quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Depois da quase morte

*

Por Germano Xavier


No chão, catei algumas folhinhas marrons, indícios do início da primavera. O chão é quase sempre um templo. A primavera é como um rosto do tempo. Está frio e sair de casa é bom para provocar os sentidos, fazer a pele lembrar dos toques do vento, buscando a vida dentro da vida. Sair tem sido uma dor. Uma dor é uma espécie de nada. Aquelas folhas pequenas, caídas das árvores remanescentes da cidade invadida por concreto e pessoas – cidades parideiras -, aquelas folhinhas finalizadas no ciclo natural, caídas para morrer (ou para (re)nascer?), fizeram-me lembrar de nós. Algumas cidades nos remontam, outras nos esquartejam. A memória é um cão sem dono em terreno baldio. Não que eu tivesse esquecido. Não somos esquecíveis. Não deixo em casa a minha alma quando saio. Apenas saio. Não deixo meus olhos no esquecimento. Apenas caminho. Deixo em você todo o meu respirar fora do corpo e a capacidade de catar folhinhas primaveris no chão. O chão, que é quase sempre um templo, reforço. Deixo em você toda a minha poesia. Poesia é uma palavra que você conhece bem. Para se conhecer uma palavra é necessário ir bem longe, adentrar os campos repletos de espantalhos, não temer, invadir. Deixo. E sigo. Mesmo sabendo. Mesmo. Mesmo que. Foi um baque. Sabemos. Embora sempre esperado em minha constante e irrefutável certeza de que tudo, por mais bonito que seja, quando envolve seres humanos, terminará em dor e decepção. Tudo mesmo. Todas as relações. Você deve me taxar de pessimista ao extremo. Eu só giro. Digo. Eu esperava que você me provasse isso, mais cedo ou mais tarde. O tempo tem um rosto para cada estação. Ou me engano sempre. Espero. E não é uma espera feliz. É uma espera desesperada, mortal. Espera de morte. A gente sente quando está morrendo quando está morto no outro, quando não é amado, quando não é desejado, quando o outro não prioriza a nossa presença, a nossa atenção. A gente sabe quando o outro nos busca sempre que pode, sempre que sente falta, quando sente saudade. A gente sabe quando é apenas tolerado. A gente sabe quando sim. A gente sabe quando não. Mas saber disso nunca me afastou de você. No fundo, eu sempre gostei de pensar que eu não precisava de nada de você, só de você existir para eu te amar incondicionalmente. Mas não existe amor incondicional. Amor requer algo. Qualquer algo de amor. Qualquer olhar de volta, ao menos uma gentileza. Mas você sequer gosta de mim. Fato. Quando a gente gosta a gente quer saber do outro, conta coisas, pergunta coisas, compartilha, a gente fica junto, faz presença e deixa rastro na vida do outro. A gente se faz no outro. Isso tudo não é esquecível? Não somos esquecíveis? Como eu desejei ter algo em você. Qualquer algo pelo qual valesse a pena lutar. Como eu desejei estar em teus pensamentos um pouco que fosse... estar em você. Mas não acontecia e fui sofrendo com isso e ficando cada vez mais magoada e cada vez menos feliz em te amar. Até que... então, notei que você estava me magoando sem nenhum pudor, sem cuidados, sem consideração. Você não viu. Você me expulsou de você - ou abriu meus olhos para a minha insensatez, para a minha insanidade e para a minha insistência patética em te fazer um pouco meu, a qualquer custo - meu ou teu. Mas as pessoas não se pertencem por quererem. Elas se pertencem quando se pertencem. Elas se amam quando se amam, sem obrigações ou cobranças. Nunca imaginei que doeria tanto quando te faltasse paciência comigo, a mínima gentileza e o cuidado de não me esmagar com palavras duras - embora, talvez, verdadeiras. Doeu como se me jogasse de um penhasco no olho da realidade. A realidade é você sem mim. Eu sem você. A realidade é um grande trem de passageiros com destino incerto. A realidade é o agora. Sempre te imaginei gentil, um gigante doce e compreensivo. Incapaz de ferir propositalmente quem quer que fosse. Mas, acidental ou não, você me esmagou. Não deve dizer a alguém que a ama, ela pode acreditar. Esse é o problema. Eu poderia acreditar. E a vida, meu bem, a vida não é feita de poesia apenas, é feita de dias e noites, doenças, trabalho, inutilidades, contas pra pagar, desastres, fardos, mortes, injustiças, solidão e esperança de amor. Esperança de amor, meu amor. Eu te amo. Você sabe. Eu sei. Uma proposta. Vamos fazer uma fogueira. Ao redor dela, dançaremos nossas dores até à exaustão. Até o total desmembramento da alma, do corpo e do medo. Até sobrarem só gotas de suor e cansaço num corpo novo, libertado de sua rastejante jornada. Renovado de deslembranças, revestido de inícios. Que tal? Deixemos o fogo, matéria de consumir matéria, transformar nossas calejadas faces em sombras tranquilas, paisagens invisíveis de mundos imorredouros. Venha à fogueira comigo. Descalce os pés, as roupas e a memória. Sinta a terra nos passos e o vento no centro do centro. Deixe o olho fechado, o corpo ao gosto do fogo, a alma ao gosto do mar. Salgando de infinitos o último grão de areia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/L-expression-mort-naturelle-85185252

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 28/04/2016
Ao acaso, ao ocaso


Au hasard, au crépuscule

sur le seuil de nos jours
l’invitation que l’on ne peut pas reporter

en attendant nos ordres,
impuissant, le destin

nous sommes en route vers l’incertitude

au hasard
au crépuscule


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/ocaso-191681943

sábado, 24 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte V)

*

Por Germano Xavier


"sem sonhos no agora, não lhe conto nada. o mundo dá voltas e preciso da distância. estradas fazem o amor voltar? onde termina o amar?"


Morte a conta-gotas

há várias
formas de matar o amor,
mas uma só é encarte no tempo.

o amor se mata na maré subindo, jogando-o
na jangada ao mar, tarimbado mar. assim,
rebenta distante o que se formou ausente,
deita a rede de labuta, mundo faz armar
ciranda cadente, pancada de mar.

crescente e minguante, maré de aquietação,
quarto sem velas, desponta a navegação cirandeira
sem amar singrar, nem mais mar.

matadeira a saudade, tirana abandonadeira
dos chegares, desterros e degredos, recadeira
em mensagens quebradas, de mar. o amor se mata

sem que se chegue e sem que se fique,
como vasta peste malandra,
sacana imigrante dos peitos, danando-se
a alegrar rodas de língua enxerida,
o amor se mata no que se vai embora,
no que se tira da cachola, da cartola,
bornal de almas.

flor de manacá, flor da guavira,
caboclinha aperreada é o amor,
que se quebra em dobras e rimas,
embotada e encarangada na brincadeira
de deixar curta a vara, a cena e a reza.

boca da noite, estrela em baião,
meu coração é uma solidão de banzo,
que nem viola é remédio. princesa da natureza
é o amor, balaio de landuá, pião e rodopios,
vertente em galope, desconfio terreiro.

e na capela amarela o pecado domingueiro
é o amor. tudo sendo em malinuras.
corpo queimado, exílio no canto do vento,

deserto insone.

o amor se mata na fogueira fugaz, com o perfume
colorido do que não cessa, bandoneóns e milongas.
o mar abusado que chora cordas de infinitos,
que recebe o presente caviloso, que é dengo de morte,
que dá rabissaca e é atrevido, modelo de longes,
engasgador se bem feitas as amarguras.

o amor se mata na cordilheira,
nas procelas e nas tormentas
dos mistérios, nos bandolins do tempo,
nos acordes revoltosos. o amor arrebitado,
que escandaliza a vida e que se presta ao merengue
de todas as danças e de todos os instantes.

maestrino desobediente, enganador de ordens,
o que pede sem precisar, o que governa sem exército.
o amor, o amor que é mar, o amor que planta enfeite,
o amor que colhe somentes, o amor, amor,
só se mata em alto-mar.


* Imagem: www.devianart.com

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Falsas fraturas do tempo

*

Por Germano Xavier


Escrevo frações de um todo incompreensível que sou eu. Eu amando você sou um pequeno e imprevisível desastre. Um desastre que ainda pode crescer, se você colocar lenha nessa fogueira insensata. Mas suponho que não tenha muita lenha disponível e isso é uma providencial contenção de um incêndio de indeterminada proporção. Não a alimente. Eu peço sinceramente. Deixe esfriar e morrer em relativa paz. É só agir como sempre... Normal. Deixe antes que eu reencontre a apatia de alma que toda vida medíocre merece. Nadar contra a correnteza ainda significa loucura e fracasso nesse mundo de cópias humanas em escala infinita. Torça para eu encontrar a tranquilidade do viver estável e tradicional. Talvez até encontrar alguém que me ponha no chão de giz. No calendário regular de obrigações várias e concretas. Alguém que esteja, que seja, que veja, que diga. Mesmo que não saiba de mim um décimo do que você sabe... Mas que aperte a minha mão quando eu tiver pesadelos... E me conte do dia que ficou para trás. Isso deve ser importante, já que você tem isso e mantém acima de tudo... Alguém que se instale... Aqui comigo... No lugar que é teu por fato e escolha do sadismo do universo. Não nossa. Nunca minha. Fique feliz por, enfim, eu ter encontrado um pouco de amor próprio. Existirá alguém para quem eu seja a pessoa? A primeira opção e não apenas mais uma pessoa entre tantas árvores? Se sim, quero descobrir. E só posso fazer isso se... Não é falta de amor, é presença de amor demais e necessidade de vida real. E não acredito em tua decisão de... Tem a intenção, mas não os meios de cumprir o que diz. Não negue para si. Teria muito a perder e pouco a ganhar. O que diz que faria é algo que só se deve fazer quando não se pode viver sem. Não é o seu caso. É o meu. Nunca vou te dizer adeus. E nunca acredite numa despedida minha. Eu posso estar em tua porta no minuto seguinte. Eu imagino o sonho com muito empenho e pouca clareza, mas a realidade o torna capenga. Não impossível. Fraturado de falsas esperanças. Ferido de inconsistências. Destruído ainda no útero do tempo, pela falta de verdade e de cálculo. Pela falta de combustível e de convicção. Atrás da porta te espero o dia inteiro. A cidade é nova e o clima é gostoso. Ideal para fazer amor. Ideal para fazer planos e para fazer nada. O tempo não passa, amor. E já faz dez minutos que você mandou a mensagem dizendo que viria. Você é tão raro aqui, amor. Um relâmpago, um eclipse, o amor em carne. Pus a minha melhor roupa íntima: nenhuma. A casa está cheirando a eucalipto e a flores mortas. Não gosto de flores vivas. Você sabe. Troquei a roupa de cama, mas nós dois sabemos que não serão usadas. Você está trazendo um livro, com certeza. Provavelmente aquele que te pedi há um século. Você sempre adiando os meus desejos. Você sempre me deixando para depois, para nunca. Você sempre... Mas sei que está trazendo dessa vez. Você traz livros, uma cara séria e um desejo indefinido. Nunca sei o que traz atrás desse desejo. Nunca sei o que traz atrás desse rosto bonito e fechado como um bunker. Nunca sei você atrás de você. Só sei você dentro de mim. O você que amo e que não sabemos até onde ele existe. Você já está perto, amor? Você está meu? Eu fiz compras hoje. E eu que não cozinho, fiz comida pra você. Fiz comida e um refúgio pra você dentro de mim. Eu fiz um plano para você. Fiz um mundo pra você e fiz uma mulher pra você, amor. Eu fiz a vida em você e fiz você em mim. Você e a vida são a mesma coisa aqui, amor. Você já está chegando? Abro a porta em agonia de espera. Atrás da porta: vazio. E mais tempo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Day-The-World-Went-Away-621407453

domingo, 18 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXII)

*

Por Germano Xavier


Rasgo

Déchirure


après la violente déchirure
faite par le temps

il ne reste plus que deux parties
inutiles de moi

la partie qui aime sans rien avoir
et celle qui possède ce qu’elle n’aime pas

lorsque je sèche des torrents de larmes
avec des mouchoirs en papier
je dis au temps :

je suis toujours entier


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Head-lines-614460960

domingo, 11 de setembro de 2016

Eu sei que você sabe

*

Por Germano Xavier


Eu sei que você sabe, mas preciso dizer. O verbo é uma gota de remédio que nos abre o peito. O verbo vive e faz viver. Eu sei que você sabe, eu sei. Não é você que precisa do meu amor (sei que não precisa). Não adianta desdizer o que sei. Não adiantar desmentir a verdade. Meu amor é desnecessário para você. Sou eu que preciso te amar. Entende isso? Sou eu! Simplesmente porque te amo. Simplesmente porque o amor é simples. Simplesmente porque simplesmente. Amar confere humanidade (a quem sente), inspira esperança, imprime uma identidade, proporciona uma espécie de prazer inenarrável, uma alucinação, talvez. E eu sei que você sabe muito bem. Eu sei até o que você ainda nem pensou. Por isso me adianto. Por isso me arrisco. Amar assim é um grande risco. Amar assim traz certa paz, um lar para a alma, um gozo íntimo, por vezes doloroso, mas intenso. Você sabe, eu sei. Eu sei além. É um sentir necessário, pessoal, purificador, irracional. Gigante, que por vezes atropela, tropeça em si mesmo. Mas ainda assim é bonito. É inútil, eu sei. Você também sabe. Sabe até mais que eu. Essa forma de amor (sem-mais), sem trocas, sem (com) vivência, sem acordos, sem olho no olho (a outra forma é obviamente gratificante). O que significa tudo isso? Qual o sentido desta invernada? A outra forma é uma convenção estabelecida num contrato de igualdade de dar e receber amor. Você sabe que não somos assim. Eu também sei. Chego a quase desprezar esse tipo de relação convencional. Um porre. Amor verdadeiramente poético é o que se faz sozinho e se nega a ter um fim. Um amor imortal, que não acaba. Amor mesmo não cessa! Você sabe que é assim. Ou que mesmo quando não tem seus desejos gratificados prontamente, resiste em ser, em se impor, em viver. Eis o amor. O amor tão-grande. Sei que tenho sido desagradável e irritante - o amor deve ser o espelho de quem o sente. Não é? Não me agrada te ouvir me chamando de chata o tempo todo. Sei que não tenho o direito de te falar certas coisas ou de pedir mais atenção. Você foi rude comigo, quase grosseiro. Foi insensível e indiferente. Sou eu que estou em guerra comigo, com tudo. Sou eu que estou me redescobrindo e descobrindo como cuidar de mim e você não tem nenhum compromisso com isso. Basta. A necessidade de falar com você é minha, não tua. Por isso, prefiro ficar aqui, um pouco mais distante para não tirar de você o que ainda sente de bom por mim. Somos nada. Somos só amor. Somos tudo. Por tudo e por isso, perdoe-me pelo meu desajeitado amor por você. Talvez a melhor forma de eu te amar seja assim: em inocentes e despretensiosas palavras. Virtualmente, poeticamente. Distante. Um furacão de mil olhos. Lançou-se à vida com toda a intensidade possível, invadindo escombros íntimos, queimando seus mil olhos em verdes sóis, descobrindo o fogo. Agigantou-se em humanidade, em arroubos de idas e vindas, em jornadas solitárias, íntimas, poéticas. Jornadas antológicas, pioneiras na arte de partir para ser, para ver, para escrever os dias como se sonhou. Plantador de florestas, regador de árvores de todas as cores, criador de sentidos em todos os tempos humanos. Ele, que é você, o homem das palavras todas, inteiras, elétricas, cortantes. Palavras de causar vertigens, calafrios, raiva, amor em correnteza indomável. Ele, o meu amor, grande amor. O homem dos altos silêncios. Calo o meu dia em ti num momento ritual, quando anulas a minha tristeza debaixo de teus sapatos velhos, encerro-me em teus dedos - único lugar onde te reconheço, onde és poeta morto, um imortal, o meu poeta vivo. "Algumas coisas, uma vez que você as amou, tornam-se suas para sempre. E se você tenta abrir mão delas, elas dão a volta e retornam para você. E elas se tornam parte do que você é. Ou destroem você...", vi isso num filme. Aquela coisa de te amar loucamente, todos os dias e todas as noites. Porque sei que és meu. A umidade entre minhas pernas também sabe. Os calafrios por tua aproximação - breves noticias de que és meu. Escrito em minha coxa, o teu nome em cicatriz - memória de vazios amplos. Corpo em recepção de sinais ainda não enviados. Gestação de amor no tempo do corpo. Eu sei. Eu sei que você sabe.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/horizons-629226727

As babéis de Ses (Parte IV)

*

Por Germano Xavier


"eu sonhei com você. no sonho era um garoto - que eu pensava ser você. o menino olhava fixo para um lugar. uma rua sem saída. eu pegava umas pedras que estavam no chão e dizia para o menino falar através das pedras. o menino me olhava como se tivesse entendido, mas não sabia como fazer. então eu o ensinava que duas pedras era não e três era sim. eu perguntava: você olha para o passado com dor? três pedras. ainda não perdoou? três pedras. então eu perguntava o que foi? o menino olhou para mim e disse: traição. eu acordei."


Os azulejos de Iznik

os vestíbulos da velha cidade
escodem até hoje o crime maior.
contam os mais velhos, 
em tons de denúncia e de vergonha, 
que o grande Móris, 
rei das mais vermelhas terras, 
abandonou a mais certa das conquistas:
o amor de uma mulher.

castigado pelos julgamentos,
largou o reino e partiu em cavalgada
estrada adentro, noite afora, coragem além!

no caminho encontrou seu grande amigo
e confidente. a ele, um recado para seu povo deixou:

fugi do amor para conhecer a paixão, 
para ver de perto o pulso da vida,
para sentir o doce aroma das cores
que me afirmam o horizonte.

pérfidas podem ser minhas escolhas, 
mas, pelo rei que até o sempre amará seu povo, 
clareie as vistas dos meus em alvíssaras!

a paixão, fiel paladino, é um giganteu amor!


* Imagem: http://pt.123rf.com/photo_18036564_azulejos-turcos.html

sábado, 10 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Eclusa

Écluse

Écluser le chaos
construire des digues
d’amour/ en béton//

suivre la force des eaux
faire face à l’avers
de la médaille

faire des vers
et/ à la fin ?/
n’être qu’un doute

ou un revers


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Autumn-sketches-on-water-105762299

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Livro de Germano Xavier figura entre os finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016

*

Por Germano Xavier


Meu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi um dos finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016, realizado pelo Governo de Pernambuco (Secult e Fundarpe), em parceria com a Cepe Editora. O livro figurou entre os 14 mais bem avaliados, de um total de 250 inscritos. Agradeço-imenso à Carol Piva (projeto gráfico, edição, prefácio e revisão dos originais) e Iara Fernandes (revisão dos originais) pelos incentivos e andar-amores de sempre. Também compartilho minha alegria com o meu conterrâneo iraquarense Marcel Gama (artista-imenso de minha terra natal que produziu belíssimas ilustrações que farão parte da versão impressa final - em breve!), com Melissa Resch (artista também-gigante que produziu a capa para a versão impressa do livro), com a querida Cláudia Lemos (posfácio) e Thaís Helena Syllos Cólus (texto da quarta capa). Aos amigos e leitores do blog/jornal O EQUADOR DAS COISAS, minha gratidão. Esta menção honrosa é nossa! Felicidade além da conta! Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: http://patativadoassare.com/7166-2/

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte III)

*

Por Germano Xavier


“em vaso de alabastro, acordes teus: atalcado, balsâmico, floral branco especiado quente, floral amadeirado. unguento, corpo ungido... aspergir em amor febril, sem passado ou futuro. sombra de tempo. pequeno espaço no peito. cheiro de amor. gotas de memória, lembrança dos amores que não tive - projeção profana das quenturas minhas. dor suave de saudade. cicatriz de ferida antiga. vontade de leveza, sublimação... incerteza (do que não é), certeza do que é e já ficou.”



O rótulo da obscena fragrância

reza a lenda universal
que um vetusto aroma fora criado
na manhã anterior ao dilúvio.
ao cair das primeiras águas, diz-se,
sob brasil luz solar, o céu era rubro.

das mãos de uma senhora louca,
cujos seios arfavam em delírios,
um líquido lacrimoso fora manipulado.

dele - refuta-se -,
nasceu a obscenidade nos homens.
um frasco poroso dava domínio ao seu corpo móvel.
a leve água dançava a sós.

aturdidos,
moças e rapazes e seres de todas as outras idades
o abismavam na pele dos olhos: um vermelho molho
a desdizer mornidões, 
a profetizar a música vital,
a inventar a pulsão.

e assim, apanhadas em benquistas visagens,
as malhas amorosas de todos os entes
foram se ululando na passagem dos tempos.

daí o sexo como morte em suspensão,
altivo recurso de vida contra a fome e as lufadas
do nada. daí esses assoalhos em gozo, 
estes brancos sangues súbitos,
semeaduras em botão.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-the-Green-Shadows-374755877

sábado, 3 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte II)

*

Por Germano Xavier

"vez ou outra lembro do meu avô. ele tinha muito gado, uma criação inteira, farta. era alucinado por touros. paixão da vida. um dia ele me levou para o curral e me mostrou como se marcava o couro do animal. o ferro tilintava em brasa. vermelhidão. rubro panorama. brados eram ouvidos como ecos. o instante era um coice no vão do tempo. perguntei ao meu avô se aquilo não doía. ele disse que sim, mas que depois todos saberiam que aquele monstro lindo tinha dono."



A história de Taurus

para Taurus, 
besta imperial dos caminhos,
o amor era em gusa
a fera mais mortal dos tempos.

consentiu-lhe explicar aos homens, 
certo dia, os colaterais efeitos de tão fatal dor, 
o amor, posto bravio ser-bandeirante.

disse-nos, já em bordas da narrativa: 

"há uma besta maior, escondida em face mais fina, 
causadora de febres oculares instantâneas, 
e cujo corpo permeado por orifícios úmidos deixa 
visível a nascença de escorrimentos vaginais,
de larguezas e latejamentos, de ruminâncias uterinas
e de póros em alavanca. um vasto animal 
que fere com a mais densa beleza"

nos templos onde Taurus fora endeusado,
após séculos de meditações e preces,
o grande segredo enfim se revelara:

era a mulher 

a fonte de todo o amor do mundo,
monstro marcado em dor 
e dona de todos os homens.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/touro-de-metal-21738957

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Semblante

L’allure du visage

porter dans le visage
le trait douteux
la vaste calamité

cacher dans la peau
(en le berçant)
le vent sombre
messager des pluies

laisser aux pores
la tâche d’éditer la vie
dans ce qui lui reste.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Diatlovitchi-Not-just-the-ordinary-pear-556914946

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte I)

*

Por Germano Xavier



“sonhei que eu estava cuidando de um menino que era cantor, mas que por algum motivo parou de cantar (vida triste). Então, eu deitava com ele em uma cama de lençóis brancos e eu o protegia. quando minha mãe veio com um passarinho (meu passarinho)... então, eu o mostrei para o menino e ele ficou encantado com as gracinhas que meu passarinho fazia. o menino esqueceu da tristeza e começou a cantar. o canto do menino era tão lindo como o do passarinho. quando minha mãe veio apavorada dizendo que perto de mim tinha um "bicho" que ela conhecia e que ela sabia que comia passarinho. ela me mostrava a carcaça de um que ela tinha descuidado. Então, eu dei fé de onde estava o meu - ele estava protegido dentro dos meus lençóis e ficava me picando pela coberta. então, eu o peguei e o dei nas mãos da minha mãe para que ela o guardasse. perto de mim tinha um cachorro grande e simpático que gostava de mim - vinha como amigo -, mas eu não vi se minha mãe conseguiu guardar meu passarinho. quando tive uma madorna (sonho curto , com revelação). será que teu coração é de menino, menino? e porventura estavas triste? se for assim me alegro, pois sei que de algum modo contribuo com o alívio de tuas cores. no sonho o menino cantava como passarinho feliz.”



A moira turca

meu nome é um som no destino,
um som e uma estrela em baile, e você
em dança, dervixe assombrado,
escuta a minha música nos salões.

teço fio a fio o canto das faltas,
a dor da coisa real que dentro existe.
um amor - pois nunca acabou -,
deram-lhe... o interessante aroma
do que revive e me amas com tuas dores
e teus amores. e teus sofreres.

com tua morte e teu nascimento,
escalo tuas árvores e lá de cima desconheço-as,
como a guardar em meu cálix o que em ti germina,
ser teu sagrado, para ser infusão.

crio notas de amor visceral na imersão aromática,
e orgânica, substância em líquido-fogo que tudo agrava.
em águas vaporosas minhas, baroque em vil toada
- coisa que acompanha o devaneio -,
ligo o que surge ao que nos insere.

é, pois, através
do doce pânico das cordas
que nos adequaremos para depois em adentros.
ser um único texto, e por tal tomados na profusão dos vários,
ainda nos fertilizará algures uma espiritual certeza de amanhãs.


* Imagem: http://www.partes.com.br/2015/07/07/as-moiras-do-seculo-xxi/#.V8h3DvkrLIU

Ratos

*

FORA TEMER 
e suas ratazanas!

REDE GLOBO GOLPISTA!
(e ademais)


Por Germano Xavier


e os ratos se agigantaram
em artifícios
em dissimulações

verde e amarelo enlameados
/em mentiras midiáticas/

o verde envenenado
o amarelo adulterado
a ordem envergonhada
o progresso mutilado

ratos sem memória
ratos sem história
malabaristas
vigaristas
alpinistas do poder

podre, o poder

roedores de sonhos
dos que ainda
dos que sempre!

///ratos canalhas///


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Ghosts-of-Rats-203595810

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Cindido, era assim que eu era desde

*

Por Germano Xavier


# a

quando o dia chegar já estaremos fartos dele
as cordas que nos prendem não deixam soltura para escapes
a alma tenta escorregar pelos buracos invisíveis do dia
a poesia se esgueirando entre os dedos
chega longe
e quase vive


# b

quão escritas estão as nossas páginas em branco?
quão cheios de nós estão os cômodos que nunca habitamos?
quando nos expulsou a estrada que ainda não andamos?
veio aberta a carta secreta
violado o segredo da felicidade
roubada a grande esperança
não era o meu o solo que me pariu
a vida que não comecei
acabou por me terminar


# c

na guerra que compartilhamos
o conflito é irrelevante
e que valor tem o sangue derramado?
sua cor e origem
é o que importa
para os jornais
para os anais
diga:
que cor tinha o pelo
do macaco seu ancestral?
ele usava garfo pra comer bananas e grelhava bem a carne do rival?
civil civilização civilizados
a guerra tem nomes bonitos
quanto é feia a boca que a faz


# d

não importam as armas
não importa a história
não importa a duração
nem o tamanho da encrenca
o conflito é irrelevante
o que importa é que estamos aqui
em silêncio amoroso
ou gritando impropérios
felizes ou morrendo
em fila indiana
importa é que estamos
instalados na luta
ou pendurados nela
pelo nariz
fazendo revolução em guerrilhas
em trapos de convicções
em doce ilusão de estar
fazendo revolução em guerrilhas
com amor e alguma poesia


# e

nem lua
nem constelações
uma estrela cadente
me cai bem


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Delerium-631507941

domingo, 28 de agosto de 2016

Refrigério

*

Por Germano Xavier


Início da tarde. Domingo. Fim do mês. O ano entrando no limite. Ponho-me a escrever munido de tua imagem no pensamento. Penso em você o dia inteiro. Há uma nuvem espessa que se adensa entre nós. Ninguém haveria mesmo de dizer que seria fácil. O mundo é tão feito de acasos como os nossos, como os meus, como os seus. Somos dois acasos? O que somos? O que seremos? O que seremos amanhã? Por que eu já te amo tanto? Sim, eu te amo. Sim, eu também te amo. O amor será sempre uma palavra em tua boca. E poemas para você na minha. E algo mais que me incendeia. E estou implorando algo? Nesta vida só implorei algo a um ser: Deus. Naturalmente, ele não me ouviu. Talvez você seja mais generosa. Ao menos você é real.

Não se dê para esses imbecis, os que te assediam sem saber de tua alma. Portanto. Você não merece isso. O que eu mereço? Você? Ou uma nobre e recatada solidão? Eu te amo! Eu amo você. Eu sei. Mas eu não acredito em estrelas - não sou eu que acredito em estrelas! Não voo. E nem titubeio. Eu te amo em queda livre sem amarras de segurança. Mas posso acreditar em estrelas. Depois de você tudo é possível. As pedras, antes de machucarem teus olhos, eram flores dentro de mim. Eram pingos de mel em meus lábios. O veneno, meu bem, a raiva de tudo que transforma em pedras, as flores que quero oferecer. Perdoe-me pelas pedras, pelas flores. Pela incapacidade de te amar serena e docemente. Como tu. Mas te amo. Em fúria. Em estrangulamento de saudade. Em guerra contra tudo. Em resistência.

Mostrei para teus olhos de dar vida toda a força de minha fraqueza, lustrei feridas, aferi doenças e calculei resultados. Carreguei o fardo da sinceridade doentia para adoecer teu olhar para o meu olhar adoecido. Você apenas sorriu. Sem rejeição no olhar. Livrou-me de mim. E sobrevivo hoje. Se me tirassem o direito de te amar a pretexto de pureza ou protocolo social, me encolheria em recusa e se vencida como pássaro sem bico no fim de tudo e com secreto ardor te chamaria de amigo, você diz. Mas não é amizade, você sabe. Somos improváveis somente em sendo assim.

Você, todo um laboratório. Mistura, composição, alquimia. Foi você quem patenteou o perfume do amor? Há momentos em que preciso apenas de alguma coisa tua, com urgência de vida, um oi ou uma flor virtual. Não posso esperar muito, mas desejo infinito. Tão pouco já me alimenta, mas você me deixa com fome. Quase sempre. Às vezes não. Às vezes você é banquete. Mas minha fome vem diariamente. Por isso o pecado tão próximo, o do exagero. Porque até o amor requer calmaria. Requer fluidez. Leveza. A verdade é que fui ao fundo do poço por você. E lá, quando toquei a circular parede, percebi que o fundo do poço não é só escuridão. Fechei os olhos e enxerguei com o coração. Em minha frente, logo ali, uma linda mulher pousava suas mãos nas teclas de um belíssimo instrumento de cordas, mais antigo que a própria música. O temor, por um longo instante, tomou-me disfarçado de esquiva. A entrega só veio depois do primeiro olhar, na distância inconteste e impiedosa de alguns poucos centímetros quilométricos. Foi vivo. Sabemos.

Encontrar você no fundo do poço foi como quando sofri a mais vasta das seduções literárias, mesmo sabedor de que uma sedução literária não precisa de ornamentos, já que o simples ato de seduzir não vale muita coisa. Mas valeu pelo que me revelou. Há humanidade no que construímos. Existiu sentido em você. Lidar com o amor é fazer um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre o amor é, em certa medida, dialogar como o ponto de vista do outro, na tentativa de compreendê-lo e de fazer analogias possíveis com o nosso. Nada no amor é inútil, nem o que nele faz doer. Certeza. O amor, esta dupla viagem. Esta guerra!

O que ficou, refrigério. Ainda é começo. Estrada interminável. A viagem se configura. Relevo íngreme. Somos personagens do sempre. Um livro se espelha como definidor de luas. Conversa iniciada. Solar. Amor que amo em mim. Você respira. Com todos os alvéolos. Uma saudade instalada. Eu que me preocupo. Eu que durmo pouco. O receio da gente se perder ainda no início. Aquele sonho: sonhei que eu estava nos anos 40 em uma festa ou encontro com a mocidade - e estávamos em uma roda ou coisa parecida - e por dentro eu tinha uma vontade imensa de saltar - pular, elevar-me -, mas tinha receio daquelas pessoas que estavam por perto formando um círculo. Então, um moço pegou minha mão e elevou-se bem alto, deu uma pirueta e me levou com ele... O transcorrer do sonho foi sobre esse mesmo salto - sendo ele em outros lugares de outras maneiras... Você diz. Eu digo. E pensar que estamos bem além de uma simples dança. Esse amor disforme. Gotas de vida, pingo a pingo, enche rio, enche mar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Got-The-Greys-579802304

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Chuva serôdia

*

Por Germano Xavier


"Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo."

(Excerto do poema La Jaula, de Alejandra Pizarnik)


o que há contido nos contém.
não é mais que uma morte o amor,
modo de semear o solo, grão úmido, 
vida ou esfera maior.

eu sei das águas viscerais
e sei dos ásperos mares.
eu sei do feminil concerto de tua boca,
da lâmina que é teu ventre,
do fértil desastre dos desperdícios,
daquele estrondo incontido e elevado e vocal 
nas manhãs umbilicais de teu rosto.

nem areia nem sílica, o líquido na taça.
o conteúdo que bebo, o que me põe a refletir, 
o que me embriaga, o que tem cheiro, gosto, cor.
o que não é estanque.
o que é agressão, mas não moléstia.
o que ondula, invadindo.

não misturo o que não importa.
meu grito é um incêndio natimorto.
falo por meio dos silêncios 
e eu escreverei acerca de uma mulher de tantas farturas/ 
que viveu sob o tempo das belezas menos impostoras/ 
um mistério de longos cabelos negros/ 
seios fartos, mãos torturantes, calorosos recantos/ 
e de angústias caminhantes.

(uma mulher imperial)

estou na última estação.
o trem descarrilado me eleva inquéritos de ordem.
toda a minha moral me sucede. 
sou precedido por respostas.
abrir a boca e beber o vento é já minha sina.
engulo doses de ar, cunho-me na pose onde me dispo
de mim, de toda aurora sem cor, 
de qualquer queda sem dor.

e tu ocultas o carmim dos sonhos doentes,
a fúria das insones sombras ao meio dia.
tu, la muerte desnuda, mi nombre hasta el alba,
mi gran muerte y dulce cansancio.

lá fora a lua,
a última estrela da loucura,
única certeza.

cá dentro o sol 
e o inferno de te saber.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chuva-142676281

Retalhos in natura

*

Por Germano Xavier


#1

digo não
ao remédio maquiador simplório
de dores inatingíveis. digo não
aos paliativos modernos
para entorpecer sentidos e disfarçar
a aparência da dor. prefiro deixar a ferida in natura
doer naturalmente, esgotar seus impulsos torturantes
sem nenhuma tentativa invasiva
de conter o seu fluxo natural.

a natureza da dor é doer.
a minha é sentir.



#2

tenho medo de não conseguir. tenho medo
de sucumbir ao fundo das coisas e não voltar mais.
tenho medo de olhar para dentro do abismo
e ser sugado para as entranhas da luz da realidade sem máscaras.
tenho medo de não olhar fundo e perder a visão do coração.
tenho medo de olhar torto e perder o ângulo onde tudo faz sentido.
onde o sentido faz tudo.

tenho medo de fechar os olhos
e perder o relance onde afloram as respostas.
tenho medo de piscar no momento exato da revelação de grande valor.
ou do valor da revelação. tenho medo
de não ver o amor chegar, ficar ou ir embora.
tenho medo de o amor não ver. de me ver. de amor. de.



#3

não posso voltar... já gastei o amor que só vem uma vez. por vezes, tenho inveja dos mortos. porque eles não sentem nada. não consigo dormir. e também tenho vergonha de pertencer à raça humana. tenho uma lágrima aqui... me desculpe por ser ela também tua. tua lágrima em mim. eu lágrima tua. eu vida escorrendo em minha face tua. tu, lágrima minha. não quero dormir. não quero acordar. eu quero escorrer em teu rosto.



#4

você não existe, Deus! você não existe! mas, se você existe... quem pode se recuperar de tua crueldade? onde você estava quando os inocentes foram violados? quando os bons foram assassinados? quando os sonhadores foram enganados? quando o mal destruiu o que nos disse para amar, onde se escondia? por que nos deu o amor quando sabia que o ódio era o nosso destino? por que nos fez amar o que nos tiraria? você não pode existir. não pode. se existe e fez tudo isso, gostaria que não existisse. não posso conceber tamanha maldade irônica num único ser. não sei explicar que radical loucura te move, se sadismo ou tirania ou brincadeira de mau gosto.


#5

Sim. Talvez eu tenha achado bonita demais aquela dança. Uma dança assustadoramente sensual, poética, íntima e profunda. Um êxtase para olhos sensíveis e levemente tristes. Sim. Talvez eu tenha desejado imitar. Mas sempre soube da exclusividade dos milagres. E do inatingível do amor demais. Sim. Admirei aquela dança que, de tão íntima, chegava a ser constrangedora. Admirei e amei o amor que escorre da poesia. Mas sou apenas olhos cansados. Sonhos interrompidos e rio a correr sem rumo. Não imito. Já tenho o meu próprio modo de ser infeliz.


#6

Sou tenso porque o mundo é hostil. Sou teimosia em riste. Sou lágrima em cascata. E quando digo que amo é porque já eliminei todas as chances de dizer que não. É porque já calculei e provei que não amar não é mesmo possível. Não nesta vida. Não nesta sexta-feira de tua falta. Não nesta brincadeira inocente onde ninguém se machuca. Mas essa brincadeira não é muito inocente. E alguém já deixou pedaços ensanguentados pelo caminho. Depois fechou o parêntese e começou outro parágrafo. Não precisamos de muita coisa para fazer o mundo girar, não é mesmo? Só do mundo. E do giro. Você veio e apagou a luz. Depois tudo virou passado e cortesia fingida. Cantiga de amor às avessas. Relatório de erro. O amor. A vida.


#7

Você pensa em mim. Eu penso em você. Você titubeia. Eu falo do nada. Você musica. Eu poeto. Digo que a rosa é simples. Você crê em estrelas. Faço pipas solitárias. Você voa. Cadeio-me. Livro-te. De mim. De você. Olhamos diferentes para a mesma estrada. Critico aspectos metodológicos diversos. Tudo é tão. O amor. É vão?


#8

não sei se foi o dia
de chuva
ou a natural deterioração
do tempo
mas hoje a saudade
veio com a força dos séculos
pesando em meus ombros
a tua falta presença



#9

a certa altura
toda a poesia vira pó
e a palavra amor,
(entre clichês familiares),
a única inscrição

(grafada às pressas)
na improvisada lápide



#10

Não tem jeito. Vou continuar apertando o botão da dor pela falta de. (Ou é autocomiseração? Ou é estupidez? É exorcismo. Patético. Como todo exorcismo). Um pouco mais e até entorpecer. Talvez perder os sentidos todos. As vontades todas. As lembranças todas. A vida toda. Vou continuar correndo atrás do trem, ou talvez, na frente dele, um dia. Não sei onde ir para te encontrar, amor. Não sei onde ir para não te encontrar, meu amor. Mostre o caminho para a tua exatidão. Nem o inferno, nem a vida, nem a ideia da eternidade. O que me aterroriza e me tortura é amar você.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/con-sentimento-134836052

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIII)

*


Olá, querido amigo!

Há quanto tempo não nos falamos por aqui. Só em intenções, em tentativas paralelas, em pequenos toques de palavras, com poesia, com recados breves.

Mas por aqui é diferente. A gente fala cara a cara e neste momento estou a ver a tua, espantada, mas serena, dizendo: “A Clara acordou para nós”, com um certo ar de reprovação mas ao mesmo tempo contemporizador. Não vou justificar-me. Tu farás isso, muito melhor do que eu, só tu percebes por que motivo as palavras se transformam em vazio algumas vezes na nossa vida; deixemo-las falar como bem entendem, calando-se, como parece ter sido o caso dos últimos meses.

Tenho estado em contemplação do mundo, numa expectativa permanente. Agora, no exato momento, ouvindo Tom Jobim cantar Insensatez com uma banda que não consegui identificar. E lembrei-me de Chopin (Op. 28 nº 4), https://www.youtube.com/watch?v=ef-4Bv5Ng0w, por ter lido algo a respeito da proximidade do tema do Tom com esta sinfonia, nem sei se é o termo. A verdade é que fui ouvi-la e confirmei a semelhança. Sublime descoberta que partilho contigo, meu amigo, é a primeira vez que me lembro de escrever uma carta com um link para o youtube, sinal dos tempos…

Começaram os Jogos Olímpicos no Rio, e a nossa atenção está agora voltada também para os nossos irmãos brasileiros e para o Rio de Janeiro, para o mundo, para esse encontro supremo de culturas e de atletas. A imprensa vai contando pequenas anedotas de bastidores, pormenores sobre alojamento, acolhimento; recordo uma citação engraçada e suscetível de gerar polémica também, que ouvi a respeito da imprensa há anos atrás: a imprensa é como o bikini, mostra muita coisa, mas não mostra o essencial. Partindo talvez do princípio que o que se oculta é sempre essencial, quem sabe se pelo simples facto de ser omitido.

Aqui em Portugal há um assunto recorrente que são os fogos de verão, causados por mão criminosa ou acidentais, ninguém sabe, poucas vezes se chega a uma conclusão. Neste momento há incêndios de grandes proporções em várias zonas de Portugal, inclusive no Funchal, que atingiram famílias de forma dramática. Fala-se em empresas privadas que combatem os fogos e que teriam interesse em que estes se propagassem. Parece uma coisa monstruosa, mas não impossível. Em todo o caso, à falta de provas, não passam de meras teorias, especulações, mais ou menos fundamentadas.

Tenho que ter cuidado para não repetir histórias, assuntos, comentários, talvez esteja a entrar naquela idade interessante em que se repetem relatos sem cessar e devolvemos aos amigos as histórias que aprendemos com eles. Se são amigos da mesma idade a coisa funciona, pois eles também já não se lembram de ter contado… mas se forem mais novos, mais atentos, mais alerta e bastante críticos, a coisa descamba… envelhecer ou amadurecer proporciona-nos experiências curiosas. Noutro dia uma amiga querida dizia-me que eu não tinha rugas. Mas eu reagi: eu tenho, sim, não aquelas rugas como sulcos do arado na terra, não aquelas crateras de terra seca, fendas de terramoto, mas as rugas que eu tenho, embora discretas, são visíveis a olho nu. Acontece que a vista também já não as alcança no espelho, por isso, mais rugas e menos golpe de vista, equivale a juventude eterna! Não é sábia a natureza? E aqui entre nós, mesmo que as veja, elas são a última das minhas preocupações, não por falta de coqueteria mas porque considero que tenho preocupações mais prementes. E se as rugas dos outros não me incomodam, porque as minhas haveriam de afastar alguém? Irrita-me um bocado esse culto exacerbado da juventude que faz com a pessoa se sinta quase culpada por não parecer ter 20 anos aos 50. Porque deveria parecê-lo? A pessoa deve viver bem com a idade que tem: cuidar da saúde física e mental não significa recusa em aceitar que o tempo deixa marcas. Pode parecer um lugar comum, mas creio que o envelhecimento é uma questão que preocupa a todos, de forma mais concreta a partir de certa idade, e por uma questão social e cultural, as mulheres. Creio que a natureza nos castiga mais e a sociedade exige mais de nós em termos físicos. A mulher tem um curto período da sua vida para procriar, esse período é muito mais prolongado no homem. A gravidez provoca alterações de peso bruscas e variações hormonais. Talvez esteja a ser injusta ou insensível com os homens, no geral, mas nunca ouvi nenhum queixar-se dos efeitos da andropausa, se calhar apenas não o fazem à minha frente… hoje o meu discurso raia o feminismo mais primário e “déplacé”, mas não é por mal, nem por quaisquer radicalismos, apenas me sinto à vontade contigo para não insistir no socialmente correto o tempo todo. É cansativo ser assim… eu não quero ser assim contigo, nem tu querias, certamente.

A situação política no Brasil que referes na tua última carta também é inquietante. Nós preocupamo-nos aqui, e eu prefiro comparar a tua versão das coisas com as várias versões oficiais, o cidadão sente na pele todas as indignações, desrespeitos e manipulações e é importante conhecer o impacto da instabilidade na vida das pessoas reais, como tu, que és meu amigo e cuja palavra me chega sempre fresca e cheia de emoção, de verdade, sem contenções, espontânea como tu és.

O mundo já não é um lugar seguro; será que já o foi alguma vez? A violência grassa em qualquer ponto do globo, as religiões apostam na ritualização em detrimento da essência, as doutrinas são substituídas por práticas coreografadas, …eu sou uma ignorante nestas coisas, chamo coreografia à liturgia e já fui repreendida por isso. Mas tu entendes, não é? Eu preciso de ver e sentir para além do óbvio, nesta matéria e no geral.

Agora o meu pensamento voou para um fait-divers, que te vai deliciar: no outro dia encontrei uma menina numa festa familiar, uma menina da Guiné Bissau com quem eu ensaiava uns passos de dança. Dançámos funaná e ficámos super transpiradas, ela, eu e outros meninos com quem brincámos um par de horas, uma vez que eu, ingenuamente, cheguei à festa à hora marcada, coisa quase inédita entre latinos e africanos, e tínhamos que entreter-nos com alguma coisa…a menina era um doce, tinha uns olhos negros enormes e bonitos. Teria os seus cinco anos, pelo que percebi. (Sabes que eu tenho um monte de aventuras com crianças, histórias anedóticas, deve ser o meu lado Peter Pan). Então nós dançámos e desenhámos, no telemóvel, eu fazendo retratos e ela e os amiguinhos posando. Depois, do nada, a menina atirou: “Tu és branca ou és preta?”. Eu ri-me e nem respondi diretamente. Acho que apenas devolvi a pergunta, perguntei se isso para ela era importante. Aquela criança viu claramente para além da cor da pele, ela viu cultura, atitudes, reações e forma de estar; ela abarcou, com o seu olhar ainda puro de criança, tudo o que compõe um ser humano. Depois, quando eu fazia o seu retrato, ela pediu baixinho: quero que me faças um cabelo como o teu… aquele pedido entristeceu-me, disse-lhe que ela tinha um cabelo lindíssimo e um penteado muito bem feito, trancinhas ornadas com missangas, coisa trabalhosa, feita pela mãe. Mas eu percebi que a identidade e a consciência de si é uma coisa que se forma cedo, esta menina precisa de ter padrões positivos dentro da sua comunidade de origem, de perceber a beleza como algo muito mais abrangente, muito mais vasto, uma coisa feita de muitas cores e em constante mutação. Eu sei que estás a sentir o mesmo que eu em relação a isto, mas para entenderes melhor mando-te o retrato da menina. Da Jessica.

Agora eu vou ter que te abandonar, só no papel, como sabes, já antecipando a tua carta que virá um dia, quando eu menos esperar, envolta em nuvens e em sabores sempre diferentes. Com laços e fitas e papel brilhante. Uma coisa de encher a alma. Eu acabo por saber sempre de ti, querido Viana, porque te adivinho e te farejo, pelo que expões e pelo que omites, e até pela tua discrição e pelo teu cansaço. Mas é muito bom quando as notícias chegam por tua iniciativa e eu sinto que também precisas destas conversas para te reciclares.

Aqui está um calor insuportável. Eu não aprecio calor em excesso, ando permanentemente com um leque na carteira, bebo água sem parar.

Mando um abraço feito beijo para esse reino distante de onde virás um dia para me visitar, e visitar esta terra onde te sentirás em casa. Tens já aqui muitos amigos: Cristina, Sant’Ana e o Dudo lá em Luanda também, que adora ler-te. E mesa posta, passeios preparados e conversas intermináveis a germinar. Fico à espera de ti e das tuas palavras que abrem portas.

Clara
Lisboa, 10 de Agosto de 2016.


******


*

Clara,

Só em breves levantes, o encontro feroz. Assim, feito. Quisto. Bem. O encontro que marca a vontade de estar em paz, em pensamento, em corrida de se ir ao abraço amigo, força leve. A nossa. Mas que agora estamos, em novo confronto de ideias. Tardamos, mas estamos. Sempre. Assim que é. Não se faz preciso nenhuma justificativa mais aprofundada. O mergulho é o de outrora. Tua voz daí combinando marés com minhas sensações transatlânticas. Esse silêncio de dias, de meses até, bem necessário se faz, quando assim é o rumar, o remar. Da vida, das ondas de nossa amizade.

Pois bem, Clara, nos mesmos instantes em que você é levada via youtube a pensar e refletir sobre as coisas e o mundo, os Jogos Olímpicos do Rio – 2016 começam e, zás!, já terminam. No fundo, a mesma conjuntura de sempre. As grandes potências esportivas no topo. O Brasil, com todas as suas dificuldades, tentando ser menos pior que nos últimos Jogos. Não se pode ser exemplo em esporte sem dar incentivo a atletas e sem estruturação básica para treinos etc. O Brasil é uma piada nesse sentido. Não sei como é aí em Portugal... Bilhões de dólares jogados fora, pelo ralo, muito destes corrompidos e desviados, é certo, e no fim... no fim... no fim, nada. O desastre é colorido e tem as cores da exclusão. Pagaremos as contas, paulatinamente. Já estamos pagando. Ou melhor, há bastante tempo já pagamos.

Você citando assim essas notícias tristes sobre incêndios, Clara, e eu me recordo com tristeza das muitas vezes que a minha Chapada Diamantina ardeu em chamas e nada, absolutamente nada mesmo, era feito. Por lá também havia tais comentários, de que haveria uma “indústria ou máquina” interessada nesse fogo. De doer o coração da gente, não? Pensar que é bem possível que assim se dê...

Eu sinto raiva, por muita coisa. Coisas erradas. Coisas que precisamos enfrentar e até engolir. O mundo é cão. Estou sempre em estado de fúria. Minhas mãos estão sempre querendo esmagar alguém (não qualquer um!), esmagar o mundo, o tempo, a História, a vida toda. Colocar tudo num imenso liquidificador, bater e devolver à inexistência eterna. Mas não posso. Há leis - mas não justiça! Deveria ser legal, por exemplo, matar em legítima defesa (mesmo dez ou vinte anos depois) a quem destruiu a sua vida - defesa que, antes, no momento do crime, não seria possível, por falta de capacidade. Destruiu? Sim, ao menos a parte inocente, a que era capaz de acreditar. E voar. Mas a raiva não vai embora quando é por justa motivação. A raiva é a herança maldita dos injustiçados, dos esmagados e enterrados vivos - mas vivem? Talvez a raiva seja a única prova de que vivem. Vivemos. A raiva é boa e ruim. É espada de dois gumes que só corta de um lado. Do nosso. Quando se está cego de raiva é difícil ver à nossa frente apenas os culpados. A raiva é uma arma sem mira de precisão. É bala perdida. Veneno espalhado a esmo nos vãos incertos do mundo. E eu, radicalmente contra toda forma de violência e vingança... Mas há dias, há dias de enfrentar monstros antigos. E resistir.

Temos dias difíceis. Nossos olhos quase sempre não amenizam a dor da realidade. A não ser nestes casos aí, contados por ti. Engraçado, dias atrás falava eu sobre a idade com uma pessoa. A idade que, acreditando em Quintanares, só vem de duas formas: ou idade de vida ou idade de morte. Melhor encarar assim, não? Estamos vivos e isso deveria bastar. Entrar em parafuso por conta de uma ou duas rugas no rosto não seria nada interessante, penso eu.

Ufas e ufas, Clara! Política aqui, de mal a pior, cobras e corvos, animalesca luta pelo poder, vampiros e sanguessugas... cada qual com seus próprios interesses, que não os do povo mais necessitado. Preços aumentando, dinheiro faltando. Receita de um desastre? Não sei. Prefiro acreditar que tudo isso passará e que novos ventos pousem no Brasil. E sim, eu te entendo, eu te entendo... tudo agora é panaceia, tudo ou quase. Que fazer, que fazer?

E a Jessiquinha, heim?!, tão linda e de tão nos preocupar já. Que mal o mundo faz com a cabeça de um serzinho desses? Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Necessário investigar. A negritude é expansão, roupagem de força. Humanidade inteira numa cor. Precisa ser entendida desde pequena, precisa ser vivida. Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Ah, Jessiquinha, continue a bailar com teus cabelos livres de qualquer maldade de ideias! Você vai ver que és bem mais quando! Vai, Jessiquinha! Vá! Seja! Seja!

Dizer, por fim, que a vida está sempre a nos apresentar bonitezas, e que precisamos sempre estar com a alma aberta diante desses acontecimentos. Apesar de todas as dificuldades, a vida me tem sido muito bonita nos últimos dias. Tenho me sentido mais vivo. Desejo isso a você também, Clara, uma vida sempre mais vida. Abraços em todos aí e até bem breve!

Caruaru dos bonecos de barro de Vitalino, 23 de agosto de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Luísa Fresta e Deviantart.com.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 9 de abril de 2016
A estreita guarda das noções

à José Barbosa


L’étroite garde des notions

le temps de l’âme est insaisissable
aucune technique n’est développée,
et comme (im)précisé,
entre la vocation et l’intérêt,
entre la vocation et le plongeon
peut-on s’offrir le métier de rêveur?

nous voudrions, alors
les bras eternels des océans,
les lamelles aveugles des écumes,
pour pouvoir, en vain,
marcher en à-coups de départ
parmi la lecture affligée des dilemmes.

des fils de vie appliqués au mystère
domptent l’invisible vague des finissons,
qui mémorise, inlassablement
l’étroite garde des notions.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/2-611972814

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Nosso tempo


Notre temps

rompre.
laisser venir les printemps.
même si rien n’arrive, c’est une vie.
c’était la vie même.

intervenir. et connaître pour pouvoir rompre.
connaître pour intervenir.
et connaître pour agir.
contribuer.

// l’erreur est aussi un manifeste//
la poésie est dans les actes.
la poésie est dans les faits.

la poésie n’est pas là
pour être n’importe qui.

la dame sans principes
est quelque part dans le monde.
et nous sommes là
dans le monde
pour vivre.

c’est un temps des sens,
un temps des hommes sensibles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Flowing-Through-The-Story-Of-Your-Whole-Life-602950222

Dentro de nossos silêncios

*

Por Germano Xavier


dentro

de nossos silêncios o segredo dos encantados
o de enxergar o que não há dentro de nossos silêncios
o segredo dos poetas
o de transformar dor em arte
há dentro de nossos silêncios o segredo dos simples
o de encontrar a beleza oculta

há dentro de nossos silêncios o segredo dos sonâmbulos
o de continuar andando há dentro de nossos silêncios
o segredo dos náufragos
o de segurar a respiração há dentro de nossos silêncios o segredo dos crentes
o de não fazer mais perguntas há dentro
de nossos silêncios o segredo dos amantes
o de fechar os olhos
há dentro de nossos silêncios o segredo dos inocentes
o de não saber que sabe há
dentro de nossos silêncios o segredo dos divergentes
o de ser mais gente




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/february-mood-287875763

domingo, 14 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 10 de Março de 2016
Um intenso toque seco


Un intense coup sec

l’écheveau, comme un trait.
l’identification, comme un sceau.
le foyer, comme une devise.
le mot, comme un appel.

des âmes vont naître, le diable au corps. Pourquoi ?
alors que rien ne sera fait pour les retenir

//la machinerie humaine est un art.

la protection intelligente sera donnée comme une augure.
nos itinéraires n’auront pas le chemin du milieu.
tout s’adaptera à l’absence.
nous vivrons sans parfum.

et le danger, cet extrait,
n’est pas celui-ci.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sahara-620023092

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Prelúdio para cravo

*

Por Germano Xavier


deveria ser o começo
nas semelhanças, na gratidão esboçada,
na química atômica das palavras,
uma bela mostra do belo, uma apoderação
do instrumento /cravo em barroco francês/,
ou um Jean-Baptiste Lully, alma perdida no tempo,

deveria ser o tempo furtado, o não ter limites,
ser sem premissas em inesperado encontro,
em sincronicidade num mosaico de fragmentos,

Bach a nos falar, semelhante com semelhante,
canceriano filho da lua por ariana bruxa, que guitarreia
castiçais, ressonâncias, a domar caleidoscópios, transpor transes,
e porque temos fomes vorazes, semeamos iguais quenturas...

deveria ser em qualquer lugar, lábios entre os corpos,
sem adiantar correr nem supor o estrago, nem se indignar,
poder ter a coragem de negar o insensato querer
e na fantasia de nossas vidas, conceder em centúrias
os bons termos do mistério, do sexo, da lascívia e do amor.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecinons-184675826