sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Fagulha


Por Germano Xavier


#1


para avivar os sentidos e lubrificar
as engrenagens da alma e do corpo
(antes que tudo vire pó),

é preciso a fagulha
de graça ou de fome,

é preciso a semente de fogo
para fazer incêndio, para queimar as mãos
no processo de fazer vida.

antes
que tudo vire passado,
é preciso a fagulha

para fazer valer o tempo
que se consome no corpo,
para transformar espera em saudade milenar,
que arderá nas estações...

é preciso a fagulha

para mudar o curso, para buscar o verbo,
para arriscar o olhar em busca de ouro.
... e depois de escavar, saudar os deuses

e morrer em paz.



#2


para morrer em paz,
para existir na falta do fogo
ou no fogo da falha da falta
da paz, da existência mínima.
para viver em paz, para morrer sem paz,
minha obra ficou no aquilo que for,
no que vamos levar em que não seja
o que vier ou o que gerarmos.
para sempre, para mim, é o lugar
para ir e para ser e para sermos, então,
sem para quês nem por quês...

pensar nisso que não apequena
por dentro em nós o que em mim,
nisso que sim, disso

a decisão, eu me disse
de acender os que são,
como o não, como o pão, o trigo da vida,
escada do ser em ir, ou simplesmente,

essa fátua fagulha.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/fagulhas-189702458

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Kahlo



Por Germano Xavier



vejo Frida no passo da dança,
na frágil criança interior da bailarina,
que bolera sua cachucha – sua sina –
ventre-mulher forte que agora avança

pelas sendas das mentes mundanas,
libertárias, visionárias, independentes.
Frida há no México de todas as gentes,
e nada cala tantas e tais dores humanas...

Frida existe no temporão início
da fé, do amor, da paixão, no princípio
e no compasso, cantada por simples vozes
na inconteste e rasa vala dos inesquecíveis.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Frida-Kahlo-pencil-sketch-651151097

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXII)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



VERSÃO 1

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016
Quinquilharias


Quincailleries

Je te traverse, telle une vague couverture
Je m’anticipe au temps, lui-même, je prévois
La traversée de l’infini, ce mur
Par des touches de solitude et désarroi.

Je te renverse avec mes doutes convenants
J’anticipe des faits sur la lampe magique
L’obscur toujours en arrière plan.

J’écoute des voix cascadées, abyssales
Des propos se taisent
Dans ton cœur royal.



VERSÃO 2

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016
Quinquilharias


Quincailleries

Je te traverse, telle une vague couverture
Je m’anticipe au temps, lui-même, je prévois
La traversée de l’infini,
Par des touches de solitude.

Je te renverse avec mes doutes convenants
J’anticipe des faits sur la lampe magique
Des obscurités.

J’écoute des voix cascadées,
Des propos se taisent
Dans ton cœur royal.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Metal-shadow-698200587

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXI)


Por Germano Xavier



Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016
Menina a caminho

Dialogue avec le conte Menina a caminho, de Raduan Nassar.


La petite fille sur la route

Petite fille sur le chemin
sans destin
sèche de tendresse
une fille l’air de rien
au départ et à l’arrivée
part vers le ventre qui s’assèche
de la vie, des aubes d’ailleurs
vers les après-midis sans soie
une fille à contresens
vidée dedans
comme dehors, une fille affamée,
qui ressent la faim d’être une fille,
la petite fille, l’être, rêve d’être
le chemin


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/grass-for-fts-698143816

sábado, 5 de agosto de 2017

Paname: a contemplação no encontro (ou Um texto sobre Paris)



Por Germano Xavier


para Ernest Hemingway  e Rainer Maria Rilke (in memoriam)
e para Luísa Fresta, que viveu uma Paris estudantil


Por muitos anos vivi me aprofundando no ofício da contemplação. Olhar, ver, enxergar, sentir, cheirar, tocar, imergir, emergir, afundar, sobrevoar as coisas, povoar e ser parte, tudo isso parecia um grande desafio há alguns anos. E continua sendo, um mistério. Aliás, continuará porque saber contemplar é uma arte que demanda muita sabedoria. Por mais que você se sinta capaz de absorver tudo com os seus próprios sentidos, sempre algo de muito valor é deixado para trás, como pegada perdida no vão do tempo.

Assim, com essa consciência galopada na mente, foi que olhei pela janela do avião após a passagem pela capital portuguesa, onde aconteceu uma breve escala, e vi de cima, por cima, uma das poucas cidades eternas do mundo, bem ali, pousada sob meus olhos como um imenso forte rebatedor de ventos hodiernos. Paris!, Paris!, meu coração gritou num profundo silêncio de contemplação. Eu só pude me acercar da ideia de que era preciso manter o exercício a postos. Segui, de olhos bem abertos, pois.

A grande cidade do reino de Frankia, a imponente cidade cercada por torres dos lutares sangrentos de encontro aos vikings, das iluminagens revolucionais, dos solares reis absolutos tão místicos, dos palácios especulares, das livrarias míticas, dos napoleões gigantes e também dos nanicos, das grandes avenidas suntuosas, das tantas histórias sobre tudo, dos escritores e da boemia, dos grandes pensadores e das renomadas correntes do pensamento global, das grifes mais charmosas, da gastronomia incomum, dos museus intermináveis, das pessoas livres ao ar livre, do mundo inteiro num só lugar, simplesmente Paris! Eu estaria apto a tamanho exercício de contemplação? Questionei-me, por longos minutos.

Hemingway, em seu “Paris é uma festa” nos disse em tons quase proféticos, em uma das várias passagens que dialogam com o fazer literário, para escrevermos a frase verdadeira, a mais verdadeira possível, tentar ela, sempre. Confesso que pensei muito numa frase que resumisse o estado de encantamento que esta cidade me proporcionou na primeira vez que nela desembarquei – até então a única, mas pretendo voltar quantas vezes me for possível. Paris é mesmo uma consagração. Tão falada por todos, tão desejada e tão verdadeira, apesar desse universo inteiro de coisas tão falsas que nos rodeia ultimamente. Paris é uma constatação, uma alegria descomunal aos olhos, um tempo inteiro e particular.

Soou clichê dizer tudo isso? Que importa? Pegue um avião e vá para Paris o quanto antes. Verás! Sentirás tudo que senti, mesmo que não olhes para Paris da maneira como a olhei. Que pena que Paris é tão distante para nós, pobres mortais. Mas não impossível. Conhecê-la, andar por seus bairros, rasgar suas ruas, olhar seus monumentos, viver suas escuridões e suas luzes, comê-la, é necessário em vida. Paris resume toda uma ópera europeia. E infeliz daquele que resolve conhecer Paris primeiro e só depois outras cidades do Velho Mundo, como eu fiz. Paris retira a graça das outras cidades, como quem anseia e tem fome, como quem sabe que é, de longe, a mais bela.

Não é de se espantar, portanto, o grande êxodo de artistas em geral e escritores para Paris no início do século XX. As muitas “gerações perdidas” nela se encontraram. Quando se lê um livro como “Paris é uma festa”, de Hemingway, logo se percebe toda a questão e de chofre suspeitamos de tamanha magnética encantatória que esta cidade reúne em si. Hemingway passeia por uma Paris que, praticamente cem anos depois, continua igual ou mais fascinante ainda.

Inspiradora, de aspecto físico-geográfico incomum e detentora de mil recantos maravilhosos, Paris é grávida de um rio que a torna muito erótica, mas também muito sombria, sórdida, como qualquer grande metrópole. Parece-me que as pessoas que vivem em Paris podem contar histórias de amor e de beleza a qualquer instante, mas também de vidas duras em HLM (Habitation À Loyer Moderé – alojamentos em edifícios com rendas muito baixas, para pessoas e famílias carentes). Paris não esconde nada aos olhos dos visitantes. Facilmente sentimos a discriminação e a invisibilidade social dos imigrantes.

É bem sabido que as pessoas hoje são desconfiadas, medrosas, que já não se podem dar nem doar espontaneamente. Perderam a inocência. E quem é medroso pode ser mais cruel que o próprio bandido, porque o medo antecipa a violência. Tristeza maior foi ver muitos sírios atirados ao chão a pedir ajuda. Nem tudo é perfeito, não é mesmo? Para lembrar que vivemos num mundo de muita crueldade, de muita desumanidade. Enfim... Talvez isso um dia mude. O mundo hoje é um local perigoso, a pobreza invadiu os salões, a tragédia rasgou os contos de fadas. As pessoas dos subúrbios podem, por incrível que se pareça, chegar ao ponto de não enxergarem a cidade, de não usufruí-la. Paris pode para eles estar muito longe.

Aprende-se a amar um lugar instantaneamente em Paris. Gente do mundo todo, os nativos livres em seus piqueniques à margem do Sena e nas praças, suas pontes, seu casario, os metrôs surrados, as grandes galerias, os cafés, aquela aura inexplicável e também irresoluta - a sensação é a de estar num lugar em que as pessoas estão à frente do seu tempo, em que a estética beira a perfeição e a harmonia, pois se percebe de cara uma ética na estética.

Para o turista, Paris se mostra muito acolhedora. Paris começa em Piaf, Montand, Aznavour, nas baguettes e nos croissants quentes, no humor próprio de seu gentio, no cigarro aceso nas bocas das belas mulheres, em sua dinâmica por vezes engraçada, mas Paris não termina aí. Ela também começa na desconfiança. Paris tem cheiro de pão quente e um olhar desconcertante sobre quem chega. Poética, musical, extremamente cultural, de comida bonita – nem sempre gostosa -, Paris é mesmo uma festa, onde chapéu de operário panamenho dita a moda, onde uma dança de periferia argentina (o tango) vira referência e até caracóis portugueses se transformam em “escargots”. Ah, Paris, você não existe!


* Imagem: http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2011/09/fotos-historicas-de-paris.html

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Estrutura para ungir orvalhos



Por Germano Xavier



havia ouro e abismos onde escavamos,
com poesia, o tempo. e com o tempo,
lapidamos a arte de fazer saudade.
e quanta saudade caberá num século
de olhar de amor? e quanto século caberá
num olhar de saudade, amor?
e quanto amor caberá num século de
saudade de olhar? quanto amor, amor?

e o homem que se fez verso, que se fez
sombra, o homem que se fez silêncio e
que se fez nuvem, em tempo,
fez-se penumbra.
o homem dos altos silêncios,
um talvez-eu.
(criptografado em carne viva).

o homem só precisa de um mar,
de um mar para chamar de seu.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Beach-696678588

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 10 de Dezembro de 2016
A História não nos escreve


L’Histoire ne nous écrit pas


C’était toi
Et tout au fond, des paysages tous verts.
Pas un vert brillant
Cinématographique, un vert quelconque
(nous n’y trouverions pas de place car nous sommes grisâtres…).
C’était plutôt un vert-cactus,
Un vert-brousse, agreste,
La couleur de tes absurdités
- un vert mousse – dans le regard.

Et la légende nous rappelle
(ce n’est pas l’Histoire qui nous écrit)
Qu’au clair de la lune, pendant les nuits sublimes,
Lorsque la lumière s’étale
Sur les yeux des âmes égarées
qui nous manquent,
mon soi-disant esprit libre, cet autre moi
glisse doucement
vers ton regard certain.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Quiet-Shadows-695981625