domingo, 29 de maio de 2016

Um rio correr

*

Por Germano Xavier

um rio correr
pode entre escuras pedras
esconder insustentáveis tristezas d'alma
como se sobre as águas um grande saponáceo
levasse embora particulares encardidos?

um rio correr
num engendrar se estende à dionisíaca música
concebida como êxtase em pleno quadro
de nos restar apenas a grande e ligeira vez
dos mais abertos silêncios?

um rio correr
qual romance sem quem nem ninguém
opera clausuras em divórcio irreparável
por cada uma reação perdida
na irresistível confusão dos sentidos?

um rio correr
convencido de que é dentro que se vive
em nós a ondulante catástrofe da beleza
abrigará em ondas lentas toda declaração
de que passamos depressa e de que ficamos
a aplaudir angústias ao fim da linha?


* Imagem: Germano Xavier/Arquivo pessoal

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O velho lobo do mar

*

Por Germano Xavier


"Mas o que pode valer a vida, 
se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?"
(Milan Kundera, em A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)


algumas vezes me encostei ao mar
e por medo do desconhecido, do vão devorador
escondido nas fendas ondulantes das marés,
construí em mim o som dos medos reais.

parte em consciência, soube ocultar
a fera indestrutível das águas nas espumas.
parte em truques, abortei roteiros inglórios
de bravura à direção das imprudências.

fato é que as histórias em que navego
minhas máximas campanhas de homem
foram sempre trilhas lançadas aos atiçamentos
e às estreias da alma.

tudo se resume, pois,
até aqui (e só assim me pus a salvo),
a uma vitoriosa carreira de impermanências.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/THE-SHADOW-SEA-435832778

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Gêneros e Tipos de Discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In:____. DOLZ, Joaquim. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas – SP: Mercado de Letras, 2004, p.19-34.


“A moda das tipologias cedeu lugar à dos gêneros. Entretanto, permanece a necessidade fundamental de toda atividade de pesquisa sobre textos e discursos (e, sem dúvida, de toda prática científica): a de classificar.” (p.19)


O GÊNERO É UM INSTRUMENTO

“[...] “o gênero é um instrumento.” (p.23)

“Os instrumentos encontram-se entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação n qual ele é levado a agir.” (p.23)

“Um instrumento media uma atividade, dá-lhe uma certa forma, mas esse mesmo instrumento representa também essa atividade, materializa-a.” (p.24)

“O instrumento, para se tornar mediador, para se tornar transformador da atividade, precisa ser apropriado pelo sujeito.” (p.24)

“[...] a tripolaridade da atividade tem como corolário necessário a bipolaridade do instrumento.” (p.25)

“A escolha do gênero se faz em função da definição dos parâmetros da situação que guiam a ação. Há, pois, aqui uma relação entre meio-fim, que é a estrutura de base da atividade mediada. Portanto, nossa tese inicial – o gênero é um instrumento enquadra-se bem na concepção bakhtiniana.” (p.27)

“A ação discursiva é, portanto, ao menos parcialmente, prefigurada pelos meios. O conhecimento e a concepção da realidade estão parcialmente contidos nos meios para agir sobre ela. Tínhamos dito que o instrumento é um meio de conhecimento: eis a concretização dessa tese.” (p.28)


GÊNEROS E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

“Os gêneros e, mais particularmente, os gêneros primários são o nível real com o qual a criança é confrontada nas múltiplas práticas de linguagem.” (p.30)

“Os gêneros se complexificam e tornam-se instrumentos de construções novas, mais complexas”. (p.30)

“[...] os gêneros secundários não são espontâneos. Seu desenvolvimento e sua apropriação implicam um outro tipo de intervenção nos processos de desenvolvimento, diferente do necessário para o desenvolvimento dos gêneros primários.” (p. 32)

“Essa ideia de construir a partir do que já existe e de transformá-lo radicalmente pode ser precisada da seguinte maneira: a construção de um gênero secundário implica dispor de instrumentos já complexos.” (p.34)

“Os gêneros primários são os instrumentos de criação dos gêneros secundários.” (p.35)

“Pode-se mesmo dizer que a introdução do novo sistema, a aparição dos gêneros secundários na criança, não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um longo processo de reestruturação que, a seu fim, vai produzir uma revolução nas operações de linguagem.” (p.36)


TIPOS E GÊNEROS

“[...] psicologicamente, um tipo de texto é o resultado de uma ou de várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção.” (p.36)

“Os tipos de textos – ou, psicologicamente falando, as escolhas discursivas que se operam em níveis diversos do funcionamento psicológico de produção – seriam, portanto, construções ontogenéticas necessárias à autonomização dos diversos tipos de funcionamento.” (p.37)


* Imagem: https://prezi.com/zley3ka5jfpn/night-quotes/

TEMER não é preciso

*

Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
um parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil


lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é 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lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é 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preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso


* Imagem: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/20/golpe-do-pato-a-face-absurda-da-cena-politica-brasileira/

domingo, 15 de maio de 2016

Paraíso-quadro

*

Por Germano Xavier

para Adriano Ricardo, professor de espantos


"O paraíso é, antes de tudo, um quadro."
(Bachelard)


o que vi, vivo está.

vi o improvável 
no que de fato abandonei,
o invisível das figuras, dos motivos,
os mares em frente ao mar além-horizonte.

vi melhor quando sofri
outras maneiras de ver, de viver.
quando a palavra comum me tingiu
de amor, de angústia, de sonho.

com o instrumento dos meus olhos, 
vi o místico do visível. e nada disso 
teria valor se a solidão não me abarcasse,
irmã de mergulhos.

fui a hora literária, poeta 
de meus /des/encontros.

pois vi a fantasia, vi 
melhor o assombro na gana de ser,
de estar, ao sentir a minha música me acusar
solar.

optei pelo desvio das estradas por onde correm os meninos eternos,
os meninos que ainda saberão brincar,
poder e oração e voz tamanha.

experimentei o sagrado nos lábios avulsos da mulher,
máxima intenção íntima dos universos.

vi, portanto,
o que ignorei simplesmente,
o que jamais imaginei,
o mundo, o nada, o afã, o órgão último
de minhas forças,

a podridão de mim,
a melodia inolvidável,
o que a Graça tornou sangue, pulso.

vi, enfim, o que passou, o que é,
o que será e, juro, vi tudo pela primeira vez.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/quadro-283482411

sábado, 14 de maio de 2016

Nada muito sobre filmes (Parte XXV)

*

Por Germano Xavier


OS AMANTES PASSAGEIROS

OS AMANTES PASSAGEIROS (2013), de Pedro Almodóvar, pousa sua narrativa no interior de uma aeronave da companhia aérea Península, que por motivos esdrúxulos, corre sério risco quando da aterrissagem. Enquanto nada se resolve com o serviço de apoio, o comandante fica voando em círculos. Nesse ínterim, três tripulantes dopam todos os passageiros da classe social, assim como as aeromoças, com a finalidade de estancar o pânico. Os que continuam sóbrios, pelo fato da morte próxima, revelam-se de todas as maneiras. Um filme diferente, com todas as cores de um Almodóvar, e que em muitos momentos me fez recordar o cult AIRPLANE! (Apertem os cintos... O piloto sumiu!) Comédia inteligente. Vale uma espiadela!


LITTLE BOY – ALÉM DO IMPOSSÍVEL

LITTLE BOY - ALÉM DO IMPOSSÍVEL (2016), de Alejandro Monteverde, é um daqueles dramas que nos emocionam facilmente. Na trama, que tem a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, o garotinho Pepper mantém uma relação de muita aproximação e amor pelo seu pai, com quem vive aventuras e fantasias inenarráveis. Quando seu pai resolve ir para a guerra no lugar do seu irmão mais velho, Pepper fica profundamente triste. Apelidado de Little Boy pelos "garotos da rua", por seu tamanho reduzido para a idade, Pepper investe em sua fé, segue uma "lista mágica" cedida pelo padre da pequena cidade de O'Hare, Califórnia, onde mora, na esperança de reencontrar seu pai. Daí em diante, muita coisa acontece. Até o inacreditável acontece. Para os desavisados, LITTLE BOY foi o nome dado à bomba nuclear lançada em Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Recomendo a todos os mortais!


O ABRIGO

Não se deve confiar em tudo que se lê, ouve etc. O ABRIGO, de Jeff Nichols, provou isso para mim. Esperava ver algo meio hitchcockiano. Achei-o penoso. Mas, como disse, não é bom confiar em tudo que se lê, ouve etc. Boa sorte!


E.T. – O EXTRATERRESTRE

Até poucos dias atrás, eu ainda não tinha visto o longa-metragem E.T. - O EXTRATERRESTRE (1982), de Steven Spielberg, um dos grandes clássicos hollywoodianos do gênero ficção científica. Para a época, deve mesmo ter sido uma produção bem chamativa. Olhando-o no agora, confesso que não me causou grandes ou bons "espantos". Talvez eu devesse pegar uma máquina do tempo e regressar até o ano de seu lançamento para que minha ideia sobre o filme mudasse. Aliás, a infância é o ponto crucial da trama. Lendo sobre o filme, descobri que o rosto de E.T. foi elaborado tendo como molde as faces do poeta Carl Sandburg e do cientista Albert Einstein. Loucuras à parte, ei-lo! Sigamos!


CHATÔ – O REI DO BRASIL

Eu tinha cerca de 20 anos quando toquei pela primeira vez o calhamaço biográfico intitulado de Chatô - O Rei do Brasil, escrito por Fernando Morais, ali pelas prateleiras da biblioteca do Departamento de Ciências Humanas III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). O livro me chamava a atenção, por seu autor, pelo tamanho e pelo conteúdo. Chatô é matéria interessantíssima para qualquer estudante de jornalismo, hei de pensar. É história da imprensa nacional, do mundo. Faz parte, apesar de tudo. Magnata insólito das comunicações. Dono de quase tudo em seu tempo. Fez e desfez. Insano, taxado de mil coisas. O filme homônimo, CHATÔ - O REI DO BRASIL (2015), dirigido por Guilherme Fontes, depois de 20 conturbados anos de produção, conseguiu vir à tona. Apesar de um tanto confuso, a película passa uma noção básica deste Assis Chateaubriand, para quem anúncio era dinheiro e notícia era perfumaria. Recomendo a todos os mortais!


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU

Mais um antigão do Steven Spielberg que pude ver recentemente. CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (1978) tem até o diretor François Truffaut no elenco, para minha grata surpresa. O filme tem como mote a obsessão de um homem, Roy Neary (Richard Dreyfuss), morador de uma pacata cidade norte-americana, ao pressentir a chegada de seres extraterrenos. Depois de muita investigação e enfrentamento, parte em debandada para um local em específico, onde acredita ser estratégico para um possível contato humano-alienígena. O filme tem status de grande obra cinematográfica de teor sci-fi. Ao fim, não me arrependi de tê-lo visto. Vale a experiência, bucaneiros. Sigamos!


HOWL

A dita Geração Beat (Beat Generation) estará sempre atrelada ao marco da contracultura em todos os cantos do mundo, em todos os tempos. Para tanto, a literatura foi berço de expressão para nomes explosivos, a citar os de Kerouac, Burroughs, Ginsberg etc, que "pregavam" a "desobediência civil" e a criatividade espontânea, instantânea. O filme HOWL (2010), dirigido por Jeffrey Friedman e Rob Epstein, retrata com autoridade um pouco do que foi o impacto da publicação do livro UIVO, de Allen Ginsberg, em meados de 1956. Acusado de obsceno, o livro foi levado a julgamento nos Estados Unidos. HOWL é discretamente profundo, a ponto de ferir corações poetas com golpes contundentes de mais-amor pela palavra. Mais um belíssimo filme que traz a arte literária como protagonista. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um olhar sobre os Estudos Retóricos de Gênero

*

Por Germano Xavier


O capítulo 6 do livro Gênero: história, teoria, pesquisa, ensino, que versa sobre os Estudos Retóricos de Gênero (ERG) delineia com precisão conceitual os meandros dos estudos elaborados principalmente pelos autores Charles Bazermam e Carolyn Miller, sendo os dois devidamente analisados e esmiuçados por Anis Bawarshi e Mary Jo Reiff, autores do supracitado livro publicado no Brasil em 2013, traduzido pelo professor Dr. Benedito Gomes Bezerra, docente da Universidade de Pernambuco (UPE).

É justamente no referido capítulo onde ocorrem as distinções referentes ao ideário do gênero compreendido como sendo uma ação social, assim como objetos culturais de base demasiado complexa. Dentre todo o conteúdo abordado nas cerca de 30 páginas do excerto, destacam-se as ideias em ERG de “sistemas de gêneros”, “conjuntos de gêneros”, “apreensão”, “metagêneros”, “sistemas de atividades” e “cronotopos de gêneros”.

Diante de tais lances conceituais, alguns autores pontuam, a partir de Bazerman (1998), sobre a existência de uma relação dialógica entre as formulações do gênero aliadas à formação do conhecimento em si e, também, por parte de sua condição sócio-histórica. Para tais autores, a citar Berkenkotter e Huckin (1993), gêneros são arcabouços estruturais de base retórica e por demais dinâmicos. Assim se postulam, já que podem sofrer variações caso ajam para isso forças acerca de condicionantes e interesses de uso, além de outros mecanismos de influência.

Em ERG, gêneros são também entidades retóricas sensíveis, dinâmicas, que estabilizam práticas e legitimam sentidos. Para esta corrente dos estudos de gênero, o papel e a importância dada ao usuário da língua é fator preponderante, pois é o usuário da língua quem também induz o gênero ao conhecimento e usufruto de mecanismos linguísticos coletivos.

O fundo, o contexto, o conteúdo, o momento (Kairós), os pressupostos, combinados com as devidas e referenciadas oportunidades retóricas, passam a se estabelecer como pontos de alicerce do gênero enquanto matéria de estudo. Assim posto, ao promoverem o fenômeno da integral comunicação, os usuários da língua tornam-se membros de uma dada comunidade linguística. Esta, por sua vez, serviria a uma multidimensionalidade que exerceria uma aproximação do gênero para com os conceitos de processo social.

De tal modo, a sistematização de gêneros liga-se aprioristicamente e basilarmente ao poder do indivíduo no tocante às ações de interação num campo aberto de interferências contextuais. Promove-se daí o brotar de expressões do tipo “ecologia de gêneros”, “conjunto de gêneros”, “repertório de gêneros” e, até, “constelação de gêneros” que, juntos, preconizam uma espécie de união conceitual e de atuação determinantes a grupos parelhos de gênero, possuidores de características e funcionalidades semelhantes.

Amy Devitt, Clay Spinuzi, Aviva Freedman, Graham Smart, Janet Giltrow, Engestrom, Cole e Davi Russel são alguns dos nomes importantes que ajudaram e ajudam a interpretar boa parte das nuances dos estudos centrados em gênero na vertente em ERG. Alguns dos pesquisadores supracitados instauraram análise sobre a relação da cognição e do gênero. Os laços encontrados, mesmo alguns no âmbito da comum abstração, colaboram para a conduta dos gêneros junto às demandas da esfera social.

Objetivos e bem dimensiondos, os gêneros seriam produtos de contundente interação, extremamente ativos, socialmente mediados, estruturalmente conflitantes e fortemente motivados, portanto vivos, coordenados e complexos. Destarte, o front de embate, porventura natural ao conceito de gênero, dar-se-ia devido à possibilidade de diálogo entre frentes de ações inerentes ao todo do complexo da engenharia dos gêneros.


Referência

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Estudos retóricos de gênero. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 103-133.

sábado, 7 de maio de 2016

O amor em número de dez

*

Por Germano Xavier



I – Alguma hora da tarde

Eu queria ser sensata, prudente, objetiva e compreensível. Você me faz ser metáforas e absurdos. Você exige de mim a fluidez de um ser humano e a liberdade de um coração em quarentena. Não quero ser carne crua nesse mundo. Ou quero. Só não sei o que quero agora porque você se interpõe entre mim e a minha falta de sensibilidade para com a vida. Você me obriga a reconhecer que nem tudo se resolve na mente e em ignorar a própria dor, os sentimentos alheios e as coisas más da vida. Você me obriga a ser humana e isso me desnorteia. Preciso esquecer você ou mudar o que sou. E agora essas duas coisas são impossíveis.


II - Ontem

Não gosto de dar a você e sentir por você coisas que não quero mais que existam em mim para o mundo, para ninguém. Não quero perdoar, me sentir presa e nem me sentir necessitada de algo ou alguém. Quero me bastar e não sofrer por isso e não sentir falta de nada e de ninguém. Mas sinto falta de você e me dói (e só me dói com você) quando não me corresponde nessa sandice ridícula - por que falar a verdade me faz sentir tão estranha, tão desumana e tão diferente dos outros? Algumas coisas nem digo em voz alta, por medo de me jogarem na fogueira. O mundo não aceita os divergentes. Você me aceita?


III - Agora

Veja você: O dia acabou e não se passaram dois minutos seguidos sem que eu lembrasse de você. Não como uma ocupação, mas como uma sombra na alma. Hoje, nessa noção de sua presença em outro espaço, havia culpa e constrangimento - pelo que te falei ontem. Uma tristeza sem nome como as coisas imperativas da vida. Aquelas que não conseguimos evitar. Você estava presente não como um pensamento constante, fixo, mas apenas como um reflexo da memória, um não-esquecimento. Uma lembrança fluida, não um pensamento costurado objetivamente.


IV – Você

Você (presença-ausência) é o espaço onde transitam todos os meus monstros, os meus fantasmas conhecidos, negados ou ainda não suspeitados por mim. Você (minha relação desesperadamente irracional com você) é onde me confronto. Onde questiono a minha ética, minhas crenças, meus valores, minha força, minha sanidade, meu futuro, meus sonhos... Você é o lugar onde vocifero e me despedaço, mas é também o lugar onde me abandono. Um descanso reconstrutor, lúdico e poético. O amor.


V – Ainda você

Minha fúria, minhas dores, minhas convicções (que são dúvidas em revezamento) passam por você todos os dias. Você me descobre e me desfaço e me refaço. Em você.


VI – Uma dor distante

Eu ainda não conhecia. Há tanto escrito seu que eu ainda não conheço! Ainda bem... Nem todos me fazem bem. Alguns me fazem sair da leitura com a sensação de que morri em algum tempo passado e que só uma espécie de sombra e uma remota memória restaram de mim. É uma dor distante, eloquente, difusa. Uma espécie de remorso de algum crime esquecido ou uma perda de algo que eu nem sei o que é, mas que está ali, em algum lugar escondido em suas palavras... algo que eu perdi em outra vida está lá e eu apenas lembro, mas não reconheço e nem posso nominar. Eu odeio a palavra escrita. Eu amo a palavra escrita. A única arma capaz de me ferir nesta vida é a palavra... e a falta de amor em mim.


VII – Por que não?

Depois de percorrer mais algumas linhas do passado dele, decidiu que não. Nunca mais o seguiria onde quer que tenha ido. Nunca mais o leria onde quer que tenha escrito ou para quem que tivesse escrito. Ela odiava o que ele escrevia para elas, especialmente para ela - aquela que, por sinal, parecia a coisa mais transparente, frágil, delicada e insossa que já existiu. Bonita, sim. Tão feminina que deve ter dois úteros e meia dúzia de ovários. Voz de passarinho cansado, olhar de derreter pedra. Não se sabe onde começa o teatro e onde termina a pessoa. Uma pluma perdida no mundo. Pousou no lugar errado, a criaturinha feliz. Talvez tivesse sido planejada para ser fada, o serzinho doce, inocente e gentil, que olha as nuvens, o céu e o amor e suspira como se o mundo fosse perfeito, mas, por um erro de cálculo nasceu humana. Depois de pensar se escreveria isso que ele nunca vai entender, decide: Sim. Por que não?


VIII – Teoria crítica

Há anos não deixo de falar pra ele tudo o que penso e sinto sobre ele e sobre as pessoas que o cercam. Sobre ela, ele nem sabe de quem falo... talvez saiba... Aquela com ar de superior disfarçado de espontânea humildade. Talvez pela influência da região de nascimento... Eu desprezo esses seres que nunca olharam para a miséria ao seu redor e concebem o mundo como o seu playground. Ela flutua em nuvens e desenha (ou escreve?) florzinhas. Uma porcelana bem acabada, porém tão fina que quebraria no primeiro esbarrão com a realidade. Pelo menos - e temos aqui apenas ficção, pretensa dedução e uma alta dose de despeita -, é o que aparenta. Perdoem-me os críticos, mas não tenho compromisso com a realidade dos fatos neste texto, apenas com o meu passional - e justo! - julgamento.


IX – Conquista

Da outra sim, eu gosto. Repito: odeio o que ele escreve para elas, mas desta - e somente desta) - eu gosto. Gosto de um jeito quase doloroso, pois foi inevitável. Tanta grandeza de alma, tanta verdade crua, tanta beleza triste, tanta acidez perfeita, tanta graça na dor que ela sabe... Impossível não amar a coisa amável quando ela é verdadeiramente poesia. Até dói admitir, mas o faço por justiça e por ter sido conquistada... Ela parece mais verdadeira, mais real, mais poética, mais humana, mais falha. É de carne e osso e de absurdos. Incoerente, incongruente. Uma linha curva, como o amor. Como toda pessoa de valor deve ser. Ela parece ser feita de erros e de quedas, de superação e de resistência. Ela é aguda. Ela sofre, agoniza, erra, ama, pragueja, ironiza, radicaliza, morre e ressuscita. Ela pisa em brasas e escreve em sangue. Mais parecida comigo. Ela - aquela de quem nunca ouvirei - é alguém que aprendi a admirar lendo-a apenas nas entrelinhas dele. Nas entrelinhas das linhas que ele sempre escreveu sabendo ou não, querendo ou não. Ele escreve pessoas. Todas as que conheceu e amou ou não, todas deixaram histórias e rastros em sua literatura. Ele é muitos. E eu o amo todos.


X – Post scriptum

Não me censure. Nada é sério. Apenas divagações sem importância. Falo de personagens. Tu sabes. Te amo.

domingo, 1 de maio de 2016

BR 104

*

Por Germano Xavier


"Violência é ele ficar assustado porque a gente é
 negro ou porque a gente chega assim nervoso a
 ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a
 carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam
 desesperadas."

(Marcelino Freire, em Contos Negreiros)


é hollywood?
é bollywood?
é perseguição e sem dublê.
reta larga pela frente, o destino.
mas qual o destino da manhã?

qual o destino do medo?
esperança tem destino?

acelerador no topo, a mão rodada.
cabo enrolado. vulto no retrovisor. 
uma perna toca a minha 
perna. 

calor humano, frio metal.

cano curto. gelidez larga. no pescoço.
acostamento, freio, mente em transe.

desço. o motor apaga.
penso em tanta coisa.
não penso nada.

revista. olhos perdidos. 
cadê o fogo do motor?
cadê o fogo da vida?

a BR não desliga.

o frio é traidor. a porra que não liga.
a merda de estar sozinho.
a merda de estar ali.
a merda.

LIGA A MOTO, PORRA! LIGA A MOTO!
TEM ALARME? TEM SEGREDO?
LIGA A PORRA DA MOTO, CARÁI!
PASSA A MOCHILA! CELULAR, PORRA!
QUER MORRER, PORRA? QUER MORRER?
VAZA, VAZA! CORRE PRO MATO, CARÁI!

seixos saltados. capim no calçado.
a respiração é um tormento.
o blusão cor do chão.

eles vrummmmmm

eu caminho. acostado.
sem caminho. atordoado. 
eu penso 
em tanta coisa. 

eu caminho. 
eu, caminho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Road-To-125276471