quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A nitidez das horas

*
Por Germano Xavier




sendo muitos /eus/
/sempre/ somos
nós



um Saramago para amar
eu queria ser de alguém
a Pilar

/ou/

uma Pilar para amar
eu queria ser de alguém
o Saramago



não ponham
/no domingo à noite/
uma pena em minha mão


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Oil-Painting-1-581312866

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pequenas crônicas obscuras

*

Por Germano Xavier


mesmo em segundos

ele não sabe (e nunca saberá) que foi ele que me fez perder quatro anos de trabalho árduo. sim, porque tentar amar (a quem você não ama) é trabalho árduo, inútil e desonesto. ele me fez perder quando apareceu. quando reapareceu e fez-se ele para mim. então, a minha vida passou a ser a esperança de tê-lo, mesmo em segundos, em minha boca.


na corrida, no tempo

naquele dia, ela correu como se fosse dois. ela o trazia tão perto de si, tão dentro, que chegava a sentir o seu cheiro, a sua respiração, a sua calma, seus pensamentos. definitivamente, ele estava ali. no correr dela. no tempo.


se ainda...

não vais me responder se ainda me...?


teus silêncios

teu silêncio, minha pessoa
engolfa-me em tenebrosa escuridão
quebra minha pena
sufoca minha garganta
em ondas de sofrer
(perco a respiração da alma)
quando tu te encobres
de mim, em silêncios de não


receitinha

receita ardida
você em mim
desperdício de mim

post scriptum. perdoe-me por não saber calar a genial estupidez do amor.


insônia

faça-me dormir
ou diga apenas que sente muito
ou fale somente a verdade


intuição indesejada

e não importa o que não me digas
te conhecer é o meu quinhão
(furtado) sei que tu sabes que eu estava certa
sobre aquilo...

post scriptum. é preciso conhecer para amar... ou amar para conhecer? só sei que te saber é o que me mantém querendo.


conclusão

não veio o sono
nem o bom senso
nem a revelação


(suponho que pensarás em me odiar pela manhã. mas desistirás por condescendência e piedade. também não acentue a indiferença e nem coloque mais tijolos no muro de gelo que criei. conceda-me (ou renove) uma ilimitada licença poética. seja bom como só sabem ser os animais e os poetas (e nem pense em me mandar para o psiquiatra. o tipo de que preciso ainda não inventaram.). mas esqueça tudo e faça o que a vontade mandar.

vieram a vergonha
o arrependimento
e os olhos vermelhos

post scriptum. isso também é ficção?


o modelo a seguir

você não me leva a sério
e isso até me deixa feliz
assim fica mais fácil te imitar


uma sentença inocente

"na verdade, só houve duas mulheres que me "tiraram do chão" na vida. uma era o meu amor da vida toda. aquele!", disse ele com cara de gato manhoso que não pode ter todo o leite que deseja. deitada, despojadamente ao seu lado, numa cama pequena de um hotel modesto, ela sente um piano caindo em sua cabeça e esmagando toda a sua existência. por um instante, seu rosto congela num retrato de humilhação eterna. "puta que pariu!, como ele pode ser tão sensível e tão insensível ao mesmo tempo!?", ela pensa. "como ele, tão experiente e evoluído, tão superior e raro, pode não saber que não se fala uma coisa dessas a uma mulher que o ame? como pode não saber que dizer a uma mulher que ela não foi a sua maior aquisição amorosa (a verdade aqui é irrelevante, nesse caso) é tão cruel quanto jogar vinagre numa ferida? (não que ela não soubesse. ela sempre soube o que não era pra ele. o que era é um conceito ainda em construção). mas ele me fala isso com a inocência de quem oferece um pote de sorvete". chocada e ainda meio catatônica, ela tenta se recompor e balbucia o mais convincentemente possível:

- eu entendo. isso acontece com todo mundo. todos temos a nossa "pessoa" na vida. a pessoa acima de todas. aquela que levaremos para o resto da vida e que pensaremos nela em todos os momentos de extrema dor ou de extremo contentamento (não obstante todos os nossos esforços contrários) e que, muito raramente, conseguimos ficar com ela na vida real. na vida real, geralmente ficamos com quem a vida nos impôs". o discurso foi bonito e era nisso que ela acreditava mesmo. piamente. ele, aquele homem-deus deitado ao seu lado naquela cama tão distante de sua casa e que é capaz de fazê-la quebrar-se com uma simples sentença, é a sua pessoa. para toda a vida. ele concorda, aparentemente indiferente ao desastre emocional que causou. e, logo em seguida, tão inocente quanto todos os inocentes, dormiu em paz.


perdoe-me

perdoe-me. a alma sangrou mais do que de costume hoje.
bom dia.

post scriptum. perdoe-me sempre. sinto-me vazando. torneira aberta. um iceberg derretendo ao calor de um sentimento inoportuno, porém vital.

e por favor, não me ache desprezível e servil. sou apenas amor por ti.


ainda aqui, em delírios sãos

começaram a chegar os e-mails, mas nenhum era você. quer mesmo que eu continue com essa torturante exposição do sentir amor perdido? temo que nem mesmo você consiga fazer parar isso. temo estar programada para chafurdar pra sempre nesse amor que me assalta a razão e me classifica no mais baixo escalão do ridículo e da estupidez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/With-the-young-i-m-not-580625577

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 27 de Outubro de 2015
A seco, o molhado

À sec, le mouillé

nous traversons [des chemins]
en collectionnant des arrivées
en déviant des départs
tout en gardant les instants présents,
cette danse des êtres


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/81-579527928

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Outubro de 2015.
Desencaixados

Les desamarrés

nous ne tenons pas dans une boite
mais si nous sommes nus
nous nous moulons
à l’intérieur de nous-mêmes


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chiaroscuro-576478486

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015
Sobre as regas

Sur les arrosages

arroser les fleurs
[même celles en plastique]
arroser les fleurs


* Imagem: http://dougnz.deviantart.com/art/Untitled-579246365

domingo, 20 de dezembro de 2015

Nas palavras

*

Por Germano Xavier


#1

Ela sabia que ele não atenderia o telefone. Não sabendo que era ela. E ele sabia. Mas a curiosidade, a vontade de tentar, a teimosia ou simplesmente o desejo insano, humilhante e quase mórbido de estar próximo... (Ao menos ouvindo o som do chamado do celular dele que ele nunca atenderia) era mais forte e dominante. Ligou. Chamou e ele não atendeu. Mas ela não chorou. Nem sofreu. Apenas revestiu-se de cacto e continuou.

#2

Naquele instante ela desejou apenas ser algo que ele amasse. Mesmo que fosse um livro. Sim, um livro. Livros são o que ele mais ama. Ou até uma palavra. Ele ama certas palavras com um amor especial. Pensa em como seria ser amada por ele como algo que lhe pertence para sempre. Gostaria de ser amada como ele ama um rio, uma rua, uma época, um lugar, uma lembrança. Gostaria de ser mesmo as letras que saem de seus dedos, adocicadas com o seu amor ou mesmo as lágrimas que caem em seu rosto, lavando a sua alma. Desejou mais do que tudo, ser Poesia e habitar seus pensamentos mais puros. Ser Literatura e conseguir transportá-lo para longe, muito longe. Para onde os mundos são criação sua e os seres são feitos de amor e nuvens.

#3

Depois de tudo, ele ficou rígido demais, formado demais, informado demais, calculado demais, ferido demais, cauteloso demais, para entender que ela apenas o amava do jeito mais primitivo e inútil. Nas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Figure-19-7-14-469209806

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Outubro de 2015
Estágio

Stage

ni près
ni loin
c’est juste à la portée de la volonté



* Imagem: http://jukara.deviantart.com/art/Peaceful-Christmas-579058610

sábado, 19 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 20 de Outubro de 2015
Autêntico

Authenthique

vouloir nager
parmi tes pensées,
glisser sur ta peau.

être un arbre ancien
dans ton bosquet personnel
un arbre possédant un nom et une histoire.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aloha-8269896

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015.
Prêmios para pulhas em manobra


Des prix pour des connards en ascension

ceux qui croient à tout ce qu’ils lisent,
car ils sont les plus nombreux,
formeront le groupe des desavisés
ou des volailles obtuses.

ceux qui ne croient plus à rien
car ils sont des nomades de fait,
se méfieront amèrement de la turbulence.

ceux qui se soumettent à la critique, en vue du jugement dernier
[des paons élitistes encore attachés aux soins de Maman]
lirons, perplexes, des nouvelles sur leurs comportements honteux

À bas Le Danger ! À bas Le Danger !

[les autres
des boites sans clous
auront le prix de l’insouciance]


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Falling-angel-578491547

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O rosto em seu rosto

*

Por Germano Xavier


Naquele dia, ele havia escrito o melhor conto de sua vida. Estava contente, embora não completamente satisfeito. Ele, como todo bom perfeccionista, sempre pensa que o que escreve poderia ser melhor, ser perfeito. Mas aquele conto, ele sabia, era realmente especial. Era, talvez, sua obra-prima. Sentiu um calafrio de um gozo íntimo e pessoal. Aquilo era o que ele era. Um escritor dos bons. Sentia-se completo quando sentia que tinha um lugar no mundo das letras. A literatura era a sua segunda pele. Era o seu destino, o seu legado e a sua paixão. Nada poderia afastá-lo disso. Nem mesmo... Precisava mostrar a alguém. Urgente. Sentia-se excitado, extasiado com aquele pedaço de céu que saiu de seus dedos, de sua pena, de sua alma, de algum lugar no universo onde a magia da poesia se faz. Ele sabia-se possuído do puro prazer de ser parte, de ser palavra, sentido e infinito. As letras são a imortalidade da alma. Se não houver nenhuma a mais, ao menos sabemos que sempre teremos esta. Este era o seu consolo e seu conflito. Precisava contar a alguém. Com tristeza e resignação, descartou o primeiro nome que veio à sua mente. Era mais um rosto do que um nome - um rosto envolto em eternidades insondáveis. Olha ao seu lado. Não. Não a acordaria agora. Antes, precisava despir-se do rosto em seu rosto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/aging-520798548

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quarta-feira, 23 de Setembro de 2015
Os multilares do amor


Les demeures diverses de l’amour

I

Je sais que je ne devrais pas rester là. Toi, tu le sais aussi. Pourtant je reste. Je resterai jusqu’à ce que je ne puisse plus ouvrir mes yeux et ne plus te voir. Je resterai jusqu’à ce que les heures de la journée se terminent et donc je ne pourrai plus sentir son absence. Je suis trop loin pour pouvoir supporter toute ta présence en moi. Il y a tant d’absence de toi en moi, tu sais ? Dois-je aller plus loin ? Où devrais-je refaire ce parcours en sens inverse et envahir tes yeux ?

Je sais que tu écoutes chaqune de mes conneries. Non seulement tu les écoutes mais tu essayes de les comprendre. Tu essayes même de les rendre plus suaves….Mais tu sais que ce n’est pas possible. Tu ne peux pas changer la direction de l’amour. L’amour est une destinée en soi même. C’est la mort qui arrive. Je prie pour que la vie après la mort existe réellement.


II

la lune
écrit en silence
notre vocation.

et moi je viole, rebelle
tes silences
que j’inonde.


III

P.S. - Je t’aime
pendant que toi
tu construits la pénombre.


IV

Illusion
Pourquoi s’inquiéter ?
C’est autour de l’illusion que je me construis
entier
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est le sol où je ne tombe jamais seul
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est chez elle que je me reconnais égal et différent
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est elle qui me fait sourire dans l’âme
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est le sang, l’air et l’arbre : c’est la vie
Pourquoi s’inquiéter ?
c’est la maison du désir
C’est l’Amour.


V

La cascade jaillit
déchainée, seule
incolore
et furieuse

elle saupoudre
légère et froidement
des gouttes en quête d’amour


VI

et sinon
autrement
ce mal de tête
c’est la philosophie de l’harponneur

je voudrais juste arrêter la rue
ci-dessous
et orner le silence
avec ton amour


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mi-amor-by-Leonid-Afremov-194273827

Prosas de Germano Xavier em Francês (Parte I)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 4 de Setembro de 2015

Oi


Salut

- Où étais-tu ? Tu te fais rare. Tu disparais. Tu n’écris plus.
- Ah, tu t’en es rendu compte ? Cela n’a aucune importance. Dis-moi ce qui est important.
- Qu’est-ce que t’en penses ?
- Tout ce que je sais c’est que moi, je suis là. Et toi ?
- Tu étais où ?
- Je me noyais.
- Tu étais où ?
- Qu’est-ce que tu veux dire par là ?
- Je n’arrivais plus à te joindre.
- J’étais chez moi. Je n’avais pas envie de quitter le lit. Je n’étais nulle part ailleurs. Pourquoi ?
- Parce que tu étais introuvable.
- Tu l’as déjà dit. C’est pas grave. Tu crois qu’un jour je vais disparaître e je ne reviendrai plus. Mais pour l’instant je n’y arrive pas.
- Tu essayes ?
- Je ne sais pas. Des fois ça fait trop mal. C’est pour ça que je pars, mais je reviens toujours.
- N’essaye pas.
- Je ne veux pas le faire. Je me meurs quand je désiste de rester là à tes cotés. Je ne veux pas que tu le voies, cette idée me déplaît.
- Je t’aime.
- (…)


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/O-encontro-The-Meeting-The-Observer-s-series-448989701

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O tigre

*
Por Germano Xavier

para Adahilton Dourado, in memoriam


o tigre borgeano: o Aleph?
o tigre de Blake: a Beleza?
o tigre da vida: a Morte?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/tiger-286574921

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Um olhar sobre Sintaxe e Discurso

*

Por Germano Xavier


(Um resumo)


AZEREDO, J. C. Introdução à sintaxe do português. Rio de Janeiro: Zahar, 1990, p.120-139.

É de se saber que os períodos, na língua portuguesa, utilizam-se não apenas de referenciais de natureza sintática para se associarem, mas também de meios discursivos que, por tradição, sempre estiveram atrelados à retórica e à estilística. Ao que toca o ato enunciativo, conferimos, de maneira clara, a expressão de um eu que se assume enquanto locutor, produtor individual de um dado discurso. Todavia, para que entremos nas demandas dos estudos envolvendo sintaxe e discurso, faz-se importante visualizar que o discurso está situado entre a ação de um enunciador/locutor e um contexto variável de produção discursiva.

Diante da expressa relevância da figura do locutor/enunciador em toda a engrenagem de produção discursiva dentro de um emaranhado linguístico, algumas variáveis podem ser classificadas em três categorias: a modalidade, a referência e a polifonia. O campo da modalidade refere-se à ligação existente a tudo que intrínseco ao interlocutor e ao conteúdo, a esfera referencial trata das relações entre tempo e espaço e, por último, a polifonia dialoga sobre as interações intertextuais ou interdiscursivas.

Acerca da modalidade, devemos perceber sua intimidade para com os conteúdos das orações, interesses e intenções enunciativas. As indicações locutárias podem ser expressas através de alguns pontos, a citar:

a) Sintagmas adverbiais ou preposicionados;
b) Predicadores seguidos de que + oração ou justapostos no enunciado;
c) Modos do verbo;
d) Marcadores de foco;
e) Verbos modais;
f) Empregos modais dos tempos verbais;
g) Conjunções;
h) Verbos que explicitam o ato praticado pelo locutor;
i) Entoação.

Já as intenções e interesses do enunciador podem ser expressas a partir das seguintes pontuações:

a) Predicados seguidos de infinitivo ou que + oração;
b) Verbos modais;
c) Verbos que explicitam o ato praticado pelo locutor;
d) Modos do verbo;
e) Entoação;

Quanto aos marcadores de foco, são elementos constituidores de ideia de inclusão, exclusão e de designação e situam-se na linha limítrofe dos sintagmas, sendo de difícil classificação. São, por assim dizer, marcadores sintagmáticos. Os marcadores sempre estarão entre as fronteiras de dois sintagmas, servindo ou não como marcadores de foco ao lado de determinados verbos, como acontece em alguns casos envolvendo construções de sentido com a utilização do verbo “ser”.

Os meios usados pelas variantes contextuais que se misturam ao discurso através do locutor é o que chamamos de referência. Aqui há uma preocupação com marcações de tempo e de espaço. Aqui, expressões pontuam o presente, o passado e o futuro com clareza. As questões elaboradas no panorama referencial atendem, em parte, ao contexto mediato e ao contexto imediato, que terminam por apresentar variações de ordem temporal, cada qual ao seu estilo. Há de se destacar também, ainda no tocante à referência, o caso dos tempos do subjuntivo, que são influenciados em suas formas simples.

A polifonia, por sua vez, pode ser entendida como mecanismo de intertexto. Na polifonia, um enunciador incorpora ao seu discurso afirmativas de outros enunciadores. Esta instrumentalização, dentro do discurso, pode gerar o elemento implícito. Um fenômeno vasto, muito utilizado em todo o campo linguístico. A polifonia é propriedade de todo texto. O discurso indireto é um recurso típico pelo qual o enunciador efetua a troca do contexto imediato pelo contexto mediato. Há de se notar que a principal característica do discurso indireto é o fato de ser um discurso que se tornou conteúdo de outro discurso.

Além da modalidade, da referência e da polifonia, a coesão é mais um fator que confere a qualquer fragmento discursivo o caráter de texto. A coesão aparelha todo um complexo de sentido a partir das ferramentas de união (dêiticos) presentes nas fronteiras dos períodos. Dois aspectos da coesão necessitam ser evidenciados, pois: o tópico e a junção, que pode ser conectiva ou por justaposição. O tópico faz a ponte entre sequências de período, sendo, portanto, um conceito discursivo. A junção conectiva é um operador que se realiza por meio de palavras e locuções que se relacionam com parte outras do texto. Destarte, segmentos outros atribuídos a diferentes atos discursivos ou a diferentes locutores se relacionam por justaposição.


* Imagem: http://carlosmatheus.org/o-discurso-politico/

Carbono

*

Por Germano Xavier


não chegaremos sozinhos porque
no caminho sentiremos medo

louvaremos cantos de ficção e contos
de realidade viveremos e tantos meios
de comunicação nos darão letras
e culturas (des)costuradas

(direto éramos o desafio sempre difícil:
o dia amenizava-se na língua da mulher
e no abismo das alotropias da carne)

até fomos quem nos tornamos aos poucos
a cada passo uma lenta engenharia
a cada choro um letramento de remos

no que bebemos de seiva e fel e água
fizemos força em sombras
e uma dura escola:

a violência das curvas que tomamos
é toda uma teoria sem cautela

/uma nuvem em formato de seta
o outro que assistiu ao véu do sol
a própria natureza escandida
a flor nascida sobre o cimento/

não chegaremos sozinhos porque
em lugar algum esta relação impera:
a da solidão

mas existirá o medo de chegar porque
não sentiremos medo de partir


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Gliding-354869465

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Avô matingueiro

*

para Elizeu Xavier,
in memoriam

em pegas de boi, viu furar os olhos
da filharada-homem o graveto pontudo
do mato caatingueiro.

montou carcaça
de animal bravo, dobrou as rédeas
de uma vida avessa. armoriou o pó
das estradas solares, debruçado
na alvorada roncosa dos secos gerais.

cego dum olho, enxergou horizonte
de filho caçula. foi distante, amigo
dos destinos, arvorou lenta luta.
em cirandeados, clandestino amou
moças avulsas.

a história que não vivi
conta que Seu Elizeu, homem rude
da Cajarana, meu avô matingueiro,
havia de nos ensinar duas coisas:

que adentrados, nós, na esteira do tempo,
ninguém mata nem desmata, pois
um dia tudo se destripa.

e mesmo a flor dos cajus, a dizer ventos
mais mornos, é prenúncio: acre sumo
de gosto travoso no balé dos maturis.


* Imagem: https://blogdadeia.wordpress.com/tag/cordel-encantado/

domingo, 29 de novembro de 2015

Varrimentos

*

para o sensei Assis


BARAI

pés em base,
varredura em giros,
imitação de eixo-sol


GYAKU

inverter o centro,
ser a lua no dia claro,
reescrever o verbo


KAKATO

defender-se das flechas,
respeitar nossa vulnerável
mitologia de Aquiles


KIHON

fundir-se ao chão,
cursar o rio das brisas,
amar o que se move


MAWASHI

fazer redemoinho
com o pó das forças,
ser o ponto circular


KUMITE

avançar com fé,
ser a livre cautela,
compreender a pausa


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Karate-Gi-95278788

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XXI)

*
Por Germano Xavier


NARCOS

Quando pequeno, escutava sempre nos jornais alguma notícia sobre os famosos cartéis de Medellin e de Cali. Sem suspeitar direito de quase nada daquilo que era veiculado pela mídia da época, as notícias entravam por um ouvido e saiam por outro. Ao assistir a primeira temporada da série NARCOS, do diretor José Padilha, que conta em giros um pouco da história do traficante colombiano Pablo Escobar (Wagner Moura), pude perceber a magnitude da trama que era motivo para todas aquelas notícias. Ficção ou não, decerto que dá para se aprender um tantinho mais sobre América Latina assistindo ao referido material. Recomendo a todos os mortais!


ATARI: GAME OVER

Fiz parte da geração Atari (ainda tenho guardado em casa um modelo 2600, em perfeito estado de conservação). Antes da entrada da Sega e da Nintendo no país, jogávamos Pac Man e Space Invaders, clássicos ali no fim dos anos 80 e início dos 90. Éramos extremamente felizes com aqueles parcos bits de entretenimento. Muita gente aqui sabe do que estou falando. O documentário ATARI: GAME OVER (2014) mostra o famoso caso do enterro dos cartuchos do jogo "ET - O extraterrestre" na cidade de Alamogordo, no estado do Novo México, maior fiasco da empresa e, como apontam, o motivo que levou a Atari à falência pouco tempo depois de seu lançamento. Para os que viveram um pouco desta febre, vale a pena dar uma olhada. Sigamos, bucaneiros!


A MARCHA DOS PINGUINS

De uma beleza impactante é o documentário A MARCHA DOS PINGUINS (2004), dirigido por Luc Jacquetcada. A película mostra a saga anual vivida pelos pinguins imperadores durante o período do inverno na Antártica, um dos locais mais inabitáveis do planeta Terra. Para fins de perpetuação da espécie, os pinguins marcham em fila indiana por longos meses e quilômetros em busca de um local seguro para a procriação e lá permanecem (os machos) por quatro meses praticamente imóveis vencendo uma temperatura de -70 graus, enquanto que as fêmeas fazem o percurso de volta em busca de alimento para os filhotes que irão nascer sob os auspícios dos machos. A natureza e sua extrema poesia. Assistam, bucaneiros! Recomendo a todos os mortais!


UMA PROVA DE AMOR

UMA PROVA DE AMOR (2009), de Nick Cassavetes, é daquele tipo de filme que faz embrulhar tudo por dentro da gente, em rompantes de tristeza e redenção. Emocionante, dramático, belo e ao mesmo tempo singelo. O direito à vida num enlace de duas razões diversas. O "politicamente correto" colocado em questão quando das perspectivas de usufruto de nosso próprio corpo. Está longe de ser uma obra de arte, mas vale muito a pena dar uma conferida. Sofia Vassilieva em atuação digna de louros. Recomendo a todos os mortais!


TARJA BRANCA – A REVOLUÇÃO QUE FALTAVA

De Cacau Rhoden, o documentário TARJA BRANCA - A REVOLUÇÃO QUE FALTAVA (2013) percorre um canal ímpar de depoimentos de pessoas já "grandinhas" para esclarecer um pouco da boniteza que tem o ato de brincar. Se você se encaixa naquele grupo que jamais permitirá que a sua "criança-interior" morra dentro de si, a presente película o levará a fortificar tal engajamento. Para muitos, pode ser transformador. Não deixem para depois, bucaneiros! E um feliz Dia das Crianças a todos nós, seres brincantes em essência!


MAGIA ALÉM DAS PALAVRAS: A HISTÓRIA DE J. K. ROWLING

MAGIA ALÉM DAS PALAVRAS: A HISTÓRIA DE J. K. ROWLING (2011), é uma produção cinematográfica em tons de biografia. O filme narra um pouco da história da escritora britânica, criadora da saga Harry Potter. Mesmo sendo uma produção de qualidade duvidável, com atores que não inspiram segurança, assisti-lo pode se tornar interessante, especialmente para quem é fã do mágico bruxinho, que a fez vender milhões de livros em todo o mundo. J. K. Rowling é um ícone de nossos tempos e sua obra merece um olhar atento, sob diversos ângulos. Que tal começar por aqui? Paul A. Kaufman é o diretor.


HISTÓRIAS MÍNIMAS

HISTÓRIAS MÍNIMAS (2002) é um drama argentino dirigido por Carlos Sorín. No filme, três narrativas (três personagens) se entrecruzam pelos arredores da Patagônia. Oriundos de um pequeno distrito ajuizado no "fim dos mundos", uma moça sai com seu filho pequeno em busca de um prêmio que ganhou num programa de TV, um ancião foge de casa em busca de uma reconciliação com seu cão e um vendedor de adesivos para emagrecimento instaura uma pequena jornada em prol de um novo despertar amoroso. Cada qual descobre um pouco de beleza na força de seus ingênuos e incertos passos. A felicidade vista como uma questão de tentativa, de não desertar. É um filme bonito, daqueles de inflar o peito da gente. Recomendo a todos os mortais!


GÊNIO INDOMÁVEL

GÊNIO INDOMÁVEL (1997), do diretor Gus Van Sant, é um cativante drama que se passa na cidade norte-americana de Boston. O filme centra-se na figura de um rapaz de aproximadamente 20 anos, personagem encenado por Matt Damon, cuja natureza rebelde e confusa parece não permitir que ele se "encontre" no mundo. De repente, um professor da universidade onde ele trabalha como servente, descobre que o jovem é um gênio da matemática. O professor tenta acompanhá-lo e incluí-lo no mundo científico, mas é na companhia de um analista que Will começa a se descobrir de verdade. Para ver e rever. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: http://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/classicos-do-cinema-mudo

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

As árvores amorosas (Parte XXIX)

*
Por Germano Xavier

poema para a mulher que amava a nonna 


luar de luz, mata adentrada,
reino inteiro de vaga-lumes
cavalgado no redestino.

tu abraças a nonna, em despedida,
alteias a aurora em boca seivada
- dominâncias de flor furtada.

és altiva, em seus locais de quem,
moradeira de gostos e tambéns,
risco pontudo no centro de um sol.

inventemos o amanhã dos julhos

após o fogo nos descalços pés,
tarde engolindo remadrugadas,
muco extraindo tórridas horas.

de mim,

terás (sempre) a verdade dos tímpanos,
a doçura das desnaturezas,
a amarga saudade das incertezas.

de ti,

o desejo para o fel dos potes,
lama ácida de tuas fugas, prestes
a doar-me à infausta noite escura.


*Imagem: http://www.deviantart.com/art/Magical-tree-412733201

Ciabotti e a pressa dos hojes

*
Por Germano Xavier

Zé Alfredo Ciabotti possui um fraseado célere, permeado com as nuances cotidianas visíveis das grandes cidades. Descreve, nas páginas do seu recente O AMOR PODE TER FIM e outros contos, uma porção dos pequenos grandes acontecimentos do mundo. Como a nos indicar sentenças de vida a cada fato disfarçado de natureza morta, o autor mineiro escaneia a outra face das vidas comuns a nos reportar sobre o fantástico de nossas caminhaduras.

Um breve papeado com o uberabense Ciabotti:


1. O que nos contam suas “personas ordinárias” em “O AMOR PODE TER FIM e outros contos”, Ciabotti?

Contam o que o mundo apressado de hoje não quer parar para ouvir, ver ou sentir.


2. Por que o conto, Ciabotti?

Uma forma mais rápida de me comunicar com o leitor e, sobretudo, um bom jeito para formar leitores, pela dinamicidade e velocidade da linguagem do conto.


3. A realidade é quase o todo da mancha gráfica em “O AMOR PODE TER FIM”. O moinho de sua literatura roda nesta direção, Zé?

Sem dúvidas. A vida real e crua, com uma pitada das minhas inquietações. O que escrevo é parte do que vejo e ouço por aí, somado à minha indignação.


4. Seu livro projeta ares de produção e distribuição alternativas. Seria esta a solução para o escritor que deseja ser lido?

Sim.


5. Qual o lugar da literatura neste nosso mundo, Zé?

Provocar e libertar.




*
Imagens: Google e Arquivo Pessoal do autor.

domingo, 22 de novembro de 2015

Um turno comigo

*
Por Germano Xavier

manhã descoberta, um sol tardio
- assaz comigo me desapareço.
de marfim o dia ao meio é feito.
o desgaste de me pensar onde pernas
se dobram e o ademais é perigo.

pensar que não posso comigo
é perder o posto de homem.

equinócio
(nem tudo se iguala)
- dentro de mim, quando me desavir,
o outro que sou me desconhece.

se ir me fosse posto, duro castigo,
se de mim me fosse quisto um rotar fugido,
partir-me, hemisférico, seria o dito
de que me trago a mim
(esta parte outra)
como a um inimigo?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lines-of-life-573770383

domingo, 15 de novembro de 2015

Lambedouro

*

Por Germano Xavier
#soschapadadiamantina



"Candombá, dá providença!
Faz o teu fogo quemá
Ô pulo meno isquentá
Dos guverno a indiferença
Quema os papé das pendença
Dos vidraçado salão
Reduz a cinza os ladrão
E mostra no teu luzi
Que nos mapa do Brasi
Tomém inxeste o sertão!"

(Tude Celestino de Souza, 
trecho do poema CANDOMBÁ)


No punhal do diabo, o golpe insano,
no homem humano, um choro-botão.
Lambedouro de chagas, fogaréu-mucugês,
canbombás ressequidos teimam morrer.

Sincorá do Espinhaço, forte e centro baiano,
Marimbus moribundo e uma Mixila sangrando.
Fumacinha, Mosquitos, Paridas, Morro Branco...
de um verdume doente e de um mal a roer.

Foi homem, foi homem? Quem foi a lançar
a brasa-desgraça a crepitar o Capão?
Lacrau deslavrado, um solo de mortos,
a dor mina o rio e minh’alma caatinga.

Bacia, serra dos mitos, Pai Inácio das lendas...
Ramalho, Camelo, doces Campos de São João,
em cada episódio as chamas, Andaraí
e Paty, varrem fundo meu coração.

Minha Iraquara das grutas, nossos Lençóis
diamantes, brigada de luta nos abafos guerreiros.
Espera o Guiné por um sol bem melhor, ou por
um rio Preto inteiro em prior do céu despencar.

Ibicoaras e mocós em dança-esperança,
Igatu e Palmeiras, sem veias, sem vida.
Bravo fogo castiga nossa mata, intenção,
e é a morte tão viva em cada alma-estação.

Mas somos da alta-corte dos quebra-ventos,
meu garimpo é escravo de uma fé sem prisão.
Nacionais forasteiros e de um todo mundano,
Roncador sopra o fogo e põe no Caldeirão.

Águas Claras marinam o foco da turba,
dantesco infernal no dorso do Cardoso.
Andorinhas e Três Barras, os Cristais viajantes,
Véu de Noiva esconde o Buracão em sufoco.

Barbárvores encravadas nas pedras erguem-se
em livramento. Rochas calcárias, terras glaciais,
vozes de imortalidade ouriçam as gentes,
e a Chapada, clemente, renasce por nossas mãos!


*

Imagens: Chapada Diamantina/Google.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Danação

*
Por Germano Xavier


o que pode um escritor é pouco
o que pode um pouco pode tudo
a palavra é uma escola de universos
o texto é o osso do que pulsa
onde dentro de subgêneros musicamos
o preto & branco

o que pode uma narrativa é oceano
oficinamos (nela) nossa própria colocação
de ser - ser o melhor poema é pouco
o que pode o poema pode doer
pode não ter tempo
pode não ter espaço
e o que fica bom não passa de ideal

somos o dom
somos o dom que trabalha

o que pode ser tem aura de ouro
o que foi feito pode ser desfeito
como numa face a definir vários nãos

o que pode um verbo é muito
o que pode muito pode quase
(lembremos o vasto mundo, vasto vasto)
minha aptidão diz: - Escolha ser Rei.
então, curvo-me a escrever:

Oh, danação!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Drowning-571791162

domingo, 8 de novembro de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte IX)

*

Meu amigo querido,

Desde a nossa última conversa (Céus, como o tempo corre depressa!), tenho estado a passar pela vida de forma interventiva ou mais contemplativa, alternadamente; as palavras que me trouxeste e as outras que procuras em mim têm estado permanentemente no centro das minhas preocupações. Delas me servirei hoje para quebrar um pouco desta ausência e mitigar a distância que agora se condensa num gesto de aproximação em papel, através da palavra. (desculpa, mas eu vejo sempre uma folha de papel quando escrevo!). Distância aliás fictícia, pois nós estamos sempre a dialogar pelas muitas linhas com que se cruzam os nossos interesses e pela estética que partilhamos, pelos fogos que nos incendeiam, pelas manifestações de arte diversas em que os nossos olhares se prendem num mesmo alvo.

Poetas, cantores, cineastas, filmes, obras literárias e momentos da vida social e política da nossa aldeia cada vez mais global acabam por atrair as nossas atenções e assim nos encontramos à porta das palavras, de um conceito, ou de um(a) artista que ambos admiramos ou procuramos conhecer melhor. O processo criativo é um parto. Um parto sofrido. Acho que já tenho partilhado esta angústia contigo. Não é um parto rápido, daqueles em que as águas rebentam e tudo se resolve em minutos, mas antes daqueles em que as contrações duram mais de 24horas e a pessoa vai sofrendo, acocorada, acordada, esperando o momento da libertação, assobiando e trauteando canções.

Um parto de primípara, no caso da escrita, ainda que se tenha já alguma experiência, cada novo texto, cada linha, é um mundo novo que se abre e as experiências passadas são só memórias irreplicáveis e romanceadas pela distância no tempo. Falo por mim, claro. Coisa curiosa, sabes que eu sou atenta a pormenores: quando escrevia “caso”, inadvertidamente surgiu a palavra “vaso” no ecrã… então fiquei a pensar se a escrita não terá também alguma autonomia e se não seria melhor deixar ficar essas palavras que não escolhemos, vendo que histórias elas nos poderão contar…um dia eu faço isso, vou ousar enviar-te um texto não editado, com todas essas gralhas, para ver que enredos se desenham no meio da inexatidão desse português coxo que se escreve sozinho. Deixar de policiar as palavras e que elas se desnudem despudoradamente diante de um (im)possível leitor (só teria coragem de fazê-lo contigo, creio eu, pois saberias encontrar nessas palavras mancas outras histórias por contar).

Agora, tentando ser mais pragmática, lembro-me sempre daquela frase do meu irmão, que é esta: “semeia-se todos os dias mas só se colhe de vez em quando”. (Se me repetir, avisa, estou a chegar àquela idade interessante em que se contam as mesmas histórias vezes sem conta e parecem sempre novas e divertidas!). Eu ainda estou no tempo de sementeiras que desejo férteis, esperando uma colheita que tarda. Por vezes, o desânimo instala-se, momentaneamente, para logo dar lugar a um novo alento. Também te acontece? Também te questionas se estás no caminho certo?

E aqui chegamos à literatura, ao lugar onde a encontraremos. Diz à tua professora que a procuramos todos os dias e que com ela nos esbarramos seguramente sem mesmo termos consciência disso.

Eu encontro-a no homem que lê o jornal desportivo no café, na mulher que desenha na bula de um medicamento, no casal de idosos que se amparam caminhando devagar pela traiçoeira calçada portuguesa, mãos dadas e olhar cauteloso toldado pelas cataratas e pela humidade dos dias. Encontro-a no imigrante que vive à margem da correção formal das modernas sociedades com o único fito de dar uma educação aos filhos. No velho que finge que gosta daquele programa de televisão sem conteúdo - que lhe impingem diariamente - mas em cujo sorriso, ausente e vitorioso, se lê uma vida cheia de beleza e detalhes exuberantes. Um velho que não tem medo da morte porque ele é já um pouco a própria morte que se diverte com a mediocridade dos que vivem entre sombras. A literatura mora naquele outro casal improvável preso à rigidez das normas (s)em sentido único, que se apercebe que ser feliz é ter consciência do momento presente. Que sabe andar sob a chuva, andar sobre águas, desfazer-se em desculpas sem mágoas. Literatura é ir além do óbvio, descrever a realidade como se fosse mentira, desenhar mundos insuspeitos, dar voz àqueles que não a sabendo usar, têm algo a dizer. Pintar as árvores de roxo e pôr canários a costurar e macacos a fazerem próteses dentárias. E leões ao volante de um BMW e gazelas a dançarem kizomba. E velhas senhoras com sorrisos dóceis de meninas transformarem-se em sereias. E marinheiros nos saraus de poesia, e prostitutas fazendo tapetes de Arraiolos. E literatura é também procurar Penélopes em cada esquina de uma sombria sala de costura, desfazendo o tempo que teima em cobrar decisões inadiáveis.

Talvez seja um pouco este o lugar da literatura, omnipresente nas nossas vidas, longe dos holofotes e dos circuitos meramente formais de distribuição, caminhos quantas vezes enganosos. Perdoa-me se extrapolei…deixei-me levar pelo teu desafio. Apenas.

A tua última carta foi escrita a 10 de Setembro. Que terás vivido deste então? Que pessoas terás influenciado – positivamente, sempre - com a tua boa disposição, coerência, talento e doçura? Por aqui os meus caminhos cruzaram-se com pessoas improváveis; vou dialogando como posso, aprendendo, inteirando-me de outros mundos. Onde a honra tem um lugar cimeiro, onde a sobrevivência dita as regras e as palavras que usamos, tu e eu, fazem pouco sentido. Só os gestos contam, mundos povoados de rituais e de normas práticas autoaceites e amplamente difundidas.

A arte e todas as suas manifestações estão sempre no meu pensamento, nos meus anseios maiores. Tudo o que eu testemunho e vivo é suscetível de transformar-se em arte também. Tenho amigos que já não querem vir tomar café comigo com receio de se transformarem em personagens meus… brincadeirinha. Eu sei desligar o “complicómetro” quando estou entre os meus.

E agora, meu amigo, mando-te essa imensa saudade que advém, não só da distância, mas sobretudo da suave consciência da ausência.

Quero muito ler-te em breve, tão logo a tua vida cheia to permita.

Um beijo muito grande,
Clara.

Lisboa, 20 de Outubro de 2015.


*

Clara,

Incrível saudade é a que sinto, de nossas trocas, de nossos compartilhares. Dias tão mornos de vida passando, nada muito a me surpreender por aqui. Ruim isto, viver sem aquele pulso vital que faz a gente reluzir mesmo imerso na mais tenra escuridão. Porém, vem você assim para salvar de tais agruras, sorrateira, a me enviar seu feixe de luz e tudo se aclara, Clara!

Por cá, tenho me detido a ler, ler cada vez mais. A leitura, esta prática que me faz sentir coisas tão boas desde muito novo. Tenho lido bastante, livros e revistas que há tempos esperavam meus olhos fumegantes, sedentos, esfomeados. Fico feliz quando consigo prosseguir livremente neste ato. Ando revisitando um pouco os autores russos e alguns norte-americanos. Tenho lido bastante poesia também. Nos últimos meses, li livros fantásticos de autores conhecidos meus, de gente próxima ao coração. São como presentes para a alma.

Clara, você, alguma vez, já sentiu uma vontade imensa de fazer todas as coisas ao mesmo tempo e, ao fim do dia, quando as luzes se apagam, percebe que não conseguiu fazer absolutamente nada? Tenho vivenciado isto não raramente. É de causar na gente uma angústia perfurante. Não sei bem explicar a você como tudo acontece. Sensação de vazio. Chega a ser constrangedor. Um rombo na gente. Acontece mais quando estou pensando em escrever algum texto. Tenho vontade de escrever sobre muitas coisas, e nada. Nada acontece. Uma espécie de desânimo movendo a falta de ação... Uma dor nascendo. Você me fala sobre essa coisa da escrita ser um parto, e eu recordando destes meus casos de momento.

Pois faça tal experiência, Clara. Deite o verbo por sobre a “página” e permita que o texto caminhe sozinho, posto que é, ele, deveras um ser-centopéia, com mil pés, e com vontade própria. Quero ver como fica. Queremos. Estes aparelhos nossos diários, celulares e tablets e outros, possuem dispositivos de coleta que, ao menor descuido, fazem-nos reféns de suas conclusões binárias acerca do que está sendo digitado em seus teclados virtuais. Tudo por uma questão de celeridade. Troço-mania. Mundo que não pode estancar. Humanidade movida a turbinas. Haja pressão.

Sempre me questiono, Clara. Sempre penso que estou gastando tempo demais com coisas que no final não farão sentido algum para mim. Sempre paro e reflito: preciso mudar. Mudo, nem sempre o tanto que eu queria. Insisto em outras, dou de cara contra a parede, esbofeteio muros duros. Sangro. Se certo ou errado, o caminho, complicado inferir. Tenho constantes desejos de parar com tudo, de desviar a rota geral e pegar o caminhozinho mais vicinal, aquele de terra batida, andar para dentro dos matagais de nós todos. Descobrir as fontes. Vezes, bate um medo. Fiz isso algumas vezes e me observo no agora. Certo é que somos feitos de escolhas. Algumas, é claro, precisam esperar. Apesar de muitas vezes me sentir triste por tais afetações sensoriais, sou alegre e esperançoso. Consegue entender o que lhe digo?

Já falei a você, Clara, para não tecer este tom de perdão entre nós dois. Perdão, pelo quê?! A descrição que você fez sobre o lugar da literatura no mundo foi fantástica. Motes são para geração de outras estórias. Confesso que li, reli, treli, em consonância com suas palavras tão bem postadas. A literatura habita vários recantos. Habita todos os cantos. A literatura está em tudo. A literatura não está em tudo nem possui um lugar no mundo. Encontra-se, ela, em nossos olhos, retinas. Muito, muito clichê tudo isto, mas não menos verdadeiro.

A solidão me tem sido companheira desde o dia em que nos falamos, Clara. Uma solidão de andar só em muitos momentos, caminhar caminhos escuros, que só você pode trilhar, sem poder contar com o apoio de mais ninguém. Solidão de deixar que coisas sem brilho nos abatam. Amigos me faltam. Outros me suprem. Pouco contato social, alguns alívios ali ou acolá, mas nada muito de alterar rotas dentro de mim. Porém, nada que possa me deixar inútil. Sou castigado pelo tempo que me fiz descobrir ao longo de meus 31 anos de idade. Já sei me aparar em pedras pontiagudas quando esboço uma queda de grande altura. Muitas coisas andam me podando as asas. Todavia, possuo-as. E é bom saber que as possuo. E, depois, os dias passam e tudo muda. A gente sabe.

Meio silencioso na noite descida, despeço-me por hoje.
Amanhã é uma segunda-feira e tudo se renovará. Até a fé.

Beijos agrestinos,
Viana.

Caruaru-PE, 08 de novembro de 2015.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

49 passos para se cruzar um infinito

*

Por Germano Xavier

A portuguesa Luísa Fresta, natural da cidade de Braga, encaixa-se perfeitamente naquele grupo de artesãos da palavra que gosta de esmerilhar a sua matéria-prima até vê-la reluzir em mais profundo e verdadeiro brilho. Dona de itinerários formativos vários, Luísa tem uma alma mista, composta de uma Europa infante e de uma África de desbravamentos. Angolana de coração, estudou engenharia civil na França. O manuseio vital para com a palavra é brotado já de longa data. Escreve contos, crônicas e poemas. Poemas que, em caso de reunião de alguns, deram origem ao seu livro 49 PASSOS - ENTRE OS LIMITES E O INFINITO, publicado em 2014 pela Chiado Editora.

A obra é recheada de projeções de memória, burila uma saudade do passado, infere sobre o amor e sobre a dor, em toques suaves e verazes, sem nada deixar a sujo em termos de construção. Dona de uma poética límpida, Luísa Fresta vai se revelando, a cada passo/poema, a um dom possuidor de encantos voltados para o olhar simples acerca dos acontecimentos da vida. Simples, não simplório. 49 PASSOS é um esforço para o encontro, um curto manifesto sobre a sinceridade, um conciso aparato poético cuja função maior é o sensibilizar. Num mundo onde a razão enegrece nossas frações emocionais a todo instante, tal característica revela-se no mínimo interessante.


Outros passos com Luísa Fresta:


1.Luísa Fresta, 49 passos separam os limites do infinito?

LF. 49 Passos são aqueles que me conduziram até estes textos, a uma orla que se pretende o início de outra estrada, em direcção a esse infinito intangível, mas do qual tenho uma consciência aguda.

2.Em muitos de seus passos poéticos, percebemos a escolha pela forma clássica do soneto. O soneto é mesmo atemporal? Até onde vai sua preocupação com a forma em seus poemas, Luísa Fresta?

LF. Germano, essa preocupação é real, sim! Eu acho que a forma do soneto não está ancorada em nenhuma época, enfim, não se diluiu no tempo… para mim, continua a fazer todo o sentido, lembro constantemente sonetos de Vinicius de Morais, de David Mourão Ferreira, de Verlaine; para mim, o soneto satisfaz uma procura obsessiva (que eu assumo) da musicalidade das palavras, do ritmo - na verdade eu gosto de ter essa estrutura musical para que as palavras façam mais sentido umas junto das outras e adquiram essa harmonia de conjunto. A forma, para mim, é tão relevante como o conteúdo, como bem intuíste; temo que este aparte possa parecer superficial, mas realmente creio que qualquer coisa pode servir de objecto poético, uma laranja, a neblina, uma curva da estrada, uma noite interminável… desde que olhada com ousadia, inovação, originalidade, sob um angulo novo ou renovado.

3.Em algumas passagens, uma África borrada em saudades várias é cantada, louvada. Qual a África que pulsa em 49 passos?

LF: Essa África está sempre presente. A minha (África) é sobretudo Angola, e a cidade que me acolheu na infância: Benguela. Curiosamente tenho muito mais tempo de vida noutras cidades, mas é esta a que eu considero verdadeiramente minha, que carimbou a minha identidade. A cidade ensinou-me o cheiro da chuva na terra, a simplicidade do convívio, todas as mestiçagens, as acácias rubras, as rosas de porcelana, a praia morena, a baía Farta, a baía Azul, a sonoridade suave do Umbundu e o pirão de milho. E um sotaque que permanece comigo ao cabo de décadas. Eu tenho um olhar universal sobre as coisas, mas não posso deixar de perceber de onde venho, para depois me agarrar às coisas e entender o mundo à minha maneira. Muito Benguelense, necessariamente (risos). Nem chega a haver motivo para saudades, sabes? Benguela, Luanda também, mas de uma forma mais ténue, Angola, estão sempre presentes na minha criação, na minha maneira de encarar o lazer, de pensar na família, nos amigos de infância. Eu continuo a senti-la pulsar através da música, da dança, da literatura, do cinema e das memórias e ficções que me chegam regularmente do meu pessoal de lá, ou dos “diasporenses” que como eu, recriam insistentemente Angola dentro de si.

4.Esperança, sonho, medo do erro repetido e desejo de mudança, além do amor imperioso, são alguns dos caminhos por onde o eu-lírico transita em 49 Passos. Quais são os outros segredos desta jornada, Luísa?

LF: Olha, Germano, para além desses caminhos que encontraste nestes textos, posso dizer-te que 49 Passos representou, sobretudo, uma enorme porta que abri, a duras penas, que vou abrindo, para uma outra dimensão da vida e para o poder das palavras. O segredo desta jornada é prescindir de alguns bloqueios, ousar romper com a zona de conforto e com uma espécie de tédio intelectual, deixar que as palavras escolham os seus próprios alvos; há alguma autonomia neste processo criativo, que me exclui, no qual eu me sinto mera leitora da palavra já pronta que se oferece em espectáculo. Não sei se serão segredos, mas talvez zonas de nevoeiro e sombra nas quais adivinho ainda muito por descobrir e inventar.

5. Da admiração por cidades, como a citar Benguela, Nancy e Havana, até cantos destinados a plantas típicas do deserto do Namibe... 49 Passos tem um pé na observação geográfica do mundo. Como o conjunto de sua obra se serve de tais (inusitados) incrementos, Luísa?

LF: Olha, é interessante reparares nisso. Ninguém existe sem um espaço, sem um enquadramento real, sem um chão para pisar e deixar vestígios, sem um mar para olhar ou cantar. Eu encontrei essas influências nesses lugares todos, hoje acrescentaria algumas outras cidades/culturas como Lisboa, como a Praia, em Cabo Verde, pelas mornas, pela literatura, pela língua, pelas pessoas. Há uma cidade que eu nem conheço, no sentido de que nunca lá estive, mas com a qual tenho uma afinidade profunda, desde sempre: Havana. Talvez nem seja bom eu ir lá, para não desmistificar e romper com esse quadro de idealização da cidade, não é? (risos) Mas conheço de outra maneira, não a sua geografia, por não tê-la tateado, mas a sua gastronomia, música, recantos e a sua memória. Já é um começo para se amar uma cidade. O deserto do Namibe tem aquela flor magnífica que é característica do local (a Welwitschia Mirabilis) e que me fez olhar os grandes espaços e o horizonte com outros olhos, o deserto do Namibe, em Angola, o Sahara, e todos os desertos que nos povoam. Eu gosto de perceber que as pessoas são moldadas também pelas suas terras de origem, para além das vivências e da parte genética. Alguém que nasceu numa ilha, num meio rural, entre um engenho de aguardente, em meio a sete irmãos, e esperando eternamente uma chuva que não vem não pode ser igual a outra pessoa que nasceu e cresceu numa terra fértil com árvores frondosas e cheiro a banana seca pelas manhãs. Essas coisas ajudam a forjar uma personalidade, um apego a valores, a criar estruturas duradouras. Por isso eu quero dar alguma relevância a esses pormenores estáticos, a essas coordenadas geográficas, culturais, que tiveram influência na pessoa em que me fui tornando.

6. Luísa, por favor, um poema do livro que você considera bastante relevante.

LF. Rotas Paralelas, que segue assim...

"Para ti os abraços
São estilhaços de costelas
Pintam hematomas nos braços
E perpetuam esquálidas sequelas

Para mim os abraços
São suaves nuvens de calor
Fundem em nós inabaláveis laços
Desmantelam resquícios de rancor

Para ti uma viagem
É um reencontro permissivo
É uma despedida, uma paragem
Um silenciar intempestivo

Para mim uma viagem
É uma fuga cega para a frente
Redescobrir-te algures na bagagem
Saber-te comovido e comovente

Para ti um termo
É uma palavra inconclusiva
Ausente dos teus cem termos
(E se a soubesses seria decisiva…)

Para mim um termo
É um estrito e rotundo Não
Que me surge só de um lugar ermo
Longínquo e numa outra dimensão

Para ti as horas
São só minutos ímpares
Que arrumas onde não moras
São migalhas do tempo que ocupares

Para mim as horas
Convertem-se numa eternidade
Que em segundos devoras
Com laivos de cumplicidade

Para ti o encontro
É um espaço brutal de exaltação
De breves palavras e de reencontro
Laboratório da paixão

Para mim o encontro
É uma conversa visceral
Após um breve desencontro
Um longo desengano virtual

Para ti a palavra
É a não-dita, é a ignorada
É na verdade a falta de palavra
A cada instante mais silenciada

Para mim a palavra
É o verbalizar do que perdura
É uma chuva de ternura
Oferecida gota a gota"


49 PASSOS - ENTRE OS LIMITES E O INFINITO, de Luísa Fresta. (Chiado Editora, 2014)

Alguns dados relevantes:

* Em 1998, a autora participou, em Portugal, do concurso de contos curtos “Expo 98 palavras” no qual viu o seu conto CRIME publicado juntamente com cerca de outros 100, entre 2.364 candidatos.

* Em 2013, ficou classificada em 2º lugar no 9º concurso online – II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (Brasil) com o poema SONETO DO AMOR NO FEMININO. Também nesse ano obteve o 2º prêmio no 1º Concurso Internacional de Literatura de Alacib, na categoria “Crônica” (Brasil) com o texto intitulado OUTROS CAMPEONATOS.

* Em 2014, o seu poema TALVEZ foi considerado um dos melhores 50 apresentados a concurso e incluído numa coletânea publicada pela Academia Jacarehyense de Letras promotora do 8º Festival Internacional de Sonetos.

* Em 2015, o seu poema PEQUENO BILHETE foi selecionado para integrar uma antologia a ser publicada no dia da poesia pela Chiado Editora. Nesse mesmo ano a sua crônica LUANDA, aliás "São Paulo da Assunção de Loanda" foi escolhida para inclusão numa coletânea a ser editada pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP.

* Publicou em 2012 e 2013 uma série de crônicas enquadradas num ciclo dedicado às décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras (http://jornalcultura.sapo.ao/) com o qual colabora regularmente e publicou também pontualmente em diversas publicações (revista moçambicana Literatas, revistas brasileiras Samizdat e Subversa, e site de crítica de cinema, Africiné (www.africine.org), do Senegal). Desde Outubro de 2013 escreve quinzenalmente no portal brasileiro O Gazzeta, (www.ogazzeta.blogspot.com.br) e desde Novembro de 2014 assina duas colunas na METROPOLIS, revista portuguesa especializada em cinema).

para outras informações, entre em contato:

https://www.facebook.com/luisa.cartaxofresta
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Imagens: Arquivo pessoal da autora/Google.