quarta-feira, 19 de julho de 2017

Textos literários: como lidar com eles?


Por Germano Xavier


A sedução literária – sabemos - não necessita, obrigatoriamente, do que é enfeite, do que se apresenta tal qual um ornamento ou algo do tipo, e por um mero detalhe apenas: a sedução por si mesma não engrandece a criação, a obra, o valor de uma autoria. Todavia, há de se suspeitar – ao menos isso – de que a sedução presente em um texto literário mais importa pelo que revela ou desnuda o quanto de humano existe em uma determinada construção narrativa.

Dentro deste espectro de entendimento e de debate, presencia-se no mercado livresco a publicação de um grande quantitativo de livros destinados ao ensino prático de alguns domínios e técnicas voltadas à narração literária, e isso não é lá nenhuma imperiosa novidade. Como exemplo disso, podemos tomar o livro COMO MELHORAR UM TEXTO LITERÁRIO, da série Guias do Escritor, de Lola Sabarich e Felipe Dintel, publicado pela editora Gutemberg em 2014. Para os autores supracitados, na dada obra, a elaboração de um bom texto literário passa automaticamente e quase que unicamente – infelizmente, essa é a impressão que fica após a leitura do material - pelo conhecimento de uma base técnica de ferramentas, instrumentos e recursos que, quando dominadas com excelência por um eventual autor, possui a capacidade de fazer com que boas narrativas sejam criadas a quaisquer instantes e por quem assim desejar. Mas isso é realmente o bastante?

É óbvio que os autores do referido livro sabem muito bem que apenas dominar as técnicas de redação de textos literários não fará de um leitor comum um exímio escritor. Tal acontecimento pode até se dar, num enlace muito fortuito do destino ou do acaso, mas é bem aí que mora o perigo. Será que os leitores interessados nesse tipo de leitura – leia-se, manuais de escrita - possuem semelhante esclarecimento em suas mentes? Será que sabem que a literatura não é tão simples assim a ponto de se permitir dominar através da leitura de reles "10 mandamentos"? É, deveras, relativamente fácil se perder em tais diretrizes e ensinamentos camuflados ao melhor estilo “cartilha” ou “manual” e, assim posto, acabar por ver nascer uma enorme confraria de entusiastas na matéria que desconhecem outras práticas de aprimoramento da escrita de textos literários, e por vezes muito mais eficazes.

A mera criação de um texto literário não faz de nenhum leitor um artista, é preciso que saibamos disso. No texto “O direito à literatura”, Antonio Candido (1995, p.242), afirma que a literatura é uma “[...] manifestação universal de todos os homens em todos os tempos [...]”. Segundo ele, não há quem possa “[...] passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia [...]” (CANDIDO, 1995, p.242). Todos nós possuímos o direito de bolinar no que é do universo íntimo e natural da literatura. Porém, faz-se cada vez mais urgente o desenvolvimento de um sentimento de respeito para com tal órbita do conhecimento humano. Não que devamos respeitar tanto a ponto de nos distanciarmos dela, pelo contrário. Precisamos respeitar a literatura para que possamos adentrá-la em sua real magnitude e encantamento.

Muito antes de encararmos estes guias que nos fornecem as ferramentas ditas necessárias para o aprimoramento de um texto literário, que nos emprestam facilmente exemplos de como construir uma cena, de como caracterizar e construir personagens, de como manipular o tempo no texto, de como adaptar o ritmo narrativo à ficção, entre tantos outros “achados” imprescindíveis, é preciso compreender que a literatura, como salienta Colomer (2007, p.70), “[...] é um dos instrumentos humanos que ensina “a se perceber” que há mais do que o que se diz explicitamente. Qualquer texto tem vazios e zonas de sombra, mas no texto literário a elipse e a confusão foram organizadas deliberadamente. Como quem aprende a andar pela selva notando as pistas e sinais que lhes permitirão sobreviver, aprender a ler literatura dá oportunidade de se sensibilizar os indícios da linguagem, de converter-se em alguém que não permanece à mercê do discurso alheio, alguém capaz de analisar e julgar [...]”. Com outros gêneros ou tipologias textuais, você pode até tentar um domínio pleno de atuação perante o objeto de seu usufruto, mas com o texto de ordenação literária isso tende a se mostrar um tanto quando duvidoso e melindroso.

A linguagem literária é considerada por muitos um código bastante elaborado e apto a disfarçar outro, como se exercesse a partir e após ele mesmo um cruzamento de linguagens várias. Daí eu acreditar que não é o homem que está logo ali a caminhar e a criar narrativas, mas as narrativas é que estão a criar o homem e a ensiná-lo a caminhar. Daí, também, a importância de ler. De aprender a ler, ler profundamente, ler com todas as aberturas da alma, pois no fim de tudo, o que assume o plano primeiro em um texto literário é a sedutora - sim -, e também traiçoeira, palavra conotativa. Sendo assim, e de antemão, torna-se necessário mostrar a verdade – ou as verdades - e, por isso, a construção da fantasia não pode jamais terminar se transformando em um empecilho a essa ideia. E – convenhamos - dificilmente um guia de escrita de textos literários poderá ter a audácia de querer destrinçar tais nuances e segredos.

Se, de algum modo, a literatura, a leitura-fruição ou a leitura-prazer é capaz de amenizar os males, as marcas e as dores do caráter humano, de nos pôr mais sensíveis perante as coisas e o mundo, de nos projetar como sendo seres mais harmoniosos e solidários, por outro, o ato de ler abre nosso campo de visão de maneira irreversível. Um mundo melhor passa – não só, mas também – por uma literatura cada vez melhor, mais sábia, atuante e presente. Por isso, trabalhar com literatura deve sempre ser visto como um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre literatura é, de algum modo, ser o outro no momento do outro, num movimento de compreensão e empatia mútuas. O trabalho com esse campo do conhecimento e da arte, como em qualquer outro, termina por ser inútil quando não há nenhuma pretensão de transformação, seja ela qual for.

Para mim, em assim sendo, será bem mais fácil ou bem mais provável imaginar que alguém possa “melhorar” um texto literário lendo um bom autor de textos literários do que lendo mantras de produção de textos literários recheados de táticas de elaboração redacional. Pois que, quando a leitura produz sentido ao homem, este mesmo homem pode exercer uma capacidade propriamente humana – a sua criatividade – e, assim, por meio da produção e da construção de sentidos, é avidamente capaz de transformar sua realidade (ROMÃO, 2006, p.34). Vamos pensar mais sobre isso?





* Imagem: http://escolakids.uol.com.br/texto-literario-e-nao-literario.htm

sábado, 15 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XV)



Por Germano Xavier

"há sempre um mesmo cheiro / dentro dele a perdição"


O fim: o fim


tenho ouvido a sinfonia agreste dos horizontes,
bebido o suco escuro do mundo e das pessoas,
rumado ao mais bruto interior das fomes
e, com total sinceridade, teço o verbo que diz
não haver por perto nada semelhante ou quase igual.

elaborada a extensa exigência de meus recursos
de vista, crio ao te pensar a consistência atingida
dos revelamentos, dos estímulos, das necessidades.

é como se eu invadisse na noite fria teu laboratório
de fragrâncias e dominasse a prática de tuas desorientações.

o tema imprescindível para o poema foi-me dado.
destinar o amor ao que não tem fundamento e simplesmente
amar, muito amar, depois amar, inadequadamente amar.
amar e desamar, amar e desaguar, amar e reamar.

e quando eu estiver de novo a caminho de casa,
e quando aqueles crisântemos amarelos se alargarem
diante de meus olhos, perto da porta, da entrada,
por baixo dos nascimentos de sol das matinas
aprenderei a ver qualquer cor de mácula ou de excesso,
bonita e demoníaca, como um pensamento
ou um pedido para o que é justo ou, simplesmente,

um tinto mistério.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Internal-692755018
** A série de poemas AS BABÉIS DE SES, iniciada em 01 de setembro de 2016, termina aqui.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVIII)



Por Germano Xavier



Dentro de nossos silêncios

Dans nos silences

dans nos silences le secret des envoûtés
celui de voir ce qui vit là-dedans
le secret des poètes
ceux qui transforment la douleur en art
à l’intérieur de nos silences demeure le secret des simples
qui consiste à trouver la beauté cachée

nos silences enferment le mystère des somnambules
qui continuent de marcher là-dedans
le secret des naufragés
qui s’arrêtent de respirer
le secret des croyants
qui ne posent plus aucune question
le secret des amants
qui s’aiment les yeux fermés
contre nos silences se blottit le secret des innocents
ceux qui ignorent ce qu’il leur reste à savoir
dans nos silences souffle le secret des divergents
qui vont au-delà des gents
ceux qui existent


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Between-Space-239-365-690499892

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Recado ao poeta quasemorto-quasevivo

*

Por Germano Xavier


"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, 
previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; 
é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator".
(Jorge Luis Borges)


ousadia (você sempre ousava ir mais longe da multidão, ir mais perto das pessoas, dos abismos, dos segredos, dos prazeres, das proibições, das dúvidas, dos centros, dos arredores, das sombras. você sugava o tutano da vida e seguia invencível, irresistível. você ia. sempre ia onde o coração mandava (e os instintos também), nunca deixou de ir onde precisava ou morreria uma parte. ousadia maior do que o próprio ser. dessa paixão incontrolável e vital que torna os homens e mulheres especiais, como você, pessoas que merecem ser lembradas porque viveram suas vidas sem amarras, sem castração, sem covardia, sem desistir de quem são, sem falsos moralismos, não sem medo, mas com resistência e ousadia (cada palavra que você deixa de escrever, quando ela vem, é uma pequena violência que comete contra si, contra a poesia, contra a tua natureza. é autossabotagem, é auto-traição). você é um grande homem. soube desde que te conheci. é infinitamente maior do que todas as regras que te cercam e do que todas as forças que tentam te deter. você é um deus aberto. pedi a ajuda de Rilke. ninguém melhor do que ele falou da impossibilidade de um escritor de verdade ficar sem escrever. "morreria se lhe fosse vedado escrever?" morre-se de não poder ser o que se é. morre-se de amor que não. morre-se disso lenta e diariamente. e não apenas quando se desce ao túmulo. "sou forçado a escrever? se a reposta for "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade... depois, procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde". a caneta está grudada em tua mão, em teus olhos, em tua alma. você olha o mundo com as palavras. teus olhos enxergam em cores de poesia. teu mundo é feito de palavras, sentimentos, beleza, dor, poesia e amor multiforme. "por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. diz que os que sente próximos estão longe. isto mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. se o próximo lhe parecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. alegre-se com esta imensidade para a qual não pode carregar ninguém consigo... mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo". por isso e por tudo o que sei que és, te seguirei de perto sempre, mesmo se longe, como amigo poeta. estarei perto e tua palavra estará dentro.

sinto falta de paixão em tua escrita. de fúria. de fé. e me dói saber. havia muita. havia antes. há um bastante indolente sentimento de fim. de perda. de parada. de cansaço. você soa pessimista. mesmo quando não. você soa vencido. parece, às vezes, um animal enjaulado em si e no mundo. mas é muito maior do que as grades invisíveis. só precisa saber e ser. você era uma voz em chamas, não pode ser apenas uma voz trágica. chamas no corpo, no coração, nas letras. tu. tanto que incendiavas sempre quem chegasse mais perto... floresta incendiada por tuas chamas multiformes. hoje sinto peso em tua voz. o peso de teus ombros, a lida desgostosa de teus dias, a falta de tua crença... tudo dói em tuas letras. dói em consonância com a minha dor... para mim, você é sempre a mesma chama inteira. e longe. sei o que traz dentro. e sinto. eu falo da paixão em cada letra. da vida embriagada de beleza que você via nas coisas. da rebeldia em descrever cruamente mesmo o que poderia chocar os olhos dos hipócritas. da originalidade do olhar, do ponto marginal de onde você via o céu das coisas. um céu só teu. da naturalidade com que expunha tanto o belo quanto o asqueroso, o abjeto. da escolha estonteante das palavras, sem pensar na mediocridade de quem vai ler, mas na integridade e beleza do que você vê. da sua fidelidade às origens, na escrita... é disso que estou falando. escrever sem filtros. sem pensar antes, sem podar os galhos mais preponderantes. são eles que melhor te representam. entregar-se à tua escrita. isso você fazia. escrevia inteiro, sem negar-se, sem esconder-se. sem considerações prévias, sem medos de repressão. você é que impunha medo. você se impunha. você empunha seu verbo e todos que saiam da caminho.

se eu pudesse resumir em uma frase a tua escrita atualmente, seria: você está escrevendo de olhos abertos. e de olhos abertos, toda escrita é cerceada. citei Borges acima (não apenas porque a ele você ouviria), mas também porque ele fala aqui da indissociabilidade do autor e escrita e leitor. são uma coisa só quando se juntam os três. por isso, o que há no escritor é o que chega ao leitor, sejam quais forem as cores dele. elas que chegarão. sempre. por mais ficção que seja a escrita. ele diz também que primeiro é o escritor que sente o prazer, a paixão, a dor ou o que quer que seja que o poema, o texto, a arte em si possa revelar ao leitor. se ele não sente, tampouco o leitor sentirá. o leitor sentirá apenas o que tiver atravessado a obra, do coração do autor até os olhos e corações do leitor. o sangue vem junto, ou não. quando não vem, é estéril para quem olha. quando vem, a gente é fuzilado pela arte e morre feliz. morre de amor e de beleza e de espanto bom. eu morro sempre com teus textos. morro porque sinto você neles. morro de prazer de ver o invisível e sentir o que estava em você e compreender tão bem, mesmo que não os tenha vivido. é preciso estar cego de paixão para escrever apaixonadamente. e não importa pelo que. pode ser até paixão por uma cebola. mas é preciso paixão. vital paixão. e eu gostaria de dizer: apaixone-se por algo, mas nós dois sabemos que paixão, assim como o amor, é algo que não se fabrica, não se planeja e não se controla. paixão é bala perdida.

sobre escrever de olhos abertos, penso que está censurando a sua escrita antes mesmo de ela ser um feto. está matando-a no ovo, ou seja, em teu coração. tua escrita está desvinculada de tua célula-núcleo. você a está enfraquecendo e disfarçando-a ainda na fonte. tua escrita não tem te representado de fato e de verdade. apenas ao homem público que você tenta ser (ou não). você a está cortando-a, mutilando-a, disciplinando-a, domando-a (por mais motivos do que eu possa imaginar). mas imagino que um deles seja pensar no efeito dela em a, b ou c (o que a pensará disso que escrevi?) isso eu não posso expor, isso eu não posso revelar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso insinuar, isso eu não posso sentir, isso eu não posso criticar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso desejar... isso eu não posso por nas entrelinhas. e se eu por, terá que ser bem simbolicamente, bem incompreensível (assim a clareza dos poemas é comprometida, porque por mais "pós-moderno" que um texto possa ser, precisa ser minimamente compreensível aos leitores médios, ou será apenas um quadro abstrato, surrealista, inacessível, impossível...) lembra de quando as pessoas vinham se identificar com teus textos dizendo que você escreveu exatamente o que elas vivem? era porque você escrevia o humano visceralmente. assim que é a vida, humanos em redemoinhos, em conflitos, em desalinho com o outro, com o amor, com o mundo, consigo. é o homem em desejos insanos, em êxtases de prazer e de dor, em descobertas do novo, em tentações de sensualidade, em tentações de "pecados", em quedas e arrependimentos, em paraísos provisórios que acreditam eternos, em perdas e danos, em quedas livre, em subidas ao céu, em apocalipse, em arrebatamento. enfim. é o caos. somos caos. escrever humanamente é escrever sem restrições, sem medo de expor as vísceras, sem pudores. mas você "civilizou" demais a sua escrita. e assim, você cria um código de "honra" para a sua literatura, um cânon, uma limitação, um território pré-definido, uma fronteira intransponível, uma vida literária reduzida ao "politicamente correto" de sua atual vida atual. tua literatura tão livre e descomprometida antes, você agora tem tentado moldá-la aos padrões aceitáveis ou mais recomendáveis e assim, destituindo-a de tua própria essência (ícone maior de tua escrita, ela própria, em suma). sem tua essência (apaixonada, febril, inquieta, impulsiva, corajosa, um pouco inconsequente, atrevida, sensível demais, curiosa, camicase, solitária, filosófica, divergente, insurgente, resistente...) a tua escrita é apenas um compêndio estética e tecnicamente produzido e organizado por um homem que escreve muito bem e até impressiona. mas só. mas como Capote falou, com o dom, vem também o chicote. é a tua essência que dá energia, brilho e sedução à tua escrita. com a tua essência a tua literatura impressiona, apaixona, aprisiona, fascina, gruda feito gosma verde, feito lodo velho, feito barro novo, feito placenta. sua escrita está aprisionada em sua mente. ela é livre em seu coração, mas você não permite que ela chegue ao papel como foi concebida. você a "trata" em sua mente, perdendo assim a rude beleza de sua forma original. e sabe de uma coisa... conhecer você é um abismo maior do que eu. porque você me desconhece. me desconhece profundamente. não que não me adivinhe, até imaginas como sou. mas não te interessas em saber por que. e não é porque ache que não saber é poesia. porque sei como é o teu querer, o teu querer é foice, facão e salto. quando queres com paixão, arrebentas os muros, as cercas, as convenções. e me dói saber que não fazes mais isso. nem por nada. e eu quero te ver fazendo isso, não importa por qual razão. me sentiria melhor em saber que estás doentemente apaixonado por... e sendo o vulcão que sempre foi do que estando tu apenas vegetando a vida, sem paixão e sem audácia... você se domesticou. se tornou um bom homem dono de casa, dono de nome, dono de um jeito pré-definido de agir. está cortejando a massa, embora ainda não seja ela. ainda sejas um sujeito-além, uma voz em chamas e um destino a se construir. sabemos que os altos, os montes, as estradas, as praças, os monumentos, as favelas, as tribos, os vales, os horizontes, as distâncias, as delícias, o imprevisível e os dias sem agenda te esperam, você ainda não se inaugurou em muitas coisas. não pense que já. o melhor, o que ainda não, ainda está por vir. assim, sinta a palavra sem cálculo tocando na pele como um raio de sol, simples como uma gota da chuva de ontem à noite, deixa ela chegar sem pensar e passar de teus olhos para o coração e escorregar para os dedos sem passar pela cabeça. assim, beije a palavra sem nojo, sem assepsia, sem necrópsia, sem autópsia, sem anomalia. corpo natural sem prosódia, sem retórica, sem gramática. como palavra nua. assim, a palavra é a saliva doce de quando beija a vida e faz amor com a poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/But-I-Would-115270038

quinta-feira, 6 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XIV)

*

Por Germano Xavier

"há sempre um copo de mar / para um homem navegar"
(Jorge de Lima, em Invenção de Orfeu)


O fim: para quando a cólera


grão inteiro,
tudo começa no teu amor,
tudo resvala
na inconsútil imprecisão da dor
ou de certos valores que deliram.

íntegro núcleo,
generosa região de todas as obras,
parece que buscaremos a terra
nas rebeliões de nossa história.

semente prenhe,
língua germinada na voraz novela
das vistas incompletas,
sê tu o prêmio pela densa criação
inconfundível.

sê, para quando a cólera,
abandonada à produção das exuberâncias,
sucumbir numa enorme edição de nadas,
o fim | o nosso fim |
que principiará a última festa úmida das febres:

espeto, fresta, comedimento e drama
| interno labor dos corpos |
eterno


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/lost-at-sea-690770053

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVII)

*

Por Germano Xavier



Quinta-feira, 10 de Agosto de 2016

Prelúdio para Cravo


Prélude pour Clavecin

ça aurait pu être le début
vu les ressemblances et la gratitude esquissée,
vu la chimie atomique des mots,
un bel exposée sur la beauté, s’approprier l’instrument/un clavecin du baroque français/,
où un Jean-Baptiste Lully, l’âme égarée dans le temps,

ça aurait pu être le temps volé, l’absence de limites,
exister sans les prémisses d’une rencontre inattendue,
synchronisée dans un mosaïque de fragments,

Bach nous parle, nous sommes des semblables
Cancer fils de la lune par une sorcière de Bélier qui joue la guitare
des candélabres et des résonances domptent les caléidoscopes
et transposent des transes,
et parce que nous avons des faims voraces
nous semons les mêmes chaleurs…

ça aurait pu être n’importe où, les lèvres entre les corps,
rien ne servirait alors de courir, de prévoir les dommages ni de s’indigner,
avoir le courage de nier le désir insensé
et dans la fantaisie de nos vies, concéder en centuries
les bons termes du mystère, du sexe, de la volupté et de l’amour.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecin-wip-cordes-2-336030976

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 30 de Julho de 2016
Templo do Tempo

Le Temple du Temps


En pleine mer, sans ancrage
Ni voiles, nous voilà enracinés
À la dérive de la machine révélatrice les destins.

En pleine mer du Temps, ce gaucher
Qui accomplit des milliers de désastres
Nous marchons brouillés d’incertitudes
Et prenons le cap, allongés dans l’impermanence.

Cette mer dévoile ce que l’on prend, en flagrant délit
Nos faits les plus anodins, c’est la mer
Qui étale sur terre les mécanismes de l’enfer.

En pleine mer déferlent des vagues de supplice,
Dont la force isole des sueurs libidineuses
Les transformant en larmes chastes d’illusion.

La mer, ce Temple aquatique du Temps,
Ce grand noir profond, juge et masque
Ce qui plonge en lui, tout en étant libérateur.

En pleine mer mon dos chancelle,
Et à l’intérieur même des malédictions du jour,
Je m’assois sur ce que restera encore de moi. Pour la vie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Special-Vers-02-690285173

sábado, 1 de julho de 2017

A vida errante de Magerno Raviex

*

Por Germano Xavier


soube adiantar o passo:
passou para o lado oposto das ruelas
antes logo de qualquer impasse.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Evil-and-victim-689880907