terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Silêncios de ouro

*
Por Germano Xavier


O sangue


Suturar pétalas rasgadas
com cuidado,
mãos limpas, águas de cheiro,
dar um golpe único sem esquivo
no coração afetado

quando toda cor estiver afogada
em socorros. Se a água descer
rosa,
e se não estancar sem pressa,
rogue perdão,
que todo sangue é divino.



Gianduia


Eu te prefiro.
Eu te pré-firo.
Aquele gosto gostoso é acabável, não?



Telharias



#1

de encontro ao
outro topo, topas?
vai na frente e amortece.



#2

gato pingado
não pinga nem se quer
quem pode pingar é preto bichano
que sei tem preto pra valer



#3

quem tem medo do escuro sabe
que o branco é todo paz



#4


A Jimi Hendrix


no dia em que comemos churros juntos
ou no dia da abobrinha requentada
ou na hora do adeus do tio chato
ou no riso sobre a voz do cantor brega
ou na fatia do bolo xadrez com cascas emboloradas
ou no alfarrábio raro do teu pai repleto de quetichupe
ou no viaduto sobre uma flor nauseada
que dia beijamos o céu? 



* Imagem: Deviantart.

domingo, 4 de novembro de 2007

Um ilha comprido

*
Por Germano Xavier


ao sr. poeta Roberto Piva,
que saiu ontem e não voltará mais para casa



tua morte é um cu
rio só
(artefato) e me dou gargalhadas
porque chorar vai atacar a Igreja das vanguardas.
o gavião da Paulicéia sumiu na noite,
as ruas e praças estão mais pálidas de sentido contrário.
sem graça, a avenida dá somente para onde se destina
e por que não fazer um apocalipse nesta brasa ainda acesa?

toda carne pode estar presa em nossas presas
e a natureza é um pé de querer.
onde te encontro, poeta, onde?

diz direto ao ponto, pois
que tenho uma vertigem nova em folha a lhe oferecer nesta manhã sem verbo.



P.S. Pode parecer, mas esta homenagem não é gratuita. Li Roberto Piva quando ainda morava em Irecê, estudante de 2º Grau no Colégio Cláudio Abílio Aragão. Este senhor que acaba de se despedir deste mundo talvez tenha me ensinado um pouco sobre toda esta paranoia que é a vida.


* Imagem: Deviantart. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O recheio dos dias

*
Por Germano Xavier


A revistaria


O homem entrou na revistaria suando pelos orifícios da pele. A mulher no caixa o olhou sem nenhuma palavra nas pálpebras. Ficou olhando para baixo e fingindo estar preocupada com a gaveta que não abria mais com certa facilidade de nova. Ele levantou a cabeça para as prateleiras mais altas e foi olhando coisas sobre literatura, cinema, música, sem querer notar a fileira de magazines com muitas mulheres nuas. O suficiente permaneceu para que seu suor secasse na própria roupa, como se nela o líquido pudesse coagular. Separou três revistas e um jogo de palavras cruzadas nível difícil. Colocou no balcão onde a mulher passava boa parte do dia sentada a espera dos clientes. Depois o homem foi na seção dos livros de bolso. Pegou um Camões. Olhando para o homem, a mulher notou seu suor voltando a transpor a barreira da pele. Não falou nada. Com o braço direito, o homem enfiou a mão no bolso e pagou pela compra. Já se virando, pediu um maço de cigarros: “Não, aquele da ponta... Isso. Obrigado.” Virou-se e saiu com a sacola. “Você não sabe quem sou eu, menina!”, exclamou consigo mesmo em voz muda e interna. Os olhos da mulher seguiram-no até perdê-lo de vista, quando assim se fez dobrar a esquina que dava para a rua principal. Meio boba, viu uma cliente entrar na loja, mesmo assim não deixou de se perguntar se haveria relação do suor na testa do homem com o livro que ele levou cujo título versava algo sobre luzes, pareceu.



O especialista


Um homem dono de uma marcenaria estava contratando um marceneiro para a sua marcenaria. O marceneiro estava procurando emprego pela cidade e soube da vaga para marceneiro na já citada marcenaria. O marceneiro foi ver do que se tratava. O dono da marcenaria, que também era marceneiro, foi logo abrindo uma entrevista com um “então, caba, me fale de tu”. O marceneiro que estava procurando emprego começou a falar dele mesmo, mesmo tendo pouca coisa a dizer. O dono marceneiro estava meio que aprovando o discurso. Mas aí veio a pergunta crucial, e os dois terminaram num diálogo espantoso.

- Quié que tu sabe fazê? – perguntou o dono da marcenaria.

- Eu sei fazê porta e portão – respondeu o aspirante a marceneiro, puxando um pouco da letra erre quando no dizer das palavras.

- Quê mais?

- Só isso mermo, doutor.

- Só?

- Só.

- Oxe, home, e cadeira? Sabe fazê cadeira? – relutou o dono da marcenaria, meio que abrindo os braços em desagrado ou espanto.

- Não, só faço porta e portão.

- Janela, umbral, escada, biombo, armário... nada?

- Só porta e portão, doutor.

- Moço, moço, e tu é especialista, é? – disse, meio que finalizando o papo contratual.

- Sou nada disso não, doutor. É que eu só gosto de fazer porta e portão mesmo.



O convívio


Dois homens estão sentados no restaurante e esperam pelo prato do dia. De repente entra uma mulher de saia e chapéu, aos farrapos e muito suja, segurando uma garrafinha de cachaça junto ao peito, e senta-se perto dos dois. Os homens entreolham-se por um breve momento, um olha para a tela digital do seu relógio, o outro procura as chaves do automóvel cor verde-mamona estacionado na frente do estabelecimento, mas de onde estou a cena condensa uma notória e deslumbrante humanidade. 



* Imagem: Deviantart.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Polaróides pessoanas

*

Por Germano Xavier


Eu te amo, João Pessoa.
Tu me amas?



Lagoa


não sei que maior mar é
se o mar das gentes de sorrisos sofridos
descendo e subindo pelo Ponto de Cem Réis
ou se o pequeno mar da Lagoa
tomado de conta pelas garças em graça
protetoras das palmeiras imperiais

não sei que maior mar é
mas sei que pelas tardes solares
de dentro do mar da Lagoa
um mistério de almas borbulha profundamente



Ponto de Cem Réis


aqui passando
perguntei ao senhor encostado na pilastra
quem era o sujeito com olhos de bronze sentado no banco

o senhor olhou para dentro da lanchonete
como a desejar um auxílio,
mas disse com uma baforada:
“É Linaldo Alves, autiusta. É Linaldo Alves, autiusta famoso!”

eu, já experto com estes idiomas maravilhosos do povo,
criei dúvida e o artista, soube depois, chamava-se Livardo Alves.

mas pouco importava a exatidão de um nome.
passei bons minutos me aprofundando em corações de pedra
ao lado do autiusta famoso Linaldo Alves.



De pessoas pessoanas


#1

Markoni é meu amigo mais velho daqui
e fazia aparições na rodoviária.
O problema é que acho que ele criou asas.

#2

Cêssa foi com quem conversei primeiro
nessa segunda chegada.
Ela me disse que quem tem boca vai a Roma,
e que da Lagoa o céu é o limite.
Eu acreditei.

#3

A mulher do supermercado me achou esquisito
usando cara de “viagem de 30 horas”.
No outro dia apareci mais dormido
e ela fez cara de “tá morando aqui perto?”.

#4

Num restaurante no centro
a dona me ensinou entusiasmada como eu fazia
para gastar R$ 5,50 até as rebarbas do prato pequeno.

#5

O homem da padaria é cismado comigo.
É que devo ter cara de cão chupando manga.
(Vai saber...)



* Imagem: Deviantart.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Luzes para despachos

*
Por Germano Xavier

Para Letícia Branca Palmeira, em seu dia de 35.
Em memória de José Saramago e Ascendino Leite.

Estava sentada. A maneira como estava sentada imprimia a ela uma concepção de empenho e resultava numa possível experiência paciente. As pernas imóveis como que calçavam o restante do corpo, tal qual uma raiz implica segurança ao tronco de uma grande e velha árvore instalada num parque qualquer. Os pés tocavam o chão recoberto de um porcelanato na cor bege com frisos diagonais mais amarronzados fazendo o detalhe, o que lhe causava uma sensação primária de prazer muito gostosa de sentir. A descarga no sanitário fazia um chiado ininterrupto de quando a água desce pelos canículos desenfreadamente e de quando a bóia de contenção pára de executar sua tarefa. Havia mais de um ano que estava morando ali e não tinha se preocupado em mandar alguém ou ela mesma arrumar o desajuste. Não que imperasse nela uma transbordante preguiça, mas sua motivação para tais atividades não era do tipo que poderia ser chamada de exemplar. A cadeira de tão velha dançava em suas dobras por onde os pregos frouxos adentravam em perfurações já sem nenhum préstimo. Mais parecia uma cadeira de balanço a cadeira que não era de balanço e que estava apenas frouxa em suas pregações. Uma cadeira desapertada, dotada ainda de uma aparente rigidez advinda de sua coloração escura que fazia com que qualquer indivíduo que precisasse dela para o descanso do organismo se dispusesse a nela sentar sem nenhum receio ou medo, o que, sem sombra de dúvida, poderia ser muito perigoso.

Estava sentada e erguera a parte do seu corpo que engloba tanto o pescoço quanto a cabeça. Tinha um pescoço levemente esguio, contrastando com a face diminuta. Uma tatuagem com os dizeres “ab initio erga omnes” em latim indicava o começo de sua cervical. Ela era magra no que tocava ao restante de sua forma física. Magra a ponto de suas blusas ficarem marcadas pelas junções ósseas na altura dos ombros. Erguera a cabeça de formato ovalado coberta por uma densa camada de cabelos acastanhados com duas mechas vermelhas nas laterais da testa, uma adjacente a outra, e cujo cenho lhe demarcavam traços finos e delicados, e ela, destarte, apoiada sobre o pescoço também de porte sensível, viu na abertura esquerda da janela do seu quarto a reluzente fileira de postes angulados equipados com lâmpadas amarelas formando uma enorme carreira na avenida ao longe. Um córrego de luminárias que vertiginosamente despencam para o sumiço inesperado quando olhado na devida sequência de sua linha, qual como acontece com uma embarcação que olhada atracada no porto parece mais um colosso inquebrantável, mas que se desmancha no horizonte do oceano ao passo que se distancia do cais ao resfolegar das caldeiras baforantes.

Vira que o céu era um bloco único e negro, manso em seus mistérios de noite, porém arisco e insuspeitável, sem pontilhões brilhantes a que denominamos estrelas. Permanecera na respectiva posição, aperfeiçoando a elegância de seus ombros eretos, admitindo resolutamente o tronco esticado ao máximo no quesito flexibilidade, tendo os braços apoiados na quina da mesa e o rosto levemente curvado para cima, como a fazer uma parábola com o olhar e para, assim, almejar ultrapassar a barreira do umbral e deste modo poder conseguir enxergar o que havia lá fora. A maior parte do tempo de sua vida, i.e., do tempo de sua vida contado a partir do momento em que alugara aquele apartamento, que ficava numa rua matriz de um bairro bastante conceituado pelos moradores da cidade, era gasto com ela nesta posição, sentada e levemente curvada sobre algum material de estudo. Não gostava de álgebra, apesar de admirar quem a dominasse. Amava filosofia, geografia, história, astrologia e literatura. Seu escritor predileto era um português nascido no século passado que, segundo ela, refletia em suas obras muito do que pensava da vida, sobre a vida e as relações humanas. Amava-o tanto que o considerava seu filósofo de maior referência, fato que implicava diretamente na tomada de suas atitudes e vivências.

Estava sentada e com esforço se mantinha a ver as luzes brancas dos carros que vinham e as lanternas vermelhas duplicadas dos carros que iam à direção oposta. Permanecera por quase um minuto e quatorze segundos nesta postura e num só golpe, rápido, porém dado com sutileza, cerrara a portinhola de madeira que lhe abria o mundo exterior. Dentro uma penumbra de nascente desconhecida impressionava o rosto dos objetos na estante e cortava toda a extensão da sala indo até se chocar inoportunamente com uma réplica presa à parede central do quadro de Magritte intitulado “The son of man”, de 1926. Talvez quisesse saber o que se passava dentro da cabine do último automóvel que vencera as distâncias da longínqua avenida enquanto ela o fitava já quase fora do seu cubículo de aluguel. Uma mãe poderia estar com a bolsa aberta, sangrando mililitros de sangue no banco traseiro do coche, suplicando pressa e pedindo clemência ao deus de todos os provimentos ao passo que seu marido, noivo, namorado ou quem sabe um literal estranho que porventura a apanhara nesta situação desesperadora na última esquina da rua mais larga e movimentada do centro da cidade enxergava agora pelo espelho retrovisor central os lábios da mulher com a bolsa aberta e que sangrava mililitros de sangue manchando eternamente o estofado do banco traseiro do veículo importado da França se descorarem devido ao desperdício do líquido plasmático e também de outros líquidos gosmentos cujos nomes não se dá para reconhecer numa hora confusa como esta que desce do ventre da fêmea pelo meio do banco tocando até o console central do painel do carango.

Tinha mania de pensar em coisas. Tinha mania de pensar coisas disparatadas. Calçou sua opanka preta com detalhes em rosa levemente mais desgastada no lado de dentro dos pés, rapidamente retocou sua sobrancelha com um lápis cosmético apropriado para quem não tem mais tanta sobrancelha assim, agregou aos braços curtos um punhado de pulseiras de plástico em cores variadas e até chocantes, tirou das orelhas apetrechos brilhantes que funcionam como ornamentos pendurados nos lóbulos de cartilagem que, por sua vez, serviam para proteger os orifícios auriculares de quaisquer desordens manipulativas ou bruscos movimentos ou outras fatalidades de semelhantes configurações, não colocou uma calcinha sob a saia ponderada e razoavelmente comportada na condição de jeans e, já do lado de fora do seu aposento, a fitar imótua por mais uma vez a grande fileira de postes que fazem uma imensa carreira no centro da avenida ao longe, apagou todas as luzes do lugar com a ação cuidadosa de apertar com o dedo indicador da mão direita as plaquinhas de algum material derivado de poliestireno e trancou a porta com dois giros bastante demorosos ainda sob o efeito de sua visão contemplativa da paisagem.

Outra vez caiu em pensamento. Era uma espécie de pensamento-relâmpago, flutuante em seu interior e que poderia lhe surgir no menos que se esperava. Agora um homem que contava seus trinta e seis anos de idade mais alguns oito meses e uma mulher no auge de seus vinte e dois, apesar de algumas varizes espocando na pele por detrás de seus joelhos brancos, esboçam uma disparada no meio do corredor de luzes porque provavelmente acabaram de atropelar um jovem em sua bicicleta que na verdade não era sua, mas que era emprestada e que vinha lhe servindo para apressar o tempo que o mesmo haveria de gastar no gesto de comprar pão na panificadora Grãos & Massas Ltda., estabelecimento de confiança de sua família por mais de duas décadas e meia. Os dois deveriam estar em começo de fuga porque de onde estava ouvira os pneumáticos do carro estrepitarem um som característico de quando se acelera aligeiradamente um possante de quatro rodas e que só pôde chegar ao seu conhecimento após uns oito segundos considerando a velocidade do som e a lonjura que a separava do local mesmo. Mas ela fechou os olhos, mesmo assim sem deixar de enxergar em nenhum instante a grande rua na altura ou no plano do horizonte, e pensou poderia ser também a pressa do amor, pois que ambos deveriam estar sedentos e com fome de seus corpos, ou melhor, com fome de seus corpos unidos, depois de muitos anos vivendo em países diferentes e poderiam muito bem estar indo de maneira rápida, todavia por demais compreensível, para um motel à beira da estrada que daria para a saída da cidade e por lá passar a noite juntos e colados e ligados e grudados e presos e algemados um no outro como se fosse o último dia de vida dos dois.

Pensara assim quando terminou de aplicar o segundo giro na fechadura e abusou da sorte descendo a escada suspensa no corrimão deslizando suas nádegas pelo madeirame liso, envernizado e polido. Tinha já demasiada prática nisto. Dera de cara com várias pequenas luzes embutidas no teto do saguão que comportava também a recepção onde um homem vestido em terno fazia a função de porteiro. Quatro ou cinco passos à frente e pensara no homem que respondia pelas coisas triviais do prédio. Certo dia, lembrara, ele havia aparecido na porta de seu apartamento com um dos olhos beirando tons arroxeados e leves secreções sanguíneas e outras purulentas sendo ejaculadas do canto dos olhos. Fora lhe entregar as correspondências da semana e ela havia prestado atenção no provável machucado indesejado que o homem carregava consigo. Na hora em que o porteiro lhe endereçou palavras de quem quer se despedir formalmente ela desviou o olhar para as mãos recheadas de papéis e assentiu a destreza de seu trabalho agradecendo-o com um ríspido obrigado. No jardim do edifício elevara seu olhar para cima outra vez, como fizera quando sentada próxima a janela no seu quarto. E de novo observara que o firmamento era um bloco único e negro, dotado de ainda mais escuridão, sem quaisquer indícios de pontilhões brilhantes a que denominamos estrelas. Permanecera na determinada posição, ombros mais que eretos, tronco esticado ao máximo no quesito flexibilidade, braços juntos às ancas como a formar sentido num pelotão de recrutamento e o rosto totalmente curvado para cima. Estava em pé e com esforço se mantinha a ver as luzes que não existiam no céu, mas que o clareavam um pouco porque ela estava agora à margem de uma rua aonde carros vinham e iam com suas lanternas brancas e vermelhas duplicadas a aparecer rapidamente para um sumiço de igual velocidade.

Ela entrou com vontade pelo meio da rua sem ao menos apostar na educação dos motoristas quando se resolve atravessar uma rua utilizando para isto a faixa preferencial para transeuntes. Fora firme, decidida a chegar à outra margem. Quis apertar os passos, mas um daqueles chumaços do esquecimento lhe atingira a alma da mente. Chofre, apertara os bolsos da saia com a palma das mãos, depois com a ponta dos dedos cujas unhas estavam pintadas em modelo francesinha. Nada do objeto de que dera falta. Olhara para o fim da rua, na direção para onde deveria ir, viu que tudo uma hora ou outra desaparecia no nada. Meia volta, voltara à posição de antes. Olhara para o centro da rua. Carros velozes impediam-na de cruzar o asfalto. Andara mais um pouco para trás até a faixa de pedestres. Içara a cabeça.

Verde. Carros e mais. Um carro passa muito veloz fazendo vento em sua blusa. Percebera uma mulher ao lado no banco do carona. Mas muito veloz mesmo. Cabeça esterçada em sua direção. O homem que dirigia o automóvel parecia não ter mais que quarenta anos de idade. As luzes vermelhas das lanternas traseiras do coche se duplicando na distância efêmera. Quadruplicando. Ilusão de ótica, talvez. Amarelo. Sinal de alerta. Eles irão parar, pensara. O mundo uma hora pára, concluíra. Preparara-se. Faria uma pequena corrida até o seu apartamento. Suaria um pouco, eliminaria algumas toxinas de seu corpo. Talvez tudo tivesse o seu lado bom. Nada poderia ser tão mal assim. Finalizara o pensamento quando o sinal vermelho se fez vivo no alto do semáforo. Um carro na cor preta freara realmente muito próximo ao seu corpo e lhe fizera um buzinaço típico proveniente das gentes estressadas por inúmeros motivos e que aí resolvem descontar na barbárie do trânsito caótico das grandes cidades. Ela não entendera a falta de consideração do motorista e talvez até a sua má educação. Para ela, estava no direito de utilizar a faixa. Tivera esperado todas as colorações até o vermelho ser o sinal da vez e, portanto, haveria de passar por ali antes que o motorista resolvesse investir o pé no acelerador da máquina.

No meio da via, olhara para trás. Vira um homem em tons de amarelo e uma mulher mal acondicionada no fundo do veículo com expressões de sofreguidão na face. Fizera cara de paisagem e retomara sua rota. Correu com algum desespero. Na frente do portão do prédio, tocara o interfone. Uma voz alquebrada atendera perguntando um quem é e ela não soube o que responder de pronto haja vista a profundidade filosófica da pergunta feita pelo homem que portava sempre o mesmo terno todo santo dia e que exercia a função de porteiro embaixo do lugar onde morava e que certo dia aparecera na porta do apartamento 102 com a cara deformada. O trinco se abrira logo depois. Olhou rapidamente para o firmamento e para as luzes embutidas no teto do saguão. Achara a subida mais pesarosa. Pensara na gravidade. O corrimão ao contrário virava uma corda contra soçobrares. Perto. Ela estava perto e, como pensara antes, um tanto que transpirante. Não havia mais semáforos nem faixas preferenciais. No capacho, um envelope com os dizeres “Farmácias Pronto-Med. Serviço 24 horas gratuito. Obrigado pela preferência”. Comprimidos e xarope para dores avulsas e febres castiguentas. Girara apressadamente as duas voltas do ferrolho da fechadura. Por quinze segundos o leite que deixara a ferver no fogão não entrara em ebulição, o que certamente elaboraria no ambiente que aparentava asseio uma espécie de catástrofe branca. De súbito, pensara na mulher deitada desengonçadamente no banco traseiro do carro preto e, talvez uns quinze segundos depois, no carro veloz com a mulher cuja idade não passava de vinte e dois anos, apesar das já aparentes e feias pequenas veias roxas espocadas por detrás de seus joelhos brancos. Sentara um pouco para respirar de modo mais calmo. Olhara em volta da sala, levantando em seguida. Quando terminou de cerrar novamente a porta, outra vez do lado de fora, um sorriso ingênuo acometera-lhe a face. Afinal de contas, pensou, tudo fora uma vitória.


* Imagem: Google.