domingo, 5 de outubro de 2008

Desorientais



Por Germano Xavier


DESORIENTAIS, obra composta por hai-kais da escritora curitibana Alice Ruiz, é um livro que não orienta o leitor a um lugar possível, um livro que desorienta porque não oferece um caminho facilitado tanto para o início quanto para o fim de algo ou alguma coisa. Se tomarmos como ponto de partida o sentimento de alteridade, aquele onde o outro se transfere a outra esfera de sentido, que também pode ser o movimento de um outro de realidade viva para um outro ser de mesma estirpe, a presença deste outro em cada pessoa transforma-se numa necessidade bruta, numa necessidade de reconhecimento, de conhecimento, o que faz com que a palavra da poeta seja mais a lança que consegue perfurar um corpo que propriamente o sangue que porventura brota de uma ferida aberta. Destarte, desorientes são orientes outros que existem dentro de um oriente pessoal recheado por eus, por eles, por elas, por elos, impregnados de um Eros sadio e naturalmente concentrado de desejos, sentimentos, sensações, percepções, impressões, que subsistem a partir de uma praga de vida que também pode vir a ser sinônimo de solução. Alice Ruiz, mulher de poeta, poeta, dona de coisas simples, constrói o seu verso maduro de ser sensível, de ser mulher pura de revoluções insólitas numa das mais mínimas expressões poéticas: o hai-kai. Dentro deste universo mínimo repleto de significâncias, a imagem do vagalume clareia o branco das páginas. O vagalume é um símbolo que marca o desoriente de Alice, como a nos dizer de um tempo de contraste, que existe entre a claridade e o escuro, entre o aceso e o apagado, imprimindo nos olhos do leitor um sentimento de temporalidade feito de instantes, como em:

Primeiro vagalume
Assim começa
O fim do ano


Ou em:

Vagalumes isolados
Por um instante
Luz lado a lado


Ou em:

Apaga a luz
Antes do amanhecer
Um vagalume


O sentimento de passagem também perpassa o todo do corpo do livro, instaurando uma nebulosa ascendente que esconde por vezes as noções de espaço e tempo da obra, como em:

Nuvem de mosquitos
O ar se move
Vento nenhum


A resposta de pronto é dada pelo leitor de maneira que o mesmo conheça na voz que não existe a existência do pleno.

Fim de tarde
Depois do trovão
O silêncio é maior


Alice ainda faz um tratamento com as coisas do amor que ama e que sofre por amar ao final do livro, burla um pouco o estado natural das normalidades incontestes, faz vadiagem com o sentimento de ser, torcendo o pescoço para um estado de “Pensar letras/Sentir palavras/ A alma cheia de dedos”, como se todos os nossos desorientes fossem os potenciais maiores para possíveis reorientes.


Imagem retirada do Google.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O perfume do mar



Por Germano Xavier



Toninho é um menino deficiente visual que enxerga muito, e muito bem. Enxerga tanto que consegue ver até o perfume das coisas – você que é um exímio leitor, conseguiu perceber a semelhança com o personagem Jean-Baptiste Grenouille, do livro O PERFUME, de Patrick Suskind? Amável, até o mar o amou muito quando o conheceu. Toninho é um serzinho especial, dotado de qualidades grandiosas para um menino de sua idade. A sensibilidade com que sente o mundo e as pessoas ao seu redor faz dele um garotinho mágico. Toninho ensina para a gente, nós adultos, que é preciso saber sentir o cheiro das coisas de dentro, fazendo um esforço do interior para o exterior, e não o inverso. Por saber disso, Toninho diferencia o que é bom e o que é mal para sua vida. Por isso sabe ir à direção de uma vida plena, bonita de significados e recheada de momentos de conquista e felicidade. Toninho consegue discernir se uma palavra “veste a verdade ou a mentira. Se um silêncio arranha ou brota da confiança.” Toninho ama Helena, uma menina que liga para ele todos os dias na hora da novela das oito. Toninho tem um pai e uma mãe. Os dois se separaram, mas nunca o deixaram sozinho. Cada um ama Toninho de modo igual. A gente bem que pode considerar o Toninho um meninote de sorte, porque tudo que o cerca o deixa extremamente feliz e, além do mais, porque ele tem um amigo que não consegue ser amigo dos pais como ele é amigo dos seus. Toninho também tem um cachorro chamado Chuvisco, que é a sua sombra. Toninho é um garotinho como muitos outros, mas que possui olhos no coração, fato que o torna singular entre tantos. Quer saber o quê Toninho consegue enxergar mesmo sendo um deficiente visual? A resposta é sim? Pois leia O PERFUME DO MAR, escrito por Jonas Ribeiro e ilustrado por Márcia Széliga, e saiba um pouco qual a forma do sabor de se conseguir enxergar no escuro as coisas incríveis da vida...


Imagem retirada do Google.

domingo, 18 de maio de 2008

A Linha



Por Germano Xavier



A LINHA, livro de Mario Vale, é, indubitavelmente, um livro diferente. Diferente não no sentido de anormal, insólito ou inovador, muito menos encerra uma experiência extremamente original, haja vista que muitos escritores de literatura infantil, infanto-juvenil, juvenil, e até adulta já testaram coisas por demais parecidas, mas diferente no sentido de desigual mesmo, de dessemelhante, de fora do comum – pelo menos para aqueles que, como eu, não têm tanta intimidade com composições artísticas desta natureza. O próprio título sugere qual seja o enredo da obra do cartunista mineiro. Utilizando como ponto de apoio a figura de uma linha, Vale brinca com o imaginário coletivo de um modo bastante cativador, através de diferentes recortes temáticos nos cartuns que compõem o todo do livro. Não há palavras nas páginas, somente uma linha que perpassa todo o conjunto, unida como tal a desenhos variados que figuram como suporte para produção de conceitos os mais diversos possíveis, ajudando assim na compreensão das mensagens que se pretendem transmitir ao leitor. Por tratar de temas universais de um modo divertido e ao mesmo tempo instigante, sem pecar por adentrar num espaço de lugares-comuns bastante típicos à caricatura, o que Mario Vale faz é um trabalho quase que inconcebível em termos de classificação enquanto artefato literário. Dizer que A LINHA é para crianças, ou que é para jovens, ou algo nesse entremeio, é a mesma coisa que desqualificar a produção artística do autor. O mais adulto e experiente leitor pára minutos muitos e deliciosamente investidos de seu tempo na justa tentativa de entender o que é que se passam nas 88 páginas do livro. Não obstante a qualidade do material impresso, a simplicidade mágica dos traços do autor, a potência metafórica significativa dos cartuns, outra detalhe também chama a atenção: o espaço em branco do livro não parece ser algo sem propósitos. Sem o vazio, sem o vago, talvez a amplitude dos desenhos não fosse tão vasta e flexível. Exemplo mais do que típico de livro que faz do seu leitor personagem de fundamental importância, sem o qual certamente não haveria modos mais eficientes para constatar a magnitude de tal literatura, ou seja, a linguagem que falta à sua matéria é encontrada na voz invisível do leitor produtor de significados. Uma boa pedida, para quem se dispor a “ler” A LINHA, é procurar também os livros de autores como Eva Furnari, exímia artesã de livros “mudos” e fantasticamente repletos de “vozes”. Para mães com filhos pequenos, pais com filhos grandes, adultos sem barba, adolescentes barbudos, velhos jovens, idosos de todas as idades ou qualquer coisa do gênero ser humano, bom apostar nestas linhas tão edificantes.


 Imagem retirada do Google.

terça-feira, 25 de março de 2008

Poesia em nome dos raios




Por Germano Xavier


Uma mulher-deusa de uma mística nada passiva dança um fogo branco-brando e a capa instaura um ar de sagrado sobre o papel feito de negrumes. Assim começa o livro de poemas intitulado EM NOME DOS RAIOS, do poeta baiano João de Moraes Filho, livro este coadunado a outro, CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves. Dividido em cinco partes, a poesia presente na obra deste cachoeirense compõe um rosto aparentemente simples para quem o sente diante de uma primeira leitura. Porém, é com a paciência da decifração que a poesia demanda que uma face mais ígnea e áspera aponta no chão das páginas amareladas. O livro é feito de um silêncio calculado que não chega a dar ao livro um aspecto de som morto, mas pelo contrário, dele brota um argumento capaz de invadir com tenacidade a ópera de nossas almas. O uso de epígrafes no topo de muitos dos escritos alimenta os poemas com um mel de significado que gera marcas de força, o que auxilia a melhor incorporação do poema por parte do leitor. O tempo é recriado e ele mesmo elabora um espaço sem temporalidade, haja vista que ele, o tempo, “sobrevive ao fogo, corre/nos quintais e nada espera”, como diz o poeta em Portuário. O gesto do olhar, enquanto um dos sentidos-mor do ser humano, também obtém destaque nos versos, posto que são eles os responsáveis maiores por resgatar “ardências reais” onde algo pode estar na condição básica do abstrato. “Pássaros estalam rezas” e o que se instala na configuração do todo poético de EM NOME DOS RAIOS é a sensação de se estar lendo um tempo que realmente existe ou existiu num contexto exato de perdição. O futuro é apenas um pano de fundo recoberto de mistérios, apesar dos questionamentos inerentes, ele não aparece na obra: “... amanhã é depois./e depois de amanhã não será futuro/nem presente. Apenas um brinde”. O poeta segue o risco que há num sorriso e enobrece a humanidade no homem, já que “pouco importa/o canto,/descobre-se/a lágrima”. Os raios cantados por João de Moraes Filho caem também sobre a figura de sua terra natal, como podemos ler nos versos do poema Procissão: “Paraguaçu adentro./Nos Portos ancorados/se resumem histórias/margeadas de Áfricas/em estado de aves/cantando nos jardins”. É como se ecoasse em nós uma oração pela natureza humana, regada sempre por arcanos insubstituíveis e fundamentais. Por fim, as mãos do poeta tecem com uma candura aberta em dúvidas um universo drástico e obscuro sobre a incerteza da serventia de toda palavra. Falando de si, pergunta em Pátria Amada como se fosse nós: “Nossa vida, nossos amores:/o que somos?/Um sorriso escancarado de alguma boca?” E então?


Já CARTAS DE NAVEGAÇÃO, de Nuno Gonçalves, é um livro de poemas sobre distanciamentos, medos, sobre uma condição de marginalidade perante o mundo que devassa a ordem do existido, do existível. O que há pode entrar em ruína a qualquer momento. A poesia aqui serve como um aviso sobre nossas fraquezas e nossa desfaçatez concernente ao todo do mundo. A atmosfera espaço-temporal gerada em suas páginas maquina um tumor que beira a malignidade nos sentidos de quem lê. A alma se adoenta quando a pureza da vista sofre maculações necessárias no decorrer da leitura. Tudo é um sofrimento conjunto, do autor com o leitor e vice-versa. A consequência é a produção de uma consciência em atividade inquiridora e ininterrupta. O autor nos coloca diante de um lugar que é nosso e que está demasiado distante de nossas mãos, mesmo estando perto demais, o que nos causa um certo desespero por não poder tocá-lo em sua inteireza. Faz isso nos dizendo: “O nosso paradeiro é um lar distante”. O mapa que nos guia revela uma poesia referente ao nosso próprio descobrimento, e nos olvida do que não nos são préstimos e essências. “Esqueça tudo que não for amor”, versifica, reforçando tal idéia. Por detrás das forças que operam o contrário do bem, o amor surge impetuoso, feito um deus duro e capaz de maldades benévolas. Num cenário regado a desesperanças, onde “Não há nada/ Desta pedra não se tira leite”, somente o amor pode burlar o fel da vida. O homem rompe o silêncio para se transformar numa “Máquina de procriar escuros e afogar naufrágios que insistem”. A prosa poética se mistura ao verso livre, que bebe constantemente em repetições, para fortificar o sentimento de uma cotidianidade feita de realidades. O poeta lembra dos amigos e constrói uma cidade quase inabitável em mirante do morro de santa terezinha. Deseja a morte em versos como “tragam os pregos para minha crucificação”, terminando por nos alertar sobre as desventuras da vida em seu estado purgatorial. Talvez só valha a pena a vida na desforra e no desbunde, ou na quietude dos nirvanas existenciais. Canta “os senhores da terra e das sementes”, gente que arde na brasa das folhas de fumo da Cachoeira baiana de tantos santos tragados por históricas batalhas pela identidade e pela resistência de um povo. Aprender com tristezas, saber lidar com toda sorte de infortúnios, alimentarmo-nos de sementes, operar germinações íntimas, lições que a poesia de Nuno Gonçalves nos coloca em seu livro CARTAS DE NAVEGAÇÃO. Porque a base de tudo é somente o que somos. Será mesmo?


Imagem: Google.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Marcelo conversa com Germano Xavier



Marcelo de Novaes Soares, do blogue Bloco de Notas, conversou um pouco comigo. Leia a entrevista na íntegra no blogue dele ou aqui mesmo n'O Equador das Coisas. A foto acima é mais um desafio. Meados dos anos 90, eu no finado Clube Social de Iraquara-BA, numa apresentação artística de Kung Fu e dança. Quem descobrir quem sou eu na foto ganha um doce. Continuemos, bucaneiros...


MN - Germano, se você se dispõe a escrever sobre "Grande Sertão: Veredas", já nos dá uma pista interessante sobre o tipo de leitor que é. Compartilhe conosco, o pouco que seja, o que você viu no mundo-apinhado-de-linguagem de Guimarães Rosa.

G - Vi o que a maioria vê quando entra no mundo do monstro de Cordisburgo. Uma nova e outra língua portuguesa, uma reforma "inventada" e geral nas normas do nosso idioma, uma ousadia sem tamanho, um dicionário de potência imaginativa, um livro indispensável para qualquer um que queira enveredar-se por estes caminhos, uma "Estória" fascinante, entre tantos outros aspectos que aqui poderiam ser citados. E em especial, me fiz enxergar o fator "Errância" nos dois personagens principais do romance. E sobre isto ainda pretendo me ater em matéria de pesquisa e produção científica.


MN - Você crê em sua cidade natal como crê em Cortázar? No Jogo da Amarelinha, saltando casas e mudando de posição-no-jogo [do primeiro blog "Parolas de um Sujeito Quedo", até este transadíssimo "O Equador das Coisas", passando por "A Auto-Estrada do Sul"] você já empacado, sem conseguir avançar? Já se experimentou como sendo tautológico [aquele triste "déjà vu de si mesmo", porém esvaziado de surpresa?]. Ou repetir-se também é uma maneira de surpreender(-se)?

G - Eu não creio mais em Iraquara. Perdi minha cidade há bastante tempo. Recentemente escrevi um livro-reportagem sobre ela, Iraquara - Em Memória de Nós, que pretendo ampliar e publicar em breve, e mesmo assim me senti muito distante de sua essência. Porém, penso que ficar querendo equiparar passado e presente também seja um erro. Memorar também é esquecer, como diria o uruguaio Mario Benedetti. A Iraquara que quero que seja preservada em mim está incólume, impassível de ser atingida pelos mísseis dos tempos vindouros. O que está vivíssimo dentro de minha alma é a vontade de levar a região da Chapada Diamantina para os livros. E isto, se não me faltar forças, será feito. Ninguém quer ser matéria estanque no espírito do Tempo. Quero crer que progrido a cada novo texto que exponho aqui. E se por um acaso eu me repetir, vou pensar que repetição pode ser sinal de reordenamento, de amadurecimento. Quem escreve quer participar da vida de uma forma ou de outra, malinar com ela, transgredi-la, invadi-la. Escrever é, sem dúvida, uma forma de estar vivo. O que tenho feito é alinhar rotas que mais me comprazem do que me desmentem. Mentidor é o escritor que diz que escreve para não ser encontrado em sua plenitude por um possível leitor. O blogue "O Equador das Coisas" é hoje o mais fiel retrato do que sou e do que penso do mundo que me cerca, e também dos mundos que quero que existam, inclusive os literários. Todavia, ele (o blogue) não está livre de ser demolido de uma vez por todas - se é que me entendem. Afinal, como diz o outro, "tudo que é sólido se desmancha no ar".


MN - Teu élan criativo construiu este painel de textos, de 2007 para cá. Eu te pergunto: o poema não registrado/ exposto/ grafado/ vocalizado mofa (n)a alma?

G - Mofa, apodrece, morre, não vive. Para que serve um poema senão para existir dentro de uma outra alma?


MN - Como a literatura é uma Vereda Imensa e maior do que o texto extraordinário de Guimarães que citei acima, não podemos, nem de longe, percorrê-la e destrinchá-la numa vida [nem em trinta]. Que bússola você usa, e como se orienta na porção-de-chão que escolhe/ousa pisar? E quando o chão se inverte ["chão invertido"é, também para mim, uma velha imagem...], como recupera o centro de gravidade? [Afinal, o labirinto-da- literatura pode ocasionar labirintite... ou, pior: vertigem existencial].

G - Eu sempre usei a estratégia do ler um após ler um outro, caminhar um passo de cada vez. Por exemplo, citando algo recente, A fúria do Corpo, do João Gilberto Noll, levou-me a conhecer um pouco do David Foster Wallace. Pergunte-me como isso se deu e eu não saberei te responder. É mais um mistério deste rio infindável chamado Literatura. E como universo labiríntico, perco-me inumeráveis vezes e me deixo estar perdido. No fundo sei que não há estratagemas para lidar com a galáxia das letras. Atualmente ando meio perdido. Mas escontrei um bom caminho para seguir andando neste arrebol de continuidades e rupturas: comecei a ler 2666, do Roberto Bolaño.


MN - "Vai morrer o poeta aos vinte e três anos, e ele sabe que vai". Este é o teu recado a um poeta Gular. Em outros termos: o poeta morrerá à míngua, e ninguém se dará conta disso [não em vida]. Esse clamor tem o "halo" de Álvares de Azevedo, que viveu até um pouco menos do que isso. O que eu poderia depreender deste arquétipo do criador combalido quando jovem: "Ó, como a poesia nos esfalfa!?" [a nós, que a fazemos]. Ou, correlatamente: "poetas não sabem cuidar de sua saúde?"

G - É doloroso escrever. Tanto quanto prazeroso. Poetas, escritores, como humanos que são, são fásicos. Houve um tempo em que os temas da "Morte" e suas adjacências estiveram mais perto de mim. Hoje me interesso mais pela "Vida". Talvez por isso ainda não tenha desistido de tudo isso. Ainda não escrevi o que quero escrever e ainda não vivi o que quero viver para poder morrer em paz comigo mesmo. Não posso dormir agora.


MN - Fale dos acertos de tua errância nestes poucos anos de vida [um quarto de século, praticamente]. A errância, hoje, é um movimento-para, ou também um tema? Você crê, como ensinam certos escritores a neófitos, "que todo autor tem de achar seu tema"? Você achou o teu? Achou também o tom? Há coisas que só se descobrem quando se é mais velho, em termos de "dicção narrativa"? Rimbauds à parte, você se inspira em [ ou se instrui com] escritores de tua faixa etária?

G - Saí de casa aos 14 anos e comecei a dar passos sozinhos. Aprendi o que é solidão e silêncio sentido tudo na pele. Aprendi tanto que já não suporto mais estes sentimentos. Eu sempre rumei tentando ser melhor, tentando conhecer mais a mim mesmo. Eu jamais perdi meu tempo procurando "um tema que fosse meu". Talvez ele me surja com o atravessar dos dias e das noites. Leio e absorvo daquilo que me parece ter a densidade suficiente para não considerar banal. Escritores são seres errantes por natureza. Sensíveis a tudo e a todos, só lhes restam saber efetuar as transações corretas. Somos filhos do Tempo. O Tempo, invariavelmente, muda, mudando-nos também. Eu não sei até que ponto estou certo do que o que escrevo é aquilo que gostaria de escrever. Mas tenho absoluta certeza de que ajudo a produzir com meu esforço diante da palavra aquilo que o Elias Canetti chama de "Poesia-Una" do mundo. E eu ainda sou daqueles que preferem os clássicos, mas também libo dos contemporâneos. É preciso.


MN - Eu te vejo experimentando algumas dicções, por breves momentos. Temos a "dicção lusitana" em "Há um ponto cego de afectos no que afeta a linguagem do reflexo". Isso para falar o quanto o outro nos é incognoscível até a hora da morte ["Vossas Biografias"]. Qual seu nível de interatividade com autores lusitanos? Há muitos blogues em Portugal...

G - Quanto ao termo "afectos" utilizado no verso meu supracitado, é apenas recordos meus de terminologias bastante utilizadas nas obras filosóficas de Deleuze e Guattari, cujos estudos me invadiram plenamente quando ainda cursava Jornalismo. Penso que meus poemas mais recentes estão beirando uma ininteligibilidade sadia, um hermetismo desfigurado, mas que consegue enviar uma mensagem clara na medida do possível. Sobre o complemento da pergunta, digo que estou relendo "Os Lusíadas", que sempre releio Fernando Pessoa, que não tenho muita afeição com o que escreveu Saramago, que tenho curiosidade com relação ao que escreve o Antonio Lobo Antunes. E sinceramente, não sei dizer se há muitos blogues em Portugal nem se estou interessado nessa estatística.


MN - Falando em sotaques, há sotaques do sertão, também. Quando você se lembra deste tipo de sotaque, homenagenado-o [em "Polaróides Pessoanas", por exemplo], eu tenho de considerar o método a partir do qual Pessoa demarcou temas e sotaques. Você ama Pessoa. Já sabe se ele te ama?

G - "Pessoanas" aqui diz respeito à "Jampa", João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, por onde estive por dois meses. Amei a cidade. Não sei se ela me amou, creio que sim. Fui muito bem recebido, o povo é extraordinariamente receptivo. A cidade é muito organizada e paira nela uma sensação de segurança. Ótima morada. Para quem se interessar possa, está aí a dica.


MN - Talvez você seja um prosador poético que flerta com a poesia. Escreve até "missivas", o que é um gênero quase-abandonado, senão por um ou outro bom cronista. Sei que você aprendeu coisas com o punhado de gente que leu: Roberto Piva [falecido recentemente], Pessoa, repentistas, certamente. Você leu Piva no segundo grau, em Irecê, interior da Bahia. Quem eram teus interlocutores nesta época de perscrutações poéticas? Um ou outro professor, talvez? E hoje, aos vinte e seis anos, já sabe mais sobre "a paranóia de viver"?

G - Um ou dois colegas de classe me escutavam. Lembro do "Cenoura" e do Tales, amigos de mais sensibilidade para estas coisas da alma e do Ser-Palavra. O restante preferia as resenhas das festas do fins de semana. No mais, era eu e eu mesmo. Um professor só iria me ouvir um pouco mais tarde, mas ainda em Irecê, o Erik Machado. Já na faculdade o espaço foi maior. Colava poemas e textos meus nos murais. Publiquei coisas em jornais e livros, participei de fanzines. Alguns me intitularam "Poeta". A alcunha ficou, feito vírus. Só me restou aceitar a condição. O professor citado hoje nem deve saber que ainda existo. Tudo bem, está tudo tranquilo. A vida tem me dado uns tapas "necessários". Isso é bom. Estou mais centrado na vida real hoje, certamente. Tenho sonhos palpáveis. Preciso realizá-los. Senão a vida passa por cima da gente, não é?


MN - Minha segunda pergunta foi se você acreditava em sua terra natal, como acredita em Cortázar. Minha última será: "você acredita em escrita coletiva"? Como? E sob quais condições? Quais foram os teus critérios para juntar a corja infecta e eloquente que atende pela alcunha de "Homens Hediondos" [sendo que há algumas mulheres hediondas infiltradas no antro...].

G - Sou meio preconceituoso com essa coisa de coletividade na escrita. Mas tudo muda, não? No blogue Homens Hediondos todo mundo escreve por si e acaba que ensina e aprende alguma coisa junto ao seu semelhante. A receita, se houver, é bastante simples. Quem ganha mais, na verdade, é o leitor. Gosto de pensar assim. Daquela brincadeirinha de escrever e publicar pode sair um tijolinho de construção literária de bela densidade. É uma tentativa. Por que não arriscar?


Imagem: Acervo Pessoal