domingo, 10 de dezembro de 2017

Minha vida e o português brasileiro contemporâneo



Por Germano Xavier


Desde que inventei de assumir o posto de professor pela primeira vez em minha vida, ali pelos idos do ano de 2004, precisei mudar o trato para com a Língua Portuguesa. Antes, aquele jovem professor, com vinte anos incompletos, muito inexperiente e refugiado em um mundo onde a literatura representava o reino mais perfeito dentre todos os outros possíveis, facilmente confundia o que era mesmo importante a ser reforçado ou levado à discussão diante de uma plateia que, por vezes, passava dos cem alunos. O jovem professor que fui, encantado de maneira plena com a possibilidade de poder auxiliar pessoas em suas diversas escolhas profissionais ou de vida - propriamente dita -, ainda desconhecia em parte o poder dos letramentos.

Foi com o tempo - e já se passaram 13 anos até então -, que o professor que sou foi se formando e adquirindo o que outrora muito lhe custou: a plena percepção de que promover o letramento de seus aprendizes através de estudos novos e reformados da língua e seus afluentes era o caminho mais aprazível a se almejar. Assim, a gramática – dura e pura – começou a ceder espaço para atividades epilinguísticas, que percorrem um caminho de análise que parte do uso para, no fim, retornar ao uso, passando antes pelo momento da reflexão. A minha fala foi deixando de ser uma fala forte, de tom único, que se expandia pelo vão das salas tal qual uma verdade absoluta, tal qual um colosso inquebrantável. A minha fala deixou de ser a “minha fala” e se transformou na fala dos meus alunos, na fala de suas experiências de vida, na fala dos outros que somos, na fala das ruas, na fala dos acontecimentos, na fala do mundo.

Destarte, aprendi que textos autênticos, falados e/ou escritos, dotados de força vital, seriam as melhores armas para fazer com que meus aprendizes partissem diretamente para o momento de beleza máxima que é o da construção de sentidos, não estritamente ligados à língua, mas também os seus próprios sentidos percebidos enquanto seres humanos singulares um a um. Com isso, em minhas aulas, adentraram a sala de aula os mais diversificados autores, músicos, poetas, escritores e artistas em geral, de todas as categorias e nichos, com ou sem prestígio social, aclamados ou não pela crítica muitas vezes burra e parcial de nosso país. Foi quando comecei a dar aulas de base semântica utilizando um cedê da funkeira ou do pagodeiro da moda, quando fiz um debate de cunho mais pragmático relacionando o noticiário do momento e quando prestigiei a análise dos discursos assistindo aos vídeos mais descolados que tanto faz a cabeça da garotada.

Esqueci de destacar: nesses 13 anos como professor, tenho escolhido ser professor de alunos menos favorecidos socialmente, alguns muito pobres, outros residentes em localidades fincadas em zonas rurais quase que totalmente esquecidas pelo poder público do Brasil, que sofrem com carências mínimas relacionadas aos mais comuns dos direitos humanos, como falta de água, alimentação e moradia. Um Brasil profundo que muitos professores, pelos mais diferentes motivos, desconhecem ou fingem desconhecer. Esses aprendizes, ou seja, aqueles meus alunos que mais dificuldades passaram durante a vida escolar – e também não só durante a vida escolar -, foram os que mais me fizeram aprender sobre a necessidade de eu reformar métodos e planos de ensino.

A língua, num olhar geral, só é ativada a partir do momento em que se dá a produção de sentido no interior de uma força de interação social. Se não ocorrer tal fenômeno, de nada servirá aprender ou ensinar uma língua. É a partir do uso que o falante se constitui enquanto ator social, é a partir do uso que o escrevente se forma cidadão pensante, é a partir do uso que as gramáticas se fortalecem e se sedimentam como bases necessárias... Portanto, é a partir da vida que pulsa em cada novo aprendiz que o ensino-aprendizagem de uma língua se legitima. E tem sido assim comigo, desde que adotei o português brasileiro contemporâneo como idioma a ser ensinado em quaisquer das salas de aula por onde passei - zonas rurais e interior da Bahia e de Pernambuco, na capital do Maranhão e na capital da Paraíba - e que, indubitavelmente, ainda transitarei.

Partindo do pressuposto de que somente há língua em uso e de que todas as engrenagens atreladas a ela constituem atividades próprias à natureza humana, minha felicidade mais gloriosa se dá justamente em finais de ano como o de agora, mês de dezembro já adiantado, quando presencio novos e eternos aprendizes sendo encaminhados para as estradas do mundo, cada qual possuidor de uma fala e de uma escrita não mais fracas ou inoperantes, porém capazes de mover pedras imensas e de abrir picadas onde antes era só e somente só escuridão e incerteza. Tem sido assim a minha vida como professor, dura e densa como um rochedo, mas também leve e fluida como uma esperança.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-quadro-negro-blue-conselho-1869471/

domingo, 3 de dezembro de 2017

Miró, até agora e até quando



Por Germano Xavier


A poesia de Miró pega o último ônibus da cidade grande e roda a madrugada inteira, para e se opõe ao fim da linha (da vida). A poesia de Miró sempre recomeça quando o fim parece ser a última estação. Pega o rumo e quebra esquinas, dobra-se na dor de ser quem se é ou quem se foi. Duplica-se no orgulho da reviravolta, afugenta-se. A poesia de Miró é Muribeca, mas também é o espanto por São Paulo. A moça na rua vendendo seu orgasmo por poucos reais, o homem preso em sua própria solidão, o dia com pressa e a lerdeza de tantos. Miró soca mais forte que Rock Balboa, perde e ganha a luta, vence, chora, morre e renasce. É um trabalho de catador a poesia de Miró, uma palavra dotada da mais pura humanidade, severa e doce ao mesmo tempo. Urge recortar o tempo em que se vive, mas também recorta o passado. Feita de cimento e barro, a poesia de Miró insiste, grita e pede. Nunca implora. Existe. É a voz de um sem-voz-milhares. É a fala do coração ressequido, o lamento do pulso amargo e frio. Miró é lâmina com ferrugem, agulha encontrada no meio do palheiro, ou melhor, do lixão. Até agora a poesia de Miró é o seu próprio caminho, que condena outros e que condensa vários. A poesia de Miró é aquela que corre para dentro da chuva e que quer se molhar nas lágrimas das gentes inteiras, feliz ou triste, mesmo as enfermas. Miró, até agora, é uma dose extra de crença em nós mesmos e na literatura, o próprio jogo da amarelinha, céu e inferno, Rayuela, livro desmembrado em poucos quilos de carne e osso e verdades. Miró caroliniza-se, em seus-também quartos de despejos de andar por aí e além. Prova disso é seu verbo, simpático ao perigo de que muitos medram. A poesia de Miró é até agora um achado e nós, pobres mortais, precisamos conhecê-la. Água turva, manancial assoreado pela ação do tempo-homem, palavra grossa e punitiva. Miró é São Bento do Una, terra natal de meu pai, é Recife, Hellcife, é todo um Brasil que ainda faz de conta que não e que sim. Fotografia úmida de fogo, ardente e firme em sua forma de ânsia. Miró Até Agora é uma obra que reúne os livros de Miró publicados entre 1985 e 2012, e que engloba os seguintes produtos: dizCrição (2012), Quase crônico (2010), Tu tás aonde? (2007), Onde estará Norma? (2006), Pra não dizer que não falei de flúor (2004), Poemas para sentir tesão ou não (2002), Quebra a direita, segue a esquerda e vai em frente (1999), Flagrante deleito (1998), Ilusão de ética (1995), São Paulo é fogo (1987) e Quem descobriu o azul anil? (1985). Miró necessita. Miró é ontem.




* Imagem: http://www.suplementopernambuco.com.br/edicao-impressa/69-mercado-editorial/1658-os-dez-melhores-poemas-de-mir%C3%B3-da-muribeca.html

sábado, 2 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCII)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Círculos de cura em minha casca

Sur ma peau, des cercles qui guérissent


Les cœurs condamnés se hérissent,
Alors que les cris sont comblés, menus et murmurés
Imprégnés d’une joie perverse vide de zèle et d’amour.

L’ombre rachitique sur le ciment
Dévore les jeux d’enfants, à contre-courant des vents
Elle essaierait sans doute, si possible

D’interdire l’impossible.

Ma main conquise par la poésie,
Sur un terrain imprécis et pourtant ferme,
Expulse de mon corps les idées sombres, exemptées de soleil,
Et réclame un sol tout à fait inoffensif.

Ma main m’apprivoise, me griffe la peau comme personne d’autre,
C’est une raclée magistrale, un coup de poing bourré de pluie
{Si au moins elle était semence et foyer pour moi…
….en gros tout ça}

Un morceau de rêve jeté quelque part

Sur le chemin de mes ruisseaux


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-brown-c%C3%ADrculo-corte-detalhes-84678/

sábado, 25 de novembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCI)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 3 de maio de 2017
Ensaiando destinos


Des destins expérimentaux

Il faut du courage
Pour essayer des destins
Pour succomber au risque
Pour se livrer à la mort
Pour inciter des faiblesses

Voyons le cas de ce pont secondaire
Qui s’effondra durant les premières pluies
Comme celui qui a miné, éliminé
En face de la déchirure insoupçonnée

Du courage, oui
Pour écrire des poèmes
Pour assortir des mots
Pour décider des sens
Pour dévier les discours

Comme la certitude que nous éprouvons
Lorsque tout paraît déjà contaminé
Comme le rude motif de l’amour
Qui ne peut pas se stocker

Du courage, oui
Pour s’incliner vers l’abîme
Pour atteindre la violence
Pour essayer la fureur chimique des trahisons
Pour s’arrêter tout simplement

Et il arrive que ce chaos que l’on recherche
Ne reconnaît qu’un vainqueur : la technique de la vie
E le malheur va interrompre ce qui n’échoue jamais

Comment sera donc cet humain élaboré
Au niveau de ses petites réactions
Comment agira-t-il, celui que nous méconnaissons
Lorsque l’indifférence nue le provoque?


* Imagem: https://pixabay.com/pt/machado-madeira-hack-casos-1748305/

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XC)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Domingo, 12 de março de 2017
Octaedro

Toujours pour Julio Cortázar


Octaèdre


Ce sont huit histoires sur ce que l’on acquiert :

La première nous montre un narrateur ravissant qui dimensionne la vie.
La seconde dévoile l’étreinte entre le cordon insolite et le réel.
Dans la troisième nous interpénétrons le Temps.
La quatrième nous laisse côtoyer les logarithmes.
La cinquième marque le début de notre déroulement.
Dans la sixième nous sommes dominés par une accaparante anxiété.
Arrivés à la septième nous comprenons que nous n’avons rien compris.
La huitième nous permet de devenir un conte.

Et dans toutes ces histoires nous éprouvons la même sensation :
Le rêve est immédiat.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/alho-ervas-cozinhar-alimentos-2810491/

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Alessandra Barcelar e o sempre-é-tempo para a escrita (uma entrevista)



Uma conversa sobre quem se inaugura...



GERMANO XAVIER – O que a literatura significa para você?

ALESSANDRA BARCELAR - Meu contato com a literatura começou muito cedo, numa estante na casa de uma tia do interior, com uns 7 ou 8 anos de idade. Literatura, para mim, quando treino a escrita, é a possibilidade de ser outra pessoa, de ter outras vidas, estar num mundo paralelo. E isso é fascinante. Como leitora, a maior satisfação é constatar o que a literatura pode fazer a um paciente crônico, ou uma criança de comunidade, exercitando meu voluntariado em hospitais e contação de histórias em projetos sociais. Literatura une.


GX – Fale-nos um pouco mais sobre esses processos transformadores vivenciados por você a partir da literatura...

AB – Os dois projetos de leitura não foram premeditados. O primeiro surgiu de um voluntariado que eu estava fazendo, uma espécie de capacitação com pacientes soropositivos. Eu tinha uma inquietação com o ambiente fóbico das redes sociais, queria tirar do que eu lia ou conhecia algo além de uma resenha, queria algo além... Foi então que comecei a pesquisar sobre a Biblioterapia e, daí, passei a conhecer projetos envolvendo leitura em hospitais, já que é o meu ambiente de atuação, e assim começamos a trabalhar com leituras diversas para pacientes crônicos, com internações de longa permanência ou com pessoas de baixa renda e sem acesso à cultura. O resultado é maravilhoso, empatia, envolvimento. Geralmente opto por levar contos, pela rapidez da conclusão da leitura. A contação de história para crianças aconteceu em uma reunião social da rede SENAC juntamente com a prefeitura regional e ONGs... me encantei com um projeto de leitura e distribuição de livros para crianças que vivem em comunidades. Com certeza, se não fosse essa inquietude, eu não poderia estar vivenciando isso.


GX – Em sua jornada como leitora e difusora de textos literários, qual a experiência de leitura que mais te marcou? E por quê?

AB - É difícil falar de uma obra apenas, pois muitas me foram importantes em vários momentos. Mas a que me vem à mente devido a dificuldade que tive à época, já que achava um livro difícil e que foi muito importante para mim, foi Grande Sertões Veredas, pela obra, pela história, pelo dilema de Riobaldo, pela atração, pela religiosidade, pela forma de como foi contada aquela história, sem dúvida um livro para vida toda.


GX – Você, recentemente, tem conseguido adentrar espaços antes tidos como mais distantes. Como você enxerga a incursão de textos seus em algumas antologias e em outros tipos de publicações especializadas em difundir literatura? O que muda a partir de tais eventos?

AB - No meu caso, eu não via como espaços mais distantes e sim impossíveis. Sempre tive medo de colocar no papel qualquer pensamento, mesmo sendo uma leitora responsável. As incursões foram uma surpresa para mim, bem gratificante, confesso. O que muda são as possibilidades que aumentam, novos contatos, muitos trabalhos que antes não tinha noção que existiam, obras que posso trabalhar com os clubes de leituras, são mudanças que em um primeiro momento não pensei que aconteceriam.


GX – Vamos falar de predileções: Poesia ou prosa? E por quê?

AB - Prosa! Eu acredito que não tenho intimidade com a poesia, apesar de ler vários poetas como Wislawa Szymborska. E outros. Na contemporaneidade, eu não salto os olhos para poemas que nada mais são que contos pulando linha... não sei também se é algum preconceito meu, mas acabo preferindo textos em prosa. Mesmo sabendo que existe muita coisa boa na poesia. É mais uma questão de preferência mesmo, de contato com a palavra.


* Imagem: Acervo pessoal de Alessandra Barcelar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mariana Basílio, poeta de olhos queimados (uma entrevista)


Uma conversa sobre o livro Sombras & Luzes (Penalux, 2016)



GX – Quem é a Mariana Basílio de Sombras & Luzes?

MB – É uma poeta que aceitou sua condição. No primeiro livro, Nepente, eu ainda estava procurando o que seria o elemento propulsor que havia me movido nos anos anteriores – versar o inominável, dialogar com os detalhes, escavar os mistérios – então tive um insight. Publiquei o primeiro livro meses depois, aos 25 anos, procurando trajar este meu novo trajeto.

Com o próximo livro, Sombras & luzes, foi completamente diferente. Já não tentava me encontrar ou me adaptar, já me compreendia na realidade a que me propus. Projetei o livro de maneira mais madura, e passei a ter uma rotina diária bem mais rigorosa em relação às leituras e escrita – como consequência, passei a escrever com mais liberdade e confiança.


GX – Teus poemas são como buquês repletos de rosas densas, cujos espinhos do caule perfuram até o mais profundo lugar de nossa alma (ou consciência). De onde vem toda essa força?

MB – Fernando Pessoa dizia: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu”. Está tudo na essência do sentir, sentir que o interior não é mais do que o exterior, nada nos salvará da morte, que então a poesia (ou o amor, como versava Neruda), nos salve da vida. Já Herberto Helder, num dos poemas que mais aprecio, parece me denunciar: “Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer / com os olhos queimados pelo poder da lua”. Os olhos queimados – olhos de poeta, da criatura que não sossega sem cavar as profundezas. Talvez o que eu seja cintile no bruto das palavras.


GX – No fim do livro, você esboça uma rota de construção de seu livro. Todavia, eu reforço a curiosidade sobre tal processo e lhe pergunto novamente, na expectativa de arrancar de ti algum “segredo” não revelado em suas considerações finais. Então, Mariana, como se deu a feitura do seu Sombras & luzes? Há semelhanças e/ou diferenças nele para com o seu Nepente?

MB – Me sinto nesse contexto como Júlio Cortázar: pareço mesmo ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas. Faço e desfaço, desfaço e faço. É sempre um tecer melodramático viver em minhas decisões. Fiquei realmente em dúvida sobre expor as tais observações gerais, o tal roteiro. Mas como o livro acabou se tornando um projeto de quase 300 páginas, acabei me decidindo por publicá-las em conjunto.

Se há semelhanças nos livros? Bem, talvez estejam na temática mais abrangente que ainda me recobre, envolvendo temas como vida e morte, humanidade e natureza, e ainda, alguns autores que são minhas influências em ambos os livros. Mas, sem dúvida, vejo e sinto muito mais diferenças do que semelhanças, já sou outra pessoa e poeta nessa época do Sombras & Luzes.

Tudo mudou, simplesmente.


GX – Mariana, existe alguma pergunta realmente necessária a se fazer a uma poeta como você? Alguém já a fez? Se não, qual seria?

MB – Não sei, talvez haja inúmeras, talvez não haja nenhuma. Não sei o que significa direito “uma poeta como você”. Mas vou tentar levar isso para um campo mais abrangente e traduzirei um pouco como me vejo no presente da poesia brasileira – deslocada das tendências mais contemporâneas. O que faço é bem particular e, por isso mesmo, um movimento muito solitário. Mas não me incomodo com isso, a minha única preocupação é estar focada e trabalhar muitíssimo no invisível dos invisíveis – perfurando o rumo das palavras em que realmente me encontro.


GX – Se todo escritor é um país estrangeiro, como diz um de teus versos, qual seria o teu lugar neste mundo, Mariana? E qual seria o lugar da poesia que teces?

MB – Meu lugar é o lugar universal, o lugar do vazio que recobre o todo (e talvez eu o encontre quando escrevo) – aqui sou uma inocência socialista abaixando as fronteiras dos países, unificando o que amo na humanidade: o total de nós.

Só me vejo no “eu” porque me propago em “nós”. Por isso “todo escritor é um país estrangeiro” – além de outros preâmbulos do verso.


GX – O que há para ser descoberto, ainda, na vida?

MBO que há para não ser descoberto? Só estou no começo, mesmo que eu morra amanhã, saberei, ainda é vago, ao mesmo tempo que intensa, a lâmina com que lapido minha voz e construo, exausta, as minhas espirais. Não sei precisar (e adoro isso). Mas como diz Mia Couto (e assumo em prévia do futuro): “grandes palavras escondem grandes enganos”.

Sigamos então, ainda mais humanos do que no instante que já se findou.






*Mariana Basílio (Bauru, 1989) é uma escritora, poeta e tradutora paulista. Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Bauru (2012). Mestre em Educação pela Unesp, campus de Rio Claro (2015). Autora dos livros de poesia Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Recebeu em outubro de 2017 o prêmio ProAC de criação literária do Estado de São Paulo, contemplando a publicação de sua terceira obra poética, Tríptico Vital (prelo, 2018). Escreve atualmente seus três próximos livros: Megalômana (poesia), Kairós (poesia) e A Revolução das Rosas (romance). É colaboradora dos portais Zonadapalavra e Liberoamérica. Possui poemas, entrevistas, resenhas e traduções publicados em diversas revistas do Brasil e de Portugal, entre elas: Alagunas, Diversos Afins, Escamandro, Efémera, Garupa, Germina, InComunidade, Inefável, Limbo, Mallarmargens, Oceânica, Odara, O Garibaldi, O Equador das Coisas, Raimundo e Vida Secreta. Site para contato: www.marianabasilio.com.br

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mulher-rio



Por Germano Xavier

para Carol Piva, em ani-versos


estio | equador
quente de tão-quente
verão inteiro



Carolina Piva é o nome dela. Toda uma estação. Ela. Desde que a sei que sou mais. Ela tem isso. Dentro. Cria e difunde. Ama. Este espaço é mais com ela. Por ela, também. Rio que corre na noite. Sereno. Misterioso, de tão profundo. 

Feliz aniversário, C..
Sigamos!


* https://pixabay.com/pt/gotejamento-molhado-gota-de-%C3%A1gua-2806027/

domingo, 8 de outubro de 2017

Nivaldo Tenório e as camadas do conto


Por Germano Xavier



Em seu terceiro livro de contos, intitulado de NÍNGUEM DETÉM A NOITE (Confraria do Vento, 2017), o garanhuense Nivaldo Tenório, autor do bem cotado DIAS DE FEBRE NA CABEÇA (2012), faz aquilo que em seu livro anterior já havia, diria, iniciado, como quem repercute uma marca pessoal e a expande: a fabricação ou composição do conto em camadas. Da mesma forma (ou com a mesma fórmula), as narrativas são curtas e circundam temas cotidianos, com toques enxutos de realidade fantástica, quase que imperceptíveis. A morte entra como pano de fundo central e a noite engloba boa parcela de seu simbolismo. Doenças, fragilidades de corpo e alma, fraquezas de conduta, amarguras e dissabores formam o arco-íris pintado em tons de cinza do livro do escritor pernambucano. Como em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA, tudo aparenta estar em seu lugar. Mas não se engane, leitor. Ao menor sinal, perdemo-nos nos finais sem fim dos contos de Tenório. Fragmentados, somos atraídos por um imã-maior como cacos e, só assim, seguimos adiante na leitura. Uma pequenina coletânea de abismos é o que Tenório nos oferta neste livro. Os contos, formulados em pequenas cadências, com diálogos internos ou não, formam uma geometria avulsa, completamente organizada, mas indefinida a partir de sua respectiva angulação final. O olhar de Tenório sobre o básico e sobre o essencial da vida é o de quem sonda o imprevisível com respeito e arguta paciência. O autor desvia o leitor do caminho comum à medida que nos informa sobre outros mil nadas por demais preciosos. Cada mínima camada de suas fabulações é uma nova dúvida instaurada, um novo segredo camuflado, uma nova observação momentânea que se realiza dentro das miudezas e das minúcias das narrativas. Algumas imagens podem turvar o campo de visão do leitor mais desatento, como uma tartaruga que morre durante um passeio familiar em plena ditadura. É um livro triste, denso, duro, cru, cruel, que não tem pena de seu interlocutor. Assim se formou a verve de Nivaldo Tenório, sabedor astuto de que é na vida, dentro dela propriamente dita, que nos criamos feito bichos, que nos desenvolvemos feito astros, dentro dela que aprendemos a desaprender submissões e a desatar os nossos grilhões. Em Tenório há sempre um suicídio prestes a acontecer, tão provável que quase não mais assusta, pois é ele tão próximo que tende a ser a única certa defesa com a qual suas personagens podem contar quando necessário. A mensagem é a de fim de percurso, a de que o homem (todos nós, inclusive eu e você, amigo leitor deste blog) não tem mais para onde correr. Não há mais força nas pernas nem picadas a abrir nos matagais de pedra das cidades. A luz do dia ofuscou nossa derradeira esperança e ninguém, absolutamente ninguém, parece ser ágil o suficiente para deter a noite eterna das civilizações.


* Imagem: Acervo do autor

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os contos febris de Nivaldo Tenório



Por Germano Xavier



Secos, os contos de Nivaldo Tenório em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA. Não secos por não possuírem um osso nutritivo medular, mas secos por não revelarem nada mais que o essencial. Ou seja, nada. O cotidiano na obra, também áspero, parece o centro de todas as maldições humanas que abarcam os personagens. Sufoco, evasão, fuga, desterro e suicídio percorrem os cenários de suas narrativas curtas. A cidade aparece na trama e nela quase nada aparenta estar fora do lugar. Aparenta, eu disse. No fundo, tudo está muito deslocado, mesmo tudo estando em seu devido lugar. E o leitor, temeroso, também muda de lugar simplesmente por achar estranho o fato de ter de ficar parado, estanque. O leitor, por vezes imóvel, perde o lugar, vira personagem, anda e é chamado pelo narrador, é barrado pelo personagem de um determinado conto, fica, sai, corre, foge, perde-se. Uma violência quase delicada se instala nas páginas do livro desse escritor de Garanhuns, integrante de uma leva de narradores do interior pernambucano que até hoje marca o solo próprio de suas letras literárias. Nivaldo Tenório escreve parte da história universal do abismo, do abisso, do nada em nós. Em pouco mais de 100 páginas, detona qualquer ideia mais elaborada de valia acerca da caminhada humana sobre a Terra. Seus tipos são desenganados, desprestigiados, feitos de glórias vãs ou destituídos de brilho próprio. Têm muita amargura as personas de Tenório. Nada parece possuir um propósito, como se a qualquer movimento fosse dado um destino de ser fim, de ser término um dia, de acabar. O patético é a forma comum. O dia é trivial e é sempre e apenas um outro instante em relação ao momento anterior. Nada é novo e, por isso, o homem é ninguém. O homem é ele mesmo. O homem em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA não conseguiu se multiplicar nem se transformou em outros. O homem é ele próprio e, devido a este fato, não consegue se aceitar por completo. Em tudo há uma espécie de repulsa, de vômito, de escarro. A cabeça ferve ao ler o livro de Tenório. Os dias fervem dentro dele. A febre é deveras febril. O livro, lançado pela Confraria do Vento em 2014, tem orelha escrita por Raimundo Carrero.





* Imagem: https://pixabay.com/pt/xarope-para-a-tosse-medicina-colher-2557629/

A sutil diferença



Por Germano Xavier



não é importante o gole dos brilhos
nem a maquinaria frígida dos alumínios.
não é importante a qualidade do branco pó.
só o que basta está no que cabe em uma tala
de cheiros e cores e.

com o sabor provável
vem a febre certa da cura, fim sutil
feito de esquecimentos e acreditares

– o gosto
avança e junta nossa força
numa coragem de ânimos.

é a gota,
mínima em sua transformação, na água
a vida, o pulso, o movimento.

é o naco,
silêncio imorredouro
das terras, o real domínio das precisões,
tostão dos muitos que se querem em prova
ou que existem ou que revolvem.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/farm%C3%A1cia-farmac%C3%AAutico-2066065/

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A indiferente grandeza



Por Germano Xavier


à Rua Tito Luna Freire
vive um menino que sou
da cor da cal da velha pedreira
sem reino conquistado
com uma parede inteira de livros

a infeliz invasão veio
quando inventaram de trazer o inquilino

repartiram a casa ao meio
levantaram alvenaria onde uma porta existia

meus velhos escritores mortos
da estante me gritavam:

- Para onde vamos nós, agora,
sem as perspectivas do corredor?


domingo, 17 de setembro de 2017

A Grande Praça do olhar (ou Morte na Grote Markt)



Por Germano Xavier


em Bruxelas
enquanto muitos passavam
enquanto muitos passeavam
e viam e riam e bebiam e viviam
eu morri no olhar de uma pedinte

na Grand-Place
em plena abertura solar do meio-dia
eu morri dentro dos olhos de uma mulher
que não me conhecia | mas que me conhecia

| bem mais do que me conheço |

em uma de suas mãos uma pequenina lata
em seu corpo um colorido tecido-cobertor
em sua voz um descuido milenar da humanidade
em seu chegar uma dor comum sentida

em Brussels
quase às vistas do Manneken Pis
bem no meio da praça mais bonita do mundo
no centro dos olhos daquela mulher
eu morri uma de minhas tantas mortes | guturais

e espantosamente silenciosas


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Bruxelas-213335121

sábado, 16 de setembro de 2017

O sol estrangeiro



Por Germano Xavier


antes de pensar o golpe
dar ao pensamento a lâmina
cega e áspera e torta
para que se afunde no corpo
e ria sons de sangue além

de toda a dimensão em despedida
encapo a voz inteirausente e viva
sem aquele século de dor antiga

em torno ainda na obra o fenômeno
a autoria do levante e da errância
na palavra que soca a morte a morte a morte

contra qual vivo presente
se erguerá a causa-arte?

nas ideias que me saltam
ou na cova rasa já pretensa
encaminho minha terra mais plural
em ensaios falsos do que sou


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Double-Impossibilitye-583281232

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada


Regard


Je ne sais pas, au juste

En quoi je convertis

Ces regards imaginatifs

Que je pose sur toi.


Toute la poésie que l’on possède est incroyable

Insuffisante pour décrire ces regards qui ne se sont jamais croisés,

Sauf dans les rêves.


Je pense notamment au regard de Janus vers la baleine,

A la baleine qui regardait Janus,

Comme dans un film de Béla Tarr.


Voilà tout dont je suis capable

Et, comme toujours

Ma mémoire me poignarde.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sadness-of-the-rail-677195295

sábado, 2 de setembro de 2017

Língua e gêneros textuais: conceitos fundamentais


Por Germano Xavier


De acordo com o filósofo e pensador russo Bakhtin (1981), a língua é um objeto de estudo concreto, resultante de uma interação social entre pessoas que se encontram em uma situação de comunicação. Segundo o autor:

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN,1981,p.123)

Sendo assim, a reflexão desse autor acerca do objeto de estudo língua nos direciona a perceber que a língua não é algo sem forma, pelo contrário, ela deve ser vista como algo palpável que se consagra na palavra pronunciada por alguém (locutor) em direção à outra pessoa, neste caso, o ouvinte. Toda essa relação estabelecida entre o falante e o ouvinte resulta consequentemente numa situação de interação entre as partes envolvidas no processo de comunicação, levando sempre em conta o contexto social, histórico e cultural em que os membros estão envolvidos.

Ao lançarmos um olhar para as práticas escolares de acordo com a visão sociointeracionista da linguagem, elegemos o ensino da língua indiferente ao tradicional, que se restringia a estudá-la como representação do pensamento. A respeito dessa visão, Bakhtin (2002) explica que, para seus adeptos, a expressão linguística é formada de alguma maneira no psiquismo humano e é exteriorizada objetivamente com a ajuda de um código de signos exteriores, como se fosse uma tradução: “O exterior constitui apenas a material passivo do que está no interior” (p. 112). Portanto, as pessoas que não conseguiam se expressar eram rotuladas como seres não-pensantes.

Uma outra concepção de língua é a do estruturalista Ferdinand de Saussure (1977), para o qual a linguística deveria se ocupar dos elementos que são “internos” à língua e deixar de lado tudo o que lhe fosse “externo”. “Nossa definição da língua supõe que eliminemos dela tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema, numa palavra: tudo quanto se designa pelo termo ‘Linguística externa’” (p. 29). Dessa maneira, a língua era vista como um sistema independente de fatores exteriores, sendo que eles não influenciam em nada o seu sistema interno, aonde os signos linguísticos mantinham uma relação de ser o que o outro não era e assim o que se levava em conta era apenas o que estava presente na estrutura, língua enquanto estrutura.

Em meados do ano de 1960 surge um outro ponto de vista acerca do objeto de investigação Língua: o paradigma funcionalista, cujo maior defensor foi o respeitável teórico Roman Jakobson (1982), para o qual a língua é compreendida como um código, utilizado para transmitir uma mensagem de um emissor para um receptor. Esse código, por sua vez, deve ser usado de maneira semelhante, preestabelecida e convencionada por todos os falantes envolvidos na comunicação para que esta realmente se efetive com sucesso. Com o avanço em seus estudos este teórico acrescentou mais dois elementos ao processo comunicativo, neste caso, o contexto (ou referente) e o contato (ou canal). Assim, a comunicação aconteceria através do seguinte esquema tático: a existência de um emissor trazendo em mente uma mensagem com o intuito de transmiti-la a um possível receptor, como forma de concretizar seu desejo ele a transforma em código e a remete para o receptor utilizando um canal (meio físico dotado de ondas sonoras), e por meio do código cabe ao outro interpretar a mensagem recebida.

Inspirando-se no modelo tradicional sobre a linguagem de Karl Buhler (1990), onde a comunicação servia apenas a três funções: a expressiva, a informativa e a estética, Roman Jakobson (1982) faz algumas alterações referentes à mudança na nomenclatura das três funções já pré-existentes, as quais passariam a ser chamadas de referencial, emotiva e conativa. Ele também acrescentou outras três funções, neste caso, a fática, a metalinguística e a poética.

Os textos com função referencial (também conhecida como informativa, representativa, denotativa ou cognitiva) são aqueles que colocam em evidência o referente (ou contexto) e transmite uma informação objetiva sobre a realidade. Já a função emotiva ou expressiva refere-se à manifestação do ponto de vista do remetente, seus sentimentos, suas emoções a respeito dos fatos expostos no texto. Segundo Barros (2004), são vários os indicadores usados para chegar a essa função, dentre eles estão: o uso de interjeições, exclamações, reticências etc, uso de verbos na 1ª pessoa, com o objetivo de enfatizar uma subjetividade e consequentemente criar uma relação de proximidade entre os sujeitos envolvidos na comunicação.

De acordo com Jakobson (1982, p.125), a função conativa ou apelativa “encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo”. Essa é uma linguagem bastante utilizada nos discursos, sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor procurando persuadi-lo e, por isso, ocorre a interação entre remetente e destinatário.

A função fática tem como palavra chave o canal ou contato. Segundo Jakobson (1982), essa função tem por finalidade estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação com a intenção de verificar se o canal está funcionando corretamente. De acordo com Barros (2004), existem algumas expressões linguísticas que fazemos o uso para que possamos chegar aos objetivos citados acima, os quais são: unh e hã (elementos prosódicos de pontuação da fala usados para manter o contato entre os participantes da comunicação), olá! tudo bem? como vai? tchau, até logo, bom dia (fórmulas prontas usadas para começar ou encerrar a comunicação) e você está escutando? (para garantir que haja realmente o contato).

A função metalinguística, por sua vez, tem como foco o código. As pessoas envolvidas em uma situação de comunicação desejam saber se estão utilizando o mesmo código. Para exemplificar esse determinado tipo de função, Jakobson (1982, p.27) afirma que “ela ocorre quando o receptor pergunta ao emissor “não o estou compreendendo – que quer dizer?”. ou quando, ao contrário, aquele que fala, antecipando perguntas como essa, pergunta a quem ouve “entende o que eu quero dizer ?”. Para finalizar, temos a função poética, que coloca em evidência a forma da mensagem, sendo assim, há cuidado mais com o que dizer do que como dizer. De acordo com o linguista Roman Jakobson (1982, p.128):

Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão somente a função dominante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais, ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.

Portanto, é importante destacar que embora a função poética seja própria da obra literária, não é pertinente e nem aceitável postulá-la como algo exclusivo da poesia ou tão pouco da literatura em geral, já que podemos encontrá-la também em outras atividades verbais.

Através de suas obras intituladas Marxismo e filosofia da linguagem (2002) e Estética da criação verbal (1997), Bakhtin edifica sua teoria de língua como interação, posicionando-se teoricamente avesso as ideias concebidas pelas correntes anteriormente citadas, localizando e também raciocinando a respeito das lacunas encontradas naquelas teorias. Sendo assim, ele buscou mostrar que o conceito de língua adotado pelo mesmo era indubitavelmente o mais apropriado para tratar dos fenômenos linguísticos.

Dessa forma, o ensino da língua deve ser entendido e ensinado como uma forma de interação, o professor tem o dever de elaborar estratégias que contemplem os mais variados textos-contextos em que se faz necessário o uso da linguagem, com o intuito de que seu aluno desenvolva a capacidade de adequá-la a heterogeneidade de situações presentes no seu cotidiano, sejam elas de caráter formais e informais, orais e escritas. Em relação ao trabalho do sociointeracionismo para com a linguagem, Costa-Hübes (2008) explica:

Na realidade, o que estas correntes têm em comum é o fator histórico e o fato de terem se estabelecido como disciplinas dentro de uma ciência específica, a Linguística, e de se sustentarem na filosofia da linguagem, elevando a interação à condição de princípio explicativo dos fatos da língua. Amparadas neste pressuposto, não mais trataram do estudo de palavras ou de frases isoladas, mas relacionadas ao texto,ao contexto sócio-histórico, ao(s) usuário(s) que as produziu/produziram, aos gêneros discursivos/textuais. Estamos nos referindo a uma nova concepção de linguagem: a concepção interacionista ou sociointeracionista que passa a tratar a língua como elemento histórico.(COSTA-HÜBES, 2008, p. 109-110 – grifos da autora.)

A concepção interacionista ou sociointeracionista ocupa o lugar de notável relevância para a maior parte dos teóricos que se dedicam a estudar os fenômenos da língua, no que diz respeito ao ensino, partindo do pressuposto de que o ensino da língua deve ter como principal objetivo formar cidadãos aptos a agir nas mais variados situações de atos de comunicação. Segundo Bronckart (1999, p.103), “a apropriação do gênero é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Para a construção desta pesquisa, buscamos ter como base uma perspectiva de ensino engajada na noção de gêneros textuais, sendo assim, pretendemos através dela defender que é fundamental apresentar aos alunos situações que carreguem em si traços semelhantes àqueles que vivenciamos fora do âmbito escolar, reais, variadas, que tenham sentido para eles e que ocorrem em diferentes esferas de interação social.

Com o intuito de compreendermos de que maneira isso ocorre, recorremos às ideias de Miller (1984, apud BAZERMAN, 2006) que concebe o gênero textual como uma ação retórica tipificada, que funciona como uma resposta a situações recorrentes e socialmente estabelecidas. Essa teoria explica que, quando precisamos agir discursivamente em uma nova situação, tomamos como base situações semelhantes, nas quais buscamos alguma forma textual que nos permita atingir os objetivos pretendidos. Ao fazermos isso, acabamos criando um modelo textual que passa a fazer parte de nosso conhecimento e que será aplicado a outras situações semelhantes que possam surgir.

Sendo assim, os indivíduos que utilizam a língua notam que uma determinada forma de emitirem enunciados se faz eficaz em certas circunstâncias, e assim, quando presenciam circunstâncias que tragam algo em comum com as já vivenciadas anteriormente, sofrem uma grande influência de usar um tipo de enunciado semelhante. Através do tempo e das repetições, originam-se padrões e expectativas que englobam os envolvidos e os auxiliam na interpretação de circunstâncias e também na produção de enunciados. Como defende Bazerman (2006, p.23), os “gêneros são os lugares familiares para onde nos dirigimos para criar ações comunicativas inteligíveis uns com os outros.

Schneuwly (2004), relembrando as ideias de Bakhtin (1997), explica que, no momento da produção textual, o sujeito locutor/produtor escolhe um gênero em função de uma situação definida por uma série de parâmetros: finalidade (a vontade enunciativa ou o intuito discursivo do locutor), destinatários (o conjunto constituído dos parceiros), conteúdo (as necessidades da temática do objeto de sentido). Sendo assim, o gênero textual constrói uma base que serve como uma espécie de guia para uma ação discursiva. Bakthin (2007) fala que para ter sua estabilidade os gêneros textuais buscam subsídio a três elementos que os caracterizam, os quais são: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo.

Referente ao conteúdo temático, Schneuwly (2004) explica que o gênero define os conteúdos e os conhecimentos dizíveis por meio dele (por exemplo, é comum o gênero crônica tratar de assuntos do dia-a-dia, envolventes e de interesse de muitas pessoas; esse é o tipo de conteúdo específico para esse gênero); concomitantemente, o que precisa ser falado define a escolha de um gênero (se eu necessito escrever minha opinião a respeito de alguma matéria jornalística, eu consequentemente vou optar por escrever um artigo de opinião.

Em relação à construção composicional, refere-se a um tipo de estruturação e acabamento do todo. Ela é composta por certas organizações textuais partilhadas por manifestações de natureza linguísticas reconhecidas como integrantes de um gênero. Finalmente, o estilo que segundo Bakthin (1997, p.279) diz respeito à “seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais”. É importante enfatizar o fato de que o estilo não carece ser acatado como um efeito de individualidade de um falante/escritor, na verdade ele precisa ser considerado como um elemento próprio do gênero.

A junção dos três elementos citados acima constituem o gênero. Sendo assim, eles foram explanados separadamente apenas por uma questão de didática, pois todos os gêneros possuem esses três elementos não existindo possibilidade de enunciado com apenas um ou dois deles. Em concordância com isso, Bakhtin (1997, p.279) afirma que o conteúdo, a construção composicional e o estilo “fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado”.

Em relação à produção textual, Dolz e Schneuwly (2004) afirmam que o gênero se impõe como uma forma evidente que o enunciado a ser produzido deve tomar. Os gêneros textuais são entidades de grande poder e de acordo com Bronckart (1999), condicionam-nos a escolhas (do ponto de vista do léxico, do grau de formalidade ou da natureza dos temas) que não são aleatórias. Logo, os gêneros acabam por limitar nossa escrita. Bazerman (2005) complementa versando que o formato padrão do gênero nos dá um rumo em dois sentidos, sendo um em relação a qual informação apresentar e o outro de como apresentá-la.

Da mesma maneira, Antunes (2002) explana que na leitura os gêneros possibilitam a projeção e também o enquadramento das interpretações que o sujeito ouvinte/leitor do texto realiza, ao mesmo tempo em que atuam como uma orientação capaz de fazê-lo enxergar o suficiente para se construir uma compreensão global do texto. No âmbito desse assunto, Bakhtin (1997) assegura que todos nós exercemos domínio sobre um rico repertório de gêneros do discurso (orais e escritos) e consequentemente nos sentimos a vontade para utilizarmos com segurança e desenvoltura.

Ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas diferenciações (p. 302).

Ou ainda:

É de acordo com nosso domínio dos gêneros que usamos com desembaraço (...) que realizamos, com o máximo de perfeição, o intuito discursivo que livremente concebemos (p. 304).

Entendemos que nosso conhecimento construído a respeito do gênero nos dá sustentação para que possamos distinguir no primórdio de um ato de comunicação de caráter (oral ou escrita), o gênero a ser usado, seu tema, sua estrutura composicional e, conforme notamos isso a troca verbal ganhará forma, ou seja, se concretizará. Os usuários da língua possuem um saber intuitivo acerca de que as formas textuais necessitam encaixar-se à situação de interação. Antunes (2002) afirma que as pessoas possuem um saber intuitivo a respeito dos gêneros e que a capacidade de identificação e uso dos gêneros é parte do conhecimento de mundo. Nesse sentido, o domínio dos gêneros possui uma dimensão cognitiva. Bazerman (1994, p.134) salienta que o fato de as pessoas dominarem os gêneros é uma condição fundamental para a própria existência do gênero, ou seja, “uma forma textual que não é reconhecida como sendo de um tipo, tendo determinada força, não teria status nem valor social como gênero. Um gênero existe apenas à medida que seus usuários o reconhecem e o distinguem”.

De acordo com Bakhtin (1997), a respeito da padronização dos gêneros textuais existe uma distinção entre os gêneros primários e os gêneros secundários. É importante enfatizar que, segundo Rodrigues (2005), o critério usado por Bakhtin para diferenciá-los não é funcional, e sim histórico, baseado na concepção socioideológica da linguagem, mais especificamente na diferenciação entre ideologias do cotidiano e as ideologias estabilizadas e formalizadas.

Nos gêneros secundários encontramos uma complexidade. Derivados de uma situação discursiva mais complexa, organizada e relativamente mais evoluída, em um ambiente de crenças mais formais e especializadas, tidas como mediadoras diante das interações sociais nas esferas artística, científica, religiosa, jornalística, escolar etc. Contrariamente, os gêneros primários são mais simples, ao ponto que os mesmos são constituídos em condições de comunicação verbal imediata e espontânea, no âmbito da ideologia do dia-a-dia (ideologias que fogem da formalidade e sistematicidade).

A respeito do empenho de alguns estudiosos em identificar e classificar os gêneros, concordamos com Bazerman (1984, apud MARCUSCHI, 2008) quando ele enfatiza que não é possível estabelecer taxonomias ou até mesmo classificações duradouras. Nossas identificações de formas genéricas terão sempre curta duração, pois os “gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros a cada momento do tempo.” (p. 16). Marcuschi (2008) apoia essa ideia e afirma que os gêneros não são classificáveis como formas puras nem podem ser catalogados de maneira rígida.

Relativo ao aspecto citado acima, o teórico Bronckart (1999) alega que os gêneros textuais são entidades que em sua profundidade encontram-se vagas. Fala ainda que as classificações existentes são divergentes e parciais, e que nenhuma delas pode ser considerada um modelo de referência estabilizado e dotado de coerência. Ele atribui essa dificuldade de classificação a pelo menos dois motivos. O primeiro motivo é em relação à variedade de critérios para definir um gênero. Segundo Bronckart (1999, p. 73),

Critérios referentes ao tipo de atividade humana implicada (gênero literário, científico, jornalístico etc.); critérios centrados no efeito comunicativo visado (gênero épico, poético, lírico, mimético etc.); critérios referentes ao tamanho e/ou natureza do suporte utilizado (romance, novela, artigo de jornal, reportagem etc.); critérios referentes ao conteúdo temático abordado (ficção científica, romance policial, receita de cozinha etc.).

Marcuschi (2008, p. 164) do mesmo modo em seus estudos indica os critérios que, segundo ele, usamos para dar nomes aos gêneros textuais e enfatiza a possibilidade de muitos deles atuarem em conjunto.

1. forma estrutural (gráfico; rodapé; debate; poema);
2. propósito comunicativo (errata; endereço);
3. conteúdo (nota de compra; resumo de novela);
4. meio de transmissão (telefonema; telegrama; e-mail);
5. papéis dos interlocutores (exame oral; autorização);
6. contexto situacional (conversação espontânea; carta pessoal).

Bronckart (1999) relata que o critério mais objetivo que poderia ser utilizado para identificar e classificar os gêneros seria tomar como base as unidades e as regras linguísticas específicas que eles mobilizam. No entanto, ele adianta que a aplicação desse critério não é plausível, visto que um gênero pode ser composto por vários segmentos distintos.

Reavendo a discussão a respeito da dificuldade de classificação do gênero devido à diversidade de critérios utilizados, apontada por Bronckart (1999), podemos concluir que, dentre os vários aspectos que envolvem os gêneros e que podem ser usados para defini-lo, há um consenso entre vários autores de que a funcionalidade é o elemento primordial nesse processo.

Essa dificuldade de classificação, segundo Bronckart (1999), decorre ainda de um segundo motivo: o caráter fundamentalmente histórico e adaptativo dos gêneros. Devido a eles se multiplicam e se modificam à medida que a esfera de circulação onde eles atuam se desenvolve e se complexifica. Marcuschi (2008) explica que o gênero é flexível e variável, da mesma forma que seu principal componente – a língua. Isso porque, através da variação da língua, os gêneros também mudam. Portanto, eles desenvolvem-se de maneira dinâmica: eles variam, fundem-se, misturam-se, adaptam-se, modificam-se e renovam-se para manter sua identidade funcional com inovação organizacional. Cada novo gênero aumenta e influencia os gêneros da esfera social onde atua, multiplicando-se. Alguns gêneros tendem a desaparecer devido à ausência das condições sociocomunicativas que os geraram, assim como gêneros já desaparecidos podem reaparecer sob formas parcialmente diferentes.

Concomitantemente, como aponta Bronckart (1999), a emergência de novos gêneros pode estar relacionada ao surgimento de novas motivações sociais, ao aparecimento de novas circunstâncias comunicativas ou ao aparecimento de novos suportes de comunicação. Porém, Marcuschi (2008) salienta que nem sempre temos um gênero essencialmente novo. Devido ao fato de que gêneros novos também surgem a partir de outros, de acordo com as novas necessidades, atividades ou tecnologias que vão emergindo. Os gêneros se imbricam e se interpenetram para construírem novos gêneros e, assim, solidificam-se novas formas com novas funções.

Para concluir a reflexão sobre os gêneros textuais, é importante ainda citarmos sobre sua relação com a realidade social. Marcuschi (2008) salienta que não podemos manuseá-los independentemente de sua ligação com as atividades humanas em todas as esferas. Eles são parte integrante da estrutura comunicativa de toda sociedade, na medida em que ajudam a estruturar as ações de uma comunidade e a intermediar as práticas sociais. Permitem, assim, lidar de maneira mais estável com as relações humanas em que a linguagem é utilizada. É justamente nesse sentido que Miller (1994, apud CARVALHO, 2005) aponta os gêneros como categorias operativas e instrumentos globais de ação social. Ainda segundo essa estudiosa, o gênero é um mecanismo de estruturação e interação que regula as ações comunicativas individuais e o sistema social, sendo o elo e o mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.

Portanto, o estudo dos gêneros textuais consente enfatizar a língua em funcionamento nas mais variadas atividades de cunhos sociais e culturais. Para concluir este tópico, vamos adotar as palavras de Marcuschi (2008) e fazer um breve apanhado das principais características definidoras dos gêneros.

Resumidamente, poderia dizer que os gêneros são entidades: a) dinâmicas; b) históricas; c) sociais; d) situadas; e) comunicativas; f) orientadas para fins específicos; g) ligadas a determinadas comunidades discursivas; h) ligadas a domínios discursivos; i) recorrentes; j) estabilizadas em formatos mais ou menos claros. (p. 159).


REFERÊNCIAS

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COSTA-HÜBES, T. C. O processo de formação continuada dos professores do Oeste do Paraná: um resgate histórico-reflexivo da formação em língua portuguesa. Londrina, PR: UEL,2008 (Tese de doutoramento.
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SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1977.
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 21. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
BARROS, D. P. de. A comunicação humana. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 25-53.
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BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
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SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 21-40.
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DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Os gêneros escolares – das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 71-94.
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ANTUNES, I. C. Língua, gêneros textuais e ensino: considerações teóricas e implicações pedagógicas. Perspectiva. Florianópolis, v.20, n.01, p. 65-76, jan./jun. 2002 a.
CARVALHO, G. de. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma sugestão e um exemplo. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p. 130-149.
RODRIGUES, R. R. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: A abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005, p. 152-183.
______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.) Gêneros textuais – reflexões e ensino. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 15-2.


* Imagem: http://portalinho.com/1028/7-editores-de-texto-online-focados-para-aquilo-que-proventura-mais-gosta-de-fazer-escrever/

domingo, 27 de agosto de 2017

O barro em cor de Ma Ferreira


Por Germano Xavier


A pernambucana Ma Ferreira é graduada em Pedagogia, artista visual e como ceramista desenvolve com vigorosa individualidade sua arte, trabalhando com o material mais antigo conhecido pelo homem, a argila. Seu trabalho destaca-se pela dinâmica das cores que compõem suas obras de maneira harmoniosa e contagiante, rebuscando a magia e o encanto de nossas memórias materializadas pela nobreza da cerâmica. Participou de diversas exposições dentro e fora do território nacional. As imagens de suas obras já serviram para ilustrar capas de livros e inspiraram poemas já publicados em livros. No momento, tem feito uma série de exposições no espaço de algumas lojas Livraria Cultura na cidade de São Paulo. Ma Ferreira papeou um tantinho comigo.


Germano Xavier - Ma Ferreira é sinônimo de arte em cerâmica. Conte-nos, Ma, quando e como tudo isso começou...

Ma Ferreira - Começou por acaso. A única pretensão na época era ocupar o meu tempo. Depois de 17 anos trabalhando na área comercial da Ford, já casada, tinha resolvido parar de trabalhar para me dedicar a educação de minha filha. O tempo foi passando e com ele chegou a depressão. Fui fazer terapia. Nunca tinha me interessado por arte. Não conscientemente. E confesso que nem pensei em cerâmica naquele momento como arte. Queria apenas ocupar o meu tempo e sair daquele inicio de depressão. Uma amiguinha da minha filha fazia cerâmica. Minha filha me contou e fiquei encantada quando vi aquela tigelinha de barro. Foi ai que resolvi fazer uma aula de cerâmica. Coloquei muita energia naquela aula. Sai de lá muito cansada e com meio vasinho quase pronto. Poderia ter desistido ali. Mas resolvi me dar uma chance: paguei um mês de aula antecipado. No final daquele mês, eu já tinha feito uma bandeja, com desenhos de borboletas, inspirada num hai-kai. Quando fui buscar a minha bandeja-borboleta na Olaria, encontrei uma pessoa que vendo a minha bandeja teve a generosidade de elogiar. Exagerou nos elogios, nas cores que usei. Disse que eu era uma artista. Pela inspiração no hai-kai, pelas cores etc. Sai de la toda feliz e disse: posso não ser uma artista. Mas serei. Foi ai que tudo começou...

Germano Xavier – Você enxerga a existência de uma relação, ou até mesmo uma interação, da poesia ou da literatura com a sua arte, Ma?

Ma Ferreira - Claro que sim. Sou uma contadora de histórias. Eu sempre gostei de poesia. Houve uma época que eu colocava na internet a palavra hai-kai só para ficar lendo. Viajava em cada hai-kai. Meu primeiro desenho em cerâmica foi baseado em um hai-kai. Desenhei borboletas coloridas em cerâmica. Já fiz uma exposição em homenagem a Vinícius de Moraes e um amigo escritor, o Marcos Pizano, escreveu os versos. Minha cerâmica já inspirou poemas. O contrario também aconteceu. Digo sempre que sou uma contadora de histórias. Cada cerâmica, um verso. Uma poesia. A boa palavra tem o poder de encantar. O Barro e as cores, também.

Germano Xavier – Fale-nos um pouco sobre o seu processo de criação, Ma.

Ma Ferreira - Eu sou muito intuitiva. Não faço ficha técnica de minhas obras. Eu crio a peça... um prato, por exemplo. Na hora da pintura eu olho para o prato, como se eu conversasse com ele. Aí, sim, vou pensar qual arte colocar... quais cores colocar. Meus trabalhos não tem perfeição técnica. Conheço vários ceramistas muito mais técnicos do que eu. Mas eu coloco sentimento. Cada obra, uma história. Não importa se pequena ou grande. Crio em cima da imperfeição. Para mim, nada é errado. Nada sai errado. Sai como deveria ser. Decido o que vou fazer na hora. Como um verso de um poema, uma construção. Adoro cores.

Germano Xavier – Quais são os planos para o futuro?

Ma Ferreira – Penso em criar a marca "maferreiracerâmica". Penso em diversificar um pouco mais a minha arte. Até o momento, tenho me dedicado à criação de objetos cerâmicos com função mais decorativa. Em um curto espaço de tempo, penso em desenvolver uma linha de objetos utilitários em que eu possa juntar essas duas funções: a decorativa e a de utilidade prática, tornando-os mais versáteis. Isso sem perder a minha identidade e característica maior que é a exploração máxima do uso das cores em meus trabalhos. Então, por que não começar criando a marca "Ma Ferreira"?






Imagens: Arquivo Ma Ferreira

sábado, 26 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIII)

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 1 de janeiro de 2017
A terceira perna

La troisième jambe

"Cette troisième jambe, je l’ai perdue. 
Et je suis redevenue quelqu’un que je n’ai jamais été."
(Clarice Lispector, in A Paixão segundo GH)

La jambe
Que j’ai perdue,
Lorsque j’ai conquis la douleur,
M’a ramené vite à l’étouffement
Habituel, causé par le néant ou la frayeur.

Découragé,
J’ai du me soulever sans m’apercevoir
De l’organisation de tout l’effort
Car la liberté était juste effrayante

J’ai marché d’un pas ferme ; puis, devenu stable
Le seul choix était de partir, tout simplement, absent,
Silencieux, je suis retourné là ou je me suis égaré.

Des chiens aboyaient dans la rue vide – nous serions alors
Des étrangers, qui vivaient de la chair, du mucus, de la sève.
Le corps n’étant plus qu’une idée.

J’ai pris la route, à coups de rames
J’ai vécu, tel un pâtre, guidant des inutiles moutons mensongers
Certaines issues apparurent alors, dont j’ignorais l’existence.

Prisonnier de ma jambe égarée
Apeuré, avant tout, d’une peur plus grande encore
Cette jambe qui restait là au fil du temps
Brutalement brouillée
La jambe-sans-destin.

Cette jambe, construite, on m’en a fait cadeau
Après son départ, la douleur s’accrochait
Au temps, identique au fruit du hasard.

Cette jambe,
On me l’a offerte
Et ce fût une illusion, ma seule certitude.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Leg-700995767

Literatura, este carnaval em mim



Por Germano Xavier


Literatura serve para alguma coisa? O quê? Mas, o que é útil e o que é inútil? Do que se precisa para viver? Eu, para me sentir plenamente vivo, preciso de tão poucas coisas! Uma delas, óbvio, é a literatura. O livro em si. O conhecimento. Quantas pessoas são também assim, como eu, nesse emaranhado de bilhões de seres humanos? E que figura é essa, a do escritor, que tão bem alarga as fronteiras dos mundos visíveis? E que figura é esta, a do leitor, que como ninguém sabe reconhecer símbolos e sinais que dão para as profundezas do desconhecido? Quando o autor está menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor? São tantas as perguntas? São tantas as respostas!

Até hoje, no alto de meus poucos (ainda) 33 anos de idade, pergunto-me: Literatura, para quê? Eu, um ocidental latino-americano, ensinado pelo “torto” pensamento “quase” geral do mundo que pertenço ao “centro” de todas as coisas e formado ainda em uma época da história das gentes inteiras que difundia a ideia de que nosso “lado do globo” é o único local das riquezas menos efêmeras e das liberdades mais densas, questiono-me incessantemente acerca da real motivação para com essa paixão tão intensa que entrego a esse território tão misterioso chamado literatura, onde os acontecimentos parecem viver à mercê de uma falseada compreensão da realidade e, por consequência, da vida.

Tão carnavalesca é a literatura, espirituosa, cheia de palavras representadas, bivocais, onde se misturam dialetos, jargões, estilos, versos e motes, ditos e não-ditos, inteira toda poli. Ah, Bahktin!, você estava mesmo muito certo! Literatura é transposição e seus efeitos têm como características básicas o questionamento das verdades “absolutas”, o debate sobre problemáticas relacionadas à morte e aos sentidos da vida, sobre as configurações do fantástico, sobre a escolha e a predileção pelas infrações às normas vigentes de conduta, sobre o enfrentamento.

Literatura, que é também a linguagem em ação, que não respeita limites, que pode ser ora obscena ora excêntrica e que, principalmente, permite que o reprimido se apresente perante o mundo que cala sua voz e que enfraquece o seu corpo, tornando central aquilo que é marginal. A literatura tem a propriedade das impropriedades, por isso é dialógica, por isso se refere, enuncia, comunica, mesmo quando o seu objetivo maior esteja convertido em leis e valores de mercado.

Se alguém me pergunta, hoje, o que sou, respondo: sou um leitor. Leitores são essas pessoas que veem as mensagens dos meios com graus diferentes de concentração, interpretam-nas ativamente e dão-lhes sentido subjetivo, relacionando-as a outros aspectos de suas vidas, como diria Thompson. Destarte, do mesmo modo como ocorre ao personagem, o leitor vivencia uma viagem reflexiva, pelo interior de um livro que, ao crepitar das páginas transpostas, operará nele uma transformação interna de proporções incomensuráveis. Talvez seja esse o valor inegável da literatura: a tentativa de compreender o outro para efeito de nossa evolução pessoal e para, logo depois, atingir uma esfera coletiva.

Para Cortázar, um dos meus grandes mestres literários, um texto de qualidade não se esconde sobre o seu tema, mas naquilo que se encontra antes e depois dele. Antes do texto, do tema, está o escritor e toda a sua bagagem humana e sanha literária. De acordo com o búlgaro Tzvetan Todorov, nenhuma narrativa se limita a uma sucessão de fatos, já que não é toda hora que uma dada sequência cronológica produzirá verdade. Essa viagem que o leitor faz, de natureza espelhada, é fundamental dentro da literatura e é justamente ela que faz do livro essa força social tão indissolúvel.

A literatura me subsidiou com uma nova perspectiva do mundo, um mundo diferente do mundo real, ofereceu-me uma nova maneira de olhar para o conhecimento e para a cultura. A literatura, desintegrando-me, unificou-me. Transformando-me, preparou-me para os desafios da realidade. Hoje, da mesma forma que Todorov, que defendia que outros sistemas simbólicos, que não o texto literário, podem abarcar os traços narrativos típicos da literatura, consigo ver muitas coisas através das lentes das grandes narrativas e poemas.

Sou leitor, mas também sou escritor. Conduzo tudo aquilo que é visível e, também, tudo aquilo que é secreto. Velo e desvelo. Para isso a literatura me serve, para dar voz aos meus mais altos silêncios, para me refletir um pouco nos outros em uma relação interpessoal transcendente e libertária. Sou aquele que sugere mais do que diz, ou aquele que diz o indizível, o grande capitão da nau desgovernada de mim mesmo e, portanto, sem freio e sem medo. Sou, antes e depois, aquele que conduz uma tripulação, mesmo que ainda mínima, a adentrar um mundo de seres atropelados por uma sociedade que extermina tudo que é essência. Por isso, leio e escrevo. Por isso, levanto e discuto. A literatura me tornou subjetivo, ambíguo e imensurável. A literatura me fez lembrar que possuo boca, pernas e mãos. Meus passos, hoje, dão voltas e mais voltas sobre a Terra. E tamanho poder é por conta dela, a literatura.


Imagem: https://www.deviantart.com/art/Untitled-701003332