domingo, 29 de março de 2015

Faber et ludens

*
Por Germano Xavier

faber

com as mãos
fazer o dia anoitecer
fechar as cortinas


ludens

com o coração
clarear a noite do dia
brincar de sol sem hora


faber et ludens

com as mãos no coração
esquecer-se do tempo
ser o brinquedo da vida


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/homem-linha-110321992

As árvores amorosas (Parte XVIII)

*
poema para a mulher-modelo da faculdade

Por Germano Xavier

e saímos sem bandeira
na luta dos sem-destino
montados na Honda vermelha

só a nossa sombra espelhada
nas paredes das casas contra-sol
daria para nos errar tal como encontro
certo de nós por gêmeas almas

até que o motor rugiu mais forte
você em corpo solta em olhos sonhados
eu em demonstração de manhã intranquila

o amor desapareceu à luz do farolete
aceso dentro e fora da noite veloz
aceso para te apagar de mim
à primeira esquerda formato curva


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Where-We-Met-293798634

quinta-feira, 26 de março de 2015

O infausto poema

*
Por Germano Xavier

essas estradas aziagas
de azar os passos lassos pés
de pegada a ir do meu rosto
ao céu-rememorado num firmamento
sem firmamento

a morte num lento carro-de-boi
a morte num rápido móvel transmoderno
a morte no sent(ir) de paradeiro
na estagnação viva

imprimo à opereta todo o deleite:
quanto mais dor, mais amor?

(Oh, incorrigível lei dos imbecis!)

dentro do meu rumo a figura dos seus lábios está imersa
como uma água de barro em breve ARTE
você: a imperatriz dos sonhos amargos!

e agora o recheio:
ERA UMA VEZ UMA FADA MUITO BONITA QUE AMALDIÇOOU UM CAÇADOR...
E PARA SEMPRE O CAÇADOR A AMOU.

embalaram a novidade imagético-sensorial numa caixa de bombons
o doce artificial dos dias entrado garganta adentro
paranoia com glúten é o amor

infeliz menina tão inteligentemente linda
eu-atirador de facas sem acertar o alvo
sem construir feridas com você
sem fazer cortes para nunca-suturas

faltou o umectante? o estabilizante?
o regulador de acidez? o aromatizante? o emulsificante?
diz-me, amor, o que faltou desta vez?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-caminho-113386786

segunda-feira, 23 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XVII)

*
poema para a mulher da valsa lunática

Por Germano Xavier

em litros bêbado
resolvido na homenagem:
ao amor que não pode ser!

fui chorar na casa da amiga (tarde)
percurso de bicicleta

(noite) aceitei convite de amigo judeu
por detrás do Centro de Convenções

A FESTA

logo duas moças aparecem distorcidas
amigas do meu amigo em bandeirolas
ficaram ali esperando ação

tocaram a valsa lunática
curvei pescoço em pescoço alheio
- gingado de perdição

fizemos sequências de paixão
até o coração adormecer

dois estranhos ampliando estômagos


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Roads-134676803

domingo, 22 de março de 2015

A via dos vãos

*
Por Germano Xavier

o propósito do hoje
é levar o ciclo funcional dos comos
para o querer sentido e feito

fazer envolve recurso lexical
carece de suor de pele real
contraria falácias de alma
e equivale ao apesar de não
parecer poder

ao dizer que se aplicará pressão
na panturilha-músculo do andar
o encontro vira prática manuscrita
ganha cor de tinta e sagra-se modelo

a história confirma
o amanhã não tem propósito algum
a não ser o de iludir chamados
para novas ambições


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Fade-493486615

sexta-feira, 20 de março de 2015

A gordura do dia

*
Por Germano Xavier

a gordura do dia em amanhecer
a fibra da hora em vozear-nos
a nobre semente do corpo
em bêbada clausura

(validações)

o saguão que acorda pontualmente
o homem que irá reduzir o valor da vida
até o homem que irá lançar mão das cores
- alimentícias

rumores pelo corredor invocam o pensamento
e é tão simples o mecanismo de criar você
- ingrediente integral 

para além da elaboração e da conserva
o método de nutrir o coração com seus sais
me garante uma manhã saudável na distância

o exercício de controle da dor traça o sabor
proibições geográficas aceleram meus passos


* Imagem: "Poema de hotel", de Germano Xavier. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte X)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


quarta-feira, 11/02/15
A perder de vista

Perdre de vue

te perdre de vue
perdre la vue
ignorer la monnaie de l’Amour

perdre la trace
de la force déposée dans les mains
qui te tirent et te forcent à rentrer
de peur de se perdre à jamais

perdre du temps
nous deux, en revue, l’horizon opaque
un regard de lunette qui perce le béton
inexact

à perdre la raison
j’inaugure
le vieux sentiment
de quand le cœur résonnait sans musique
et qu’il ne traduisait que solitude


*  Imagem: http://www.deviantart.com/art/olhar-102545420.

segunda-feira, 16 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XVI)

*
poema para a mulher que nunca existiu

Por Germano Xavier

havia a medição
a diferença o valor a pagar
a data a taxa o processo
a conversão o cálculo
o metro e a dúvida

de resto
faltava você


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Holga-Blossoms-Bromoil-52489772

domingo, 15 de março de 2015

O gradil

*
Por Germano Xavier

partir da imagem de limite e ser
ilimitável âncora pesada a burlar
a semântica do ferro na costura
dos cercados

imitar a forma pontiaguda
do aramado (impedimento) e impedir
a renascença dos alambrados

devolver ao muro
o som do pulo em sanha
a roupa do rosto feliz
a proteção pelas insânias

ser a amarração do vento
fabricado pelos braços:
a propriedade do voo


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Net-496968229

sábado, 14 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XV)

*
poema para a mulher da noite perigosa

Por Germano Xavier

foram 475 quilômetros
numa four stroke até chegar
em sua boca de latitude grossa
em sua mão aquática e desconhecida
em sua rudeza infame e saborosa
a clamar pelo combate

cantava sob o capacete
a canção de um outro amor
para diminuir a vastidão das retas
cheias de sol

pelo retrovisor eu via
o verde se emparelhar como uma mancha
ao torpor de todas as solidões

e ao cruzar a curva do fim
certo de ter vindo buscar em ti
o mapa do lugar que ainda irei



* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Chasing-Clouds-376920242

sexta-feira, 13 de março de 2015

A palavra dentro

*
"Mas o trem de casas-vagões
passa ou é passado por?
como poder distinguir
do passado o passador?"

João Cabral de Melo Neto, no livro Quaderna.

Por Germano Xavier


por dentro de você
a que habita a madrugada fria
por dentro de seus dentros
tremor ao calor das horas mornas
por dentro daquele corpo que se esquiva
a imensa estrada sem desvio
por dentro da imagem no espelho
o riso o choro a chama a pele em fogo
por dentro do subterrâneo coração
as imprevistas vistas de horror
por dentro das partes que invadem
o sexo das memórias sem volta
por dentro da jugular que estanca
o sangue dos dias esquecíveis
por dentro dessas vagas na alma
a mentira diária no silêncio
por dentro desse passado arredio
o futuro sem nódoas
por dentro de seus olhos
a pessoa aberta em obra falível
por dentro de suas bocas
a recomendação das manhas
por dentro do moinho da mente
a vontade de elevar e subtrair
por dentro dessa saudade louca
a rua por detrás da sua


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Reflection-512586924

quinta-feira, 12 de março de 2015

As árvores amorosas (Parte XIV)

*
Por Germano Xavier

poema para a mulher das saias coloridas

havia o velho navio
ancorado sobre o asfalto

atrás de nós dois
um rio cheio de sol

naquele tempo presente
o desejo mais latente
esbarraria na amurada dos olhos

e foi assim que essa lenda
- a do amor apenas quisto -
dobrou os órgãos do sertão
e metaforizou-se em castigo


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/icy-151827048

quarta-feira, 11 de março de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte IX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


sexta-feira, 06/02/15
A aquarela do instante

L’aquarelle de l’instant

ton absence
que je creuse en me dévoilant
que je retrouve alors que je me renvoie moi-même
est tellement rouge, tu sais ?

tes arrivées, presque des apparitions
ne font qu’accentuer le brouillard dehors
tellement elles sont grises…

si tu voudrais me tuer
tu maîtrises tous les secrets pour m’égorger
insinués dans les habits gelés du froid

dans mon corps, un soleil brûle
emprisonné dans une geôle, mon coeur
tout en noir & blanc

si tu voudrais échanger cette douleur philosophique
abritée en moi par peur et par pitié
sous ton sourire fuyant

en couleurs dans la bavure de cette noirceur
qui me retient en vain
tu serais la, par gentillesse, par envie
tu serais dans l’inabordable aquarelle
de cet instant


* Imagem:  http://chuchy5.deviantart.com/art/Digital-Painting-Endangered-Passions-513441216

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nada muito sobre filmes (Parte XIV)

*
Por Germano Xavier


SER TÃO AVOADOR

SER TÃO AVOADOR (2013), curta do diretor e colega de jornalismo da UNEB Wllyssys Wolfgang, reelabora o mitológico sonho de Ícaro dentro de uma realidade sertaneja, tendo como pano de fundo o árido/semiárido do nordeste brasileiro. Em tons dramáticos, a personagem Mariinha rompe o silêncio desatado numa morte-em-vida aparentemente consolidada pelas circunstâncias e faz de tudo para conhecer de perto seu maior sonho: voar. Mariinha é, por sua vez, a voz feminina esganada pela doença dos homens sem-alma. Temas como machismo, autoritarismo e pobreza também encaminham a narrativa para um resultado artístico bastante seguro. Recomendo a todos os mortais!


A CASA DOS SONHOS

O filme A CASA DOS SONHOS (2011) dirigido por Jim Sheridan, é uma produção um tanto que esquisita, o filme parece que ficou sem alguma parte. Portanto, incompleto. A conclusão é também esquisita. O filme termina ali por volta dos 80 minutos de duração. Tinha tudo para ser interessante, mas é confuso e indefinido. Poucas coisas se salvam. Os velhos clichês presentes nos filmes de suspense estão vivos. Há quem tenha gostado. Eu não gostei. Sigamos, bucaneiros!


HANCOCK

Eu bem que tentei, mas não consegui chegar ao final de HANCOCK (2008), dirigido por Peter Berg. Oxalá numa próxima tentativa!


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU! (PARTE II)

Um filme que já virou cult, uma comédia sem parentesco. Nonsense puro. É para rir de verdade, de tudo e a todo instante. Tudo até que ia bem dentro do primeiro ônibus espacial de passageiros a tentar chegar ao solo lunar, até que eles descobrem que estão sem café. Vale uma espiadela no filme APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU - PARTE II (1982), de Ken Finkleman, bucaneiros!


O ORFANATO

O ORFANATO (2007), dirigido por Juan Antonio Bayona, cumpre bem sua missão. Um típico filme com os toques fantásticos de Guillermo del Toro, de trama bem acertada e com nuances de suspense na medida ideal. Representou a Espanha no Oscar 2008 para melhor filme estrangeiro. Com Edgar Vivar no elenco - sim, ele mesmo, o Sr. Barriga do seriado Chaves. Recomendo a todos os mortais!


O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

Eu não vou dizer que O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (2014), de Wes Anderson, é um filme incrível, mas não vou dizer, também, que é um filme sem seus vários méritos. A história é fantástica, a fotografia belíssima e o ritmo da narrativa chega a ser alucinante. Todavia, pareceu-me um tanto confuso e necessitado de alguma pausa compreensiva. Há de se convir que eu estava super cansado quando fui assisti-lo, sem tanta paciência. O filme conta a história sem igual da amizade entre um gerente de um grande hotel europeu e um empregado. Mas não é só isso. Há muita coisa por detrás da aparente e até ingênua comédia, além de um vasto elenco de renomados do cinema norte-americano. Eu esperava mais do filme, confesso. Um dia pretendo revê-lo. Mesmo assim, recomendo a todos os mortais!


12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (2013), dirigido por Steve McQueen, foca as câmeras em Solomon Northup, escravo liberto que, sequestrado quando em outra cidade, revive as dores e amarguras impostas pelo então regime escravagista vigente em solo norte-americano. Tal personagem, ao contrário de muitos filmes de mesma temática, é dotado de uma brutal humanidade - longe daqueles personagens de tons exageradamente heroicos -, fator que o faz atravessar constantes dilemas no interior das circunstâncias de vida a ele impostas, assim como para os outros escravos com os quais convive. A película impacta e faz jus a todas as condecorações que recebeu da crítica especializada. Ao fim, ainda nos oferece um nó bem dado na garganta. Recomendo a todos os mortais!


O VELHO E O MAR

O VELHO E O MAR (1958), dirigido por John Sturges, é um filme baseado no clássico homônimo da literatura escrito por Ernest Hemingway, um dos ícones da Geração Perdida. O filme, assim como o livro, conta a saga do velho Santiago, um pescador em fim de carreira, mas de "olhos indomáveis", que não desiste de ir pescar, mesmo tendo passado meses sem conseguir fisgar um peixe sequer. Neste emaranhado, é relatada a história de amor entre o velho e um menino que o ajuda na lida do mar, assim como interessantes reflexões do velho quando, enfim, consegue capturar um enorme peixe que precisa ser levado para a praia onde mora. É uma história simples e belíssima. Merece ser vista e lida várias vezes, por todos nós, mortais bucaneiros. Recomendo!


A CHAVE MESTRA

A CHAVE MESTRA (2005), de Iain Softley, é um filmezinho meia-boca de suspense. Só isso. Vai encarar?


AMARCORD

Só agora pude ver AMARCORD (1973), do diretor Federico Fellini, uma película emblemática e por demais autêntica. Fellini, no filme, faz um esforço de rememoração frente ao seu próprio passado e, também, ao passado da Itália. Para isso, suas câmeras exercitam uma "análise" acerca de diversas figuras de um pequeno lugarejo, assim como de suas condutas, um tanto quanto insólitas e até caricaturais. Um clássico da cinematografia mundial que trata a passagem do tempo com suas potencialidades de alegria e tristeza, num giro que atravessa a vida humana como uma flecha a penetrar as quatro estações. Com cores de crítica ao momento político de guerra retratado na obra, e aí entra toda a questão do Fascismo de Mussolini e a incapacidade da população de entender o real momento de seu país, fato tratado com sagaz ironia no longa-metragem, Fellini mostra-se, novamente, grande e genial. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem:  http://veja.abril.com.br/blog/cenas-urbanas/tag/cinema/

O tempo regulamentar

*
Por Germano Xavier

Perto do fim, como quem sabe que o tempo regulamentar da primeira etapa da partida irá acabar, o homem que ama seguirá amando, mesmo sabendo que o árbitro do jogo da vida poderá soprar o apito a qualquer momento e fazer com que todos adentrem o austero silêncio dos mornos intervalos. Próximo ao fim, como quem espera a hora certa de atacar, o homem que ama persistirá no amor, mesmo suspeitando de todas as dificuldades, de todas as barreiras e de todos os lances desleais que o jogo da vida poderá impor aos jogadores.

Muito perto do fim, como quem sabe que o contra-ataque pode ser o segredo para a vitória, o homem que ama partirá em disparada para lugar qualquer onde exista, dentro dos quatro cantos da sagrada arena, a possibilidade do gol de placa, aquele mais belo tento já feito por uma pessoa, inesquecível, imorredouro. Perto, muito perto do tempo limite se esgotar, como quem planeja o gol do título para os derradeiros minutos da segunda etapa do dérbi, o homem que ama abraçará sua fé e teimará a imprimir força em seus pés-coração, suspenderá a dor de estar já sem fôlego e forçará sua última jogada.

Quase finalizado o tempo, como quem conhece a largura das traves, o homem que ama chutará para longe o raciocínio lógico que lhe escreve palavras de triste final que nublam sua alma e recomeçará os planos de defesa. Longe do início do mais importante dos clássicos, como quem infere as artimanhas do adversário, o homem que ama alicerçará táticas indestrutíveis e convocará a voz imperiosa da torcida a inflamar o gramado em holofotes. Quase lá, como a querer um momento de descanso após luta intensa no estádio, o homem que ama respirará a vontade do outro e se espelhará no amanhã que nunca morre.

Vislumbrando a travessia temporal, após o apagão que deixara as arquibancadas no breu do desconhecimento e do distanciamento, o homem que ama erguerá suas pálpebras morgadas pelos dias sem brilho e fustigará a visão dos noturnos instantes abertos nos clarões. A esperar o desfecho, antes de o árbitro decidir pela pequena paralisação, o homem que ama empoderar-se-á, armar-se-á e irá ao encontro do amor de sua vida: o gol que ainda não aconteceu, unido à sensação de glória ao ver a pelota couraça estufar as brancas redes do arqueiro rival.

Sob os auspícios dos letais ponteiros, como a prever as agruras de uma impiedosa derrota, o homem que ama abominará o pensamento que fraqueja e criará uma redoma protetora para o sentimento que carrega dentro do peito, um amor de tanto amor e amor e amor e tanto. E vendo o juiz a içar suas mãos ao centro do gramado, sereno em ser o que se é sem aceitar direito o transcorrer das jogadas mais circunstanciais, o homem que ama não permitirá dar-se tal ente vencido pois, para ele em sempres, aquela partida jamais haveria de terminar um dia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Soccer-Ball-115201854

quarta-feira, 4 de março de 2015

Flor embalsamada

*
Por Germano Xavier

para embalsamar uma flor
e não correr o risco de perder
a memória de suas pétalas - ou risos -,
deixemos que o silêncio a espere
(ser de novo olor sempre-nascente)
em tempo inteiro e eterno

amanheçamos de corpo fechado
para as desaromatizadas horas
num exercício de exalar-se

(labirinto e compreensão)

amanhã,
quando ela perder água e enfraquecer-se
em cheiro, ao sol ou dentro de um livro,
que um beijo em sua seda natural
imortalize o que é essência

(o perfume da cor a mente conserva)


* Imagem:  http://anurbs12.blogspot.com.br/2012/04/mulher-no-romantismo.html

domingo, 1 de março de 2015

Felicidade pueril

*
Por Germano Xavier

eu tive uma coleção de embalagens vazias de xampu
eu tive um cheiro de suor que exalava aventura
eu tive uma coca de dois litros cheia de bolinhas de gude
eu tive uma bolinha de gude que era de metal
eu tive um short branco que ficou da cor da cera líquida que usavam para encerar o chão
eu tive um passarinho que voou de minhas mãos
eu tive uma coragem insólita para superar alturas
eu tive um reino particular no quintal
eu tive uma rede rodoviária inteira para se gastar joelhos empurrando carrinhos de plástico
eu tive uma bola nova que murchou após o primeiro baba
eu tive uma unha que caiu de tanto jogar descalço na rua
eu tive uma bicicleta para fugir de casa
eu tive uma pipa de grandes centímetros de rabiola
eu tive uma amiga para brincar brincadeiras de menino
eu tive um amigo para brincar brincadeiras de menino
eu tive um céu que me presenteava estrelas
eu tive uma noite sem dor no coração
eu tive uma tarde repleta de gibis
eu tive uma manhã que atravessei em sonhos
eu tive um irmão para brigar pelo resultado da última rodada
eu tive uma mãe para reduzir horários
eu tive um pai para me chamar do portão
eu tive um tempo sem tempo para o tempo
eu tive uma paixão ingênua pelo meu Daimon
eu tive um universo divino ativado com o abrir dos olhos
eu tive um medo danado de fechar os olhos


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Fragile-steps-304666928