quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Itaitu olhada de dentro


Por Germano Xavier,
para Verusa Pinho, colega de Jornalismo.



I


Oeste, lado norte,
sul para quem vai,
sul para quem vem.
Itaitu Chapada Norte
Itaitu sem norte,
ouro que brotou do chão.

Lugar como o meu,
Pote de Mel que cresceu,
minha Iraquara perdida
em minha infância distante.
Ruazinhas de paralelepípedos,
casinhas de janelas grandes,
mundinho sem avenidas, sem
viadutos, sem qualquer saída,
centro onde o vento se perdeu.

Itaitu de hora lerda,
do vendedor de sonho em abril,
da roceira mulher morena,
da criançada de alma febril.
Itaitu que é sem fim
no fim que a vida deu, que é
o de espantar tristeza
e alegrar o homem em escarcéu.

Quem vai quer ficar,
quem já ficou não foge mais,
quem é de lá vira água de cachoeira,
ouro antigo, que bom deus!
Itaitu e Iraquara,
eternos ranchinhos sem breu.
Será vida besta, meu deus?


II

água escorrida
do céu
choro de deus
que não cessa
lágrima limpa
chuva repartida
de vida
de vida
de vida


III
batiza eu deus de quem quer lugar santo pra quem duvida alguma coisa ainda vai acontecer é o que dizem as velhinhas beatas que vão e vem alguma coisa ainda vai acontecer e vai haver sim o dia do juízo ou do júbilo final por que nestas casinhas com cruzes no teto no telhado e praça no derredor quase sempre a semente da cidadezinha que brota flor de margarida branca se esconde um mistério secular umas mulheres vestidas com vestidos e homens que estudaram latim língua morta corpo morto? vontade morta? batiza eu não deus que sou ateu que sou atoa que sou poeta que sou da vida sem grilhões sem lestrigões batiza eu não deus que eu não vou pro céu que eu quero é meu corcel pra galopar certezas melhores por que nestes lugarzinhos esquecidos há gente que reza e há gente que ora e a diferença na fé também da terra perdida nasce

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Farsa


Por Germano Xavier

XVII

É inadmissível ter de aceitar toda esta farsa. Talvez, tudo isto que está acontecendo devesse virar uma peça teatral. Seria uma daquelas tragédias inenarráveis, com um final que deixa a todos surpresos. O pior é que toda esta desgraça está aí, completamente visível, apalpável. A cada dia que passa surge um novo símbolo, uma nova figura, um novo mito tentando explicar o inexplicável. E esta civilização... e esta prisão, estas grades, estas cadeias... fazer o que com tudo isso? Fazer o quê, se são as cargas extras da vida, carregadas em nossos lombos, em nossas costas cansadas, no eterno desígnio de nos fortificar, de nos tornar verdadeiramente homens? Mas é certo isso? Até quando teremos de viver como animais de carga, e desempenhar trabalhos braçais, cabíveis somente a um animal de grande porte? Sofrimento, tanto. É por isso que sempre me quero na companhia dos meus "redondinhos", seres amados, adorados. Ó, quanto sal em mim?! Estou imundo, na podridão deste mundo caótico, sem perspectivas, sem soluções?! Onde a nossa vontade nata de conquista e vitória? Queremos mesmo soluções? Onde aquele desempenho eloquente que mostrava-se, subitamente, no quintal de nossas casas ou nos bastidores de algum tempo? Quanto mais nos sacrificamos, parece que da vida nos tornamos mais "empregados", subservientes. Mas, fazer o que com tudo isso? Fazer o quê? Primeiro passo: escute o vento que sopra na noite? Segundo passo: torne-se leve, e deixe o vento te levar? Terceiro passo: corte os excessos? Quarto passo: entregue-se ao jogo da vida, sem jamais deixar de lutar e desejar vitórias? Até parece que estou escrevendo um livro de auto-ajuda, mas a bem da verdade é que estou parecendo ser frágil, desconcertado e inseguro. Todavia, tenho de dizer que se seguirmos esta cartilha, veremos que nossas cosmovisões serão menos dicotômicas e, portanto, a probabilidade de ocorrer alguma vitória, seja total ou de modo parcial, é muito maior. Enquanto isso, tomarei minha puçanga das "três". Todo sofrimento tem cura, meus amigos. Por isso, bebam de seus pseudosumos, e nunca deixem de viver!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Olhos de Daniela


Por Germano Xavier,
para a menina Daniela Gama

este poema é úmido
porque regado da salina água
dos teus olhos de Netuno.
úmido
porque é todo um mar labial
naufragado no céu invertido
que são seus íris – arco-íris.
este poema é úmido
porque traçado no póro de tua pele,
perto, cor, sabor, hora,
agora.
este poema úmido cabe no branco
dos teus olhos-alma, cabe
fácil, dulcífico, maior.
umidade na idade do tempo
que amarra uma vontade insana
de no mel’oceano deles
desaguar...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Senzala


Por Germano Xavier

Foi no escuro, às escondidas,
que o navio tumbeiro chegou
trazendo os elos e as correntes,
enferrujadas e sanguinárias.

Desceram à costa sorrindo,
brancos imundos de corpo e alma,
vendendo a prisão, o cárcere;
a força braçal, nos dentes, nos olhos...

E chorava a tribo, a raça.
O descendente ouvia,
a mulher, a mãe a chorar
pela cor que derretia.

Nos trapos, animais sendo domados;
assim eram vistos: mero lixo.
Mas Deus protegeria, vingaria
na prece do padre ao embarcar?

E suas tumbas, seus cemitérios,
logo ali se revelavam,
ao vento frio no mar da noite,
ao cálice grotesco do alto-mar.

"Ó mar salgado", já se dizia;
a viagem ao fim do mundo,
o estandarte vermelho da morte
face ao breu do porão negreiro.

Desembarcavam fedidos, quasemortos,
quasevivos, com medo da luz.
A luz do novo dia doía,
era faca amolada de corte profundo.

E ele sem nada poder fazer;
mercadoria, produto mercantil,
fabrico humano, fantoche Real
sem coração, sem vida, sem nada...
E chorava a tribo, a raça.
Os oceanos ouviam,
o continente pintava
a cor que renasceria.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A cabeça de Nastércio


Por Germano Xavier


E foi então que o Nastércio percebeu que tinha uma cabeça grudada ao pescoço. E foi depois de tal percepção que ele viu que cabeças servem para suportar a gelatina do cérebro, e que cérebro é lugar de mente. E foi assim que o Nastércio soube que mente não é lugar de mentira, mas de pensamento. "Mas, como fazer funcionar algo que não funciona?", pensava. A mente de Nastércio não funcionava porque ele passou a vida toda pensando que em cima do pescoço o homem tinha mesmo era uma agricultura de cabelos. E ele estava certo: cabelos não servem para nadica de nada. Aí o Nastércio resolveu pegar a enxada e capinar a monocultura de sua cabeça. Nastércio era monocultural, só sabia saber, mas não sabia que sabia saber. E saber saber não quer dizer que se sabe alguma coisa. Por isso, o arejamento do campo capilar foi a melhor coisa que ele podia ter feito. Tirou, com a mão mesmo, todas as ervas daninhas de sua mente: primeiro a boina-máscara, depois eliminou os piolhos-dos-olhos e ademais, cortou tudo com tesoura de cortar e tacou fertilizante de fertilizar. Adubo novo de traseiro de vaca. E foi dito e feito. Não demorou muito para que fosse possível ver brotar do roçado da cabeça de Nastércio uma verdade atrás da outra. Porque, você sabe, depois da merda endurecida, só mesmo jogando muita água naquilo que é muda.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Rafael e o mundo da Cal


Por Germano Xavier

Baseado na história de Rafael Souza do Nascimento.


Rafael acordou feliz hoje, apesar da esteira nada confortável onde dorme todo dia. Do mesmo modo que está feliz, Rafael não suspeita do seu futuro nas próximas horas. Sempre foi assim, e para ele quase nada poderia soar como uma novidade. Só soube que não tinha pai nem mãe um dia desses, quando o dono da olaria o chamou num cantinho:

- Rafael, preciso lhe dizer uma coisa.
- Ué, então diz.
- É que ninguém nunca viu os seus pais.
- Como assim?
- Ninguém os conhece.
- Quer dizer que você não é o meu pai, que minha mãe não é a minha mãe?
- Não, Rafael, a Andira e eu não somos seus pais verdadeiros. Nós apenas criamos você...

Mas Rafael acordou feliz hoje, lembremos disso. E logo que amanheceu, ainda com pedaços de noite no céu, ele saiu de casa em direção à velha olaria. Rafael tem doze anos de idade e trabalha lá há mais de cinco. Já é bem experiente na arte de queimar pedra e fabricar a cal.

Mas como hoje é uma terça-feira, Rafael ficou com a tarefa de partir ao meio as grandes pedras que depois irão ser calcinadas no forno. É um trabalho muito perigoso, mas ele já está acostumado. Aprendeu tudo com seu pai, que não é o seu pai propriamente dito, e também com o Jorge, que um dia quase perdeu a visão porque uma lasca de pedra foi parar bem em seu olho direito. Até hoje sente dores e um inchaço crônico, mas ele sempre diz que está tudo bem.

Em Iraquara a fabricação de cal virgem e hidratada é uma tradição. Pela facilidade com que a rocha apropriada para este tipo de produção é encontrada no solo, tal labor é o ganha-pão de inúmeras famílias em todo o município. Mas é um ofício que, por diversos fatores, entre eles a falta de informação e de condições mínimas de segurança, rotineiramente deixa seqüelas eternas em quem mexe com o produto.

Andando pelas ruas da cidade, não é difícil se deparar com pessoas mutiladas de variadas formas, umas sem um dos braços, outras sem orelhas, com cicatrizes profundas... Isso quando não vêm a falecer no local. O risco é enorme porque há a manipulação da pólvora que, uma vez introduzida num orifício feito no centro da pedra, deve ser comprimida manualmente até conseguir ficar uma “massa” bem unida e uniforme. E é justamente nesse instante onde tudo pode acontecer.

Rafael está usando um short, um chinelo feito com a carcaça de um velho pneu e uma blusa branca bem surrada. Nunca usou um colete, um capacete de segurança, ou qualquer outro objeto para lhe proteger o corpo. Rafael simplesmente é o espelho dos outros que trabalham na olaria. Rafael está feliz, tem doze anos de idade e vai começar a estocar a pólvora na pedra.

Ele sabe que deve ser paciente e que deve bater o material bem lentamente, até tudo ficar bem juntinho. Só assim é que ele poderá fazer a ligação e, de longe, detonar todo o bloco rochoso.

Rafael começa a socar a pólvora.

O menino está curvado, com os joelhos genuflexionados tocando o barro da terra. Os outros operários estão nos seus afazeres, jogando as pedras no calor das lenhas. O cenário é rústico e silencioso. Ouve-se apenas o crepitar da madeira no fogo candente e alguns poucos balbucios.

Cerca de cinco minutos após começar a condensar a matéria inflamável, Rafael sente que está próximo de terminar. Restam poucas batidas. Da chaminé da olaria brota uma fumaça branca que colore o céu. Uma marmita já bem fria com carne moída e macarrão o espera em cima de um pequeno tamborete.

Rafael iça o martelo e a pinça para uma de suas derradeiras pancadas na pedra, agora já num misto de cuidado e temor quase totalmente agachado. É um arremesso suave, sutil, porém suficiente para provocar uma faísca dentro do orifício. Rafael sabe que não há o que fazer nessa hora, somente esperar.

Os outros acordam de suas quenturas ao ouvir o pipoco. O barulho chega a ser ensurdecedor quando escutado de perto.

Bummmm.

O céu se cobre de estilhaços. A enorme rocha está partida, fragmentada, remoída, como todos queriam. Rafael está caído no chão e muito sangue o rodeia. Percebe-se, mesmo ao longe, que falta alguma coisa no corpo de Rafael. E o tempo agora é tudo.

Rafael está sobre um colchão macio no leito do hospital da cidade. Rafael não vai dormir feliz.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A banda-voou


Por Germano Xavier


Ela sai de mansinho,
cai no escurinho,
faz um inferninho,
ela é banda-voou!

Retoca o batom,
não perde o tom,
aumenta o som
que ela é banda-voou!

Do salto não desce,
de esquecimento padece,
vai ver não merece
- Ai, ela é banda-voou!

Vai sempre faceira
descendo a ladeira,
sem eira nem beira
- Meu filho, ela é banda-voou!

Cativa o casado,
desata o noivado,
não tem namorado
- Mas que banda-voou!

Não usa calcinha,
não é sua nem minha,
pra todos caminha
- Como é banda-voou!

Finge amor de propósito,
cobra ao carente o depósito,
sorri em caso de óbito,
- Bom Deus, ela é banda-voou!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pentagrama

*
Por Germano Xavier

"O Estado sou eu",
dizia o intolerante Absoluto.

"O homem é o lobo do homem",
afirmava o sariguê ávido.

"Os fins justificam os meios",
atestava a ave de rapina.

"Conhece-te a ti mesmo",
proferia o suicida grego.

"E eu?",
interrogo.


* Imagem: Google.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Abelardo e Heloísa

*
Por Germano Xavier


(Ou o mito do amor imortal)

lenitivos não existem sob a imanência
das alturas irrespiráveis. bendições não haverão
diante das execuções públicas crudelíssimas.
Hosanas deseducarão com má fé os cristãos
concebidos sem pecado original,

porque a matina amante sabe-se chiaroescuro,
e Uebermensch olhado de cima
de uma catedral gótica é o coração sem excrescências.

Prometeu perseguido por conter a fonte do segredo,
Esfinge sem questionamentos, o deus sem correntes
vulgarmente criado do povo que não conjuga julgamentos.

amor é na treva a voz sem túnel, garfo no baço e osso
perfurado, titanomaquia dizimada por aves de brinquedo
sem corda dada. onde viverá o espírito mais nobre das coisas,

quem saberá dizer de onde vem a melíflua manhã das macieiras
na primavera febril?


* Imagem: Google.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

As Iraquaras

*
Por Germano Xavier

Em palavras, um olhar sobre um documentário da TVE

Iraquara não é só pedra, terra vermelha, grotões e falésias. É terra rica, de povo misturado com muitas histórias e causos para contar. Iraquara é a pamonheira que vende de casa em casa, no bocapil artesanal, seu produto de milho. É a cortina de rochas e a vegetação verde que recebeu seu primeiro habitante por volta de 12 mil anos atrás. É, literalmente, o coração da Chapada Diamantina.

É o incontável número de garimpos, que depois deram origem aos seus diversos povoados. É a famosa Estrada Real, caminho onde os boiadeiros, tropeiros e comerciantes cruzavam rotineiramente, que ia de Jacobina (norte) até a cidade de Rio de Contas (sul), passando por Iraquara. É o século XIX de tantos diamantes e ouro “interminável”.

Ah, quantas cidades maravilhosas em uma só! Quantas Iraquaras em uma Iraquara apenas! Lugar que é a Parnaíba, que em Tupi significa “local de muitas ilhas”, hoje Iraporanga (“Pote de mel”, em Tupi). Reza a lenda que a vila de Parnaíba, como era conhecida antigamente, ficava onde atualmente existe uma lagoa coberta por taboas, uma espécie de planta aquática. Descoberta por volta dos anos de 1755 ou 1760, quando os bandeirantes por lá estiveram – deixaram até um facão com a inscrição “Parnaíba” em sua lâmina – o principal povoado iraquarense também nasceu por acaso.

Certa feita, o povo saiu da vila antiga para a novena de Santo Antônio. Chegando lá, foram surpreendidos por uma chuva bastante forte que alagou todos os engenhos, casas, plantações de cana, chácaras. Tudo tinha virado lagoa. Assim, tiveram de ficar nas proximidades da igrejinha, que ficava mais afastada da parte afetada pela tempestade. Todos perderam tudo que tinham. Todavia, fizeram daquele episódio um recomeço em suas histórias e acabaram construindo tudo novamente.

Iraporanga que hoje é a morada do sanfoneiro Hugo Luna, que canta a magia do lugarejo nos versos:

“A vila de Parnaíba
Devolve a cada criatura
Um pouco de sua criança
Um mistério de alma pura

Sua tarde fria e quieta
Abriga mil borboletas...”

Iraquara é também a Iraporanga da senhora Vanderlina Vieira, ou simplesmente Dona Vanda. Mulher antiga que considera todo mundo parente, que quando vê uma pessoa de fora já chama para tomar um cafezinho e que diz: “O povo de São Paulo pergunta logo se eu sou da Bahia. E eu respondo que sim, com certeza. E da Parnaíba!”

Iraquara que é o Esconso, as lindas cachoeiras do Riacho do Mel – ah, inesquecível Cachoeira do Mel! -, terra propícia ao turismo de contemplação. Iraquara que é a Água de Rega (foi assim batizada por ter muitas terras irrigadas), duas vezes invadida pela Coluna Prestes, um agrupamento de cerca de 4 mil homens, liderados por Luís Carlos Prestes, que se deslocou por todo o Brasil manifestando-se contra o então presidente Arthur Bernardes – na Bahia, os integrantes da Coluna Prestes ficaram conhecidos como “Revoltosos”.

Terra minha que também é a terra de “seu” Lau (Claudiano de Souza), que até hoje mostra os buracos nas janelas, oriundos das balas atiradas pelos “revoltosos”. Terra de “Liozão” (Leopoldo Costa), contador de histórias e homem que diz já ter visto lobisomens e sombras estranhas dentro das grutas.

Iraquara de cozinha sui generis, do famoso godó de banana, do cortadinho de palma, da malamba. Iraquara da cachaça orgânica, do Pedro José de Araújo, mais conhecido como “Dr. Xarope”, que há 30 anos, e no mesmo local, vende suas folhas e raízes especiais para todo tipo de moléstia. Aí vai a lista: jatobá, catuaba, pau de resposta, nó de cachorro, jatobá roxo, Dom Bernardo, carumbinha, guabiraba, capina seca, canhanhinha, cipó-cabeludo, quebra-facão, pistola-de-quati, espinheira santa, jarrinha...

E quem por lá passa, recebe a advertência:

“O homem quando envelhece
O olho enverdece
A barriga cresce
O reumatismo aparece
A câimbra desce
A perna amolece
A barba embranquece
A vista escurece
A velha oferece
E o velho agradece”

Ah, Iraquara feita de magia! Que é o artesanato feito na pedra ardósia, na palha seca, na madeira. Iraquara do tradicional Pau-de-Fita, dos Ternos de Reis - manifestação popular que presta homenagem aos Reis Magos. Que adentram as casas em cantoria bonita:

“Oi de casa!
Oi de fora!
Oi de casa!
Oi de fora!
Maria, vai ver quem é!
Maria, vai ver quem é!
Somos cantadores de Reis.
Somos cantadores de Reis.
Quem mandou foi São José!
Quem mandou foi São José!”

Aí o dono da casa oferece muita bebida e comida e a festança não tem hora para terminar...

Iraquara que fez o compositor Carlos Pita escrever os seguintes versos:

“Ir pra Iraquara e querer ficar
Deixar o coração solto no vento
Montanhas, grutas, sentimentos
E o pensamento solto no ar

Flor de Água de Rega, Toca de Mel, terra vermelha
Lapa Doce, gruta de prazer
Viu, passarinho! Viu...
Viu, meu amor! Viu...

Passar na Parnaíba e escutar
As histórias que Liozão tem pra contar
De uma terra que um dia
Já foi mar.”

Sem mais palavras...


* Deviantart.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Parada

*
Por Germano Xavier

para Maria Iraildes Pimenta


ressequidas venezianas de alma,
olhos pálidos como folhas de outono,
desmaiam os ciclopes reticentes
no escuro apenas.

ver o verdor pesaroso de não ver o verde
das relvas sem selvas, ter uma fronha
encobrindo o branco e o preto,
e por que agir insipidamente
a favor de uma vontade mórbida,
íris filtrada na dor, nesta humanidade doente?

se não enxerga os acimas,
teima a vista nos brilhos sem nome,
que são de lá os feitiços das medusas prementes.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um por um: ninguém

*
Por Germano Xavier

Eu disse "um".
Ela disse "dois".
Eu quis dizer "ambos".
Ela quis dizer "um e um".
Eu falei "um de cada vez".
Ela falou por si.


* Deviantart.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Corpo

*
Por Germano Xavier

meu corpo,
cota medievalesca imprestável,
em tardes de eu-sozinho
e em receitas exageradas
de se combinar braseiros,
apenas acende, no fundo,
a exata forma de uma existência
anulada, esgotada em dor.

o corpo, meu vestido
(multiplicante, pois sou vário)
de andar direito, direto,
reto?
é apenas ele,
o que se sabe dele.

não sou meu corpo,
como também não sou a palavra.
a palavra está.
o corpo está.
não são.
não me são.

tenho certeza, Affonso,
é sal meu corpo,
é sangue minha palavra.
e mesmo morrendo, pouco a pouco,
vivo onde e quando os dois,
o corpo e a palavra,
sem querer me ultrapassam.


* Google.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Balthazár

*
Por Germano Xavier

I

só já velho,
sem quase felicidade
no coração,
é que fizeram uma festa para ele.
festa de aniversário.
foi o dia de Balthazár morrer.


II

Balthazár foi prendendo
os animais, cada um numa cela.
após todas as prisões, olhou
para os lados e se sentiu preso
numa solidão.


* Deviantart.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fortuna crítica ( II )

*

O poeta das horas

Nasceu em um zepelim, grande e colorido no céu que vem dos tempos bons e da caridade de quem olha sempre ao redor. Nasceu do amor entre a Madrugada e o Cedo Despertar das Janelas. Nasceu belo e tempestuoso, agudo e aflito. Correndo desde menino, procurando arestas nos livros e beijando escritoras de mãos tão rosadas e contemplativas. Nasceu por milagre e gerou o mundo que não cabe em si. Alimenta os sonhos e as margaridas azuis - sempre azuis - do jardim que não chora e não traz má recordação. É grande o pensar do Poeta das Horas. Cria velozes verdades em vias respiratórias dos peixes das águas que transbordam em mim. E transbordo em seus textos, epitáfios e amores remotos. Desde o tempo dos girassóis e das descobertas de luas, escreve e cria em mim, nuvens e coloridos vestidos de versos e metáforas. Pertence ao mundo - Criou o mundo e pouco satisfeito, se tornou perfeito. O livro que Kerouac esqueceu de criar. O Poeta das Horas corteja palavras e simples, tem os olhos dos lagos que repousam ao lado de seu lar. Conheço o Poeta e já conheço o mundo contrário às imperfeições. O Poeta das Horas chora sorrindo e dorme à sombra dos séculos. Poeta sempre eterno.

Por Alice.

Alice é Letícia Palmeira, fantástica escritora e poeta. Digo isso como leitor voraz que sou e com o que de crítica tenho. Hoje, minha escritora de cabeceira. Diz ela que escreveu esse texto para mim ou pensando em mim, não sei bem ao certo... O importante é que ele serve como uma homenagem a todos os poetas que limam palavras no desejo de mundos melhores...


* Deviantart.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Cosmológico

*
Por Germano Xavier

Elimino-me no ar em frangalhos,
parado e mudo,
e me sinto o mais vazio móvel a coser
a paisagem opaca de um escuro cômodo.

De onde a ilusão
brotar, num
imortal silêncio, me pendurarei
disposto
aos vergões da vida.

Penso até que quero me ferir.
Penso até que me morro,
horrendo e honroso, da mais bela morte
que me quis.


* Google.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Fortuna crítica ( I )

*

Ao longo desses quatro ou quase cinco anos de experiência com o blog, alguns colegas de escrita teceram palavras em minha direção, as quais foram guardadas com muito esmero. Para efeito de recomposição do arquivo deste espaço, reapresento aqui algumas destas homenagens.

Isto não é um sonho

caía uma chuva magrela que trazia junto consigo um frio megero. Gus acordou, verificou as horas, ainda eram 02:50 da madrugada. A chuva intensificou-se, por sua vez o rapaz ficou de baixo das cobertas, esperando o sono que não vinha. Não havendo o que fazer, sonambulamente Gus desceu até sua cozinha para beber água e procurar o sono perdido. a sala da casa estava iluminada pelos postes elétricos. Parado na frente de um grande espelho na sala, o moço examinava seus grandes olhos verde-escuros que estavam com uma porção de vermelhidão junto de si, aquilo parecia sono. O telefone tocou tão baixo que mais parecia que iria contar um segredo. Mesmo recriminando em pensamento o facto de alguém ligar a esse horário, atendeu, poderia ser uma emergência. - Alô! Aqui é Lady Cordelia Fitzjames. Que bom que atendeu senhor Rexvia, precisamos conversar pessoalmente com certa urgência. - Alô! Quem? Qual o assunto? - Sr. Rexvia, desculpe a inconveniência do horário mas, acredite, precisamos de sua ajuda. Quero um encontro com o senhor, o mais rápido possível. Gus espreguiçou-se no sofá, ponderou um momento, a mulher, seja lá quem fosse, estava realmente falando sério. - Sim, podemos marcar. Para quando, então? - Imediatamente. Atenda a porta. um relâmpago caiu bem perto da casa de Gus, acordando-o, estava coberto de livros e com uma dor nas costas de matar, adormecera mais uma vez enquanto lia, e mais uma vez aquele sonho. Estava chovendo, olhou o relógio, 02:51. Um bater de leve na porta o deixou apreensivo, quase irritado, quem seria? Quem esquecera as chaves? à sua porta três distintas figuras, uma mulher de uns quarenta anos vestida elegantemente com trajes vitorianos, de braços dados com ela, um homem de aparência mediterrânea na mesma faixa etária vestindo um terno moderno da alta-costura italiana, e logo atrás uma moça negra careca de grandes olhos azuis, trajando apenas um vestido branco de algodão. Estavam secos a despeito da chuva que caia lá fora. Gus conclui que ainda sonhava e pediu para que entrassem, aconchegou-se no sofá e começou a devanear enquanto a mulher mais velha falava, era a mesma do telefone. Tudo era tão surreal, que o moço não se deu o trabalho de entender, afinal de contas era um sonho. - Boa noite, senhor Rexvia! - falou o homem do grupo, sua voz lembrava a de um professor gentil e exigente, Gus saiu do mundo dos sonhos e prestou atenção nele. - Eu sou Abraim Solomom Khan, a senhora ao meu lado é minha esposa, Lady Cordelia Fitzjames, Duquesa de Fireshire, e a jovem vestida com nuvens, é Miriviel, princesa de um dos reinos da Arcádia, Miriviel das fadas. E, senhor... isto não é um sonho! - A voz de Abraim ressoava pelo cômodo como raios e trovões ressoam nos céus. Se fez um silêncio enquanto Gus Rexvia assimilava o que lhe aconteceu. - O que vocês querem de mim? - Como Lady Fitzjames lhe disse, ... - a voz de Miriviel das fadas soava como centenas de vozes falando ao mesmo tempo. Era doce, suave e sufocador ouvir tal voz. - ... a bilblioteca que guarda todo o conhecimento foi saqueada, e apenas o novo bibliotecário pode entrar lá agora, já que o antigo foi transformado em pedra junto de seus ajudantes. O senhor tem a honra de ser o novo bibliotecário, entre todos os mortais, magos e seres encantados, fostes o escolhido. - Eu? Por que vocês me escolheram? Cordelia riu um pouco antes de explicar: - Não fomos nós que o escolhemos, foram as crianças. Imagine que iríamos deixar tal conhecimento nas mãos de alguém que não confiássemos, lá tem tudo o que já foi escrito, desde de receita de bolo de arco-íris ao rascunho original da Odisseia, entre muitos segredos do universo. Então, perguntamos às sete crianças mais inteligentes, às sete crianças mais puras e às mais sábias que existem, e unanimamente o seu nome foi o escolhido. Inteligência, Pureza e Sabedoria o escolheram. Precisamos de sua ajuda para saber e reaver o que foi usurpado. nada disse Gus, apenas os serviu com chá e bolo, estava frio, ninguém o pressionou para decidir-se. Abraim lavou o que sujaram, pediu água e agradeceu a hospitalidade: - Cordelia, Miriviel, é chegada a hora. Jovem senhor Rexvia, foste o escolhido para uma missão nobre e árdua, mas apenas vossa senhoria pode decidir aceitar a tarefa, ninguém mais. - Abraim acendeu o cachimbo e foi andando até a sala, parou no espelho, falou umas palavras estranhas, e fagulhas elétricas saíram de seus dedos, as senhoras passaram, antes de entrar ele fez uma reverência para Gus. - Se aceitares o cargo nos siga. - e assim entrou no espelho.

Continua...

"Gus é uma personagem inspirada no mestre Germano Xavier, pois os amigos também podem ser inspirações. Sinceramente espero que goste do conto e da personagem". Texto escrito por D., do blog Vento Longínquo.



* Deviantart.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O terceiro nome

*
Por Germano Xavier

João Mulato dos Amores.
Que belo nome para um homem!
Mas, para quê, se os vermes comem?
Quão pleno grau de dissabores...

João Mulato dos Amores,
triste que é, caberia mais ser
João Mulato das Dores.


* Google.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sobre encostos e promessas

*

Por Germano Xavier

Normalidade

Um dia normal dentro de minha vida é assim. Estou triste, cabisbaixo e minha impaciência com as coisas é a única razão que me coloca em movimento. No restante de mim, sou somente silêncio. A manhã ingerida à cara de enjôo. Indesejáveis horas. Repentinamente, ocorre-me sempre uma vontade louca de cometer um suicídio. E lembro que, na cidade onde hoje moro, passa um rio bastante caudaloso. O rio é enorme, mas não sei se ele seria capaz de suportar o peso de todas as minhas angústias. Talvez, se desse modo o fizesse, ele também resolvesse morrer ao meu lado. Seríamos simplesmente espetaculares em nossas mortes. Seríamos, para sempre, dissidentes de nossas antigas concepções. Eu, profundamente decepcionado com a realidade. Ele, o rio, uma criatura feita com as lágrimas do povo, e com as minhas. Assim, abriria os braços no ponto mais alto da ponte e, feito uma ave de rapina, voaria meus últimos instantes de aflição e de desejo insano. Depois, mergulharia no véu negro da morte, acreditando ter ido ao encontro da liberdade do meu espírito misterioso. Todavia, todo este afã cessa sempre e acabo dentro de uma sala de aula abafada, com inúmeros adjetivos sentados em apenas um substantivo. A cabeça começa a doer. O sangue parece se movimentar em meu organismo. Pego de uma caneta e de uma folha de papel, mas as veias latejam, surrupiando todas as palavras que eram minhas de origem. Sinto-me fraco e desprotegido. O sol começa a se esconder por trás do horizonte. A lua, ainda quase invisível, expressa seus primeiros gestos iluminatórios. Por final, a noite. Por final, o sono... e a profunda e silenciosa certeza de que amanhã será mais um dia dentro da minha tangida normalidade.


Olhos novatos

Hoje eu tive um sonho. É noite e uma mulher me espia de uma mínima senda da janela de sua casa. Acabei de me mudar e é conflituante essa sensação de me sentir um estranho. Vejo que todos lançam olhares de curiosidade sobre mim. Sinto-me indefeso, sem saber como atacar. Nessas horas, é inteligente um pouco de paciência. Um revide impensado e prematuro traria consequências jamais quistas. O melhor que posso fazer é esperar. É o fim do meu sonho. A espera.


Reencontro

Sexta-feira, 16. Uma agonia. Ontem revi um dos meus vários fantasmas da infância. Por isso, hoje, por onde estive andei encabulado, numa espécie de assustamento que tomou conta de todos os meus passos. O teto branco do apartamento onde moro deixou de ser o simples teto branco do apartamento onde moro, transformou-se no teto antigo, forrado em madeira, da antiga casa onde nasci, recheado de imagens que eu perscrutava noturnamente, silenciosamente, diariamente. Um teto de lembranças esquisitas, morada de algumas entidades que me fizeram companhia por um longo tempo, antes de começar a perder, paulatinamente, a minha potencial essência para o fantástico, natural quando se observa o levantar dos anos.

Sexta-feira, 16. Uma noite singular, por excelência. Tive a nítida impressão de que eu me fui novamente, como há muito... Eu a me levantar, suado, com uma adaga de prata em minha mão direita, na esquerda um escudo de bronze, olhar rijo, direcionado ao vago, aquele mesmo caçador, aquele mesmo guerreiro, menino, em busca de aventuras estranhas, que só ele vivia, procurando encontrar a sua sombra, o seu outro, o seu desconhecido, ele mesmo, sempre.


Sylvia, eu também já te amo

Sylvia, por quê?

Eu sabia ler tuas aflições, não era como o Ted. Eu te respeitava. Eu te amava, mas tu preferiste a sublimação. Adorava quando tu me confessavas o todo dos teus dias, sempre infames. Teu Ariel quase pronto, deixado na cabeceira de tua cama em Londres, matar-me-ia anos depois. Teu vago aposento não era vago, Sylvia, era turba. Não me perdestes, nem eu a ti. Estou contigo, nestes nossos tons confessionais, isentando-te de qualquer culpa. Onde quer que estejas, estarei ao teu lado, lendo-te em devaneios e surfando-te em instituições nefelibatas. Naquele 11 de fevereiro de 1963 eu te amei como ninguém poderia.

Um beijo, Sylvia, do teu amante eterno.


Um bilhete para dizer adeus

Eu deixo estas palavras sobre a cama porque ainda estou com você. Apesar de nossas brigas, quase sempre tão tolas, ainda não posso. Lembra de fechar o registro da água quando for sair. A pia está vazando e a prestação do sofá já chegou. O dinheiro está em teu porta-jóias. Eu vou indo porque preciso. Jamais me esquecerei de você. Mas a memória é também o esquecer-se, e eu devo. Amei você quando pude.

Desculpa, não posso mais.
Teu.


Um último dia

Eu não sabia que ontem era meu último dia. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão... tão... infinito. Distante! E também impalpável, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever senão a existência de um fim, de uma presente imagem do que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, para que um derradeiro olhar atinja meu universo, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?


Uma presença incômoda

Hoje, véspera de feriado, beiro a morte, a minha morte. Por onde passei, pessoas denunciaram preocupações, perguntaram-me sobre o meu estado, se eu estava passando por algum problema ou se tinha acontecido algo comigo. Por que, nas vozes dessas pessoas, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de rios. Não havia resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje. Um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite. Engraçado, também morro agora, um pouco é certo, neste mesmo instante em que escrevo essas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito a morte para viver. Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura, sigo a escrever, em reduzidas linhas, minha morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, absorvendo com a alma minha morte mais vital...


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Coto

*
Por Germano Xavier

para Elainy Cristina,
menina que corre atrás da banda.


alguma coisa fica
no ar perambula
preâmbulo ângulo agulha
alguma coisa atulha
unha ou velcro
de escafandro
alguma coisa mergulha
no mar na preamar
na restinga
no que resta
da cesta da sesta da sexta
alguma fome come
a própria fome e mesmo assim
o homem
de sapato furado
de caminho marcado
de barcos naufrágios de braços
fragilizados de tanto remar
ainda assim o homem
ainda assim
alguma coisa entulha
na calçada e impede o trem de passar
com a pressa partida
da partida
com a pressa sentida
do chegar
ainda assim a vida agride


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O barco

*
Por Germano Xavier

O meu vislumbrar...
e o mar,
tão mesclado
e tão parnasiano;
é feito o Amor,
gesto mais que profano:
insano?

És o Amor que vejo,
mas... e o mar?
O vate cabeludo diria:
"O mar é meu canto,
lugarejo de encanto.
O sonho teu manto...
O mar é meu canto".

Estupefato fico
ao senti-lo,
ao ouvi-lo.
E corre denso
espanto
no ver bisonho
deste corpo vil.

Pois devo admitir
que sou fraco
por natureza,
que sou um dilema;
apenas um poema
que sou perante o mar.

Ser débil,
delgado,
ditado,
dopado,
destroço,
detento
deserto:
poético mar
que me faz parar
no tempo,
e quão bom é tê-lo
em minha vista,
que há vidas anda
embaçada
pelo acinzentar das horas,
dos momentos e lugares,
do quotidiano atávico.
Brilho falso
de melancolias percebidas.

Ah, ...
o
mar
nas ondas...
Caminho.
Fustigo
o
sonho
posto
no
barco
de
quando
jovem
e
Poeta.

Ah, ...
o
mar
que
é
o
meu
mar,
onde
cabe
o
içar
das
velas
belas,
singelas
telas
a
passar
por mim.

Na tortuosidade
de tuas pernas:
estreitos políticos
e mercantis.

Ah, ...
o
mar
das
marés
úmidas,
dos ombros suados
e
nus,
dos
sóis
vermelhos
e
da
escuridão
brilhante.

Ah, ...
o
mar!

O
mar
das
pessoas
e
também
dos
poetas
que,
como
eu,
fogem
com
certa
rotina
para
perto
de
tuas
pernas,
de
tuas
coxas
e
de
teus
seios.


* Imagem retirada do Google.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Meu pai, dono da fábrica de sorrisos

*
Por Germano Xavier

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

(Fernando Sabino)



“A interpretação somos nós que fazemos”, a boca rosada em febre dizendo. A pele branca coberta de pêlos coloridos em preto e branco. Foi dormir cedo. Ponderou o dia e o pôs na balança. O fiel devia estar compensado pelo peso das horas. Havia cadernetas espalhadas por toda a casa, principalmente sobre a mesa do consultório. Como havia a perene preocupação acerca dos fechamentos e dos ferrolhos. Gostava de tudo apertado, urdido, colhido, singrado, garrido. Não de deslizes. Um homem feito de descontinuidades e favores. Para ele, sempre existia o momento de reavaliar prioridades, mesmo que a vontade falasse mais alto algumas vezes, teimando. Era noite, ele tinha anos e estava de aniversário. O filho mais novo pensou a noite inteira em “qual presente?”. Procurou, procurou, procurou. No meio da procura, lembrou do tempo antigo, tempo antigo e eterno. Quis combinar algo com o tempo antigo, de quando pedia a benção para dormir lá pelas nove ou dez horas da noite. Era gostoso apertar a mão do pai. “Mão de quem ama”, lembrou. Na cabeça, aquele escarcéu. Queria dar tudo de presente, entregar o mundo inteiro, a alegria toda do mundo, a vida qualquer coisa assim de verdadeiro. “Filho precisa ser”, pensou. E lembrou de quando furava a parede da garagem para construir a rede da brincadeira de bola no ar. O irmão era maior e, por vezes, vivia em outro mundo. O mais novo fazia castelo modelando tijolinhos de barro molhado com caixinhas de fósforo por detrás da casa, quintal de mangueira que já não existe mais. Ele aprendendo a caminhar sozinho, amparado. O filho subia o pé e era como subir ao sonho. Nas costas, sempre a figura de proteção dele, dizendo “cuidado” sem privar da liberdade certa. Era amor e não era outra coisa. Emudeceu por um instante. Pensou “eu não seria nada se não fosse meu pai”. Ou quase nada, porque tinha a mãe também. Depois lembrou dele com aquela velha faquinha insubstituível modelando com mãos de deus a futura prótese, perto do jardim, raspando raspando raspando, construindo sorrisos de gente, colocando sorrisos na gentes, restaurando sorrisos perdidos, de gentes também perdidas, no meio das rosas e das plantinhas verdes da mãe. Era puro encanto. Aquelas sobrancelhas arqueadas, quase sem, diminutas, a calvície que sempre foi, o olho manso de quem tem o coração bom e a alma limpa, modelando com o foguinho de álcool, prudente, fingindo uma sisudez que era mais o liame de toda uma vida de sacrifícios para agora estar ali, todo de branco, direto do Pernambuco mais seco, mais sofrido e azedo, ostentando uma missão de honra e honestidade. “Meu pai é o maior homem do mundo”, o filho matutou. E olhava-o de longe, de perto, o tudo em nós que havia, o cheiro ocre dos produtos com nomes catastróficos misturado a alicates e brocas, um ar blasé atmosférico no fim da tarde, quase barroco, agudo, hora de fechar o engenho e tomar o banho merecido. Cirurgião Dentista de ofício, o velho era mesmo sábio em amar. Amava sempre quando ligava o chuveiro quente para o filho menor, dizendo mais uma vez “cuidado, use o chinelo”, para no outro dia se poder ir ao mercado fazer a feira e organizar produto por produto na hora da volta, rótulos bem visíveis, tudo muito organizado, tudo muito. Era mesmo um pai em excesso. Um pai que não conseguia ser pouco. Pai sem plágio. Amava no dia em que o escorpião picou a noite do pé branco sobre a Iraquara de lembranças. Ele dormindo e o filho mais novo pensando no presente do pai. Queria ser o autor do texto e resolveu e foi. Subverteu a ordem lógica das coisas e seguiu, pertinente, sabedor das hierarquias. Lugar de rei é lugar armado de uma beleza moral torcida em flor. O filho, crescendo e oblíquo, fingiu a discrição e quis a vulgaridade regrada a palavras. Pensou “não sei fazer outra coisa senão escrever”, e pensou mais um pouco. Não precisou de venenos, licores, cigarros. Foi o exemplo e espelho. “A gente aprende que, como o espinho, a pétala também fere”, com os seus botões, ensimesmado. O pai ensinou que a vida é vontade, que se precisa ir com garra, sem atropelar ninguém, e defendeu defendeu defendeu a cria. Não sabia ele que o filho já pedira muito aos céus a felicidade e a vida longa, que o filho já chorou muitas vezes com medo de qualquer coisa de mal, que o filho jurou ser coisa boa no mundo, orgulhar um coração que cabe um universo inteiro. E começou, vendo seu único jeito de presentear, “painho, não tenho dinheiro, não tenho como comprar um presente grande e volumoso, não tenho muita coisa e o pouco que tenho devo ao senhor. Agora, painho, tenho estas palavras que também não existiriam se não fosse tua dedicação e esforço. Hoje não quero literatura, quero apenas a verdade, palavra de filho, 23 anos de filho teu, painho. Hoje, teus 63 anos de idade são, para mim, motivo de orgulho e respeito. Sou grato por tudo que o senhor me proporcionou durante toda essa minha vida. Estou chorando e escrevendo porque eu preciso dizer o que sinto. Hoje, estudando e morando numa cidade que não é a que nasci, longe do convívio e do aprendizado diário há bem sete ou oito anos, sem saber dos dias que o senhor vive, sinto uma saudade e uma dor no peito que não tem tamanho. Nenhuma palavra seria tão poderosa a ponto de conseguir suprir a potência do teu nome em minha mente. Carlos é e sempre será o nome do meu melhor professor, do mestre que ensinou os caminhos primordiais, do homem que me deu uma escola, uma roupa para vestir, um prato de comida, nome do homem que me ensinou os valores mais importantes, nome do pai bondoso, do profissional sem igual, nome do homem da foto que carrego em minha carteira, nome do homem que passou enormes dificuldades para conquistar o que conquistou, do homem que dedicou uma vida inteira em prol da felicidade de uma família. Vou terminar por aqui, sabendo que nunca findará o que sinto, dizendo que teu filho Germano carregará o senhor no fundo do coração por todo o sempre”.

Feliz aniversário, painho!
Não é todo mundo que completa 63 anos de vida.
Escrevo em nome da tua família: Irlan, Gustavo e Germano.


* Imagem retirada do Google.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Um resto num lugar

*
Por Germano Xavier

Levantei por volta das seis horas da manhã, tomei dois potes de iogurte e fui continuar a leitura de um livro que ela me deu. É um livro curto, que sou capaz de devorar em uma tarde só. Mas as obrigações que tenho a cumprir nos últimos dias não estão me permitindo uma tarde nem numa noite propícia para uma leitura seguida, sem freios. Nunca mais consegui ler um livro numa sentada só, com fiz com a maioria dos livros do epiléptico da Rua do Ouvidor, do Assis, na mesa da cozinha na casa dos meus pais. Estou lendo de maneira fragmentada, mas ainda compulsiva. Sou doente por livros e quem me conhece parece desconfiar. O livro que estou lendo fala do amor, de um amor diferente e de um amor igual. Sim, uma memória no singular, como toda a história, apesar da idéia velha da pluralidade amorosa. Para mim, idéias não envelhecem. E devem ser reconstruídas, sempre. Como a própria idéia, a idéia do amor também é imortal. Mas o homem sim, o homem morre. Morre de várias mortes. Morre em vida e na própria morte, seja do corpo ou da alma. Mas a idéia do amor não falece, como o amor. Estou lendo calmamente, devagar, como quem degusta um bom vinho tinto. Sentindo o deslizar da personagem sobre as lâminas do sentimento-mor. O homem mata o amor no homem e recobra-o com outro amor, força geradora da vida. O motor que faz a vida, mesmo quando quase impraticável. Mas essa é uma análise romântica e imatura ainda. Preciso terminar de ler o livro para, quem sabe, não me sentir tão decrépito assim... ou não. Dor de cabeça o dia inteiro. Fui à farmácia e comprei uma cartela de um comprimido contra dor. A moça do balcão desconfiou de mim. Senti. Parei a moto na esquina e entrei vestido com um casaco bicolor e uma mochila nas costas. Com a cara barbuda, aparentando uns trinta anos de idade, entrei e pedi os comprimidos. Ela não olhou para mim durante todo o enlace mercantil. Eu olhei para ela e vi como era uma moça atraente perdendo a vida atrás de um balcão. Quanta ironia e quanta metáfora. Uma moça sadia ficando doente atrás de um balcão numa farmácia na esquina. Eu e ela e mais ninguém. “Obrigado”, disse. Ela agradeceu quase sem altura na voz, usando um “de nada” murmurante. Ainda demorei cerca de um minuto e meio entre o avistar a moto novamente na esquina e o ligar o motor. Pensei em voltar e pedir a mão dela em casamento. Ela possuía olhos de mulher boa para se casar, olhos velhos, quase tristes quase frágeis. Mas lembrei que tenho um amor e um amor que é mais que amor. Fui para casa, mas antes paguei a mensalidade do apartamento. Rua A, 500, apto 203. Um lugar até confortável. De frente para o parque recreativo da cidade. Entrei e engoli o comprimido. Minha cabeça pulsava. Escrevi um poema que tinha começado na noite anterior e li alguns contos. Não demorou muito e fui para algum lugar. Foi o dia de ganhar palavras. Um papel. Um papel amigo, de se querer fortalecer laços. A vida tratada com esmero por uma mão que acarinha o tempo. Tempo que não é para marcação de territórios. Eu até entendi. Sim, entendi. Mas disse que eu era daquele jeito mesmo e que não conseguia sorrir a todo o momento. Meu sorriso é difícil, e pesado quando sai de mim. A vida inteira fui tratado como o chato. O avesso à normalidade das ações, das relações. Já estou acostumado com esta parte de mim. Enfadonho, avesso, porém observador. Vivi os melhores dias de minha vida sem precisar expor a ninguém nada e não será agora o momento de mudar de comportamento. A menina do papel, Ela, entende tudo. É uma moça com a cabeça boa. E agradeci a ela como quem agradece um favor bom. E não era favor nenhum. Era amizade. A aula foi péssima, dor de cabeça, latejando. Faltando uma hora para o fim, saí da sala e fui para casa. Atravessei a ponte e minha cabeça dentro do capacete pulsava. Um alívio quando tirei. Entrei, tomei mais um comprimido da cartela de quatro, e deitei. Pensei na vida que eu levava, no nada que sou perante a mecânica capitalista e formatável que é essa vidinha do mundo lá fora. Aí pensei no passado e nos meus amores. Sim, porque amei todas e só amo uma. E não sei por que fiz este exercício. Talvez tenha esquecido alguma ou outra, sem maior relevância. Foi quando esqueci a dor de cabeça. Fiz uma lista, claro, sem citar nomes... O diabo abre a voz quando o dia nem acorda e esnoba um pensamento. Não existe paixão nesta vida, ninguém pode, ninguém deve. Não há possibilidade, não se pode tecer esperanças. Iludido é o homem que crê no amor, ainda que fraco. E as palavras do diabo são flores evasivas, não são flores melíferas. Nenhuma abelha, nenhum pólen. Sem saber o diabo que o mel demoliu a palavra. Acordo cedo, leio, como, bebo. Minha escrita vem depois de tudo, após sentir o clima do dia. Não redijo mediunidades ou lampejos sem céu pertencido, ainda que só tocados de leve. Acredito no tempo da palavra e em tudo o que o diabo se intromete. Não, eu não quero muito. Quero o pouco que me transforma, que me transporta. Quero o céu que é meu, o meu pedaço. E acredito na mão que, sem cerimônias, ama o outro. Ela tem uma amiga quase irmã que defende a teoria do encontro. Para ela, a felicidade é apenas uma mudança. Mudar com calma, mas mudar. Falei que a hora é a maior dor, que o tempo é longe e é tão perto do sofrer do peito. Disse ela que tudo um dia muda e a felicidade sonhada acontece. Aí pensei ser esnobe a ilusão de não crer que a vida é feita do apaixonar-se. E vi que estava certo o velho que passa. Triste é não ir. Por isso eu tenho medo de mim. Tenho medo porque não sei tudo sobre mim. Desconfio que muito de mim ainda não aconteceu, que muito de mim ainda vive dentro de mim, em sono. E cada dia é um novo susto, um novo espanto, um novo ser. Quando penso que tenho já pouco a aprender sobre as pessoas, sobre o mundo, vem alguém mais louco que eu e me diz ineditismos. Quase todo um dia investido em leitura e estudo não me diz nada sobre quem sou realmente. Mas a noite sempre vem clara de ensinamentos. A mulher que amo bebe comigo o líquido azul. E eu sei que aquela voz não é somente uma voz. É alguma coisa acordando em mim. O dia de hoje foi marcado pelo fim de mais uma tentativa. Não que eu esteja triste, pelo contrário, encontro-me muitíssimo feliz, principalmente por haver tentado. Mas é que eu tentei na esperança única de dar certo, de ajudar o outro, com o mesmo sentimento de quem ajuda o mundo a ser mais humano e menos pesado. Por motivos simples, porém conflituosos, a tentativa passou de conquista e confirmação para um esboço e um "quem sabe, num outro momento". Sem mágoas no coração, de nenhum dos lados, a vida segue seu caminho. Do meu lado, continuo o mesmo aspirante a realizador de sonhos que sempre fui. Não obstante, o sol apareceu radioso e vivaz. Parece ser o fim também daquele friozinho que cobria minhas pegadas ultimamente. Mas, do que somos feitos senão de metamorfoses constantes?! Eu mudo, tu mudas, ele muda, ela muda, nós mudamos, vós mudais, eles mudam, elas mudam... E, assim, a vida segue seu caminho. Hoje fui amor total. A tradução disto é um ato impossível. Shopenhauer estava certo quando disse que "todas as traduções são necessariamente imperfeitas". Os homens, nós homens, estão, diariamente, tentando fazer alguma espécie de tradução, sem suspeitar de que estejam apenas correspondendo palavras e idéias, e não unindo os sentimentos na direção da vida em liberdade. Eu fico aqui pensando com os meus botões se é mesmo possível interpretar sensações ou fugir da naturalidade com que elas nos chegam. Não seria melhor abrir o peito duro e permitir a entrada do vendaval da poesia da vida, sem mentir algum discurso inacabado ou manipulado a nós mesmos e por nós mesmos? Eu não sei onde estou, nem onde estive. Amanhã, quem sabe eu me encontre, porque hoje não posso mais... Hoje minha vida só não passou em branco porque tenho longe algum sentimento que não morre. Algo muito longe e muito perto que não sei bem explicar, nem quero. Estou aprendendo que é bem melhor não ficar dando explicações a toda hora. Ela hoje me deu algumas dicas preciosas de como fazer para não se perder mais e mais em si mesmo. No que concerne ao resto do dia, só mesmo uma ponte rotineira, alguns pensamentos na cabeça e muita vontade de seguir escrevendo. Muita vontade mesmo...


* Imagem retirada do Google.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Da força de um canto

*
Por Germano Xavier

canta, canta, canta... e s'encanta
pois cantar, grande lugar
d'eloquência é sopro
da alma, efervescência
quando se tem esperança
tanta

quem não canta, alegria espanta
e vive eterno a conhecer o escuro
não sei se posso, meu canto impuro
é dança de copas: pobre planta

e é semente, que de mim germina
doença que me corrói, maltrata,
um sufoco escuso que não termina

que reluz como ouro, e não prata
o encanto é arte madura;
espelho de mágica visão
e cura


* Imagem retirada do Google.