terça-feira, 16 de junho de 2015

Apontamentos sobre o Sistema Gráfico do Português

*
Por Germano Xavier


No capítulo intitulado de CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA GRÁFICO DO PORTUGUÊS, presente no livro LINGUAGEM ESCRITA E ALFABETIZAÇÃO, de Carlos Alberto Faraco (2012), o autor explicita três objetivos pretendidos a partir da discussão gerada nas páginas aqui referenciadas. São eles: 1) revelar os princípios que estruturam o sistema gráfico do português; 2) descrever o sistema gráfico da língua portuguesa; 3) fornecer subsídios para a construção de um sistema voltado para a promoção do seu ensino.

Com os objetivos de análise traçados, Faraco (2012) começa a delimitar o seu estudo colocando em xeque a base de pensamento linguístico que dialoga com a ideia de que a língua portuguesa tem em sua representação gráfica do tipo alfabética um dos alicerces de segmentação mais básicos, o que quer dizer que toda unidade gráfica resultaria em uma unidade sonora, fator que pode variar em diferentes idiomas. Esta relação de resolução “resumir-se-ia” ao modelo dual GRAFEMA x FONEMA ou vice-versa.

Ainda neste contexto, o autor elucida que o sistema gráfico do português pressupõe também o princípio da memória etimológica e, por isso, admite como forma de fixação da forma gráfica as unidades sonoras funcionais e, também, sua procedência. 

Por funcionar assim, Faraco (2012) delimita a relação grafema x fonema e deixa margens arbitrárias para representações que fogem um pouco da mecânica normal desta engrenagem. E, segundo o autor, são justamente estas exceções à regra, que terminam por exigir estratégias cognitivas diferenciadas e apropriadas, as maiores responsáveis pelas dificuldades do aluno com relação ao processo de apropriação da grafia da língua portuguesa.

Outra característica a se notar no que tange aos elementos de estruturação do sistema gráfico da língua portuguesa diz respeito a sua neutralidade diante da pronúncia. De acordo com esta noção, as nuances da memória etimológica ficam ainda mais destacadas, o que pode representar alguma insólita situação envolvendo as aproximações entre grafia e pronúncia. 

Para entender melhor esta neutralidade do sistema gráfico, basta entender que para uma grafia pode haver inúmeras formas de pronunciação. Esta característica é tão fundamental à língua que, segundo Faraco (2012), a não uniformidade gráfica causaria um entrave à utilidade de todo o sistema de representação conhecido por nós hoje.

Sendo assim, as mudanças de ordem da pronúncia dentro do citado sistema distanciam o espectro sonoro das representações gráficas, ampliam o fator neutralidade gráfica e, por conseguinte, crias dificuldades para com os usuários da língua, porventura acostumados com situações menos “anormais” de utilização do português. 

Faraco (2012) ainda aponta algumas observações sobre as mudanças de ordem da pronúncia que podem afetar um grande contingente de pessoas ou até a população de um país inteiro, o que faria com que tal movimentação significasse uma dificuldade generalizada, sem escape para nenhum usuário da língua.
Após tal referenciação, o autor expõe sobre os dois tipos de relações comportadas pelo sistema gráfico da língua portuguesa: as relações biunívocas (para uma unidade sonora, uma unidade gráfica) e as relações cruzadas (uma unidade sonora pode ter mais de uma unidade gráfica ou, ainda, uma unidade gráfica pode representar mais de uma unidade sonora).

Deste modo, e depois de fazer uma abordagem mais geral, Faraco (2012) elabora alguns quadros de representação das consoantes, partindo da análise de relações biunívocas (as mais naturais), passando pelas relações cruzadas previsíveis (de oscilação com base nos contextos de uso) e indo até uma exposição sobre as relações cruzadas parcialmente previsíveis e parcialmente arbitrárias e terminando nas relações cruzadas totalmente arbitrárias. Por fim, elabora esboços panorâmicos acerca das representações gráficas das vogais e dos ditongos, subdividindo-os em grupos parelhos para uma melhor demonstração do todo das configurações possíveis ao sistema gráfico do português. 



BIBLIOGRAFIA


FARACO, Carlos Aberto. Linguagem escrita e alfabetização. São Paulo: Contexto, 2012, p.121-163.

Nenhum comentário: