domingo, 15 de outubro de 2017

Eu ainda te falarei do amor



Por Germano Xavier



aqueles mares, amor,
onde quase nos salvamos,
eram reais demais para
pássaros,
longe demais da terra,
perto demais do absurdo.

...

parei de ponderar
o imponderável.
agora, simplesmente,
paro o mundo
e mando descer
o intruso.

...

já eram verdes antes,
mas não eram musgo
(ainda).
aqueles felinos olhos
(chamas, eclipses, auroras)
viraram musgo
ao devorar
mil mundos.

...

venha aqui, amor.
sente aqui comigo,
observe aquela senhora subindo a rua.
percebe o quanto ela hesita?
talvez pense que não faz diferença
um passo a mais ou a menos.

talvez pense que o peso
em sua alma não suporte mais um metro,
não aguente mais uma casa bonita
que nunca será sua
ou mais um senhor distinto
que não a enxerga.

talvez, amor
(e não deixe de considerar as sombras),
aquela mulher que já esqueceu
de que é uma mulher
seja agora e apenas
uma pedra levada pelas marés,
ora coberta de água
ora queimada de sol.

mas é fato, ainda, amor,
que aquela mulher
é parte de nossa morte.
a cada não-passo seu
morre um pouco
de toda a humanidade.

...

você vê, amor?
jamais foi escrita
a nossa história
nos calendários
obrigatórios
dos dias contados.

a história,
nós a fizemos carne
e a comemos em horas
fatais, em dias infindos,

na geografia acidentada dos corpos.
no reino imperfeito das palavras,
perfuramos a vida
em busca da penumbra
onde o tempo é amor
e o silêncio é pacto.

amanhã, noite clara,
cheia de miúdas belezas:
o dia que mais te amei.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/praia-bancadas-bicicleta-moto-1835036/

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Tapete mágico e outros poemas



Por Germano Xavier


1 | Tapete mágico


o que nos falta, meu bem,
é um relógio quebrado,
um mundo mais simples
e um arsenal de eternidades,

ou talvez
apenas precisemos
de um tapete mágico
e um bocado de inocência.


2 | Morte


violência, silêncio,
assombro ou selvageria.

nada encobre a beleza
(e o horror)
de que tudo terá fim.


a morte
e sua inquestionável divindade,
não a desconhecemos.
por isso,
ardemos sem paz.

mas os poetas,
em algum ponto
entre a palavra
e o embevecimento,
esquecem de morrer.


3 | Resistência


mas se amamos
é porque aprendemos
a sepultar as dores

nas encostas dos dias,
nas vielas do tempo,

a deixar que o vento
reconstrua a estrada
acima dos corpos.


4 | A priori


amo você a priori
(a despeito de cada espinho de minha alma-cacto),
amo você enquanto palavra,
enquanto mulher,
enquanto líquido.

sobretudo amo você enquanto
penumbra
(matéria abstrata de nós).

você enquanto ausência é pedra e mar.


5 | Lado


se encantado seguirei,
como na música,
ao lado teu,

na poesia
seguiremos
lado a lado,

porque o lado, amor
(também),
pode ser dentro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/tapete-macro-detalhe-fio-2350549/

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVII)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



A morte soprada

Le souffle de la mort


Tu surgis loin de moi, impénétrable
Indéchiffrable perfection.

Telle une déesse qui se cache,
Intangible, celle qui déchire les attentes.

C’est alors que je te livre mes délires,
Je me confie à toi, vulnérable
Je t’impose mes prières
Comme on impose l’amour et l’espérance.

Et toi, comme les êtres célestes,
Souveraine,
Tu jouis du droit de souffler sur moi
(Encore une fois)

Vers l’existence en forme de poussière.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/shell-m%C3%A3o-natureza-morta-2546312/

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Não que o amor (não) seja eterno



Por Germano Xavier



A |

depois de tudo, amor meu,
nada se perdeu além daquilo
que nunca tivemos.

a paz a nos olhar por sobre o ombro,
a dúvida a nos fustigar a pele,
testemunhas de um partir
sem fim.

somos os animais
extintos antes do tempo,

feridos pelos dias
mortos de incertezas.



B |

nunca soubemos, amor,
o que era o monstro
por trás das palavras.

por trás do por trás,
havia apenas o papel
e um vazio esquisito.



C |

havia uma pétala de zombaria
em minha mão esquerda,
daquelas que afrontam o mundo
com a sua indiferente beleza.

e logo me dei conta...
ela era a única razão
de todo o meu desencanto.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/emo%C3%A7%C3%B5es-dor-luto-triste-2691898/

domingo, 8 de outubro de 2017

Nivaldo Tenório e as camadas do conto


Por Germano Xavier



Em seu terceiro livro de contos, intitulado de NÍNGUEM DETÉM A NOITE (Confraria do Vento, 2017), o garanhuense Nivaldo Tenório, autor do bem cotado DIAS DE FEBRE NA CABEÇA (2012), faz aquilo que em seu livro anterior já havia, diria, iniciado, como quem repercute uma marca pessoal e a expande: a fabricação ou composição do conto em camadas. Da mesma forma (ou com a mesma fórmula), as narrativas são curtas e circundam temas cotidianos, com toques enxutos de realidade fantástica, quase que imperceptíveis. A morte entra como pano de fundo central e a noite engloba boa parcela de seu simbolismo. Doenças, fragilidades de corpo e alma, fraquezas de conduta, amarguras e dissabores formam o arco-íris pintado em tons de cinza do livro do escritor pernambucano. Como em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA, tudo aparenta estar em seu lugar. Mas não se engane, leitor. Ao menor sinal, perdemo-nos nos finais sem fim dos contos de Tenório. Fragmentados, somos atraídos por um imã-maior como cacos e, só assim, seguimos adiante na leitura. Uma pequenina coletânea de abismos é o que Tenório nos oferta neste livro. Os contos, formulados em pequenas cadências, com diálogos internos ou não, formam uma geometria avulsa, completamente organizada, mas indefinida a partir de sua respectiva angulação final. O olhar de Tenório sobre o básico e sobre o essencial da vida é o de quem sonda o imprevisível com respeito e arguta paciência. O autor desvia o leitor do caminho comum à medida que nos informa sobre outros mil nadas por demais preciosos. Cada mínima camada de suas fabulações é uma nova dúvida instaurada, um novo segredo camuflado, uma nova observação momentânea que se realiza dentro das miudezas e das minúcias das narrativas. Algumas imagens podem turvar o campo de visão do leitor mais desatento, como uma tartaruga que morre durante um passeio familiar em plena ditadura. É um livro triste, denso, duro, cru, cruel, que não tem pena de seu interlocutor. Assim se formou a verve de Nivaldo Tenório, sabedor astuto de que é na vida, dentro dela propriamente dita, que nos criamos feito bichos, que nos desenvolvemos feito astros, dentro dela que aprendemos a desaprender submissões e a desatar os nossos grilhões. Em Tenório há sempre um suicídio prestes a acontecer, tão provável que quase não mais assusta, pois é ele tão próximo que tende a ser a única certa defesa com a qual suas personagens podem contar quando necessário. A mensagem é a de fim de percurso, a de que o homem (todos nós, inclusive eu e você, amigo leitor deste blog) não tem mais para onde correr. Não há mais força nas pernas nem picadas a abrir nos matagais de pedra das cidades. A luz do dia ofuscou nossa derradeira esperança e ninguém, absolutamente ninguém, parece ser ágil o suficiente para deter a noite eterna das civilizações.


* Imagem: Acervo do autor

sábado, 7 de outubro de 2017

Adiante nem é um porém



Por Germano Xavier


não tem relógio o meu tempo.
deixei para trás dois ou mais amores,
um silêncio autoral e uma dúzia de abismos.
comigo, agora, só a paz noticiada
em meu texto crítico. o tempo, sem marcas,

| sem marcos |
revelou-se, via de regra, um humano senso.
todos perdemos, no fim, o tempo-núcleo,
aquele aberto contra o rosto na invenção dos ventos.

frágil colono é meu coração sem posses,
vencido tantas e tantas vezes pela beleza do mundo.
violentado, vezes inoperante, mas atestador
do exigido pelas horas, de minha insistência,
de minha não-desistência - ocupado órgão em amar
| e amar |.

você, na penumbra, não temas a noite dos dias.
havendo esse cuidado a vida se engenha em retornos

| eternos retornos |.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/mar-navio-%C3%A0-vela-oceano-p%C3%B4r-do-sol-1101168/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os contos febris de Nivaldo Tenório



Por Germano Xavier



Secos, os contos de Nivaldo Tenório em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA. Não secos por não possuírem um osso nutritivo medular, mas secos por não revelarem nada mais que o essencial. Ou seja, nada. O cotidiano na obra, também áspero, parece o centro de todas as maldições humanas que abarcam os personagens. Sufoco, evasão, fuga, desterro e suicídio percorrem os cenários de suas narrativas curtas. A cidade aparece na trama e nela quase nada aparenta estar fora do lugar. Aparenta, eu disse. No fundo, tudo está muito deslocado, mesmo tudo estando em seu devido lugar. E o leitor, temeroso, também muda de lugar simplesmente por achar estranho o fato de ter de ficar parado, estanque. O leitor, por vezes imóvel, perde o lugar, vira personagem, anda e é chamado pelo narrador, é barrado pelo personagem de um determinado conto, fica, sai, corre, foge, perde-se. Uma violência quase delicada se instala nas páginas do livro desse escritor de Garanhuns, integrante de uma leva de narradores do interior pernambucano que até hoje marca o solo próprio de suas letras literárias. Nivaldo Tenório escreve parte da história universal do abismo, do abisso, do nada em nós. Em pouco mais de 100 páginas, detona qualquer ideia mais elaborada de valia acerca da caminhada humana sobre a Terra. Seus tipos são desenganados, desprestigiados, feitos de glórias vãs ou destituídos de brilho próprio. Têm muita amargura as personas de Tenório. Nada parece possuir um propósito, como se a qualquer movimento fosse dado um destino de ser fim, de ser término um dia, de acabar. O patético é a forma comum. O dia é trivial e é sempre e apenas um outro instante em relação ao momento anterior. Nada é novo e, por isso, o homem é ninguém. O homem é ele mesmo. O homem em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA não conseguiu se multiplicar nem se transformou em outros. O homem é ele próprio e, devido a este fato, não consegue se aceitar por completo. Em tudo há uma espécie de repulsa, de vômito, de escarro. A cabeça ferve ao ler o livro de Tenório. Os dias fervem dentro dele. A febre é deveras febril. O livro, lançado pela Confraria do Vento em 2014, tem orelha escrita por Raimundo Carrero.





* Imagem: https://pixabay.com/pt/xarope-para-a-tosse-medicina-colher-2557629/

A sutil diferença



Por Germano Xavier



não é importante o gole dos brilhos
nem a maquinaria frígida dos alumínios.
não é importante a qualidade do branco pó.
só o que basta está no que cabe em uma tala
de cheiros e cores e.

com o sabor provável
vem a febre certa da cura, fim sutil
feito de esquecimentos e acreditares

– o gosto
avança e junta nossa força
numa coragem de ânimos.

é a gota,
mínima em sua transformação, na água
a vida, o pulso, o movimento.

é o naco,
silêncio imorredouro
das terras, o real domínio das precisões,
tostão dos muitos que se querem em prova
ou que existem ou que revolvem.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/farm%C3%A1cia-farmac%C3%AAutico-2066065/

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Quando, o mar



Por Germano Xavier


#1

quando me engole em suas infinitas centelhas de água,

refaço-me das anteriores mortes,
como a renascer para o fogo.

quando me esconde em seus gigantes braços de ondas,
convenço-me do próximo passo,
do próximo mergulho e
do próximo voo.

e quando me aquece em seu leito de mistérios,
calculo que o enlace seja maior do que o espaço
entre mim e a sua falta.

quando me cobre,
quando me devora,
quando me depura
você, meu amor, o mar!



#2

você, o mar, o mar, o grande mar.
o ângulo quebrado da água nas dobras das rochas,
a força que inunda o lugar do entendimento. você, o mar, o mar,
|o grande mar|
a voz sem dinâmica, torta e cheia de empolgação,
que considera e que convida, que expressa e que anseia.
o brado que reluta na saudade do instante, a luta
que opera e chega e chama e

o mar, você, o tão vasto mar, o maior-mar,
outro-ser que desarticula a própria margem
de não ser e ser

aquilo!
aquilo exibido como alívio ou a-mar...



* Imagem:https://www.deviantart.com/art/healing-692672537

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVI)



Por Germano Xavier


"tradução livre"


Quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre brutos monstros e pequenos corpos



Sur des monstres bruts et des petits corps


Serait-ce possible une solitude plus grande que moi?



Ici dans cette prison
(Certains l’appellent Vie, tout court)
Là où les vents se heurtent à l’entrée
Empêchés d’apporter les graines,
Aurait-il existé une fente
Où une réponse se pourrait glisser?
Existerait-il une fissure oubliée
Par où la paix puisse rouler?

Ici dans cette prison alarmante
Pleine de monstres brutaux,
Il y a des petits corps interrompus
Condamnés à se souvenir.

Là où je suis envahi par des silencieuses catastrophes,
Enchainées à mes doigts par des alliances éternelles,
Je suis la cible claire d’offensives sordides,
De refus insoupçonnables
Qui m’empêchent l’existence même.

Alors, je m’annule et j’étouffe.

Mes pieds ne peuvent plus que marcher
N’aboutissant nulle part
Même pas à la porte des envies
Seul un être rampant survit en moi.

Ici, dans cette prison
(Quelques un la prennent pour un Foyer)
La peur, la douleur et la nausée
Peuplent de longes mémoires
(Seule la torpeur est libératrice).

/oublier c’est ne pas vivre/

Ici, respirer est offensif et honteux,
Tout mon corps n’est que nudité
Le spasme et l’étonnement qui implorent une fin.

(Ma paix n’est qu’imprudence et le vide absolu)

Ici, ou ailleurs, je me souviens bien
Ma chair déchirée par un silence criminel
Là où les cris
Ne dépassent jamais les murs.

En prison,
Pas d’ouïlles
Pas non plus de secours:

Juste de l’ironie.

Contre la paroi froide,
Mon corps, vaincu, supplie:

«Va-t-en, mon âme!
Cache-toi entre les nuages,
Pour pas que tu me vois tomber…»

Ici, dans cette prison
(Certains l’appellent Vie, tout court)
Là ou je prie pour qu’on me réponde,
Je fouille des sens,
Les divinités m’observent –
Sadiques ou impuissantes?

Alors…
Je reste dans mon coin et je résiste
Peut-être que je lutte et je cesse d’exister
Au delà de ma douleur…

Ici dans cette prison
La vie existerait toujours (?)
Ainsi que l’amour (?)


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sunset-Cloud-691188831

Em partir os passos ou algum lugar melhor



Por Germano Xavier



escrevemos
o teatro mágico dos encontros
nas penumbras sagradas do porvir,

estocamos dizeres e sentires
nas mínimas afirmações diárias sem-tempo
e nas inocentes esperas sem-rosto,
que instiga e nos põe em errâncias.
|flertamos com um claro enigma|

fecho os olhos e imagino porque tudo o que é futuro
não dói.

mas se fosse meu
este meu sol,
repleto de você,
não queimariam
de frio
minhas entranhas
ao meio dia.


* https://www.deviantart.com/art/leaving-a-home-635611322

domingo, 17 de setembro de 2017

A Grande Praça do olhar (ou Morte na Grote Markt)



Por Germano Xavier


em Bruxelas
enquanto muitos passavam
enquanto muitos passeavam
e viam e riam e bebiam e viviam
eu morri no olhar de uma pedinte

na Grand-Place
em plena abertura solar do meio-dia
eu morri dentro dos olhos de uma mulher
que não me conhecia | mas que me conhecia

| bem mais do que me conheço |

em uma de suas mãos uma pequenina lata
em seu corpo um colorido tecido-cobertor
em sua voz um descuido milenar da humanidade
em seu chegar uma dor comum sentida

em Brussels
quase às vistas do Manneken Pis
bem no meio da praça mais bonita do mundo
no centro dos olhos daquela mulher
eu morri uma de minhas tantas mortes | guturais

e espantosamente silenciosas


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Bruxelas-213335121

sábado, 16 de setembro de 2017

O sol estrangeiro



Por Germano Xavier


antes de pensar o golpe
dar ao pensamento a lâmina
cega e áspera e torta
para que se afunde no corpo
e ria sons de sangue além

de toda a dimensão em despedida
encapo a voz inteirausente e viva
sem aquele século de dor antiga

em torno ainda na obra o fenômeno
a autoria do levante e da errância
na palavra que soca a morte a morte a morte

contra qual vivo presente
se erguerá a causa-arte?

nas ideias que me saltam
ou na cova rasa já pretensa
encaminho minha terra mais plural
em ensaios falsos do que sou


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Double-Impossibilitye-583281232

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Corrida



Por Germano Xavier


Saiu eufórica. Já havia alguns dias que não corria. Adorava sentir a endorfina inundar o corpo, a alma, a esperança. Porque talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá. Naquele lugar onde podia voar. Com ele. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Ali em sua cabeça ele era só dela. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, contando histórias com a mão no rosto. Ali, em sua corrida, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente, e todo o mundo parecia se concentrar em sua voz. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era o voo. A memória era combustível. Para os músculos, para os olhos, para o coração. Corpo inteiro movido, movendo-se. O horizonte se transformava e a cada passo dado o mundo parecia girar completamente. O chão se movia. O parque rodopiava como a estar sob um eixo imaginário. A respiração era simples e forte. Havia naquela corrida um momento de frenesi. Saiu eufórica. Como ontem. Adorava sentir a endorfina invadir o corpo, a alma, a esperança. Porque, convenhamos, talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar, para chegar perto, para beirar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades, de perigo ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá, aceso. Naquele lugar onde podia voar, como quando assim desejava. Com ele, voar. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Era deveras um mistério. Ali em sua cabeça ele era só dela. Ela o possuía. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, perdido em si, contando histórias com a mão no rosto daquele jeito que sempre fazia. Ali, em sua corrida matinal, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente e efusivamente... E todo o mundo parecia se concentrar em sua voz, em seus suspiros, em seus rumores. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era a certeza do voo. Mas também, e principalmente, da aterrissagem.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Crossing-Borders-435642079

A despeito do Tempo



Por Germano Xavier


é feita de tempo a tonelada, o peso encardido
no metal das coisas, a bigorna em badalos que me esmaga o crânio
em marteladas de agonia, de dor.

e essa mão que me espreme ou me consola,
essa mão que me atinge como mão de pugilista,
tão infinitamente neutra quanto a chuva ou o sol,
é a sentença que encerra a todos
debaixo do mesmo céu, do mesmo templo,
o tempo: guardião da sanidade.

por tanto chão, por tanto obstáculo,
faço que respiro a despeito do ar
que te assedia ou te engole
num abraço inevitável .

invento que respiro e que sou
o próprio ar, mesmo que fraco,
mesmo que incômodo.

ou mesmo que pouco.

(e a inspiração será a calma que nos salva o rumo)
porque respirar (ainda)
é viver.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Tears-of-time-694952051

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada


Regard


Je ne sais pas, au juste

En quoi je convertis

Ces regards imaginatifs

Que je pose sur toi.


Toute la poésie que l’on possède est incroyable

Insuffisante pour décrire ces regards qui ne se sont jamais croisés,

Sauf dans les rêves.


Je pense notamment au regard de Janus vers la baleine,

A la baleine qui regardait Janus,

Comme dans un film de Béla Tarr.


Voilà tout dont je suis capable

Et, comme toujours

Ma mémoire me poignarde.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sadness-of-the-rail-677195295

sábado, 2 de setembro de 2017

Língua e gêneros textuais: conceitos fundamentais


Por Germano Xavier


De acordo com o filósofo e pensador russo Bakhtin (1981), a língua é um objeto de estudo concreto, resultante de uma interação social entre pessoas que se encontram em uma situação de comunicação. Segundo o autor:

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN,1981,p.123)

Sendo assim, a reflexão desse autor acerca do objeto de estudo língua nos direciona a perceber que a língua não é algo sem forma, pelo contrário, ela deve ser vista como algo palpável que se consagra na palavra pronunciada por alguém (locutor) em direção à outra pessoa, neste caso, o ouvinte. Toda essa relação estabelecida entre o falante e o ouvinte resulta consequentemente numa situação de interação entre as partes envolvidas no processo de comunicação, levando sempre em conta o contexto social, histórico e cultural em que os membros estão envolvidos.

Ao lançarmos um olhar para as práticas escolares de acordo com a visão sociointeracionista da linguagem, elegemos o ensino da língua indiferente ao tradicional, que se restringia a estudá-la como representação do pensamento. A respeito dessa visão, Bakhtin (2002) explica que, para seus adeptos, a expressão linguística é formada de alguma maneira no psiquismo humano e é exteriorizada objetivamente com a ajuda de um código de signos exteriores, como se fosse uma tradução: “O exterior constitui apenas a material passivo do que está no interior” (p. 112). Portanto, as pessoas que não conseguiam se expressar eram rotuladas como seres não-pensantes.

Uma outra concepção de língua é a do estruturalista Ferdinand de Saussure (1977), para o qual a linguística deveria se ocupar dos elementos que são “internos” à língua e deixar de lado tudo o que lhe fosse “externo”. “Nossa definição da língua supõe que eliminemos dela tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema, numa palavra: tudo quanto se designa pelo termo ‘Linguística externa’” (p. 29). Dessa maneira, a língua era vista como um sistema independente de fatores exteriores, sendo que eles não influenciam em nada o seu sistema interno, aonde os signos linguísticos mantinham uma relação de ser o que o outro não era e assim o que se levava em conta era apenas o que estava presente na estrutura, língua enquanto estrutura.

Em meados do ano de 1960 surge um outro ponto de vista acerca do objeto de investigação Língua: o paradigma funcionalista, cujo maior defensor foi o respeitável teórico Roman Jakobson (1982), para o qual a língua é compreendida como um código, utilizado para transmitir uma mensagem de um emissor para um receptor. Esse código, por sua vez, deve ser usado de maneira semelhante, preestabelecida e convencionada por todos os falantes envolvidos na comunicação para que esta realmente se efetive com sucesso. Com o avanço em seus estudos este teórico acrescentou mais dois elementos ao processo comunicativo, neste caso, o contexto (ou referente) e o contato (ou canal). Assim, a comunicação aconteceria através do seguinte esquema tático: a existência de um emissor trazendo em mente uma mensagem com o intuito de transmiti-la a um possível receptor, como forma de concretizar seu desejo ele a transforma em código e a remete para o receptor utilizando um canal (meio físico dotado de ondas sonoras), e por meio do código cabe ao outro interpretar a mensagem recebida.

Inspirando-se no modelo tradicional sobre a linguagem de Karl Buhler (1990), onde a comunicação servia apenas a três funções: a expressiva, a informativa e a estética, Roman Jakobson (1982) faz algumas alterações referentes à mudança na nomenclatura das três funções já pré-existentes, as quais passariam a ser chamadas de referencial, emotiva e conativa. Ele também acrescentou outras três funções, neste caso, a fática, a metalinguística e a poética.

Os textos com função referencial (também conhecida como informativa, representativa, denotativa ou cognitiva) são aqueles que colocam em evidência o referente (ou contexto) e transmite uma informação objetiva sobre a realidade. Já a função emotiva ou expressiva refere-se à manifestação do ponto de vista do remetente, seus sentimentos, suas emoções a respeito dos fatos expostos no texto. Segundo Barros (2004), são vários os indicadores usados para chegar a essa função, dentre eles estão: o uso de interjeições, exclamações, reticências etc, uso de verbos na 1ª pessoa, com o objetivo de enfatizar uma subjetividade e consequentemente criar uma relação de proximidade entre os sujeitos envolvidos na comunicação.

De acordo com Jakobson (1982, p.125), a função conativa ou apelativa “encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo”. Essa é uma linguagem bastante utilizada nos discursos, sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor procurando persuadi-lo e, por isso, ocorre a interação entre remetente e destinatário.

A função fática tem como palavra chave o canal ou contato. Segundo Jakobson (1982), essa função tem por finalidade estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação com a intenção de verificar se o canal está funcionando corretamente. De acordo com Barros (2004), existem algumas expressões linguísticas que fazemos o uso para que possamos chegar aos objetivos citados acima, os quais são: unh e hã (elementos prosódicos de pontuação da fala usados para manter o contato entre os participantes da comunicação), olá! tudo bem? como vai? tchau, até logo, bom dia (fórmulas prontas usadas para começar ou encerrar a comunicação) e você está escutando? (para garantir que haja realmente o contato).

A função metalinguística, por sua vez, tem como foco o código. As pessoas envolvidas em uma situação de comunicação desejam saber se estão utilizando o mesmo código. Para exemplificar esse determinado tipo de função, Jakobson (1982, p.27) afirma que “ela ocorre quando o receptor pergunta ao emissor “não o estou compreendendo – que quer dizer?”. ou quando, ao contrário, aquele que fala, antecipando perguntas como essa, pergunta a quem ouve “entende o que eu quero dizer ?”. Para finalizar, temos a função poética, que coloca em evidência a forma da mensagem, sendo assim, há cuidado mais com o que dizer do que como dizer. De acordo com o linguista Roman Jakobson (1982, p.128):

Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão somente a função dominante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais, ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.

Portanto, é importante destacar que embora a função poética seja própria da obra literária, não é pertinente e nem aceitável postulá-la como algo exclusivo da poesia ou tão pouco da literatura em geral, já que podemos encontrá-la também em outras atividades verbais.

Através de suas obras intituladas Marxismo e filosofia da linguagem (2002) e Estética da criação verbal (1997), Bakhtin edifica sua teoria de língua como interação, posicionando-se teoricamente avesso as ideias concebidas pelas correntes anteriormente citadas, localizando e também raciocinando a respeito das lacunas encontradas naquelas teorias. Sendo assim, ele buscou mostrar que o conceito de língua adotado pelo mesmo era indubitavelmente o mais apropriado para tratar dos fenômenos linguísticos.

Dessa forma, o ensino da língua deve ser entendido e ensinado como uma forma de interação, o professor tem o dever de elaborar estratégias que contemplem os mais variados textos-contextos em que se faz necessário o uso da linguagem, com o intuito de que seu aluno desenvolva a capacidade de adequá-la a heterogeneidade de situações presentes no seu cotidiano, sejam elas de caráter formais e informais, orais e escritas. Em relação ao trabalho do sociointeracionismo para com a linguagem, Costa-Hübes (2008) explica:

Na realidade, o que estas correntes têm em comum é o fator histórico e o fato de terem se estabelecido como disciplinas dentro de uma ciência específica, a Linguística, e de se sustentarem na filosofia da linguagem, elevando a interação à condição de princípio explicativo dos fatos da língua. Amparadas neste pressuposto, não mais trataram do estudo de palavras ou de frases isoladas, mas relacionadas ao texto,ao contexto sócio-histórico, ao(s) usuário(s) que as produziu/produziram, aos gêneros discursivos/textuais. Estamos nos referindo a uma nova concepção de linguagem: a concepção interacionista ou sociointeracionista que passa a tratar a língua como elemento histórico.(COSTA-HÜBES, 2008, p. 109-110 – grifos da autora.)

A concepção interacionista ou sociointeracionista ocupa o lugar de notável relevância para a maior parte dos teóricos que se dedicam a estudar os fenômenos da língua, no que diz respeito ao ensino, partindo do pressuposto de que o ensino da língua deve ter como principal objetivo formar cidadãos aptos a agir nas mais variados situações de atos de comunicação. Segundo Bronckart (1999, p.103), “a apropriação do gênero é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Para a construção desta pesquisa, buscamos ter como base uma perspectiva de ensino engajada na noção de gêneros textuais, sendo assim, pretendemos através dela defender que é fundamental apresentar aos alunos situações que carreguem em si traços semelhantes àqueles que vivenciamos fora do âmbito escolar, reais, variadas, que tenham sentido para eles e que ocorrem em diferentes esferas de interação social.

Com o intuito de compreendermos de que maneira isso ocorre, recorremos às ideias de Miller (1984, apud BAZERMAN, 2006) que concebe o gênero textual como uma ação retórica tipificada, que funciona como uma resposta a situações recorrentes e socialmente estabelecidas. Essa teoria explica que, quando precisamos agir discursivamente em uma nova situação, tomamos como base situações semelhantes, nas quais buscamos alguma forma textual que nos permita atingir os objetivos pretendidos. Ao fazermos isso, acabamos criando um modelo textual que passa a fazer parte de nosso conhecimento e que será aplicado a outras situações semelhantes que possam surgir.

Sendo assim, os indivíduos que utilizam a língua notam que uma determinada forma de emitirem enunciados se faz eficaz em certas circunstâncias, e assim, quando presenciam circunstâncias que tragam algo em comum com as já vivenciadas anteriormente, sofrem uma grande influência de usar um tipo de enunciado semelhante. Através do tempo e das repetições, originam-se padrões e expectativas que englobam os envolvidos e os auxiliam na interpretação de circunstâncias e também na produção de enunciados. Como defende Bazerman (2006, p.23), os “gêneros são os lugares familiares para onde nos dirigimos para criar ações comunicativas inteligíveis uns com os outros.

Schneuwly (2004), relembrando as ideias de Bakhtin (1997), explica que, no momento da produção textual, o sujeito locutor/produtor escolhe um gênero em função de uma situação definida por uma série de parâmetros: finalidade (a vontade enunciativa ou o intuito discursivo do locutor), destinatários (o conjunto constituído dos parceiros), conteúdo (as necessidades da temática do objeto de sentido). Sendo assim, o gênero textual constrói uma base que serve como uma espécie de guia para uma ação discursiva. Bakthin (2007) fala que para ter sua estabilidade os gêneros textuais buscam subsídio a três elementos que os caracterizam, os quais são: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo.

Referente ao conteúdo temático, Schneuwly (2004) explica que o gênero define os conteúdos e os conhecimentos dizíveis por meio dele (por exemplo, é comum o gênero crônica tratar de assuntos do dia-a-dia, envolventes e de interesse de muitas pessoas; esse é o tipo de conteúdo específico para esse gênero); concomitantemente, o que precisa ser falado define a escolha de um gênero (se eu necessito escrever minha opinião a respeito de alguma matéria jornalística, eu consequentemente vou optar por escrever um artigo de opinião.

Em relação à construção composicional, refere-se a um tipo de estruturação e acabamento do todo. Ela é composta por certas organizações textuais partilhadas por manifestações de natureza linguísticas reconhecidas como integrantes de um gênero. Finalmente, o estilo que segundo Bakthin (1997, p.279) diz respeito à “seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais”. É importante enfatizar o fato de que o estilo não carece ser acatado como um efeito de individualidade de um falante/escritor, na verdade ele precisa ser considerado como um elemento próprio do gênero.

A junção dos três elementos citados acima constituem o gênero. Sendo assim, eles foram explanados separadamente apenas por uma questão de didática, pois todos os gêneros possuem esses três elementos não existindo possibilidade de enunciado com apenas um ou dois deles. Em concordância com isso, Bakhtin (1997, p.279) afirma que o conteúdo, a construção composicional e o estilo “fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado”.

Em relação à produção textual, Dolz e Schneuwly (2004) afirmam que o gênero se impõe como uma forma evidente que o enunciado a ser produzido deve tomar. Os gêneros textuais são entidades de grande poder e de acordo com Bronckart (1999), condicionam-nos a escolhas (do ponto de vista do léxico, do grau de formalidade ou da natureza dos temas) que não são aleatórias. Logo, os gêneros acabam por limitar nossa escrita. Bazerman (2005) complementa versando que o formato padrão do gênero nos dá um rumo em dois sentidos, sendo um em relação a qual informação apresentar e o outro de como apresentá-la.

Da mesma maneira, Antunes (2002) explana que na leitura os gêneros possibilitam a projeção e também o enquadramento das interpretações que o sujeito ouvinte/leitor do texto realiza, ao mesmo tempo em que atuam como uma orientação capaz de fazê-lo enxergar o suficiente para se construir uma compreensão global do texto. No âmbito desse assunto, Bakhtin (1997) assegura que todos nós exercemos domínio sobre um rico repertório de gêneros do discurso (orais e escritos) e consequentemente nos sentimos a vontade para utilizarmos com segurança e desenvoltura.

Ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas diferenciações (p. 302).

Ou ainda:

É de acordo com nosso domínio dos gêneros que usamos com desembaraço (...) que realizamos, com o máximo de perfeição, o intuito discursivo que livremente concebemos (p. 304).

Entendemos que nosso conhecimento construído a respeito do gênero nos dá sustentação para que possamos distinguir no primórdio de um ato de comunicação de caráter (oral ou escrita), o gênero a ser usado, seu tema, sua estrutura composicional e, conforme notamos isso a troca verbal ganhará forma, ou seja, se concretizará. Os usuários da língua possuem um saber intuitivo acerca de que as formas textuais necessitam encaixar-se à situação de interação. Antunes (2002) afirma que as pessoas possuem um saber intuitivo a respeito dos gêneros e que a capacidade de identificação e uso dos gêneros é parte do conhecimento de mundo. Nesse sentido, o domínio dos gêneros possui uma dimensão cognitiva. Bazerman (1994, p.134) salienta que o fato de as pessoas dominarem os gêneros é uma condição fundamental para a própria existência do gênero, ou seja, “uma forma textual que não é reconhecida como sendo de um tipo, tendo determinada força, não teria status nem valor social como gênero. Um gênero existe apenas à medida que seus usuários o reconhecem e o distinguem”.

De acordo com Bakhtin (1997), a respeito da padronização dos gêneros textuais existe uma distinção entre os gêneros primários e os gêneros secundários. É importante enfatizar que, segundo Rodrigues (2005), o critério usado por Bakhtin para diferenciá-los não é funcional, e sim histórico, baseado na concepção socioideológica da linguagem, mais especificamente na diferenciação entre ideologias do cotidiano e as ideologias estabilizadas e formalizadas.

Nos gêneros secundários encontramos uma complexidade. Derivados de uma situação discursiva mais complexa, organizada e relativamente mais evoluída, em um ambiente de crenças mais formais e especializadas, tidas como mediadoras diante das interações sociais nas esferas artística, científica, religiosa, jornalística, escolar etc. Contrariamente, os gêneros primários são mais simples, ao ponto que os mesmos são constituídos em condições de comunicação verbal imediata e espontânea, no âmbito da ideologia do dia-a-dia (ideologias que fogem da formalidade e sistematicidade).

A respeito do empenho de alguns estudiosos em identificar e classificar os gêneros, concordamos com Bazerman (1984, apud MARCUSCHI, 2008) quando ele enfatiza que não é possível estabelecer taxonomias ou até mesmo classificações duradouras. Nossas identificações de formas genéricas terão sempre curta duração, pois os “gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros a cada momento do tempo.” (p. 16). Marcuschi (2008) apoia essa ideia e afirma que os gêneros não são classificáveis como formas puras nem podem ser catalogados de maneira rígida.

Relativo ao aspecto citado acima, o teórico Bronckart (1999) alega que os gêneros textuais são entidades que em sua profundidade encontram-se vagas. Fala ainda que as classificações existentes são divergentes e parciais, e que nenhuma delas pode ser considerada um modelo de referência estabilizado e dotado de coerência. Ele atribui essa dificuldade de classificação a pelo menos dois motivos. O primeiro motivo é em relação à variedade de critérios para definir um gênero. Segundo Bronckart (1999, p. 73),

Critérios referentes ao tipo de atividade humana implicada (gênero literário, científico, jornalístico etc.); critérios centrados no efeito comunicativo visado (gênero épico, poético, lírico, mimético etc.); critérios referentes ao tamanho e/ou natureza do suporte utilizado (romance, novela, artigo de jornal, reportagem etc.); critérios referentes ao conteúdo temático abordado (ficção científica, romance policial, receita de cozinha etc.).

Marcuschi (2008, p. 164) do mesmo modo em seus estudos indica os critérios que, segundo ele, usamos para dar nomes aos gêneros textuais e enfatiza a possibilidade de muitos deles atuarem em conjunto.

1. forma estrutural (gráfico; rodapé; debate; poema);
2. propósito comunicativo (errata; endereço);
3. conteúdo (nota de compra; resumo de novela);
4. meio de transmissão (telefonema; telegrama; e-mail);
5. papéis dos interlocutores (exame oral; autorização);
6. contexto situacional (conversação espontânea; carta pessoal).

Bronckart (1999) relata que o critério mais objetivo que poderia ser utilizado para identificar e classificar os gêneros seria tomar como base as unidades e as regras linguísticas específicas que eles mobilizam. No entanto, ele adianta que a aplicação desse critério não é plausível, visto que um gênero pode ser composto por vários segmentos distintos.

Reavendo a discussão a respeito da dificuldade de classificação do gênero devido à diversidade de critérios utilizados, apontada por Bronckart (1999), podemos concluir que, dentre os vários aspectos que envolvem os gêneros e que podem ser usados para defini-lo, há um consenso entre vários autores de que a funcionalidade é o elemento primordial nesse processo.

Essa dificuldade de classificação, segundo Bronckart (1999), decorre ainda de um segundo motivo: o caráter fundamentalmente histórico e adaptativo dos gêneros. Devido a eles se multiplicam e se modificam à medida que a esfera de circulação onde eles atuam se desenvolve e se complexifica. Marcuschi (2008) explica que o gênero é flexível e variável, da mesma forma que seu principal componente – a língua. Isso porque, através da variação da língua, os gêneros também mudam. Portanto, eles desenvolvem-se de maneira dinâmica: eles variam, fundem-se, misturam-se, adaptam-se, modificam-se e renovam-se para manter sua identidade funcional com inovação organizacional. Cada novo gênero aumenta e influencia os gêneros da esfera social onde atua, multiplicando-se. Alguns gêneros tendem a desaparecer devido à ausência das condições sociocomunicativas que os geraram, assim como gêneros já desaparecidos podem reaparecer sob formas parcialmente diferentes.

Concomitantemente, como aponta Bronckart (1999), a emergência de novos gêneros pode estar relacionada ao surgimento de novas motivações sociais, ao aparecimento de novas circunstâncias comunicativas ou ao aparecimento de novos suportes de comunicação. Porém, Marcuschi (2008) salienta que nem sempre temos um gênero essencialmente novo. Devido ao fato de que gêneros novos também surgem a partir de outros, de acordo com as novas necessidades, atividades ou tecnologias que vão emergindo. Os gêneros se imbricam e se interpenetram para construírem novos gêneros e, assim, solidificam-se novas formas com novas funções.

Para concluir a reflexão sobre os gêneros textuais, é importante ainda citarmos sobre sua relação com a realidade social. Marcuschi (2008) salienta que não podemos manuseá-los independentemente de sua ligação com as atividades humanas em todas as esferas. Eles são parte integrante da estrutura comunicativa de toda sociedade, na medida em que ajudam a estruturar as ações de uma comunidade e a intermediar as práticas sociais. Permitem, assim, lidar de maneira mais estável com as relações humanas em que a linguagem é utilizada. É justamente nesse sentido que Miller (1994, apud CARVALHO, 2005) aponta os gêneros como categorias operativas e instrumentos globais de ação social. Ainda segundo essa estudiosa, o gênero é um mecanismo de estruturação e interação que regula as ações comunicativas individuais e o sistema social, sendo o elo e o mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.

Portanto, o estudo dos gêneros textuais consente enfatizar a língua em funcionamento nas mais variadas atividades de cunhos sociais e culturais. Para concluir este tópico, vamos adotar as palavras de Marcuschi (2008) e fazer um breve apanhado das principais características definidoras dos gêneros.

Resumidamente, poderia dizer que os gêneros são entidades: a) dinâmicas; b) históricas; c) sociais; d) situadas; e) comunicativas; f) orientadas para fins específicos; g) ligadas a determinadas comunidades discursivas; h) ligadas a domínios discursivos; i) recorrentes; j) estabilizadas em formatos mais ou menos claros. (p. 159).


REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 2 ed. São Paulo: HUCIT,1981.
COSTA-HÜBES, T. C. O processo de formação continuada dos professores do Oeste do Paraná: um resgate histórico-reflexivo da formação em língua portuguesa. Londrina, PR: UEL,2008 (Tese de doutoramento.
______. A interação verbal. In: Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 10. ed. São Paulo: Ammablume, 2002, p. 110-136.
SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1977.
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 21. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
BARROS, D. P. de. A comunicação humana. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 25-53.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
______. Gênero, agência e escrita. Trad. Judith Chambliss Hoffnagel e Angela Paiva Dionísio. São Paulo: Cortez, 2006.
SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 21-40.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. O enunciado, unidade da comunicação verbal. In: Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 289-326
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Os gêneros escolares – das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 71-94.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
ANTUNES, I. C. Língua, gêneros textuais e ensino: considerações teóricas e implicações pedagógicas. Perspectiva. Florianópolis, v.20, n.01, p. 65-76, jan./jun. 2002 a.
CARVALHO, G. de. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma sugestão e um exemplo. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p. 130-149.
RODRIGUES, R. R. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: A abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005, p. 152-183.
______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.) Gêneros textuais – reflexões e ensino. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 15-2.


* Imagem: http://portalinho.com/1028/7-editores-de-texto-online-focados-para-aquilo-que-proventura-mais-gosta-de-fazer-escrever/

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Circulares

Circulaires
#1


Le Jour de l’an il a fait chaud.
J’ai écouté la voix de Dieu dans mon silence,
Le silence lui-même, était le seul à m’écouter.
J’en ai déduit que quelque chose d’étrange se passe :
Serait-ce mes ouïes ou la voix de Dieu ?

Je suis sorti pour courir
(courir c’est scier le temps avec son corps
Et rester intègre et entier, après tout, après coup)
J’ai vu des cerfs-volants lancés dans le ciel,
À l’autre bout les mains des gamins.
J’ai lu un livre ahurissant de la femme qui extrapole l’humanité
(Clarice n’éclaire point, elle détone le calme).
J’ai senti une caresse dans l’âme, qui avait l’air familier.
Lorsque j’ai compris qu’elle allait bien, quelque chose s’envolait déjà
J’ai écrit un poème que j’ai gardé pour le passé,
J’ai lu un étonnant «poème-de-la-vie-entière»
«Je suis vivant !» - dis-je alors comblé de joie
J’ai souhaité que l’année s’en aille, vite
Et m’emmène avec elle….vers un endroit proche de moi.
Vers ce chemin qui me prend dans lui, même quand je suis immobile
J’ai fermé les yeux
Et c’est alors que j’ai vu l’éternité.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Viking-landing-Belmont-Artwork-701734753

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Paixão de meus ossos



Por Germano Xavier



arrastou-se pela vida nos escombros do tempo,
aberto o coração como um grande arco,
como uma imensa fábrica de anos, em frestas.

deteve-se na hora de ir embora, impossibilitado
o corpo impensado no sorriso adiante,
disse não e teimosamente insistiu em continuar ali.
resistiu, exatamente.

ficar vivo e ser é tudo o que resta.

nascer assim, livre e indestrutível, o aquilo-tão,
e seu fim não estar previsto em nenhum livro.

viver em qualquer penumbra, apesar de quaisquer apesares
(porque feito em poesia) /decidir que era e foi,
em resistente protesto,

amor.

//ouvir a nossa música hoje
e a cada nota milhares de pedacinhos
de mim te reencontrar, completo em meus olhos
deslizando segredos em minha pele//

aquele dia de nascimento
inaugurou um nós em mim inteiramente livre,
exclusivamente nosso.

seus olhos em meus olhos fundaram uma nova poesia absurdamente forte,
doída e humana.

e fomos felizes por horas eternas e por instantes infinitos
de palavras e olhares.

e na penumbra além-mar escrevemos humanidades
de encontros e re-encontros num livro cuja capa denunciava discretamente:
amor.

essa paixão de meus ossos... houvesse um jeito
de criar invernos e fazer as águas todas
se juntarem embaixo de nós, eu faria uma casa de vidro
para te proteger

em meus domínios.
assim, diante da feroz felicidade, fecharíamos os olhos
para não morrer a dois.


//e nos algodões da partilha,
esta leve invenção do ritmo, ou na vertiginosa
imagética do verso-verbo da vida, o trigo
que queda pra cima de nós (tempo-inteiro),
cantar a morte-mais refletida em cada toque, em cada mágico
o instante presente, em pensar sobretudo através das ânsias
pelos frutos futuros do absurdo nas mangas inversas do tempo,
no azeite que fumega a essência de todos os rumos:
amor.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Still-Life-Violin-and-Shark-Plushie-698495144

domingo, 27 de agosto de 2017

O barro em cor de Ma Ferreira


Por Germano Xavier


A pernambucana Ma Ferreira é graduada em Pedagogia, artista visual e como ceramista desenvolve com vigorosa individualidade sua arte, trabalhando com o material mais antigo conhecido pelo homem, a argila. Seu trabalho destaca-se pela dinâmica das cores que compõem suas obras de maneira harmoniosa e contagiante, rebuscando a magia e o encanto de nossas memórias materializadas pela nobreza da cerâmica. Participou de diversas exposições dentro e fora do território nacional. As imagens de suas obras já serviram para ilustrar capas de livros e inspiraram poemas já publicados em livros. No momento, tem feito uma série de exposições no espaço de algumas lojas Livraria Cultura na cidade de São Paulo. Ma Ferreira papeou um tantinho comigo.


Germano Xavier - Ma Ferreira é sinônimo de arte em cerâmica. Conte-nos, Ma, quando e como tudo isso começou...

Ma Ferreira - Começou por acaso. A única pretensão na época era ocupar o meu tempo. Depois de 17 anos trabalhando na área comercial da Ford, já casada, tinha resolvido parar de trabalhar para me dedicar a educação de minha filha. O tempo foi passando e com ele chegou a depressão. Fui fazer terapia. Nunca tinha me interessado por arte. Não conscientemente. E confesso que nem pensei em cerâmica naquele momento como arte. Queria apenas ocupar o meu tempo e sair daquele inicio de depressão. Uma amiguinha da minha filha fazia cerâmica. Minha filha me contou e fiquei encantada quando vi aquela tigelinha de barro. Foi ai que resolvi fazer uma aula de cerâmica. Coloquei muita energia naquela aula. Sai de lá muito cansada e com meio vasinho quase pronto. Poderia ter desistido ali. Mas resolvi me dar uma chance: paguei um mês de aula antecipado. No final daquele mês, eu já tinha feito uma bandeja, com desenhos de borboletas, inspirada num hai-kai. Quando fui buscar a minha bandeja-borboleta na Olaria, encontrei uma pessoa que vendo a minha bandeja teve a generosidade de elogiar. Exagerou nos elogios, nas cores que usei. Disse que eu era uma artista. Pela inspiração no hai-kai, pelas cores etc. Sai de la toda feliz e disse: posso não ser uma artista. Mas serei. Foi ai que tudo começou...

Germano Xavier – Você enxerga a existência de uma relação, ou até mesmo uma interação, da poesia ou da literatura com a sua arte, Ma?

Ma Ferreira - Claro que sim. Sou uma contadora de histórias. Eu sempre gostei de poesia. Houve uma época que eu colocava na internet a palavra hai-kai só para ficar lendo. Viajava em cada hai-kai. Meu primeiro desenho em cerâmica foi baseado em um hai-kai. Desenhei borboletas coloridas em cerâmica. Já fiz uma exposição em homenagem a Vinícius de Moraes e um amigo escritor, o Marcos Pizano, escreveu os versos. Minha cerâmica já inspirou poemas. O contrario também aconteceu. Digo sempre que sou uma contadora de histórias. Cada cerâmica, um verso. Uma poesia. A boa palavra tem o poder de encantar. O Barro e as cores, também.

Germano Xavier – Fale-nos um pouco sobre o seu processo de criação, Ma.

Ma Ferreira - Eu sou muito intuitiva. Não faço ficha técnica de minhas obras. Eu crio a peça... um prato, por exemplo. Na hora da pintura eu olho para o prato, como se eu conversasse com ele. Aí, sim, vou pensar qual arte colocar... quais cores colocar. Meus trabalhos não tem perfeição técnica. Conheço vários ceramistas muito mais técnicos do que eu. Mas eu coloco sentimento. Cada obra, uma história. Não importa se pequena ou grande. Crio em cima da imperfeição. Para mim, nada é errado. Nada sai errado. Sai como deveria ser. Decido o que vou fazer na hora. Como um verso de um poema, uma construção. Adoro cores.

Germano Xavier – Quais são os planos para o futuro?

Ma Ferreira – Penso em criar a marca "maferreiracerâmica". Penso em diversificar um pouco mais a minha arte. Até o momento, tenho me dedicado à criação de objetos cerâmicos com função mais decorativa. Em um curto espaço de tempo, penso em desenvolver uma linha de objetos utilitários em que eu possa juntar essas duas funções: a decorativa e a de utilidade prática, tornando-os mais versáteis. Isso sem perder a minha identidade e característica maior que é a exploração máxima do uso das cores em meus trabalhos. Então, por que não começar criando a marca "Ma Ferreira"?






Imagens: Arquivo Ma Ferreira

sábado, 26 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIII)

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 1 de janeiro de 2017
A terceira perna

La troisième jambe

"Cette troisième jambe, je l’ai perdue. 
Et je suis redevenue quelqu’un que je n’ai jamais été."
(Clarice Lispector, in A Paixão segundo GH)

La jambe
Que j’ai perdue,
Lorsque j’ai conquis la douleur,
M’a ramené vite à l’étouffement
Habituel, causé par le néant ou la frayeur.

Découragé,
J’ai du me soulever sans m’apercevoir
De l’organisation de tout l’effort
Car la liberté était juste effrayante

J’ai marché d’un pas ferme ; puis, devenu stable
Le seul choix était de partir, tout simplement, absent,
Silencieux, je suis retourné là ou je me suis égaré.

Des chiens aboyaient dans la rue vide – nous serions alors
Des étrangers, qui vivaient de la chair, du mucus, de la sève.
Le corps n’étant plus qu’une idée.

J’ai pris la route, à coups de rames
J’ai vécu, tel un pâtre, guidant des inutiles moutons mensongers
Certaines issues apparurent alors, dont j’ignorais l’existence.

Prisonnier de ma jambe égarée
Apeuré, avant tout, d’une peur plus grande encore
Cette jambe qui restait là au fil du temps
Brutalement brouillée
La jambe-sans-destin.

Cette jambe, construite, on m’en a fait cadeau
Après son départ, la douleur s’accrochait
Au temps, identique au fruit du hasard.

Cette jambe,
On me l’a offerte
Et ce fût une illusion, ma seule certitude.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Leg-700995767

Literatura, este carnaval em mim



Por Germano Xavier


Literatura serve para alguma coisa? O quê? Mas, o que é útil e o que é inútil? Do que se precisa para viver? Eu, para me sentir plenamente vivo, preciso de tão poucas coisas! Uma delas, óbvio, é a literatura. O livro em si. O conhecimento. Quantas pessoas são também assim, como eu, nesse emaranhado de bilhões de seres humanos? E que figura é essa, a do escritor, que tão bem alarga as fronteiras dos mundos visíveis? E que figura é esta, a do leitor, que como ninguém sabe reconhecer símbolos e sinais que dão para as profundezas do desconhecido? Quando o autor está menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor? São tantas as perguntas? São tantas as respostas!

Até hoje, no alto de meus poucos (ainda) 33 anos de idade, pergunto-me: Literatura, para quê? Eu, um ocidental latino-americano, ensinado pelo “torto” pensamento “quase” geral do mundo que pertenço ao “centro” de todas as coisas e formado ainda em uma época da história das gentes inteiras que difundia a ideia de que nosso “lado do globo” é o único local das riquezas menos efêmeras e das liberdades mais densas, questiono-me incessantemente acerca da real motivação para com essa paixão tão intensa que entrego a esse território tão misterioso chamado literatura, onde os acontecimentos parecem viver à mercê de uma falseada compreensão da realidade e, por consequência, da vida.

Tão carnavalesca é a literatura, espirituosa, cheia de palavras representadas, bivocais, onde se misturam dialetos, jargões, estilos, versos e motes, ditos e não-ditos, inteira toda poli. Ah, Bahktin!, você estava mesmo muito certo! Literatura é transposição e seus efeitos têm como características básicas o questionamento das verdades “absolutas”, o debate sobre problemáticas relacionadas à morte e aos sentidos da vida, sobre as configurações do fantástico, sobre a escolha e a predileção pelas infrações às normas vigentes de conduta, sobre o enfrentamento.

Literatura, que é também a linguagem em ação, que não respeita limites, que pode ser ora obscena ora excêntrica e que, principalmente, permite que o reprimido se apresente perante o mundo que cala sua voz e que enfraquece o seu corpo, tornando central aquilo que é marginal. A literatura tem a propriedade das impropriedades, por isso é dialógica, por isso se refere, enuncia, comunica, mesmo quando o seu objetivo maior esteja convertido em leis e valores de mercado.

Se alguém me pergunta, hoje, o que sou, respondo: sou um leitor. Leitores são essas pessoas que veem as mensagens dos meios com graus diferentes de concentração, interpretam-nas ativamente e dão-lhes sentido subjetivo, relacionando-as a outros aspectos de suas vidas, como diria Thompson. Destarte, do mesmo modo como ocorre ao personagem, o leitor vivencia uma viagem reflexiva, pelo interior de um livro que, ao crepitar das páginas transpostas, operará nele uma transformação interna de proporções incomensuráveis. Talvez seja esse o valor inegável da literatura: a tentativa de compreender o outro para efeito de nossa evolução pessoal e para, logo depois, atingir uma esfera coletiva.

Para Cortázar, um dos meus grandes mestres literários, um texto de qualidade não se esconde sobre o seu tema, mas naquilo que se encontra antes e depois dele. Antes do texto, do tema, está o escritor e toda a sua bagagem humana e sanha literária. De acordo com o búlgaro Tzvetan Todorov, nenhuma narrativa se limita a uma sucessão de fatos, já que não é toda hora que uma dada sequência cronológica produzirá verdade. Essa viagem que o leitor faz, de natureza espelhada, é fundamental dentro da literatura e é justamente ela que faz do livro essa força social tão indissolúvel.

A literatura me subsidiou com uma nova perspectiva do mundo, um mundo diferente do mundo real, ofereceu-me uma nova maneira de olhar para o conhecimento e para a cultura. A literatura, desintegrando-me, unificou-me. Transformando-me, preparou-me para os desafios da realidade. Hoje, da mesma forma que Todorov, que defendia que outros sistemas simbólicos, que não o texto literário, podem abarcar os traços narrativos típicos da literatura, consigo ver muitas coisas através das lentes das grandes narrativas e poemas.

Sou leitor, mas também sou escritor. Conduzo tudo aquilo que é visível e, também, tudo aquilo que é secreto. Velo e desvelo. Para isso a literatura me serve, para dar voz aos meus mais altos silêncios, para me refletir um pouco nos outros em uma relação interpessoal transcendente e libertária. Sou aquele que sugere mais do que diz, ou aquele que diz o indizível, o grande capitão da nau desgovernada de mim mesmo e, portanto, sem freio e sem medo. Sou, antes e depois, aquele que conduz uma tripulação, mesmo que ainda mínima, a adentrar um mundo de seres atropelados por uma sociedade que extermina tudo que é essência. Por isso, leio e escrevo. Por isso, levanto e discuto. A literatura me tornou subjetivo, ambíguo e imensurável. A literatura me fez lembrar que possuo boca, pernas e mãos. Meus passos, hoje, dão voltas e mais voltas sobre a Terra. E tamanho poder é por conta dela, a literatura.


Imagem: https://www.deviantart.com/art/Untitled-701003332

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Círculos de cura em minha casca



Por Germano Xavier


eriçados estão os corações sem saída,
os gritos contentes, surrados e miúdos,
de uma alegria perversa sem zelo ou amor.

sombras raquíticas no cimento
devoram brincadeiras, o contratempo dos ventos
e se pudessem

proibiriam o impossível.

minha mão tomada em poesia,
nas imprecisões mais firmes de terreno,
expulsa de mim a ideia sem sol-fantástico,
chão reclamado em não-incômodos.

minha mão me finca como um ninguém-arranho,
ganhada numa surra magistral, o soco cheio de chuva
e semente e casa e se ao menos fosse...

esse tudo}

um pedaço de sonho impermeável
atirado

na continuidade de meus ri-achos


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Abstract-700714748

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Fagulha


Por Germano Xavier


#1


para avivar os sentidos e lubrificar
as engrenagens da alma e do corpo
(antes que tudo vire pó),

é preciso a fagulha
de graça ou de fome,

é preciso a semente de fogo
para fazer incêndio, para queimar as mãos
no processo de fazer vida.

antes
que tudo vire passado,
é preciso a fagulha

para fazer valer o tempo
que se consome no corpo,
para transformar espera em saudade milenar,
que arderá nas estações...

é preciso a fagulha

para mudar o curso, para buscar o verbo,
para arriscar o olhar em busca de ouro.
... e depois de escavar, saudar os deuses

e morrer em paz.



#2


para morrer em paz,
para existir na falta do fogo
ou no fogo da falha da falta
da paz, da existência mínima.
para viver em paz, para morrer sem paz,
minha obra ficou no aquilo que for,
no que vamos levar em que não seja
o que vier ou o que gerarmos.
para sempre, para mim, é o lugar
para ir e para ser e para sermos, então,
sem para quês nem por quês...

pensar nisso que não apequena
por dentro em nós o que em mim,
nisso que sim, disso

a decisão, eu me disse
de acender os que são,
como o não, como o pão, o trigo da vida,
escada do ser em ir, ou simplesmente,

essa fátua fagulha.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/fagulhas-189702458

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Kahlo



Por Germano Xavier



vejo Frida no passo da dança,
na frágil criança interior da bailarina,
que bolera sua cachucha – sua sina –
ventre-mulher forte que agora avança

pelas sendas das mentes mundanas,
libertárias, visionárias, independentes.
Frida há no México de todas as gentes,
e nada cala tantas e tais dores humanas...

Frida existe no temporão início
da fé, do amor, da paixão, no princípio
e no compasso, cantada por simples vozes
na inconteste e rasa vala dos inesquecíveis.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Frida-Kahlo-pencil-sketch-651151097