terça-feira, 25 de março de 2008

Poesia em nome dos raios




Por Germano Xavier


Uma mulher-deusa de uma mística nada passiva dança um fogo branco-brando e a capa instaura um ar de sagrado sobre o papel feito de negrumes. Assim começa o livro de poemas intitulado EM NOME DOS RAIOS, do poeta baiano João de Moraes Filho, livro este coadunado a outro, CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves. Dividido em cinco partes, a poesia presente na obra deste cachoeirense compõe um rosto aparentemente simples para quem o sente diante de uma primeira leitura. Porém, é com a paciência da decifração que a poesia demanda que uma face mais ígnea e áspera aponta no chão das páginas amareladas. O livro é feito de um silêncio calculado que não chega a dar ao livro um aspecto de som morto, mas pelo contrário, dele brota um argumento capaz de invadir com tenacidade a ópera de nossas almas. O uso de epígrafes no topo de muitos dos escritos alimenta os poemas com um mel de significado que gera marcas de força, o que auxilia a melhor incorporação do poema por parte do leitor. O tempo é recriado e ele mesmo elabora um espaço sem temporalidade, haja vista que ele, o tempo, “sobrevive ao fogo, corre/nos quintais e nada espera”, como diz o poeta em Portuário. O gesto do olhar, enquanto um dos sentidos-mor do ser humano, também obtém destaque nos versos, posto que são eles os responsáveis maiores por resgatar “ardências reais” onde algo pode estar na condição básica do abstrato. “Pássaros estalam rezas” e o que se instala na configuração do todo poético de EM NOME DOS RAIOS é a sensação de se estar lendo um tempo que realmente existe ou existiu num contexto exato de perdição. O futuro é apenas um pano de fundo recoberto de mistérios, apesar dos questionamentos inerentes, ele não aparece na obra: “... amanhã é depois./e depois de amanhã não será futuro/nem presente. Apenas um brinde”. O poeta segue o risco que há num sorriso e enobrece a humanidade no homem, já que “pouco importa/o canto,/descobre-se/a lágrima”. Os raios cantados por João de Moraes Filho caem também sobre a figura de sua terra natal, como podemos ler nos versos do poema Procissão: “Paraguaçu adentro./Nos Portos ancorados/se resumem histórias/margeadas de Áfricas/em estado de aves/cantando nos jardins”. É como se ecoasse em nós uma oração pela natureza humana, regada sempre por arcanos insubstituíveis e fundamentais. Por fim, as mãos do poeta tecem com uma candura aberta em dúvidas um universo drástico e obscuro sobre a incerteza da serventia de toda palavra. Falando de si, pergunta em Pátria Amada como se fosse nós: “Nossa vida, nossos amores:/o que somos?/Um sorriso escancarado de alguma boca?” E então?


Já CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves, é um livro de poemas sobre distanciamentos, medos, sobre uma condição de marginalidade perante o mundo que devassa a ordem do existido, do existível. O que há pode entrar em ruína a qualquer momento. A poesia aqui serve como um aviso sobre nossas fraquezas e nossa desfaçatez concernente ao todo do mundo. A atmosfera espaço-temporal gerada em suas páginas maquina um tumor que beira a malignidade nos sentidos de quem lê. A alma se adoenta quando a pureza da vista sofre maculações necessárias no decorrer da leitura. Tudo é um sofrimento conjunto, do autor com o leitor e vice-versa. A consequência é a produção de uma consciência em atividade inquiridora e ininterrupta. O autor nos coloca diante de um lugar que é nosso e que está demasiado distante de nossas mãos, mesmo estando perto demais, o que nos causa um certo desespero por não poder tocá-lo em sua inteireza. Faz isso nos dizendo: “O nosso paradeiro é um lar distante”. O mapa que nos guia revela uma poesia referente ao nosso próprio descobrimento, e nos olvida do que não nos são préstimos e essências. “Esqueça tudo que não for amor”, versifica, reforçando tal idéia. Por detrás das forças que operam o contrário do bem, o amor surge impetuoso, feito um deus duro e capaz de maldades benévolas. Num cenário regado a desesperanças, onde “Não há nada/ Desta pedra não se tira leite”, somente o amor pode burlar o fel da vida. O homem rompe o silêncio para se transformar numa “Máquina de procriar escuros e afogar naufrágios que insistem”. A prosa poética se mistura ao verso livre, que bebe constantemente em repetições, para fortificar o sentimento de uma cotidianidade feita de realidades. O poeta lembra dos amigos e constrói uma cidade quase inabitável em mirante do morro de santa terezinha. Deseja a morte em versos como “tragam os pregos para minha crucificação”, terminando por nos alertar sobre as desventuras da vida em seu estado purgatorial. Talvez só valha a pena a vida na desforra e no desbunde, ou na quietude dos nirvanas existenciais. Canta “os senhores da terra e das sementes”, gente que arde na brasa das folhas de fumo da Cachoeira baiana de tantos santos tragados por históricas batalhas pela identidade e pela resistência de um povo. Aprender com tristezas, saber lidar com toda sorte de infortúnios, alimentarmo-nos de sementes, operar germinações íntimas, lições que a poesia de Nuno Gonçalves nos coloca em seu livro CARTAS DE NAVEGAÇÃO. Porque a base de tudo é somente o que somos. Será mesmo?


Imagem: Google.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Conceito?


– Amiguinho meu, tu me ensinas a voar um vôo nunca existido?

– Não, eu não posso. Um dia tudo já existiu.

Indo ao dicionário Aurelião, encontraremos o seguinte significado para o termo grego “Mímesis (Mimese)”: imitação ou representação do real na arte literária, ou seja, a recriação da realidade”. Roger Samuel trabalha dentro dessa perspectiva de exemplificação quando malina nas gavetas de suas teorias e de suas pestes. Por ser um conceito filosófico, portanto demasiado amplo, esta “imitação” a qual indica tal autor alcança um horizonte de discussão quase que ilimitado. Para Platão, mímesis é uma espécie de imitação da realidade (Idéia) em terceiro grau, um pouco distante do plano do pensamento original. Se no platonismo a mímesis ocupa um espaço recatado, sem grandes importâncias nem faculdades, em Aristóteles o termo vai ocupar um lugar de destaque, revelando-se como o processo pelo qual o fazer poético encerra variados símbolos e significados. A mímesis não é um exercício metalinguístico – como é óbvio que não deixa de ser, jamais -, porém ela mais se aproxima da metáfora, como energia vital e força propulsora integrante do núcleo poético. Sem tanto me alongar querer, mímesis está mais para um exercício de revelação externa ou interna de algo, tendo como ponto de apoio uma determinada realidade já existente, sofrendo influência do nosso inconsciente e, também, das circunstâncias diversas as quais estamos diariamente e temporalmente entrando em contato.

Edutecnocupação


O mundo vivencia a era da informação, e essa informação chega de maneira tão rápida, instantânea, que devemos inclusive questionar sua qualidade, visto que a rapidez e sucessividade informativa ocasiona uma incapacidade humana de filtrar as parcelas significativas presentes num dado contexto informacional e criar um pensamento crítico diante das mesmas. Este quadro de interconectividade da sociedade mundial é possibilitado pelo surgimento e consolidação de tecnologias inovadoras, que desafiam a sociedade mundial como um todo, principalmente no âmbito da educação. Tal setor, portanto, é desafiado a acompanhar essas mudanças porque está para o mundo apontando inovações igualmente revolucionárias, de modo que permitam ao sujeito global tornar-se um indivíduo adaptado às mudanças rápidas pelas quais o mundo atravessa, além de apto a propor inovações técnicas, mercadológicas e sociais das quais necessita a sociedade mundial, da qual somos sujeitos históricos. A educação, hoje, não apenas mantém seus objetivos tradicionais de aprimorar o conhecimento e facilitar o convívio social, mas também incorpora novos desafios como permitir que o indivíduo realize tarefas cada dia mais complexas, tornando-o assim mais produtivo, diminuindo então a sua probabilidade de ficar desempregado. A relação entre formação, profissão e emprego está cada vez menos interligada. Hoje, diferentes formações podem levar as mesmas ocupações. Um mundo de trabalho se delineia e as novas competências impostas pelo mercado de trabalho são no nível da percepção da capacidade, da resolução de problemas e do relacionamento interpessoal. Entrementes, importante faz-se elaborar uma síntese acerca do tema “Inovação tecnológica X educação”, tratando de penetrar em seus significados e funções adquiridas ao longo dos anos. Os pesquisadores deixam claro que a participação e aferição de uma prática tecnológica inovadora dentro do aspecto da educação é algo muito interativo e que se presta ao modelamento da sociedade em geral. Para que haja uma efetiva aparelhagem tecnológica na esfera educativa, os gestores e alunos devem agir de maneira que compactuem com os mesmos ideais e, além disso, entender que sem esta união de valores e objetivos a educação não tende ao progresso. Decerto que, se não considerarmos o caráter agregador não linear, integrativo, capaz de unir diversos componentes sociais, complexos, nós não dominaremos os avanços produtivos dos quais estão intrinsecamente ligados todos os sujeitos e o fenômeno educativo. Portanto, há uma necessidade urgente de buscarmos sempre uma interação com o novo. Precisamos estudar cada vez mais e inserir em nossa vida uma aprendizagem contínua, pois o mundo está em constante mudança e as qualificações tradicionais tornam-se instrumentos por demais obsoletos.

O tempo da gíria


Em maior ou menor grau, toda gíria é – ou pretende ser – a expressão máxima de um determinado grupo que se utiliza da linguagem verbal para efetuar fenômenos comunicativos. Expressão máxima porque é ela que assegura os limites de uma privacidade de compreensão em quesitos tidos como passíveis de sigilo ou segredação tribal. É natural à gíria o seu poder de guardar ou proteger um desejo por diferença. As expressões giriáticas, dentro do contexto maior da linguagem, buscam a todo instante a sedimentação tanto de uma marca lingüística pormenorizada – e ao mesmo tempo evoluída – quanto de um sentido que, sendo ele lógico ou ilógico, possua o poder de dar significado a algo ou a alguma ação humana, verbalizada ou verbalizável. Esta incessante procura em definir o que é particular a uma tribo social, como num processo de demarcação de uma dada territorialidade expressa através da palavra e suas ramificações, ocorre em sua quase total generalidade na esfera do coloquial. Por sua vez, a coloquialidade inerente à gíria traça para si mesma um perfil estritamente popular. Debutante que é ao que se apresenta como sendo de ordem cotidiana, e desprovida de uma armadura lingüística mais forte capaz de lhe oferecer a necessária proteção ao desgaste natural que o fator tempo impõe a tudo e a todos, a gíria tem entre suas maiores e mais visíveis características a efemeridade. Por nascer e morrer assim, tão aligeiradamente, no falar do povo, a gíria alcança o ápice de sua condição muito rapidamente. É quando o seu sentido extrapola o seu domínio inicial, vaza pelas brenhas de sua própria espacialidade, adentra outros universos, agride outros, prolifera-se na multidão, e termina por perder muito de suas particularidades e possibilidades. De todo modo, mesmo após sua morte, a gíria sobrevive – as mais contundentes, diga-se de passagem -, tal qual uma alma penada, agora funcionando como um registro de um tempo passante, passageiro, passado. Nelly Carvalho, professora da UFPE, em artigo publicado em periódico pernambucano, diz que: “A efemeridade da gíria toca nossa sensibilidade porque demonstra concretamente a passagem do tempo, dos fatos, dos homens, enfim, põe em relevo a fugacidade e a vida”. Não basta que usemos a expressão giriática a torto e a direito, é preciso conhecer o seu funcionamento, a sua situação dentro do contexto linguístico, a sua operacionalidade, a sua serventia. Deste modo, além de nos transformarmos em seres atuantes e participativos dentro de nossa língua, propendemos a melhor nos entendermos como seres em progressiva atualização, ao mesmo tempo individuais e coletivos, descartáveis como uma gíria de verão, eternos como uma gíria dicionarizada.

Uma nova ordem?


O capitalismo não teme crises, guerras ou instabilidades (?). O capitalismo é um sistema severo, e talvez por ser tão rígido assim é que ele conseguiu instalar-se de maneira tão abrupta, marcante e essencialmente injusta. É dentro desse sistema econômico/social, baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro, que emprega o trabalho assalariado e o taxamento de preços, que emerge uma nova ordem sociocultural: a Sociedade Tecnológica, que também recebe a designação de Sociedade da Informação, ou Sociedade Pós-Moderna, ou Sociedade Digital ou, também, Sociedade de Consumo.

A sua notável capacidade em se renovar constantemente, e por extensão, solidificar-se e fortalecer-se, mesmo sob as mais duras crises, é um dos fatores ou características que servem para diferenciar a Sociedade Tecnológica dos períodos anteriores. E é justamente nessa imensa capacidade de renovação, de reprodução, que reside o perigo. A Sociedade Tecnológica, utilizando-se do capitalismo e demandando cada vez mais de um aprimoramento e de uma redução dos gastos condizentes ao tempo de produção, acabou provocando uma verdadeira revolução no comportamento dos indivíduos. E nesse âmbito, cabe ressaltar o envolvimento de todos os setores sociais.

É quase que impossível enxergar um espaço que ainda não tenha sofrido a influência dessa Sociedade Tecnológica e desse capitalismo selvagem. Percebe-se, claramente, que, com a vigente necessidade de precisão e velocidade na produção de bens materiais e imateriais, como é o caso da informação, houve uma nova organização de valores, principalmente no que se refere às funcionalidades e capacidades humanas. O homem é constantemente trocado pela máquina, que realiza as tarefas em muito menos tempo.

Enquanto as “constituições capitalistas e tecnológicas” continuam renascendo indefinidamente, o homem moderno vê-se igualmente obrigado a se reestruturar, aprender, desenvolver-se, desapegar e evoluir. Porém, esse desapego e essa evolução não é tão facilmente conseguida, assim, sem custos. A tatuagem da Sociedade Tecnológica já se encontra em nossa pele, que maculada e ferida não sabe como cobrir toda essa mancha. Essa nova ordem fez do homem uma criatura de grandes limitações, escravizado e quase sem nenhuma possibilidade de conhecer o significado da palavra liberdade.

Perde-se, espontaneamente, os potenciais humanos para as parafernálias que sequencialmente surgem em nossas vidas; uma inquietação metabólica que apequena o cidadão, operando em conjunto, no intuito de dominar nossos antigos domínios.

Mais um pitaco saussuriano


Uma relação entre compadres é como se assemelha os elementos fundamentais do estudo da Semiótica e da Semiologia. Interessante perceber como se dá o processo de ligação entre termos essenciais para o funcionamento da sistemática estudada por Saussure.

Tomando como exemplo os termos “Linguagem”, “Língua” e “Signo”, pode-se ver, claramente, esse tipo de intercâmbio. No caso da “Linguagem”, a sua formação/existência ocorre a partir da junção entre “Langue” e “Parole”, ou seja, Língua e fala. No quesito “Língua”, estamos sempre tratando de uma relação binária entre signos. Já no caso do “Signo” propriamente dito, há sempre a dualidade entre um conceito e uma imagem acústica ou, ainda, por outro prisma, entre significado e significante. Todos, numa ótica de obrigatoriedade, corroboram a idealidade de Saussure.

E, para fortificar esse pensamento, em Pierce essas manifestações continuam existindo, mudando apenas a quantidade de envolvidos; ao invés de binária, a relação em Pierce é triádica. Agora os elementos fundamentais fazem parte de um complexo jogo estrutural composto pela Sintaxe (Estrutura propriamente dita), Semântica (ligado ao significado) e, por último, pela Pragmática (Referente ao uso e prática nos diversos ambientes sociais).

O lead jornalístico e o cotexto


caminhos para uma simbiose obrigatória

As marcas textuais que caracterizam e qualificam um texto como sendo, ele, um produto jornalístico são diversas, assim como se dá com outras tipologias ou gêneros de texto. Além de requerer sua respectiva presença em um dado suporte midiático, seja ele em formato impresso, radiofônico, televisivo ou eletrônico, o produto textual de ordem jornalística também pressupõe, entre tantos outros mecanismos, a velocidade, a informatividade, o desprendimento e alguns elementos técnicos que auxiliam no processo ao qual se destina. E é justamente dentro deste panorama que se faz demasiado visível a forte dependência que o lead tem para com o cotexto discursivo.

O lead de um jornal impresso, para tomar como exemplo, tem por finalidade fazer com que o leitor, ao ler o primeiro parágrafo de toda a matéria/notícia publicada – local onde geralmente o lead aparece -, seja informado dos acontecimentos basais – em geral, o lead tenciona responder às perguntas “o quê?, como?, quando?, onde? e por quê”. Todavia, para que a transmissão da mensagem seja efetuada com clareza, as relações entre os termos utilizados e o sentido agregado à mensagem precisam estar em perfeita harmonia. E, para que isso ocorra, é necessário que haja uma rigorosa observação do contexto, que, para Maingueneau (2001, p.26), “não é necessariamente o ambiente físico, o momento e o lugar da enunciação.”

O cotexto encaixa-se dentro do contexto, e forma, juntamente com o “contexto situacional” e com os “saberes anteriores à enunciação”, um complexo de instrumentos que auxiliam na compreensão do texto. O lead, como parte fundamental de uma notícia jornalística, deixa-se encaminhar pela íntima relação que tem com os elementos dêiticos/conectivos pertencentes ao cotexto linguístico. Segundo Maingueneau, são estas “sequências verbais encontradas antes ou depois da unidade a interpretar” (2001, p.27) que vão assegurar a qualidade ou o teor de incompreensibilidade/clareza possivelmente presentes no lead.

Sendo assim, percebe-se uma simbiose linguística de fundamentos quase que obrigatórios. É verossímil, e nada constrangedor, dizer que um não existe sem o outro, ou que um é indispensável ao outro. Todo esse processo faz com que, quase que imperceptivelmente, o sujeito-leitor se utilize, ao ler o lead dentro do corpo de um texto jornalístico, de recursos indispensáveis à interpretação do conteúdo, fazendo com que o propósito informacional seja plenamente averiguado no ato da leitura.



MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. São Paulo: Ed. Cortez, 2001.

As perguntas sem resposta de Matrix


A trilogia cinematográfica Matrix, dirigida pelos irmãos Wachowski, é um produto midiático de ficção científica que mistura tecnologia, efeitos especiais com mitos, crenças, religiões e, evidentemente, filosofia antiga e atual. Os paralelos que podem ser estabelecidos entre temas abordados nos três filmes da série (mormente o primeiro) e as idéias de Sócrates e Platão, principalmente aquelas ligadas ao seu famoso e tão discutido Mito da Caverna, são inumeráveis. A caverna de Platão é o mundo das sombras, o mundo onde reina o desconhecido mais geral e também onde vive a ânsia pelo saber, e o filme nos questiona o que é, para nós que vivemos numa época em que ciência e tecnologia predominam, a nossa real e atual caverna? Matrix é, assim como o antigo mito platônico e antes de qualquer outra coisa, uma alegoria, uma pantomina dos pensamentos de Sócrates e seu discípulo-mor. Há nos filmes a preocupação com os encadeamentos do “descobrir” e com o do “descobrir-se”, este otimizado como num processo de autoconhecimento que busca a retratação de uma outra atmosfera e de uma outra realidade, tanto mais próxima quando mais distante da realidade pensada enquanto real. Tanto em Matrix como nas idéias desses dois filósofos, existe uma ênfase para com a construção de diversos valores distritais humanos e sociais, como o enraizamento da curiosidade, a fortificação do desejo, a eterna fome por conhecimento e até a “apalpação” do que é real e/ou matéria-caminho para fuga do que fosse apenas virtualidade ou imatéria. O reflexo das pessoas na parede, o mistério, a dúvida pelo que é novo, os choques entre personas e rostos de fidedignidade, assim como os contrastes produzidos pela realidade são matérias importantíssimas e, por conseguinte, fundamentais para o entendimento do enredo dos respectivos filmes. A nossa caverna é o próprio ser humano, que ainda não conseguiu alcançar a sua mais íntima substância, o seu âmago, a sua mais rica profundeza, o seu lado verdadeiramente distinto dos outros animais, que não sabem que estão pensando ou que sabem que são capazes de pensar – o ser humano, criatura de sentimentalidades e manifestações, em sua maioria, superficiais e dicotomias. Pode-se, a partir de tais pressupostos ligados ao filme e à filosofia, dissertar também sobre o conhecimento filosófico abarcado em Matrix, destacando as diferenças no tocante às outras formas de conhecimento e relatando como se deu a passagem do pensamento mítico-religioso para o pensamento filosófico. A filosofia é uma ciência e não é, tudo ao mesmo tempo. A filosofia cientifica o que é contemplação e reprodução, emite concepções diversificadas do mundo e das relações interpessoais, transcende o que é matéria e alcança uma forma de plenitude de olhar, de enxergar, o que a faz diferente das outras formas de conhecimento, que funcionam atreladas ao pragmatismo e ao tecnicismo. Estes, por sua vez, malbaratam e desvalorizam a subjetividade e o distanciamento do visível. O mito foi usado no início como uma forma de retratar a formação do mundo e das relações humanas, através de narrativas alegóricas e imaginativas, deixando que a ficção e a oralidade corroborassem tais tentativas de explicações. Somente quando a filosofia conseguiu se adaptar melhor às necessidades do homem é que ela tomou as suas devidas proporções. Matrix nos lega uma questão: por que a pergunta é mais importante do que a resposta no processo de filosofar? A pergunta, manifestação de busca e saciedade, é muito mais essencial que o “responder”, até porque não há apenas uma verdade, uma resposta. A resposta é um produto da subjetividade, da incerteza – a pergunta não, a pergunta é a própria certeza, talvez a única forma de certeza, mas também uma certeza falida, diagnosticada infame e cancerosa, posto incompleta -, e este não é o princípio básico que faz movimentar a filosofia. Filosofar é, antes de tudo, ater-se ao Belo, à negação das ordens naturais das coisas e um elogio ao que é de ordem imprevisível e, para conseguir um melhor entendimento condizente a este fato, nada mais inteligente que perguntar, questionar. Será que é mesmo assim?

Esse texto foi publicado na Revista Entrementes Edição de Outono de 2015

A estruturação da realidade


A construção conceitual da expressão “Estruturação da realidade” fundamenta-se na ideia de que é ela o arcabouço instrumental-metodológico usado pelo indivíduo no desígnio de criar um “ambiente” propício ao desempenhar de tarefas-ações, sempre em busca de cumprimentos e realizações. “Estruturar a realidade” é relacionar-se com o outro, com o que é o objeto ou com o que não é concreto. É estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica comportamental em um viés que permeie a elaboração de uma situação real, cognitiva e operacional. O indivíduo “estrutura a realidade” no intuito de “desproblematizar”, de ir adiante, alcançar objetivos, superar obstáculos. Portanto, ao construir tal esfera de significação, ele, o indivíduo, dialoga com forças e necessidades, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem desejada. Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a “estruturação da realidade” atua no desbloqueio de tensões, ameaças bastante significativas para as possibilidades de fracasso. Em outras palavras, “estruturação da realidade” é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações que, motivado ou não, prepara o indivíduo para inúmeras interações e jogos relacionais, funcionando como ferramenta de apreciação e efetivação de ações sobre determinados meios, prenunciando algo, sempre.