terça-feira, 29 de março de 2016

Órbita

*

Por Germano Xavier


gravito em dúvidas
como o leite no copo.

você mexe o açúcar
displicentemente,

enquanto a verdade
descansa no fundo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/the-cup-of-coffee-153455305

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
O capital dos dias

Le capital des jours

il ne reste plus rien dans le visage de mon esprit
(je ne suis plus que celui qui attendra dans le hall
la candide sensation des nouveaux venants).

au-delà des vagues, des douleurs d’hommes nouveaux-éveillés
- des mille-pattes attachées à leurs chaînes :
des pèlerins du néant sous forme de capital.

au-delà des ordures, des sachets de courses, des égouts
(ma place dans ce monde est la chambre qui enlace la bonne,
celle qui est doublement épuisée car elle n’arrête pas de nettoyer).

la serveuse ne fait plus attention au regard de ceux qui entrent,
ses doigts témoignent les présences immondes des inconnus,
la cuisinière prépare les œufs brouillés dans la poile sans polytétrafluoréthylène
et tout finit par un goût d’aluminium.

mes veines tordues ressortent du coté du soleil.
ceux qui n’arrivent plus à tenir debout, se couchent :
l’amertume, la honte, l’insécurité, l’impuissance

des fétus s’endorment en rêves de renaissance tardive
en proie au lendemain incompatible des rebelles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Street-255653741

domingo, 27 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014
O anverso do maior prémio

L’avers du plus grand prix

elle est si fine la toile qui ourdit le poème,
si fragile l’amalgame qui tisse le verbe,
si innocente la lumière qui, sans le savoir,
rend tous les nons amers et insolites

l’Homme se promène par l’inexactitude
de ses propres choix, il fait semblant d’être
l’absolu même, sans marquer sa trace précise
sur le sol et divise de façon homogène
les risques du cœur

il erre (car l’errance est en lui-même)

et ignore les pas purs de la souffrance
ceux qui lui ont permis d’être là maintenant

choisie au hasard
la condition vécue et actuelle
s’est présentée : l’Homme que je suis
garde toujours des mains d’ouvrier

il court d’ailleurs vers l’exaltation

entre de petits arrangements
et le prix des blessures
sommons les règles des sacrifices
et rendons possible l’Amour réel!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/S-08-74024399

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 9 de Setembro de 2014
Aquela rua

Cette rue-là

de temps en temps, mon amour
je me rappelle, attristé
que nous étions écartés
par une seule rue

pour t’aimer
comme un fou ou comme un Werther,
j’aurais besoin de franchir un mur
vers la lumière de la vie
et tout imploser

le cœur était froid,
et la rue, large,
les empires du néant ont freiné les inquiétudes
la distance était un phénomène

au delà de ça et bien après, je souris
car je sais que nous sommes encore,
ton essence et moi-même, collés au mur
en épiant les passants, comme des ombres

adaptées à n’importe quel lendemain


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Naked-street-274223788

quarta-feira, 23 de março de 2016

Recado ao poeta quasemorto

*

Por Germano Xavier



"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, 
previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância 
de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator".

(Jorge Luis Borges)


ousadia (você sempre ousava ir mais longe da multidão, ir mais perto das pessoas, dos abismos, dos segredos, dos prazeres, das proibições, das dúvidas, dos centros, dos arredores, das sombras. você sugava o tutano da vida e seguia invencível, irresistível. você ia. sempre ia onde o coração mandava (e os instintos também), nunca deixou de ir onde precisava ou morreria uma parte. ousadia maior do que o próprio ser. dessa paixão incontrolável e vital que torna os homens e mulheres especiais, como você, pessoas que merecem ser lembradas porque viveram suas vidas sem amarras, sem castração, sem covardia, sem desistir de quem são, sem falsos moralismos, não sem medo, mas com resistência e ousadia (cada palavra que você deixa de escrever, quando ela vem, é uma pequena violência que comete contra si, contra a poesia, contra a tua natureza. é autossabotagem, é auto-traição). você é um grande homem. soube desde que te conheci. é infinitamente maior do que todas as regras que te cercam e do que todas as forças que tentam te deter. você é um deus aberto. pedi a ajuda de Rilke. ninguém melhor do que ele falou da impossibilidade de um escritor de verdade ficar sem escrever. "morreria se lhe fosse vedado escrever?" morre-se de não poder ser o que se é. morre-se de amor que não. morre-se disso lenta e diariamente. e não apenas quando se desce ao túmulo. "sou forçado a escrever? se a reposta for "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade... depois, procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde". nós dois sabemos que não passa um dia em que você "rascunhe ao menos uma folha de papel". a caneta está grudada em tua mão, em teus olhos, em tua alma. você olha o mundo com as palavras. teus olhos enxergam em cores de poesia. teu mundo é feito de palavras, sentimentos, beleza, dor, poesia e amor multiforme. "por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. diz que os que sente próximos estão longe. isto mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. se o próximo lhe parecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. alegre-se com esta imensidade para a qual não pode carregar ninguém consigo... mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo". por isso e por tudo o que sei que és, te seguirei de perto sempre, mesmo se longe. estarei perto e tu estarás dentro.

sinto falta de paixão em tua escrita. de fúria. de fé. e me dói saber. havia muita. havia antes. há um bastante indolente sentimento de fim. de perda. de parada. de cansaço. você soa pessimista. mesmo quando não. você soa vencido. parece, às vezes, um animal enjaulado em si e no mundo. mas é muito maior do que as grades invisíveis. só precisa saber e ser. você era uma voz em chamas, não pode ser apenas uma voz trágica. chamas no corpo, no coração, nas letras. tu. tanto que incendiavas sempre quem chegasse mais perto... floresta incendiada por tuas chamas multiformes. hoje sinto peso em tua voz. o peso de teus ombros, a lida desgostosa de teus dias, a falta de tua crença... tudo dói em tuas letras. dói em consonância com a minha dor. ... só sei que te amo e quero te ver alcançando o êxtase de ser. para mim, você é sempre a mesma chama inteira, por isso tremo e queimo perto de você. e longe. sei o que traz dentro. e sinto. eu falo da paixão em cada letra. da vida embriagada de beleza que você via nas coisas. da rebeldia em descrever cruamente mesmo o que poderia chocar os olhos dos hipócritas. da originalidade do olhar, do ponto marginal de onde você via o céu das coisas. um céu só teu. da naturalidade com que expunha tanto o belo quanto o asqueroso, o abjeto. da escolha estonteante das palavras, sem pensar na mediocridade de quem vai ler, mas na integridade e beleza do que você vê. da sua fidelidade às origens, na escrita (o regionalismo brilhando em teus textos)... é disso que estou falando, meu bem. escrever sem filtros. sem pensar antes, sem podar os galhos mais preponderantes. são eles que melhor te representam. entregar-se à tua escrita. isso você fazia. escrevia inteiro, sem negar-se, sem esconder-se. sem considerações prévias, sem medos de repressão. você é que impunha medo. você se impunha. você empunha seu verbo e todos que saiam da caminho.

se eu pudesse resumir em uma frase a tua escrita atualmente, seria: você está escrevendo de olhos abertos. e de olhos abertos, toda escrita é cerceada. citei Borges acima (não apenas porque a ele você ouviria), mas também porque ele fala aqui da indissociabilidade do autor e escrita e leitor. são uma coisa só quando se juntam os três. por isso, o que há no escritor é o que chega ao leitor, sejam quais forem as cores dele. elas que chegarão. sempre. por mais ficção que seja a escrita. ele diz também que primeiro é o escritor que sente o prazer, a paixão, a dor ou o que quer que seja que o poema, o texto, a arte em si possa revelar ao leitor. se ele não sente, tampouco o leitor sentirá. o leitor sentirá apenas o que tiver atravessado a obra, do coração do autor até os olhos e corações do leitor. o sangue vem junto, ou não. quando não vem, é estéril para quem olha. quando vem, a gente é fuzilado pela arte e morre feliz. morre de amor e de beleza e de espanto bom. eu morro sempre com teus textos. morro porque sinto você neles. morro de prazer de ver o invisível e sentir o que estava em você e compreender tão bem, mesmo que não os tenha vivido. é preciso estar cego de paixão para escrever apaixonadamente. e não importa pelo que. pode ser até paixão por uma cebola. mas é preciso paixão. vital paixão. e eu gostaria de dizer: apaixone-se por algo, mas nós dois sabemos que paixão, assim como o amor, é algo que não se fabrica, não se planeja e não se controla. paixão é bala perdida.

sobre escrever de olhos abertos, penso que está censurando a sua escrita antes mesmo de ela ser um feto. está matando-a no ovo, ou seja, em teu coração. tua escrita está desvinculada de tua célula-núcleo. você a está enfraquecendo e disfarçando-a ainda na fonte. tua escrita não tem te representado de fato e de verdade. apenas ao homem público que você tenta ser. você a está cortando-a, mutilando-a, disciplinando-a, domando-a (por mais motivos do que eu possa imaginar). mas imagino que um deles seja pensar no efeito dela em a, b ou c (o que a pensará disso que escrevi?) isso eu não posso expor, isso eu não posso revelar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso insinuar, isso eu não posso sentir, isso eu não posso criticar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso desejar... isso eu não posso por nas entrelinhas. e se eu por, terá que ser bem simbolicamente, bem incompreensível (assim a clareza dos poemas é comprometida, porque por mais "pós-moderno" que um texto possa ser, precisa ser minimamente compreensível aos leitores médios, ou será apenas um quadro abstrato, surrealista, inacessível, impossível...) lembra de quando as pessoas vinham se identificar com teus textos dizendo que você escreveu exatamente o que elas vivem? era porque você escrevia o humano visceralmente. assim que é a vida, humanos em redemoinhos, em conflitos, em desalinho com o outro, com o amor, com o mundo, consigo. é o homem em desejos insanos, em êxtases de prazer e de dor, em descobertas do novo, em tentações de sensualidade, em tentações de "pecados", em quedas e arrependimentos, em paraísos provisórios que acreditam eternos, em perdas e danos, em quedas livre, em subidas ao céu, em apocalipse, em arrebatamento. enfim. é o caos. somos caos. escrever humanamente é escrever sem restrições, sem medo de expor as vísceras, sem pudores. mas você "civilizou" demais a sua escrita. e assim, você cria um código de "honra" para a sua literatura, um cânon, uma limitação, um território pré-definido, uma fronteira intransponível, uma vida literária reduzida ao "politicamente correto" de sua atual vida atual. tua literatura tão livre e descomprometida antes, você agora tem tentado moldá-la aos padrões aceitáveis ou mais recomendáveis e assim, destituindo-a de tua própria essência (ícone maior de tua escrita, ela própria, em suma). sem tua essência (apaixonada, febril, inquieta, impulsiva, corajosa, um pouco inconsequente, atrevida, sensível demais, curiosa, camicase, solitária, filosófica, divergente, insurgente, resistente...) a tua escrita é apenas um compêndio estética e tecnicamente produzido e organizado por um homem que escreve muito bem e até impressiona. mas só. mas como Capote falou, com o dom, vem também o chicote. é a tua essência que dá energia, brilho e sedução à tua escrita. com a tua essência a tua literatura impressiona, apaixona, aprisiona, fascina, gruda feito gosma verde, feito lodo velho, feito barro novo, feito placenta. sua escrita está aprisionada em sua mente. ela é livre em seu coração, mas você não permite que ela chegue ao papel como foi concebida. você a "trata" em sua mente, perdendo assim a rude beleza de sua forma original. e sabe de uma coisa... conhecer você é um abismo maior do que eu. porque você me desconhece. me desconhece profundamente. não que não me adivinhe, até imaginas como sou. mas não te interessas em saber por que. e não é porque ache que não saber é poesia.( estou no final da tua lista de atenção e interesses e sei que não me leva a sério). é simplesmente porque não queres saber. você me ama e me desama em esquecimentos. porque sei como é o teu querer, o teu querer é foice, facão e salto. quando queres com paixão, arrebentas os muros, as cercas, as convenções. e me dói saber que não fazes mais isso. nem por mim (nem em meus melhores sonhos espero isso, porque sei que não, nunca), nem por ninguém, nem por nada. e eu quero te ver fazendo isso, não importa por qual razão. me sentiria melhor em saber que estás doentemente apaixonado por... e sendo o vulcão que sempre foi do que estando tu apenas vegetando a vida, sem paixão e sem audácia...você se domesticou. se tornou um bom homem dono de casa, dono de nome, dono de um jeito pré-definido de agir. está cortejando a massa, embora ainda não seja ela. ainda sejas um sujeito-além, uma voz em chamas e um destino a se construir. sabemos que os altos, os montes, as estradas, as praças, os monumentos, as favelas, as tribos, os vales, os horizontes, as distâncias, as delícias, o imprevisível e os dias sem agenda te esperam, você ainda não se inaugurou em muitas coisas. não pense que já. o melhor, o que ainda não, ainda está por vir. assim, sinta a palavra sem cálculo tocando na pele como um raio de sol, simples como uma gota da chuva de ontem à noite, deixa ela chegar sem pensar e passar de teus olhos para o coração e escorregar para os dedos sem passar pela cabeça. assim, beije a palavra sem nojo, sem assepsia, sem necrópsia, sem autópsia, sem anomalia. corpo natural sem prosódia, sem retórica, sem gramática. como palavra nua. assim, a palavra é a saliva doce de quando beija a vida e faz amor com a poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/la-fin-de-l-ete-02-66190022

sexta-feira, 18 de março de 2016

Texto ou Discurso: uma questão de teoria de gêneros

*

Por Germano Xavier


Rojo (2005), em seu texto intitulado de Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas, discute a ampliação das investigações científicas acerca das teorias de gênero e evidencia o importante papel que os novos documentos referenciais nacionais tiveram neste quesito - a citar os PCNs, por exemplo. Tais bases teóricas, para a linguística em geral, incluindo a vertente de aplicação, estão demasiado vivas no contexto atual.

Para fins de apreciação, a supracitada autora divide seu olhar em dois prismas: o primeiro voltado à teoria de gêneros do discurso e o segundo à teoria de gêneros de texto, mesmo dando a perceber uma preferência pelo olhar legado à teoria de gêneros discursivos em detrimento da esfera de gêneros textuais. Ambas de natureza referencial bakhtiniana, se assim pode-se dizer, dadas às devidas proporções, a teoria de gêneros do discurso foca prioritariamente no estudo das situações de produção dos enunciados/textos, sem deixar de lado orientações de cunho sócio-históricos e a teoria de gêneros de textos visa o estudo da materialidade textual em si.

As linhas limítrofes de separação e/ou diferenciação das duas teorias aqui expostas não são postas às claras no texto, o que pode causar certo embaraço no tocante ao entendimento de quem lê o material. O pensamento bakhtiniano está presente nas duas vertentes ideárias como um elo norteador (ou não), percorrendo desde os conceitos fomentados por estudiosos do naipe de Marcuschi e indo até os pensamentos de Bronckart e de Adam. No total dos casos averiguados, presencia-se uma preocupação para com a finalidade descritiva do texto (teoria de gêneros textuais), jamais sendo percebido (no caso, o gênero) como um universal concreto.

Na tentativa de configurar um confronto entre as diferenças existentes entre gêneros do discurso e gênero de texto, a autora (meio que) estabelece como parâmetro-mor para todos os estudiosos que adentraram as nuances da teoria de gêneros do discurso o livro Marxismo e filosofia da linguagem, de Bakhtin/Voloshinov, publicado em 1929. O foco, para esta proposta de análise, está em três dimensões: os temas (conteúdos ideológicos conformados), seu arcabouço composicional e suas configurações de ordem das unidades de linguagem. De modo que, assim postulado, tais dimensões possuem ligações fortíssimas com as diversas situações de produção das enunciações, também sofrendo interferência das devidas apreciações valorativas do locutor (tema) e do interlocutor (discurso).

Ainda sobre as caracterizações inerentes à teoria de gêneros do discurso, e tomando Bakhtin/Voloshinov (1929) como como ponto de apoio, entende-se que toda e qualquer investigação que envolva expressão-enunciação deve passar pela averiguação conjunta da situação social mais imediata que o contextualiza. Tais relações, que se dão substancialmente no âmbito das parcerias ligadas à enunciação, agregam interesses constitutivos e de organização, como a citar o apelo às esferas comunicativas, dividas, pois, em esferas do cotidiano (família, comunidade...) e em esferas dos sistemas ideológicos constituídos (moral, ciência, arte, religião...). O comboio discursivo que estas esferas de base comunicativa elaboram termina por justificar a existência de conjuntos de gêneros mais confiados a demandas sociais definidas e emancipadas.

Em outras palavras, a perspectiva engendrada pela teoria dos gêneros do discurso parte não das estruturas formais da língua, mas antes visualiza o aglomerado de informações de cunho sócio-histórico que envolve a enunciação e todo o seu processo de produção sem, contanto, deixar de lado a importância de se avaliar estruturas composicionais e de estilo em seu respectivo objeto de estudo.

Por fim, ao colocar a referida discussão sob a égide da linguística aplicada, a autora preconiza, novamente, que o mais importante seria lotar o ensino de gêneros em salas de aula de língua portuguesa a partir da compreensão de língua enquanto movimento e processo, em cuja instância de legitimação e uso se dá o contexto-móvel em diálogo intermitente com as situações enunciativas, desprezando assim a faceta mais atrelada ao estudo descritivo dos elementos do texto.


REFERÊNCIA

ROJO, R. H. R. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

domingo, 13 de março de 2016

A Poesia que me pariu

*

Por Germano Xavier



Onde guardei a minha língua de trapos?
Onde a minha acidez?
Onde o meu "foda-se o mundo"?
Onde a minha cara de "tô nem aí"?
Onde depositei o canivete verbal?
Onde a estonteante dança de sentidos?
Onde o indecifrável enigma entre(i)dentes?
A peixeira de Lampião dos adjetivos cortantes?
Onde deixei a cartilagem linguística, tubarão branco das palavras difíceis?

Busco em meus dias mais distantes
o fogo ancestral, a indomável chama
que me queima em noites de lua cheia,
a febre que me torna eterno,
a indestrutível paixão primitiva pela palavra-alma.
A Poesia que me pariu.


era uma vez um poeta irônico, por vezes sarcástico, raramente romântico, sempre ferino, sempre inteiro// era uma vez um poeta em mim//



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-Hedonist-s-Profile-15057920

quinta-feira, 10 de março de 2016

Um intenso toque seco

*

Por Germano Xavier


a meada, como um risco.
a identificação, como um selo.
a fornalha, como um mote.
a palavra, como um apelo.

porque nascerão almas com o diabo no corpo
e nada será feito para pará-las

//a maquinaria humana é uma arte.

a proteção inteligente será dada por agouro.
nossas rotas não terão o caminho do meio.
tudo se adaptará à falta.
viveremos sem perfumes.

e o perigo, este extrato,
este não.


* Imagem: http://lcvii.deviantart.com/art/Blues-Bar-166626613

domingo, 6 de março de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XI)

*

Meu querido Viana:

Desde a tua última missiva de 7 de Janeiro que tenho andado literalmente a ruminar as tuas palavras e o que me contas. Sendo o conteúdo o mesmo, creio que o aprecio diferentemente conforme os dias.

Ficou-me na memória o teu relato sobre o incêndio na Chapada Diamantina, o que me fez recordar os incêndios que por estes lados grassam também todos os anos. Ficam quase sempre por esclarecer, mesmo que muitas hipóteses sejam levantadas quanto à sua origem: desleixo, mão criminosa manipulada por construtoras gananciosas e inescrupulosas, atos de puro vandalismo ou praticados por algum pirómano, julgo que já vimos de tudo um pouco, se não provado, pelo menos no terreno da especulação. Em tempos falava-se de chuvas ácidas, argumento que tem vindo menos à baila ultimamente. Em todo o caso é escandaloso e trágico o que se destrói em todo o mundo como consequência dos incêndios, todos os anos, sem que consiga pôr em prática um conjunto de medidas preventivas realmente eficazes. As matas são extensas e não se pode vigiar cada mm² de terra. Nem de maldade humana, malícia ou seja o que for.

Também sobre a tua nota sobre Borges, de quem nunca ousei ser verdadeiramente fã, talvez por achá-lo grande demais para os meus olhos, fiquei fascinada com o texto que encontraste sobre ele. Tenho uma curiosidade grande em saber quem seria a autora mas talvez seja bom resguardar esse mistério e manter o foco no texto, de uma beleza dorida e instigante. Só as mulheres são capazes de (d)escrever tais coisas, ou alguém que possa sentir como elas, como nós. Retenho uma das frases finais: “Se na minha lápide estiver escrito apenas “Uma mulher que amou um poeta”, eu ficarei feliz”. Pode ser que um dia escreva o mesmo, som por som, tecla por tecla.

E sim... Viana, eu também adoro surpresas, sobretudo as programadas e que se saboreiam com antecedência!!!. E gosto muito de aprender contigo palavras e significados, como o verbo “embonitar”, essa derivação tão suave que aplicas com delicadeza, de tal forma que já faz parte do meu vocabulário também. (Mia Couto, aqui vou eu, aqui vamos nós, de asas abertas para todas as derivações que nos tornem os dias mais azuis. E aqui faço uma vénia respeitosa a ele, o homem que escreve prosa mais poética que a própria poesia e que me ensinou outros mundos através de derivações e corruptelas roubadas à língua dos falantes, magníficas e improváveis: a “subfície” do mundo, o papel “marrotado”, “rodilhar” o coração, as letras “incertinhas”, ou a velha que insistia, “cismalhava”. Não é de uma beleza imensa que escorre pelos olhos?). A minha filha dirá, quando nos ler, que eu sou realmente a mulher dos apartes longos….

Sobre silêncios, muito haveria a dizer ainda e mais, creio eu, a calar. Pressinto que concordas. Mas não gosto de silêncios que afastam, apenas daqueles que nos servem para renovar o fôlego e arremeter com mais força ainda. E como vão os teus, meu amigo?

Subscrevo inteiramente a tua ânsia de viver o repentino, o inusitado. Ainda não cheguei à fase de preferir essa paz rotineira, como pano de fundo. A minha inquietação é-me vital e a paz apenas uma fugaz consequência porventura salutar por efémeros instantes e nalgumas tardes chuvosas de domingo.

E não posso deixar de comentar a tua descrição sobre o lamentável episódio de racismo e esnobismo, no caso do grupo que condenava de maneira claramente preconceituosa a relação da médica com um “atendente”. Eu também já presenciei atitudes baixas como essa inúmeras vezes na minha vida e causam-me sempre uma incontida revolta. Como se a felicidade e a facilidade de relacionamento entre pessoas dependesse do grau académico ou da cor da pele! Tais comentários revelam uma ignorância atroz, maldade, intolerância, desconhecimento do mundo e das pessoas. Pensar que uma relação só pode ser bem-sucedida entre duas pessoas do mesmo nível social, status, padrão financeiro, grau académico, cor de pele e outros parâmetros da mesma índole é de uma ingenuidade espantosa, próxima do embrutecimento. Custa a crer que estamos em pleno século XXI. “Nauseabundos”, o teu adjetivo, resume tudo. Numa análise mais desapaixonada, e não sendo psicóloga nem socióloga, diria que por motivos óbvios é mais fácil pessoas aproximarem-se quando têm interesses comuns e um estilo de vida parecido. E percursos de vida que facilitem os encontros, que tornem mais fácil e fluido o convívio. Mas as exceções são tantas que seria ridículo querer definir um paradigma de aproximação que garanta o sucesso de uma relação, seja em termos afetivos, profissionais, ou outros. Graças a Deus que fomos poupados a uma educação tão isenta de valores, tão flagrantemente preconceituosa.

Resistamos, pois, meu querido Viana.

Sobre as novas experiências que fazem doravante parte da tua vida, fico feliz e vagamente curiosa por saber do teu interesse pelas artes marciais e da tua dedicação ao desporto, ao cardio-fitness, pelo que percebo. Li algures que o exercício físico é um antidepressivo natural, do melhor que há, a usar sobretudo de forma preventiva. Eu fico-me pelas caminhadas e pela dança, que me são vitais, embora me abra a ambas de forma inconstante e algo rebelde.

Solidão, nem vê-la! Façamos um pacto: eu ajudo-te a livrares-te da tua e tu ajudas-me a correr com a minha. Que se entendam ambas bem longe de nós!

Por aqui posso dizer-te que nesta teia que construímos os dois fica ainda muito por contar. Houve por cá uma eleição presidencial com resultados previsíveis. Entretanto a nossa constituição não confere poderes por aí além ao PR pelo que este acaba por tornar-se uma figura meio apagada, um árbitro que dirime conflitos, uma figura para a política externa. O nosso homem dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa, é um catedrático muito respeitado no meio académico e um analista político conhecido, com ampla exposição mediática desde há décadas. Um sedutor, carismático e orador invulgarmente dotado. Quanto ao resto, leia-se, ao futuro imediato, veremos. Há o saber e há o saber fazer. Poderá um bom treinador e comentador de futebol jogar como avançado? Ou à defesa? Ou à baliza? Tem graça estas comparações vindas de alguém que entende ZEROxZERO de futebol!

Falando de mim, de coisas que nos interessam a um nível mais pessoal, tu sabes, penso eu, que estive com a Cris naquele pequeno paraíso chamado Vimieiro. Aquela menina é uma amiga de toda a vida e para a toda a vida. Nós comemos, bebemos e conversámos como já nem se usa, aprendemos uma da outra e partilhámos mesa e diversão. Passeámos e sentimos a tua falta e ao mesmo tempo a tua presença. Fotografámos e fizemos comidinhas boas, regadas com bons tintos alentejanos, ensinámos e aprendemos Alentejo afora, prometemos viver mais aquele pequeno paraíso com amigos que queiram lá estar e beber daquele ar e mansuetude. Este é o Vimieiro que tu vais conhecer, bem perto de Évora, de Estremoz, perto do céu. E falando em prazeres simples e doces e em cultura, não posso deixar de voltar a desafiar-te para ouvires a nossa querida Sant’ana, uma e outra vez; ela canta nos mais variados registos, para além de mornas canta também alguns clássicos da música romântica que incluem Marisa Monte e Elis Regina, Ruy Veloso, Elvis Presley e temas de fado. Consegues imaginar tudo isso? Se não, vem para cá. Agora.

Que mais te posso contar? Do que tenho, nada, porque não tenho nada. Do que sou, nada também, porque já sabes tudo, ou quase, ou o que importa. Do que vou vivendo, do que vou sorvendo da vida. Um pequeníssimo episódio: há dias num hospital privado duas amáveis senhoras faziam recolha de donativos para uma instituição que ajuda crianças vítimas de maus tratos; perguntaram-me assim: quer colaborar? aqui cada um dá o que pode. E eu respondi apenas: vou dar-lhes o que não posso, porque o que posso eu já dei... as senhoras escudaram-se num sorriso surpreso e receberam com gentileza o meu minúsculo donativo. (Quanto menos podemos dar, seja o que for, mais sentimos esse apelo, não te parece?).

Viana, estou feliz por voltar a encontrar-te por aqui, porque tu me incentivaste a comunicar. As coisas não têm sido fáceis, mas nas nossas trocas de impressões e de afetos chega a parecer que são.

Recebe um abraço imenso e forte.

Até já, Clara.

Lisboa, 16 de Fevereiro de 2016.


*


Clara, boa noite.

Aqui o relógio marca exatamente 19 horas e 29 minutos de uma noite razoavelmente fria e aprazível. Você começa seu palavreio me recordando incêndios em minha terra natal. De uma alma sensível cair em prantos, eis a verdade. E eu começo proferindo um "não", minha estimada Clara. Definitivamente, não gosto de pessoas sem coração. Não há afeto. Pessoas assim tocam fogo na beleza do mundo. Só me interesso por pessoas excepcionais, marginalizadas, desconectadas do padrão ocidental do que é ser uma pessoa bem sucedida e feliz. Pessoas divergentes, excedentes, mendigos, prostitutas pobres, artistas de verdade (não os palhaços do circo comercial vigente, mercenários tolos, vazios bonecos de plástico), de pessoas excomungadas, inconvenientes, solitárias, revolucionárias, desertoras, rebeldes com causa, sobreviventes, guerreiros da paz (com ou sem armas), pessoas que se recusam, que fazem a hora, que vão embora, que ficam, que choram, que praguejam o inimigo, que alardeiam suas vísceras feridas pelo mundo, pela vida, pelos porcos no poder. 

Pessoas que ardem, que resistem, que se espantam, que produzem, que destroem paradigmas, que desmentem dogmas, que sacaneiam a sorte, que riem do diabo, que desmascaram a religião, que defecam no chão dos salões imperiais, presidenciais, bestiais, celestiais, catedrais de cocô. Pessoas não-covardes, não-passivas, não-conformistas, não-consumistas, não-intolerantes, não-radicais religiosas, não-radicais político-ideológicas (?), não-radicais, não-hipócritas, não-retóricas, não-demagógicas, não-ignorantes por convicção, não-arrogantes por opção, não-materialistas por missão, não-preconceituosas por falta de humildade ou conhecimento de causa, não-medíocres, não-políticas, não-raquíticas de alma. Como vê, sobra pouco. Mas estas pessoas existem. Elas são comuns e bastante simples. São fáceis de encontrar por aí, por mais incrível que pareça. 

Não. Definitivamente, não gosto de pessoas desalmadas. Gosto de gente simples. Gosto de almas puras. Purificadas pela Poesia de ser humano. Pela consciência da beleza de sobreviver no mundo apesar dele. Sem ser dele, sem ser ele, sem ser cópia, sem ser carbono. Eu sou sangue. Amo a água que corre em minhas veias. Amo o amor doído que há em meu peito. Amo você, Clara, mulher de alma e forte. E esta é mais uma bela forma de resistência.

Desculpe-me por iniciar meus dizeres de forma tão firme, como agora. Há momentos em que o coração da gente pula, saltita feroz e até age por impulso. Pulsamos inteiros, completos, incompletos. É pelo que a sua filha lhe diz, seus apartes longos, que você muito me encanta, Clara. Você é verdade e suas palavras revelam seus valores. Inventariar palavras é coisa boa, bonita, profissão dos grandes artistas das palavras. Nós, feitos de linguagem, apreciamos além. E que seja assim. E que sejamos assim, réguas disformes construtoras de mundos.

O silêncio pode esconder moléstias. É uma obra de dupla organização. Vez ou outra, escolhemos guardar coisas dentro da gente e isso pode nos fazer muito mal. Noutras, o guardar observa gestos de inteligência. Contempla a paciência. O silêncio pode até nos levar à paz. Esta paz que ainda não lhe chegou com afinco, Clara. Mas que chegará, creio. Você a quer?

Ainda sobre esta paragem acerca do inusitado em nossas vidas, conto a você um caso que me ocorreu ainda no meio desta semana. Tudo começou com uma inocente caminhada e terminou num delicioso banho de chuva. Foi um daqueles momentos em que você diz: isso sim é a vida! Quando ela acontece puramente, sem planejamento. Ela simplesmente vem e arrebata tudo. Eis o improvável que me aconteceu hoje. Como de costume, saí para minha caminhada. Estava no ginásio onde corro quase todos os dias e ele estava quase vazio. Apenas umas três pessoas caminhando e observei que havia um homem nas arquibancadas. O ginásio tem um campo de futebol cujo gramado é cercado de cascalho, onde as pessoas correm. Ele estava lá. Sentado sozinho nas arquibancadas de concreto vazias, ele parecia bem pequeno e visualmente solitário - logo descobriria que não era apenas visualmente. Não resisti à curiosidade. Depois de várias voltas no campo, observando ele ali sentado, sem se mexer, parecendo uma estátua, resolvi que iria falar com ele antes de sair.

Aproximei-me meio sem graça, esbocei um convincente sorriso e ataquei: Boa noite!... Minutos depois estávamos conversando como velhos amigos. O homem tinha uns trinta ou trinta e cinco anos. Aparência de professor de História ou aluno de Ciências Políticas ou afins - obviamente uma barba preponderante, maior do que a maioria dos homens usam quando querem apenas ter uma barba e não somente passar uma imagem de intelectual de alguma ciência alternativa ou ideia política subversiva (risos). Mas, além da barba, ele tinha o restante do corpo branco, magro, retraído, queimado de sol. Afora isso, era bonito, até mesmo atraente de um jeito incomum. Era triste, mas doce. Um rosto acolhedor. Meio sorriso estático, permanente. O olhar era meigo. Quase suplicante. O aspecto geral de sua figura era de alguém confuso, perdido. Estava bem vestido. Uma camisa polo listrada de fundo azul escuro, uma calça jeans razoavelmente nova e tênis. Um típico homem de um grande ou médio centro urbano à paisana. 

Naturalmente, deduzi que ele era um dos moradores do bairro nobre onde estávamos, algum professor ou crítico literário. Ele (à revelia de todas as evidências contrárias: boa aparência, inteligente, desenvoltura de trato, charme, controle das atitudes, etc) era um morador de rua. Ou, como é o mais "politicamente correto" atualmente - apenas mais um ridículo e ineficaz eufemismo -, uma pessoa em situação de rua. Havia se mudado para a cidade onde resido atualmente há onze anos, vindo da cidade de Araraquara, no estado de São Paulo. Depois de perder os pais, a irmã e o marido dela ficaram com a casa e ele, não tendo onde morar, migrou em busca de emprego e uma vida nova na capital. No começo, trabalhou num mercado, mas foi demitido e, antes de encontrar outro emprego, estava na rua. Já morou na Avenida Paulista, dormiu embaixo de todos os viadutos, pontes, marquises, no Parque Ibirapuera, onde for mais seguro e quente ele acampa. Para sobreviver, faz artesanato com diversos materiais recicláveis, porque não gosta de pedir. Disse que não usava drogas e apenas tinha sido alcoólatra há muitos anos, mas agora se mantinha sóbrio. E parece ser sincero. Mantém aquela concentração quase dolorosa dos sóbrios. Um hippie nas ideias e nas atitudes. Terminou o ensino médio e tem vasto conhecimento geral, especialmente de política, filosofia, astrologia e música. Recusa-se a ter um celular para não agredir o meio ambiente. Fala do consumismo e da incapacidade do dinheiro em trazer felicidade. 

Um idealista, um inconformado, um vencido pelo sistema - ou decidiu vencer o sistema se afastando dele? Disse que não quer mais sair das ruas, que não se adaptaria a um emprego normal e que não tem sonhos, além do sonho de não ir para o inferno. Sim. Inacreditavelmente o meu amigo mendigo acredita em Deus. Não tem religião e nem vai a igrejas, mas acredita no criador do mundo, da vida e ainda que ele está muito insatisfeito com o estado atual do mundo. Não soube responder, porém, quando lhe perguntei por que ele não faz alguma coisa a respeito, já que está insatisfeito. Sorriu. O meu amigo apenas sorri quando nada pode fazer. O sorriso quase apagado é sua marca no mundo. 

Precisava voltar para casa, mas a chuva chegou antes. Torrencial. Ele quis me acompanhar até perto de minha casa para me proteger no caso de algum ataque do mal. Deixei. Caminhamos na chuva por algumas centenas de metros, na avenida principal do bairro. Conversa animada e simpatia mútua. Ele estava encantado com o fato de eu não ter medo dele, nem nojo, nem suspeita - confesso aqui que a suspeita não estava de todo ausente, mas não me deixo vencer facilmente. Por isso me despedi um pouco antes de minha casa, alegando que faria o restante do caminho correndo. Um dos homens mais gentis e esclarecidos que já conheci. Um Cidadão do universo. Um resistente. Eis mais um exemplo das maravilhas do inusitado em nossas vidas, Clara. Eu guardo estes sujeitos em minha formação humana como livros lidos. Livros transformadores.

É dessa resistência que a humanidade necessita. E nisso, Clara, a gente se ajuda. A gente se anima e seguimos assim, confiantes, entre palavras e rumos. Solidão não é coisa boa em todas as horas. Solidão tem hora certa para ser boa. A presença das pessoas, em todos os cantos, o convívio com elas, mesmo sendo em momentos de exercitar o corpo, auxilia o desenrolar da vida e até nosso autoconhecimento. A prática de alguma arte marcial é por mim observada como uma ponte para nós mesmos. Trabalha-se muito o equilibrio entre a força e a mente. Já experimentou a prática de alguma, Clara?

Tem graça sim, Clara, a tua comparação político-futebolístico. Torço para que as coisas se ajustem por aí e que os discursos todos sejam cumpridos em verdade. Aqui no Brasil, o panorama político – se é que se pode classificar assim – não anda nada animador. Fizeram um rombo enorme na nossa maior empresa estatal, a Petrobrás, e agora os corruptos estão se degladiando para ver quem escapa com menos feridas. Uma jogatina de interesses que dá nojo de ver, Clara. Coisa sem tamanho! Coisa imensa!

E mesmo imaginando todas as belezas que me contas, Clara, as suas, as da Cris, as da Sant’ana, mesmos suspeitando de tudo, vou aí de igual maneira. A vontade só aumenta e um dia seremos nós todos, juntos, em apreciação do Belo e da Vida. Dar-nos-emos inteiros, por amor ao amor e ao outro. Ah, Clara, e este relato final! Quanta sinceridade em sua fala! Pois que a vida só tem sentido se compartilhamos ela, em doação mesmo, em todos os aspectos. E são nestas doações de nós que nos fortalecemos. Não é assim com o ofício do texto, da palavra? Para quê serviriam se não pudéssemos partilhá-las?

Com um rude apreço por ti e por todos que te cercam, despeço-me por hoje, Clara. Na certeza de que o Atlântico não é tão grande assim.

Beijos deste marinheiro embarcado no sem-destino, corajoso o suficiente para adentrar o alto-mar.

Caruaru-PE, 06 de março de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Verbo meu escrito com sangue

*

Por Germano Xavier


há tempos é outro dia
horas me confundem
preso no limbo da noite
incapaz de prosseguir
sem antes beber
triste e fracamente
de teu copo agridoce
líquido amor-sem-mais


Foi Nietzsche quem disse que só amava os livros escritos com sangue. Minha vida, minhas palavras, livros, letras, escolhas e memórias, foram e são escritas com sangue. Sou inteiro: um livro escrito com sangue (livro meu e de quem o vê). E eu tenho o mesmo gosto de Nietzsche. Por isso sinto o cheiro das palavras que emprego, sinto o engasgo delas, o espanto de seus sentidos, o gosto de seus respectivos sabores e dissabores, a pausa que cada uma possui, o encantamento, a velocidade, o respirar. Sinto o riscar de minha caneta no papel, o arranhado, leve, minha pele, por dentro. Por isso não me deixo me deixar. Meu corpo não me deixa me deixar. Meu espírito (se houver um) ou o que quer que não se vê e que grita aqui dentro de mim e rosna de dor longe de quem realmente sou; essa coisa viva aqui dentro também não me deixa me deixar. E eu aprendi a amar o que dizem as minhas palavras e o que diz (muito mais eloquentemente) o meu silêncio. E me olho, mesmo quando não estou. Mesmo quando não há uma imagem minha à vista. Vejo-me quando estou acordado, quando durmo me sonho (em histórias de realismo fantástico), quando penso, quando olho para dentro de mim e até quando me olho no espelho. Eu estou quando estou. Eu, livro e capa, sou a minha sombra, por dentro e por fora. Mesmo que eu nunca mais me toque, por toda a vida levarei todos os meus toques, em cada centímetro de minha pele e de minha memória. Portanto, não analise o meu amor pelo verbo ensanguentado que sou. Não o julgue. Nem o classifique. Não o conceitue. Nem o hierarquize. Não o disseque. Nem tente entender. E se ele não se encaixar em tua amorosa caixa o desnomine! Chame-o apenas poesia, o que não podes desconhecer! Amo-te tanto, verbo meu de sangue, que não posso te amar de perto, porque perto é muito. Vou recuar passos para não perder o chão. A dor que me dói mais não é a tua ausência aqui, por vezes. É a minha ausência aí. Sou desimportante para você - pois não quero usar indiferença e descaso, palavras agressivas e ingratas. O que é importante não se escolhe. É o que ocupa a nossa mente, o nosso coração, o nosso olhar, logo que acordamos. É aquilo que quando temos pouco tempo, achamos um jeito de estar presente, de ser, de lembrar, de cultivar, de estar em pensamento, no pensamento, sentimento. É o que domina as nossas vontades, incontinenti. E que, sem nenhuma interferência nossa, se interpõe, se sobrepõe, a tudo o que fazemos, somos, queremos e pensamos - e nem cheguei perto de falar do que amamos. Falei apenas do que prezamos. Do que gostamos e do que nos importamos com. Por isso me sinto morrendo... (porque quando estás comigo, mesmo da forma mais precária que uma presença possa estar, é que consigo respirar melhor, de corpo e alma. E até minha inteligência aflora). As vontades ficam variadas e levemente doces. A vida passa a ser levemente feliz, em momentos vãos, que antes seriam simplesmente Tempo Morto. Tempo Nulo. Mas não estás, vezenquando. E me dói ver-te se esforçando para me fazer não notar que não somos nada. Menos do que nada. Somos menos um. Pois até para a ilusão a dois é necessário dois. E somos um. Somos eu te amando em masturbação amorosa (e nem é a dois). E tu quase se aborrecendo em quase-culpa e quase-interesse em meu exílio de mim nesse amor por ti, verbo meu de sangue! E eu te escrevo com a liberdade de quem sabe que não receberá resposta, nem a mínima interpelação. E eu poderia divagar, inventar e acreditar que tu te importas e dizer que a música que está tocando aqui agora é bonita como aquela que nunca tivemos. Mas seria só superfície. No fundo, o que sinto é quase-ódio dessa tua ausência abismal. Determinista. Terminista. Máxima elucidação de não ser. E sinto quase-ódio de tudo o que não é você aqui e de tudo o que não somos nós no mundo em alguma forma diferente do que a não-forma que tomamos há tempos, em todos os tempos. E melhor era quando não tentávamos criar forma alguma porque assim não sabíamos que não havia forma fabricada para nós neste mundo-presente-real que nos esconde da morte. E nos entrega a tantas outras de morte diariamente e sem descanso. Minha morte mais estúpida é não estar em ti, um pouco que fosse o suficiente para me fazer saber-sentir-estar. Mas o que sinto é o calibre da distância, a espessura do muro, o mistério do abismo que nos separa. De nós. Do mundo. Da ficção. Não te estrago em mim. Seria engraçado se pensasses que eu tenho essa intenção. Ou que deixarei isso acontecer enquanto estiveres vivo. Mesmo que eu não tivesse mais motivo algum para levantar, levantaria bem depressa para correr os dias que separam o hoje do dia em que te verei novamente. Certo que não sei se me verás. Mas juro que te verei. Para viver. Porque tu-vivo. Porque te amo. Foi Mário de Andrade quem disse "eu não me amo, eu me persigo". E eu te digo hoje que não te amo, te persigo. (Per)sigo, no sentido de seguir de perto. Sigo-te de perto nos anos, na memória dos toques, nas invenções de palavras, nas criações de amor de amor, nas noites de saudade doentia, na sensação de morte quando não te sinto perto, nas tentativas de não te amar, nas dores que a tua ausência (e não apenas a física) me impõe, nas tentativas de te ignorar no universo dentro e fora de mim, no tempo do nunca-ser. Sigo o teu rastro. Se olhares bem atrás dos teus passos, verás um rastro menor, quase apagado pelo vento: o meu. Eu te persigo pelas beiradas do tempo, dos acontecimentos, das convenções. Sou uma não-escolha que te ocorreu. Escondido entre as árvores, soturno, quase não me notas entre a folhagem exuberante das árvores que te cercam. (Per)seguir é mais do que amar. É não poder viver sem. Nem viver separado. Nem cirurgicamente. Nem pela morte. Por isso te sigo. De perto. De dentro. Por isso sou teu afluente, teu rio. Imenso. Indomável.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/This-Solitude-26140608