sexta-feira, 15 de abril de 2022

PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA, de Djamila Ribeiro


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o livro Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro. Nele, a filósofa e ativista santista "trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos". "(...) a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas". Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferece mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#pequenomanualantirracista #djamilaribeiro #nãoaoracismo #oequadordascoisas

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Como escreve Germano Xavier

Germano Xavier é escritor, poeta, jornalista e professor.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Nos primeiros três dias da semana é uma correria. Acordo por volta das 05:40h, pego o carro e viajo por cerca de 1 hora para uma das cidades em que trabalho. Ganho a vida como professor. Assim, reservo as noites para ler e escrever. A partir das quintas-feiras já tenho as manhãs livres. Depois do movimento inicial do despertar, sempre que posso vou ao cômodo onde ficam os meus livros e a minha escrivaninha. Ler é sempre prioridade. Reviso algumas coisas por fazer, escrevo e deixo o texto dormir. Tenho muitos textos que ainda dormem, anestesiados pelo tempo que matura. Vou soltando aos poucos alguns textos em meu blog (O Equador das Coisas), mas ultimamente a maioria vai para a “câmara do adormecimento”. O futuro serve para reativar a maioria deles. Nos finais de semana, quando não viajo, dedico-me mais ainda à escrita. Geralmente é quando escrevo textos mais longos em prosa. Poesia sempre representou um fazer literário mais espontâneo para mim, porém não menos trabalhoso.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Eu prefiro as manhãs. Já me acostumei a escrever dentro das manhãs. Estar inteiro dentro das manhãs é uma dádiva para mim. Preciso estar com a casa em profundo silêncio. Preciso escutar o som do teclado, o som da palavra saindo de dentro de mim. Uma vez ou outra coloco uma música para tocar enquanto teclo, em baixo volume. A probabilidade de encaminhar bem um texto é consideravelmente maior se se cumprida a totalidade ou boa parte desse ritual.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Já consegui escrever um pouco todos os dias. Ultimamente, por conta de diversas demandas, escrevo quando tenho tempo suficiente para escrever com calma. Tenho escrito mais em períodos mais concentrados, intercalados com tempos de leitura. Não tenho meta de escrita por dia. Não trabalho assim. Pelo menos, por ora. A pandemia atual bagunçou muita coisa nesse sentido, também.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Às vezes, o mais difícil é anotar, pontuar, detalhar caminhos para a escrita acontecer como quero. Por vezes, o texto simplesmente desliza por meus dedos e nasce. É mais difícil, mas acontece com boa frequência. Poemas não são mais difíceis de começar quanto contos, crônicas ou textos em gêneros de maior fôlego. Os poemas são os meus amigos mais próximos, mas já houve uma fase muito difícil para poemas. Eu andava lendo muito, muitos textos acadêmicos, leituras mais técnicas e os poemas simplesmente deram uma pausa de mim. Tiraram férias. Tenho muitos projetos de escrita em mente. Não sei como será num futuro próximo. Minhas rotinas podem simplesmente mudar de uma hora para outra. Eu gosto de pensar que nada é estanque, principalmente no ato de escrever, tão particular e ao mesmo tempo tão amplo.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Quando percebo que o texto não está caminhando, simplesmente paro. Deixo para continuar em outro momento, em outro dia, em outra semana. Não fico triste por conta disso. Faz parte do processo. É quando me ponho a ler outros materiais, outros livros, escrevo outros textos e, de repente, percebo-me de volta ao texto que estava parado, que fiz questão de deixar parado. Os textos nos chamam, precisamos saber respeitar o chamamento dos nossos próprios textos. Alguns são preguiçosos, morosos, gostam de ficar por muito tempo em descanso. Com relação ao medo ou à ansiedade, sempre lidei bem com tudo isso. Sou muito calmo, muito tranquilo. Sei que não há como passar à frente do tempo das coisas. Sempre chega a hora certa. A hora certa é quando acontece ou quando deixa de acontecer. Se a gente ficar forçando a barra, talvez soframos mais. E isso não é bom, sabemos.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Quando escrevo poemas, reviso uma ou duas vezes. Textos em prosa demandam um maior tempo revisando, relendo, reestruturando. Costumo enviar meus textos para outras pessoas somente quando decido publicá-los em esferas outras que não o meu blog ou outros canais de comunicação em que faço parte. A leitura do outro é altamente recomendável em diversos casos.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Escrevo em meu notebook, 95% das vezes, eu diria. Já foi diferente. Tenho quatro ou cinco cadernos com aproximadamente mil poemas escritos à mão. Era outro tempo, auge de minha adolescência até os vinte e poucos anos. Hoje quase não consigo mais escrever longe do computador. E não sei até que ponto isso é bom ou ruim, até que ponto melhora ou enfraquece o meu texto. Certo mesmo é que minhas duas máquinas de escrever hoje decoram ambientes mais que antes. De lápis, nunca gostei. Para os outros 5% restantes, utilizo canetas. Pretas, de preferência.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Uma pergunta de difícil resposta. Penso que as minhas ideias são ideias de uma vida inteira, costuradas pelas mãos invisíveis do Tempo. Não sei se há uma raiz, um local de onde elas partem de um dado princípio para assim atingir um respectivo fim. É quase um mistério. Creio que a leitura é o melhor a se fazer para se manter pensante, ativo, em processo contínuo de análise. Para um escritor, então, eu diria que é fundamental. Exercitar o olhar também é de grande relevância. Sem falar nos inúmeros benefícios da paciência, do respeito, da empatia, da revolta, do sincerizar-se… Bons hábitos nada mais são que processos de libertação.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Mudou a maneira de enxergar o texto, de ver a palavra, de escutar o ritmo e de lamber o sentido daquilo que pretendo burilar. Hoje, percebo que tenho mais paciência para lidar com as angústias do texto, com as agruras do escrever. Quando mais jovem, a palavra era explosão. Escrevia muito e quase sempre muito desordenadamente. Não que a desordem também não tenha o seu lado positivo, mas eu consigo conquistar um modelo de equilíbrio na escrita que me parece mais saudável hoje em dia, apesar das mil tarefas diárias que tenho de cumprir. Não tenho tantos espaços para falhas como tinha antes. A espada de Dâmocles hoje vive sobre minha cabeça. Finjo que ela não existe, mas sei que ela está acima de mim. Sabedoria é saber rir de tais situações.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Um romance cuja personagem principal seja a minha cidade natal (Iraquara-BA/Chapada Diamantina) ou personagens marcantes dela. Tenho uma coleção de crônicas e outra de contos sobre o assunto que funcionaram como uma espécie de treinamento. Sei que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Tenho dois livros de poesia publicados e em 2022 lançarei mais um. Todavia, um dia minha mãe veio me perguntar quando eu iria escrever um livro de verdade… fiquei matutando sobre o dizer dela. É mais ou menos assim, não? Só vale se for em prosa, um romance, um livro grosso, de preferência que se sustente em pé nas estantes (risos). É óbvio que discordo disso… O livro que eu gostaria de ler e que ainda não existe está em minha cabeça. Tenho todo ele pronto. Preciso escrevê-lo.


Entrevista concedida originalmente ao projeto www.comoeuescrevo.com

sábado, 9 de abril de 2022

SPECTRUM LITERÁRIO EM ANGOLA: O CASO DE JOÃO TALA


 

Neste vídeo, o professor e escritor angolano João Fernando André analisa o fenômeno do "spectrum literário" na obra do escritor e poeta angolano João Tala, autor de Além da Noite e Missal de Sábado. Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#joãotala #spectrumliterário #literaturaafricana #literaturaangolana

domingo, 3 de abril de 2022

Sobre as festas particulares do corpo

*
Por Germano Xavier


Quando li CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri, eu já havia dito/escrito que estava diante de um conjunto de petardo-poemas diferenciado no rol do que já havia lido até então. O livro era/é uma investigação poética sobre a maquinaria do mundo, “com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada...”

O singular livro da capa preta agora cede espaço no território-criador de Guarnieri para outro rebento-solar: seu segundo livro, intitulado de CORPO DE FESTIM. Livro da capa verde, com Houdini acorrentado, esboço-simulação de uma criação para a larga estrada da humanidade asfaltada através dos invólucros perfeitos: os corpos das coisas e até mesmo o corpo do próprio corpo: a ideia da possibilidade do banquete particular sempre disponível. 

Aqui-agora neste, Guarnieri não remedeia nada de nossos males, não escancara aflições, não mais nos previne dos cancros maiores de nossas amarguras; melhor, explica a pane da vida desde o átomo primordial das ausências até a supernova celular das vistas opacas. E explica o passo-a-passo de nossos passos sombreando, com tortuosos verbos, como tem de ser o mistério em essência. 

O revisto caos com câncer da atualidade-homem é, pré-leitura-pós, constantemente relembrado em todos – ou quase todos - os seus filtros invisíveis, já que o plasma medular da vida está agora embutido em todas as veias de palavra-vãos utilizadas pelo poeta-imagético/sensorial carioca. Assim, suspeitaremos durante todo o livro de uma porção um tanto mais espessa acerca de nossa origem animal-animalesca, sem deixar de lado a nossa porção-pensamento/sentimento. 

De tal maneira forte a substância do livro que o caminho dos sentido-significados é sufocado pelo senso de arrependimento, ou ao menos de angústia por termos nascido e sermos nascentes, também. A vida se torna um desacerto dentro da grande-poesia de CORPO DE FESTIM e o erro, um elemento elegantemente elogiado e extremamente funcional.

Aí está, novamente: o componente-marco da poética de Guarnieri, tendo em vista seus dois livros primeiros, é talvez um olhar uníssono sobre o enredo de nossos dias. O poeta parece atravessar a rua, no meio do tráfego violento, para nos dizer das coisas que existem dos outros lados, nas outras margens de nós mesmos. Do outro lado, repito, uma sempre-possibilidade. O corpo: uma casa, uma máquina, uma fonte eterna de tudo, mesmo quando alquebrado, sem vida ou morno.

Guarnieri se prostra diante do mundo doente para fazer intervenções pontuais: opera a carne humana, faz corte na carne anímica, elabora sucção da carne terrena, mete-se a reter os líquidos que extravasaram durante os noturnos tempos sem aurora, faz a cirurgia que entreabre a malha do tecido-pele, espeta a bolha e faz de conta que é o fotógrafo da explosão ao mesmo tempo em que inaugura qualquer espécie de pulso. CORPO DE FESTIM é um livro de poemas escritos com o auxílio de um estetoscópio. Guarnieri, antes de fazer o papel de um médico do coração dos corpos do mundo, diagnostica os módulo-nódulos do ócio e de nossas bruscas des-frenagens cotidianas. 

Afinal, o que poderíamos ser se tivéssemos feito tudo de outra maneira? O que ainda dá para ser se escolhermos mudar a rota? Não há um resultado definido ao final: nem a morte fica anunciada sob a maca que carregamos sem saber. Há sim, um peso. Um peso por sermos o centro dos movimentos de Nada-Tudo, um peso por pensarmos que somos. Tudo, como em CASA DAS MÁQUINAS, permanece alterado no meio do caminho, com numa experiência. Guarnieri, não obstante suas denotativas evoluções, segue a escrever não livros com poesia, mas livros que despoetizam o que é elemento-impostor, inverdade. Para ele e seu CORPO DE FESTIM, o que importa é o avesso dos lados retos, o irresolvido dos absolutismos, a eletricidade nos nervos atingidos e suas prováveis reações sinestésico-inomináveis.


* Imagem:  http://saopauloreview.com.br/2015/01/05/resenha-corpo-de-festim/

sábado, 2 de abril de 2022

SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o ensaio SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil. Sobre a estupidez, afirma o escritor austríaco do clássico O HOMEM SEM QUALIDADES,, neste ensaio, as pessoas geralmente preferem não falar, não discutir: "O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós é revelado por muitas pessoas ao demonstrarem-se surpresas de maneira amável e conspiratória quando alguém, a quem confiam, pretende evocar esse monstro pelo nome". Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#robertmusil #sobreaestupidez