta da espiral, ou seja, a voz do narrador: caminho sem-razão. Sendo assim, todo personagem é um só, o espaço delimitado e percorrido pela espiral: o quadrado. A espiral representa o infinito, o quadrado simboliza o além-infinito. A espiral está dentro do quadrado, que apesar de ser o ad infinitum é um território demarcado, portanto finito em sua infinitude. As personagens escorregam pelo corpo imaginário da espiral e elaboram um trançado de ações que se movimentam para um centro aglutinador de energia, para uma espécie de olho de furacão.

De acordo com Ermelinda, “Osman Lins acopla seus motivos clássicos, grande parte deles de influência medieval, traduzindo talvez um paradoxo que se percebe em toda a sua obra, tantas vezes verbalizado em seus textos de intervenção e de crítica: um misto de amor e de horror à tecnologia, à máquina, ao ruído contemporâneo, que o fazem desviar a atenção constantemente para a arte antiga. Este sentimento ambíguo de desejo e repúdio com relação à modernidade; este apreço confesso à história e ao ritual, ao lado da criação de procedimentos narrativos que aniquilam a linearidade e a seqüencialidade históricas, encontram tradução em Avalovara, na busca de ambientação na arte medieval (pintura, música e literatura), representada pelos volteios da espiral, posta “sobre” ou “dentro” de um arcabouço racional (o quadrado)”.

Abel, personae-narrador do livro, divide seu protagonismo com o amor de sua vida: uma personagem mulher sem nome, representada por um símbolo gráfico circular pontuado ao centro e com duas espécies de aspas na parte superior. A mulher que não possui nome é criação de Abel, portanto protagoniza o romance que Abel está escrevendo. Isso reforça a idéia de que Avalovara é, segundo o próprio Osman Lins, uma “alegoria da arte do romance”. Há um romance dentro de um romance, uma história dentro de outra, uma ficção no interior de uma ficção. A mulher sem nome na verdade não existe, ou existe para além dos muros da realidade que não é real, ou seja, a realidade do romance escrito por Abel.

Para Marisa Balthasar Soares, professora doutora da USP, Avalovara “ficcionaliza sua própria elaboração”, onde “é proposto um enredo em jogo palindrômico, que nada tem de gratuito, mas, pelo contrário, promove a possibilidade de ruptura com a linearidade do tempo narrativo. A mesma ruptura perseguida pelo personagem central Abel, um escritor marcado pela tensão entre a história imediata e um projeto literário de cunho universalizante, fundado no tempo mítico e para quem o passado não se cristaliza, mas se faz, como na utopia benjaminiana, a condição de transformação do presente”.

Abel a descreve como sendo ela filha de um ciborgue, simulacro de duas existências, mulher feita de metades e junções. Ao passo que a ama, Abel também a odeia, por saber que a única verdade da personagem amada é que ela não pertence ao mesmo plano existencial que o seu. “É na experiência de amor e morte de Abel junto a três mulheres - que ambiguamente são personagens do romance, no mesmo grau de ficção em que está Abel e, simultaneamente, sugerem-se como personagens de segundo grau, isso é, criações dele - que surge a experiência do tempo único”, diz Marisa.

A mulher sem nome é fruto da imaginação de Abel. Abel, por sua vez, é fruto da imaginação de Osman Lins e a entidade que melhor representa o quadrado. “Em um mesmo corpo reúnem-se o mecânico e o orgânico, a cultura e a natureza, o simulacro e o original, a ficção científica e a realidade social, exatamente o que encontramos no romance de Osman Lins”, afirma Ermelinda.

O corpo da personagem é um disco rígido, onde as memórias de Abel são armazenadas sem piedade. Tudo é depositado nela: dor, angústia, revelações, lembranças, alegrias, tristezas... Tudo amontoado numa caótica limpeza físico-espiritual da alma de Abel, por isso “ela circula numa atmosfera algo imprecisa e nebulosa à qual não escapam percepções que hoje nos parecem frutos de uma visão premonitória de um novo suporte técnico para a ficção, intimamente relacionado com a estrutura do hipertexto”, reitera Ermelinda. Como escreve o próprio narrador, ele se serve a mulher como “uma imensa máquina que mói e derrama sobre seu corpo, triturados, os anais do universo, a gigantesca massa de eventos e processos não só do mundo visível, mas do imaginado e do inimaginável”.

A mulher sem nome é o amor em grau máximo para Abel, material significativo para explosões emotivo-racionais, o que lhe é causa para inúmeros destemperamentos e rumores de desconfiança. Mas não é só a relação com a personagem sem nome que é conflituosa e difícil. Com Roos – alemã, símbolo de um platonismo cru – os percursos que dão para o amor são tortuosos para Abel, muitas vezes nebulosos. Mesmo relacionada ao paradoxo do encontro desencontrado, Roos é o índice da compaixão. Roos é o percurso, a estrada que leva Abel para a vida. Roos é o próprio pássaro Avalovara, no qual Abel viaja por imensidões inestimáveis montado em seu dorso de penas imaginárias. Sem Roos, nem Cecília nem a mulher sem nome existiriam.

Já Cecília é o encontro, a certeza que se chega a algum lugar, mesmo que este lugar não tenha piso, parede, terra. Cecília é também o tempo, por isso é inesgotável e onipresente. Cecília está em Roos e na mulher inominada. Cecília está no plano do romance de Abel e no plano narrativo que Abel representa (O quadrado). Todas as mulheres são metafóricas, imitações de um desejo. São elas o próprio romance que Abel está escrevendo, ou seja, A viagem e o rio. Uma depende da outra para ser, uma acontece depois da outra e antes da outra.

Após a andança amorosa de Abel, que percorreu Pernambuco e Europa e por fim desemboca em São Paulo, ele encontra o percurso certeiro para o amor perfeito. Abel morre e assim todo o mosaico está completo. O bordado terminado. A catedral, com suas naves repletas de simbologias, erguida ao céu dos sentidos. Com Abel morto, a mulher sem nome, Roos e Cecília se libertam do quadrado. São agora somente a espiral. E tudo pode acontecer, só depende do leitor e de como ele fará a releitura, ou melhor, só depende de como e para onde ele seguirá, claro, preso às asas do pássaro mítico de Osman Lins.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Baldio



#

crescem, daninhas,
as ralas vegetações de rastro.

em toda sua extensão, espinhos
culminam arestas e vácuos.
sente ele a sede do que não habita,
ventre dele toda a fome de ser
alimento-lixo,

a hora presa dum olhar repulsivo,
o ar sufocado num tubo
sem ensaio.

meu coração, meu bem,
nada tem de imaculável.


#

está jogado ao vento,
o desgarrado animal que pulsa,
o desfraldado ser convulso
(hoje sem pulso),

e me custa acreditar
que de longe outro pulso,
virá em vinda vindoura
me dedilhar a ópera inexistível.



#

s’eu pudesse te dar um conselho,
diria a ti que é no bélico silêncio
que a voz transpira mais...

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O trator


Para Caio Fernando Abreu,
porque “quem tem um sonho não dança, amor”
(Cazuza)


Numa velha garagem perdida no tempo parece se esconder a letal arma do mal. Uma peça mitológica de aço e ferro fundido, cujo sangue negro percorre as grossas artérias do órgão maior desumano, e cujas veias carregam o sal poluído na direção do tubo de escape, o cano que desfaz a matéria. Estamos num imenso galpão arqueado num V invertido, produtor de uma sombra estranha que mata o alimento do sol. Estamos pisando em parafusos retorcidos plantados no chão como sementes enferrujadas, adquirindo o tétano dos despojos maquínicos inúteis que adornam toda a paisagem metálica, arriscando-nos com ferramentas que não mais consertam, agora instrumentos de somente aperto e dor. Um virabrequim encravado na terra refaz o instinto do descanso assassino. Bielas serradas, pistões carbonizados, bronzinas tortas, cabeçotes empenados e pesos afundam o piso que abre a relva do caminho. Nada interrompe a potencial vitalidade da besta, mesmo parada há tanto tempo, adormecida dentro do casco.

Fora da penumbra artificial habita um verde bonito, sem artificialidades. Este verde tão intenso e tão capaz de iluminar o breu dentro e fora da noite ainda não caída. É realmente a presença e a certeza do verde mais perfeito. Um campo inteiro de grama como num tapete floral de algum império passado. O verde gerando todo o colorido possível, louca cor introduzida sem licença no tempo cinza, matando-o, pintando os imaginários enegrecidos com a claridade dos brilhos ígneos, mais adentrosos. Árvores silvestres passeiam sobre as costas das aves, que vão a vôo sedento. Um homem ali andando sentiria a fortaleza de um teatro feito de bem e mal, uma recôndita grandiosidade da história universal de duas almas controvertidas, contraditórias. O verde que é a vida, a cor da sombra que é o escuro.

Você está vendo uma garagem manchando um campo de flores, com uma besta adormecida dentro dela, velha, imótua, porém fatal. Patas enormes tem o animal, seus aros oxidados. Vinte e seis porcas lhe prendem os pés, seus sapatos de borracha, pneumáticos. A cor gerada na parca carenagem é um vermelho vivo, voraz, algoz. Vermelho sangre. Fios vários lhe atravessam o corpo modelo naked, expondo as ranhuras cerzidas pela mortal brevidade de sua existência. Adamastor da terra, que pode arar e tornar frígida a vau mais fértil, o grão melhor, lestrigão do mar quadrado. Vê-se um chassi corpulento e preto, manchado e intumescido de óleo, aparentando queimaduras e vazamentos. São sinais de assassínio. Os faróis amarelados abrigam insetos sem asa, insetos tristes. Toda uma selva arrependida tende de algum modo a se vingar. Mas ainda tudo é suspeito.

Há de denunciar o bloco negro gerador da força, da brutal alavanca. Onde todos os ruídos vigoram, todos os soluços, todas as mazelas, todas as pestes, todas os sarcomas, cânceres de nós que somos vítimas e alvos. Um rumor pondera dentro do esqueleto graúdo, rubor e vinda inquista. Se existisse um ali naquele instante, poder-se-ia fantasiar a ópera do barulho que ensurdece, que toma de nós o nosso aprendizado de dúvida. Mas isso é apenas uma possibilidade, quiçá uma fuga do pensamento. Não há homens, não há viventes no curto derredor que aquele galpão abrange. A garagem fecha tudo.

- Eu tinha medo da rosa. Medo do medo. Medo de não sentir mais medo, porque tudo iria se acabar. Porque o primeiro que iria seria eu, pobre, amargo, insosso, sem poder fazer nada. Eu tinha medo e relutava em fazer o que me pediam, em ir apenas, atravessar a rua. Mas quando vi a rosa de perto, quando toquei tua petalagem, quando adormeci meus olhos sôfregos de tanto imaginar mortes na suave casa daquela rosa, eu tive a impressão que tudo, dentro do meu maior susto, iria incapacitar meu falecimento. Eu tinha medo da rosa, mas isso era antes. Agora tenho medo de mim. Este que nasceu. Este outro.

Só delírio e os restos mortais de uma paz. O verde ainda havia, mas era um verde frio, cabisbaixo. A relva amassada por um suplício de deus. O negro da sombra chegando, como a tornar vazio toda a constelação etérea. Várias foram as histórias contadas por todo um conjunto etnográfico baseada em lendas e circunstâncias. Rostos patéticos, corpos destronados, árvores partidas, idas sem volta, desretornos. E nenhum homem.

Se olhássemos para o lado direito do céu, perceberíamos uma tempestade adentrando o espaço em azul. Ouviríamos pios agourentos das aves de rapina, toda a fauna se escondendo, os vegetais se cobrindo em espera, cerceados. Se olhássemos, enxergaríamos uma torrente satânica arregaçando o ventre da terra, vadiando com as presenças das coisas, das cores. Havia um sentimento de subalternidade pairando, airosa.

Perto demais para qualquer tentativa. Se houvesse alguém, este alguém teria de enfrentar. Este alguém olharia para seu flanco esquerdo e fundiria aversão e incerteza ao ouvir um ronco rouco de um motor e um tufo poeirento de fumaça perfumando a garagem perdida. Alguém? Quem teria acordado o mal de seu sono letárgico? Quem, das profundezas, resolveria vir e apagar de uma vez por todas toda a sanidade da mente? Para que alimentar o caos? Deus, potestade inalcançável em fúria e bem e mal, terias sido tu?

- Obra do demo! Vamos dançar nossa ciranda de pedra, baile instaurador das pragas! – gritou o homem que não existia. – O sol não é dádiva para todos, alma. O sol é uma invenção dos que traem o corpo!

Da garagem a besta acesa afana o silêncio. Está ligada em chamas, cuspindo no chão do céu a mácula árida. A besta está vomitando solenemente um grito soberbo. Vai devastar tudo, todo o corpo, todo o orgânico templo habitante do mundo. Vai engolir as vaidades, a poesia aplicada ao impreciso, fazer desgraça alterada. E o volume incendeia o galpão enquanto lá fora trovejada a terra não agüenta. Tudo o que vive instantaneamente desbota, como se fossem vertigens. Tudo aprende a morrer, a dar sinal de fraqueza. O fim é um relógio sem pilha.

A fera esbraveja, engatado na marcha de força, sussurra, brame, bufa. Salta ao campo e fere o pouco verde que resiste. Os pneumáticos sufocam as sementes. Espera o fim se afirmar de todo. Passeia pelo solo maltratado a procurar sobreviventes. A tempestade cessa. O firmamento não se aclara. A bruma escorrega com o vento e viaja para o distante. Está feito, o trabalho, a vitória é certa. Glórias, glórias. É tempo de a besta adormecer novamente, por muitos e muitos anos. A besta vai dormir o seu descanso merecido. Mas, espere!

- Não, não é possível! A flor que surfa permaneceu. Está intacta, como se nada tivesse acontecido ali. A flor amarela dos que bóiam sobre as ondas, marinheiros solitários. A flor que surfa permanece!

Reviravolteia-se, a fera indomada. Irada, colérica. Teu nome é sanha. Ruboreja-se enquanto instala-se frente à flor. Vai esmagá-la, não perderá tempo. É a última cor. Aviltante cor teimosa. Vai ser agora... a besta arranca na direção daquela que quebra a ordem. Um som fumacento tapa a ilusão dos olhos. Nada, por enquanto, pode ser visto. Teremos certamente de esperar um pouco. Talvez o desfecho.

Mas, espere!

- Pai Nosso, não é possível! A flor que surfa permanece.

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sábado, 21 de novembro de 2009

Opúsculo contramítico para quintais ( Parte II )



#6

sem quintal,
uma casa agride infâncias.


#7

Zé Vicente um dia veio com um presente
dentro do bocapil,
e por muito tempo aquele galo
reinou soberano
no fundo do quintal.

robusto,
encandecidamente de rubras penas,
com esporas que lhe atrapalhavam o andar
de tão grandes e curvadas,

era ele, sempre
e incansavelmente,
quem descortinava as manhãs.


#8

certo dia,
brincando de polícia-e-ladrão
com o meu irmão,
e escondido em cima da mangueira,
meu tio pensou que era um coleirinha.

(resultado: despencou da árvore
e deslocou o calcanhar, ou seja, ladrão preso.)


#9

tem aranhas-de-terra
despistadeiras de chuva,
tem abelhas em mangas pousadas em queda,
gatos passeando sobre os muros,
tralhas encostadas e ferrugens vivas,
passarinhos peregrinos de algodão,

tem brabuletas feitas de seda,
vespas na areia de construção,
bichinhos que não sei o nome
e que gostam de andar em nossos braços...

tem até o Sr. Redemuin
que faz uma bagunça danada (de boa)
quando a gente teima em barrer as (in)purezas quintálicas...


#10

quando estiver num quintal
alheio e o dono da casa
perder de vista,

jamais ouse assuntar em si
meninices não curtidas.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Opúsculo contramítico para quintais ( Parte I )

Para Cristhien Lélis e Renato Solon,
amigos compositores de estradinhas de quintal...



#1

uma vez um duende de jardim
extrapolou seus limites
e invadiu o quintal lá de casa.

escorado na pitangueira,
não ficou muito, veio
só me alertar
sobre a periculosidade artística
das
formigas de poda.



#2

lá em casa é assim:

de um lado, portas atravancam
entradas, feito fortaleza.

do outro,
sapos linguarudos, jacarés e joaninhas
de gesso impressionam olhares
desavisados.

tudo e todos protegendo o quintal
dos exterminadores de vastidões...



#3

eu me recordo bem
dos três pés que haviam...

quando derrubaram a mangueira do meio,
percebi que a morte era um poente ensolarado.



#4

pegue caixinhas de fósforo
e com água molhe o barro vermelho.
entupa as caixinhas com a terra
e deixe ao sol para secar.

no outro dia,
feliz e com sorriso curioso,
retire das fôrmas de papel
os tijolinhos de construção:

após dez ou quinze anos,
você verá que as ruínas da infância
não se apagam com os temporais.



#5

estradinhas feitas com cacos de telha,
joelhos roxos de tanto rastejar
curvas, retas, paradas, estações...

por que aquela velha noção
de que os caminhos mais surpreendentes
eram os
mais
distantes?

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Bilhetes para destristezas

Para Nayara Krause,
que me alertou sobre alegrias...


I


meu bem,
o café está pronto.

na estante da sala,
abra a portinhola do centro...
deixei meu coração para quando voltar.



II


o teu jardim
palco de (in)versos
tem o tamanho das entregas
o colorido dos avanços

o teu jardim é um vermelho de mim



III


você encontra tudo isto
nas lacunas do não
nos vãos do sim
nos inexplicáveis poemas feitos sem raiz

você encontra o amor
e depois sai reconhecendo romãs



IV


a despeito das agruras,
invade o peito pelas vias
da memória
sempre esta sensação
de trem descarrilando



V


às avessas acordam
seus fios morenos

é tão intenso o precário
instante do primeiro espelho

a gente acorda,
sobressaltado,
assassinando o sonho

e descobre que o real é bem melhor
que as ilusões d’outros ladrilhos



VI



toma teu café,
espera um pouco,
venha ver a manhã...

amanhã, da janela,
não é o dia amargo,

mas a saudade
que não cessa (aromática)
dos teus quentes



VII


aprende uma coisa:

eu me comovo
como uma lâmpada mágica.
não abuse da sorte,
você só tem um pedido.

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Bilhetes para desalegrias



I

você guardou
minhas palavras antigas
mas se esqueceu que palavras
são caixotes
sem fundo
(quando presas no tempo)


II

sem cautério,
minha língua é lâmina
toda lâmina recorda um
profundo
e todo fundo
é um espelho que agoniza


III

a única beleza tranqüila
que em mim persiste
é o ouro do riso fácil
que não aprendi manusear


IV

tua dança argêntea
sem rebuços
tua banda bunda munda
tudo e tanto muda
porque nem sempre
é preciso valsar palavras


V

Que me dás?
Dá-me.
Que medas
em me dar,
ou me dor?


VI

onde o eco se refrata
onde o corte há tornado
a flama
anima o fogo em fuga
a hora
escande o verso que penetra

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Entrecho geral



É para o despertar e para
a assunção duma postura
vigilante
que seja contra desumanizações
quaisquer, e para todo o
indivíduo que se sabe
- sabe? -, programado para o
aprender constante,
que resumo meu cabal desfrute
de olhar
numa arriscada forma
de apartar únicos dissabores.

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sábado, 14 de novembro de 2009

Sombra seleta



embora de ir não diz partida...
a porta de onde saio é a porta
entortada de morte, vôo de morta
asa, para
casa vou em mim caída?

e te deixar a bandeira hasteada ao meio
sem aquele vento lendário do passado
preste? agracede a quem a alma, o amado,
no se for disparado curva rosto boca seio?

vê que o que dista não afasta o ser tão
nem responde aos prêmios de adeus...
faz adormecer no invadir dos seus

atalhos, derrubada a selva e o sertão.
partida diz não ir de embora, em hora,
porque não fecho vida, o amor, por ora...

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