quinta-feira, 27 de abril de 2017

Montanhas e árvores (ou Um adendo sobre a vida)

*

Por Germano Xavier



há pessoas que são montanhas. e há pessoas que são árvores. explico. pessoas montanhas são aquelas que são um desafio para nós. que nos provocam o querer alcançá-las, descobrir seus tesouros, adentrar seus recantos, conhecer sua alma. essa pessoa "montanha" nunca será comum. ela será sempre um mistério a ser desvendado, ou apenas contemplado. será admirada em devoção porque a consideramos uma espécie de deus(a) em carne, ossos e encantamentos. esta pessoa que nos diz "suba" constantemente, que nos provoca e/ou nos (des)norteia, pode ser uma figura do passado como um escritor, por exemplo, ou um contemporâneo, como um amor ou amizade ou outro afeto qualquer. o fato é que esta pessoa nos (des)equilibrada, nos motiva ou derruba (se desistimos de...), mas nunca, nunca mesmo, ficaremos indiferentes a ela.

a pessoa árvore é aquela que nos mantém firmes no chão, na razão, no agora. elas são um suporte, um porto seguro, uma certeza de acolhimento. elas, por vezes, nos impedem de sairmos voando em sonhos e ilusões. elas nos impedem de cairmos da "montanha" que tentamos escalar sem condições. essas pessoas são as que estarão sempre nos esperando na porta de suas vidas, com sua paz, cuidado e proteção. elas não se limitam a um tipo de relação. sabemos quem são e onde estão. mesmo que não nos "abrasem" de paixão como a montanha, que não nos domine a vida com o seu magnetismo, que não nos mova para onde quiser e nos arraste ao pé de si pela eternidade, como as "montanhas", sabemos que estarão lá, com sua sombra e firmeza para nos seguir pela vida, pelos anos, pelos labirintos do tempo.

sabemos que todos precisam de uma "montanha" para "vitalizar" os dias, as horas. mas também de árvores para nos ajudar a suportá-los, a manter a vida. 

e resistir.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Casa-02-03-661901201

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Germanices equatoriais

*

Por Nadine Granad


Para O Equador das Coisas

Entre sombras e mares,
Avante, adiante,
Tão somente seguir...
Toma-nos ares...
O velejar, tal constante
- Em dez anos a sorrir...

Não há como dizer,
Aquilo que não tem razão...
Todas as cores beijam em tom de azul,
Palavras que dançam em solidão
- E ganham a amplidão do verbete nu...

As distâncias dos polos inexistem,
No peito do poeta o magnetismo é um...
A poesia é perpendicular,
Certeira ao lugar-incomum...

Entre estorvos e (re)começos,
Da inação à Comunicação,
Agracia-nos com essências...
Uma a uma que abraçam e pingam... coram ação...



Obs. Poema em homenagem aos dez anos do blog "O Equador das Coisas" - o presente ganhamos a cada postagem!...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sun-Goes-Down-Over-Equador-222764427

domingo, 16 de abril de 2017

Uma cena

*

por Germano Xavier



Era só uma cena na televisão. De uma reportagem da qual não lembro mais o contexto. No meio da matéria aparecia uma mulher que aparentava ter um pouco menos de quarenta anos. Ela estava sozinha, sentada no que parecia ser um banco de praça. Em certo momento, a câmera focou o seu rosto e era possível ver descer, em sua face, duas lágrimas grossas, silenciosas, doídas.

Eu era apenas uma criança, mas fixei aquelas lágrimas, sem entender. Ela estava imóvel, parecia ausente, mortificada. A única coisa viva nela eram aquelas duas lágrimas que sangravam em seu rosto. Foi quando ouvi o homem que estava ao meu lado (cujo nome também não lembro) dizer: "Quando uma pessoa chora assim é porque a dor é muito grande. Já ultrapassou as forças". Não sei explicar o porquê, mas aquelas palavras e aquela cena ficaram tatuadas em minha memória até hoje. Por isso, sempre que vejo essas mesmas lágrimas insensíveis, sem choro, no rosto de alguém, sei que estou diante de uma dor solene. Silencio e respeito. Lembro que dores assim já ultrapassaram as forças, levaram a esperança, a resistência, a luta. O cérebro desligou-se dos sentimentos e o corpo já não reage. Apenas queda-se, vencido, indiferente, enquanto a dor domina a vida.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Old-TV-108367646

sábado, 15 de abril de 2017

Isso



Por Germano Xavier


escavo
até doer os olhos

tiro escamas de um lombo passado serpente
embaixo, mais da inexistente víbora

é uma praga isso
isso de querer

de querer invadir mistérios


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/kitchen-mistery-174206390

quinta-feira, 30 de março de 2017

As babéis de Ses (Parte X)



Por Germano Xavier

"conte-me sobre o som da vida..."


Os batuques


comecemos pela parte do sumiço:
disfarçamos. dimensionamos a fuga.
e encoberto ficou o sufocamento.
e assumimos a enganação, a sedução diáfana
das verdades sem fantasia.

tornamo-nos finos, lisos, e ocultamos as frases-manto
que evocariam os sons inalcançáveis,
as óperas máximas, o cortejo dos pulsos,
o cheiro do melhor despojamento,
e nos vingamos, sugestivamente,
como a contar...

agoras.

bêbados de métodos,
ornamos o que nada vale
ou o que vale por nos revelar: um golpe.
doutrinados e convencidos, geramos recursos
contra o fogo da vida. e sucumbimos,
supostamente, sob batuques de não.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mosaic2-152697967

quarta-feira, 29 de março de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXIII)


Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quarta-feira, 6 de Julho de 2016
O absurdo de você ainda


Toujours cette absurdité en toi

je sais que chez toi il existe un poème pour moi,
un poème germinal,
un brouillon, traînant, affamé, qui supplie
mais qui possède une vitalité immanente
et résiste pacifiquement.

il ne s’agit pas d’une tempête
ni d’un incendie,
ni du soleil,
ni d’un cri,
c’est la rosée et la pénombre,
un grognement et un murmure,
le vent serein et des cendres
de la résurrection.

je sais qu’il y a une poésie douce et simple,
faite de gestes rares et de peu de mots,
modeste et précieuse car
elle est encore marginale (conquise par la guérilla),
clandestine et volée. Aucun coupable, car la vie est despote et bestiale,
elle est belle car elle n’en a point besoin.
elle est la nôtre, elle est unique.
la poésie qui ressemble à un coucher-de-soleil sans soleil…
juste la certitude du soleil mi-voilé par des nuages incertains.
une poésie opaque, nue, charnelle, une couronne.
la substance incolore puisqu’elle est pure,
un aperçu de nos jours d’Outre – Terre.
une petite et silencieuse révolution
qui traverse le temps.

un profil de nos existences parallèles
au milieu de cette absurdité qui subsiste en toi.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/--671719477

domingo, 19 de março de 2017

Os meus verdes cabralinos



Por Germano Viana Xavier


"(...)
O coqueiro e a cana lhe ensinam,
sem pedra-mó, mas faca a faca,
como voar o Agreste e o Sertão:
mão cortante e desembainhada."

(João Cabral de Melo Neto, em A Escola das Facas)


Quando atravessei a Chapada Diamantina e me deparei com o Pernambuco do meu pai pela primeira vez, ali ainda em minha infância mais tênue e profunda, senti que aquele chão esbranquiçado e desmentido pelas sortes, de poeira mais fácil que a do solo baiano, impregnaria em mim com muita facilidade e quase nenhuma relutância. E não deu outra. Hoje, já bem crescido em idade e apesar da certidão chapadeira, sinto-me pernambucano em vários detalhes de alma, a começar pelo prazer que desenvolvi em ler a poesia deste “estado-trampolim”, como diria o incomensurável João Cabral de Melo Neto, autor do monumental A ESCOLA DAS FACAS.

Lendo este livro, vi de perto a superação da palavra-imagem em transformação consoante ao que é real. Uma espécie de transposição das águas ficcionais em águas de beber, de viver e, principalmente, em águas de sobreviver. Sobre-ser. Digo por experiência própria que já adentrei os pernambucos por todos ou por quase todos os lados, vez ou outra vindo de Paulo Afonso-BA, outrora descendo pela Paraíba de João Pessoa ou Campina Grande, e até enfrentando-o de frente pelas rodovias de Alagoas, e aquele mesmo verde-nervoso e balouçante do poeta João Cabral de Melo Neto tão bem traduzido em seus poemas respinga até hoje pela telas-paisagem do mundo pernambucano a todo instante.

Bem verdade, faz-se necessário salientar, um verde já carcomido pela ação do tempo, principalmente em localidades por onde o “progresso” oriundo do funcionamento das grandes usinas de cana-de-açúcar deixou de herança apenas as ruínas de suas construções e o maquinário em ferrugem, como feridas abertas sob o sol. Porém, assim mesmo digo de relance: sou um homem transformado pelas transformações que meus olhos viram, um homem lapidado pela intersecção das caudalosas águas negras diamantinas e a secura latente de um agreste pernambucano sempre à beira de um colapso. De um lado, a exuberância divinal das pedras úmidas, do outro o seixo inamovível das artérias agrestinas por onde o Una passou. Una morto, nascituro e natimorto, que quase só existiu em mim sem nem conseguir existir direito.

Em A ESCOLA DAS FACAS, de lírica extremamente cabralina, aceitei-me mais pelo que realmente sou ou pelo que me tornei ao longo da vida e de minhas caminhadas, quase sempre solitárias. Distanciei-me da surrealidade com a qual me afogo em alguns dias de nuvem. E vi o quanto isso foi bom, o quanto isso é bom. Livros assim são como pontes, fontes inquestionáveis de aprendizado e de des-razão. E até mesmo quando Cabral passeia seus versos verdes nada-verdes pela área metropolitana do Recife ou até pela própria capital, locais ainda muito incógnitos para mim, conferi em pessoa uma espécie de confiança nos passos já dados.

Bahia e Pernambuco me inventaram, e eu inventei estes lugares. Por inventá-los, criei estradas e abri picadas no verde dos coqueirais e das canas e também na cor seca de suas paragens. Fui menino ali e acolá, ancorei banguês nos ombros dos dois orvalhos e bebi da melhor garapa dos engenhos múltiplos. Tive e tenho este privilégio. Nasci com dois sangues e duas almas e vivi em dois estados supremos deste gigante país. Vivi. E vivo. Dois povos, os sertões, os rios, os canaviais, os agrestes, as pedras, as cachoeiras, os diamantes, a sombra dos diamantes... E o que há de belo em todo este movimento alargado por minhas pernas é o fato de que beber dessas duas águas me fizeram suportar com serenidade as impostoras belezas que porventura outros mundos emprestaram-me aos olhos.


Referência

NETO, João Cabral de Melo. A escola das facas. Rio de Janeiro: J.Olympio, 1982.


Imagem: http://www.bvl.org.br/aniversario-de-joao-cabral-de-melo-neto/

sábado, 18 de março de 2017

As babéis de Ses (Parte IX)



Por Germano Xavier

"eu também tive medo do silêncio"



aprendi com a Escola das Facas:
toda dicção do mar é um convívio.

por isso, também fui afastamento.
por isso, também a mútua foice.
por isso, a cicatriz no guardar-se.

há alpiste para os passarinhos
na varanda da tarde, e a música
irá tocar nossa rotina de gado,

tocar a água gratuita da noite.

mas aquela navalha, afiada na dobra
do metal... por seca a saliva da lembrança
desceu beira-mar em meus remotos.

deste a ver que neles, à beira do quase,
você jamais se afastou. permaneceste.

permaneceste,

onde o sertão se camufla, amplia o sexo
e decreta torpor. babo, babo, babo. por ti,
toda a mola se entesa, amor.


* Imagem: http://www.thinkstockphotos.com.pt/image/foto-de-stock-traditional-turkish-carpet/465561701

quinta-feira, 16 de março de 2017

Uma pequena epifania


Por Germano Xavier


Foi de repente. Um clarão. Uma pequena epifania. Emudeceu de satisfação. Não entendia como não tinha pensado nisso antes. Agora era tão evidente para ela o porquê de seu comportamento humilhante com ele, de sua falta de amor próprio, de seu rastejar pelos anos implorando um pouco que fosse daquele homem. Era amor, claro. Mas isso não explicava nem justificava tais atitudes irracionais. Havia algo mais. E ali estava estampado em seu rosto, em forma de surpresa e desapontamento. Afirmação. Era isso o que estivera buscando nele o tempo todo - por motivos complexos demais para se mexer... Afirmação era o que estivera, inconscientemente, esperando dele. Afirmação de valor, de identidade. Um espelho, em suma. Fenômeno muito comum, inclusive. Por razões tão diversas e complexas que cabe à Psicanálise e afins tentar entender e explicar. Em resumo, quando não se é capaz de construir um senso de valor próprio sozinho, busca-se no outro essa afirmação para que se possa aceita-la, assimilá-la como sendo a própria identidade. A pessoa passa a se ver como o outro a vê. É uma espécie de parasitismo emocional. Ou um parasitismo de conceito sobre si. Desnecessário dizer o quanto essa distorção de visão pode ser assustadora e prejudicial. A começar pela variação ao infinito de interpretação que pode se dar ao que não se pode, em absoluto, conhecer: o pensamento do outro. Muitos mal entendidos e sofrimentos desnecessários irão surgir daí. Ainda imersa nessas reflexões, ela decide imediatamente mudar o foco e a fonte de sua afirmação de si. Ela. Tinha de ser ela e mais ninguém a régua de medir a sua vida. O seu valor (e ela sabia que tinha um) estava em ser ela. E não precisar ser nada além disso. Ela existia, suportava, resistia, amava, sobrevivia, errava, aprendia, lutava, desejava, vivia. Esse era o seu valor. Ser humana. E o ser humano é um valor absoluto. Inerente. Inalienável. Eterno. Ao menos enquanto dure. E, como diz Sartre, a existência precede a essência. Continuava refletindo e sentindo-se cada vez mais livre e cada vez mais presa à própria existência. Concluiu, entre aliviada e pessimista, que o ideal seria, além de existir, ainda poder sonhar.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/uncertain-destinations-669340057

domingo, 12 de março de 2017

Octaedro


Por Germano Xavier

ainda para Julio Cortázar


há oito histórias sobre o que adquirimos:

na primeira, um narrador envolvente dimensiona a vida.
na segunda, há um entrelaço entre o insólito cordão e o real.
na terceira, interpenetramos o Tempo.
na quarta, convivemos com os loga(ritmos).
na quinta, começamos a nos desenrolar.
na sexta, uma poderosa ânsia nos domina.
na sétima, percebemos que não percebemos.
na oitava, tornamo-nos um conto.

e para todas elas, a mesma sensação.
de que imediato é o sonho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/inside-the-line-650037863

sábado, 11 de março de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXII)


Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 29 de Junho de 2016
O trabalhador


Le travailleur

accueille
discrètement
sereinement
des échecs dessinés sur son visage.
il promène, comme un cintre humain
des uniformes usés et hostiles.

il prend avec lui,
dans la mémoire du corps,
des humiliations qui s’enracinent
et ternissent la tendresse qui vivait dans l’espoir.
c’est un poste humain ancré dans la rude existence journalière :
le pain, la pelle, le sol, le soleil, le foyer.

des mains en duel
/contre la vie? contre la mort?/

des yeux en alerte au feu.
Reste-t-il encore de l’amour?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Working-man-341967830

sexta-feira, 10 de março de 2017

1800 publicações n'O Equador das Coisas


Por Germano Xavier


Prestes a completar 10 anos de existência no ciberespaço, o blog O Equador das Coisas registra hoje a marca de 1800 publicações. Aos que por aqui chegam, vindos de todos os cantos e recantos, meu abraço. 

Sigamos, bucaneiros!

Algo além



Por Germano Xavier


Cidade pequena. Ruas cheias de vagas. Aquela sensação já velha conhecida. Uma natureza como se morta. Esquinas sem destino. Paralelas circulares. Uma onda de quase-nadas tocando a pele. Frio quente. A cada hora o sino da igreja que fica no centro da cidade toca anunciando o tempo. Uma imagem bela. O tempo dentro de um barulho. Tempo-redoma. O sino. O tempo. O som. A beleza. O que fez sentir-me em outra época. Como antes. Como agora. Estranhamente familiar. O tempo. Uma força. Uma coisa estranha. Hotel silenciosamente gélido. Não gosto de corredores vazios de hotéis. Há muito tempo estocado nesses corredores cheios de penumbra. Tento ver um filme na TV e encontro você. Foi precisamente numa cena do filme "Na natureza selvagem", quando o Supertrump chega a uma montanha e olha a natureza selvagem a sua frente, imensa, sublime... É uma cena plena de significados para mim. Ele fica sem palavras, comovido, chora. Ele extravasa. Cumpre-se ali um ritual de aberturas. Aquelas montanhas diziam pra ele que havia algo maior, algo além. Tinha de haver. Como o tempo. Algo além do próprio tempo. Então te vi. É exatamente isso que você me diz. Que você já disse. Olhar teu rosto, ouvir tua voz, ler tua alma-poesia me faz duvidar de que não exista alguma transcendência. E duvidar é melhor do que ter certeza. Você é dessas coisas que embargam a voz... Quebrando tudo... Tirando de nós, perplexos, um silêncio respeitoso. Você me comove. Assim como o tempo quando se esgota. O tempo que lacera. E é tão contraditório que seja você quem elabora em mim os sentimentos mais bonitos (já tão raros)... E que me fazem desejar a eternidade e que também seja você que provoque em mim os sentimentos mais mesquinhos... A cidade não continuará pequena. Ruas cheias de. Aquela sensação nada adormecida. Uma natureza inteira. Destino nas alamedas. Paralelas redundantes. Uma onda. Calor abarrotado. A cada hora, o sino da igreja que fica no centro da cidade toca. Uma imagem bela. O tempo anunciado. O tempo dentro de um barulho. Tempo-redoma. O sino. O tempo. O som. A beleza. O que fez estar. Como antes. Como agora. Estranhamente familiar. O tempo. Uma força. Uma coisa estranha. Então olho novamente a montanha... E mesmo não podendo levá-la comigo, sempre saberei que ela está lá. Levarei sua imagem. Levarei.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Saudade-139788415

domingo, 5 de março de 2017

Tem a gente ali-acolá



Baixe e leia a edição Número 1 da REVISTA GUETO, empreitada luso-brasileira editada por Jerome Knoxville e Amanda Sorrentino. Tem lá um conto do meu livro SOMBRAS ADENTRO, finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016. Sigamos, bucaneiros!

sexta-feira, 3 de março de 2017

O monstro-criança de Mário Rodrigues


Por Germano Xavier



O livro RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016 na categoria Contos. O compêndio do escritor e professor garanhuense Mário Rodrigues decerto que mais lembra - ou se confunde com - um romance aos moldes de um folhetim, já que os textos estão dispostos como cápsulas em composição de um aglomerado narrativo por demais particular e que segue uma linha tênue acerca das peripécias de uma criança em formação e incrivelmente insólita. Porém, como sabemos, tais definições de gênero são bastante difíceis de serem construídas e taxá-lo - o livro - como sendo uma coletânea de contos não é deveras um equívoco.

O menino-monstro - ou com exagerado senso de humanidade -, personagem principal em todo o enredo, não tem nome e nem sente compaixão. A sua maldade, quase sempre crua e ao mesmo tempo ingênua em sua elaboração e posterior análise pré-consciência, é a marca-mor de seu caráter. Maldade que é ruindade mesmo, outros podem salientar. Ambientado no universo dos anos 80 do século XX e com referências diretas a tal época, o livro consegue transportar o leitor para dentro do corpo e da alma do protagonista, o que faz com que o interlocutor receba, também sem dó, uma enxurrada de golpes e de rasteiras morais, estéticas e éticas.

Em princípio, o conto pode bem servir para a distração e, também, para o ensino. Assim suspeitamos. Os contos sobre o “monstro-menino” fazem isso, divertem e ensinam. Muito bem elaborado, e com uma linguagem cruzada de informações que se trocam no presente-passado e no seu inverso, nada no livro parece ficar sufocado ou encoberto. A dimensão da escrita é a da realidade e não a da órbita do que não existe. Por isso mesmo, choca, desnuda em nós uma intempérie momentânea e no fim de tudo, obriga-nos a uma espécie de dissecação interior... afinal de contas, quem nunca cometeu uma perversidade na vida e, principalmente, no período da infância?

Mesmo se tornando um tanto quanto repetitivo após lida a metade da totalidade da obra, a sedução não sofre corte abrupto em sua essência e somos convidados a encerrar dignamente a leitura só depois da última linha escrita. Findada, pois, eis o milagre: o manto diáfano da fantasia em desabrochares de espanto e, também, de encantamento. Perguntamo-nos: Como pode? É mesmo possível uma criatura nesses moldes? E o escritor, de que maneira fora inspirado? Terá vivido tudo ou parte daquilo quando ainda infante?

Sedução por sedução, de nada valeria o esforço e a empreitada. O livro tem mais conquistas do que perdas. O que importa é o que resta, o que vale mesmo é o que o livro revela. E nesse quesito, não há dúvidas, RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO cumpre bem o seu papel e mereceu o lugar de destaque que alcançou. Um livro que pode ser observado e lido a partir de inúmeros prismas, a começar pelo do nosso próprio umbigo ou pelo do nosso baú de memórias de maldade. Que tal o desafio? Vai encarar?


* Imagem: http://images.gr-assets.com/books/1479861248l/33098856.jpg

quarta-feira, 1 de março de 2017

Como as cartas de amor

*

Por Germano Xavier


Aquela música sempre a emocionava. Assim como a Nina Simone... tinha a mística de fazer estremecer a própria Vida. Escreveu para ele, tendo o cuidado de enviar o vídeo da tal música na esperança de que ao ouvi-la ele sentisse algo parecido com beleza, que quase chega a ser paz. Talvez algo entre embevecimento e melancolia. E nesse instante, estariam próximos, ela sabia. Mesmo que fosse apenas uma distração, gostava de pensar assim.

Não era muito, ela sabia. Era só mais uma das muitas "coisas" inúteis que lhe dava e das quais ele nunca precisou e nem dava sinal de ter gostado. E não eram coisas apenas. Eram pensamentos, sentimentos, resistência, saudade. Eram ela, em suma. Talvez fosse ela que precisasse dar-se através dos vários pretextos e textos que para ela eram amor.

Cada notificação de que ele estivera presente manisfestada na falta de economia de palavras dela, em seu excesso de "enviados" de toda espécie eram vestígios de sua agonia solitária, insolúvel, hedionda. Fizera a pergunta. Simples e direta como ela não costumava ser. Temendo a resposta (ou a falta dela) como se teme a falta de motivos para viver, esperou. Talvez para sempre. Mas as coisas não deixam de ser apenas porque não as mencionamos. Ou porque não as sabemos. Elas simplesmente são ou não são. Mas estão lá. Em algum lugar na indissolução.

Esperou. Ouviu suas batidas cardíacas. Detestava a forma como seu corpo a denunciava. Em tudo. Contou o tempo como se registra os sentires, os cantares, as torturas. Temia não haver ar no minuto seguinte, antes do chão abrir-se. Porque o chão se abriria, ela sabia. Assim que as palavras ou silêncios subvertessem as realidades, devolvendo a todos ao único estado constante de toda a Vida: a Dúvida.

E eu te entristeço e você já deu tantas demonstrações de que não quer levar essa dor comigo e que não quer me ajudar a atravessar a vida, e eu gostaria de ser um consolo, aquela voz que leva um riso, a mão que mostra flores, a dissimulação do real de que todos precisam. Mas sou antes a voz da razão sem fé, da má notícia sem solução, do mal cheiro do mundo, a mão que mostra o sangue derramado em nossos olhos. E imagino que sente dó porque o amor é um bálsamo contraditório que a alguns cura e a outros tortura. Somos humanos porque não aceitamos os fatos, por isso inventamos sonhos, paraísos e arte (e o amor?). Lá no fim, depois do naufrágio, submergida, direi "o único amor que conheci não me conheceu", e nem pude prová-lo. E a única "arte que domino" é a de ser rastejante e patética, tal como as cartas de amor: ridícula!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/48-squares-346483655

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

As faces de Helen



Por Germano Xavier

após ter visto filme homônimo ao título deste poema




quem sabe a temperatura
(glacial) do sangue em minhas veias?

o peso das correntes que me
prendem à cama?
você sabe?

o pavor que me tritura
ante o desconhecido,
o amigo,
o inimigo,
o trem,
o vizinho do vizinho,
a árvore da esquina
e o que ainda nem nasceu!
você sabe?

os pulmões me traem
(não há ar)
meus pés me faltam
(não há chão)
e você não pode me salvar.

(você sabe.
eu sei que você sabe)

os abismos me puxam
e você não sabe o esforço.
ah, nem supõe o esforço
apenas para não cair!

tudo é tão frágil
e estranho e insano e impossível.

percebe?
falta o sentido
e as respostas
para as perguntas vitais!

faltam o começo
e o fim,
e o meio ainda
não chegou.

e nem sei quando (ou desde sempre?)
o fio se soltou.
ou somos fantoches com
fios invisíveis?

minhas células morreram antes de mim
ou fui eu antes delas?

eu desci quando o mundo parou
ou fiquei quando ele partiu?

de quantas cores se fez o meu cinza?
você sabe?

o choro já não é choro,
é ausência.

tento provocar vida,
dor ou paixão,
vontade ou lição...

qualquer coisa humana, dizem...

e tudo me dilacera.
mordo o travesseiro,
grito desvairada,
tento devorar-me.
devorar o mundo,
devorar você.

você sabe?

como saber se ainda estou?
como provar que não?
como curar o mal?
como parar a dor?

que animal se consome por dentro?
você sabe?

não são os outros o inferno,
são os outros o inferno.
o céu é o inalcançável passo seguinte?

/.../

ouvi que divindades...
ouvi que a paz ...
ouvi que um chão traz...
que o amor pode...
e algo mais absurdo
que já não recordo bem.

você sabe?

sonhei que não era doença.
sonhei que não era tortura,
que era só lucidez
toda esta dor...

e tudo acabou num silêncio...
antes do chão.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/komm-207691274

As noites



Por Germano Xavier



seria bom
se não existissem noites.
o dia me anestesia
amortizando a tua falta...

a claridade me entorpece
com a correria das horas
e o trabalho mecânico
de continuar existindo...

o dia me domestica,


cegando a minha dor
com a imensidão da vida
e da morte, tão nuas.

as noites me atropelam
porque silenciam o cortejo
e só ouço o grito pavoroso
da vida perdendo vida.

todas as noites,
tua densa ausência se impõe
e o meu amor
é toda a minha saudade.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Risen-Wave-Crashes-214275428

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Salvos e íntimos como se nunca



por Germano Xavier



A porta já tinha sido fechada há uns quinze minutos. Eles, ainda em silêncio, olhavam-se sem saber o que fazer e sem saber o que queriam fazer. Na verdade, só queriam ficar ali na presença uníssona do outro, sabendo o outro, buscando o que já sabiam, procurando os velhos traços, os mesmos gestos, as repetidas manias e alguma dissonância do que sabiam desde sempre.

E saber era tudo o que tinham.

Sabiam mais do que deviam. Sabiam mais do que queriam. Sabiam tudo, mesmo quando não ouviam nada. Pensavam, ambos, na importância das decisões dos próximos minutos, no efeito do silêncio e da fala, do olhar e do tocar. Mas não agiam. Estavam paralisados e dominados pelo sufocamento do tempo. Não haviam previsto o imprevisto. O quarto onde se encontravam afastava-os do mundo e lançava-os num terreno delicado, completamente incerto, onde tudo poderia acontecer. Inclusive nada.

A voz presa dos dois contrastava com a torrente de pensamentos e sentimentos desconcertantes que a custo controlavam. Não sabiam se se fugiam, se se falavam ou se se agrediam em seus corpos como furiosos amantes. Um não sabia o que o outro queria, por isso mesmo não sabiam o que queriam. Estavam ambos presos ao incalculável da vontade alheia e isso os desprovia de suas próprias vontades.

Lutavam para desvencilharem-se do constrangimento insuportável do silêncio cavernoso e de seus medos infantis. Estavam lá por vontade própria, disso não duvidavam. Então, por que pareciam encurralados em seus corpos e incapacitados em suas faculdades mentais? Estavam inteiramente perdidos, mais uma vez entregues ao acaso das vontades imprevisíveis, do absoluto desconforto da intimidade forçada, do ridículo e do medo.

Mas havia livros. Sim, os dois haviam levado livros. Talvez prevendo uma pequena catástrofe como aquela. E os livros, ambos sabiam, sempre os salvaria de qualquer situação difícil. Os livros são os heróis improváveis, mas sempre infalíveis. Livro é salvação. Fato em que os dois acreditavam piamente.

Sem dizer palavra, ele pegou um livro e abriu numa página previamente marcada. Leram em silêncio. De repente, a mágica do reconhecimento se fez e eram os mesmos de muitos anos atrás. Tão simples, tão livres e autênticos quanto aquele livro que os resgatava. Estavam salvos e íntimos como se nunca tivessem se afastado por um dia ou uma década. Sentiam-se confortáveis e acolhidos na história do outro, na eternidade de seus saberes, dores e dúvidas. Sabiam o que eram e o que sempre seriam juntos.

Poetas.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/drinking-alone-20576515

A morte soprada



por Germano Xavier



você se posta longe, impenetrável
em tua indecifrável perfeição.

como uma deusa que se esconde
impassível, ferindo esperas.

em confissão, indefeso,
te entrego meus delírios,
te imponho as minhas preces,
talvez amor, talvez esperança.

e tu, como as divindades,
soberana,
executas o direito de me soprar
(mais uma vez)

para a existência no pó.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Walk-664313229

Compensações para pequenas mortes naturais



Por Germano Xavier



lograr a cada hora regurgitar a memória.
lograr a cada hora defecar a primazia do encantamento.
lograr a cada hora gozar a distância.
lograr a cada hora catarrear símbolos.
lograr a cada hora ejacular sorrisos.
lograr a cada hora expelir reminiscências.
lograr a cada hora digerir os fins.
lograr a cada hora deglutir lacunas.
lograr a cada hora pisotear palavras.
lograr a cada hora olvidar uma hora.
lograr a cada hora cunhar ulteriores sons.
lograr a cada hora peregrinar alacridades.
lograr a cada hora escarnecer dejetos.
lograr a cada hora registrar o pé na bunda que você me deu.
lograr a cada hora jamais cometer a audácia do mesmo flagelo.
lograr a cada hora urinar seus autores.
lograr a cada hora dominar a bela arte de viver sem você.
lograr a cada hora afogar teus ares.
lograr a cada hora a liberdade de te escarniar.
lograr a cada hora o laço com o feminismo que me falta.
lograr a cada hora desconchavar imagens perfeitas de você.
lograr a cada hora sussurrar panegíricos em voz passiva.
lograr a cada hora o desatino de deixar doer.
lograr a cada hora retirar os pedacinhos de você de dentro da minha cabeça.
lograr a cada hora a leveza de não te saber.
lograr a cada hora não ter sede de tuas novas.
lograr a cada hora permitir que os pequenos fragmentos de ti se despeçam.
lograr a cada hora serenar a ideia de que um dia eu te amei.
lograr a cada hora silenciar teus ruídos.
lograr a cada hora picotar o desejo de realidade.
lograr a cada hora a inércia de tua não existência.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/--664051708

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre brutos monstros e pequenos corpos



Por Germano Xavier


será possível uma solidão maior do que eu?



aqui nesta prisão
(alguns a chamam de Vida),
onde os ventos esbarram à porta
impedidos de trazer sementes,
haveria uma fresta
por onde passe a resposta?
haverá uma abertura esquecida
por onde escorregue a paz?

aqui nesta prisão alarmante
cheia de monstros brutais,
há pequenos corpos interrompidos
condenados a lembrar.

aqui (onde) sou invadido de catástrofes silenciosas,
acorrentadas aos meus dedos em alianças eternas,
sou alvo claríssimo de investidas sórdidas,
de insuspeitas recusas que
não me deixam ser.

então, (in)existo e engasgo.

meus pés reduzidos à marcha
não alcançam o querer
e só um ser que rasteja
sobrevive em mim.

aqui, nesta prisão
(alguns a chamam de Lar),
medo, dor e repulsa
povoam largas memórias
(apenas o entorpecimento liberta).

/esquecer é desviver/



aqui, onde
respirar é ofensivo e vergonhoso,
meu corpo todo é nudez
e espasmo e espanto
a implorar pelo fim.

(a minha paz é descuido
e vazio)

aqui, sim, bem aqui, lembro bem
minhas carnes rasgadas num silêncio criminoso
onde o grito
não ultrapassa o muro.

na prisão,
não há ouvidos
nem socorro:

só ironia.

contra a parede fria,
meu corpo, vencido, suplica:

“fuja, alma minha!,
esconda-se entre as nuvens,
para não me ver desistir..."

aqui nesta prisão
(algumas a chamam de Vida),
onde imploro por respostas,
onde escavo sentidos,
a divindade me assiste -
sádica ou impotente?

então...
fico quieto e resisto
ou esbravejo e (in)existo
além da minha dor?

aqui nesta prisão,
ainda há vida (?)
há(,) amor?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Interior-com-corpo-2-131209598

As revelações dos remos



Por Germano Xavier

/após O velho e o Mar, de Hemingway/



finquei-me na esperança de não ter esperança
(além da necessária em alto-mar).
obriguei-me apenas a aprumar o leme,
singrar as águas, matar as feras,
manter o rumo, salvar a vida.

(erigi em meu lastro roto, um monumento único,
Eternizado em marés contínuas; a dúvida)

finquei-me na espera de ver a luz
cortar a noite, fisgar a alma,
anunciando um razoável fim.

finquei-me no solo movediço de minha fé,
enquanto perdia as carnes de minha crenças,
pedaço a pedaço devoradas ferozmente
pela natural envergadura da vida:
a luta.

finquei-me na memória inexata
de meus sonhos inúteis e já agora
derrotados

pelas bocarras dentuças da realidade.

e eu que fui tão longe,
e tão alto,
e tão só
no mar alto
a me perseguir,
nunca me achei e nem fui.

já agora em fase terminal de sangrenta investida,
perdi o sentido, os sentidos.
perdi o arpão
(meu fiel definidor de identidade, de força,
de vontade, meu pulso, coração!),
perdi os remos, o orgulho e a ilusão.

restaram-me, apenas,
mãos feridas e incrédulas,
um corpo quase-meu

e uma carcaça estupenda como prova,
como prova de que vivi.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Caminhos-111610952

Nada muito sobre filmes (Parte XXIX)

*

Por Germano Xavier,
com extrema preguiça de escrever


Versos de um crime

1944. Allen Ginsberg e Lucien Carr. Poesia, literatura, contracultura e atração. Vai lá, dê uma espiadinha!


A casa dos pequenos cubinhos

Delicado. Quase sublime.


Bonnie & Clyde

Gosto da história dos dois, mas da versão cinematográfica de 2013, não.


Guardiões da Galáxia

Sei lá.


O último capítulo

Frustrante.


Black Mirror

A primeira temporada tem um conteúdo bem legal.


Demônio

Nem lembro mais de tanto que é desprezível. O terror/horror precisa se reinventar. Tá difícil!


A viagem de Chihiro

É deveras interessantíssimo. Todavia, é preciso entender bem o que há por detrás de tanta simbologia. O mundo oriental é fascinante. Para ver e rever, várias vezes.


La La Land – Cantando Estações

Valeu a meia-entrada que paguei.


* Imagem: http://www.blog.365filmes.com.br/2015/04/Estudante-reune-120-anos-de-Cinema-em-video-de-7-minutos.html

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 15/06/2016
O amor aqui


L’amour ici

l’amour ici
EST SI PLASTIQUE
si élastique
modulé
encadré
et classé
comme fragile
et envoyé
à l’expéditeur
sélectionné
au préalable
par un concours
irréprochable

l’amour ici
échappe à l’ironie naturelle
d’être imprévisible

il se doit d’être
capté
remboursé
conventionné
mesuré
(le rapport qualité-prix payera-t-il l’investissement ?)

l’amour ici
accessoire principal
pour la trame
de la vie sociale
doit être assorti
aux autres accessoires
le statut
la marche
l’escalier
la couche
la façade

la vitrine complète
fait craquer
l’entrée de l’estomac

L’AMOUR ICI
c’est un gadget qui compose
la vie sociale
matérielle
matrimoniale
maternelle
paternelle
bestiale/ religieuse
n’importe quoi

il faut évaluer

les bretelles
le salaire
l’obituaire
la table à langer
tout doit être en harmonie
avec la réelle fantaisie
de la mise en scène de la vie
faite par des marionnettes humaines
à piles


P.S. à São Paulo on manque d’amour,
on manque d’amour à Natal, à Minas,
et aussi aux quatre coins de Pernambuco
cet amour gratuit et silencieux
lugubre et poétique
n’existe pas
l’amour comme un chat
un cactus
un oiseau
de l’eau

léger comme les nouveaux nuages
libre comme les vents du Sud
fort comme le mot
amour
écrit dans le temps


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Pflanzmich-627086924

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confesso que li

*

Por Germano Xavier


A aventura da leitura começou cedo em minha vida. Muito, mas muito cedo, também não. Melhor seria se eu começasse este texto da seguinte forma: a aventura da leitura começou na hora certa em minha vida. Desta forma, até que soa mais verdadeiro. Mas há uma “hora certa” para se começar a ler? Sete ou oito anos de idade, com alguma margem de erro ou de acerto para mais ou para menos. É quando começo a recordar de alguns momentos... Guardo memórias ainda infantes de quando chegavam até mim alguns exemplares de gibis e alguns velhos e surrados almanaques. Foi assim por boa parte da minha infância no interior baiano. E, como sempre, tomado por um bom espanto, eu me agarrava àqueles materiais impressos e lia, lia e lia.

Com o tempo, revistas sobre automóveis e motocicletas foram me chamando a atenção. Meu pai, vendo meu gosto crescer com o passar dos dias, logo se prontificou a fazer uma assinatura da revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Tamanha era a fome demonstrada pelo conteúdo, que eu me prontifiquei a guardar todas as edições estrategicamente organizadas por anos e edições, além, é claro, de dificultar ao máximo as cada vez mais frequentes “mãos bobas” do meu irmão, que também começava a se interessar pelo assunto. Emprestar, para quem é aficionado e mesmo para um irmão, era sempre um suplício. Minha coleção de revistas sobre os mais diversos assuntos rapidamente entupiu uma estante e outra e depois mais outra, e assim sucessivamente. Perdi a conta de quantas tive, de quantas li. Até hoje, guardo comigo “notório saber” sobre automóveis e motocicletas em geral. Curioso, não?

No começo, literatura era mais difícil de se encontrar. Chegavam-me livros em porções parcas. Lia tudo. Quase tudo. Sem distinção. De Paulo Coelho a Dalton Trevisan e Borges. De Hilda Hilst a George Orwell, passando por Drummond e Melville. No início, bem lá no início, acreditei na ideia de que existia uma “Grande Literatura”, e mais ainda, que era bonito e elegante ler e expor conhecimentos sobre os “cânones” da literatura universal. Hoje sei o quão bobo era, o quão ingênuo fui. Os livros que outrora apontava como sendo magnânimos e quase solenes, hoje são apenas bons livros em sua maioria. Entendi, a bom custo, que não há melhor literatura que outra, que não há literatura ruim nem literatura boa. Entendi, senão, que existem literaturas e, principalmente, que existem circunstâncias de leitura literária.

A escola não me ajudou muito no processo de gostar de ler. Todavia, alguns momentos foram cruciais para que a chama da leitura fosse acesa dentro de mim. Um deles foi quando a professora de português cobrou a leitura de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e de Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos. Como aluno, não entendia bem o porquê de se cobrar a leitura de um livro para dar conta, depois, de algumas tarefas quase sempre banais. Hoje, do outro lado, como professor, entendo a importância de se levar livros ao encontro dos estudantes. E livros de todas as espécies, é bom frisar.

A escola, com todas as suas falhas e perrengues já ancestrais, ainda é um espaço em que se pode ensinar a gostar de ler, e de ler literatura! A maioria do alunado aprenderá a falar, mesmo que raramente, de alguns exemplares ou de algumas leituras. Outros alunos, mesmo que sendo poucos no meio de um enorme contingente, farão a mesma viagem que fiz. Uma viagem sem volta, diga-se de passagem, porque quem aprende a gostar de ler textos de cunho literário alcança o infernal paraíso insuspeito das coisas e do homem, e é muito raro alguém deixar este espaço para trás sem mais nem menos. São esses meus alunos os tesouros de minha profissão.

Jamais reprimi um aluno meu pelo fato de ele estar lendo um best-seller atual, dos que figuram nas mais reles listas dos mais vendidos, quase sempre sobre romances vampirescos ou distopias de cunho adolescente. Ao contrário, incentivo. Nem tudo o que parece ser, é. Nem tudo que é, é. O que é mesmo que garante a um texto ser taxado de literatura? Quais são os fatores de literariedade que ajudam a potencializar um texto? O que é mesmo essa tal de literatura de qualidade? Alguém aí tem a resposta? Eu prefiro acreditar, hoje, que a qualidade de um texto literário começa pelo olhar de cada ser-leitor e que um uso “afetadamente artístico” da linguagem não garante que o texto seja considerado literário. 

Por ser, ela, a literatura, um fenômeno cultural e histórico ao mesmo tempo, diferentes grupos sociais em diferentes épocas podem classificá-la de diferentes maneiras. Sendo assim, faz-se necessário crer na ideia de que a literatura não é um seixo inamovível. A literatura está mais para fluido, e mesmo as mais rígidas “instâncias de legitimação” atreladas à Grande Literatura não podem agregar valores incorrigíveis ao que denominamos de texto literário. Até mesmo as nossas expectativas podem mudar o conceito do que seja a literatura. Ou não?

Outro grande desafio que sempre tive e tenho em sala de aula é o de introjetar mais o “popular” no espaço do saber literário, de discuti-lo mais amplamente com meus alunos, especialmente em esferas de maior carência de recursos educacionais ou, também, em seus opostos. É preciso “impor” variedade. O professor está lá para isso, para ofertar. Como diz Márcia Abreu (2006, p.80), em seu livro intitulado de Cultura letrada: literatura e leitura, “a apreciação estética não é universal: ela depende da inserção cultural dos sujeitos. Uma mesma obra é lida, avaliada e investida de significações variadas por diferentes grupos culturais”. 

Assaz assim, como diz a autora supracitada, será inteligente de nossa parte entendermos que “não há obras boas e ruins em definitivo. O que há são escolhas – e o poder daqueles que as fazem. Literatura não é apenas uma questão de gosto: é uma questão de política” (2006, p.112). As razões para o surgimento de um leitor contumaz de literatura são as mais díspares, sabemos. Todavia, se observarmos tais indícios, a tendência é que outros muitos obstinados aventureiros da leitura sigam aparecendo mundo afora, talvez até com mais facilidade, sabedores de suas escolhas e capazes de discernir o que é melhor para si mesmos enquanto leitores. As literaturas, pois, agradecem!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/leituras-148596519

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Resistir pela água: por uma literatura viva



Por Germano Xavier


O homem é um ser literário, acreditem ou não. A literatura, por sua vez, é como a água do tempo, da vida. A água que alimenta a alma humana, e também o corpo humano, que nos preenche de cor, dor, força, medo e esperança. A água, no interior da literatura, pode ser também o território, o habitat, o próprio espaço dos fenômenos que nos constroem. “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante” (CANDIDO, 2011, p.182). A literatura, pois, pode representar o caos. O caos pode significar tudo. E a água, como parte integrante do todo do imaginário literário, é este deserto das coisas e também o oásis dos movimentos. A literatura, enfim, pode esboçar a paz. A literatura é o próprio mundo. A literatura é, enfim, o homem. O verso. O inverso. O reverso. De tudo. De todos.

A literatura é, antes de tudo, linguagem munida de significado, como requer Pound (2006). E tudo elevado à décima potência. Sem a presença da linguagem, nada pode funcionar com plenitude, o ser humano total não é construído muito menos reconstruído, o mundo não alcança seus refinamentos racionais de existência. Sem linguagem e sem literatura, a renovação da vida não é garantida. A água, por sua vez, é também uma linguagem. Linguagem dos que ribeiram os rios da vida e da morte, colo dos amargores e fonte das saciedades mais intensas. Literatura é, também, imagem, repertório de imagens.

No livro de Luís Alberto Brandão, intitulado Chuva de Letras, e que é, juntamente com o livro Cartas do São Francisco, de Nilma Gonçalves Lacerda, matéria central do presente texto, a imagem é explorada com demasiada intensidade, tanto é que a chuva de letras na tela da televisão, que acompanha todo o desenrolar da trama e que marcam as ações e os pensamentos do protagonista, provoca fortemente o imaginário do personagem, criando inúmeras possibilidades de ideias e suposições plausíveis, fato que evidencia o poder que a imagem televisiva exerce na capacidade criadora das crianças e dos adolescentes.

Há momentos, no livro Chuva de Letras, em que o receio de interagir com algum fantasma preocupa o personagem, de modo que tais imagens interferem no seu cotidiano, e ele passa a refletir sobre o que vê, tenta interpretar e procura compreender o significado de tudo que é retratado na chuva de letras reverberada na imagem televisiva propriamente dita. É possível perceber que, após essa preocupação inicial, ele se encanta com o que as imagens provocam no seu imaginário e passa a viver melhor, mais feliz, isso porque, como afirma Fittipaldi (2004, p. 103), “toda imagem tem alguma história para contar. Essa é a natureza narrativa da imagem. Suas figurações e até mesmo formas abstratas abrem espaço para o pensamento elaborar, fabular e fantasiar”.

O mero fato de o protagonista se abrir ao novo o faz se sentir melhor. Sendo assim, percebe-se que tudo que o personagem contempla gera um oceano de significados, possibilitando novas maneiras de explorar a realidade e capacidade para perceber o mundo ao seu redor, a partir da fantasia e do imaginário da chuva (água) a percepção se amplia e se consolidada a construção de novos saberes. Em retorno ao inventário temático que abriu este texto, Candido (2011, p.176) retoma o conceito de literatura e o traduz relacionando-o a “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura”. Em consonância com este refletir, há suspeitas naturais de que um mundo sem produção de significados em cadeia seria um cabal desastre, do mesmo modo que um homem que vive sem ter o devido contato com a literatura, ou com os textos de natureza literária, tornar-se-ia um impostor corpo disforme, pálido em termos de representatividade e de expressividade.

Não há homem sem água. Não há humanidade sem literatura. A água que é derramada em dias de chuva é o alento para o sertanejo, o fator de judiação para o favelado da grande cidade. A água esmaga o coração sofredor, assim como retira o amargo das secas. O povo é a água da literatura. A maior história de todos os mundos e tempos. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 2011, p.176). A literatura, pois, assim como a água, “é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente” (CANDIDO, 2011, p.177).

A humanização pelo fator literatura, para Candido (2011), deve ser entendida como todo processo que incute no ser humano rotas de reflexão, aquisição de saber, desenvolvimento do senso de alteridade, refinamento dos sentimentos e habilidade para enfrentamento das problemáticas do viver. Mas, por que a literatura seria tão importante para o homem? Qual o seu segredo? A literatura seria mesmo uma espécie de água, de líquido vital para a existência? No livro Cartas do São Francisco, escrito por Nilma Gonçalves Lacerda, a água figura no livro como o mote-mor da trama. A autora, fazendo um paralelo com a famosa obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, faz arvorar algumas unidades de cartas expressas direcionadas a um aspirante a escritor de histórias infantis e juvenis. Com sede por transmitir saberes, a autora faz um pequeno, porém apurado, apanhado do fazer literário relacionado à literatura infantil e juvenil, elencando informações tanto precisas quanto preciosas sobre tal atividade.

A literatura tem desses movimentos particulares. A água já foi território para várias importantes obras universais, desde as epopeias homéricas até Moby Dick, de Herman Melville, passando por Joseph Conrad, João Guimarães Rosa e tantos outros. Em Cartas do São Francisco, o Velho Chico é a matéria que gera a fluidez do conhecimento compartilhado, tal qual um espelho d’água que reproduz as faces de todo um organismo vivo, neste caso a literatura dita infantil e juvenil. Ao mesmo tempo em que a desloca do comum convívio frente a outras disciplinas relacionadas ao saber humano, como já citado anteriormente, Barthes (2001) faz da literatura, aqui em todas as suas acepções, uma caixa de guardados, um baú capaz de zelar atemporalmente por incomensuráveis saberes. Este, para ele, é justamente o aspecto que faz da literatura um fenômeno exclusivo quando comparado às demais áreas do saber. Para o referido autor, a literatura é a própria realidade, bastião da vida em si, o que a impulsiona a estar continuamente em vantagem perante as outras formas de conhecimento.

“Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles” (CANDIDO, 2011, p. 177). Para a literatura, um dos principais ingredientes a ser colocado em análise quando entrada, ela, em julgamentos por sua real e definida relevância é, de longe, o potencial conjunto de ferramentas de que possui para que o irreal seja desbastado, volatilizado e até expulso do que é caracterizado como sendo propriamente humano. A literatura, portanto, ao ser o real ou parte do real, ou até mesmo a força motora e gestora de tudo que é real, termina por ser o local onde tudo se alimenta do todo, em prol do todo e semelhante ao todo.

Tendo como ponto de apoio a citação acima, há de se considerar a inestimável importância da literatura para que seja fomentada, no seio das sociedades, uma espécie de cultura letrada sobre a qual a palavra é sempre apresentada nos centros das significações e das virtudes mundanas. Por ser uma expressão artística milenar, a literatura atravessou várias fases de contemplação reflexivo-existencial e hoje é um território de proporções inestimáveis onde bailam os ventos do fator resistência. E um dos seus efeitos cruciais é a linguagem, com suas mil e uma potencialidades. Língua e literatura, portanto, não sobrevivem separadas.

A Literatura, por sua vez, acaba por refletir no conjunto de suas verdades e de sua natureza universal toda a plasticidade de expressão que se vincula à linguagem. Também utilizada como ferramenta de comunicação, a literatura, embora circunscrita num contexto histórico mais recente que o da língua em si, consegue manter suas interconexões comunicativas demasiado objetivas e sem maiores afetações. Como é de se suspeitar, sem grande esforço, uma sociedade sem a presença da arte literária certamente exprimir-se-á com menor correção, nitidez e criticidade. A palavra, escrita ou lida, decerto desfruta de um poder único, largo, fator que não a limita, já que não sendo simples figurante, beira a fomentação do que é real, isto é, a natureza existencial acerca do que é realidade.

A literatura não está parada, assim como a água de um córrego não é um corpo-objeto que possui uma forma única. Pelo contrário, ela está constantemente em trânsito, a passear por várias paragens do conhecimento humano e a pegar carona em diversos veículos de mídia num efeito dinâmico que surpreende até os mais céticos estudiosos do ramo. Em uma sociedade acostumada a reprimir seus viventes por conta de inúmeros fatores geradores de desigualdade, e que, em pleno século XXI, ainda teima em conviver com máscaras flutuantes de segregação social, de intimidação e de terror, a literatura passa a se cobrar mais, como a exigir-se de si mesma em direção ao posto ocupado pelo outro, o leitor, baseando-se para isso num complexo argumento de alteridade, fomentadora de identidades e valores impagáveis.



REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, s/d.

BRANDÃO, Luis Alberto. Chuva de letras. São Paulo: Scipione, 2008.

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. São Paulo: Contexto, 2014.

______________. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.

FRANTZ, Maria Helena Zancan. A literatura nas séries iniciais. Petrópolis: Vozes, 2011.

JOUVE, Vincent. A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

_____________. Por que estudar literatura? São Paulo: Parábola, 2012.

LACERDA, Nilma Gonçalves. Cartas do São Francisco. São Paulo: Global, 2003.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo. Cultrix, 2006.

WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é ficção. São Paulo: Brasiliense, 1986.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VIII)


Por Germano Xavier

"o amor não é um problema"


havia começado seu discurso absoluto:
"matei o amor, matei o amor, matei o amor!"

estava só.

sua voz era uma linha própria, liberta, independente.
o tom, azul, de adeus, invadia a turva curva nua
das mais ou das menos críticas teorias sentimentais.

deixaria encoberto o céu com uma dada acusação interna:
"matei o amor!"

estava só.

a jovem seguiu sua verdade, crendo nas objetivas
funções das palavras, tão inacessíveis!
em seu coração, ela havia matado o amor.
havia, como a requerer algum engenho da sorte.

no fundo, sabia ela que o amor é uma edificação
trabalhada no acaso, sem normas, sem enunciados,
realizada na história das humanidades e dos nascimentos.
e que transpor o arco das exceções da dor e da mágoa,
da amargura, da agrura e da rispidez,
seria apenas uma fórmula barata de mentir a si mesma.

estava só.
e naquela sua solidão sem código, a dinâmica
dos pensamentos lhe cortava o pulso.
distanciou-se da antiga fala, repensou:
"matarei o amor, matarei o amor, matarei o amor!"

estava só.
e continuava.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Turkey-166524025

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada

*

Por Germano Xavier



De tu ojo soy la pupila


eu não sei, exatamente,
em que converto
estes olhares imaginativos
que por ti deponho.

incrível é toda a poesia que temos
para descrever um olhar que nunca se cruzou,
que apenas se sonha.

penso eu no olhar de Janus à baleia,
no olhar da baleia a Janus,
como num filme de Bela Tarr.

algo assim é só o que consigo
e, como sempre,
minha memória me apunhala.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Solo-luz-en-la-mirada-152462929

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Circulares

*

Por Germano Xavier


#1


no primeiro dia do ano fez calor.
fiz silêncio para ouvir a voz de Deus,
só ouvi o silêncio me ouvir.
deduzi que há algo errado com meus ouvidos
ou com a voz de Deus.

saí para correr
(correr é cortar o tempo com o corpo
e ficar inteiro no final) e havia pipas no céu
e meninos no final delas.
li um livro assustador da mulher que extrapola a humanidade
(Clarice não clareia. dinamita a calma).
recebi um afago na alma com toque familiar.
ouvi que ela estava bem e senti algo que voa.
escrevi um poema e guardei para o passado.
li um estonteante "poema-de-vida-inteira" e gostei de estar vivo.
desejei que o ano passe depressa
e me leve para mais perto... de mim.
do caminho que me leva mesmo quando não caminho.
fechei os olhos. e vi o sempre.




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Filastrocca-158456473

sábado, 7 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VII)


Por Germano Xavier


"a matéria do acaso é a memória do futuro"


Caminhos para o Roncador


uma coisa lhe digo:
o futuro é uma época ancestral.
por isso, chamemos o acaso pelo nome!

no interior vulgar dos infernos,
na memória vaga dos absurdos,
no concerto máximo sem música,
quando atingida a palavra comum das sortes,
o amor restará feito abstração,
nas cantinelas e nos raciocínios.

só amor só,

à esquerda das tempestuosas febres dos ocasos...
a bombordo, a lâmina de madeira do velho marujo
esticará o horizonte de sua juventude tomada.

enxergará, então, o velho bucaneiro,
que o amor é a besta do mar, o monstro rotundo
que explode nas águas após rasos voos.

sentirá, pois, o marinheiro,
que as águas de lastro de sua embarcação
estão contaminadas pelo amor que se entrincheirou
pelas sendas de todas as retóricas oceânicas.

o azul, no agora,
terá o requinte da seleta minoria
que teimará em singrar a estrada espumosa
e branca.

chamemos pelo nome a direção dos portos!
chamemos pelo nome a atenção das paixões!
chamemos pelo nome a glória dos quereres!
chamemos pelo nome o medo das obras!
chamemos pelo nome o monumento aos náufragos,
o campo esquálido dos temores, a desordem dos desejos
e os ninhos dos desafetos.

chamemos pelo nome, ó insuspeito progresso,
toda a fama de nossas mortes acidentais!


* Imagem; http://tab.uol.com.br/roubo-arte/