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domingo, 1 de março de 2020

Os manejos em assanho de Orobó (Parte V)



Por Germano Xavier


reza a lenda que duas montanhas se erguiam 
na parte norte do corpo de uma mulher
eram dois vulcões a ativar o redemoinho do mundo



A ordem era: atacar o cume, chegar ao fim.
Mas antes, na amurada das horas,
apegar-se às duas montanhas da carne.

Casas do leite maternal, pousos para o cansaço
das mentes: o grande algodão das tuas mamas.

Ikan fez-se feto. Muhatu permitiu a sucção vital.
Era, pois, o alimento mais vivaz de toda a sua lida.

Ali, entregue à maciez da pele, Ikan era Muhatu.
E toda a temperatura foi sendo um redemoinho.

E a Terra se lançou em mais encontros. E o Sol cumpriu
o seu duro dever: anunciar a passagem do Tempo.



segunda-feira, 27 de maio de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte IV)



Por Germano Xavier


reza a lenda que os dois se tornaram um só:
corp'alma e todo um aspecto plástico-poético,
ou ainda mesmo pura pirotecnia.



O fogo se instaurou quando dentro
e uma narrativa solidária fora brotada.

No canal, esperm'ardente em avanços,
Ikan foi sendo Muhatu e Muhatu foi sendo Ikan.

Orobó agora deixara de ser real.
Orobó era magia sem Tempo.

Condenados à coragem, astutos imaginaram
o persistir: modos únicos de revolução.

A hora em que Ikan iluminou Muhatu
fora também a hora em que Muhatu, 
já diagnosticada com "doença de amor",
fartou de nomes as coisas-meras-coisas.

Toda uma maneira se desintegrou.
Então, compartilharam personalidades.


sábado, 4 de maio de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte III)



Por Germano Xavier


reza a lenda que eles pousaram no Grande Horto 
e que o pouso fora a certeza do amanhã.
e que o amanhã era o ind'agora em ontens.



Pedra brilhante de Itá Berá: é brasa na Chapada.
Lugar incendioso das matas antigas e do povo bom.

Brigadista é Ikan, mas antes tocador de fogo,
que é ser-liberdade em cores e crepitares.

Saiu para fazer arte no céu das dúvidas.
Levou Muhatu, a Pequena, pois dela é o Reino.

Quem liga o sol é o próprio calor da hora.
A massa é antes o forno: carvão ativado.

Pássaros sobre o fio - alta tensão.
Porta-porto: pousada. Lama no beijo.

Mel. Água. Suor. Rosto. Corpo. Seios.
Vãos nada vãos. O Gigante e a Pequena.

IkanMuhatuIkanMuhatuIkanMuhatu.

Os dois, pálidos de tantos.
Os dois, certos de que sempre.
Ikan e Muhatu, corações grávidos.


* Imagem: https://www.deviantart.com/einsilbig/art/Signs-of-the-future-707174452

sábado, 16 de março de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte II)



Por Germano Xavier


reza a lenda que uma serpente,
enveredada na noite quilométrica, 
correu chão até ser o encanto das línguas.



Itá Berá, pedra que brilha, veio e se foi em silêncio,
cidade das acutilâncias e dos espantos inaugurais.

Ikan era já Muhatu, Muhatu era já Ikan.
E toda uma Terra imensa se tremia.

Os dois, doentemente contagiados pelo tumulto
das farturas, agora veriam de perto a Mãe-Noite.

Sem-igual era a estrada.

A estrada era uma longa serpente
de riquezas, fluidos, sensos, línguas

e escolhas.

Sem-igual era a estrada.

A estrada bem no centro da Mãe-Noite, além-Orobó,
era a impressão mais nítida do Corpo, do Amor, da Vida.

Muhatu era o licuri maduro, inchado de dentros,
arte-mor de todo um conflito. Muhatu era a reação.

Ikan, caído em morte póstuma, agora renascia,
criança de colo no seio do Deus-Depois.

Ikan era a serpente, e a serpente era a estrada.
Muhatu, o emblemático destino e sua larga distinção.


* Imagem: https://www.deviantart.com/cllozdemir/art/ciplak-168844490

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Os manejos em assanho de Orobó (Parte I)




Por Germano Xavier


reza a lenda que bandeirantes,
atravessados pelo desconhecido, aqui vieram
e de Falsas Minas aqui chamaram.

Itá Berá | pedra brilhante |,
casa do amor entre Ikan, o Gigante, 
e Muhatu, a Pequena.



Orobó guardada no silêncio das vontades,
cidade mística do Amor Maior.

Ikan em fuga, dependurado na lama das alienações.
Muhatu, mulher de uma longa espera.

Rios em divisa, pedras e perdas em repenso vital.
Candombás em flor, o fértil solo de Sincorá.

Muhatu é a mulher mais macia, mais forte, mais quente.
O mundo é uma impensável penetração.

O vazio das absurdas distâncias, seus vencimentos.
A certeza na nudez cálida de todas as peças do corpo.

Golpe seco.

Ikan, entre o Verbo Ancestral e o Espaço da Vida, arde.
Ikan, consciente dos assanhos.
Ikan, dizimado pelos silêncios mortos do passado.
Ikan, membro úmido deslizante.

Muhatu, pois, chão da morte mais bela.
Muhatu, esparramada na fome.
Muhatu, pintura de refundar instantes.


* Imagem: https://www.deviantart.com/silecia/art/Del-sexo-y-othros-demonios-II-139727187