terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Silêncios de ouro


Por Germano Xavier




Gianduia


Eu te prefiro.
Eu te pré-firo.
Aquele gosto gostoso é acabável, não?



Telharias



#1

de encontro ao
outro topo, topas?
vai na frente e amortece.



#2

gato pingado
não pinga nem se quer
quem pode pingar é preto bichano
que sei tem preto pra valer



#3

quem tem medo do escuro sabe
que o branco é todo paz




 Imagem: Deviantart.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um por um: ninguém



por Germano Xavier



Eu disse "um".
Ela disse "dois".
Eu quis dizer "ambos".
Ela quis dizer "um e um".
Eu falei "um de cada vez".
Ela falou por si.


* Imagem: Arquivo próprio.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O recheio dos dias


Por Germano Xavier



A revistaria


O homem entrou na revistaria suando pelos orifícios da pele. A mulher no caixa o olhou sem nenhuma palavra nas pálpebras. Ficou olhando para baixo e fingindo estar preocupada com a gaveta que não abria mais com certa facilidade de nova. Ele levantou a cabeça para as prateleiras mais altas e foi olhando coisas sobre literatura, cinema, música, sem querer notar a fileira de magazines com muitas mulheres nuas. O suficiente permaneceu para que seu suor secasse na própria roupa, como se nela o líquido pudesse coagular. Separou três revistas e um jogo de palavras cruzadas nível difícil. Colocou no balcão onde a mulher passava boa parte do dia sentada a espera dos clientes. Depois o homem foi na seção dos livros de bolso. Pegou um Camões. Olhando para o homem, a mulher notou seu suor voltando a transpor a barreira da pele. Não falou nada. Com o braço direito, o homem enfiou a mão no bolso e pagou pela compra. Já se virando, pediu um maço de cigarros: “Não, aquele da ponta... Isso. Obrigado.” Virou-se e saiu com a sacola. “Você não sabe quem sou eu, menina!”, exclamou consigo mesmo em voz muda e interna. Os olhos da mulher seguiram-no até perdê-lo de vista, quando assim se fez dobrar a esquina que dava para a rua principal. Meio boba, viu uma cliente entrar na loja, mesmo assim não deixou de se perguntar se haveria relação do suor na testa do homem com o livro que ele levou cujo título versava algo sobre luzes, pareceu.



O especialista


Um homem dono de uma marcenaria estava contratando um marceneiro para a sua marcenaria. O marceneiro estava procurando emprego pela cidade e soube da vaga para marceneiro na já citada marcenaria. O marceneiro foi ver do que se tratava. O dono da marcenaria, que também era marceneiro, foi logo abrindo uma entrevista com um “então, caba, me fale de tu”. O marceneiro que estava procurando emprego começou a falar dele mesmo, mesmo tendo pouca coisa a dizer. O dono marceneiro estava meio que aprovando o discurso. Mas aí veio a pergunta crucial, e os dois terminaram num diálogo espantoso.

- Quié que tu sabe fazê? – perguntou o dono da marcenaria.

- Eu sei fazê porta e portão – respondeu o aspirante a marceneiro, puxando um pouco da letra erre quando no dizer das palavras.

- Quê mais?

- Só isso mermo, doutor.

- Só?

- Só.

- Oxe, home, e cadeira? Sabe fazê cadeira? – relutou o dono da marcenaria, meio que abrindo os braços em desagrado ou espanto.

- Não, só faço porta e portão.

- Janela, umbral, escada, biombo, armário... nada?

- Só porta e portão, doutor.

- Moço, moço, e tu é especialista, é? – disse, meio que finalizando o papo contratual.

- Sou nada disso não, doutor. É que eu só gosto de fazer porta e portão mesmo.



O convívio


Dois homens estão sentados no restaurante e esperam pelo prato do dia. De repente entra uma mulher de saia e chapéu, aos farrapos e muito suja, segurando uma garrafinha de cachaça junto ao peito, e senta-se perto dos dois. Os homens entreolham-se por um breve momento, um olha para a tela digital do seu relógio, o outro procura as chaves do automóvel cor verde-mamona estacionado na frente do estabelecimento, mas de onde estou a cena condensa uma notória e deslumbrante humanidade. 



Imagem: Deviantart.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Polaróides pessoanas



Por Germano Xavier



Eu te amo, João Pessoa.
Tu me amas?




Ponto de Cem Réis


aqui passando,
perguntei ao senhor encostado na pilastra
quem era o sujeito com olhos de bronze sentado no banco.

o senhor olhou para dentro da lanchonete,
como a desejar um auxílio,
mas disse com uma baforada:


“é Linaldo Alves, autiusta. é Linaldo Alves, autiusta famoso!”

eu, já experto com estes idiomas maravilhosos do povo,
criei dúvida e o artista, soube depois, chamava-se Livardo Alves.

mas pouco me importava a exatidão de um nome.
passei bons minutos me aprofundando em corações de pedra,
ao lado do autiusta famoso Linaldo Alves.



De pessoas pessoanas


#1


Markoni é meu amigo mais velho daqui,
e fazia aparições na rodoviária.
O problema é que acho que ele criou asas.



#2


Cêssa foi com quem conversei primeiro
nessa segunda chegada.
Ela me disse que quem tem boca vai a Roma,
e que da Lagoa o céu é o limite.
Eu acreditei.



#3


A mulher do supermercado me achou esquisito,
usando cara de “viagem de 30 horas”.
No outro dia apareci mais dormido,
e ela fez cara de “tá morando aqui perto?”.



#4


Num restaurante no centro,
a dona me ensinou, entusiasmada, como eu fazia
para gastar R$ 5,50 até as rebarbas do prato pequeno.



#5


O homem da padaria é cismado comigo.
É que devo ter cara de cão chupando manga.
(vai saber...)



Imagem: Deviantart.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

O terceiro nome



Por Germano Xavier



João Mulato dos Amores.
Que belo nome para um homem!
Mas, para quê, se os vermes comem?
Quão pleno grau de dissabores...

João Mulato dos Amores,
triste que é, caberia mais ser
João Mulato das Dores.


* Imagem: Arquivo próprio

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O barco


por Germano Xavier




O meu vislumbrar...
e o mar,
tão mesclado
e tão parnasiano;
é feito o Amor,
gesto mais que profano:
insano?

És o Amor que vejo,
mas... e o mar?
O vate cabeludo diria:
"O mar é meu canto,
lugarejo de encanto.
O sonho teu manto...
O mar é meu canto".

Estupefato fico
ao senti-lo,
ao ouvi-lo.
E corre denso
espanto
no ver bisonho
deste corpo vil.

Pois devo admitir
que sou fraco
por natureza,
que sou um dilema;
apenas um poema
que sou perante o mar.

Ser débil,
delgado,
ditado,
dopado,
destroço,
detento
deserto:
poético mar
que me faz parar
no tempo,
e quão bom é tê-lo
em minha vista,
que há vidas anda
embaçada
pelo acinzentar das horas,
dos momentos e lugares,
do quotidiano atávico.
Brilho falso
de melancolias percebidas.

Ah, ...
o
mar
nas ondas...
Caminho.
Fustigo
o
sonho
posto
no
barco
de
quando
jovem
e
Poeta.

Ah, ...
o
mar
que
é
o
meu
mar,
onde
cabe
o
içar
das
velas
belas,
singelas
telas
a
passar
por mim.

Na tortuosidade
de tuas pernas:
estreitos políticos
e mercantis.

Ah, ...
o
mar
das
marés
úmidas,
dos ombros suados
e
nus,
dos
sóis
vermelhos
e
da
escuridão
brilhante.

Ah, ...
o
mar!

O
mar
das
pessoas
e
também
dos
poetas
que,
como
eu,
fogem
com
certa
rotina
para
perto
de
tuas
pernas,
de
tuas
coxas
e
de
teus
seios.


* Imagem: Arquivo próprio