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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Iguais


 

Por Germano Xavier


temo excessos positivos

que me colocam na lama

dos iguais

temo a falta de me faltar

coragem 

para escapar dos espelhos

e das memórias do amanhã

tão perto tão perto

tão agora


temo falas impressas dentro

do distúrbio do ser a mais

do ser além

tão além de tão aquém


fujo dos passos que não darei

natimortos em si mesmos

passos de passados

tão íngremes de futuro

tão calados de voz

própria

e de carne



* Imagem: Deviantart

quarta-feira, 27 de março de 2024

Não haverá futuro


 

Por Germano Xavier


não haverá futuro

até que se aprenda a aproveitar o dia

como uma estrutura sólida de sempres

até que se possa viver o hoje 

sem o incômodo destemperado do Tempo

não haverá futuro

antes de mais nada que não seja nada

ou mesmo depois do pior

não haverá

futuro sem amor

se não intentarmos a ferina variação

dos nossos humores

dos rumores e dos tumores e dos temores

não haverá futuro

se continuarmos a espionar nossas presenças

com os olhos autogovernados dos sistemas

surpreendentemente secretos do amanhã


sobremaneira

não haverá futuro


somente o saldo romântico das contestações



* Imagem: https://www.notibras.com/site/solidao-vira-risco-para-o-futuro-dos-jovens/

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Como se faz um deserto


 

Por Germano Xavier


                                                                                                            após visita a Canudos Velho


Para Ana Carla Guimarães


um deserto se faz 

com gente viva abatida

gente cheia de amor 

e gente feita de vida

um deserto se faz 

com corações soterrados

inundados por sanha humana 

gigante e temida

um deserto se faz 

não com seca terra ou áspero sol

mas com odiosa opressão 

aos menos favorecidos

um deserto, 

feito o do sertão baiano-Conselheiro,

se faz com desalmas e muitas ruínas

no Vale da Morte feroz

um deserto se faz

não com o martírio secular das secas

mas com inveja e ganância desmedidas


mas um deserto feito sob o olhar do povo

vingará dentro da paisagem dos tempos 

que não morrem

e nenhum deserto findará mais implacável

que o deserto das mentes que mentem

sobre sertanejos sonhos de paz


* Imagem: Google

sábado, 9 de setembro de 2023

eu tenho um verso


 

Por Neuma Rozendo e Germano Xavier


I


me conte seu verso

o mais querido

ou o mais desprezado

aquele que você rasgou ontem

depois jogou na lata do lixo

 

me conte o homem

o menino e a mulher em você

me conte o velhinho

que sai de moto aos noventa

cantando pneu e horizontes

 

me conte seu verso

pra eu fazer de meu

pra eu jantá-lo com café

vendo aquele filme

que vimos juntos

 

me conte seu verso

pra eu interpretá-lo inapropriadamente

e convenientemente esquecer

todo o contexto

e o resto da existência

 

me conte seu verso

secreto, quente, abraço, colo

choro, sofá para dois, lembranças

arte milenar em uso comum

 

me conte seu verso

pra lavar a alma (da Penumbra).

 

(Neuma, Campinas, 20/10/2024)

Para Xavier, o poeta dos altos silêncios.

 


II


eu tenho um verso

esquecido no Tempo

de minha paciência

 

um verso avesso

um verso sem terço

um verso no verso

do Temporal

 

que diz à menina

em rima pobre

caída

no leito do rio

que é o texto

 

você me conhece

você me decifra

você me reforma

e isso me basta

de um modo inteiro

na noite de agora

no dia de quando

as coisas em sendo

a ordem exata

sem data

sem nada

só sendo e tal

 

eu tenho um verso

sedento e seco

que compra a vida

sem medo e real


(Germano, Caruaru, 27/10/2024)

Para Neuma, a poeta-penumbra.

domingo, 18 de junho de 2023

Em tua garganta


 

Por Germano Xavier


você entendeu

que a semente se enraíza dentro

das entranhas do corpo


e me engoliu

com a sede das ervas

que se danam


e que dançam ao vento


meu líquido fez brotar

em você 

nada menos que um instante eterno



* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/l%C3%A1bios-sedu%C3%A7%C3%A3o-sexy-eliciar-839236/

sábado, 10 de junho de 2023

Toda vez


 

Por Germano Xavier


toda vez

que invado 

a tua bunda


que é Templo

feito o mar


toda vez 

que nela entro

venço o Tempo


algo que sempre me pareceu

impossível


* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/er%C3%B3tico-gl%C3%BAteos-molhado-nua-3139549/

sábado, 18 de março de 2023

Lados opostos


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


comemoram a vida

seguem a direção do paraíso

e eu me firmo


sujam seus uniformes

maculam suas peles

e eu aprendo a viver


masturbam-se com ilusões ordinárias

e eu espero o Tempo


drogam-se

e eu escuto


desfilam trajes de falsidade

em sorrisos dados pelos cantos

e eu mostro meus dentes


cospem amizades fundamentais

e eu sou o mundo perdido


matam por dinheiro

e eu festejo o fracasso de todos vocês


meu lado é oposto

e assim me contento



* Baseado em poema homônimo escrito em 18/07/2002.

Imagem: Google

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Planos e altiplanos


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


não estou indo a lugar algum,

conheço bem o aqui e o agora.

não há moldura em meu destino

e tudo à minha volta é paisagem, presença

e passagem. dou passagem.

 

não posso me atirar ao impossível que sei

que não dou conta. baixo a cabeça e sou todo o chão,

o meu chão, aquele que me guia. sou do afastar-me.

de imediato.

quando não entendo, não habito.

mesmo que tarde demais.


Imagem: Pixabay

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Não falta açúcar (ou Ainda a penumbra)


 

Por Germano Xavier


meia-luz. vamos parar o Tempo.

parar o Tempo pode ser voltar no Tempo.

entre a luz e a sombra, assombra sempre

o fantasma do que passa 

e do que nos transforma.


gradativa mudança ou brutal revolução, 

cada qual com seus caminhos. meia-luz.

vamos lembrar o Tempo. um Tempo.

para isso: quilômetros.


sim, a ampulheta está sobre a mesa.

escutar o Tempo também pode alongar

a vida dos instantes eternos. meia-luz.


em cima do que se ameniza para não ser susto,

ou surto, está a vontade de ler a página esquecida,

aquela última página que pode ser a penúltima 

página esquecida, aquela penúltima página

que pode ser a antepenúltima quimera.


meia-luz.


que não sejamos o anteparo, a umbra, a antumbra.

sejamos o Tempo, mesmo líquido, mas o Tempo, 

que é de onde todas as insurreições florescem.

sejamos, afastados das sombras das dúvidas,

o Tempo que ensina a fênix a nunca morrer.

o Tempo-Badalo, toante, que unido a outro

de mesmo ritmo, rapidamente se esquece, 

sobretudo, do quão tudo mudou. e ficou.


* Imagem: Google

domingo, 3 de outubro de 2021

Ainda assim


 

Por Germano Xavier


se não houvesse mais nada
entre o Éden e o Caos
se o Jardim das Delícias fosse apenas 
uma imagem sem foco na direção do sol
sem bordas nem beiras
sem eiras nem destinação
ainda assim

haveria a Penumbra
a desafiar rotas de espera
caminhos sem futuro
dilemas e dissoluções
ainda assim

uma estrada e a memória
de um lugar sem Tempo
nem resolução



* Imagem: https://www.deviantart.com/poromaa/art/Urban-Objects-183429838

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Palavras paridas


 

Por Germano Xavier e Leilane Paixão


as palavras estão cansadas

de comunicar. as palavras querem férias,

farão uma greve, reivindicarão

a presença do silêncio.


as palavras estão cansadas,

muito fatigadas de informar. as palavras querem

se esvaziar. as palavras odeiam repetição, 

estão fartas de bocas sujas

que profanam os seus sentidos.


as palavras querem silenciar, 

para se mostrarem quando necessário for, 

em suas esplendorosas

vocações de ser.


que se cancele a greve das palavras

apenas quando elas estiverem grávidas

de sentido!


| as palavras querem parir |


as palavras querem homens e mulheres

gestantes, homens e mulheres poetas,

capazes de enxergar a beleza das coisas.

as palavras querem servir ao Belo.

as palavras são divinas!


está feito. e que se decrete a greve das palavras!

registre-se. cumpra-se!



* Imagem: https://www.deviantart.com/slipperykarst/art/palavras-perdidas-87508000

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Deriva perversa


 

Por Germano Xavier


o poema é o Grande Objeto

sobre o qual invisto,

obsessivamente,

minhas vias de afeto.


a palavra, imersa em poesia,

acentua o gozo e segmenta o prazer

numa trajetória sólida de sentidos

ou numa deriva perversa.


Imagem: https://www.deviantart.com/patrickleborgne/art/Eolienne-650708934

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sete de Setembro


 

Por Germano Xavier


o genocida

sobrevoa o golpe

as imagens em giro

sufocam o verde e o amarelo

da bandeira


formigas tontas formigam

na grande avenida

o conselho teme

o inconsciente investiga a tristeza


que país se manifesta

quando até mesmo a morte

vive com fome?


Imagem: https://pcdob.org.br/noticias/investimento-no-pais-retrocede-20-anos-com-golpe-bolsonaro-e-pandemia-2/

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Colosso uruguaio


 

Por Germano Xavier


mario

orlando

hamlet

hardy

brenno

benedetti

farugia


* Imagem: https://observador.pt/2020/09/20/mario-benedetti-um-realista-a-procura-da-aventura-amorosa/

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Vaqueiro da cara lascada


 

Por Germano Xavier


uma homenagem a Zé do Mestre, 

à Pega de Boi Elizeu Xavier (meu avô), de São Bento do Una-PE, 

e a todos os vaqueiros do mundo



vaqueiro de verdade é o da cara lascada,

que destripa a caatinga e rasga todos os portais

da seca, da imensidão: seu ofício e seu lar.

no meio de coronéis e lampiões, vai definindo

o vento áspero dos mil Gerais.


vaqueiro veste a serra, o morro e o gibão,

traja o perigo e o couro dos animais rurais.

nas feiras marca o adorno, costura o ritual dos santos 

de proteção. vaqueiro sovela o sol,

vaza o dia e molda a noite.


e no limiar dos sertões, o peleiro 

o aguarda para remendos encourar, quando 

Senhor Bom Homem e São Crispim tecem 

as novas coragens.


repasse imortal do mestre gonzagueando

sábados de criação. vivo é o passo do pai nas 

mãos do filho. perneira, guarda-peito, chapéu e luva...

a peça quase inteira se da peste não for

o indumentado cabra, se da cara lascada não for

o bendito vaqueiro.


* Imagem: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2013/12/exposicao-no-recife-retrata-universo-do-artesao-ze-do-mestre.html

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Mil retas


 


Por Germano Xavier


nós 

que somos das 

encruzilhadas,


suspeitamos

é de quem não tem

mil retas a caminhar



* Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fogo

domingo, 18 de outubro de 2020

Santiago


 

Por Germano Viana Xavier


Manolin, meu jovem, 

o mar é a única verdade,

o mar é o nosso Tempo.


não descanse.

as ondas não facilitarão.


o peixe estará ao seu lado

quando pensar em desistir.


Manolin, 

o peixe é Deus.




* Imagem: https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1945546-romance-pop-de-ernest-hemingway-inspira-frances-em-hq-bela-e-sombria.shtml

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Manolin


 

Por Germano Viana Xavier


a sorte, Santiago,

é a grande estrela que persegue 

o dia e a noite de quem sai para pescar.


o astro da grande luz, turva esfera

rebrilhando nossas frágeis verdades.


vencer não é tão óbvio.

por isso, o mar. 

tão distante de ter um fim.


o fim, meu velho, 

é como um sonho entre leões.


* Imagens: https://revistafabulas.com/2015/01/26/o-velho-e-o-mar-do-livro-aos-filmes/

domingo, 4 de outubro de 2020

Entre a dor e o nada


Por Germano Viana Xavier



para Antônio Torres e James Wilker


entre a dor e o nada,

subo escadas e me canso, escuto

o silêncio da sala de minha casa

vazia.

 

entre a dor e o nada,

trato de conversar comigo mesmo.

lá fora a primavera vem quente.

| alguma coisa toca o telhado: espero |

sinto pena de tudo.

 

lembro e esqueço.

acendo um livro em meus olhos na noite sem brilho.

minha calma parece um melodrama, mas é que todo dia

a gente se encontra no que parte ou entroniza.

 

entre a dor e o nada

escolho ser um cão uivando para a lua.

 


* Imagem: google

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Pandemia



Por Germano Xavier




todos pareciam dormir
todos pareciam alguma coisa
de antes

foram surgindo entre os becos
nas vielas
pelas avenidas

descerram os morros
subiram os elevados

todos aquietados
pasmos ainda

os passos eram surdos

os quintais foram se desafogando
os braços se despregando
do resto do corpo

tocaram as suas faces
enxugaram as lágrimas

olhei para o capacho
ao fechar a porta por fora
uma recordação

ENTRADA


* Imagem: google