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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Infarto




Por Germano Xavier


(baseado em fatos surreais)




Enterrei meu pai hoje.

Difícil. Di-fí-cil.

Não estava preparada. A pior dor do mundo. Nem sei descrever.

Peguei o primeiro voo. Ele sempre me esperava no aeroporto. Acenava de longe quando me via. Dessa vez foi diferente. Meu irmão estava no lugar dele. Desolados, abraçamo-nos. Chorei.

A cidade estava diferente. Não, a bem dizer não era a cidade, mas alguma coisa estava fora do lugar.

A casa estava cheia. Muitas pessoas... De várias cidades, o bairro inteiro foi... Ele era muito querido por aqui... Minha mãe, meu Deus!, minha mãe não tinha mais lágrimas. Difícil demais tudo aquilo. O caixão no centro da sala. Pessoas conhecidas e pessoas desconhecidas. Uma confusão dentro de mim.
 
Queria dar uma mesa de sinuca para ele. Pesquisei para o próximo Dia dos Pais. Sei que iria adorar. Cheguei até a escolher o modelo, tecido verde no campo, um de ficha com tacos de madeira nobre. Pena que não foi antes.

Da família, era ele quem mais se parecia comigo. Tínhamos as mesmas ideias. Sobre Deus, sobre igreja, sobre liberdade. “Viva e deixe viver”, ele dizia. Impulsivo e teimoso. Era um homem bom. Fiz de tudo para poupá-lo de meu sofrimento. Fiz de tudo. Mas tudo nem sempre significa o necessário.

Na sexta-feira de manhã ele saiu para buscar um amigo no hospital, no centro. Deve ter passado mal enquanto dirigia. Quando o amigo chegou, ele já estava morto dentro do carro. Foi o que disseram. Fulminante. Ele era assim. Nunca dizia Não. Ajudava todos os vizinhos. O vizinho estava tratando um câncer. Ele era o primeiro a ajudar.

A casa ainda está cheia... Eu não quis olhar no caixão... Não vi o rosto dele... Preferi guardar a memória dele vivo... Eu estou. Estou viva. A pior sensação do mundo é enterrar a vida...

Todos estamos abalados. Isso vai mudar a vida de todos nós. Não sei como será ainda. Estou atordoada.

Comprei a passagem de volta.

Mas como vou voltar?

Obrigada.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

São centauros meus cavalos (Parte I)



Por Germano Xavier



Gritei, com a voz fincada para dentro, em direção ao nada. O percurso palmilhado, aberto em fendas, a estrada, a solidão. Os dias passados para o homem. As noites passadas para mim. Esvaíram-se todos e tudo, absolutamente. Nenhuma contensão perante o tempo. Tudo sublimando, sumindo, indo. Quase tudo disse adeus, acontecendo, sendo. Todo o solo se diluiu em desassossegos. Um rumor de fantasia, talvez. E este homem sou eu, apenas humano, e como é impróprio esparramar-me no terreno do tempo e começar pelos detalhes mais escabrosos da memória! Na verdade, o dia é uma lástima neste aurorar de ano. A noite, idem. Toda noite é todo dia. Eu começo nesta exata hora e não sei o que isso representa em diferenças nem em semelhanças. Somente um bando de estorninhos acuados e velozes e em fuga, caçados, aparenta-se localizável através das janelas que são os olhos do homem, do homem que sou. Os pássaros me camuflam e o resto é angústia, calamidade para dentro e para fora - para fora e para dentro de mim. Sofro feito um animal caído - desinteligente? -, declarado morto por ter meramente levantado os dedos em riste e cerrado os punhos e querido se ser em completudes, em totalidades, ainda que tomado pela inicial vontade dos caminhos. Suspeitava que fosse um homem como qualquer outro homem do mundo, mas eu não aceitava fácil. Minha condição exigia uma determinada carga de negação. Causo contado sem nenhuma exclusividade, pouco inverossímil, pouco o bastante para ser somente real. Basicamente a tímida e nefanda história de uma paciente por demais corruptível: a história da soberania do ser. Um errante, perdido em si mesmo, marcado por suspeitas e conjurações que, por vezes, nem chegaram a existir. Aquele grito ouvido naquela noite de Natal soaria mais reacionário caso não tivesse sido eu mesmo o seu produtor, se não tivesse sido eu o próprio atormentado, se não fosse eu o meu particular abisso. Eu que nunca soube quem realmente fui diante do passado, se cresci, se amei alguém, se já odiei, se tive inimigos, se conquistei posses, se serei ou se sou. Toda a negatividade das ações, gestos de um mármore gélido, inacabado, de cor furtiva, companheiro de uma densa vida de aprovações e provações que eu mesmo não sei quando começou. Tudo estava dentro daquele barulho. E quando se está diante de uma estrada que você jamais ousou percorrer, o delírio tende a ser o único combustível, refleti, tentando suavizar-me momentaneamente, esperando que a reflexão e o silêncio viessem a disfarçar a real potência daquela hora. Foi pensando assim que, naquela noite de dezembro, aquele homem, aquele homem que sou eu, conheceu a conta dos fracos.


* Imagem: Amor de centauros (1635), de Rubens (Exposto na Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa/Portugal)

São centauros meus cavalos (Parte II)



Por Germano Xavier



Havia quatro tonalidades de azul no céu da cidade, mas eram azulidões frágeis propensas à volatilidade das ordens do mundo. Certamente se esgotariam e deixariam de ser azuis no absoluto negrume da noite. Talvez tudo entrasse em ruínas numa determinada fase do dia. Nada de tão especial se não fosse, aquele, o céu da cidade de um homem possuidor de uma vida. Cidades foram feitas para matar os homens, pensei, com uma branca impressão de que algum escritor teria imortalizado a frase que eu tinha acabado de construir. Talvez um poeta, daqueles tristes, malditos... hei de me lembrar um dia. Na verdade, aquela cidade não era a minha de origem. Por dentro, sabia que nenhum homem pode possuir a sua cidade. Cidades são como mães, que nos parem e que são desgraçadamente abandonadas pelos filhos, muitas vezes antes de se tornarem adultos. Afonso sentiu que estava em falta. É quase um costume saber-se rendido a todas estas manhãs e tardes ordinárias, a todas estas ocasiões especulativas, a todos estes comentários cegos. Decerto, ele estava em falta. Sim, em espera eterna, mutilado, de músculos quase flácidos, rosto ardido numa palidez indecisa, caído numa cama gritantemente nojenta de um pernoite barato ali no centro, virando sofregamente as páginas de um livro do Puig. Depois de alguns cochilos, signo das horas escuras, resolvi fazer um último ajuste no despertador. De chofre, a figura de Helia sobrevoou meus pensamentos. Dera-me o aparelhinho barulhento no mesmo dia em que falei a ela sobre a minha decisão, neste comenos já totalmente concretizada. Ele iria partir, mais cedo ou mais tarde, mas ele iria partir. A imagem daquela mulher ainda era muito viva em sua memória, mesmo depois de tantos meses separados. Talvez abraçasse os dias com a ternura do seu colo ou tivesse o busto da Nefertite ou fosse ela a entidade própria. Um abuso de efeitos femininos, com raízes de mulher que cortavam os solos mais impenetráveis. Helia gerava vãos enormes que lhe serviam de abrigo aos seus mais escuros vazios. Tinha ela lhe cortado com a faca que havia naqueles seus olhos, tinha ela ferido o homem com as armas do desconhecido que carregamos dentro de nossas carnes. Ele a habitava, peremptoriamente, dia ante dia, resoluto, em permanente frenesi e enlevo. Aqueles lábios rubros e candentes, como tremelicariam diante do susto noticioso! Não importa o que você esteja fazendo ou para onde você esteja indo, eu quero a sua felicidade, eu quero o seu bem! Você é um desgraçado, você me desgraçou, mas eu me preocupo com a sua vida! Saiba que sentirei a sua falta, como jamais me acontecera. Um pássaro, agora, sem asas, um pássaro de longos cabelos maviosos, de uma mistura de cores fortes, balouçantes, um pássaro de mãos melindrosas, extremamente macias, finas e de uma alvura definida, um pássaro de sonhos esgotados? Seria essa a Helia de agora?, já interrompida pela possibilidade de perder-me de vista?, pensou Afonso, num ataque cambaleante que misturava ódio e resignação. Ah, eu não seria tão fundamental assim, sussurrei. Eu não seria tão fundamental assim!, repetiu o homem, exclamando em bons decibéis para o lusco-fusco que dominava aquele aposento sinistro. O despertador marcava uma hora da madrugada e tudo era apenas lembrança, um passado que ele já queria esquecer.


* Imagem: https://www.deviantart.com/ar-ka/art/In-between-lines-143132646

São centauros meus cavalos (Parte III)



Por Germano Xavier



Helia quis falar de amor quando, do quintal da casa, atirou em minha direção o que sobrou de uma velha antena parabólica. Já estava melhor, agora desbravando o local onde eu estava. Falar de amor, para ela, era falar de tudo o tanto e mais, feição das horas. O que acabava tinha de ser amor, mas poderia ser chamado de avental, ou de cabide. Talvez o nome de um país. Inglaterra, quiçá! Helia era amante, e falava sempre no total das vestes do sentimento. A parabólica não passava de um mito. A captação dos sinais era feita por um receptor interno potentíssimo. As mensagens tanto chegavam como se despediam. A calha era sempre nova. Helia quis falar de amor até na vez em que fez dos longos canudinhos de alumínio da antena parabólica a letal arma contra a estupidez. Ela seria assim, brinquedo de se quebrar. A maquininha da boneca de plástico, o motorzinho de dentro a pulsar o sangue que havia. O coração de Helia batia no giro da pá do cata-vento. Batia girando, girava de teteia. Era sempre uma carinha de alegre o semblante daquela mulher. Ela amava, assim, como o vento ama a caminhada longa e sem barreiras. Amava sem pressa, sem cor o amor de Helia, sem cera, sincera. Amar era a palavra de Helia. Amar era o verbo de Helia. Amar fazia de Helia a mulher mais bela, porque era ela o amor. O amor era Helia, era sua palavra e o seu verbo, seu verbo materializado, vivo no papel, esperando longe a ânsia de ser. Foi Helia quem descobriu que para amar basta dobrar o fio da tomada e amarrar com o aramezinho o saco de pão, que o amor é volátil como o álcool que ela trouxe do supermercado para ajudar na feitura das unhas, que para amar é preciso desligar a televisão e deixar a caixinha de fósforo do lado esquerdo do fogão, para acender na véspera do vendaval. Helia amava abrindo potes e lavando os pratos, em exercício de cozinha. O tempero do amor era o caldo do feijão verde, com cebolas tostadas, alho e um pouco de sal. O amor corado, borbulhando a incerteza das horas e o próprio estado de efemeridade que é amar... Helia pegava as facas e ia cortando as carnes, esquartejando-as. O osso ficava para os cachorros que porventura... Todo o resto não combina com o amor. Amar é cortar, lâmina afiada de aparar fagulhas. Depois, Helia era máquina de moer, pois amar é moer, é pisar na carne, amassá-la, apertá-la, comê-la. Porque Helia era mulher de pular do telhado, sem medo de cair de rosto no chão e sangrar o sangue das enfermarias... Era uma boa desgraça ela, se assim eu pudesse afirmar. Suas asas, podadas, e o seu resto?, que fosse angústia aquele findar de vivências, mesmo assim, aturdido o relacionar-se, ele alquebrado, fragmentado, em pedaços, em miúdos. Mesmo assim. Estas coisas, estes fantasmas! Era o fim. Helia não era nada daquilo. Não há o que fazer, Helia. Ele rememorava. A casa no centro, o ar abafado do quarto, a lembrança ainda viva de que era ali, naquele cômodo, janela cerrada numa eternidade de medos, o local de nidificar, em excessos, demasiados amores. A casa com dois quartos, parte da parede em verde fraco, a janela para a noite escancarada quase sempre, aquela imensidão de sentimentos, de angústias e de dores. A lembrança dirigida à casa que havia sido o galpão de toda aquela fervura de corpos, o estábulo para tantos óleos humanos brotados da pele como uma erva que nasce, desenfreada, e interfere nas sequências horárias de um tempo muito maior. A lembrança de pé, saltitando sobre a testa. A memória de Helia, Mnemosyne, como diriam os gregos, mãe das musas. Fora ela, Helia, o despertar para algo que lhe traria dor, sinônimo para um caos fabricado, o passado penetrante a ferir esperanças. Não há o que fazer!, exclamei em urros. A coitada, olhando-se no espelho ínfimo do porta-batom de branco couro sintético, pensava sozinha. Primeiro que eu não existo com você. Existir sempre me foi um troço difícil. Não quero me complicar. Ainda mais nestes tempos tão civilizatórios, civilizantes. Dividem tudo, julgam tudo, mataram Deus, nem podemos mais transcender, nós não somos nada. O dia hoje está tão bonito, sei lá, deixa. Acordei cedo e me deu uma vontade de andar por um bosque que nem sei. Pus um livro na mochila. Vou ler quando chegar em algum lugar mais calmo. Minha tristeza viajou para longe. Foi tratar de negócios importantes, talvez. Morar longe dos centros de nós mesmos, talvez aí esteja o segredo para fugir do sofrimento. Dizem que é lá no bosque bonito que também fica o inferno. O inferno nos olha todo o dia, fica na espreita. Ele é terno - e tisne não? – e nos acompanha. Hoje eu optei por conhecer o inferno, não outra coisa. Quero-o porque ele me quer. Venha de onde vier, com a máscara que preferir, mas tem de ser ele. Quero ser derrubado. É a minha doença e talvez o meu último dia aqui neste lugar. O mundo é o meu lugar. Ou não é. Sou um terminal. Tenho a doença do meu pai e a doença do meu irmão e a doença do meu tio e a doença do chofer e a doença da ama e a da prisioneira e a doença da minha mãe... Eu tenciono algo e me acho responsável. Segura esta qualquer arma com o punho forte de você fêmea e me atire uma morte rápida se preferir. Que me paralise e me invalide, que me perturbe as vistas, ou que me torne nervoso e histérico, depressivo e suicida. Meu caso está registrado no amanhã e no hoje que é o agora. Vou me submeter ao tratamento dos desregrados. Por vida, sempre sofri e não estou aguentando mais. Você, que pode até sorrir um dia, irá relatar meus traumas e vai ver como sua infância foi tão nobre e silenciosa. A cura está no bosque e o bosque é sombrio. Lá, coisas desaparecem, homens se perdem, gritos são ouvidos, lamentos e lamúrias se expandem pelo ar. E quando eu cair por terra quem vai me amparar? Sou romântico e vou morrer. Sinto que posso levar algo, penso. Poderei levar a verdade? O que realmente importa daqui? Há alguma coisa que realmente sirva, que sentirei falta quando estiver morto? O teu sorriso? E o amor? Ninguém precisa do amor? Talvez já seja noite e eu estou te falando, falando, estou apenas falando, estamos sós, com quem estou falando? Quem é este que me cerca agora? Quem é este ser que me atormenta na quase-morte? Chega de saudade, chega de pouca ciência, chega de pouca miséria. Eu espero pela desgraça plena. Apague o café, seu fogo. Feche a torneira. Encoste sua cabeça aqui. Saia daí e venha. Vem, meu bem, e me diz obrigado. Que o inferno é tão lindo, lá vou ler um poema. Você vai ficar e vou te bater na cabeça. Vou beber teu sangue, vou matar teu filho que ainda não nasceu, serei tua e você poderá voltar. Repousa aqui, estira estas pernas e vem, amor, vem que é hora, não se iluda mais, o céu só é um novo assassino. Faremos alguma pornografia, celebraremos o nojo, como quiseres, mas venha. Um banho nessa vida de festim! Corre para cá, encontro-te, e me traz, por favor, o teu medo do demônio. Helia dizendo, quase vomitando. O quarto se transformara em uma ilha, incrustada na memória ancestral dos dois, escrita nos recônditos logradouros da consciência. Um mero quarto no centro da cidade, avenida Menezes Coimbra, 312. Um quarto peninsular, ligado ao humano apenas pelo fio da incerteza e do mistério. Tola, Helia! Tola!, insisti abertamente a me autoflagelar em constantes ataques verborrágicos que, no fundo, de nada adiantavam. Deixou cair a mão esquerda na altura de um dos bolsos frontais da calça jeans, puxou um cigarro. A chama curta do isqueiro, logo a baforada inaugural perfumaria os arredores. Helia pensava, não pode ser, todo esse tempo de entrega, de devoção, de uma quase submissão total àquele canalha, e agora... E agora o sumiço, a repentina saída, estratégica?, do homem que por ela fora amado sem economias. Não suspeitava que a dor estivesse tão próxima do gozo. Não era cabível ter de conviver com a ausência, com o vago, justo ela, Helia, vinte e sete anos de espera, mulher pronta, sonhos maternais, já experiente na arte da bordadura, dois ou três conjuntos de peças infantis na estante, esperando, pois tinha de ser dele, possuir o rosto dele, a carne grossa dos lábios dele, que tanto sugou seu néctar amante. Já ele conduzia-se ao desconcerto, ajeitando sua envergadura de anjo - ou de demônio? -, para tentar voos mais distantes. Rumava para a mesma Auto-Estrada do Sul do conto de Cortázar. Ou não. Era uma tentativa, sim, e ele devia ser o camponês do Ariane, especulando sigilosamente sobre o simplório mistério de saber para onde estaria se dirigindo, flutuando deliberadamente por sobre seus delírios, solto e preso, em sandices. Minha Alétheia!, exclamava. Sua verdade, seu destino. Tão quisto era assim como o esquecimento mais puro.


* Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/Waiting-140246784

São centauros meus cavalos (Parte IV)



Por Germano Xavier



Ouvi dizer que ela estava sentindo uma angústia, uma dor muito profunda. Eu não sabia que as pessoas sentiam dor. Imaginei ser o único. Ela resolveu telefonar para mim. Uma conversa rápida, cinco minutos ininterruptos. Cinco minutos dum aconchego em minha alma. Desejou me ver. Pediu. Veio, de ônibus. Eu ainda estava por perto. Não havia sido a despedida, aquela. Sempre quis demonstrar independência. Na verdade, nunca conseguiu fugir da saia da mãe. Uma burguesa. Certamente. Eu era diferente. Havia algo de diferente em mim. Não olhou para o meu rosto. Silenciosamente, oito ou nove passos, a geladeira. Bebeu água. Sentou-se. Abriu a pequena bolsa de couro sintético e retirou de dentro uma cartela de comprimidos. Não eram comprimidos, eram cápsulas. Estava com febre, uma moleza no corpo a dominava. Eu devia ser muito diferente. Colocou o remédio na boca, bebeu um gole d'água. Baixou a cabeça. Todos estão de mau humor, pensei, até os ratos. Eu havia alugado um quartinho no meio da cidade que logo iria ser deixada para trás. O carteiro passou e deixou duas correspondências junto à porta que dá acesso ao mundo. Eram dois envelopes brancos de tamanhos diferentes. Apenas observei os remetentes, assim como os endereços deles. Achei melhor não abri-los, apesar de saber que fazer isso não implicaria em absolutamente nada. Os antigos moradores da casa onde vivi meus últimos dias atualmente não passavam de fantasmas. Assim eu imaginava. Com o passar do tempo foram chegando mais correspondências. Eram muitas, de variados tamanhos e cores. A maioria com logomarcas impressas de empresas e bancos. Fui obrigado a reservar uma parte do velho guarda-roupa para organizar as missivas. Eram muitas. Onze dias se passaram e nada dos proprietários da casa. Ficaram de vir pegar o adiantamento pelos dias que eu ficaria lá, mas. Só consegui ouvir a voz de uma mulher que naquele dia havia combinado comigo que iria deixar as chaves com a vizinha, e que eu não me preocupasse. Cada vez mais curioso, eu relutava para não cair na tentação de dar uma espiada. Foi que não suportei e decidi abrir uma. A primeira de todas que eu havia guardado. Era um envelope branco com as bordas coloridas. Rasguei o papel silenciosamente. Helia estava ao meu lado, pálida de febre. O barulho do crepitar do papel poderia assustar os fantasmas. Retirei a folha de dentro e percebi que nada havia, nenhuma palavra, nenhum desenho. Somente a brancura do papel. Abri a segunda e lá estava, apenas o branco. A terceira, a quarta, a quinta... Só o branco. Não havia nada, mas o carteiro, sempre que podia, deixava uma ou duas correspondências na porta da casa onde moro momentaneamente. Eram de variados tamanhos e cores os invólucros. E o mundo lá fora continuava a passar. Nem com evento de tamanha estranheza Helia conseguiu fazer cara de espanto. Ela continuava absorta, sentada sobre sua perdição em tons rosáceos. Há exatos sete dias desejou sair de sua casa, de seu lar, verdadeiro?, de sua cidade. O que realmente importava para ele era o fato de ter posto suas pernas em fuga, mesmo em pensamento. Tanto que idealizei, tanto que briguei comigo, que lutei. Ele tinha saído daquele lugar infernal, lugar onde tinha deixado de se ser, local onde começava a sua vida prostituída, sua parcela vendida, seus setores mercadológicos, como impressos em papel jornal. Pela primeira vez sentia aquilo dentro dele, uma energia penetrante, reveladora de suas maquinagens potentes, antes enferrujadas. Helia! Vespa sem dó, sem pena, foste tu o rumo todo de minha perdição!, regurgitou ferozmente para si mesmo, olhando para a figura desalmada da criatura feminina que pendia para um desarme total. Mulher que acabava por encadear desde a mais insignificante manifestação utópica por liberdade ao maior grau de lucidez nas ações direcionadas a si mesma. Para ela, os sonhos eram como águas de excelência, águas que se fundiam num convite desavisado, vaga-lumes ao entardecer. Ele - eu - caía em suas lanças, em seus arcos, quando dúvida, quando devaneio. Por que, Helia?, perguntava-me, inocentemente. Aquele convite irrecusável feito pelo bater de asas daquela mulher, agora ex-amante, ex-amor, ex-mulher-mais-linda-do-seu-mundo, ex-tudo, sem pressa de se chegar ao fim, tão vagos eram aqueles passos, os dela, sutis, resumidos de direito numa incandescência mágica. Havia pedido que ficasse, que por favor não fosse embora, com uns olhos que prejudicavam as mais rudes emoções. Ele sabia que o passado era uma usina, uma usina que fervia. A madrugada, cindida, teimava.


Imagem: https://www.deviantart.com/kpavlis/art/The-runner-139501905

São centauros meus cavalos (Parte V)



Por Germano Xavier



Corria a noventa quilômetros por hora entre automóveis espantados que o deixavam ainda mais solitário e opaco. E novamente a imagem daquela mulher, agora reluzindo na parte superior do pequeno espelho retrovisor em forma de gota, ali, ao seu lado. Todos os fogos acesos em sua parcela anímica, todas as combustões internas a queimar e colorir de um tisne imperfeito sua pele, seu cenho. Seus pulmões arfavam, desconfiados da veracidade do instante. Aprofundava o pé no duro acelerador daquele castigado possante, depositando todo o peso do medo, toda a carga de suas subjetivações, tal qual um paladino montado num corcel que galopasse desejos, que resfolegasse passados. Ela apareceu, assim, quando ele menos esperava. Apareceu mudando tudo ou quase tudo de lugar e sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração. Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados. Helia era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de tão entusiasmante conhecimento. Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era o meu coração, e só o meu. Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados. Eu tinha de escolher. Ela estava a me esperar, sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite. Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o corpo dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez. Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Helia, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante. Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei. Foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades. Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até Helia, em seu vestido cinza com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas. Ah, Helia, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que naquela agora me imprimia! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Helia, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração... meu coração bonito! Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, abarrotando-me de luas, emplumando-me de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo dos vendavais. Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas... como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas. Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pelos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo aquele líquido signo da brancura da nossa hora. Insuspeitosas foram as ânsias iniciais. O conhecimento distante, nosso e arraigado e eterno. Você me trazia os adobes e eu elevava nosso castelo, de vime o amor, torto em se querer direito. Aligeiradamente, como dona de minha fazenda, cercou-me de tuas fronteiras indispensáveis lá pela noite de teu sorriso. É do conhecimento de ti, mulher, o fermento que extravasava o líquido que tenho cá dentro - o não da máscara de se ser fantoche sagrado. Os deuses, se é que eles existem, vinham narcisos a nos olhar em súbito frenesi. E bebiam do nosso vinho. E sucumbiam diante de nossas virtudes. E invejaram do nosso amor austral, sem freios e sem obviedades, natural, humano, como deve ser o puro amor. E quando me surgias, assim, a poucos metros de minha mão, cálida, suave em se deixar ao enlevo maior do mundo, encarnava eu a canção do sequioso encontro, a música da necessidade de ser aquilo que queríamos ser, em qualquer instante, em baile, naquele nosso espaço azul. Dançamos nosso tango-corpo, o primeiro de muitos, porquanto desejamos, porquanto vivemos, únicos, coadunados. Embriagamo-nos, deitados sobre a nuvem de nossos planos, embriagamo-nos apaixonadamente, embriagamo-nos loucamente... como num sonho rebelde e jovem e real. Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Helia!, quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom. Ah, Helia, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que fosse o meu. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade. Você me amou, Helia, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro. Meu coração, Helia, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora à língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Helia, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Helia, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Helia, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Helia, toda, pois são centauros meus cavalos. Sentiu-se surpreendido por um toque de afirmação que, bem de leve, lançava-o a um entranhado estado de soluços que lhe cercavam todo o corpo de prazer. Seguiria, veloz e um tanto quanto esfuziante, por pelo menos dois quartos daquela madrugada, espalhado pelas divagações que ele mesmo houvera edificado. Uma estrada escura, completamente escura, deficiente em sinalização, margeada por uma gramínea rasteira de um tom que, àquela hora da noite, parecia desbotado e próximo de um cinza dissoluto. Grandes roçados desapareciam com a mesma volúpia que em seus flancos surgiam. Por vezes, um ou outro animal silvestre que atravessava a pista alertava-o sobre a existência de vidas, mormente sobre a sua. Duas ou três raposas, sob os auspícios da lua, alguns répteis rastejando e buscando as presas, almejando abocanhá-las, feri-las, devorá-las gananciosamente... tudo por ele passava. E aquela vida de fuga marchando, marcada por curtos silvos esporádicos que tocavam o oceano de seus ouvidos, reprimindo-o de certa forma, impedindo-o de rumar livre, com o sentimento curioso de poder ir sem restrições alguma, em despejo de potência máxima, sem freios nem travos, apenas sentindo o repentino impulso de um vento estranho e agradável içando aquelas suas asas podadas, aquele seu resto.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/around-the-streetmarket-1-167897271

domingo, 14 de outubro de 2018

Diante do não sabido



Por Germano Xavier



Não, eu não sei amar. Confesso, ainda não aprendi a arte da dissimulação. Eu sou bem moço, sim, mas já bem crescido para saber que a vida é uma provocação. E das mais infames. Sou um sujeito quedo. O silêncio é a parte mais sobressalente em mim. As pessoas não entendem que esse é o meu jeito de ser, de me expressar, de me comunicar. Sinto que elas estão sempre esperando algo oriundo de minha face ou mão ou boca, alguma palavra a mais ou alguma loucura que eu possa fazer de súbito, matar alguém, estrangular o professor ou executar a pessoa com quem converso. Mas eu só sinto. Não sei o porquê de tudo isso. Parece que sonhei. E no sonho acendi a lâmpada do meu quarto e percebi que os ratos tinham desaparecido. Talvez estivessem escondidos em algum móvel, pensei, em estado de alerta, prontificados ao ataque. Tremo só de pensar naquelas centenas de pequenas mandíbulas, atarraxadas em minha pele, grudadas em meu cabelo, roendo-me, sangrando-me. Olhei para o chão. Parecia estar seco. Hesitei. Imaginei, mas depois de muita luta decidi levantar de onde estava. Havia uma escuridão longa depois e que não sei como dizer. Não há um pequeno feixe de luz que consiga penetrá-la. Não que eu seja um admirador das trevas, mas a noite é o momento mais misterioso e instigante. A noite, no sonho, não respeitava os solitários. Destino longínquo. Separava-se de si mesmo em pulsares e alguns goles de bebida quente. Rumava. Realmente estava sendo difícil se ser ultimamente. Difícil, porém ele era já menos triste. Podia até se sentir um pouco mais feliz em raros instantes. Eu, sombra perfeita do que o mundo é capaz de fazer com a humanidade, passivamente comporto-me num assento confortável e cinza-verde de cor. Deixo que o vento que vem vindo do exterior sussurre e prostre-se diante dos meus olhos, agora cosmopolitas. Uma morbidez ilusória e procedente do dia que não seria mais um dia normal. Em minhas reentrâncias correm cósmicas as sensações que parecem subterrâneas. Sob alguma minha forma de sotaina, algo poderia acontecer a qualquer instante. Os papiros foram escritos e simultaneamente lidos pelas retinas visionárias que meu corpo não suporta. Átimo. Surpresas foram destruídas, todos os focos tristes em que pensava. Metafísica trac trac trac, tesoural, dilacerantes tracs que vinham predominar minha existência. Segundos aproveitáveis, não se sabe, de nada sabemos, ou serenos?, ao lado do vibrátil plasma feminil que dialogava potencialmente com minha alma, coitado de quem, ou em? Dizia coisas belas. Falava com tamanha ternura que me deliciei cruamente. Que palavras possuo, ainda lembro!, sangue feliz no final. Sei que não me encontro nesse arrebol cotidiano. Sei que ainda existem, sob as fardas e uniformes, corações como o meu, tão lindamente deflorados. Acordei rodeado por capinzais extremamente altos. Tinha invadido o acostamento da rodovia por onde circulava. A marca de borracha no asfalto, riscado naquele anil desbotado pelo sol. Levantei e percebi o estrago que tinha causado ao carro. O farol do lado direito em caquinhos, o para-choque arrebentado, uma roda levemente empenada. Havia entrado forte no matagal. Estou vivo, e isso me retirava um pouco o desânimo matinal. Entrei no carro novamente e dei a partida. O motor teimou um pouco, mas roncou forte instantes depois. Joguei pela janela alguns cigarros fumados pela metade, duas garrafas de uma vodka barata, alguns recibos e peguei a estrada sem dó. Um chiado fino surgiu e, pelo que me parecia, vinha das proximidades da jante dianteira esquerda. Ele que não sabia para onde ir deveras, onde se esconder. De quem?, perguntava-se, sem pronunciar voz. Ouvia vozes que muralhas de concreto sussurram no flamejar dos segundos insuspeitosos. Eram tão estranhas e ao mesmo tempo disfônicas, que tentava sem grande sucesso parar de escutá-las com o gesto de sufocar com as mãos suas orelhas. Estes clamores, tão voluptuosos para alguns, não o faziam sentir orgulho por ser proprietário de um sentimento valioso e único como o amor. Ouvia as mesmas vozes de sempre e agradecia às paredes por terem sido escudos, livrando-lhe da vista o vômito que os homens repelem de suas bocas más e carnívoras. Os sons humanos modernos, contemporâneos, perderam sua verdadeira lógica. Não havia mais transparência no aquário afetuoso dos entes que lhe habitavam - alguns ainda insistiam em dizer que toda essa transformação vo-ca-bu-lar dera-se pela enorme necessidade de sempre se estar em renovação, para não ficar para trás nessa corrida cada vez mais doméstica pela vida. Todavia, como ser tão ordinário, a ponto de sepultar a beleza natural do nosso caráter?, pensava. Tornara-se muito difícil discutir tais assuntos, porém era indiscutível sua serventia para o seu desenvolvimento enquanto homem. Era impressionante a percepção que tinha do mundo atual, parecia-lhe não haver nenhuma tentativa ou esforço para que coisas que já fizeram parte do manual dos homens, e que agora se encontravam em processos de putrefação num destes baús enterrados pelo universo, voltassem ao cotidiano de normalidades. A espécie perdera o mapa do tesouro e com isso o próprio tesouro também. O seguimento que daríamos a todo esse bordel era incerto, mas tranquilamente previsível acaso levássemos em conta a realidade dos fatos. Era como dizer que muitos preferiram andar descalços, mesmo tendo em casa um calçado para proteção dos pés. Como bom seria se tudo isso fosse uma questão de esquecimento, que ao sair de casa os indivíduos sempre se esquecessem ou não se lembrassem de pôr no bolso de suas camisas as sensibilidades e as intuições. Quisera ele que fosse assim! A verdade é que estamos pintando o nosso próprio quadro biográfico com tintas frias, cujos princípios ativos são a extinção e o erro. A vida não cessa, o tempo se esconde entre árvores e o homem sempre a padecer diante de seus próprios olhos. Alguém de muito longe derrama lágrimas de arrependimento e angústia ao ver o estrago que sua obra-prima está a fazer no enredo panorâmico da sinfonia que lhe foi destinada. O criador lamenta ter criado em seu paraíso não só a serpente e o fruto proibido, mas milhões de cobras e aranhas peçonhentas enfeitiçadas por verbos malignos. Não há mais o que modelar, tudo já havia sido escrito e lapidado. Pena que muitos não leram os ensinamentos ou não souberam interpretar o texto da maneira certa. O nosso tálamo agora é coletivo, o serviço foi feito por todos que contribuíram incessantemente para esta arquitetura perversa e mitigada. A carcaça fica e o miolo se desfaz. A música é feliz, sem saber que podia ser mais, a lua já iluminou mais corações, o brilho radiante das estrelas já foi mais autêntico. Antigamente, pensou, o fim era apenas um novo recomeço. Hoje, o fim é o coto do nada, dilacerado pela ordem que dopa a mentalidade emocional original dos nossos cromossomos, fazendo-nos perder grande parte da visão resoluta que tínhamos sobre a verdade e sobre tudo aquilo que nos faz bem. Neste momento, entra em cena o lobo mau, que não é o das histórias infantis, mas o mesmo que se vestiu de cordeiro e que acabou nos cativando pela sua delicadeza e ingenuidade. Uma seringa com uma solução, pitadas de purpurina injetada em nossas veias sem qualquer tipo de cerimônia. Este sim é seu real semblante, que nos amordaçou com suas correntes de metal e ecos de aço, tornando-nos servos e escravos do hábito, do modismo, do belo e da miséria espiritual. Este é o lobo vigente, a babilônia do ontem, do hoje e de sempre, a bomba atômica do medo, esta é a comitiva do governo, ou melhor, do desgoverno. O homem se perdeu na matéria, no esboço do certo, na crua ânsia de ser mais. Acabou se machucando em espinhos e nas rochas pontiagudas escorregou. A cicatriz vingou toda a dor e o ser que se diz humano traz hoje na bagagem as sequelas de uma escolha sem retorno. A morte veloz é agora sua maior consequência. Traído pelos seus próprios gestos, exilou-se, ele-eu-nós, em nosso próprio lar, nossas casas, casulos. O sangue da ferida aberta não estanca, rejubila-se em alimentar o solo sedento por adubos orgânicos. Como é cruel ter de usar máscaras para não ser intoxicado pela sujeira que nos impede a naturalidade, que nos priva de um belo adjetivo derivado de nossa tão explorada e subestimada mãe natureza. Ao relento, inspiro uma harmonia demente, puxada pelos acordes da britadeira e pela regência mágica das betoneiras. Ao invés de aproveitarmos a noite para sonharmos com um mundo mais digno e justo, preferimos acertar o sono para não perdermos as horas. Tudo reincide, recai sobre a terra, menos a vida que não é retroativa... inúmeras pessoas registram em folhas de papel teses sobre reencarnação ou ressurreição, mal sabendo elas que tais ações podem acontecer a qualquer momento e que, para isso ocorrer, só é necessário um incentivo pessoal, para que floresça o renascer e a redenção que a todos falta. Estou divagando? Sinto um novo resmungar em meus tímpanos... é só mais um anjo torto com estranhos pedidos e alertas. Ele implora de joelhos para que eu pare de pensar, de falar. Por que devo parar? O oitavo anjo do apocalipse responde: Se você não parar com essa conversa, eles irão te prender. Eles quem? Os torturadores e trituradores. Mas que crime cometi? Pensar, amar, viver... Mas isso não é crime! Meu caro amigo, qualquer ideologia contrária aos interesses do dragão é potencialmente exterminável. Não querem formar pessoas capazes de domar o seu ego ou que tenham um conteúdo crítico sobre as novas regras que impuseram. Somos a ameaça aos seus reinados e domínios. Cortaram-nos a língua e as mãos, furaram nossos olhos com estacas gananciosas e porcas. Restou-me o choro por não ter mais como reunir meu exército e fazer uma frente de combate contra todo o mal que nos assola. Meu sexto sentido me revela a morte de irmãos e irmãs que, como eu, defendiam o bem a qualquer preço. A triste sensação de que não haverá mais recomeço e que o fim será somente o fim me salta aos nervos. Sentado onde estou vou à morte lentamente, numa tétrica solidão forjo meu arsenal vingativo numa paranoia que me altera. O silêncio me afaga, meu companheiro nas horas mais insanas e improdutivas da minha existência. Quando mais uma lua se aproxima, recordo que ali na estante guardo medalhas de honra ao mérito, verdadeiros símbolos de uma guerra que tracei. Lá se vai um espião, um amante dos dizeres, vai ao chão que os vermes hão de usar como alimento num prato rico em sonhos e proteínas de esperança. Vai ao céu porque tens o seu lugar. O homem morre ante a vida que o acolheu, pois carrega o pecado de não saber amar sem mentir. Falava alto consigo mesmo e ele não tinha respostas. Foram longos quilômetros pela estrada vazia, o carro se arrastando, até encontrar uma casa rosada com um letreiro já apagado pelo tempo que estampava: Pousada 31. A placa de metal localizava-se próxima à porta. Uma pousada naquele fim de mundo. Aproveitável e útil, realmente. Mas era dia, manhã, e ele precisava mesmo era de um bom banho e de um café reforçado. Não pensou duas vezes. Estacionou seu Ariane bem em frente à porta de entrada. Desconfiado, caminhou em direção ao balcão, dando passos cautelosos. Havia um cheiro forte de charque frita no recinto. No balcão principal, ninguém. Tocou a pequena campainha de ferro que se encontrava na ponta esquerda da mesa. Por um breve instante pensou ter escutado o som do silêncio. Pouco depois uma sombra se ergueu lá no fundo do estabelecimento. Percebeu que não estava sozinho ali. Nesse ínterim, resolveu passear seus olhos pelas paredes do lugar, repletas de pôsteres e frases pintadas em cores chamativas. Uma, em especial, chamou sua atenção. Era uma carta, já amarelecida, assinada por um desconhecido, grudada no alto por duas tachinhas de metal. Enquanto ouvia passos vindos dos fundos, o homem leu a epístola. Eu compro clichês para dizer "te amo", e sou bem mais feliz assim. Eu que sempre fui o que sempre repudiei, agora logro das benesses de um aprendizado baseado em indeléveis experiências e estúpidas frustrações. Hoje sou mais político, prático das noções do pensar bem e do bem pensar. Alguns livros me substanciaram, e eu sou eles e o mundo que me rodeia juntos. Eu compro clichês para dizer que "te juro", e minha angústia cotidiana é combustível e brasa. Ah, como sou tão maior em minha ilusão diária! Como sou tão mais perto daquilo que sempre manifestei desejo! Como sou tão mais em me saber defeito! A minha criança interna me filosofando, a infância no dorso em pitadas reaparecendo. A maturidade, atividade para especialistas, me operacionalizando gritos de progresso. Ah, quanto orgulho de mim, quanta satisfação em me saber distante daquele outro eu, agora em sono letárgico. Quanta dádiva, meu justo senhor! Quanta glória! E eu comprando clichês para dizer que "o futuro é nosso", dialogando com meus fantasmas estafetas, aqueles, que de um dia para o outro, sem nada avisar, deitaram chão pelo além e me privaram de minha falta de autonomia. Outono de 1988. Era somente dúvida o errante homem. Lembrou dela, seu mais que atual espectro. Não sabe o porquê, mas ela lhe surgiu, novamente, ali mesmo. Agora deveria estar no 312 da Menezes Coimbra, aquele continente criado sem precisar esperar a ação de placas tectônicas, aquele universo mítico-austral onde se renovavam constantemente, lugar de apuros e mergulhos, de beijos e abraços, mágoas e amores. Lembrou dele, ele mesmo, daquele que tinha sido há pouco tempo, daquele que não mais desejava ser. Cerca de um minuto após ter terminado a leitura, escutou passadas bem próximas e a respiração ofegante e desconfortante de uma anciã que vestia uma túnica azul de veludo, adornada por um xale de renda carmim demasiado extravagante. Mais pessoas pareciam se levantar e vir em direção de onde permanecia o homem, aturdido. Que desejas, forasteiro?, de chofre, a velha interrogou. Rápido, virou o rosto. Estava diante, mais uma vez, do não sabido.


* Imagem: https://www.deviantart.com/pstoev/art/stories-from-the-station-12-204327260

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A estrada

*
Por Germano Xavier


você quer acelerar, vencer o tempo, matar a distância. você pensa. você age. você acelera. mas o carro é fraco. você é forte. mas o carro não é forte. você é forte. você acelera. você não vê resultado algum. você se sente fraco por acelerar sem piedade, apertando fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você pensa. você não sabe o que fazer. o carro é fraco. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo se altera. o pensamento se atordoa. você olha para uma nuvem no céu. você se espanta, sente medo por um instante, revira o olhar, reolha, vira-se para o relógio no painel do carro, você está lento, queria correr, devastar a vastidão, você queria, mas o carro é fraco, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é forte. você pensa. você quer fugir. você não quer ficar. sente uma vontade de ir em frente, dobrar a curva que se anuncia, você quer a reta destruída, a linha de chegada, alguém para segurar a fita do final, alguém para aplaudir o seu feito quando extenuado você descer do carro e esboçar um sorriso de glória. você sente saudade de alguma coisa. quer acelerar, gerar história, contar todos os seus ânimos. você quer chegar. você se declara ao espelho retrovisor central. de fato, você quer a consagração. você afunda o pé no acelerador. mais, mais e mais. você ignora as regras de trânsito. você trafega. mas o carro é fraco. você é forte. você imagina. você se encanta com a possibilidade. quer a aventura de ir. você precisa durar mais que a hora. você se volta ao mundo. repara. você leva um tempo para perceber. você sofre. você nunca mais. você poderia. vê o câmbio, aciona a embreagem, troca de marcha. você quer marchar. você teima, insiste. você vê placas. são amarelas, azuis, verdes, toda-cor. setas indicam caminhos. pontes, viadutos, canais, ruas, avenidas, semáforos, guias, calçadas, pessoas, árvores, postes, animais. você olha para uma moça que passa vestida de supermercado. você olha para a criança indecisa do outro lado da pista. você atropela uma carreira de formigas saúvas. você não é mal. você nem sabe que acabou com todo um formigueiro. você quer acelerar. você acelera. mas o carro é fraco. o carro não responde. o carro sentencia você. a vida é tão curta. você pensa. você poderia estar lá. você se anima novamente. viver é prematuro em você. você começa. você não tem pena. você mira o pedal direito. acerta-o em cheio. você quer acelerar, abocanhar o tempo, desdenhar das distâncias. você não pensa. você não age. você não acelera. o carro não é fraco. você é fraco. o carro não é fraco. você é fraco. você não acelera. você não sente nada por não acelerar, não aperta fundo o pedal contra o assoalho do carro. o tempo vence você. a distância mata você. você nada pensa. você não sabe o que fazer. o carro é forte. a estrada é comprida. o horizonte é distante. o coração pulsa. o corpo não se altera. o pensamento erra, perde-se. você olha para uma nuvem no céu. você não se espanta, não sente medo do desconhecido, revira o olhar, reolha, enxerga o relógio preso ao painel do carro sob o volante, você está devagar, não quer correr, não quer devassar a imensidão, mas o carro é forte, a liberdade é longe, o céu é infinito, você é fraco. você pensa. você não quer fugir. você quer ficar.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Anti-Road-105338294

domingo, 10 de maio de 2015

Caixa 2 – Até 10 volumes

*
Por Germano Xavier


Sol. Domingo. Preocupação inicial: tomar café. Vontade de tomar café de posto! Beira de estrada? Sim, vamos? Levantamos. Procuramos um posto e tomamos café de posto. Sol. Domingo. Segunda preocupação: fazer compras para a semana. Tempo das coisas ditas naturais. Vamos ao VERDÃO? Acelero. Estaciono o carro bem na parte da frente do estabelecimento, junto aos grandes portões de entrada. Ela desce. Traga amêndoas, por favor. Falei pela fresta do vidro. Consegui ser escutado. Não vai entrar? Não, ficarei aqui fora. 

E fiquei. 

Poucos minutos depois, após impulsivamente verificar possíveis mensagens no celular, fixei meus olhos na moça do CAIXA 2 – ATÉ 10 VOLUMES. Ela me olhou rapidamente num dado momento e depois fez seus olhos se perderem no meio do galpão. Olhava tanto para dentro quanto para fora do lugar de onde estava, tanto para baixo quanto para cima, para os lados. Ninguém para atender. Solitária, à espera de algum cliente. Eu, fixado a observá-la. 

Do outro lado, no CAIXA 1, uma moça com uma bolsa a tiracolo começava a retirar de dentro de seu carrinho os alimentos selecionados durante o passeio por dentro do supermercado de “alimentos saudáveis”. A atendente encostava o código de barra de cada embalagem num leitor óptico. Uma luzinha vermelha intermitente. O preço saia na grande tela um pouco acima de suas cabeças e a soma ia se dando automaticamente. Tudo aparentemente muito normal. 

Enquanto toda esta movimentação acontecia ao seu lado, a moça do CAIXA 2 – ATÉ 10 VOLUMES continuava a destilar seus olhos perdidos pelo grande quadrado de cimento revestido com telhas tipo Eternit.
Bonita, ela. Longos cabelos. Morena, batom nos lábios, uniforme verde da empresa, crachá pendurado no pescoço. Estava sentada. Eu só podia vê-la a partir da parte superior de seu tronco. Mãos tateando o nada sobre o balcão. Certa indecência de gestos. Outro moço do VERDÃO arrumava os carrinhos, um a um, encaixando-os velozmente num esforço repetitivo. Sons metálicos eram ouvidos. 

O interior do carro esquentava. Abaixei mais os vidros. 

Guardei o celular no bolso e concentrei-me ainda mais a olhar a moça dos olhos incertos. O que pensa aquela moça neste exato instante? Será feliz com a vida que leva? Estaria planejando uma fuga desesperada nos próximos segundos? Estaria só esperando o tempo passar para poder, enfim, e ao toque da sirene das maquinarias de trabalho, abraçar sua mãe em pleno Dia das Mães? E como seria o seu “eu te amo, mãe”, depois de tanto tédio vivido na matina dominical? De onde vinham aqueles olhos desnutridos, sem vida? 

Olhando para ela, fiz-me recordar de uma outra moça que havia visto dia desses no shopping center. Esta, diante de um pequeno balcão, quase do tamanho de seu corpo, fazia com empolgação propaganda boca-a-boca de reluzentes e coloridas capas para chaveiros de automóveis a todos os passantes, inclusive a mim. Eu, esperando o elevador chegar ao meu posto, também observava-a em sua porção risível de vida. Em troca de? Ao passo em que detectava tristeza em seu olhar. O shopping center abria por volta das 10 horas da manhã e só fechava 10 da noite. Interroguei-me se realmente era possível passar o dia ali, naqueles modos. O assustado seria eu? Incomodado demais?

Retornando do flash de memória, senti a porta do carona se abrir. Quase um susto. Trouxe as amêndoas? Estava em falta. Tudo bem. Não quer passar no outro supermercado? Virei o rosto uma derradeira vez. Busquei a moça do Caixa 2...

Não, melhor não. Vamos para casa.


* Imagem:  http://www.sst.sc.gov.br/?idNoticia=634

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A cuidadosa definição do acaso (Parte IV)

*
Por Germano Xavier

para ler ao som de I Follow Rivers, da Lykke Li


Eu te esperei por longos anos. Venho adotando cada uma de suas palavras e frases e períodos e analisando e lendo e relendo e pondo tudo em caixa dentro de mim que sei o que é bom e de verdade. Eu penso que essa composição que estamos a criar – estamos? – ainda vai virar um turbilhão de momentos férteis. Cá para nós, mas a gente parece a própria eternidade. Doido, eu? Pingue-pongue e os corações são acarinhados em cada sopapo de voz-alma que vem vindo. Tome nota aí: eu existo, sim – você existe? – sou de carne e osso e palavras e moro nem tão muito longe assim, apenas algumas horinhas desclassificáveis.

Tenho vontade dos lençóis também, e é lá que vamos começar tudo. Mas ao que me parece, venho morando também num coração. Tem outra não, és tu. A minha. Por favor, passe-me sua identidade por completo. É da alfândega dos sentimentos. Claro, é bom toda espécie de conhecimento. Teu pressentimento é um sentimento exato, adorável. Imito-te, pois: minha. Aliás, que tanta repetição assim de nós para nós? Será que isso tem nome? Se eu te puxo para dançar você me dá colo, se te quero colo você me puxa para dançar. Vai ver é aquele tal do A... vai ver. Vamos? Topas? Quer correr mundo comigo? Estou falando sério. Só basta tentar, querer. 

Vai ver não, o certo é que estou aqui. Dê um sinal quando chegar. Preocupo-me com você. Quem é você para mim? É que eu preciso me situar no que está acontecendo. Preciso? É aquela coisa do risco. Eu te apeteço, tu me apeteces, conjugue comigo! Continue... nós nos... danou-se. Parece que é aquele negócio torto que nasce na gente quando a gente olha para o mar dos olhos de outra pessoa e vê o fundo do mar com seus cardumes. Além-mar, não é? Lembra do começo de tudo? Do fim e do recomeço de tudo? Além-mar. Aquela azulidão de permanecer. Estou no teu colo. Um beijo? Quero. Quero você. É sério. Daria tudo para estar aí, dentro de você, literalmente, amadamente, agora mesmo. 

Você fala de névoa, de escuridão, eu falo de claridade, supernova, bum-bum, explosão. Não somos claridades poucas, imagino. O baque é dos grandes. Tudo que te digo é elogioso e não tenho medo. Vai na cara tua mesmo em forma de elipses, zeugmas, metáforas e eufemismos. Penso que poesia também é uma forma de amar. E já te amo, je t’aime, I love you e o escambáu. É assim que se escreve escambáu? Tem acento a palavra? Não importa, importante é que você já existe, quis dizer, no peito meu, mora, reside, a aranha de minha teia. 

Você é rara e eu sou um acumulador de relíquias. Como você não há no mercado, nem nos velhos armazéns, tudo boneca de plástico, sem graça, com falas repetidas. Por isso um achado, você. Sortudo, eu. Que faço senão te chamar para correr risco comigo? É amor, amor! Não sou louco de te perder. Já que começamos essa brincadeirinha séria demais, que tal irmos até o fim para ver se no fim tem mesmo uma luz e um túnel? Estou aqui, sozinho entre alguns papéis, tentando escrever uma declaração daquele sentimento – como é mesmo o nome? Sem cafonices e aberrações. Mas não tem jeito. O acaso é repleto de clichês, como os meus. Acho que sou antigo. Aquele chamado amor. Venha ser minha sendo você.

Deteriour parvum sanctificare amor solet.


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A cuidadosa definição do acaso (Parte III)

*
Por Germano Xavier

para ler ao som de Tunnel of Love, do Dire Straits


Você é minha e nunca mais será de ninguém. Não tem mais volta. Eu não sei mais viver sem tua presença em minha vida. Não quero aprender a viver sem você. Você é o meu ponto final. É muito e sempre. Dorme, amor. Sinto o mesmo que você. E tudo o é, meu sentir. Passo o dia sentindo que a vida é chuva rápida que vem pela tarde. E você é uma nódoa. Viver é limitado sem você. Estou envolvido demais para voltar atrás, com muito amor para me dizer forte e não deixar você partir e tenho saudade em excesso para simplesmente tratar o que sinto como se fosse coisa de todo dia. 

Por isso te amo. Você me consome muito e é perfeito o fogo. É preciso que eu diga: você é responsável por mim. Goze tua vida em mim de uma vez por todas. Eu queria poder evitar todas essas palavras e ter você me calando a boca e me matando de amar. Só. Mas vou ter. Eis o nosso mais valioso destino. Eu sou o teu amor de cada dia. Você sempre será um fio na trama dos meus dias. Entremeou-se, entrelaçou, coloriu. Estou com você o tempo todo. Em todos estes momentos, estou com você muito próxima a mim. Esse pensar em você. 

Tenho vontade de ficar sozinho com você e escutar o teu silêncio em mim. Incrível como alguém pode estar muito mais presente que os presentes. Mas parece ser impossível não acontecer isso. O que você é se mescla ao que imagino que seja e pelo que sei te faço perfeita para compartilhar da minha vida. Estou em você e, cheio de admiração, tenho vontade de te ver calada, desprotegida, desarmada, para reverter todos estes quadros. E te sufocar com o contato da pele que é nossa, com a densidade do carinho que sinto por você. Acho que essa vontade maluca de ter você dentro da minha alma vem de um desejo de misturar as energias que se conhecem, nossas. Pude te sentir em várias vezes hoje. 

É complicado sentir saudade de alguém que amamos sem economia. Quase sempre fico sem saber direito o que fazer com essa energia que extrapola. Por isso, gozo. Pedido seu é uma ordem. Amo você como uma cachoeira ama sua água. Eu estou falando sério quando digo que vou com você para tudo que é canto e em qualquer hora. Recebo você em sempres. Meu coração bate no compasso do teu. Estou feliz por ter você ao meu lado. Deus está com todos. E, felizmente, perdoa até aqueles que não se ajoelham. Espero que goste da música. Eu me sinto especial ao teu lado. Tarde é o dia e eu queria ser simples feito a linha que envolve agulhas em mãos idosas. 

É o mundo que me acontece. A farda dos soldados, o sentimento materno e o segredo entre irmãos. Tudo me acontece e, de tão linda forma, em meu agora com você me excede o sentimento em arroubos de silenciosa histeria. Eu que ando sozinho acompanho eventos com a mesma certeza que me vejo ao início de nosso encontro. Queria ser simples prova de matemática e meu escudo fosse tabuada e todos me compreendessem numérico ao invés dessa matéria em que me torno a me ver homem possuidor de um tesouro: você. 

O coração me acontece, com suas cordas e botões de rosas, todas as feridas duplas de minhas vastidões singulares não existem mais depois de você. Tudo me acontece labirinto e céu. Tudo é complexo e não minto ou forjo retidão. Pois todo meu caminho é ferro, mistério e oração a uma única deusa que surgiu quando eu não mais buscava crenças ou restrições. Você me acontece agora e, diante de minha criatura bélica e honrosa, permanece o mais perene sentimento que por alguém nunca me atrevi a dizer. O amor me acontece e me alimenta em doença para o bem do corpo e espero obediente o prometido retorno de tudo que sei, vai existir. Sinto o mesmo que você, sinto tudo por você, em intensidades e voltagens iguais. 

Passo o dia sentindo que a vida é chuva rápida que vem pela tarde. E você é uma nódoa, teu nome é uma mancha que não quero tirar de minha pele. Viver é limitado sem você, eu já tenho consciência disso. Estou envolvido demais para voltar atrás, nem penso nisso, com muito amor para me dizer forte e deixar você ser em mim e tenho saudade em excesso para simplesmente tratar o que sinto como se fosse coisa de todo dia. E não é. É coisa de infinitos tempos. Por isso sei que te amo. Por isso me tornei solitário mesmo quando estou aos bandos, eu só tenho você agora. Você me consome muito e eu acho isso a maior lindeza que já senti, que já tive. É preciso que eu diga: você é responsável por mim. Sou responsável por você. Sim, eu estou onde você estiver. Se você deixar, eu viro a madrugada escrevendo você. Mais um dia e eu sou feliz em amor.


Imagem retirada do site Deviantart.

A cuidadosa definição do acaso (Parte II)

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Por Germano Xavier

para ler ao som de Run, do Snow Patrol


Sei que fomos agraciados por surpresas inquestionáveis, inscritas no rotar desse cosmos. Surpresas (coincidências) que não necessariamente nos espantam, pois delas já antevíamos, ou queríamos tanto esta condição em comum, que aqui estamos, um de fronte ao outro nesse momento de nossas vidas. Na verdade nada acontece ao total acaso, nós é que construímos nosso arcabouço nocivo ou nossa tábua para o salto na imensidão azul da vida e de seus caminhos.

Por isso, não me apresento esquivo, não se assuste, de cara tento explicar, ou não. Talvez seja algo com a astrologia e nesse caso a tendência é dar um passo à frente e nunca um passo atrás. Essa nuance, admito, a de que te conheço e te reconheço há muito tempo e mais... e depois de ter sido tão abrupto, eu me recolho pensativo e sem pensar, refletindo se eu não fui rápido demais e com muita sede ao pote. Não. Eu tenho certeza que não. O nosso tempo é agora. É você quem eu quero para mim.

Compartilhamos da vontade de amar, fonte de inspiração, calmaria no entrevero, falsa sustentação e real alicerce, ou momentânea e sempiterna sanha febril que serve de impulso para tantos saltos. Eu mirando meu ideal, onde você se apresenta mais que cenário. Você possui ares de muito amor. 

Ao escrever em sua direção, surpreendo-me pensando no movimento dos astros, que te conectaram a mim por fios eletrônicos que eu por vezes sinto ojeriza. Eu aqui e você tão perto, considerando-se as possibilidades latitudinais e longitudinais da esfera terrestre, mas ao mesmo tempo tão inusitado, reconfortante e significativo...

Permita-me uma citação. Trata-se de uma passagem, escrita em uma carta por Rilke, um de meus poetas prediletos, oriunda de leituras tantas, de literaturas que se entrevivem por subjetividades desconexas: 

“É impossível ter uma imagem exaustiva o suficiente da amplidão e das possibilidades da vida. Nenhum destino, nenhuma recusa, nenhuma adversidade é simplesmente sem saída; em algum lugar, o mais denso matagal pode produzir folhas, uma flor, uma fruta. E, em algum lugar, na providência mais extrema de Deus, haverá também um inseto que colherá riqueza dessa flor, ou uma fome a qual essa fruta será bem-vinda. E, se for amarga, terá sido espantosa a pelo menos um olho, ao qual será propiciado prazer e curiosidade pelas formas, cores e frutos do mato cerrado; e, se ela cair, cairá na plenitude do futuro e, em sua decomposição final, contribuirá para torná-lo mais rico, colorido e viçoso”.

Sei reconhecer algo que amo, algo pelo qual me identifico, que me causa um sentimento de várias formas assimiladas, pois as manifestações em mim são físicas e anímicas, meus impulsos sensitivos sempre me falam mais alto e não há melhor forma do que sentir através das palavras, que podem forjar construtos imagéticos de um espectro ainda informe, conduzir a irrealidade à deriva, o que pode ser mais do que real. Mas até este meu suposto pensamento já foi por você desconstruído antes de mim, que falo direto através de meu ser que é seu. Vamos viver de verdade isso? E começo por agora, por ontem, por sempre, podendo ser o mais passional possível, sem ressalvas, minha racionalidade de querer-te inteira. Eu acredito, sim, em tudo que você pensa que eu acredito.


* Imagem retirada do site Deviantart.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A cuidadosa definição do acaso (Parte I)

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Por Germano Xavier

para ler ao som de She, na voz de Elvis Costello

Com o perdão da palavra, de onde nos conhecemos mesmo? Mas que bom que você aportou em meu mundo assim. Abrigo você aqui, com todo prazer. Mostro um pouco deste mundo meu, nativo. Eu vou esperar suas palavras como quem espera um arco-íris bonito após uma chuva com sol. Gosto mais. Gosto mais de você. Flor do dia, meu dia inteiro. Também você me trouxe luz, claridade boa de sentir. Alguma sensação estranha, mais profunda que a própria normalidade. Você sabe me explicar o que é isto? Eu me sinto bem em seu olhar, disso eu sei, sinto. Creio que isto já pode lhe dizer algo, ou a mim mesmo. Também tenho coragem. Por você. Mais carinho. 

De que asteroide encantado você vem? Se eu disser que ando sentindo coisas semelhantes, você acreditaria? Você quer acabar comigo, é? Você tem celular? Pode me passar? Mandei uma mensagem agorinha. Chegou aí? Não sei a razão, o motivo, ou coisa que o valha, mas o certo é que ontem dormi com você e, para meu espanto, quando abri os olhos hoje você continuava em mim, presenteando-me com uma nova aurora. Menina, menina... eu tenho coragem. Minha quinta-feira já é um pássaro alto estimando o voo dos encontros. Elevo você em mim. Eu não vou fugir também. Penso que estas coisas não acontecem sem haja algum motivo-mor. Você deve ser o motivo-mor. Meu motivo-mor. Pelo menos é o que estes arrepios me fazem chegar em aviso de nós, de agora e em tempo. Guie-me. 

Seria uma supernova agora! Também sou pacato, gosto de discrição e respeito. Chego a ser recatado, por vezes. Já admiro sua melancolia, digna das flores mais valiosas, que não vendem belezas impostoras. Você será meu presente também. Já está sendo. Dê-me a sua mão, que eu quero andar com você. Já lhe adicionei. Quando chegar, dê-me um sinal. Estou aqui corrigindo um artigo. Eu já disse que você esteve comigo durante todo o dia hoje? Já querer. Pois chegue sempre. Minha razão de viver é você. Meu maior motivo de estar vivo hoje. Quero ser feliz ao seu lado, ao lado dos nossos. Você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. Sou seu. Eu quero viver o maior e mais bonito amor do mundo com e por você. Se existir vida após a morte, também quero viver esta outra vida ao seu lado. 

Eu vou procurar você no além. Quero acordar todos os dias ao seu lado. Sentir a boniteza que senti hoje quando o sol raiou em meu quarto e eu estava com você pertinho de mim. Eu quero você para mim. Você é linda em mim, linda em tudo e já não sei viver mais sem você. Eu te nós. Eu estou com você, jogando luzes em teus cenários de vida. Eu só quero estar onde você estiver. Hoje eu te amo mais que ontem. Estou aqui limpando meu quarto, arrumando meus livros, tirando um pouco da poeira. E vez ou outra tateio as cordas imaturas de meu violão. Coisa muito, mas muito antiga mesmo, amor. E você sabe que a ficção fortifica-se nas mãos de um escritor, não sabe? 

Dorme. Eu te nino. Não sei mais fazer outra coisa. Você é minha. Quero você do jeito que és. Não mude nada. Venha para mim como você é e eu lhe amarei. Estou aqui. Só me chamar. Está melhorzinha? Há mais alguma tarefa hoje para eu desempenhar em prol de nosso amor? Meu papel de parede! Você me faz renascer. Renova-me, fé que tenho aflorada agora no bem que a vida nos traz. Você, minha luz. De volta, entregue, apaixonado e maluco por você. Eu não sei o que dizer. Estou lá. Meu riacho de mel. 


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Maurice, o pianista

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Por Germano Xavier

"O silêncio é uma confissão".
Camilo Castelo Branco


Dia nublado. Vento frio varava varandas e pessoas. A noite era perto. Algumas coisas para os distantes desatinos das vistas humanas eram levadas. Uma cidade à espera, esparsas ruas. Um concerto de cordas e Maurice, pianista e compositor, atração maior. Fama de criar curiosas peças para piano. Maurice, antes do dia de hoje, resolvera que iria parar com sua arte. Longos anos. Já era a hora, dissera ao ser entrevistado por uma jornalista da tevê local. Maurice iria se exibir para o público pela derradeira vez. Prometera ao vivo um espetáculo singelo.

Uma pequena multidão tomou conta da praça. O pianista tocaria. Palco montado. Maurice faria tudo aquilo que um pianista sabe fazer. Maurice entrou no palco, caminhou na direção de seu piano, sentou, ajustou a distância do banco, envergou-se diante das teclas, parou. Maurice respirou profundamente. A plateia observava-o. Eram crianças, jovens, adultos, idosos. Havia um clima de despedida no ambiente. Maurice, neste momento, olhou para cima. Enxergou o firmamento. Céu negro, brilhoso, bonito. 

Por um momento, as memórias de Maurice pareceram atravessar um túnel do tempo. Havia refluxos, regressões. Não havia o futuro. Maurice, depois de se atravessar com a mente, era somente o agora. Concentrou-se com uma lentidão de moveres. O apresentador do evento, com sua voz radiofônica, incitou a plateia. O início estava perto. Tudo agora estava nas mãos de Maurice, literalmente.  Corpo, coração, olhos, mãos, tudo estava em seu devido lugar. 

Todavia, para espanto coletivo da massa ali presente, Maurice não mexeu um só dedo por longos minutos. 58 minutos, precisamente. Maurice não tocou, não fizera o que haveria de ser feito. Fez o que qualquer pianista em igual situação não faria. Ele não tocou! Não, não! Ele não tocou! O pianista não tocou. Ao piano, Maurice executou o silêncio. O pianista bramiu, em seu ato final, a grande pausa. Fez o piano tocar silêncio para que todos ouvissem os mais rarefeitos sons do mundo, que porventura jamais poderiam ser ouvidos se ele tocasse o teclado preto e branco de seu piano: os tambores dos corações sem pressa, as tonalidades das respirações fogosas, os sussurros das mentes operantes, os chiados nas pregas do couro das poltronas, sorrisos cantantes de crianças felizes, os pigarros carentes, as lamúrias de amor...

E todos escutaram pela primeira vez sons inaugurais. Foi como promover nascimenos ali, para muitos que se encontravam no local. Não tocando, Maurice tocou. Era sua última peça. Maurice, diante do negro piano, esperava algo. Era o ápice. O desfecho triunfal. Maurice meditou. O piano, imaculado, tocara naquela noite as melodias mais incríveis. Rapidamente, quase de esguelha, Maurice olhou para as gentes. Levantou delicadamente. Visitou com os olhos o pulso que sustentava o relógio. Achou por bem descer os lances da escada que dava para o fundo do palco. Depois, seguiu a lua.


Imagem retirada do site Deviantart.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Relato de um defunto fresco



 Por Germano Xavier

O que você faria se hoje fosse seu último dia de vida? Talvez não fosse a melhor hora de se relacionar com o mundo, justamente por simplesmente saber que no dia seguinte você não fará mais parte dele, a não ser como pó, lembranças e, em alguns casos, saudades. Eu não sabia que ontem seria meu último dia. Acordei cedo, mais do que normalmente o fazia. Acho que a vida quis dispor a mim mais alguns minutos para que pudesse vê-la, mas não foi isso que entendi. Na verdade senti raiva, queria continuar dormindo, ainda me sentia cansado. Mas não consegui mais. Levantei mal-humorado, fui ao banheiro, lavei o rosto. “Cara feia”, pensei olhando para o espelho. Poderia ter sorrido naquele momento, diante de um pensamento tão tosco e de uma imagem idem. Mas não sorri, do que me arrependo. Foi um sorriso a menos em minha vida. Segui levando no rosto um semblante pseudo-austero, rabugento, quase infeliz. Fui tomar café. Quando se pensa em morte e sabe-se que antes dela haverá um último momento, imagina-se que tudo nesse último momento será da melhor forma possível. Como em uma despedida de solteiro. Comigo não era diferente. Imaginei que minha última refeição matinal seria como naqueles filmes em que se baba frente à TV e que, em certos momentos, você jura poder sentir o gosto das iguarias. Tudo que achei foi um saco de pães dormidos. Poderia ter ido à padaria e comprar pães novos, ou ainda aqueles biscoitos refinados que há tempos paquerava no balcão, mas que, devido ao preço, nunca tive coragem de comprar. Eles pareciam muito bons de fato, mas não tive como constatar isso. Contentei-me com os pães duros e secos. Abri a geladeira e o que vi foi uma caixa de leite aberta, meia dúzia de laranjas já quase apodrecidas e água. Poderia ter feito um suco. Fiquei com preguiça e acabei comendo só aquilo que um dia tinha sido um pão. Andei pela casa ainda sustentando no rosto a raiva de ter acordado cedo. Sentia-me o próprio Casmurro. Sentei na poltrona, fiquei horas sem fazer nada. Não percebi como estava o céu, se chovia ou se brilhava aquele sol costumeiro. Não senti cheiro algum, não ouvi música, não falei com ninguém. Acho que sequer pensei. Anulei-me por um instante, mal sabendo que em poucos instantes estaria anulado para sempre. Quando resolvi levantar e dar algum rumo àquele bendito dia, o relógio já marcava 10:37. Fui ao banheiro novamente, tomei um banho apressado. Pressa para quê? Sentia-me importante quando tomava banho rápido. Parece que todas as pessoas importantes, que têm reuniões de negócios com outras pessoas que carregam maletas e por isso também são importantes, tomam banho rápido para chegar ao destino no horário. Eu não era importante, não tinha uma maleta nem horário marcado para reunião de negócios. Mas imaginava que um dia teria tudo isso e já ia treinando. Saí do banho, vesti a roupa que vestia quase todos os dias. Uma calça jeans, a camisa amarela com um desenho que nunca entendi o que era na frente. Já estava até meio desbotada. Vi minha camisa nova balançando no cabide. Não cheguei a usá-la. Estava esperando uma ocasião especial, mas acho que esperei demais. Abri a porta resmungando porque ela emitia um ruído insuportável, um rangido que era quase uma canção brega. Poderia ter resolvido com um algodão banhado a óleo de cozinha. Mas acho que preferia perder meu tempo reclamando toda vez que a abrisse. Andei pelas calçadas empunhando minha maleta imaginária, olhando para as pessoas com meu ar de superioridade que me afastava de uma grande maioria. Sentia-me melhor do que os outros, mas por que haveria de esconder isso? Sou branco, bonito e um dia serei um empresário de sucesso, era o que pensava quando via aquele povo feio que tinha a honra de dividir a calçada comigo. Quanta pretensão tola! Hoje sou pó, lembranças e nem sei se saudades. E eles continuam andando pela calçada, agora honrados sem a minha presença estúpida e prepotente. O destino era a universidade. Cursava o sétimo período de administração de empresas. Queria fazer economia também, mas o tempo passou e eu não tive mais tempo. As aulas começavam 9h, mas geralmente eu chegava às 11h ou 11h30min, dependendo da aula do dia. Achava que sabia de tudo, que o conhecimento que me vendiam por um preço altíssimo era desnecessário frente ao meu dom. E por que continuava? Vontade de aparecer e exibir o diploma na sala da presidência de minha empresa. Nunca sequer vendi uma bala. Cheguei, entrei na sala, sentei na última cadeira da segunda fila da esquerda para direita, como fazia todos os dias. Quando se acostuma a uma coisa é difícil mudar. Dá sempre a sensação de que tudo vai passar a dar errado. Era exatamente como acontecia com o tal lugar. Nunca ousei mudar. As horas passavam lentas e eu me agoniava com aquele murmúrio que vinha do professor. Às vezes eles riam e eu nunca ouvia a piada. Sabia que não haveria graça. Tinha alguns amigos naquela faculdade. Uns caras que estudavam comigo, uns de outros períodos ou de outros cursos. Não tinha namorada, mas já havia ficado com quase todas as meninas dali. Nunca dei valor a nenhuma delas, porque eram fáceis demais, interesseiras demais, arrogantes demais. Talvez se espelhassem em mim. Morri sem conhecer o amor. A aula ia até às 13h e eu esperava o momento de registrar minha presença para ir embora. Naquele dia, quando saí era 12h46min. Fui para o restaurante da faculdade, comi o de sempre, um punhado de arroz, macarrão, batata frita, frango e uma coca-cola com gelo e limão. Não foi digno para um último almoço, mas estava realmente saboroso. Só faltou a sobremesa. Voltei para casa e dormi a tarde inteira. Poderia ter ido ver o mar, ou mesmo ter aproveitado alguns instantes a mais ao lado de meus amigos. Poderia ter rido a tarde inteira de besteiras que nos fazem momentaneamente felizes. Poderia ter ligado para meus pais e ter dito o quanto eu os amava e o quanto me fazia falta não tê-los por perto. Mas ao invés disso recolhi-me à minha insignificância numa cama. Dormi pesado, sem sonhos. Quando acordei estava escuro.

Escrito em Salvador, janeiro de 2002.