sábado, 30 de julho de 2016

Templo do Tempo

*

Por Germano Xavier



em pleno mar, sem âncoras
nem velas, enraizados estamos
à deriva da máquina reveladora de destinos.

em pleno mar, do Tempo, canhoto cumpridor
dos mil desastres, caminhamos plenos de incertezas,
rumamos compridos em impermanências.

este mar que nos mostra o que se flagra
de nossas menores importâncias, é o mar
que espalha por terra os engenhos do inferno.

em pleno mar rebentam ondas de suplício,
cuja força isola toda uma libidinagem de suores
em lágrimas castas de ilusão.

o mar, templo aquático do Tempo,
este grande negro profundo, julga e deturpa
o que nele afunda e liberta o que pondera.

em pleno mar minhas costas cambaleiam,
e dentro das maldições matinais do agora,
abanco-me no que ainda para sempre restará sem mim.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sea-30228366

terça-feira, 19 de julho de 2016

A chaminé

*

Por Germano Xavier


não há arma que me assuste mais
do que a iminente desencarnação
do que se chamou amor.

a ferrugem, a descrença, a desgraça...
lubrificam os passos para a morte,
para a chama final.

nossos corpos vencidos,
subindo em fumaça triste
pela chaminé da vida comum.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/La-vida-trocitos-de-mar-68305376

sábado, 16 de julho de 2016

Manifesto do grito pela democracia!



Texto-montagem produzido pela turma 2014.2 do mestrado em Letras 
da Universidade de Pernambuco/Campus Garanhuns, 
apresentado em seminário da disciplina Literatura e Ensino, 
ministrada pelos professores Dr. Elcy Luiz da Cruz e Dr. Jairo Nogueira Luna.


Palavras não adiantam mais? Quantas defesas feitas para a nossa presidenta! E nada! Argumentos memoráveis, articulados, suntuosos... E nada! Como convencer quem não quer ser convencido? Será que palavras não adiantam mais? ADIANTAM SIM! Esse SIM não é o sim patético que ouvimos no Congresso Nacional há algum tempo, é o SIM de um grupo engajado na luta para fazer valer a palavra da defesa de um ideal democrático conquistado às duras penas pelo povo brasileiro.

Nós queremos liberdade. Queremos apenas expor nossas ideias, sem limites, sem prisões, sem exclusões. Queremos apenas o direito de ter nossos direitos garantidos. Não queremos mais do que isso. Queremos apenas LIBERDADE DE EXPRESSÃO, essa LIBERDADE de expressão que de uma forma golpista pode ser calada por facções que moveram uma guerra, apoiada por uma mídia avassaladoramente poderosa. Lamentável! Sigamos contra os oportunistas, contra os que querem sepultar a democracia. Não fiquemos inertes! O peso do chicote da censura poderá doer muito em nossas costas! O povo grita com medo da democracia escapar às mãos! Nossa democracia ainda engatinha, sendo um frágil rebento! “Os doutores da lei” querem nos tirar este rebento, querem nos roubar a última flor do nosso jardim, e querem que fiquemos calados. Nunca, jamais! Nosso grito ecoará na história!

Vamos insistir na manutenção do nosso direito ao jogo democrático, então é:

pelo direito à Democracia que lutamos, que brigamos, que insistimos...

pelo direito à Democracia que estudamos, que lemos, que insistimos...

pelo direito à democracia que falamos, que bradamos, que insistimos ...

pelo direito à Democracia que protestamos, que enchemos as ruas, que insistimos...

pelo direito à Democracia que, às vezes, silenciamos, que calamos nossa voz, mas insistimos...

pelo direito à Democracia que nossos pensamentos nunca se calam, antes bradam, esbravejam e, por isso, insistimos...

pelo direito à Democracia que jamais iremos nos prostrar diante de situações adversas que desonram o direito de todos. Assim, insistimos...

Sim, insistimos porque se faz necessário nestes tempos escuros, de homens partidos, como já dizia Drummond. Insistimos porque os direitos de todos estão sendo subtraídos por aqueles que falsamente nos representam e, dessa forma, nos desonram. Insistimos, pois é necessário agir.

Enfim, insistamos!

Nosso manifesto não cansa de falar em Democracia, palavra que vem do grego, que está sendo usurpada por um bando de patifes que deveriam estar sendo expelidos pela cloaca neste momento, aquela mesma cloaca que já ganhou contornos literários nos versos concretistas de Décio Pignatari. Nossa literatura neste momento é de luta, é de não aceitar o que está sendo imposto por um grupo de falsos moralistas, que querem o poder apenas para manipular os mais pobres, os quais conseguiram ascender um pouco com o governo que afastaram temporariamente com um golpe.

Não há dúvidas que nós, trabalhadores e trabalhadoras de camadas sociais menos favorecidas, estamos enfrentando um duro soco na democracia, pois são inúmeros os retrocessos já sinalizados por esse governo ilegítimo. Retrocessos que nem precisamos citar, porque o grito dos menos favorecidos socialmente já podem ser ouvidos nas ruas de todo o país.

“Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte!”

Como são fortes essas palavras do Hino Nacional brasileiro! Quantas conquistas alcançamos ao longo dos séculos, em diversos âmbitos, principalmente no politico. O direito de votar aos 16 anos, a liberdade de expressão que perpassa por qualquer assunto nos oportuniza a continuar lutando por melhores condições de vida. E agora, estamos prestes a perder! Jamais! Lutemos, bucaneiros!

Como ficamos esperançosos com um passado recente, vagas em Universidades Públicas ampliadas, direitos garantidos as empregadas domésticas e o acesso ao Profletras, esse por si só não deveria dar direito a ninguém que ingressou no programa e ser contra a nossa presidenta... e tantas outras conquistas! Vamos perder? Não! Lutemos, bucaneiros!

O impeachment é uma ferramenta jurídica e é regulado pelo Art. 85 da Constituição brasileira de 1988 e seu uso é restrito a casos que envolvem ofensas sérias (crimes de responsabilidade) feitas pelo presidente. Como as irregularidades contábeis na administração de fundos da dívida pública das que Dilma Roussef é acusada não se tratam de uma ofensa séria no senso prescrito pela Constituição, fica evidente que este processo de impedimento não é legítimo.

Então, não é exagero considerar esse processo de impeachment contra a presidenta um golpe branco que vai trazer consequências negativas e duradouras para a regra democrática brasileira. Nós consideramos necessário declarar nosso repúdio absoluto à destituição ilegítima da presidenta Dilma Vana Roussef em face de tudo que aconteceu, e, nosso apoio forte para a manutenção da democracia brasileira.

Trouxemos essa parte mais técnica no parágrafo anterior para aqueles que almejam algo mais jurídico, por isso nosso manifesto é completo, ele transita pelo técnico e pelo literário, e principalmente pela DEMOCRACIA!

Veio a nossa mente que o manifesto não é uma arma, e sim um instrumento que faz da palavra uma bandeira, um ideal, assim como o Futurismo iniciou sua caminhada com o “ Manifesto Futurista!, assim como o Comunismo conquistou seu espaço com o “Manifesto Comunista”, nós do Profletras 2014 não estamos iniciando nada, mas estamos fechando um ciclo levantando uma bandeira através de palavras a favor do democrático, mais uma vez sentimos no direito de evidenciar a literatura, nesse aspecto lembramos um poema que complementa nossa discussão: “Agosto 1964”, de Ferreira Gullar.

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo num ônibus Estrada de Ferro - Leblon.
Viajo do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógios de lilazes, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito
policial-militar.
Digo adeus à ilusão
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construímos
um artefato, um poema,
uma bandeira.

Essa é a bandeira do nosso manifesto!

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Um país de depoimentos ininterruptos. O drama é forte. Depoimentos quase sempre risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontramos figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais, senadores e parte inteiriça da corja. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos e depostos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Somos contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso. No Rio de Janeiro e São Paulo, o carnaval pela democracia. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil? Mas o Brasil não é só o sudeste conservador! Pão e circo e o povo indo atrás.

Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”? Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo. Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torcemos nós para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. Torcer. Torcer muito.

Sigamos, bucaneiros!

E, FOOOOOOORAAAAAAA TEMER!!!!!!!!!

(Todos assinam!)
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* Imagem: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2016/05/geral/501545-parada-gay-em-sao-paulo-vira-ato-de-fora-temer-e-volta-dilma.html
** Turma 2014.2 - UPE/Campus Garanhuns.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Verdades vazias, cegueiras e mortes: as conflagrações retalhadas em Mosaico de Rancores, de Márcia Barbieri

*
Por Germano Xavier


“Tento mergulhar, os olhos me impedem”.
(Malu, em Mosaico de Rancores)

A literatura é uma espécie de ferida, cuja dor é sentida na pele pelo sujeito-leitor, um dos principais elementos de ativação dos sentidos das palavras. Chagas invadem os olhos de quem ousa ler as páginas de um bom livro. É assim, simplesmente. Do bem e do mal, para aquém ou para além, uma força nada qualquer. Para sempre, nódoas ficarão. Na alma, nos olhos. Literatura. Arrebol de sangue e pulso. Víveres. E a literatura de Márcia Barbieri, mais especificamente em seu MOSAICO DE RANCORES (Terracota, 2013), é mais uma boa demonstração viva do que venho a tratar aqui nestas minhas impressões. A obra é um bruto recorte metafórico em prosa acerca de sentimentos bastante humanos, obtido prioritariamente a partir das visões da personagem Malu que, cega de ciúmes por Lúcio, altera toda uma órbita existencial em prol de um alucinante arremate de ódio e amor ao convívio interpessoal.

“Ultimamente é para isso que me servem as palavras, para estancar meu sangue pisado”, fraseia Malu em uma das passagens do livro, personagem que na obra em si funciona como um narrador não confiável, termo cunhado em meados do século XX pelo crítico literário estadunidense Wayne C. Booth para designar a presença de um narrador - no caso de Mosaico de Rancores, uma personagem-narradora - sem credibilidade ou com sua legitimidade argumentativa comprometida. Como manda o figurino para tal efetivação de recurso, o elemento literário que narra apresenta-se em primeira pessoa. Ao contrário do que possa parecer, não há uma maior aproximação do leitor perante a obra por conta disso, mas sim um brando afastamento. Este tipo de narrador torna tudo questionável. A verdade torna-se uma calamidade, quase uma imposição. Chega-se ao ponto de não acreditar em nenhuma das personagens que transpassam o livro. E tudo se mostra inquieto.

Pelo fato de toda a realidade exposta na obra de Barbieri caber-se isolada em vários pontos e entender-se distorcida em essência e até propositalmente, à semelhança do que acontece em Dom Casmurro, de Machado de Assis e, também, em Lolita, de Vladimir Nabokov, o leitor, pois, vê-se automaticamente inserido num vasto e vago e largo mistério em minúcias. E mistérios não são fáceis de desvendar. Com uma prosa muito poética, que é, antes de tudo, uma extensão de diálogo com o que há de mais primitivo no ser humano, Barbieri supera a mera escrita formal para expor o que quase sempre fica retido nas campânulas do Homem. E que, por tanto escondermos, dores, angústias, máculas, infernos, enxergamos romper daí várias formas de cegueira, até aquela que insistimos em não querer ver, como em moldes de ditado popular, a dizer de um rio a brotar “incoerente nas veias de um cardíaco”. Um mosaico de situações que corroboram alusões à menipeia, já que há no livro um jogo que enovela o cômico e o trágico, o livre linguajar e o conceito filosófico, o sagrado e o universal, misturados à loucura, à impressão da morte e ao sonho. Prosimetrum em monólogos: diálogos internos com a própria imagem. Narciso bem presente.

“O amor é assim, arrumação de camas, ruas sem saída, novelos de uma Ariadne perdida no labirinto”. A primeira parte do livro MOSAICO DE RANORES, intitulada de OLHOS DE CÃO, é uma espécie de introdução ao desconhecido – ou aos desconhecidos da alma da personagem Malu, aparentemente uma mulher sem controle sobre seus próprios sentimentos e sentidos. Uma mulher cujo alfabeto é lido e pronunciado através do olhar e da visão. “Tenho centenas de olhos cobrindo meu corpo e nenhum deles é capaz de prever a verdade”, expira Malu. Uma mulher que, aparentemente, espelha seus parcos momentos de felicidade e gozo na figura de Lúcio, seu par, fotógrafo e amante dos jardins de delícias da vida. Malu é Sísifo, condenada ao absurdo de viver a tarefa sem sentido da vida. A pedra parece sempre rolar sobre seus ombros. A pedra Lúcio? Lúcio não é também a própria Malu? Para Malu, “o desconhecido é uma puta oferecida” e ela crê “apenas na condição do poço”.

Tal qual Tirésias, em vaticínio edipiano, Malu parece somente encontrar a felicidade nos instantes em que não enxerga absolutamente nada. Então, abrir os olhos já significaria sofrer. Correndo “em disparada em direção ao descaminho”, a jovem Malu amargura-se ao ser presenteada por Deus não com um, mas com dois buracos negros em si. É o que ela pensa. Castigo? Por qual motivo? Querer a presença de Lúcio seria a razão legal de tanto sofrimento? Mas sentir que agora os “desejos rastejam feito cobras mansas, sem veneno”, não seria aporte para as suas mais recentes e apoteóticas condutas? Quem pode falar por Malu a não ser ela mesma? Quem é Lúcio aos olhos cegos de Malu? Por estar só, ou aparentar estar assim, Malu sente a morte, que “não sente o cheiro das flores nem vê a empáfia dos urubus”. A morte é um ser dissonante e “mil órbitas me observam”, pensa. “A morte avança em progressão geométrica”. Malu está cercada. Por quem?

Caronte e sua barca, o morto e sua moeda na boca, Cérbero, Estige, o estranho da foice, todos presentes. Malu parece narrar, ao longo de toda a primeira parte de Mosaico de Rancores, o ritual de sua própria morte, mesmo quando vida. “A morte dói, mas a vida são agulhas torturando as pontas dos dedos”, retruca. E nisso tudo, o leitor a ver navios fica, também perseguido pela suposta loucura de Malu. Tudo cinde. Malu é Mnemósine, mas não quer ser memória, não deseja tê-la. Memória é pavor, agrura, memória é morte, é dor. Malu, para quem até os fantasmas são providos de carne e para quem a dor é inerente à carne... A carne que é mais símbolo de morte do que de vida, propriamente. E para quem Lúcio é muitas vezes a encarnação viva da morte, da sua morte. Diária ou eventual, mas a sua morte em particular. O leitor também se encarna. E vive a sandice metafórica da jovem. De novo, a dualidade vida X morte. A vida parece ser menor, pois “a morte é mais excitante, são cavalos vermelhos e selvagens”. A morte, assim como a vida, escondida por debaixo de panos coloridos. Enfim, Malu cria Nepente, a bebida do esquecer. Consegue?

MOSAICO DE RANCORES é mais que simplesmente um título que versa sobre o ciúme, tão bruscamente retratado por Malu, que vocifera aos brados que “a dor dos ciúmes que eu esmago todas as noites entre meus dedos” é a sua diária oração, “uma queda brusca de estrelas”. Ao mesmo tempo em que se mostra indiferente ao mundo que a cerca, Malu representa a desobediência, o desordenamento. A desobediência de quem é deveras coerente com aquilo que pensa, apesar de tudo. “Tudo está enquadrado em uma foto que não posso ver”. E lembrar se torna insuportável. Mas o que faz com que Malu se sinta tão cega, a ponto de enxergar que seus fantasmas são assim, tão palpáveis, concretos e reais? Estar cego é ver demais? O que explica tão avessa disparidade?

“Olhos parados, sem expressão, olhos de pouco ver”. Seria Lúcio a des-visão de Malu, o ver-pouco e/ou o excesso? Lúcio, “o fotógrafo de mil poses”, é um sujeito até certo ponto maltratado pela mente “diabólica” de Malu, que despeja todos os seus ranços na provável conduta promíscua de seu parceiro. Lúcio é um alguém sem sangue se comparado a Malu, corpo distante e alma de incertezas. Na primeira parte do livro, Lúcio é também boa parcela da memória de Malu, cuja vida se dá numa explosão de inquéritos. Um elemento que não está sempre presente, que some, que volta, que é impermanente e que quando volta é pego pelos braços-aranha de Malu. “Lúcio pensa que sou idiota, que não percebo suas estratégias de fuga. Poderia voltar correndo, entrar naquele estúdio e picar todas aquelas fotos indecentes”, verbaliza Malu. “O que posso fazer? Me fingir de idiota como a maioria? Fingir que sou cega?”, complementa num capítulo adiante. Lúcio parece sempre estar fugindo, apesar de sempre estar por perto. “Eu tinha certeza do seu sumiço e agora ele aparece dono de mim e eu procuro os pedaços que me roubaram”. Malu convive com as fugas de Lúcio, no sempre, pois “há vários labirintos entre o Gênesis e o Apocalipse”. Malu não aceita. Malu não aceita?

“E cada pedaço de mim cavalga em tigres selvagens”. E a cada regresso de Lúcio, uma pausa. Uma Malu que também retorna. Malu o ama, não há dúvidas. Não. Há dúvidas! Dubito, ergo cogito, ergo sum. “Amá-lo é mergulhar com os bolsos cheios de pedras num rio verde e calmo, onde descansam libélulas e fantasmas de Virginia Woolf”. Por tudo o que lhe acomete, Malu diz cometer vários suicídios todos os dias. Seu corpo está enferrujado, não consegue mais “mastigar com ternura a singularidade das coisas”. O tempo a massacra. O ciúme, em determinado ponto, parece-lhe inútil. A tristeza, até ela!, parece se ausentar. Joga-se ao alcance de todos e não há quem a agarre. Uma queda eterna. Malu cai diante de si mesma, várias, incontáveis vezes, em luta incessante contra o amor, entidade que “traz restos de outras carnes, gosto de outras almas, salivas espessas de outras bocas, cascos galopantes de outras mãos”. Por isso, traiçoeiro. Malu é também o retrato de quem ama.

“A cegueira me fez forte, me fez perversa. Tateio os seios da multidão. Retiro as vísceras do dia, nada sobra”. O amor de Lúcio a machuca. Malu é somente abismos. Olhos sempre abertos. Olhos de peixe. Luiz surge. Uma pequena redenção. Malu-Capitu? Quem trai quem? Big Bang. Malu se perde? Quem se perde? Há humanidade no amor, e na paixão? Um estrangeiro no leito. Vingança? Malu arrefece? Malu incendeia? Malu duvida. Malu testa a si mesma. Malu sofre com a conclusão de René Descartes. Cogito, cogito, cogito... Quem é Malu, afinal? A que ama Lúcio, a que não ama ninguém? A que ama a todos? Malu finge. Malu pode ser o disfarce perfeito. Trafica-se. Traficante de amor. Uma luta contra Deus. Renasce. “Erva daninha”. Malu é a imagem do pai. Seio de mais-morte. Um ponto de interrogação. Aliás, “tudo que pulsa presume a dor da existência”. Quando Malu gesta sua morte?

“Malu precisa aprender a lidar com a realidade, está tão acostumada a manipular seus fantasmas que se esqueceu da consistência porosa da carne humana. Das dentadas que deixam marcas sobre a pele. Dos tombos, dos joelhos ralados, dos tapas no meio da cara. Dessa loucura cotidiana que arromba nosso esfíncter”. Na segunda parte do livro, intitulada de CLAREIRAS, Lúcio provoca: “Malu nunca será feliz. Precisamos ser medianos pra conseguir a felicidade e ela tem dificuldade em simplificar as coisas. Épica. Começa as narrativas pelo fim, percorre as entrelinhas e se perde. Nunca sabemos o início de suas histórias”. Lúcio é a morte. Malu é a vida, contorcida, imprevisível. Não se pode domar a vida, este mosaico. De rancores.


*

Cinco perguntas sobre o MOSAICO DE RANCORES:

Germano Xavier - Em seu livro Mosaico de Rancores, os passos da narrativa são marcados de dois modos diferentes, ora como uma construção de metáforas nada brandas sobre a vida ora como a voz irascível e tempestuosa das personagens Malu e Lúcio sobre a inaptidão perante a possibilidade do convívio. De que modo a cegueira dos dois, em seus tons passionais e demasiado humanos, ultrapassa o enredo e desemboca no leitor como sendo uma ferida de todos?

Márcia Barbieri - De certo modo, a narrativa foi escrita pensando na inaptidão dos homens viverem em comunhão, da monstruosidade dos relacionamentos... é extremamente difícil conviver com alguém, cada indivíduo é uma singularidade, um cosmos. Além disso, o outro me parece um espelho mórbido, sempre reflete nossos piores defeitos.

GX - A impressão é a de que todos os personagens no livro são cegos, por motivos díspares e semelhantes ao mesmo tempo. O amor é grosseiro, o ciúme é delator, o sexo é artifício, a dor é mansidão. Ao final, é a morte quem amamenta a vida ou é o contrário?

MB – Imagino que seja a morte que amamenta a vida porque sempre nos pautamos e contabilizamos a vida a partir da ideia que temos da morte.

GX - Curiosidade vaga. Como surgiu a ideia do livro? E como se deu o seu processo de escrita?

MB – Não posso negar que a ideia inicial se deu pela minha própria inadequação em relação aos relacionamentos amorosos, assim como minha inaptidão para entender o sentimento de posse. O livro foi escrito de forma bem lenta, porque eu estava mais acostumada às narrativas curtas, quase desisti de terminá-lo, depois de um tempo voltei a ele e finalizei.

GX - “Tudo que pulsa presume a dor da existência”, frase presente no “rancor” número 92 do livro. Dizem que toda experiência humana fornece subsídios literários, Barbieri. Você concorda? O inverso é também verdadeiro?

MB – Concordo plenamente, a vida serve de subsídio para a arte, assim como a arte serve de inspiração à vida.

GX - Referências inúmeras a poetas, escritores, pintores, cineastas e artistas em geral estão expostas nas páginas de Mosaico de Rancores. Parece-me que tal recurso ajuda a engrossar o caldo de contemporaneidade da obra em questão, Márcia. Isso se justifica? Qual a sua visão sobre este ponto?

MB – Não acredito em ideia genuína, somos o tempo inteiro influenciados por outros artistas, tanto clássicos quanto contemporâneos. No “Mosaico de Rancores” queria mostrar com quais artistas dialogava.

GX - Muito além de Malu, Lúcio e Luiz, Elenir e o pai de Malu muito me intrigaram. Qual a importância destes personagens para o todo do Mosaico?

MB – Elenir é um papel bem secundário, Luiz era importante para mostrar as fraquezas do relacionamento de Malu e Lúcio, e o pai de Malu era importante para evidenciar o quanto nos equivocamos ao longo do tempo... Temos olhos viciados.


* Imagens: http://4.bp.blogspot.com/-DvK-Ye9x7NA/UsVT-jcTSWI/AAAAAAAByWg/104YJbHtnxk/s1600/mosaicocapa.jpg 
e acervo pessoal da autora.

Havia passado

*

Por Germano Xavier


# o futuro que ficou


como se eu fosse apenas uma geleira,
condenado a dissipar-me num oceano desconhecido
e a nunca mais encontrar seus pedaços,
sinto-me derretendo sob o calor da tua ausência.

mas não importa que figura bizarra
ou extravagante eu use
para dizer
o quanto estou doendo tua falta,
tu ouvirás apenas um grunhido indecifrável,
cacofonia e espasmos.

pelas ruas dos teus olhos,
passeio minha solidão de ti.

mas enxergas somente as roupas, as coisas
que carrego nas mãos e as calçadas
que seguram o meu tombo.
você não viu,
mas havia um rosto atrás das lágrimas.

e havia carne embaixo das palavras úmidas.
você não pode ver,
mas havia cacto sob a pele de se expor
e havia passado
no futuro que ficou.



# o passado que nos resta


Hoje ela acordou antes do despertador, programado para as seis horas da manhã de todos os dias, exceto finais de semana. Acordou preguiçosamente, como sempre fazia. Gostava de ficar na cama curtindo os dez minutos de preguiça sagrada dos que costumam acordar sozinhos. Ainda de olhos fechados ouviu passos e imediatamente foi invadida por todas as emoções da noite anterior. Era ele, pensou. Ouviu seus passos, sentiu sua presença indiscutível, até o seu cheiro estava no ar. Ficou ouvindo ele se afastar da cama lentamente, fechando a porta quase sem barulho algum. Mas ela sabia. Ele estava lá. Com um riso de puro contentamento desenhado no rosto, continuou de olhos fechados. Não queria perder aquele instante pleno de poesia.

Ele havia chegado cedo na noite anterior. Sem aviso prévio. O que a surpreendeu absurdamente, pois ele não é de fazer surpresas. Nunca. Aliás, ele é o planejamento em forma de pessoa. Sistemático, organizado e muito, muito mesmo, perfeccionista - mas às vezes, ela sabe, às vezes, ele é apenas vontade e amor. Mas ele veio. E esteve presente. Tão envolvido naquele inesperado encontro como raríssimas vezes tinha acontecido. Naquelas poucas horas houve amor. Houve poesia e verdade para nunca mais serem esquecidos. Sim, ele veio e esteve. Houve amor como só ele sabe. Ele constrói amor com os dedos, com os olhos, com palavras, com silêncio. Até com a sua ausência ele constrói amor. Ele faz amor como quem brinca. Como quem sonha. Como quem morre. Quando ele está não há passado, nem futuro, nem lembranças além de seu rosto. Quando ele está a vida é absorvida por seus olhos, sequestrada da Terra e levada para o seu mundo de ser amor. Tudo começa num olhar e termina além dos limites do universo. Ele é um círculo de fogo. Ela sabia. Sim. Ela sabia muito bem. Precisava levantar. Era dia de trabalho. Disso ela também sabia. Sem se perder dele, virou o rosto e abriu os olhos. Viu o livro. Não lembrava o que estivera lendo na noite anterior. Abriu o livro sem olhar o título e leu na primeira página, não com surpresa, mas com efusiva felicidade: "- Fizemos amor ontem".


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/the-last-door-621588998

segunda-feira, 11 de julho de 2016

É o teu seio o mar que vejo

*

Por Germano Xavier


afogados
os rumores de espera
são teus lábios assim
teóricos afrontamentos
ou raios repartidos
um ventre navegado
eu marujo sou

teus impérios
em tuas ilhargas

meus remos mercantis
sem patéticas promessas
o teu lastro

teu lastro


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Porto-VIII-101306483

domingo, 10 de julho de 2016

O homem dos altos silêncios

*

Por Germano Xavier


Na foto ele não parecia feliz. A felicidade é mesmo um grande enigma. A felicidade, talvez, seja coisa para poucos. E ele era muitos. Mas, pensando bem, não lembro de nenhuma imagem dele onde ele parecia realmente feliz. Ele não era feliz, definitivamente. Nem era triste. Era poeta, como escreveu a poeta. Sim, era poeta. Poeta não é feliz nem triste. Poeta é. Nas outras ele era apenas ele, nas outras fotos. Um mundo fervilhante contido. Um caldeirão. Um rio inteiro. Uma cachoeira. Imagem bonita é a de uma cachoeira. Mal contido, vale ressaltar. Ele. Ele na foto. Naquela foto. Naquela imagem. A imagem não é o real. A imagem é. Mas nesta foto, a que ele me mandou apenas para me fazer parar de pedir, ele está menos contido... vejo um riso interno. Ele está vivo. Não está morto como antes. O poeta está vivo. Ressuscitou. Ou em processo de. Talvez por ter descoberto que conter-se não vai fazê-lo ferir menos o mundo nem a si e muito menos desagradar em menor intensidade a quem desagrada. O poeta revive. O poeta sorri. O homem dentro do poeta está de novo no mundo. Nesta foto, ele parece estar mais presente, mais consciente de si, de mim, de tudo. Ele sabe que existo. Ele sabe que o amamento. Sabe que nem a distância é possível para. Nada o aniquila. Nem o tempo. Tempo, com T maiúsculo. Ele está dizendo com os olhos, com a pele, com a seriedade doida que sempre carrega na face, que não está mais jogando. Ele perdeu o jogo. Ele soube perder, principalmente. Ele sabe que perder é vencer, também. Hoje, seu jogo é outro. Cauteloso. Está apenas vivendo... Subvertendo as mortes diárias. Recriando diálogos com a morte. Conversando com a vida. Olhando a sua foto, ainda percebo que ele continua bonito, lindo como sempre. Mas o aspecto geral é frio, incisivo, quase hostil (talvez pela circunstância em que tirou a foto). Ele mudou. Ele mudou. Ele transmudou. Ele camuflou. Ele mudou, mas não muito. Pouco. Gostei especialmente de alguns fios de seus cabelos ficando brancos... São só alguns fios esparsos no alto de sua jovem cabeça. Sua cabeça de coisas. Cabeça-volante. Ainda falta muito para ficar um lindo e respeitável senhor dos anos. Mas ainda assim é lindo de ver. Sinal de muitos dias... Sinal de seus dias. Dias absurdos. Dias de melindres. A barba ainda o acompanha, ainda, como se fosse testemunha de seus atos. Os olhos verdes sempre verdes para quem os vê. Os olhos verdes que mudam com o sol. Com a luz. O bigode de carinho, as sobrancelhas boas de delinear com os dedos, lábios generosos em carne de beijar, recentes olheiras por muito estudo e preocupações. E tudo o mais aquilo que só ele sabe... E tudo o mais aquilo. Os óculos completam o look de intelectual que ainda vive no mundo real, pero no mucho. Ele não é daqui. Ele é. Daqui, de perto. De muito perto. De bastante. Elegantemente rústico. Delicadamente forte. Ele. Você. Eu. O homem dos altos silêncios.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lonely-596375212

O Equador das Coisas no I Encontro Baiano de Mídia Livre

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Por Germano Xavier


E ao completar 9 anos de existência na internet, descubro que o meu blog, O EQUADOR DAS COISAS, que se transformaria também, em 2012, num jornal de literatura impresso (amor demais à Carol Piva, Karime Limon, Iara Fernandes e toda a turma que veio depois), foi selecionado pela Rede de Mídia Livre Bahia 1798, "que busca mapear e compartilhar conteúdos que fortalecem a liberdade de expressão, para participar do Primeiro Encontro Baiano de Mídia Livre, nos dias 10 a 13 de agosto. O evento, que acontecerá na Biblioteca Central dos Barris (Salvador-BA) e tem o apoio da Fundação Pedro Calmon, é uma iniciativa da rede de mídia livre Bahia 1798. O objetivo é promover um intercâmbio entre midialivristas, comunicadores populares ou comunitários, estudantes, fotógrafos, produtores audiovisuais, pesquisadores e produtores culturais do estado da Bahia, com agentes da mídia independente já consolidados em outros estados do país. A programação inclui ações de formação em quatro painéis e dez oficinas, com convidados de todas as regiões brasileiras. A inscrição é gratuita, disponível no site www.bahia1798.org". Represento o Território de Identidade da Chapada Diamantina, na categorização Produção Cultural: Literatura. Uma boniteza de dar gosto bom na alma e um presentaço de aniversário a este espaço que construo com todas as minhas forças, ao lado de meus leitores. Um salve, Pedro Caribé! Sigamos, bucaneiros!







* Imagens: www.bahia1798.org

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O absurdo de você ainda

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Por Germano Xavier


sei que há uma poesia em você para mim,
uma poesia germinal,
um rascunho trôpego, faminto, suplicante,
mas dotado de vitalidade imanente
e de uma resistência pacífica.

não é tempestade
nem fogo,
nem sol
nem grito,
é orvalho e penumbra, 
é grunhido e sussurro,
vento sereno e cinzas
em ressurreição.

sei que há uma poesia doce e simples
feita de gestos raros e palavras poucas,
modesta e ainda preciosa por apenas ser
marginal (conquistada em guerrilha),
clandestina e furtada sem culpa da tirana vida bestial,
bela por não precisar ser.
por ser, por ser nossa, por ser única.
poesia com cara de pôr-do-sol sem sol.
apenas a certeza de sol encoberto em nuvens incertas.
poesia opaca, nua, carne, cerne.
substância incolor por ser pura,
vislumbre de nossos dias de além -Terra.
uma pequena e silenciosa revolução
atravessando os anos.

quadro de nossa existência paralela
no absurdo de você ainda.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-617598682

domingo, 3 de julho de 2016

Um grito quando o carro passa

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Por Germano Xavier


"Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. 
Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. 
Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair."
(Clarice Lispector, em Água Viva)


estou tentando encontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser feito de bifurcações. bifurcações nos levam, nos erram. acertar é difícil. o erro é latente. já vivi grandes crises assim antes. crises nos potenciam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas se tornam mais poderosas, tanto no nível de sofrimento quanto no nível de transformação. transformar-se é um caminho. longo. real. imaginário. qualquer observação mais aprofundada não valeria a pena se não provocasse tormentas antes da calmaria. hoje sou o mar. o mar me leva. suas águas imensas. não estou na cidade. estou no porto das minhas ilusões. um grito quando o carro passa abrindo a manhã. tarde e noite. alvorada voraz. minhas mãos fechadas. meus olhos densos. penso que estou melhor do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato estagnado. agora talvez eu esteja on the road. eu devia estar feliz. não apenas porque tomei atitudes perante minha vida, em prol de minha felicidade, mas porque estou me pondo em movimento. penso cada vez mais na importância do movimento. o movimento é o caminho. nem sempre ele é de ascensão. porém, às vezes, é preciso descer ao fundo do poço para encontrar a mola propulsora que nos ajudará a subir. obrigado, esperança, por não me abandonar na minha dura tarefa de existir e ser quem sou. obrigado, dor, por não me facilitar o empreendimento dos meus passos, fazendo-me autor de esforços constantes. obrigado, vida, por me abrir suas portas da percepção, mesmo nas escuridões avulsas. obrigado, angústia, por me fazer revelações diárias. obrigado, amor, por ser. obrigado, poesia, pela palavra interna e inteira. estou tentando desencontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser composto de retas, intermináveis. paralelas nos içam, nos direcionam. errar é fácil. o acerto é distante. viver grandes crises é preciso. crises nos delimitam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas nos tornam mais fracos e fortes. afundar-se é um caminho. curto. ficcional. sanguíneo. psíquico. qualquer observação menos sutil não valeria a pena se não provocasse paz antes da ebulição. hoje sou o céu. o azul me recorta. suas nuvens macias. não estou na zona portuária de mim. estou no monte das minhas verdades. um grito quando o carro passa fechando a madrugada. tarde e noite e dia e tarde e noite e dia. alvorada morta. minhas mãos abertas, meus punhos cerrados. meus olhos densos emergem um verde rural de minha ancestralidade provinciana. penso que estou pior do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato em movimento. para onde eu ia? agora talvez eu esteja fora da estrada. eu devia estar triste. eu devia não estar. eu devia parar de pensar em estar. penso cada vez mais na importância do nada, do sossego. a inércia é o caminho. nem sempre ele é o das perdas. podemos vencer a qualquer instante. a guerra é contínua. porém, às vezes, é preciso subir ao topo da pirâmide invisível para de lá deixar rolar vertigem abaixo a roda mortal que inventamos cotidianamente.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-rain-10524459