quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Itaitu olhada de dentro


Por Germano Xavier,
para Verusa Pinho, colega de Jornalismo.



I


Oeste, lado norte,
sul para quem vai,
sul para quem vem.
Itaitu Chapada Norte
Itaitu sem norte,
ouro que brotou do chão.

Lugar como o meu,
Pote de Mel que cresceu,
minha Iraquara perdida
em minha infância distante.
Ruazinhas de paralelepípedos,
casinhas de janelas grandes,
mundinho sem avenidas, sem
viadutos, sem qualquer saída,
centro onde o vento se perdeu.

Itaitu de hora lerda,
do vendedor de sonho em abril,
da roceira mulher morena,
da criançada de alma febril.
Itaitu que é sem fim
no fim que a vida deu, que é
o de espantar tristeza
e alegrar o homem em escarcéu.

Quem vai quer ficar,
quem já ficou não foge mais,
quem é de lá vira água de cachoeira,
ouro antigo, que bom deus!
Itaitu e Iraquara,
eternos ranchinhos sem breu.
Será vida besta, meu deus?


II

água escorrida
do céu
choro de deus
que não cessa
lágrima limpa
chuva repartida
de vida
de vida
de vida


III
batiza eu deus de quem quer lugar santo pra quem duvida alguma coisa ainda vai acontecer é o que dizem as velhinhas beatas que vão e vem alguma coisa ainda vai acontecer e vai haver sim o dia do juízo ou do júbilo final por que nestas casinhas com cruzes no teto no telhado e praça no derredor quase sempre a semente da cidadezinha que brota flor de margarida branca se esconde um mistério secular umas mulheres vestidas com vestidos e homens que estudaram latim língua morta corpo morto? vontade morta? batiza eu não deus que sou ateu que sou atoa que sou poeta que sou da vida sem grilhões sem lestrigões batiza eu não deus que eu não vou pro céu que eu quero é meu corcel pra galopar certezas melhores por que nestes lugarzinhos esquecidos há gente que reza e há gente que ora e a diferença na fé também da terra perdida nasce

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Farsa


Por Germano Xavier

XVII

É inadmissível ter de aceitar toda esta farsa. Talvez, tudo isto que está acontecendo devesse virar uma peça teatral. Seria uma daquelas tragédias inenarráveis, com um final que deixa a todos surpresos. O pior é que toda esta desgraça está aí, completamente visível, apalpável. A cada dia que passa surge um novo símbolo, uma nova figura, um novo mito tentando explicar o inexplicável. E esta civilização... e esta prisão, estas grades, estas cadeias... fazer o que com tudo isso? Fazer o quê, se são as cargas extras da vida, carregadas em nossos lombos, em nossas costas cansadas, no eterno desígnio de nos fortificar, de nos tornar verdadeiramente homens? Mas é certo isso? Até quando teremos de viver como animais de carga, e desempenhar trabalhos braçais, cabíveis somente a um animal de grande porte? Sofrimento, tanto. É por isso que sempre me quero na companhia dos meus "redondinhos", seres amados, adorados. Ó, quanto sal em mim?! Estou imundo, na podridão deste mundo caótico, sem perspectivas, sem soluções?! Onde a nossa vontade nata de conquista e vitória? Queremos mesmo soluções? Onde aquele desempenho eloquente que mostrava-se, subitamente, no quintal de nossas casas ou nos bastidores de algum tempo? Quanto mais nos sacrificamos, parece que da vida nos tornamos mais "empregados", subservientes. Mas, fazer o que com tudo isso? Fazer o quê? Primeiro passo: escute o vento que sopra na noite? Segundo passo: torne-se leve, e deixe o vento te levar? Terceiro passo: corte os excessos? Quarto passo: entregue-se ao jogo da vida, sem jamais deixar de lutar e desejar vitórias? Até parece que estou escrevendo um livro de auto-ajuda, mas a bem da verdade é que estou parecendo ser frágil, desconcertado e inseguro. Todavia, tenho de dizer que se seguirmos esta cartilha, veremos que nossas cosmovisões serão menos dicotômicas e, portanto, a probabilidade de ocorrer alguma vitória, seja total ou de modo parcial, é muito maior. Enquanto isso, tomarei minha puçanga das "três". Todo sofrimento tem cura, meus amigos. Por isso, bebam de seus pseudosumos, e nunca deixem de viver!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Olhos de Daniela


Por Germano Xavier,
para a menina Daniela Gama

este poema é úmido
porque regado da salina água
dos teus olhos de Netuno.
úmido
porque é todo um mar labial
naufragado no céu invertido
que são seus íris – arco-íris.
este poema é úmido
porque traçado no póro de tua pele,
perto, cor, sabor, hora,
agora.
este poema úmido cabe no branco
dos teus olhos-alma, cabe
fácil, dulcífico, maior.
umidade na idade do tempo
que amarra uma vontade insana
de no mel’oceano deles
desaguar...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A cabeça de Nastércio



Por Germano Xavier


E foi então que o Nastércio percebeu que tinha uma cabeça grudada ao pescoço. E foi depois de tal percepção que ele viu que cabeças servem para suportar a gelatina do cérebro, e que cérebro é lugar de mente. E foi assim que o Nastércio soube que mente não é lugar de mentira, mas de pensamento. "Mas, como fazer funcionar algo que não funciona?", pensava. A mente de Nastércio não funcionava porque ele passou a vida toda pensando que em cima do pescoço o homem tinha mesmo era uma agricultura de cabelos. E ele estava certo: cabelos não servem para nadica de nada. Aí o Nastércio resolveu pegar a enxada e capinar a monocultura de sua cabeça. Nastércio era monocultural, só sabia saber, mas não sabia que sabia saber. E saber saber não quer dizer que se sabe alguma coisa. Por isso, o arejamento do campo capilar foi a melhor coisa que ele podia ter feito. Tirou, com a mão mesmo, todas as ervas daninhas de sua mente: primeiro a boina-máscara, depois eliminou os piolhos-dos-olhos e ademais, cortou tudo com tesoura de cortar e tacou fertilizante de fertilizar. Adubo novo de traseiro de vaca. E foi dito e feito. Não demorou muito para que fosse possível ver brotar do roçado da cabeça de Nastércio uma verdade atrás da outra. Porque, você sabe, depois da merda endurecida, só mesmo jogando muita água naquilo que é muda.


* Imagem: Google.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A banda-voou


Por Germano Xavier


Ela sai de mansinho,
cai no escurinho,
faz um inferninho,
ela é banda-voou!

Retoca o batom,
não perde o tom,
aumenta o som
que ela é banda-voou!

Do salto não desce,
de esquecimento padece,
vai ver não merece
- Ai, ela é banda-voou!

Vai sempre faceira
descendo a ladeira,
sem eira nem beira
- Meu filho, ela é banda-voou!

Cativa o casado,
desata o noivado,
não tem namorado
- Mas que banda-voou!

Não usa calcinha,
não é sua nem minha,
pra todos caminha
- Como é banda-voou!

Finge amor de propósito,
cobra ao carente o depósito,
sorri em caso de óbito,
- Bom Deus, ela é banda-voou!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Balthazár


Por Germano Xavier

I

só já velho,
sem quase felicidade
no coração,
é que fizeram uma festa para ele.
festa de aniversário.
foi o dia de Balthazár morrer.


II

Balthazár foi prendendo
os animais, cada um numa cela.
após todas as prisões, olhou
para os lados e se sentiu preso
numa solidão.


* Imagem: Deviantart.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fortuna crítica ( II )

*

O poeta das horas


Nasceu em um zepelim, grande e colorido no céu que vem dos tempos bons e da caridade de quem olha sempre ao redor. Nasceu do amor entre a Madrugada e o Cedo Despertar das Janelas. Nasceu belo e tempestuoso, agudo e aflito. Correndo desde menino, procurando arestas nos livros e beijando escritoras de mãos tão rosadas e contemplativas. Nasceu por milagre e gerou o mundo que não cabe em si. Alimenta os sonhos e as margaridas azuis - sempre azuis - do jardim que não chora e não traz má recordação. É grande o pensar do Poeta das Horas. Cria velozes verdades em vias respiratórias dos peixes das águas que transbordam em mim. E transbordo em seus textos, epitáfios e amores remotos. Desde o tempo dos girassóis e das descobertas de luas, escreve e cria em mim, nuvens e coloridos vestidos de versos e metáforas. Pertence ao mundo - Criou o mundo e pouco satisfeito, se tornou perfeito. O livro que Kerouac esqueceu de criar. O Poeta das Horas corteja palavras e simples, tem os olhos dos lagos que repousam ao lado de seu lar. Conheço o Poeta e já conheço o mundo contrário às imperfeições. O Poeta das Horas chora sorrindo e dorme à sombra dos séculos. Poeta sempre eterno.

Por Alice.


Alice é Letícia Palmeira, fantástica escritora e poeta. Digo isso como leitor voraz que sou e com o que de crítica tenho. Hoje, minha escritora de cabeceira. Diz ela que escreveu esse texto para mim ou pensando em mim, não sei bem ao certo... O importante é que ele serve como uma homenagem a todos os poetas que limam palavras no desejo de mundos melhores...


* Imagem:Deviantart.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Cosmológico


Por Germano Xavier


Elimino-me no ar em frangalhos,
parado e mudo,
e me sinto o mais vazio móvel a coser
a paisagem opaca de um escuro cômodo.

De onde a ilusão
brotar, num
imortal silêncio, me pendurarei
disposto
aos vergões da vida.

Penso até que quero me ferir.
Penso até que me morro,
horrendo e honroso, da mais bela morte
que me quis.


* Imagem: Google.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Fortuna crítica ( I )

*

Ao longo desses quatro ou quase cinco anos de experiência com o blog, alguns colegas de escrita teceram palavras em minha direção, as quais foram guardadas com muito esmero. Para efeito de recomposição do arquivo deste espaço, reapresento aqui algumas destas homenagens.


Isto não é um sonho

caía uma chuva magrela que trazia junto consigo um frio megero. Gus acordou, verificou as horas, ainda eram 02:50 da madrugada. A chuva intensificou-se, por sua vez o rapaz ficou de baixo das cobertas, esperando o sono que não vinha. Não havendo o que fazer, sonambulamente Gus desceu até sua cozinha para beber água e procurar o sono perdido. a sala da casa estava iluminada pelos postes elétricos. Parado na frente de um grande espelho na sala, o moço examinava seus grandes olhos verde-escuros que estavam com uma porção de vermelhidão junto de si, aquilo parecia sono. O telefone tocou tão baixo que mais parecia que iria contar um segredo. Mesmo recriminando em pensamento o facto de alguém ligar a esse horário, atendeu, poderia ser uma emergência. - Alô! Aqui é Lady Cordelia Fitzjames. Que bom que atendeu senhor Rexvia, precisamos conversar pessoalmente com certa urgência. - Alô! Quem? Qual o assunto? - Sr. Rexvia, desculpe a inconveniência do horário mas, acredite, precisamos de sua ajuda. Quero um encontro com o senhor, o mais rápido possível. Gus espreguiçou-se no sofá, ponderou um momento, a mulher, seja lá quem fosse, estava realmente falando sério. - Sim, podemos marcar. Para quando, então? - Imediatamente. Atenda a porta. um relâmpago caiu bem perto da casa de Gus, acordando-o, estava coberto de livros e com uma dor nas costas de matar, adormecera mais uma vez enquanto lia, e mais uma vez aquele sonho. Estava chovendo, olhou o relógio, 02:51. Um bater de leve na porta o deixou apreensivo, quase irritado, quem seria? Quem esquecera as chaves? à sua porta três distintas figuras, uma mulher de uns quarenta anos vestida elegantemente com trajes vitorianos, de braços dados com ela, um homem de aparência mediterrânea na mesma faixa etária vestindo um terno moderno da alta-costura italiana, e logo atrás uma moça negra careca de grandes olhos azuis, trajando apenas um vestido branco de algodão. Estavam secos a despeito da chuva que caia lá fora. Gus conclui que ainda sonhava e pediu para que entrassem, aconchegou-se no sofá e começou a devanear enquanto a mulher mais velha falava, era a mesma do telefone. Tudo era tão surreal, que o moço não se deu o trabalho de entender, afinal de contas era um sonho. - Boa noite, senhor Rexvia! - falou o homem do grupo, sua voz lembrava a de um professor gentil e exigente, Gus saiu do mundo dos sonhos e prestou atenção nele. - Eu sou Abraim Solomom Khan, a senhora ao meu lado é minha esposa, Lady Cordelia Fitzjames, Duquesa de Fireshire, e a jovem vestida com nuvens, é Miriviel, princesa de um dos reinos da Arcádia, Miriviel das fadas. E, senhor... isto não é um sonho! - A voz de Abraim ressoava pelo cômodo como raios e trovões ressoam nos céus. Se fez um silêncio enquanto Gus Rexvia assimilava o que lhe aconteceu. - O que vocês querem de mim? - Como Lady Fitzjames lhe disse, ... - a voz de Miriviel das fadas soava como centenas de vozes falando ao mesmo tempo. Era doce, suave e sufocador ouvir tal voz. - ... a bilblioteca que guarda todo o conhecimento foi saqueada, e apenas o novo bibliotecário pode entrar lá agora, já que o antigo foi transformado em pedra junto de seus ajudantes. O senhor tem a honra de ser o novo bibliotecário, entre todos os mortais, magos e seres encantados, fostes o escolhido. - Eu? Por que vocês me escolheram? Cordelia riu um pouco antes de explicar: - Não fomos nós que o escolhemos, foram as crianças. Imagine que iríamos deixar tal conhecimento nas mãos de alguém que não confiássemos, lá tem tudo o que já foi escrito, desde de receita de bolo de arco-íris ao rascunho original da Odisseia, entre muitos segredos do universo. Então, perguntamos às sete crianças mais inteligentes, às sete crianças mais puras e às mais sábias que existem, e unanimamente o seu nome foi o escolhido. Inteligência, Pureza e Sabedoria o escolheram. Precisamos de sua ajuda para saber e reaver o que foi usurpado. nada disse Gus, apenas os serviu com chá e bolo, estava frio, ninguém o pressionou para decidir-se. Abraim lavou o que sujaram, pediu água e agradeceu a hospitalidade: - Cordelia, Miriviel, é chegada a hora. Jovem senhor Rexvia, foste o escolhido para uma missão nobre e árdua, mas apenas vossa senhoria pode decidir aceitar a tarefa, ninguém mais. - Abraim acendeu o cachimbo e foi andando até a sala, parou no espelho, falou umas palavras estranhas, e fagulhas elétricas saíram de seus dedos, as senhoras passaram, antes de entrar ele fez uma reverência para Gus. - Se aceitares o cargo nos siga. - e assim entrou no espelho.

Continua...

"Gus é uma personagem inspirada no mestre Germano Xavier, pois os amigos também podem ser inspirações. Sinceramente espero que goste do conto e da personagem". Texto escrito por D., do blog Vento Longínquo.




* Imagem: Deviantart.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Da força de um canto



Por Germano Xavier



canta, canta, canta... e s'encanta
pois cantar, grande lugar
d'eloquência é sopro
da alma, efervescência
quando se tem esperança
tanta

quem não canta, alegria espanta
e vive eterno a conhecer o escuro
não sei se posso, meu canto impuro
é dança de copas: pobre planta

e é semente, que de mim germina
doença que me corrói, maltrata,
um sufoco escuso que não termina

que reluz como ouro, e não prata
o encanto é arte madura;
espelho de mágica visão
e cura


 Imagem retirada do Google.