quinta-feira, 27 de abril de 2017

Montanhas e árvores (ou Um adendo sobre a vida)

*

Por Germano Xavier



há pessoas que são montanhas. e há pessoas que são árvores. explico. pessoas montanhas são aquelas que são um desafio para nós. que nos provocam o querer alcançá-las, descobrir seus tesouros, adentrar seus recantos, conhecer sua alma. essa pessoa "montanha" nunca será comum. ela será sempre um mistério a ser desvendado, ou apenas contemplado. será admirada em devoção porque a consideramos uma espécie de deus(a) em carne, ossos e encantamentos. esta pessoa que nos diz "suba" constantemente, que nos provoca e/ou nos (des)norteia, pode ser uma figura do passado como um escritor, por exemplo, ou um contemporâneo, como um amor ou amizade ou outro afeto qualquer. o fato é que esta pessoa nos (des)equilibrada, nos motiva ou derruba (se desistimos de...), mas nunca, nunca mesmo, ficaremos indiferentes a ela.

a pessoa árvore é aquela que nos mantém firmes no chão, na razão, no agora. elas são um suporte, um porto seguro, uma certeza de acolhimento. elas, por vezes, nos impedem de sairmos voando em sonhos e ilusões. elas nos impedem de cairmos da "montanha" que tentamos escalar sem condições. essas pessoas são as que estarão sempre nos esperando na porta de suas vidas, com sua paz, cuidado e proteção. elas não se limitam a um tipo de relação. sabemos quem são e onde estão. mesmo que não nos "abrasem" de paixão como a montanha, que não nos domine a vida com o seu magnetismo, que não nos mova para onde quiser e nos arraste ao pé de si pela eternidade, como as "montanhas", sabemos que estarão lá, com sua sombra e firmeza para nos seguir pela vida, pelos anos, pelos labirintos do tempo.

sabemos que todos precisam de uma "montanha" para "vitalizar" os dias, as horas. mas também de árvores para nos ajudar a suportá-los, a manter a vida. 

e resistir.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Casa-02-03-661901201

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Germanices equatoriais

*

Por Nadine Granad


Para O Equador das Coisas

Entre sombras e mares,
Avante, adiante,
Tão somente seguir...
Toma-nos ares...
O velejar, tal constante
- Em dez anos a sorrir...

Não há como dizer,
Aquilo que não tem razão...
Todas as cores beijam em tom de azul,
Palavras que dançam em solidão
- E ganham a amplidão do verbete nu...

As distâncias dos polos inexistem,
No peito do poeta o magnetismo é um...
A poesia é perpendicular,
Certeira ao lugar-incomum...

Entre estorvos e (re)começos,
Da inação à Comunicação,
Agracia-nos com essências...
Uma a uma que abraçam e pingam... coram ação...



Obs. Poema em homenagem aos dez anos do blog "O Equador das Coisas" - o presente ganhamos a cada postagem!...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sun-Goes-Down-Over-Equador-222764427

domingo, 16 de abril de 2017

Uma cena

*

por Germano Xavier



Era só uma cena na televisão. De uma reportagem da qual não lembro mais o contexto. No meio da matéria aparecia uma mulher que aparentava ter um pouco menos de quarenta anos. Ela estava sozinha, sentada no que parecia ser um banco de praça. Em certo momento, a câmera focou o seu rosto e era possível ver descer, em sua face, duas lágrimas grossas, silenciosas, doídas.

Eu era apenas uma criança, mas fixei aquelas lágrimas, sem entender. Ela estava imóvel, parecia ausente, mortificada. A única coisa viva nela eram aquelas duas lágrimas que sangravam em seu rosto. Foi quando ouvi o homem que estava ao meu lado (cujo nome também não lembro) dizer: "Quando uma pessoa chora assim é porque a dor é muito grande. Já ultrapassou as forças". Não sei explicar o porquê, mas aquelas palavras e aquela cena ficaram tatuadas em minha memória até hoje. Por isso, sempre que vejo essas mesmas lágrimas insensíveis, sem choro, no rosto de alguém, sei que estou diante de uma dor solene. Silencio e respeito. Lembro que dores assim já ultrapassaram as forças, levaram a esperança, a resistência, a luta. O cérebro desligou-se dos sentimentos e o corpo já não reage. Apenas queda-se, vencido, indiferente, enquanto a dor domina a vida.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Old-TV-108367646

sábado, 15 de abril de 2017

Isso



Por Germano Xavier


escavo
até doer os olhos

tiro escamas de um lombo passado serpente
embaixo, mais da inexistente víbora

é uma praga isso
isso de querer

de querer invadir mistérios


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/kitchen-mistery-174206390