quinta-feira, 25 de junho de 2015

O julgamento das almas largas (Parte I)

*

Por Germano Xavier e Camila Tebet


E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos 
por aqueles que não podiam escutar a música.

Friedrich Nietzsche

SOBRE A SENTENÇA DO DIA


a hora inversa é o propósito do tempo. ponteiros tentam a todo instante: a fuga. Poe defendia a morte como maior estação de beleza. a loucura dele. nada há de absolutismos no momento, nada de esferas azuis em função especular nos azulejam, nada pode recontar a história como o sangue derramado das crianças invisíveis. o corredor é imenso, a vida finda breve, inda insiste além, vai e vai e o que nos cerca existe mesmo? não compreendo a sentença do dia: continuamos morrendo. continuamos morrendo na tristeza mórbida dos dias, na morte que deixamos em nossas caminhadas matinais, na morte que vasculha todo o império de polifonia. o que há no coração dessas selvas por onde vagamos? se você quiser... saberemos. há um relógio em meu pulso. o que ele marca? eu tenho um segredo: não gosto da morte em você. a morte em você é sensual, furta a cor da vida. o propósito da inversão é a hora do tempo. instantes tentam a toda fuga: o homem. a loucura é uma forma de sucesso. suspeitaremos. empoleirado, o corvo de Poe nos espera. a morte é uma noite no frio, a porta que não abrimos por medo. o tempo nos empareda. nada há de momento nas certezas, nada de reflexo na cara limpa dos agoras. tudo parece acontecer no após, nada pode refugiar a aurora dentro das previsibilidades das poções maquinais: a magia está em quem se despe no quarto mofado e sorri diante do sangue derramado das crianças invisíveis como a estar num museu de carne e ossos. o inferno é constante, a violência não cessa, olhos matam, mãos ferem, mentes deturpam, pessoas gritam seus desvozeamentos, inda insiste o além, vamos e já não podemos voltar. o que existe, afinal? e a sentença do dia: continuamos morrendo. continuamos morrendo nas distâncias que nos delegam contextos de obrigação, nas deixas em quadrinhos proferidas pela mente de Guy Debord, continuamos morrendo nos entusiasmos represados bem no meio de um espetáculo diário. a tensão não justifica a posse. o reino é o sufoco. nossos discursos sociais nos desautorizam. o que há nas vagas desses corações selvagens arquitetados pelo texto de um reles indivíduo? se você quiser, menina... saberemos um dia. deixemos o tempo... o relógio em meu pulso prende meu pulso. qual a razão do pulso, da teima? você tem um segredo? carnavalizo, como todos, o gosto da vida em você. a morte em você é um adeus em mim. eu planejo me descriar. e?

A criança invisível fui eu. O sangue era meu. No museu, a carne e o osso eram meus. E o que fazer agora com isso? Era esse o meu segredo que nem o corvo de Edgard esperava.

Foram tantas vozes, tantos gritos, tantos rolos compressores que acabei nessa polifonia sem limites. Todo sofrimento foi meu e não abro mão dele. Era morte toda noite. Menti acima. Nunca tive onde me refugiar porque sou invisível. Só sangro.

A morte de um momento é mesmo uma estação de beleza. Pelo retrovisor. E continuo morrendo, seguindo a sentença do dia. Num cantar sem batuque. Num canto triste e pausado. Uma voz aveludada e sombria canta minha morte diária. Ela não me deixa esquecer que nasci para isso. Para morrer.

Os panos que envolvem minha vida/morte são sensuais e quando estou visível me escondo atrás deles. Com perfumes, incensos e luzes em cores me revelo a mais poderosa das mulheres. A que sussurra no seu ouvido o risível. Esse que é mal tratado, mas que alegra a noite.

Posso te contar? O reino me sufoca menos. Vivi, hoje, fora dele. Fugi. Como fazem todas as poderosas mulheres do reino. Elas fogem ou se sentenciam contar uma história por noite para continuarem vivas. Eu não conto história pra ninguém. Minhas histórias eu vivo e ah... como as rasgo, como as destrincho... como as alargo. Perco o folego e depois naufrago dentro delas. Faço bolhas coloridas como as que você me negou me chamando de menina.

Nada não. Nada me tira a voz. Eu grito. Eu gosto mesmo de gemer a vida. Gozar cada quilômetro rodado. Eu chego, eu vou e volto a todo minuto. Deixa disso. Esse relógio que a sociedade te deu machuca. A violência não me deixa embaixo da cana. Cresci com ela.

Das noites frias lembro cabeças batendo no vidro, de socos e pontapés. Lembro de noite que de tão escura que acho até que não existiu. Lembro de noites que o ranger dos dentes era medo. Lembro de noites que a mão em riste era a morte. E morri. Morri várias vezes. Até que fiquei louca.

A loucura é um sucesso. Pink! A loucura faz loucuras por mim. E amo cada uma delas. Giro meu vestido e danço frevo quando estou loucura. Loucura é verbo. Eu loucuro, tu loucuras e por aí vai todo mundo loucurando. E viva os maluco!

O que me cerca existe sim. Estou vendo. Olha lá o chão vermelho, a janela azul, a cortina amarela e a cama preta. Olha aí um bolinho saindo do forno. Vem tomar um café. Aí te conto por que à meia noite os ponteiros fazem amor.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/umyslnieII-541966115

2 comentários:

Vieira Calado disse...

Um abraço, amigo!

Leila disse...

Bom demais...incansável olhar de uma manhã tão fria!