domingo, 7 de maio de 2017

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIV)

*


Viana, amigo querido,

Há tempos atrás comecei a sentir-me culpada pelo atraso na resposta à tua carta, como todas, sempre tão cheia de vida e de boas vibrações.

Durante algum tempo essa culpa seguiu-me, perseguiu-me, até me atar mãos e braços e me impedir de te escrever com liberdade e total “falta de vergonha”, no melhor dos seus sentidos. Tenho ou tive por momentos alguma vergonha, e aqui na sua aceção mais penalizante, por não ter conseguido manter o ritmo que se impõe a uma conversa entre amigos.

Resumindo, quando passou a culpa veio a vergonha e quando me livrei de ambas resolvi enfim ir ter contigo, por este mar feito de palavras que é a única estrada que temos. Aqui me tens, com todas as minhas ausências, disposta a ouvir os ralhetes e desaforos que possa ter merecido – embora saiba que não terei que passar por essa amarga experiência, porque tu és das pessoas mais tolerantes e cordatas que eu conheço.

Então, Viana, não te posso contar tudo o que vivi neste lapso de vários meses, mais precisamente desde agosto passado. É muita coisa em atos, em vivências, em fracassos, tentativas ou sucessos, mas por outro lado sinto que se diz em pouquíssimas palavras ou num simples bocejo. Continuo a insistir para que venhas cá, e então estas cartas vão-se transformar num diálogo mais difícil porque mais próximo e é sempre mais difícil falar com alguém de frente, sem poder emendar o que se disse ou escreveu, pois não se podem rasurar sorrisos, palavras gaguejadas, mal-entendidos, gaffes ou um arroz queimado por esquecimento. Estas experiências presenciais partilhadas implicariam que nos desnudássemos um pouco mais e nos permitíssemos viver com palavras reais, com sons e tonalidades, que se dizem antes de serem escritas. E talvez jamais o sejam.

Mas sei que pelos pequenos fragmentos de episódios que te vou contar és capaz de me reconstruir à distância com tanto rigor e realismo que chega a parecer que sou obra tua. Deixa-me dizer-te, para me perceberes neste exato momento, que hoje está um dia maravilhoso, e olha que os domingos costumam ser egoístas e não dar a conhecer a alegria que trazem dentro. Pelo menos por aqui, para mim.

Pois hoje o domingo levou-me até uma ampla praça no coração da baixa lisboeta, o Martim Moniz, onde há sempre animação de rua assim que começa a aparecer o sol, desde que o local foi reabilitado. Para teres uma ideia, é aquele tipo de espaço cheio de barraquinhas e roulottes, neste caso roulottes de comida temática e algumas tendas de artesanato, frutos secos, roupa alternativa, no sentido de que não representa a moda atual nem de nenhuma época, talvez mesmo de nenhuma geografia, mas apenas o gosto que quem expõe e a curiosidade de quem vê, apalpa…e às vezes compra. Voltando às roulottes, que lá em Luanda se chamam ou chamavam lanchonetes, aquela que a minha amiga gere com o marido tem umas sanduíches de picanha de se lhe tirar o chapéu, cogumelos com molhos inconfessáveis e uma sangria de beber e chorar por mais. Eles vão percorrendo o país inteiro entre festivais e festividades locais, todos os lugares onde aquele conceito possa ser apreciado, comida de rua, para se saborear sem pretensões, com requinte mas ao mesmo tempo uma rusticidade que aguça o paladar e puxa por uma boa conversa. Mas digo-te eu que o que os distingue de outros expositores não é só a qualidade e a originalidade do que vendem, mas o sorriso permanente e genuíno, a simpatia e a descontração. Para quem compra e também para quem apenas olha e ali se enraíza por infindáveis minutos sentindo o cheiro dos grelhados e dos temperos.

Entretanto há uma coisa fabulosa que te deve acontecer também, (diz-me que sim para não me sentir tão solitária) … há um instante preciso em que estás a viver uma experiência agradável e de repente sentes necessidade de escrever e de registar as tuas impressões. Podes fazê-lo num telemóvel, num tablet ou mesmo num caderninho vermelho como aquele que eu perdi há semanas (e ainda não me recompus); mas se a torrente de ideias e palavras for longa precisas de um computador e vens a correr para um sítio onde possas ter acesso a esses meios, que te permitem contar e efabular. Para nós, que escrevemos, isso também é viver, viver duas vezes e em discurso indireto. E depois essas histórias já são outras, porque tu não vives só aquilo que te aconteceu e testemunhaste mas também aquilo que te ficou subliminarmente agarrado aos sentidos, fica uma quase memória paranoide em que viste e ouviste milhares de outros pequenos enredos para além daqueles que efetivamente te foram oferecidos pelos dias. Sossega, não é esquizofrenia criativa, apenas um desabafo que ouvirás com indulgência, tenho quase a certeza. A propósito de caderninho vermelho, é sério, Viana, tinha um de formato A6, julgo eu, um caderninho amoroso e com uma capa estofada como um sofá onde eu de vez em quando escrevia quando não tinha computador; tinha lá poemas inacabados, retratos, ideias soltas e tópicos para desenvolver. E sobretudo muitas folhas brancas que me fascinavam pelas infinitas possibilidades que ofereciam. Retratos de pessoas que poderei nunca mais ver, talvez por isso tivessem uma importância singular. Feitos a esferográfica, que é o meu instrumento de eleição.
Se alguém se lembrasse de pedir resgate, eu saberia que pelo menos essa pessoa, por piores que fossem os seus instintos ou intenções teria percebido a importância do caderninho para mim. Mas ninguém o fez ainda, o que me leva a pensar que talvez um dia, quando o meu aspirador cá de casa se enfurecer, esse caderninho apareça envolto em pó por trás de algum móvel mais pesado ou dormindo sobre um chinelo velho. Rezemos por isso.

Viana, eu já te falei também daquele interesse que tenho em conhecer mais sobre os caminhos da fé, sobre a ritualização da igreja, o cerimonial, as orações, os cânticos… não é um tema sobre o qual fale facilmente, mas contigo falo sobre tudo, até sobre aquilo (sobretudo sobre aquilo) que não conheço bem. Eu estou a dar os primeiros passos num caminho que costuma ser trilhado por crianças – sinto muitas dúvidas e questionamentos, mas creio que só assim esta aprendizagem poderá ter um significado profundo para mim. Quando tal caminho se converter num sacramento, como espero e desejo, quero ter-te aqui também. Faz por apareceres.

Quero dizer-te também que tenho coisas em mãos que me motivam e emocionam: alguns textos em prosa para tentar descrever o que leio nos espantosos quadros da Armanda, outros em poesia que mostram o que me trouxe a fotografia dos olhos da Sant’ana, que tu conheces e conhecerás um bocadinho mais ao longo dos anos, pois o que ela tem para desvendar é muito, inesgotável.

Eu sei que a última vez que nos escrevemos por este canal estavas cheio de raiva no sangue, não uma raiva vingativa mas uma coisa justiceira e redentora. Uma indignação contra tudo aquilo que tentamos corrigir no mundo e que nos foge das mãos, contra a hipocrisia, contra a maldade, contra a manipulação, contra a indiferença. Diz-me em que temperatura anda a tua raiva, como a tens canalizado, o que fazes quando ela te queima as mãos. Eu escrevo, mas não chega.

Agora eu vou ficar à espera que tu me mandes aquele abraço que me falta, que me contes tudo o que se passa à tua volta mas sobretudo dentro de ti, nessa cabecinha fértil e atenta ao mundo.

Um beijo muito grande, agora por cá, ouço falar em “abreijos”, parece-me uma coisa simpática. 

Recebe o meu carinho da forma que te for mais conveniente.

Clara,


Lisboa, 12 de Março de 2017.



************


*



Clara, queridíssima,

Talvez eu seja daquelas espécies que não se adaptam. Em Biologia, diz-se que são as que não sobreviveram. Por não conseguirem se adaptar ao meio ambiente, hostil demais para elas, essas espécies desapareceram da face da Terra, tão-misteriosamente quanto apareceram. Talvez eu seja desses humanos sensíveis demais, como aquelas espécies, frágeis ou incapazes de enfrentarem as hostilidades e prevalecerem sobre o meio e sobre os seus iguais-adversários. Pois já se nasce lutando. Mas nem todos nascem equipados para a guerra. Fato. Algumas nascem para a paz, para a contemplação, para a poesia ou para virarem história. São esses, geralmente, que acabam sendo as vítimas, os que não ultrapassam o tempo nem escrevem a História. No final das contas, são os guerreiros e os conquistadores que contarão a história. Do minúsculo ponto de vista de suas espadas ou de suas presas, é claro. Para estes, que não se incomodam em quanto sangue tenham que derramar, em quantos golpes baixos tenham de dar ou com quantas vezes terão de vender a alma por dia, somente para "estar-ali". Para estes, o que importa é a conquista. Não importam quantos ficaram pelo caminho, quantos viraram mártires, fósseis, patrimônio, estátuas ou poesia. Nada deve deter o progresso, dizem. Mas o progresso não implica em evolução. Ao menos, não em evolução humana.

Talvez sejamos (posso incluir você nesta lista?), eu e os outros poucos remanescentes dos ancestrais-que-não-evoluíram, uma espécie frágil demais para a barbárie. Sensível demais para a guerra. Nós, assim como eles, pequenos animais que não inspiram medo, de pouca esperteza e inocência muita, não desenvolvemos habilidades para a batalha diária pelavida-pelopão que se trava por território, por parceiros, por sucesso, por amor, por cavernas e tudo o mais. Talvez sejamos simplesmente primitivos demais para a evolução, para isso que chamam de civilização.

Talvez nós, humanos sensíveis-demais para a liquidez da pós-moderrnidade, sejamos como aqueles insignificantes ancestrais que, de tão atacados e atropelados pela manada furiosa de seus contemporâneos, buscaram um buraco qualquer entre um rio e um vale para fugirem de seu fim, para de lá olharem, desiludidos e revoltados, para a fascinante e inalcançável liberdade no horizonte. Talvez apenas, como eles, nos recusamos. Concluímos que a luta é injusta demais, estúpida demais, inútil demais e insana demais para lutarmos. Dizemos não e ficamos. Quedamo-nos entre o campo de batalha e os apelos de nossa alma livre. Nos mandam conquistar o poder, seja ele de dinheiro ou posições, seja ele de carne e osso ou de terras férteis e nativos inocentes. Nos mandam chegar ao topo, seja ele infértil de paz ou sujo de sangue. Apenas chegue, dizem. Recusamos. Ficamos encurralados e sozinhos, por vezes feridos e com fome, mas livres dentro de nossas cavernas pessoais, dentro de nossos pequenos ninhos internos, mas ficamos. Porque a guerra, antes de matar o inimigo, mata a nossa alma. Não batalharei, exceto pela sobrevivência da humanidade em mim, dizemos. Nós e os ancestrais que viraram fósseis. Mas fósseis leais à sua espécie. Que seja em uma caverna, que seja. Que seja em pequenas recusas e protestos. Que seja. Talvez, para animais não bélicos como nós, a melhor estratégia seja recusar-se e, assim, e com obstinada oposição, resistir.

Sabe, Clara... outra coisa...

Gosto de observar as pessoas no shopping. Aprendo muito quando exercito o meu observar. Ali, mais do que em qualquer outro lugar, elas se revelam e é possível ver ou imaginar o que as motiva, o que elas são ou querem aparentar ser. No shopping as pessoas não se individualizam, elas se misturam, se tornam multidão. No shopping não há pessoas. Há consumidores. E é em torno do consumo que todos se unem. Somente. No shopping a única linguagem é a do dinheiro, ou a do direito do consumidor. Em suma, vale-se o quanto se pode pagar. O fato é que o consumidor hoje é mais importante do que a pessoa. Mas o mais triste é que, se olharmos bem, as pessoas não estão felizes (apesar de todo o consumismo delas). Estão entediadas. Porque logo depois de cada compra, surge a necessidade de comprar outro objeto. A sedução da propaganda diz que se além daquela blusa tiver aquele sapato para combinar com aquela bolsa ou tiver aquele celular que faz milagres, aí sim, ficará feliz. Assim, sempre faltará algo, um acessório a mais, uma marca a mais, um modelo diferente, uma vida a mais. No fim, o que resta é a insatisfação pela falta. Nunca será possível saciar a vontade de consumir porque os objetos de consumo são infinitos.

Tirando os compradores compulsivos, cuja doença deve ser tratada em suas origens pelos profissionais especializados, o cidadão comum é que está sendo levado nessa avalanche de consumo, sem se dar conta de que está apenas gerando lucro para outros e correndo atrás de um fantasma.

O Minimalismo é um Movimento relativamente novo, de origem incerta. Inspirado nas Artes e que tem por lema "viver com o mínimo" possível, fugindo do consumismo e da acumulação de bens materiais e objetos desnecessários. Na essência, é um movimento pela sustentabilidade, em favor do planeta e de uma vida mais simples e equilibrada. A ideia central é comprar apenas o que vai usar e de que não pode prescindir. Reduzir é o segredo. Desapegar-se de tudo o que não precisa e refletir sobre o que é importante.

Há alguns anos, sou adepto deste Movimento. Mesmo antes de saber que ele tinha um nome (risos). Há algumas vertentes, algumas mais radicais. São pequenas atitudes que são um protesto ou simplesmente uma recusa em fazer certas coisas que todos fazem por "obrigação", como por exemplo, comprar roupas/tudo de marcas famosas/estrangeiras ou comer no McDonald's, etc. Pois bem, não faço uma coisa e nem outra. Prefiro comprar de uma empresa brasileira, de preferência de pequenos produtores a engrossar as fileiras das cópias consumistas que, de tanto imitar e usar tudo igual, fazer/pensar tudo igual, não sabem mais quem eram e do que gostavam antes de virar xerox. Não penso que isso vai mudar o mundo, mas é uma pequena gota num oceano de desintegração de identidades. É como se fosse aquele passarinho tentando apagar o incêndio na floresta. Mas a verdade é que aquela fábula não é tão absurda assim. Ela faz algum sentido quando queremos ser um passarinho que não admite ficar assistindo passivamente enquanto o seu mundo está destruído. Ao menos, não o seu metro quadrado. Enquanto puder, manterei o meu metro quadrado o mais livre possível, o mais criativo possível e o mais aconchegante e não contaminado de consumismo possível. Consumir não é preciso. Resistir é preciso.

Estava pensando nisso esta tarde, quando fui ao cinema ver "A Cabana". (Aliás, não gostei. Ridículo. Patético e altamente manipulador, infantilizado demais! Nunca vi argumentos tão fracos para responder questões tão sérias como a origem do sofrimento, a passividade e/ou crueldade de Deus, etc. Sofrível!, como quase todos os filmes de cunho religioso/espiritualista.

Clara, perdoe-me. Fiz questão de escantear os assuntos tratados em tua carta, para lhe desferir estas duas passagens. Todavia, prometo retomar os assuntos abordados por tua pena numa próxima conversa nossa. Prometo.

Meu carinho. E sigamos... 

Caruaru-PE, 07 de maio de 2017.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Cristina Seixas

Nenhum comentário: